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FaustoQuadro IX
QuadroIX

Quarto pequeno e limpinho. Uma porta ao fundo, outra ao lado, e janela do oposto. Uma mesa

156 versos · 1 notas do tradutor


Cena I

MARGARIDA (acabando de arranjar as tranças)

  1. Tomara inda saber quem era o cavalheiro!
  2. Presença mais gentil! E o rosto? verdadeiro
  3. retrato de um fidalgo. Até no atrevimento
  4. bem demonstrou que o era.

( Vai-se pela porta do lado, fechando-a por fora à chave )

Cena II

FAUSTO e MEFISTÓFELES, os quais, passado pouco tempo da saída de Margarida, entram pela porta do fundo.

MEFISTÓFELES

  1. Está-lhe no aposento,
  2. Doutor! Entre animoso e sem ruído.

FAUSTO (após algum silêncio)

  1. Peço
  2. que me deixes sozinho.

MEFISTÓFELES (pesquisando por todos os cantos)

  1. Inda não vi, confesso,
  2. casa de rapariga em tão completo arranjo!

( Sai )

Cena III

( Lançando os olhos à roda de si )

FAUSTO (só)

  1. Clarão crepuscular, bem-vindo ao céu deste anjo!
  2. Descei-me ao coração, mágoas de amor mimosas,
  3. que a esp’rança alimentais como o rocio às rosas.
  4. Ave do paraíso, em teu cerrado ninho
  5. não vejo senão paz, contentamento, alinho.
  6. Oh! que rica pobreza, oh! que prisão risonha!

( Dá consigo para cima da poltrona de coiro, que está ao pé da cama. Fala com a poltrona. )

  1. Permite que um estranho o peso em ti deponha
  2. da ventura que o enche e o assoberba. Amigo,
  3. que em teus braços fieis, desde o bom tempo antigo,
  4. constante hás acolhido os gostos e os pesares
  5. de cada possessor destes quietos lares;
  6. hereditário trono, enquanto aqui repousas,
  7. que de ranchos pueris, volúveis mariposas
  8. te haverão rodeado a rir de idade a idade!
  9. Aqui, a que hoje admiro esplêndida beldade,
  10. viria em pequenina, afável, jubilosa,
  11. em noite de Natal beijar a mão rugosa
  12. do avô, e agradecer-lhe os bolos de regalo
  13. com que ele a alvoroçava ao descantar do galo.
  14. Ai, virgem graciosa, aqui neste recinto
  15. como que andar-me em torno a ciciar pressinto
  16. essa alma arranjadeira, amena, dadivosa,
  17. que te inspira qual mãe, te ensina cuidadosa
  18. a pôr na limpa mesa o seu pano asseado,
  19. e a realçar com a areia o solho escasqueado.
  20. Cara mão divinal,
  21. fazes de uma choupana um Éden terreal.

( Levanta-se, e corre a cortina do leito )

  1. E aqui! aqui! Não sei de que ávida tremura
  2. padeço e gozo o assalto. Ai, sonhos de ventura,
  3. durai-me, se podeis, por horas esquecidas.
  4. Foi aqui, puro amor, que uniste duas vidas
  5. num êxtase dos teus, e à terra a glória deste
  6. de obter, fruto de um beijo, um serafim celeste.
  7. Aqui jazeu criança, arfando o terno seio
  8. de vivaz sangue ardente e de porvir tão cheio,
  9. e aqui foi pouco a pouco enfim, toda pureza,
  10. unindo em si os dons da perenal beleza,

( Fala indignado consigo mesmo )

  1. A que vieste aqui? Todo eu sou comoção.
  2. Que intentas? Que pesar te oprime o coração?
  3. Já não és, pobre Fausto, o mesmo que eras dantes.
  4. .................................
  5. Terá magia este ar? Eu, que inda há dois instantes
  6. aos deleites carnais voava audaz, faminto,
  7. como é que num relance enternecer-me sinto?
  8. Somos acaso nós e os nossos sentimentos
  9. um vil joguete do ar, qual chama exposta aos ventos?
  10. .................................
  11. Mas se ela agora entrasse! Ideia qual seria
  12. a justa punição de tanta aleivosia!
  13. Cair-lhe-ias aos pés, convulso, fulminado,
  14. bravo Dom João Tenório em Jan Ninguém tornado!

Cena IV

FAUSTO, e MEFISTÓFELES, que entra correndo da porta do fundo

MEFISTÓFELES (açodado)

  1. Fuja, que já vem perto.

FAUSTO

  1. E é de repente. Juro
  2. nunca mais arriscar-me a semelhante apuro.

MEFISTÓFELES

  1. Aqui lhe trago um cofre, e não é nada leve.
  2. Pilhei-o onde eu cá sei. Meta-o no armário, e breve!
  3. Afirmo-lhe que a moça em vendo o conteúdo,
  4. fica fora de si. Não faço rol miúdo
  5. por não no demorar. São certas prendasitas
  6. que vencem geralmente a feias e a bonitas,
  7. Sei que esta é doutra massa... Adeus! toda a criança
  8. é criança, e um bonito é sempre uma festança.

( Abre-o e mostra-o de relance a Fausto, sem que os espectadores vejam o conteúdo )

FAUSTO

  1. Não sei se devo ousar...

MEFISTÓFELES

  1. E inda o pergunta?... salvo
  2. se prefere deixar a rapariga em alvo,
  3. e fugir co’o presente; e acho que assim faria
  4. muito melhor negócio: o tempo que perdia,
  5. gasta-o a passear; e eu cá lucro igualmente
  6. em não aturar mais um amo impertinente.
  7. Dou que isso no Doutor não vem de ser avaro.
  8. À fé de diabo amigo, eu já não sei, meu caro,
  9. o que lhe hei-de fazer, por mais que esfregue a testa.

( Põe o cofre no armário e dá volta à chave )

  1. Abalar! abalar! Agora o que nos resta
  2. é deixar livre o campo, e tempo à jovem fada
  3. para se lhe mudar de esquiva em namorada.

( Fausto tem-se ido fazendo sorumbático )

  1. Que é isso, meu Doutor? Porque se pôs mazombo?
  2. que chega a atarantar-me? É tal e qual, não zombo,
  3. a carranca de um lente, indo tomar assento
  4. no claustro pleno, e ao dar co’os olhos no espavento
  5. do corpo catedral, que é ter diante a Física
  6. toda como um fantasma, e toda a Metafísica.
  7. Ponhamo-nos ao fresco. Aí vem a nossa bela
  8. já perto desta porta.

( Apontando para a porta do fundo )

  1. Aquela! por aquela!

( Vão-se precipitadamente, enquanto Margarida abre da parte de fora, a porta do lado, e entra. )

Cena V

MARGARIDA, ( trazendo na mão uma lanterna, que põe em cima da mesa )

  1. Ai que ar abafadiço o deste quarto agora!

( Abre a janela )

  1. Mas corre bem fresquinha a noite lá por fora.
  2. Sinto-me não sei como; estou co’uns arrepios!...
  3. Tomara eu já que a mãe... (Credo! olha o mocho aos pios)
  4. tornasse para casa. É celebre! Esta noite
  5. chego a não me entender; preciso quem me afoite.

( Começa a despir-se cantando )

  1. Reinava em Tule algum dia
  2. um bom Rei tão fino amante,
  3. que até morrer foi constante
  4. à dama com quem vivia.
  1. À hora do passamento
  2. deixou-lhe ela um vaso d’oiro,
  3. que foi do Real tesoiro
  4. o mais falado ornamento.
  1. Punham-lho sempre na mesa;
  2. só por aquele bebia;
  3. e o choro que então vertia
  4. causava a todo tristeza.
  1. Vendo o seu termo chegado,
  2. repartiu pelos herdeiros
  3. os bens, té aos derradeiros,
  4. excepto o vaso adorado.
  1. Foi isto em jantar de mágoas
  2. que El-Rei deu à fidalguia,
  3. em torre herdada que havia
  4. ao rés das marinhas águas.
  1. Como El-Rei houve bebido
  2. o seu último conforto,
  3. co’o braço já quase morto
  4. levanta o vaso querido,
  1. e por não deixá-lo ao mundo,
  2. da janela ao mar o atira.
  3. Ondeia o vaso, revira,
  4. enche-se, e desce ao profundo.
  1. No mesmo triste momento
  2. em que o vaso se abismava,
  3. o Rei seus olhos cerrava,
  4. soltando o último alento.

( Abre o armário para arrumar os vestidos, e dá com os olhos no cofre )

  1. Quem poria isto aqui! Meu Deus, eu sei de certo
  2. que não deixei ficar o guarda-fato aberto.
  3. Parece até milagre. É lindo o cofrezinho.
  4. Que haverá dentro nele?... Ah!... cuido que adivinho;
  5. é coisa de penhor que algum necessitado
  6. traria a minha mãe. Tem um fitilho atado,
  7. e presa uma chavinha... Abro ou não abro?... Adeus!
  8. O ver não é furtar. Que escrúpulos os meus!

( Traz o cofre para cima da mesa e abre-o )

  1. Que é isto, Pai do céu! Nunca em dias de vida
  2. vi jamais coisa assim, tão linda, tão luzida.
  3. E adereço completo! A mais rica senhora
  4. com isto num domingo, em festa grande, fora
  5. levar atrás de si o olhar de toda a gente.
  6. Que bem que este colar aqui

( indicando a garganta )

  1. tão refulgente
  2. me havia de ficar! A quem pertenceria
  3. tão vistoso tesoiro!

( Enfeita-se com as jóias, e mira-se ao espelho )

  1. Eu nada mais queria
  2. que estes brincos. A gente, assim paramentada,
  3. té nem parece a mesma. A moça e linda agrada,
  4. é bem certo; contudo os próprios que a elogiam
  5. não se matam por ela: apenas principiam
  6. a lembrar-se que é pobre, os gabos da lindeza
  7. já vão juntos co’o dó. Coitada da pobreza!!

Nota a nota · 1 nota

v. 1Tomara inda saber quem era o cavalheiro!
* – MARGARIDA. – Este nome parece não ter sido tomado ao acaso. Margarida se chamava a primeira amada de Goethe, e amada com verdadeira paixão.
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