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FaustoQuadro VI
QuadroVI

Taberna do Retiro d’Auerbach, em Leipsick. Porta, ao fundo, para a rua, entre duas janelas

409 versos


Cena I

Festança de rapaziada . RÃS, O BOTAFOGO, O PENEIRA, O QUINTEIRÃO, e outros

O RÃS

  1. Bom! Ninguém bebe, ninguém ri. Que lesmas!
  2. Pois é livrar de mim, que eu com mazombos
  3. não me sei entender. Façam-se agora
  4. palhiço podre, uns melcatrefes destes,
  5. que os não há de mais fogo!

O BOTAFOGO

  1. A culpa é tua
  2. meu Rãs, que não nos botas a espertar-nos
  3. alguma brejeirice, alguma asneira.

O RÃS (despejando-lhe um copo de vinho na cabeça)

  1. Vão as duas por junto.

O BOTAFOGO (levantando-se para arredar-se, e sacudindo da cabeça o vinho)

  1. Arreda, porco!

O RÃS

  1. Serei, se à fina força assim o querem.

O PENEIRA

  1. Quem desconfia, rua! Andem, rapazes.
  2. Beber como animais; dançar à doida;
  3. e esvaziar o bofe em cantarolas,
  4. Leva acima!

O QUINTEIRÃO

  1. Ui! que berro! Quem me acode
  2. com algodão, que arrolhe estes ouvidos?
  3. Goelas do diabo!

O PENEIRA

  1. A voz de um baixo
  2. deve estrugir a abóbada.

O RÃS

  1. Está visto.
  2. Paliou bem. Quem não gosta de chalaças
  3. pode-se pôr a andar. Larilarára ( cantando ).

O QUINTEIRÃO (cantando)

  1. Larilarára.

O RÃS

  1. Bravo! Afinadinho!
  1. (Canta em tom de chasco)
  1. Meu santo Império romano,
  2. inda te vejo de pé!...

O BOTAFOGO (interrompendo)

  1. Barro cantar políticas. T’arr’nego!
  2. Forte sensaborão! Dêem vocês graças
  3. cada manhã, que, ao levantar da cama,
  4. lhes não dê que pensar o santo Império.
  5. Ser Rei e Imperador, não chega a isto
  6. de ser um jan-ninguém; mas como é de uso
  7. haver um maioral que nos governe,
  8. toca a eleger um Papa. Todos sabem
  9. que para onde acode o maior peso
  10. é que verga a balança; e em consequência,
  11. o homem que tem mais peso é que mais vale.

O RÃS (cantando)

  1. Voa, voa, Filomela!
  2. Vai levar dez mil bons dias
  3. ao meu anjo, à minha bela;
  4. e, poisada ante a janela,
  5. acordá-la entre harmonias!

O PENEIRA

  1. Que tolice! enviar a raparigas
  2. comprimentinhos! Fora! eu cá não uso.

O RÃS

  1. Pois não uses; e eu sim. À minha amada
  2. comprimentos e beijos. Estou vendo
  3. que lho quer proibir este papalvo!

( Canta )

  1. Abre! é noite erma e calada.
  2. Abre a porta, ó minha amada!
  3. Vem, se estás inda acordada.
  4. Vem, se em mim cuidando estás.
  5. Abre; em vindo a madrugada,
  6. a fechá-la tornarás.

O PENEIRA

  1. Aporfia em cantar-lhe. É gabarolas
  2. mais gabarolas. Deixa estar que um dia
  3. inda espero rir muito. Há-de lograr-te
  4. como a mim me logrou. Namore um bruxo,
  5. com quem na encruzilhada, à meia noite,
  6. dance a dança macabra; ou mais à própria
  7. um bode velho, que, ao voltar da serra
  8. de Block, onde celebram seus pagodes,
  9. lhe passe pela porta, e galopando
  10. lhe berre: Boa noite! Agora um moço,
  11. que é gente de osso e carne, pentear-se
  12. para um diabo assim! Os comprimentos
  13. que lhe eu faria co’a melhor vontade
  14. era quebrar-lhe os vidros da janela.

O BOTAFOGO (dá um grande murro na mesa. Ficam todos sentados à escuta. Levanta-se com gravidade)

  1. Atenção! Vou falar! Calem-se todos!
  2. Ninguém me negará que eu sei as regras
  3. do bom viver. Aqui nesta assembleia
  4. há gente femeeira, à qual eu devo,
  5. em atenção à sua dignidade,
  6. oferecer, neste serão de amigos,
  7. algum pratinho bom. Aí vai; sentido!
  8. Uma canção do trinque; e vocês, súcia,
  9. berrem-me no estribilho até que estoirem

( Erguem-se todos, e vão rodeá-lo com os copos na mão. Canta. )

  1. Era uma vez um ratinho,
  2. que tinha feito o seu ninho
  3. numa dispensa Real.
  4. A dispensa era tamanha,
  5. que em mar de manteiga e banha
  6. nadava o nosso animal.
  1. Roe, roe, roe. Não tem parança.
  2. Engorda; cresce-lhe a pança
  3. de um modo descomunal.
  4. Nem o pai do nosso clero,
  5. o grande doutor Lutero
  6. se gabou de pança tal.
  1. Cozinheira, que anda à espreita,
  2. descobre-o, e treda lhe ajeita
  3. bom pitéu arsenical.
  4. Apesar de andar sem fome,
  5. o bichinho prova... come...
  6. comeu tudo; achou-se mal.
  1. São pinchos; são guinchos
  2. co’a dor interior,
  3. que todos diriam
  4. que dentro lhe ardiam
  5. garrochas de amor.

CORO

  1. Sim: dentro lhe ardiam
  2. garrochas de amor.

O BOTAFOGO (continuando a cantar)

  1. Corria de cabo a cabo;
  2. dava dentadas no rabo;
  3. fugia para o quintal;
  4. mordia; arranhava; a frágua
  5. era tal, que à míngua d’água
  6. bebia num lodaçal.
  1. Contemplar tanta agonia,
  2. em lágrimas desfaria
  3. corações de pedernal.
  4. Ver passar este inocente,
  5. de uma vida tão contente
  6. para um suplício infernal.
  1. Nem chia! Arqueja deitado!
  2. Sente que o termo é chegado
  3. da sua vida mortal.
  4. Moléstias destas e amores,
  5. não as entendem doutores,
  6. nem se curam no hospital.
  1. São pinchos; são guinchos
  2. co’a dor interior,
  3. que todos diriam
  4. que dentro lhe ardiam
  5. garrochas de amor.

CORO

  1. Sim: dentro lhe ardiam
  2. garrochas de amor.

O BOTAFOGO (continuando a cantar)

  1. Sem lhe importar com ser dia,
  2. no exaspero da agonia
  3. corre à cozinha fatal;
  4. e espumando a atroz peçonha,
  5. na amada manteiga sonha,
  6. e bufa o sopro final.
  1. Foi seu fúnebre elogio
  2. rir-lhe sobre o corpo frio
  3. a cozinheira brutal:
  4. - «Adeus, rei dos roedores!
  5. Também quem morre de amores
  6. padece martírio igual.»
  1. Que sorte! que morte!
  2. Senhor, por favor,
  3. livrai-nos de asneiras
  4. de más cozinheiras,
  5. bem como de amor!

CORO

  1. Livrai-nos, Senhor,
  2. livrai-nos de amor!

O PENEIRA

  1. Como os sensaborões gostam daquilo!
  2. Que feito! envenenar um pobre rato!

O BOTAFOGO

  1. Dou que este ratazana é da família.

O QUINTEIRÃO

  1. E tu, pançudo da careca à mostra,
  2. como viste no bicho o teu retrato,
  3. ficaste consternado; entendo e louvo.

( Tornam todos a sentar-se, conversando baixinho uns com os outros )

Cena II

OS MESMOS, FAUSTO e MEFISTÓFELES, que entram pela porta do fundo.

MEFISTÓFELES

  1. Houve por bem mostrar-lhe, antes de tudo,
  2. o que são bons vivants. Toda esta malta
  3. faz do folgar seu pão quotidiano.
  4. Pensar pouco e rir muito, eis o que explica
  5. toda essa funçanata. Aqui se gira
  6. à laia dos peões, ou de um bichano
  7. que anda ao redor a ver se apanha a cauda;
  8. pois enquanto a cabeça lhes regula,
  9. e o locandeiro fia, adeus, cuidados!
  10. e estão divertidíssimos.

O BOTAFOGO (aos companheiros, maliciosamente)

  1. Aqueles
  2. vem de jornadear. Logo demonstram,
  3. pelos seus modos, que não são da terra.
  4. Uma hora há só talvez que chegariam.

O RÃS

  1. Certo; e viva Leipsick! Isto é que é terra.
  2. Abaixo de Paris, Leipsick! Um homem
  3. para ser gente, há-de vir cá.

O PENEIRA (baixo, aos companheiros)

  1. Mas estes
  2. que diabo serão?

O RÃS (para o Peneira)

  1. Deixa-os comigo!
  2. Faz-se de um bom copázio saca-trapos,
  3. e hão-de desembuchar. Dão-me ares ambos
  4. de ser alguém. Tem caras de enjoados,
  5. modos de soberbões.

O BOTAFOGO

  1. Tunos de feira
  2. aposto.

O QUINTEIRÃO

  1. Pode ser.

O RÃS (enfeitando-se para falar aos dois recém-chegados)

  1. Toma sentido
  2. como eu tos enrodilho.

MEFISTÓFELES (a Fausto)

  1. Estes patetas
  2. nem faro tem para aventar o demo,
  3. que está já, vai não vai, para filá-los.

FAUSTO

  1. Vivam, senhores!

O PENEIRA

  1. Viva!

( Baixo, olhando de soslaio para Mefistófeles. )

  1. Aquele, a modo
  2. que claudica de um pé.

MEFISTÓFELES

  1. Dão-nos licença
  2. de tomarmos assento entre os senhores?
  3. Como não há na casa boa pinga,
  4. folgaremos co’a bela sociedade.

O QUINTEIRÃO

  1. Quer-me a mim parecer que o meu amigo
  2. é biqueiro, de mal acostumado.

O RÃS (a rir)

  1. Digam-me cá: saíram muito tarde
  2. de Ripach? E ceou co’o Mané-Coco?

MEFISTÓFELES

  1. Não senhor. Temos vindo tanto à pressa,
  2. que o não pudemos. Na última jornada
  3. sim, por sinal que nos contou mil coisas
  4. dos primos da cidade, encarregando-nos
  5. de dar a cada um muitas saudades.

( Cortejando de cabeça. )

O QUINTEIRÃO (baixo, a Rãs)

  1. Apanha! Capiscou-te. É fino o meco.

O PENEIRA

  1. É pássaro-bisnau.

O RÃS (aos companheiros)

  1. Eu já to arranjo.

MEFISTÓFELES

  1. Se nos não enganamos, figurou-se-nos
  2. lá ao longe escutar para esta parte
  3. um coro magistral; aqui as vozes
  4. debaixo desta abóbada, por força
  5. que hão-de fazer efeito peregrino.

RÃS

  1. Dar-se-á que seja acaso o nosso amigo
  2. cantor de profissão?

MEFISTÓFELES

  1. Quem dera um disso!
  2. Vontade não me falta; agora as forças...

O QUINTEIRÃO

  1. Petas da vida; uma cantiga!

MEFISTÓFELES

  1. Um cento.

O PENEIRA

  1. Coisinha nova.

MEFISTÓFELES

  1. Pronto. Agora mesmo
  2. vimos de Espanha; em vinho e cantorias,
  3. não quero que haja terra igual àquela.

( Canta. )

  1. Catava-se um rei, quando acha
  2. nas suas meias reaes
  3. uma grande pulga macha,
  4. pai-avô e Adão das mais,

O RÃS

  1. Vocês não ouvem? Que hóspede! uma pulga!...

MEFISTÓFELES (continuando a cantar)

  1. Causou no rei tal encanto
  2. a lindeza do animal,
  3. que desde logo o amou tanto
  4. como ao príncipe real.
  1. Chama o alfaiate régio,
  2. e diz-lhe: - «Fará favor
  3. de arranjar um fato egrégio
  4. aqui a este senhor.
  1. Não se esqueça que é preciso
  2. trazer-lhe calções também.
  3. Faça a obra de improviso;
  4. talhe-a justo, e cosa-a bem.»

O BOTAFOGO

  1. Olhe lá! O tal rei, que diga ao mestre
  2. que, se a farpela não sair bem feita,
  3. com ele se há-de haver; e se as calçotas
  4. fizerem pregas, cortam-lhe o gasnete.

MEFISTÓFELES (continuando a cantar)

  1. No clero, nobreza, e vulgo,
  2. foi imensa a admiração,
  3. a primeira vez que o pulgo
  4. se mostrou de fardalhão.
  1. Eram bordados, veludo,
  2. rendas, laçarrões, cetim,
  3. rebrilhando sobre tudo
  4. as veneras e o espadim.
  1. Deu-lhe el-rei grã-cruz e pasta,
  2. um viscondado, e o poder
  3. de elevar e enriquecer
  4. aos bichos da sua casta.
  1. Teve inda outro privilégio
  2. muito invejável, que foi:
  3. pastar, comer como um boi
  4. nas damas do paço régio,
  1. e até na própria rainha;
  2. sem nenhuma ter acção
  3. de coçar tal comichão
  4. nem recusar-lhe a maminha,
  1. quanto toda a outra gente,
  2. se a morde a pulga, o que faz?
  3. Vai co’os dedos de repente,
  4. pilha-a, estortega-a, e trás!

TODOS (levantando-se em coro alegríssimo)

  1. Vai co’os dedos de repente,
  2. pilha-a, estortega-a, e trás!

O RÃS

  1. Bonita peta! bravo!

O PENEIRA

  1. Abaixo as pulgas!...

O BOTAFOGO

  1. Esticar dedos, zumba, estão pilhadas.

O QUINTEIRÃO

  1. Viva e reviva a liberdade e o vinho!

MEFISTÓFELES

  1. Eu, em honra e louvor da liberdade,
  2. também vazava um copo, se não fora
  3. tão soez a mistela cá da casa.

O PENEIRA

  1. Cale a boca praguenta!

MEFISTÓFELES

  1. Se eu soubesse
  2. que se não agastava o taberneiro,
  3. oferecia à bela sociedade
  4. um quod ore do nosso. Estou que haviam
  5. lamber-lhe os beiços.

O PENEIRA

  1. Venha sempre, venha.
  2. Com ele eu me haverei.

O RÃS

  1. Sendo a pinguinha
  2. do que a gente mastiga, e farta a dose,
  3. cá louvor ao que é bom não se recusa.

O QUINTEIRÃO (baixinho)

  1. São do Reno, já vejo.

MEFISTÓFELES

  1. Uma verruma,
  2. se a há!

O BOTAFOGO

  1. Mas para quê? Deixou na rua,
  2. fora da porta, a pipa?

O QUINTEIRÃO

  1. O taberneiro
  2. há-de ter disso ali naquele canto,
  3. na cesta em que arrecada a ferramenta.

MEFISTÓFELES (tira da cesta um trado. A Rãs.)

  1. Para o seu paladar, que vinho escolhe?
  2. Peça por boca!

O RÃS

  1. Diz então na sua
  2. que tem de toda a casta?

MEFISTÓFELES

  1. O que repito
  2. é que peçam por boca!

O QUINTEIRÃO (a Rãs)

  1. Este já cuida
  2. que está chuchurreando.

O RÃS

  1. Eu, já que é livre
  2. a cada um pedir, peço do Reno;
  3. sempre é vinho patrício.

MEFISTÓFELES (furando na borda da mesa, diante do lugar de Rãs)

  1. Arranjem cera,
  2. que há-de servir para fazer batoques.

O QUINTEIRÃO

  1. Prestigiações, aposto.

MEFISTÓFELES (apontando para o Botafogo)

  1. E o seu vizinho?

O BOTAFOGO

  1. Eu cá, champanha; e que esfuzeie escumas.

( Mefistófeles vai furando. Um vai no entanto tapando os buracos com as rolhas de cera )

  1. Nem tudo que é da estranja há-de enjeitar-se.
  2. Muita coisa há bem boa em longes terras.
  3. Sou alemão de lei: detesto a França
  4. pessoalmente falando; agora os vinhos...

O PENEIRA (ao aproximar-se-lhe Mefistófeles)

  1. Sempre embirrei com pinga avinagrada.
  2. Para mim, quero vinho de senhoras,
  3. docinho.

MEFISTÓFELES (furando)

  1. Aí tem Tokay.

O QUINTEIRÃO

  1. Leva de brinco.
  2. Dar-se-á que estes senhores se apostassem
  3. a vir zombar de nós?

MEFISTÓFELES

  1. Zombar! que ideia!
  2. Zombarmos com tão nobre sociedade,
  3. era audácia de mais.

( Para o Quinteirão )

  1. Sem cerimónia,
  2. de qual toma?

O QUINTEIRÃO

  1. Qualquer, mas desempate!

MEFISTÓFELES (que, diante de todos, vai fazendo buracos que se tapam com rolhas, canta.)

  1. De si cachos a parreira,
  2. de si pontas deita o bode.
  1. Logo, a exemplo da videira,
  2. deitar vinho a mesa pode,
  3. apesar de ser madeira.
  1. Grande abismo, ó natureza!
  2. Quem rastreia os teus caminhos!
  3. Ora sus, mortais mesquinhos!
  4. Rolhas fora! Aí vão da mesa
  5. borbotar caudais de vinhos.

( Todos tiram as rolhas, e a cada um corre no copo o vinho que desejou. )

TODOS

  1. Que belo chafariz!

MEFISTÓFELES

  1. Mas sumo tento
  2. em não verter por fora alguma gota.

( Bebem repetidas vezes. )

TODOS (cantando)

  1. Beber, beber! sinto barruntos
  2. de desbancar qualquer selvagem!
  3. Beber, beber, quais na lavagem
  4. bebem quinhentos porcos juntos.

MEFISTÓFELES (a Fausto)

  1. Aí tem o povo livre, e os seus regalos!

FAUSTO

  1. Tomara-me já longe destes brutos.

MEFISTÓFELES

  1. Inda isto não é nada. Aguarde um pouco,
  2. e verá onde chega a brutidade.

O PENEIRA (bebe sem cuidado, e entorna parte do vinho, que, em tocando no chão, se converte em labareda)

  1. Acudam! fogo! fogo! Isto é, má hora,
  2. lume do inferno.

MEFISTÓFELES (esconjurando a chama)

  1. Meu valido lume,
  2. pára aí já! ( Aos convivas. ) Foi só uma pinguinha
  3. do que há no purgatório.

O PENEIRA

  1. Estes figuros
  2. não sabem com que gente estão metidos.
  3. Pode sair cara a brincadeira.

O RÃS

  1. Não caia você noutra; eu já o aviso.

O QUINTEIRÃO (aos companheiros)

  1. Será melhor pedir-lhe em cortesia
  2. que se nos ponha ao fresco.

O PENEIRA (levantando-se, de punho fechado, para Mefistófeles)

  1. Ah, sô marmanjo,
  2. pois então, lá supôs que isto eram asnos,
  3. bons para embasbacar com peloticas?

MEFISTÓFELES (ao Peneira)

  1. Cal’-te aí, pipa velha!

O PENEIRA

  1. Então já viram
  2. atrevimento assim? vir insultar-nos
  3. este pau de vassoira, cavalinho
  4. dalguma bruxa ao sábado!

O BOTAFOGO

  1. Sem tosa
  2. já ele se não vai.

O QUINTEIRÃO (tira uma das rolhas de cera, e golfa do buraco sobre ele uma língua de fogo)

  1. Ui! que me queimo!

O PENEIRA

  1. Mata, mata o marau! facada nele!
  2. Olhem não voe! Segurá-lo e fogo!

( Puxam pelas facas e correm sobre Mefistófeles. )

MEFISTÓFELES (declamando)

  1. Falsas vistas, sons fingidos,
  2. transtornai-lhes os sentidos!
  3. Sem sair, vaguem perdidos!

( Param atónitos, olhando uns para os outros. )

O QUINTEIRÃO (como fascinado)

  1. Onde estou? Linda terra!

O RÃS

  1. É certo... vejo-os...
  2. são parreirais!

O PENEIRA

  1. Que suspensão de cachos!
  2. e tão à mão!

O BOTAFOGO

  1. Oh! que alentada cepa!
  2. oh! que formosos cachos, que se abrigam
  3. aqui sob esta parra verdejante!

( Agarra o Peneira pelo nariz, e cada um vai fazendo outro tanto ao seu vizinho, e levantando a faca. )

MEFISTÓFELES (como acima)

  1. Varrei-vos, ilusões!
  2. De lhes mostrar acabo
  3. se podem co’o diabo
  4. medir-se uns beberrões.

( Saem Mefistófeles e Fausto )

Cena III

O PENEIRA, O QUINTEIRÃO, O BOTAFOGO, O RÃS, e outros ( Todos estes patuscos largam os narizes do próximo, e as facas com que os iam decepar )

O PENEIRA

  1. Hein!

O QUINTEIRÃO

  1. Que é?

O RÃS

  1. O teu nariz!

O BOTAFOGO (a Peneira)

  1. A tua penca!

O QUINTEIRÃO

  1. Ai que estou derreado. Uma cadeira,
  2. que me sinto ir abaixo.

O RÃS

  1. O que foi isto?
  2. Vocês não me dirão?

O PENEIRA

  1. Qu’é dele, o biltre?
  2. Se o pilho às mãos, matei-o.

O QUINTEIRÃO

  1. Onde irá ele!
  2. Vi-o eu, com estes, abalar da venda
  3. Montado numa pipa. Estou co’as pernas
  4. que as não posso mexer.

( Voltando-se para a mesa )

  1. Examinemos
  2. sempre à cautela, se haverá na banca
  3. inda algum escorralho.

O PENEIRA

  1. A boas horas!
  2. Tudo aquilo era um sonho, uma trapaça.

O RÃS

  1. Lá que eu bebi, bebi.

O BOTAFOGO

  1. Pois a das uvas!
  2. Essa foi outra.

O QUINTEIRÃO

  1. E riam de milagres!
Próximo quadroVIIVasta caverna de Feiticeira. Ao fundo, uma porta baixa e informe. Do lado esquerdo, uma la