Quarto pequeno e limpinho. Uma porta ao fundo, outra ao lado, e janela do oposto. Uma mesa
156 versos · 1 notas do tradutor
Cena I
MARGARIDA (acabando de arranjar as tranças)
- Tomara inda saber quem era o cavalheiro!
- Presença mais gentil! E o rosto? verdadeiro
- retrato de um fidalgo. Até no atrevimento
- bem demonstrou que o era.
( Vai-se pela porta do lado, fechando-a por fora à chave )
Cena II
FAUSTO e MEFISTÓFELES, os quais, passado pouco tempo da saída de Margarida, entram pela porta do fundo.
MEFISTÓFELES
- Está-lhe no aposento,
- Doutor! Entre animoso e sem ruído.
FAUSTO (após algum silêncio)
- Peço
- que me deixes sozinho.
MEFISTÓFELES (pesquisando por todos os cantos)
- Inda não vi, confesso,
- casa de rapariga em tão completo arranjo!
( Sai )
Cena III
( Lançando os olhos à roda de si )
FAUSTO (só)
- Clarão crepuscular, bem-vindo ao céu deste anjo!
- Descei-me ao coração, mágoas de amor mimosas,
- que a esp’rança alimentais como o rocio às rosas.
- Ave do paraíso, em teu cerrado ninho
- não vejo senão paz, contentamento, alinho.
- Oh! que rica pobreza, oh! que prisão risonha!
( Dá consigo para cima da poltrona de coiro, que está ao pé da cama. Fala com a poltrona. )
- Permite que um estranho o peso em ti deponha
- da ventura que o enche e o assoberba. Amigo,
- que em teus braços fieis, desde o bom tempo antigo,
- constante hás acolhido os gostos e os pesares
- de cada possessor destes quietos lares;
- hereditário trono, enquanto aqui repousas,
- que de ranchos pueris, volúveis mariposas
- te haverão rodeado a rir de idade a idade!
- Aqui, a que hoje admiro esplêndida beldade,
- viria em pequenina, afável, jubilosa,
- em noite de Natal beijar a mão rugosa
- do avô, e agradecer-lhe os bolos de regalo
- com que ele a alvoroçava ao descantar do galo.
- Ai, virgem graciosa, aqui neste recinto
- como que andar-me em torno a ciciar pressinto
- essa alma arranjadeira, amena, dadivosa,
- que te inspira qual mãe, te ensina cuidadosa
- a pôr na limpa mesa o seu pano asseado,
- e a realçar com a areia o solho escasqueado.
- Cara mão divinal,
- fazes de uma choupana um Éden terreal.
( Levanta-se, e corre a cortina do leito )
- E aqui! aqui! Não sei de que ávida tremura
- padeço e gozo o assalto. Ai, sonhos de ventura,
- durai-me, se podeis, por horas esquecidas.
- Foi aqui, puro amor, que uniste duas vidas
- num êxtase dos teus, e à terra a glória deste
- de obter, fruto de um beijo, um serafim celeste.
- Aqui jazeu criança, arfando o terno seio
- de vivaz sangue ardente e de porvir tão cheio,
- e aqui foi pouco a pouco enfim, toda pureza,
- unindo em si os dons da perenal beleza,
( Fala indignado consigo mesmo )
- A que vieste aqui? Todo eu sou comoção.
- Que intentas? Que pesar te oprime o coração?
- Já não és, pobre Fausto, o mesmo que eras dantes.
- .................................
- Terá magia este ar? Eu, que inda há dois instantes
- aos deleites carnais voava audaz, faminto,
- como é que num relance enternecer-me sinto?
- Somos acaso nós e os nossos sentimentos
- um vil joguete do ar, qual chama exposta aos ventos?
- .................................
- Mas se ela agora entrasse! Ideia qual seria
- a justa punição de tanta aleivosia!
- Cair-lhe-ias aos pés, convulso, fulminado,
- bravo Dom João Tenório em Jan Ninguém tornado!
Cena IV
FAUSTO, e MEFISTÓFELES, que entra correndo da porta do fundo
MEFISTÓFELES (açodado)
- Fuja, que já vem perto.
FAUSTO
- E é de repente. Juro
- nunca mais arriscar-me a semelhante apuro.
MEFISTÓFELES
- Aqui lhe trago um cofre, e não é nada leve.
- Pilhei-o onde eu cá sei. Meta-o no armário, e breve!
- Afirmo-lhe que a moça em vendo o conteúdo,
- fica fora de si. Não faço rol miúdo
- por não no demorar. São certas prendasitas
- que vencem geralmente a feias e a bonitas,
- Sei que esta é doutra massa... Adeus! toda a criança
- é criança, e um bonito é sempre uma festança.
( Abre-o e mostra-o de relance a Fausto, sem que os espectadores vejam o conteúdo )
FAUSTO
- Não sei se devo ousar...
MEFISTÓFELES
- E inda o pergunta?... salvo
- se prefere deixar a rapariga em alvo,
- e fugir co’o presente; e acho que assim faria
- muito melhor negócio: o tempo que perdia,
- gasta-o a passear; e eu cá lucro igualmente
- em não aturar mais um amo impertinente.
- Dou que isso no Doutor não vem de ser avaro.
- À fé de diabo amigo, eu já não sei, meu caro,
- o que lhe hei-de fazer, por mais que esfregue a testa.
( Põe o cofre no armário e dá volta à chave )
- Abalar! abalar! Agora o que nos resta
- é deixar livre o campo, e tempo à jovem fada
- para se lhe mudar de esquiva em namorada.
( Fausto tem-se ido fazendo sorumbático )
- Que é isso, meu Doutor? Porque se pôs mazombo?
- que chega a atarantar-me? É tal e qual, não zombo,
- a carranca de um lente, indo tomar assento
- no claustro pleno, e ao dar co’os olhos no espavento
- do corpo catedral, que é ter diante a Física
- toda como um fantasma, e toda a Metafísica.
- Ponhamo-nos ao fresco. Aí vem a nossa bela
- já perto desta porta.
( Apontando para a porta do fundo )
- Aquela! por aquela!
( Vão-se precipitadamente, enquanto Margarida abre da parte de fora, a porta do lado, e entra. )
Cena V
MARGARIDA, ( trazendo na mão uma lanterna, que põe em cima da mesa )
- Ai que ar abafadiço o deste quarto agora!
( Abre a janela )
- Mas corre bem fresquinha a noite lá por fora.
- Sinto-me não sei como; estou co’uns arrepios!...
- Tomara eu já que a mãe... (Credo! olha o mocho aos pios)
- tornasse para casa. É celebre! Esta noite
- chego a não me entender; preciso quem me afoite.
( Começa a despir-se cantando )
- Reinava em Tule algum dia
- um bom Rei tão fino amante,
- que até morrer foi constante
- à dama com quem vivia.
- À hora do passamento
- deixou-lhe ela um vaso d’oiro,
- que foi do Real tesoiro
- o mais falado ornamento.
- Punham-lho sempre na mesa;
- só por aquele bebia;
- e o choro que então vertia
- causava a todo tristeza.
- Vendo o seu termo chegado,
- repartiu pelos herdeiros
- os bens, té aos derradeiros,
- excepto o vaso adorado.
- Foi isto em jantar de mágoas
- que El-Rei deu à fidalguia,
- em torre herdada que havia
- ao rés das marinhas águas.
- Como El-Rei houve bebido
- o seu último conforto,
- co’o braço já quase morto
- levanta o vaso querido,
- e por não deixá-lo ao mundo,
- da janela ao mar o atira.
- Ondeia o vaso, revira,
- enche-se, e desce ao profundo.
- No mesmo triste momento
- em que o vaso se abismava,
- o Rei seus olhos cerrava,
- soltando o último alento.
( Abre o armário para arrumar os vestidos, e dá com os olhos no cofre )
- Quem poria isto aqui! Meu Deus, eu sei de certo
- que não deixei ficar o guarda-fato aberto.
- Parece até milagre. É lindo o cofrezinho.
- Que haverá dentro nele?... Ah!... cuido que adivinho;
- é coisa de penhor que algum necessitado
- traria a minha mãe. Tem um fitilho atado,
- e presa uma chavinha... Abro ou não abro?... Adeus!
- O ver não é furtar. Que escrúpulos os meus!
( Traz o cofre para cima da mesa e abre-o )
- Que é isto, Pai do céu! Nunca em dias de vida
- vi jamais coisa assim, tão linda, tão luzida.
- E adereço completo! A mais rica senhora
- com isto num domingo, em festa grande, fora
- levar atrás de si o olhar de toda a gente.
- Que bem que este colar aqui
( indicando a garganta )
- tão refulgente
- me havia de ficar! A quem pertenceria
- tão vistoso tesoiro!
( Enfeita-se com as jóias, e mira-se ao espelho )
- Eu nada mais queria
- que estes brincos. A gente, assim paramentada,
- té nem parece a mesma. A moça e linda agrada,
- é bem certo; contudo os próprios que a elogiam
- não se matam por ela: apenas principiam
- a lembrar-se que é pobre, os gabos da lindeza
- já vão juntos co’o dó. Coitada da pobreza!!