Interior de um templo, com eça armada, entre tocheiros acesos. Altar mor do lado direito,
64 versos
Cena ÚNICA
MARGARIDA, de luto, ajoelhada, com o seu livro na mão. Por trás dela, em pé, o ANJO MAU. MULHERES e BURGUESES, de joelhos.
ANJO MAU
- Inda te lembra, Margarida,
- quando tão outra, e fronte erguida,
- vinhas aos pés daquele altar
- as santas rezas soletrar
- do teu livrinho, já tão gasto,
- dando à tua alma o doce pasto
- do amor de Deus e do folgar?
- Hoje só negros pensamentos.
- Hoje só dor no coração.
- Mataste a mãe, que arde em tormentos
- vens sufragar-lhe absolvição?
- Quem derramou à tua porta
- um mar de sangue? o teu irmão.
- De sua voz, já quase morta,
- que herança houveste? a maldição.
- Não sentes já nessas entranhas
- ânsias insólitas, estranhas,
- presságio atroz de um novo ser?
- visão que em sonhos te aparece,
- e que, inda a luz não lhe amanhece,
- já principia a padecer?
MARGARIDA
- Deus meu, Deus meu, que já não posso
- com esta guerra interior.
- Pelo infinito afecto vosso
- valei-me, ó Deus, em tanta dor!
CORO
- Dies iræ, dies illa,
- Solvet sæculum in favilla,
( Toca o órgão. )
ANJO MAU
- Tremem-te os membros gélidos.
- Fatal momento!
- Troa a trombeta lúgubre
- do chamamento.
- De cada aluído túmulo
- surde um fantasma.
- Julgavas leito a lápida.
- Agora pasma,
- que a vês alçapão lôbrego
- do fogo ardente,
- que ressuscita os réprobos
- eternamente.
MARGARIDA
- Quem já me dera daqui fora
- Que órgão, meu Deus! Falta-me o ar.
- Como é feliz a dor que chora!
- Não poder eu sequer chorar!...
CORO
- Judex ergo cum sedebit,
- quidquid latet apparebit,
- nil inultum remanebit.
MARGARIDA
- Ai que opressão! que negra abóbada!
- Quem me prendeu neste lugar?
- Quero-me erguer, não posso. Acudam-me!
- Ar! ar! ar! ar!
ANJO MAU
- Fugir! Sumires-te! Não, mísera!
- O teu opróbrio, o teu pecado
- já não se esconde. A lei do Altíssimo
- o há decretado.
CORO
- Quid sum miser tunc dicturus?
- Quem patronum rogaturus,
- Cum vix justus sit securus ?
ANJO MAU
- Santo nenhum já te olha, ó réproba.
- Cada fiel, em tu saindo,
- para evitar o torpe escândalo
- te irá fugindo.
CORO
- Quid sum miser tunc dicturus ?
ANJO MAU
- Vai teu caminho!
MARGARIDA (voltando-se para uma mulher ao pé)
- Ai! por piedade! o seu vidrinho...!
( Cai desmaiada )