Taberna do Retiro d’Auerbach, em Leipsick. Porta, ao fundo, para a rua, entre duas janelas
409 versos
Cena I
Festança de rapaziada . RÃS, O BOTAFOGO, O PENEIRA, O QUINTEIRÃO, e outros
O RÃS
- Bom! Ninguém bebe, ninguém ri. Que lesmas!
- Pois é livrar de mim, que eu com mazombos
- não me sei entender. Façam-se agora
- palhiço podre, uns melcatrefes destes,
- que os não há de mais fogo!
O BOTAFOGO
- A culpa é tua
- meu Rãs, que não nos botas a espertar-nos
- alguma brejeirice, alguma asneira.
O RÃS (despejando-lhe um copo de vinho na cabeça)
- Vão as duas por junto.
O BOTAFOGO (levantando-se para arredar-se, e sacudindo da cabeça o vinho)
- Arreda, porco!
O RÃS
- Serei, se à fina força assim o querem.
O PENEIRA
- Quem desconfia, rua! Andem, rapazes.
- Beber como animais; dançar à doida;
- e esvaziar o bofe em cantarolas,
- Leva acima!
O QUINTEIRÃO
- Ui! que berro! Quem me acode
- com algodão, que arrolhe estes ouvidos?
- Goelas do diabo!
O PENEIRA
- A voz de um baixo
- deve estrugir a abóbada.
O RÃS
- Está visto.
- Paliou bem. Quem não gosta de chalaças
- pode-se pôr a andar. Larilarára ( cantando ).
O QUINTEIRÃO (cantando)
- Larilarára.
O RÃS
- Bravo! Afinadinho!
- (Canta em tom de chasco)
- Meu santo Império romano,
- inda te vejo de pé!...
O BOTAFOGO (interrompendo)
- Barro cantar políticas. T’arr’nego!
- Forte sensaborão! Dêem vocês graças
- cada manhã, que, ao levantar da cama,
- lhes não dê que pensar o santo Império.
- Ser Rei e Imperador, não chega a isto
- de ser um jan-ninguém; mas como é de uso
- haver um maioral que nos governe,
- toca a eleger um Papa. Todos sabem
- que para onde acode o maior peso
- é que verga a balança; e em consequência,
- o homem que tem mais peso é que mais vale.
O RÃS (cantando)
- Voa, voa, Filomela!
- Vai levar dez mil bons dias
- ao meu anjo, à minha bela;
- e, poisada ante a janela,
- acordá-la entre harmonias!
O PENEIRA
- Que tolice! enviar a raparigas
- comprimentinhos! Fora! eu cá não uso.
O RÃS
- Pois não uses; e eu sim. À minha amada
- comprimentos e beijos. Estou vendo
- que lho quer proibir este papalvo!
( Canta )
- Abre! é noite erma e calada.
- Abre a porta, ó minha amada!
- Vem, se estás inda acordada.
- Vem, se em mim cuidando estás.
- Abre; em vindo a madrugada,
- a fechá-la tornarás.
O PENEIRA
- Aporfia em cantar-lhe. É gabarolas
- mais gabarolas. Deixa estar que um dia
- inda espero rir muito. Há-de lograr-te
- como a mim me logrou. Namore um bruxo,
- com quem na encruzilhada, à meia noite,
- dance a dança macabra; ou mais à própria
- um bode velho, que, ao voltar da serra
- de Block, onde celebram seus pagodes,
- lhe passe pela porta, e galopando
- lhe berre: Boa noite! Agora um moço,
- que é gente de osso e carne, pentear-se
- para um diabo assim! Os comprimentos
- que lhe eu faria co’a melhor vontade
- era quebrar-lhe os vidros da janela.
O BOTAFOGO (dá um grande murro na mesa. Ficam todos sentados à escuta. Levanta-se com gravidade)
- Atenção! Vou falar! Calem-se todos!
- Ninguém me negará que eu sei as regras
- do bom viver. Aqui nesta assembleia
- há gente femeeira, à qual eu devo,
- em atenção à sua dignidade,
- oferecer, neste serão de amigos,
- algum pratinho bom. Aí vai; sentido!
- Uma canção do trinque; e vocês, súcia,
- berrem-me no estribilho até que estoirem
( Erguem-se todos, e vão rodeá-lo com os copos na mão. Canta. )
- Era uma vez um ratinho,
- que tinha feito o seu ninho
- numa dispensa Real.
- A dispensa era tamanha,
- que em mar de manteiga e banha
- nadava o nosso animal.
- Roe, roe, roe. Não tem parança.
- Engorda; cresce-lhe a pança
- de um modo descomunal.
- Nem o pai do nosso clero,
- o grande doutor Lutero
- se gabou de pança tal.
- Cozinheira, que anda à espreita,
- descobre-o, e treda lhe ajeita
- bom pitéu arsenical.
- Apesar de andar sem fome,
- o bichinho prova... come...
- comeu tudo; achou-se mal.
- São pinchos; são guinchos
- co’a dor interior,
- que todos diriam
- que dentro lhe ardiam
- garrochas de amor.
CORO
- Sim: dentro lhe ardiam
- garrochas de amor.
O BOTAFOGO (continuando a cantar)
- Corria de cabo a cabo;
- dava dentadas no rabo;
- fugia para o quintal;
- mordia; arranhava; a frágua
- era tal, que à míngua d’água
- bebia num lodaçal.
- Contemplar tanta agonia,
- em lágrimas desfaria
- corações de pedernal.
- Ver passar este inocente,
- de uma vida tão contente
- para um suplício infernal.
- Nem chia! Arqueja deitado!
- Sente que o termo é chegado
- da sua vida mortal.
- Moléstias destas e amores,
- não as entendem doutores,
- nem se curam no hospital.
- São pinchos; são guinchos
- co’a dor interior,
- que todos diriam
- que dentro lhe ardiam
- garrochas de amor.
CORO
- Sim: dentro lhe ardiam
- garrochas de amor.
O BOTAFOGO (continuando a cantar)
- Sem lhe importar com ser dia,
- no exaspero da agonia
- corre à cozinha fatal;
- e espumando a atroz peçonha,
- na amada manteiga sonha,
- e bufa o sopro final.
- Foi seu fúnebre elogio
- rir-lhe sobre o corpo frio
- a cozinheira brutal:
- - «Adeus, rei dos roedores!
- Também quem morre de amores
- padece martírio igual.»
- Que sorte! que morte!
- Senhor, por favor,
- livrai-nos de asneiras
- de más cozinheiras,
- bem como de amor!
CORO
- Livrai-nos, Senhor,
- livrai-nos de amor!
O PENEIRA
- Como os sensaborões gostam daquilo!
- Que feito! envenenar um pobre rato!
O BOTAFOGO
- Dou que este ratazana é da família.
O QUINTEIRÃO
- E tu, pançudo da careca à mostra,
- como viste no bicho o teu retrato,
- ficaste consternado; entendo e louvo.
( Tornam todos a sentar-se, conversando baixinho uns com os outros )
Cena II
OS MESMOS, FAUSTO e MEFISTÓFELES, que entram pela porta do fundo.
MEFISTÓFELES
- Houve por bem mostrar-lhe, antes de tudo,
- o que são bons vivants. Toda esta malta
- faz do folgar seu pão quotidiano.
- Pensar pouco e rir muito, eis o que explica
- toda essa funçanata. Aqui se gira
- à laia dos peões, ou de um bichano
- que anda ao redor a ver se apanha a cauda;
- pois enquanto a cabeça lhes regula,
- e o locandeiro fia, adeus, cuidados!
- e estão divertidíssimos.
O BOTAFOGO (aos companheiros, maliciosamente)
- Aqueles
- vem de jornadear. Logo demonstram,
- pelos seus modos, que não são da terra.
- Uma hora há só talvez que chegariam.
O RÃS
- Certo; e viva Leipsick! Isto é que é terra.
- Abaixo de Paris, Leipsick! Um homem
- para ser gente, há-de vir cá.
O PENEIRA (baixo, aos companheiros)
- Mas estes
- que diabo serão?
O RÃS (para o Peneira)
- Deixa-os comigo!
- Faz-se de um bom copázio saca-trapos,
- e hão-de desembuchar. Dão-me ares ambos
- de ser alguém. Tem caras de enjoados,
- modos de soberbões.
O BOTAFOGO
- Tunos de feira
- aposto.
O QUINTEIRÃO
- Pode ser.
O RÃS (enfeitando-se para falar aos dois recém-chegados)
- Toma sentido
- como eu tos enrodilho.
MEFISTÓFELES (a Fausto)
- Estes patetas
- nem faro tem para aventar o demo,
- que está já, vai não vai, para filá-los.
FAUSTO
- Vivam, senhores!
O PENEIRA
- Viva!
( Baixo, olhando de soslaio para Mefistófeles. )
- Aquele, a modo
- que claudica de um pé.
MEFISTÓFELES
- Dão-nos licença
- de tomarmos assento entre os senhores?
- Como não há na casa boa pinga,
- folgaremos co’a bela sociedade.
O QUINTEIRÃO
- Quer-me a mim parecer que o meu amigo
- é biqueiro, de mal acostumado.
O RÃS (a rir)
- Digam-me cá: saíram muito tarde
- de Ripach? E ceou co’o Mané-Coco?
MEFISTÓFELES
- Não senhor. Temos vindo tanto à pressa,
- que o não pudemos. Na última jornada
- sim, por sinal que nos contou mil coisas
- dos primos da cidade, encarregando-nos
- de dar a cada um muitas saudades.
( Cortejando de cabeça. )
O QUINTEIRÃO (baixo, a Rãs)
- Apanha! Capiscou-te. É fino o meco.
O PENEIRA
- É pássaro-bisnau.
O RÃS (aos companheiros)
- Eu já to arranjo.
MEFISTÓFELES
- Se nos não enganamos, figurou-se-nos
- lá ao longe escutar para esta parte
- um coro magistral; aqui as vozes
- debaixo desta abóbada, por força
- que hão-de fazer efeito peregrino.
RÃS
- Dar-se-á que seja acaso o nosso amigo
- cantor de profissão?
MEFISTÓFELES
- Quem dera um disso!
- Vontade não me falta; agora as forças...
O QUINTEIRÃO
- Petas da vida; uma cantiga!
MEFISTÓFELES
- Um cento.
O PENEIRA
- Coisinha nova.
MEFISTÓFELES
- Pronto. Agora mesmo
- vimos de Espanha; em vinho e cantorias,
- não quero que haja terra igual àquela.
( Canta. )
- Catava-se um rei, quando acha
- nas suas meias reaes
- uma grande pulga macha,
- pai-avô e Adão das mais,
O RÃS
- Vocês não ouvem? Que hóspede! uma pulga!...
MEFISTÓFELES (continuando a cantar)
- Causou no rei tal encanto
- a lindeza do animal,
- que desde logo o amou tanto
- como ao príncipe real.
- Chama o alfaiate régio,
- e diz-lhe: - «Fará favor
- de arranjar um fato egrégio
- aqui a este senhor.
- Não se esqueça que é preciso
- trazer-lhe calções também.
- Faça a obra de improviso;
- talhe-a justo, e cosa-a bem.»
O BOTAFOGO
- Olhe lá! O tal rei, que diga ao mestre
- que, se a farpela não sair bem feita,
- com ele se há-de haver; e se as calçotas
- fizerem pregas, cortam-lhe o gasnete.
MEFISTÓFELES (continuando a cantar)
- No clero, nobreza, e vulgo,
- foi imensa a admiração,
- a primeira vez que o pulgo
- se mostrou de fardalhão.
- Eram bordados, veludo,
- rendas, laçarrões, cetim,
- rebrilhando sobre tudo
- as veneras e o espadim.
- Deu-lhe el-rei grã-cruz e pasta,
- um viscondado, e o poder
- de elevar e enriquecer
- aos bichos da sua casta.
- Teve inda outro privilégio
- muito invejável, que foi:
- pastar, comer como um boi
- nas damas do paço régio,
- e até na própria rainha;
- sem nenhuma ter acção
- de coçar tal comichão
- nem recusar-lhe a maminha,
- quanto toda a outra gente,
- se a morde a pulga, o que faz?
- Vai co’os dedos de repente,
- pilha-a, estortega-a, e trás!
TODOS (levantando-se em coro alegríssimo)
- Vai co’os dedos de repente,
- pilha-a, estortega-a, e trás!
O RÃS
- Bonita peta! bravo!
O PENEIRA
- Abaixo as pulgas!...
O BOTAFOGO
- Esticar dedos, zumba, estão pilhadas.
O QUINTEIRÃO
- Viva e reviva a liberdade e o vinho!
MEFISTÓFELES
- Eu, em honra e louvor da liberdade,
- também vazava um copo, se não fora
- tão soez a mistela cá da casa.
O PENEIRA
- Cale a boca praguenta!
MEFISTÓFELES
- Se eu soubesse
- que se não agastava o taberneiro,
- oferecia à bela sociedade
- um quod ore do nosso. Estou que haviam
- lamber-lhe os beiços.
O PENEIRA
- Venha sempre, venha.
- Com ele eu me haverei.
O RÃS
- Sendo a pinguinha
- do que a gente mastiga, e farta a dose,
- cá louvor ao que é bom não se recusa.
O QUINTEIRÃO (baixinho)
- São do Reno, já vejo.
MEFISTÓFELES
- Uma verruma,
- se a há!
O BOTAFOGO
- Mas para quê? Deixou na rua,
- fora da porta, a pipa?
O QUINTEIRÃO
- O taberneiro
- há-de ter disso ali naquele canto,
- na cesta em que arrecada a ferramenta.
MEFISTÓFELES (tira da cesta um trado. A Rãs.)
- Para o seu paladar, que vinho escolhe?
- Peça por boca!
O RÃS
- Diz então na sua
- que tem de toda a casta?
MEFISTÓFELES
- O que repito
- é que peçam por boca!
O QUINTEIRÃO (a Rãs)
- Este já cuida
- que está chuchurreando.
O RÃS
- Eu, já que é livre
- a cada um pedir, peço do Reno;
- sempre é vinho patrício.
MEFISTÓFELES (furando na borda da mesa, diante do lugar de Rãs)
- Arranjem cera,
- que há-de servir para fazer batoques.
O QUINTEIRÃO
- Prestigiações, aposto.
MEFISTÓFELES (apontando para o Botafogo)
- E o seu vizinho?
O BOTAFOGO
- Eu cá, champanha; e que esfuzeie escumas.
( Mefistófeles vai furando. Um vai no entanto tapando os buracos com as rolhas de cera )
- Nem tudo que é da estranja há-de enjeitar-se.
- Muita coisa há bem boa em longes terras.
- Sou alemão de lei: detesto a França
- pessoalmente falando; agora os vinhos...
O PENEIRA (ao aproximar-se-lhe Mefistófeles)
- Sempre embirrei com pinga avinagrada.
- Para mim, quero vinho de senhoras,
- docinho.
MEFISTÓFELES (furando)
- Aí tem Tokay.
O QUINTEIRÃO
- Leva de brinco.
- Dar-se-á que estes senhores se apostassem
- a vir zombar de nós?
MEFISTÓFELES
- Zombar! que ideia!
- Zombarmos com tão nobre sociedade,
- era audácia de mais.
( Para o Quinteirão )
- Sem cerimónia,
- de qual toma?
O QUINTEIRÃO
- Qualquer, mas desempate!
MEFISTÓFELES (que, diante de todos, vai fazendo buracos que se tapam com rolhas, canta.)
- De si cachos a parreira,
- de si pontas deita o bode.
- Logo, a exemplo da videira,
- deitar vinho a mesa pode,
- apesar de ser madeira.
- Grande abismo, ó natureza!
- Quem rastreia os teus caminhos!
- Ora sus, mortais mesquinhos!
- Rolhas fora! Aí vão da mesa
- borbotar caudais de vinhos.
( Todos tiram as rolhas, e a cada um corre no copo o vinho que desejou. )
TODOS
- Que belo chafariz!
MEFISTÓFELES
- Mas sumo tento
- em não verter por fora alguma gota.
( Bebem repetidas vezes. )
TODOS (cantando)
- Beber, beber! sinto barruntos
- de desbancar qualquer selvagem!
- Beber, beber, quais na lavagem
- bebem quinhentos porcos juntos.
MEFISTÓFELES (a Fausto)
- Aí tem o povo livre, e os seus regalos!
FAUSTO
- Tomara-me já longe destes brutos.
MEFISTÓFELES
- Inda isto não é nada. Aguarde um pouco,
- e verá onde chega a brutidade.
O PENEIRA (bebe sem cuidado, e entorna parte do vinho, que, em tocando no chão, se converte em labareda)
- Acudam! fogo! fogo! Isto é, má hora,
- lume do inferno.
MEFISTÓFELES (esconjurando a chama)
- Meu valido lume,
- pára aí já! ( Aos convivas. ) Foi só uma pinguinha
- do que há no purgatório.
O PENEIRA
- Estes figuros
- não sabem com que gente estão metidos.
- Pode sair cara a brincadeira.
O RÃS
- Não caia você noutra; eu já o aviso.
O QUINTEIRÃO (aos companheiros)
- Será melhor pedir-lhe em cortesia
- que se nos ponha ao fresco.
O PENEIRA (levantando-se, de punho fechado, para Mefistófeles)
- Ah, sô marmanjo,
- pois então, lá supôs que isto eram asnos,
- bons para embasbacar com peloticas?
MEFISTÓFELES (ao Peneira)
- Cal’-te aí, pipa velha!
O PENEIRA
- Então já viram
- atrevimento assim? vir insultar-nos
- este pau de vassoira, cavalinho
- dalguma bruxa ao sábado!
O BOTAFOGO
- Sem tosa
- já ele se não vai.
O QUINTEIRÃO (tira uma das rolhas de cera, e golfa do buraco sobre ele uma língua de fogo)
- Ui! que me queimo!
O PENEIRA
- Mata, mata o marau! facada nele!
- Olhem não voe! Segurá-lo e fogo!
( Puxam pelas facas e correm sobre Mefistófeles. )
MEFISTÓFELES (declamando)
- Falsas vistas, sons fingidos,
- transtornai-lhes os sentidos!
- Sem sair, vaguem perdidos!
( Param atónitos, olhando uns para os outros. )
O QUINTEIRÃO (como fascinado)
- Onde estou? Linda terra!
O RÃS
- É certo... vejo-os...
- são parreirais!
O PENEIRA
- Que suspensão de cachos!
- e tão à mão!
O BOTAFOGO
- Oh! que alentada cepa!
- oh! que formosos cachos, que se abrigam
- aqui sob esta parra verdejante!
( Agarra o Peneira pelo nariz, e cada um vai fazendo outro tanto ao seu vizinho, e levantando a faca. )
MEFISTÓFELES (como acima)
- Varrei-vos, ilusões!
- De lhes mostrar acabo
- se podem co’o diabo
- medir-se uns beberrões.
( Saem Mefistófeles e Fausto )
Cena III
O PENEIRA, O QUINTEIRÃO, O BOTAFOGO, O RÃS, e outros ( Todos estes patuscos largam os narizes do próximo, e as facas com que os iam decepar )
O PENEIRA
- Hein!
O QUINTEIRÃO
- Que é?
O RÃS
- O teu nariz!
O BOTAFOGO (a Peneira)
- A tua penca!
O QUINTEIRÃO
- Ai que estou derreado. Uma cadeira,
- que me sinto ir abaixo.
O RÃS
- O que foi isto?
- Vocês não me dirão?
O PENEIRA
- Qu’é dele, o biltre?
- Se o pilho às mãos, matei-o.
O QUINTEIRÃO
- Onde irá ele!
- Vi-o eu, com estes, abalar da venda
- Montado numa pipa. Estou co’as pernas
- que as não posso mexer.
( Voltando-se para a mesa )
- Examinemos
- sempre à cautela, se haverá na banca
- inda algum escorralho.
O PENEIRA
- A boas horas!
- Tudo aquilo era um sonho, uma trapaça.
O RÃS
- Lá que eu bebi, bebi.
O BOTAFOGO
- Pois a das uvas!
- Essa foi outra.
O QUINTEIRÃO
- E riam de milagres!