Pular para o texto
FaustoQuadro XX
QuadroXX

Interior de um templo, com eça armada, entre tocheiros acesos. Altar mor do lado direito,

64 versos


Cena ÚNICA

MARGARIDA, de luto, ajoelhada, com o seu livro na mão. Por trás dela, em pé, o ANJO MAU. MULHERES e BURGUESES, de joelhos.

ANJO MAU

  1. Inda te lembra, Margarida,
  2. quando tão outra, e fronte erguida,
  3. vinhas aos pés daquele altar
  4. as santas rezas soletrar
  5. do teu livrinho, já tão gasto,
  6. dando à tua alma o doce pasto
  7. do amor de Deus e do folgar?
  8. Hoje só negros pensamentos.
  9. Hoje só dor no coração.
  10. Mataste a mãe, que arde em tormentos
  11. vens sufragar-lhe absolvição?
  12. Quem derramou à tua porta
  13. um mar de sangue? o teu irmão.
  14. De sua voz, já quase morta,
  15. que herança houveste? a maldição.
  16. Não sentes já nessas entranhas
  17. ânsias insólitas, estranhas,
  18. presságio atroz de um novo ser?
  19. visão que em sonhos te aparece,
  20. e que, inda a luz não lhe amanhece,
  21. já principia a padecer?

MARGARIDA

  1. Deus meu, Deus meu, que já não posso
  2. com esta guerra interior.
  3. Pelo infinito afecto vosso
  4. valei-me, ó Deus, em tanta dor!

CORO

  1. Dies iræ, dies illa,
  2. Solvet sæculum in favilla,

( Toca o órgão. )

ANJO MAU

  1. Tremem-te os membros gélidos.
  2. Fatal momento!
  3. Troa a trombeta lúgubre
  4. do chamamento.
  5. De cada aluído túmulo
  6. surde um fantasma.
  7. Julgavas leito a lápida.
  8. Agora pasma,
  9. que a vês alçapão lôbrego
  10. do fogo ardente,
  11. que ressuscita os réprobos
  12. eternamente.

MARGARIDA

  1. Quem já me dera daqui fora
  2. Que órgão, meu Deus! Falta-me o ar.
  3. Como é feliz a dor que chora!
  4. Não poder eu sequer chorar!...

CORO

  1. Judex ergo cum sedebit,
  2. quidquid latet apparebit,
  3. nil inultum remanebit.

MARGARIDA

  1. Ai que opressão! que negra abóbada!
  2. Quem me prendeu neste lugar?
  3. Quero-me erguer, não posso. Acudam-me!
  4. Ar! ar! ar! ar!

ANJO MAU

  1. Fugir! Sumires-te! Não, mísera!
  2. O teu opróbrio, o teu pecado
  3. já não se esconde. A lei do Altíssimo
  4. o há decretado.

CORO

  1. Quid sum miser tunc dicturus?
  2. Quem patronum rogaturus,
  3. Cum vix justus sit securus ?

ANJO MAU

  1. Santo nenhum já te olha, ó réproba.
  2. Cada fiel, em tu saindo,
  3. para evitar o torpe escândalo
  4. te irá fugindo.

CORO

  1. Quid sum miser tunc dicturus ?

ANJO MAU

  1. Vai teu caminho!

MARGARIDA (voltando-se para uma mulher ao pé)

  1. Ai! por piedade! o seu vidrinho...!

( Cai desmaiada )

Próximo quadroXXINoite de Santa Valburga . Montanhas de Harz. Região de Schirke e Elend