Pular para o texto
FaustoQuadro XII
QuadroXII

Rua

65 versos


Cena ÚNICA

FAUSTO e MEFISTÓFELES

FAUSTO

  1. Que tens feito? Adianta-se o negócio?

MEFISTÓFELES

  1. Cáspite, que fervença! A rapariga
  2. dá-se a partido em breves audiências.
  3. Na própria desta noite hão-de avistar-se
  4. em casa da viúva, a mais de molde
  5. que nunca vi para um papel promíscuo
  6. de terceira e cigana.

FAUSTO

  1. Aprovo.

MEFISTÓFELES

  1. Em câmbio
  2. põe-nos um berbicacho.

FAUSTO

  1. É muito justo:
  2. uma mão lava a outra.

MEFISTÓFELES

  1. Havemos ambos
  2. de jurar ao juiz, em como a ossada
  3. do homem dela repoisa em terra benta,
  4. em Pádua.

FAUSTO

  1. É previdente a mulherzinha;
  2. mas então claro está que antes da coisa,
  3. temos de ir ver em Pádua a sepultura.

MEFISTÓFELES

  1. Santa simplicidade! O que é preciso,
  2. é jurar que se viu,

FAUSTO

  1. Se não me alvitras
  2. coisa melhor, gorado está o ajuste.

MEFISTÓFELES

  1. Beatíssimo varão! Gosto do escrúpulo.
  2. Pois nunca nunca, em toda a sua vida,
  3. deu testemunho falso?
  4. Que de vezes
  5. não haverá, com magistral entono,
  6. coração firme e intrépido semblante,
  7. declarado o que é Deus! aberto o arcano
  8. do mundo e das míriades dos entes
  9. que o povoam! do homem, co’o sem conto
  10. de afectos, de paixões, de pensamentos,
  11. que n’alma e coração lhe tumultuam!
  12. Meta, bem dentro, a mão na consciência,
  13. e diga-me se tinha dessas coisas.
  14. mais noção que da morte do Espadinha?

FAUSTO

  1. És, foste, e hás-de ser sempre um mentiroso,
  2. e um sofista de marca.

MEFISTÓFELES

  1. É isso: ápodos,
  2. porque antevejo o que o Doutor não pesca:
  3. que amanhã, por exemplo, o escrupuloso
  4. há-de enganar, jurando-lhe mil honras,
  5. e amores mil, a pobre Margarida.

FAUSTO

  1. E a-la-fé que não minto em protestar-lhos.

MEFISTÓFELES

  1. Bravíssimo! Portanto essas constâncias
  2. sem limite, esse afecto incontrastável,
  3. tudo isso que a tristinha há-de engolir-lhe...
  4. tudo lhe há-de brotar da consciência?

FAUSTO

  1. Há-de sim; não mo impugnes. O que eu sinto!
  2. este meu alvoroço! nem rastreio
  3. como lhe chame. Busco-lhe nas línguas
  4. de todo o mundo um nome, e não lho encontro.
  5. Excogito as hipérboles mais anchas,
  6. infindo, imenso, eterno, mais que eterno,
  7. e tudo é curto, e nada iguala ao fogo
  8. que arde aqui dentro... De infernal engano
  9. darás título a isto?

E pur si muove!

FAUSTO

  1. Basta de me esfalfares. Quem por força
  2. quer vencer, e tem língua que não cansa,
  3. fica sempre de cima. Estou já farto
  4. do teu bacharelar.
  5. Não disputemos:
  6. tens razão, tens.
  7. Não fora a dependência...!
Próximo quadroXIIIQuintal com árvores, pertencente à morada de Marta. Do lado direito a casa. Do esquerdo, v