Rua
65 versos
Cena ÚNICA
FAUSTO e MEFISTÓFELES
FAUSTO
- Que tens feito? Adianta-se o negócio?
MEFISTÓFELES
- Cáspite, que fervença! A rapariga
- dá-se a partido em breves audiências.
- Na própria desta noite hão-de avistar-se
- em casa da viúva, a mais de molde
- que nunca vi para um papel promíscuo
- de terceira e cigana.
FAUSTO
- Aprovo.
MEFISTÓFELES
- Em câmbio
- põe-nos um berbicacho.
FAUSTO
- É muito justo:
- uma mão lava a outra.
MEFISTÓFELES
- Havemos ambos
- de jurar ao juiz, em como a ossada
- do homem dela repoisa em terra benta,
- em Pádua.
FAUSTO
- É previdente a mulherzinha;
- mas então claro está que antes da coisa,
- temos de ir ver em Pádua a sepultura.
MEFISTÓFELES
- Santa simplicidade! O que é preciso,
- é jurar que se viu,
FAUSTO
- Se não me alvitras
- coisa melhor, gorado está o ajuste.
MEFISTÓFELES
- Beatíssimo varão! Gosto do escrúpulo.
- Pois nunca nunca, em toda a sua vida,
- deu testemunho falso?
- Que de vezes
- não haverá, com magistral entono,
- coração firme e intrépido semblante,
- declarado o que é Deus! aberto o arcano
- do mundo e das míriades dos entes
- que o povoam! do homem, co’o sem conto
- de afectos, de paixões, de pensamentos,
- que n’alma e coração lhe tumultuam!
- Meta, bem dentro, a mão na consciência,
- e diga-me se tinha dessas coisas.
- mais noção que da morte do Espadinha?
FAUSTO
- És, foste, e hás-de ser sempre um mentiroso,
- e um sofista de marca.
MEFISTÓFELES
- É isso: ápodos,
- porque antevejo o que o Doutor não pesca:
- que amanhã, por exemplo, o escrupuloso
- há-de enganar, jurando-lhe mil honras,
- e amores mil, a pobre Margarida.
FAUSTO
- E a-la-fé que não minto em protestar-lhos.
MEFISTÓFELES
- Bravíssimo! Portanto essas constâncias
- sem limite, esse afecto incontrastável,
- tudo isso que a tristinha há-de engolir-lhe...
- tudo lhe há-de brotar da consciência?
FAUSTO
- Há-de sim; não mo impugnes. O que eu sinto!
- este meu alvoroço! nem rastreio
- como lhe chame. Busco-lhe nas línguas
- de todo o mundo um nome, e não lho encontro.
- Excogito as hipérboles mais anchas,
- infindo, imenso, eterno, mais que eterno,
- e tudo é curto, e nada iguala ao fogo
- que arde aqui dentro... De infernal engano
- darás título a isto?
E pur si muove!
FAUSTO
- Basta de me esfalfares. Quem por força
- quer vencer, e tem língua que não cansa,
- fica sempre de cima. Estou já farto
- do teu bacharelar.
- Não disputemos:
- tens razão, tens.
- Não fora a dependência...!