Pular para o texto
FaustoQuadro XXI
QuadroXXI

Noite de Santa Valburga . Montanhas de Harz. Região de Schirke e Elend

730 versos · 24 notas do tradutor


Cena I

FAUSTO e MEFISTÓFELES

MEFISTÓFELES (a Fausto)

  1. Em vez de palmilhar, Doutor, não gostaria
  2. de ir num pau de vassoira? Eu por mim preferia
  3. montar um bom cabrão. Antes que lá cheguemos
  4. não nos falta que andar.

FAUSTO

  1. Sou rijo; caminhemos.
  2. Este bordão de nós por ora me é bastante.
  3. E apressar, para quê? Se há gosto que me encante
  4. na jornada que faço, é isto: ir à vontade
  5. vendo este labirinto e a sua variedade;
  6. tanto vale espantoso! e aqui sobre esta penha
  7. a cascata sem fim que troa e se despenha!
  8. Já primavera nova anima os vidoeiros;
  9. engalana-se o mato; alegram-se os pinheiros.
  10. Poderá resistir a natureza humana
  11. a tais influições?

MEFISTÓFELES

  1. Se o mato se engalana
  2. e o Doutor se alvoroça, eu cá não sinto nada.
  3. O que eu tomara sempre era grande invernada,
  4. frio de tiritar, e por quaisquer caminhos
  5. ver só neve, sentir só neve nos focinhos.
  6. Como hoje vem a lua avermelhada, cava,
  7. e a alar-se sem poder! por pouco mais, deixava
  8. às escuras o mundo; é quebrar os narizes
  9. de contínuo em calhaus, em troncos, em raízes.
  1. ... Um fogo-fátuo! Bravo! Há-de dar licença
  2. de o chamar. Fraca luz val mais que sombra densa.
  3. Uh! uh! ó da luzerna! Há-de ter a bondade
  4. de vir mais para aqui. Não gaste a claridade
  5. assim sem mais nem mais. Obséquio nos faria,
  6. se nos fosse diante a destrinçar-nos via
  7. por esta serra acima!

Cena II

Um FOGO-FÁTUO e os ditos

FOGO-FÁTUO

  1. Inda que a nossa essência
  2. é saltitar à toa, eu farei diligência,
  3. já que manda quem pode.

MEFISTÓFELES

  1. Esta é que não é feia.
  2. Até já este pífio os homens macaqueia!
  3. Salte-nos para a frente, em nome do diabo;
  4. e ir direito; senão, verás como te acabo
  5. co’a flamante farófia; um sopro basta.

FOGO-FÁTUO

  1. Sei
  2. que está em sua casa; o que mandar fá-lo-ei;
  3. mas veja que esta noite é a festa das diabruras
  4. cá no monte; e eu também sou uma das figuras,
  5. mas vá lá; faltarei, contanto que releve
  6. a um pobre fogo-fátuo o modo como o leve.

FAUSTO

  1. Cuido que já ’stamos no país fantástico
  2. de encantos e sonhos.
  3. Avante, bom guia! Transpõe estes páramos
  4. vazios, tristonhos.
  5. Como umas trás outras nos fogem as árvores,
  6. recurvas, ligeiras!
  7. E os serros baixando-se! E os roncos e os síbilos
  8. das rotas pedreiras, que vão a arquejar!
  1. Que palram as águas? que diz toda a harmónica
  2. loquaz natureza?
  3. Serão ternas mágoas, queixumes, ou cânticos?
  4. é gozo? é tristeza?
  5. de dias celestes celestes memórias?
  6. amor? esperança?
  7. recordos confusos de gostos pretéritos?
  8. vão eco? ou lembrança de lenda a passar?

MEFISTÓFELES

  1. Ui! que algaravia!
  2. Bufídos e pios,
  3. silvos e assobios
  4. cada vez mais perto!
  5. Já antes do dia,
  6. cá neste deserto,
  7. andam levantados
  8. gaios, papafigos!
  9. Que sócios e amigos
  10. tão desafinados
  11. as c’rujas não tem!

FAUSTO

  1. E aqueles pernudos,
  2. ascosos, pançudos,
  3. nas moitas além...
  4. serão salamandras?
  5. E aquelas malandras,
  6. que rompem das gandras,
  7. fazendo ameaços,
  8. lançando mil braços
  9. qual polvo traidor!

MEFISTÓFELES

  1. Meras raizadas,
  2. todas emproadas
  3. a aterrar as gentes,
  4. fingindo serpentes.

FAUSTO

  1. Toupeiras e ratos,
  2. relé variegada,
  3. no musgo dos matos,
  4. na lama encharcada
  5. sem conto esfervilham.
  6. Para a festa voam, brilham,
  7. vaga-lumes aos milhares,
  8. azoinado redemoinho.

MEFISTÓFELES

  1. Mas seguimos nós caminho,
  2. ou quedamo-nos pasmados?

FAUSTO

  1. Tenho os olhos já cansados
  2. de ver tudo a rodopiar,
  3. de ver tanto horrendo esgar
  4. nuns penedos desalmados,
  5. na rudez de uns troncos broncos
  6. tão medonhas carantonhas.
  7. Fogos-fátuos nunca vi
  8. como aqui tão abundantes,
  9. alentados e arrogantes.

MEFISTÓFELES (a Fausto)

  1. Mas não me largue a cauda. Estamos na eminência,
  2. que descobre em redor toda a magnificência
  3. do espantoso Mamon .

FAUSTO

  1. Que baça aurora estranha
  2. se espraia lá por baixo ao sopé da montanha
  3. té ao mais fundo abismo! Aqui surge um vapor,
  4. exalações de além; mais longe um misto horror
  5. de treva e fogo, a andar como um fio delgado,
  6. que afinal como fonte em jorro desatado
  7. serpeia pelo vale em cem veias; confluem
  8. todas ao mesmo ponto, e dali distribuem
  9. no vizinho arredor chispante areia d’oiro.
  10. Quem a escarpa do monte iluminou de estoiro,
  11. toda de cima a baixo?

MEFISTÓFELES

  1. In verbo luminárias,
  2. as do senhor Mamon são extraordinárias;
  3. pois não são? Despicou-se a abrilhantar a festa.
  4. À fé que o meu Doutor nunca esperou por esta;
  5. hein?
  6. Mas tate... que avento a cáfila bravia
  7. vir já lá de rondão ao cheiro da folia.

FAUSTO

  1. Safa, que furacão! Mete-me as costas dentro.

MEFISTÓFELES

  1. Se não quer ir parar do negro abismo ao centro,
  2. Doutor, não há remédio; é com unhas e dentes
  3. ferrar-se por aí às costelas patentes
  4. do serro descarnado. Ui! que nevoeiro cego
  5. cega inda mais a noite, escura como um prego!
  6. Ouviu nunca fragor como anda no arvoredo?
  7. As corujas pelo ar esvoaçam-se de medo;
  8. as colunas do paço eterno-verde racham
  9. as pernadas gemendo estorcem-se e se escacham;
  10. estalam troncos; rota a raizada crepita;
  11. tudo em medonho caos rui e se precipita,
  12. trovejando e silvando até o fundo abismo
  13. das voragens que atulha o horrendo cataclismo.
  14. Não sente vozear lá no alto, e ao longe, e ao perto?
  15. Ora aí vem já de certo
  16. chegando o reboliço
  17. que vem povoar este montês deserto
  18. nas horas do feitiço.

Cena III E SEGUINTES

OS MESMOS, e sucessivamente as figuras que a seus tempos se irão indicando

FEITICEIRAS E FEITICEIROS

  1. De Brocken ao rochedo,
  2. correr, correr, bruxedo!
  3. Onde a cana já loireja,
  4. mas a espiga inda verdeja,
  5. todo o bando unido seja.
  6. Posto de alto e todo mano,
  7. é o senhor Dom Fulano
  8. quem preside ao nosso arcano.
  1. Por cima da folha, mais do pedregulho,
  2. festança rasgada com todo o barulho.
  3. O bode tresanda fartum que enfeitiça,
  4. e a bruxa castiça, castiça e castiça.

UMA BRUXA

  1. Lá vem, e vem só,
  2. a velha Bóbó,
  3. nossa rica avó.
  4. Que flamante vem
  5. para a patuscada,
  6. toda escarranchada
  7. numa porca-mãe!

CORO

  1. Quem de todas é primeira,
  2. toca-lhe ir na dianteira.
  3. Tudo atrás da vo-vozinha,
  4. que parece uma rainha
  5. sobre a porca parideira.

UMA BRUXA (para outra)

  1. Donde vens?

A OUTRA

  1. Da roca
  2. d’Ilsen, onde está,
  3. dentro numa toca
  4. funda negra e suja,
  5. ninho de coruja.
  6. Deitou-me de lá,
  7. com ar macambúzio,
  8. por ver a espreitá-la,
  9. um lúzio... que lúzio!

BRUXA

  1. Cal’-te aí! Quem te ora fala
  2. de coruja? Subvertida
  3. sejas tu!

OUTRA

  1. Mas que pressa! Onde é a ida?

A OUTRA

  1. Já do chouto vou ferida.
  2. Podes vê-lo: olha este...

FEITICEIRAS E FEITICEIROS

  1. Leva, leva, cavalgada,
  2. que tão cedo não se apanha
  3. ver o fim de tal jornada
  4. por tais fragas de montanha.
  5. A vassoira arranha.
  6. O forcado fura.
  7. E todas põe manha
  8. na cavalgadura.
  9. E o chouto nas panças
  10. abafa as crianças.
  11. E as mães coitadinhas,
  12. a cada pinote
  13. vão para as vizinhas
  14. tocando fagote.

O CORIFEU DOS FEITICEIROS

  1. Deixar lá ir as seresmas
  2. de escantilhão nos seus potros.
  3. Fica melhor a nós-outros
  4. esta andadura de lesmas.
  5. Se tudo vai para o paço
  6. do Grão-Perro, não se queira
  7. estranhar ao femeaço
  8. que nos leve dianteira.

A CORIFÉIA DAS FEITICEIRAS

  1. Falem, falem, linguarudos!
  2. É que na estrada dos demos,
  3. onde nós mil passos demos,
  4. chegam num pulo os barbudos.

VOZ DO ALTO DO MONTE

  1. Olá da lagoa,
  2. vinde para a altura!

VOZ NA BAIXA

  1. A vontade é boa,
  2. mas o banho apura
  3. do corpo a brancura.
  4. Por isso, cá ’stamos,
  5. se bem, coitadinhas,
  6. que, mais que façamos,
  7. por mais que lavamos,
  8. por mais que esfregamos,
  9. ficamos maninhas,

FEITICEIRAS E FEITICEIROS

  1. Cala o vento; não há vê-la
  2. meia estrela.
  3. A baça lua
  4. de todo amua.
  5. Passa alvorotado
  6. o bando encantado
  7. como um turbilhão,
  8. deixando crivado
  9. de chispas o chão.

VOZ EM BAIXO

  1. Parem, parem!

VOZ NO ALTO

  1. Quem nos brada
  2. dos algares do rochedo?

VOZ EM BAIXO

  1. Levai-me deste degredo,
  2. que a trepar pelo fraguedo
  3. levo há já trezentos anos,
  4. sem chegar à cumeada!
  5. Deixai-me ir convosco hermanos!

FEITICEIRAS E FEITICEIROS

  1. Ala, ala, vassouras, forcados,
  2. bodes, trancas! arriba, às alturas!
  3. Ai de quem as não vinga; maus fados
  4. para sempre lhe estão destinados
  5. nas funduras.

SEMI-BRUXA (na baixa)

  1. Vou-lhes na peugada
  2. correndo estafada.
  3. Tamanho é o avanço,
  4. que não as alcanço.
  5. Já lá na casinha
  6. Não tinha descanso.
  7. Mesquinha, mesquinha,
  8. debalde me canso.

FEITICEIRAS

  1. Feiticeira bem untada
  2. feiticeira bem dotada.
  1. De uma gamela
  2. faz caravela;
  3. de uma rodilha
  4. faz uma vela
  5. com que a amantilha.
  6. Navega por ’í fora;
  7. bom vento, e vive Alah!
  8. Quem não viaja agora,
  9. quando viajará?

TUTTI

  1. Sus, apear, desembarcar!
  2. Chegou-se enfim aos grandes cimos.
  3. Poisar agora e descansar
  4. quantos e quantas ora vimos
  5. esta charneca povoar!

( Vão-se assentando).

MEFISTÓFELES

  1. Que apertão, que empurrões, que barafunda,
  2. tropeções, castanholas, assobios,
  3. empuxões, voltas, pálreas, luzes-luzes,
  4. fagulharia, fétidos ardores...
  5. em suma feira franca de feitiços.
  6. Cosa-se bem comigo, que a esgarrar-se
  7. não sei onde irá ter... Onde está ele?...
  8. Doutor! Doutor!

FAUSTO (Muito longe)

  1. Aqui...

MEFISTÓFELES

  1. Já lá tão longe!
  2. Não há remédio. Cá nos meus morgados
  3. sou eu só quem governa. Afasta! arreda!
  4. Dom Barzabu que chega! Abri-lhe praça,
  5. raia miúda!
  6. Aqui, Doutor! segure-se!
  7. Belo; e agora é safarmo-nos num pulo,
  8. dentre esta turbamulta, que atordoa
  9. até aos do meu pano.
  10. Espere... aquilo
  11. que será que além brilha? Estou curioso,
  12. Meto-me à sarça. Venha, venha! Entremos,
  13. sem fazer bulha.

FAUSTO

  1. Mais variável génio
  2. do que tu és, não quero que haja. Embora!
  3. Vamos lá; mas só doidos tal fariam:
  4. Cansar a gente a marinhar ao Brocken
  5. na noite de Valburga, e por desfecho
  6. ter o que? embrenhar-se como os bichos.

MEFISTÓFELES

  1. Não trove de repente! Afirme a vista!
  2. Perceberá candeios de mil cores.
  3. Há lá festa; há-de achar-se acompanhado,
  4. mas sem balbúrdia.

FAUSTO

  1. Ao píncaro do monte
  2. mais folgara que fôssemos; avisto
  3. já por lá turbilhões de fogo e fumo.
  4. Que de devotos que ao maligno acodem!
  5. E que de enigmas que hão-de ali solver-se!

MEFISTÓFELES

  1. E que de outros urdir-se! Os mais que folguem
  2. a seu sabor; nós-outros desfrutemos
  3. à chucha-caladinha a nossa conta.
  4. Isto de conventículos formados
  5. na grande sociedade é moda antiga.
  6. Lá vejo eu bem gentis feiticeirinhas
  7. nuas em pelo; e velhas à cautela
  8. todas bioco. Não me faça d’urso!
  9. Mas que seja tão só por me dar gosto,
  10. quero-o ver todo França. O custo é pouco,
  11. e o gáudio de enche-mão. Oiço instrumentos,
  12. ou coisa que o parece; irra, que bulha!
  13. Paciência! a princípio é que se estranha.
  14. Venha comigo, mexa-se! já agora
  15. não há remédio. Eu sou quem o apresenta,
  16. por isso vou diante. Em realidade,
  17. sempre o nosso Doutor me deve muito!
  18. Que tal acha este campo? é formidável,
  19. pois não é? custa a ver o limite.
  20. Arde ao redor um cento de fogueiras;
  21. baila-se; palra-se; enche-se a barriga;
  22. pinga a rodo; mocedo à tripa forra.
  23. Onde é que pode haver melhor cantate?

FAUSTO

  1. Tu, como é que na súcia te apresentas?
  2. como diabo, ou disfarçado em bruxo?

MEFISTÓFELES

  1. Costumo andar incógnito; mas hoje
  2. dia de gala, assoalham-se as veneras;
  3. não ponho jarreteira; o pé de cabra
  4. mete mais vista. Já lá vem a rastos
  5. um caramujo, de focinho em terra;
  6. já me aventou aposto. Está sabido:
  7. encobrir-me eu aqui, era impossível.
  8. Toca, toca a rodar essas fogueiras.
  9. O alcaiote sou eu; por sua conta,
  10. só fica o desfrutar.

( Dirige-se a uma roda de velhos , que cercam um brasido de fogueira )

  1. Vocês, velhotes,
  2. que fazem por aqui? Se os visse andarem-se
  3. de réstia co’os pimpões da brincadeira,
  4. entendia; mas isto, acantoados
  5. como ermitães, que val ou que lhes presta?
  6. Era muito melhor não vir à festa.
  1. UM DOS VELHOS, GENERAL
  1. No fim lhe há-de achar a errata
  2. um parvo que serve ao povo,
  3. e por lhe agradar se mata.
  4. Mulher quer sempre ao mais novo;
  5. plebe ao da última data.
  1. OUTRO VELHO, MINISTRO
  1. Tempinho santo o passado.
  2. Hoje, que há ’í de sisudo,
  3. de bom, de bem ordenado?
  4. Século, em que éramos tudo,
  5. foste o século doirado.
  1. TERCEIRO VELHO, PARVENU
  1. Espertos, também nós fomos,
  2. que engordámos e subimos,
  3. sem nos prendermos nos cornos.
  4. Entraram novos mordomos,
  5. fugiu-nos tudo, e caímos.
  1. QUARTO VELHO, UM AUTOR
  1. Quem sofre hoje as obras ler
  2. de chorume e de saber?
  3. A exclusiva faculdade
  4. do julgar e do escrever
  5. toca à fátua mocidade.

MEFISTÓFELES (parecendo de repente velhíssimo)

  1. O dia de juízo é já propínquo.
  2. Nesta minha subida derradeira
  3. ao monte dos feitiços, reconheço
  4. que está chegada ao termo a humanidade;
  5. por isso o meu barril já deita as borras.

UMA BRUXA BELFURINHEIRA

  1. Não passem, fregueses, sem ver a fazenda
  2. de trinta mil castas, que trago hoje à venda.
  3. Não são galanduchas, que nunca alguém visse.
  4. Não vem coisa alguma, que já não servisse
  5. uma vez ao menos de perder a alguém.
  6. quem vem? quem enfeira? fregueses, quem vem?
  7. Nenhum punhal trago que não se embainhasse
  8. nalgum coração;
  9. nem copa brilhante, que não propinasse
  10. veneno terrível aos lábios de um são;
  11. nem jóia que à honra de bela donzela
  12. não fosse fatal;
  13. nem folha de espada que nunca em cilada
  14. se visse cravada por mão desleal.
  15. Mil outras como estas a arqueta contém,
  16. que em algo funestas já foram a alguém.
  17. Quem vem? quem enfeira? fregueses, quem vem?

MEFISTÓFELES (tornando-se outra vez moço)

  1. A adela anda no mundo trasnoitada,
  2. por força; pois não sabes que hoje em dia
  3. só se quer dito e feito, e sempre novo?

FAUSTO

  1. Já começo a temer, com tal barulho,
  2. de mim próprio afinal vir a esquecer-me.
  3. E chama-se isto feira!

MEFISTÓFELES

  1. Antes se chame
  2. fervença de ambiciosos apostados
  3. a qual primeiro se verá no cume.
  4. Cuidas ir empurrando, e és empurrado.

FAUSTO

  1. Aquela quem será?

MEFISTÓFELES

  1. Pois não conhece!
  2. Repare; é a Lilita .

FAUSTO

  1. Hein! que Lilita?

MEFISTÓFELES

  1. A Lilita da Costa; não te lembras?
  2. a primeira mulher de Adão de Barros.
  3. Cuidado em ti co’os seus gentis cabelos,
  4. que os não há mais encanto. Ai do mancebo
  5. que neles se enredar; nunca mais foge.

FAUSTO

  1. E essas duas a par tão bem sentadas,
  2. a velha, mais a moça? Esbaforiu-as
  3. sem dúvida o bailar.

MEFISTÓFELES

  1. Isto hoje, amigo,
  2. não dá trégua nem folga. Aí principia
  3. já outro bailarico. Ande depressa!
  4. agarre um par e salte! A coisa é essa.

( Fausto dança com a moça, e Mefistófeles com a velha. )

FAUSTO (dançando e cantando)

  1. Em macieira de estima
  2. sonhei ver duas maçãs;
  3. tão d’enche-mão, tão louçãs
  4. que lhes saltei logo em cima.

BELA (idem)

  1. Se de maçãs tanto gostas,
  2. não vás com o Éden sonhar.
  3. Também eu no meu pomar
  4. cá tenho maçãs bem-postas.

MEFISTÓFELES (idem)

  1. E eu sonhei co’uma cepeira
  2. .................................
  3. .................................
  4. .................................

A VELHA (dançando)

  1. Lá tocas não têm concerto,
  2. senhor Dom Pé cavalar,
  3. .................................
  4. .................................

PROCTOFANTASMISTA

  1. Gente maldita, que ousadia a vossa!
  2. Não se vos provou já que nunca espírito
  3. pode aguentar-se em pé? Sais-me agora
  4. até dançantes!

BELA (continuando a dançar)

  1. Que lhe importa a ele
  2. o que se faz no baile?

FAUSTO (dançando)

  1. É manha velha:
  2. em tudo se intromete. Em não podendo
  3. impugnar cada passo, abnega o todo.
  4. E o que o mais rala, é ver que se progride.
  5. Resolvessem-se os mais a andar como ele
  6. sempre à roda em zunzum de dobadoira,
  7. tinham certo o seu A, principalmente
  8. se o mazorral sistema encomiassem.

PROCTOFANTASMISTA

  1. Ateimam! não se vão! Quem viu tal birra?
  2. Víspere, coisas más! Não nos ouviste
  3. O Fiat lux ? Canalha de diabos,
  4. as regras só lhes servem de debique.
  5. Até nós, nós, protótipo do siso,
  6. sentimos dar-nos volta a mioleira,
  7. pensando no que aí vai. Ter eu varrido
  8. todas essas insulsas nigromâncias,
  9. e ver como inda o mundo me enxovalham
  10. Ateimam! Não se vão! Quem viu tal birra?

BELA

  1. Homem, não mace mais!

PROCTOFANTASMISTA

  1. Na própria cara
  2. vo-lo repito, Espíritos! Não sofro
  3. a Espíritos ser déspotas; e a causa
  4. é que déspota ser não posso eu mesmo.

( Continuam a dançar )

  1. Tudo hoje me sai torto. Paciência!
  2. Aldemenos, fiz mais esta Viagem.
  3. E antes que faça a última, inda espero
  4. vencer alfim diabos e poetas.

MEFISTÓFELES

  1. Daqui a nada, assenta-se num charco,
  2. que nisso é que acha alívio. As sanguessugas
  3. as nalgas lhe dessangram, té que o deixem
  4. de espíritos e espírito curado.

( A Fausto, que deixou a dama )

  1. Deu de mão à formosa parceirinha,
  2. tão sereia no canto?

FAUSTO

  1. Irra, que nojo!
  2. Ao cantar, cuspiu fora um morganhinho,
  3. por sinal encarnado.

MEFISTÓFELES

  1. Ora que espantos!
  2. Inda se fosse pardo... E por tão pouco
  3. se esperdiça a maré do carvoeiro?

FAUSTO

  1. Mas é que inda vi mais.

MEFISTÓFELES

  1. Mais quê?

FAUSTO

  1. Repara!
  2. Não vês além ...ao longe...em pé...sozinha
  3. uma linda menina, aspecto pálido,
  4. passos de quem arrasta ferropeias?
  5. Quer-se-me figurar que as parecenças
  6. são tais quais as da boa Margarida.

MEFISTÓFELES

  1. Deixe lá isso: o engar em certas coisas
  2. às vezes não é bom. São vãs sombrinhas;
  3. que lhe quer? imposturas do bruxedo.
  4. Querer vê-las ao perto é perigoso.
  5. Pessoa em que as visões encarem fito
  6. ficou, a bem dizer, petrificada.
  7. Sabe o que era a Medusa?

FAUSTO

  1. Em realidade,
  2. os olhos são como olhos de defunto
  3. não cerrados à luz por mão piedosa.
  4. Aquele é o próprio seio, o ninho amante
  5. da minha Margarida; aquele o corpo
  6. que já foi meu tesoiro.

MEFISTÓFELES

  1. Usuais efeitos
  2. da arte ruim, meu crendeirão palerma.
  3. Cada um vê naquilo a própria amada.

FAUSTO

  1. Oh que céu! oh que inferno! Olhar é esse,
  2. que o não posso fugir. E a gargantilha
  3. que lhe cinge o pescoço! um fio apenas,
  4. estreito como as costas de uma faca,
  5. e vermelho.

MEFISTÓFELES

  1. Bem vejo. Até podia
  2. trazer já a cabeça sobraçada,
  3. que lha cortou Perseu; não há quimeras
  4. que lhe fartem a sede.
  5. Ora subamos
  6. àquele oiteiro; é vista deleitosa
  7. como a do Prater .
  8. Bravo! Se não trago
  9. eu próprio a vista co’os feitiços doida,
  10. vejo um teatro. Que irá lá?

SERVIBILIS

  1. Senhores,
  2. há hoje peça nova, a derradeira
  3. das sete do costume; é de um curioso,
  4. e por curiosos só representada.
  5. Sem mais, vou-me com pressa erguer o pano.

MEFISTÓFELES

  1. Sim senhor; se no Block a representam,
  2. em sítio próprio o seu teatro assentam.

ADVERTÊNCIA ACERCA DAS ÁUREAS NÚPCIAS DE OBERON E TITÂNIA

Havia o tradutor omitido a princípio esta pequena parte do poema; movera-o a isso o receio de quebrar importunamente o fio dramático; e, mais que tudo, o horror à escuridade que afronta e regela o trecho todo, no conceito dos próprios alemães.

Ficaram-no todavia remordendo escrúpulos por uma parte, por outra receios do que diriam praguentos, pelo decote cérceo de tal enxerto; e (custasse o que custasse, e desse por onde desse) resolveu à última hora que se atulhasse o fosso, para que o poema saísse, se não mais aprazível a quem houvesse de o correr, pelo menos sem a pecha de incompleto.

Cabe porém advertir que o próprio autor, já talvez por descargo de consciência, intitulara intermesso esta ensancha alinhavada no seu manto poético, e da qual os seus patrícios, e seus primeiros admiradores, nenhuma conta fazem nas representações do Fausto .

Outro tanto poderão fazer os nossos leitores quando aqui chegarem.

Pelo que toca ao mérito literário e poético do fragmento, muito de indústria se abstém o tradutor de emitir aqui a sua opinião. Declara só que nenhuma outra parte de todo o livro lhe queimou tanto o sangue como esta; e que ainda agora lhe desvela horas da noite o cuidar, se às vezes não andaria perdido por tão intrincado labirinto.

As Áureas Núpcias são, em boa e leal verdade, uma enfiada de adivinhações, mais temperadas, ao que se pode crer, de pimenta que de sal, e com cujo sentido alusivo, ou satírico, dou que nem já atinarão hoje em dia os mais dos leitores dessas Alemanhas.

Vai pois a coisa o melhor, ou o menos mal que por cá se pôde entender e interpretar.

ÁUREAS NÚPCIAS DE OBERON E TITÂNIA OU OS CINQÜENTA ANOS DE CASADOS (INTERMESSO)

( N. B. - A vista poderá ser ainda a precedente )

O DIRECTOR DO TEATRO

  1. Sus, boa gente de Miedingue !
  2. folguedo franco hoje nos vingue
  3. da eterna lida teatral.
  4. Para o bailete alegre e vário
  5. aí ’stá nosso único cenário:
  6. um monte seco, e um fresco val.

ARAUTO

  1. De oiro se chama o casamento
  2. que atingiu de anos meio cento
  3. mas eu mais de oiro o chamarei,
  4. quando, após guerras desabridas,
  5. a paz reenlaça as duas vidas.
  6. Esse é que é de oiro, e oiro de lei.

OBERON

  1. Olá, meus génios! se a alegria,
  2. que me alvoroça neste dia,
  3. é para vós também prazer,
  4. deveis mostrá-lo. Hoje a Rainha,
  5. graças a Amor, volve a ser minha,
  6. como eu já dela torno a ser.

PUCK

  1. Cá vem Róbim desengonçado,
  2. como pião num pé firmado,
  3. e à roda dele o outro a girar.
  4. Doutros que tais profuso bando
  5. o vem à farta acompanhando,
  6. que a todos toca este folgar.

ARIEL

  1. Cá está o Ariel dos sons divinos,
  2. que enleva a muitos malandrinos,
  3. e a belas mil também atrai.

OBERON

  1. Pares de esposos desgraçados,
  2. se desejais ser bem casados,
  3. lição e exemplo em nós tomai.
  4. Quem me hoje alegra o casamento
  5. não foi senão o apartamento;
  6. o apartamento esperta amor.

TITÂNIA

  1. Quem vir mulher que já não zomba,
  2. e homem que sempre anda de tromba
  3. cure-os de mal tão sem-sabor:
  4. mande o marido para o norte,
  5. e para o sul mande a consorte;
  6. reacendeu-se o extinto ardor.

ORQUESTRA TUTTI (fortíssimo)

  1. Besoiros e moscas, e mais parentela
  2. que zumbe e gaiteia por vários estilos,
  3. as rãs nos caniços, nas tocas os grilos,
  4. serão nossa orquestra; quem na ouviu mais bela?

SOLO

  1. Lá vem por cornamusa
  2. a bolha de sabão,
  3. com salsada abstrusa
  4. das cantilenas que usa
  5. juntar ao seu roncão.

ESPIRITINHO (que se está formando)

  1. Pés de aranha, barriga de sapo,
  2. e asasitas de um nada vivente,
  3. se de ser animálculo escapo,
  4. em poemeto darei certamente.

PARZINHO

  1. Passinhos, pulinhos por névoas melífluas
  2. consomem-te, matam-te em ânsia ilusória.
  3. Patinha, patinha, já nunca do ínfimo
  4. te irás às esferas; gorou-se-te a glória.

VIANDANTE CURIOSO

  1. Que será o que vejo? mascarada
  2. sem tom nem som,
  3. ou delírio da vista alucinada?
  4. será esta realmente a venerada
  5. figura de Oberon?

ORTODOXO

  1. Não tem unhas nem tem rabo;
  2. mas com lhe faltar tal sécia,
  3. é, como Os Deuses da Grécia ,
  4. um verdadeiro diabo.

ARTISTA DO NORTE

  1. Só faço por enquanto esboços d’arte;
  2. mas cedo, Itália, espero visitar-te.

PURISTA

  1. Onde eu me vim meter! que bruxas depravadas!
  2. só duas, duas só, só duas empoadas!

BRUXA MOCINHA

  1. Quem é carcassa usa polvilho,
  2. e cobre o corpo o mais que pode;
  3. eu monto nua no meu bode;
  4. quem é gentil não quer mais brilho.

BRUXA MATRONA

  1. Não somos nós tão grosseironas,
  2. que te queiramos replicar;
  3. mas se co’as graças te apavonas,
  4. olha que a rosa há-de murchar.

MESTRE DE CAPELA

  1. Besoiro trompa,
  2. mosquito gaita,
  3. co’a nua pompa
  4. da serigaita
  5. que tendes vós?
  6. grilos e relas
  7. a tempo a voz;
  8. solfas tão belas
  9. sem o compasso
  10. com que vos maço
  11. são bulha atroz.

O CATA-VENTO (para um lado)

  1. Quem viu nunca melhor sociedade?
  2. tudo moças, perfeitas donzelas!
  3. tudo moços digníssimos delas!
  4. que promessas à posteridade!

( Para o outro lado )

  1. Eu se a terra, enquanto encho um só giro,
  2. se não abre e os soverte por junto,
  3. juro, à fé de quem sou, que barrunto
  4. abismar-me no inferno; e prefiro.

XÉNIOS

  1. Vespões de acérrimos ferrões
  2. cá vimos nós; arredem lá;
  3. morder é a chança dos vespões,
  4. mais de Satã seu bom papá.

HENNINGS

  1. Tem muita graça o denso enxame;
  2. que ingenuidade de vespões!
  3. ninguém lhe chame
  4. maus corações.

MUSAGETE

  1. Sim senhor; aqui sim, neste bando
  2. de bruxas machuchas
  3. é que eu ando no meu elemento.
  4. As musas confusas
  5. nunca eu trouxe a mandamento.

O EX-GÉNIO DO SÉCULO

  1. «Chega-te aos bons» - diz o rifão;
  2. portanto, agarra-te ao meu rabo;
  3. esta montanha do diabo
  4. é como o Parnaso alemão,
  5. que ninguém pode ver o cabo.

O VIANDANTE CURIOSO

  1. Aquele figurão empertigado,
  2. ventas no ar, olho alerta, orelhas fitas,
  3. quem será? que fareja azafamado?
  4. anda à caça; de quê? de jesuítas.

O GROU

  1. Nas águas turvas pesco assim como nas claras;
  2. de quaisquer sítios gosto, em sendo à pesca idóneos.
  3. Se o tiveras sabido, à fé que não pasmaras
  4. de ver tão mão por mão um santo com demónios.

UM MUNDANO

  1. Há, sempre houve, e há-de haver, beatos dessa casta
  2. que o int’resse conduz, como a boi, pela soga
  3. qualquer demo os atrai à sua sinagoga,
  4. co’o engodo do lucro; é acenar-lho, e basta.

O DANÇARINO

  1. Outro coro lá vem; não ouvis
  2. tamboris?
  3. Sossegai; não é som de pelejas;
  4. são narcejas
  5. lá ao longe a gralhar nos caniços
  6. movediços.

O MESTRE DE DANÇA

  1. Aquele perneia, que é só o que importa;
  2. dá saltos cá este, que os olhos entorta;
  3. est’outro, o baselga, pirueta; e nem meio
  4. pergunta se dança bonito nem feio.

O RABEQUISTA

  1. Em toda esta súcia nenhum dos mais gosta;
  2. tomaram trincar-se! irias vê-los à aposta
  3. de mútuos cortejos! à gaita de fole
  4. se deve o milagre; domou alimárias
  5. como Orfeu, à lira casando as suas árias.

O DOGMÁTICO

  1. Nem objecções nem críticas
  2. me hão-de tirar da minha
  3. e escusam de gritar;
  4. o diabo algo é sem dúvida;
  5. se não fosse algo, eu tinha
  6. modo de o acreditar?

O IDEALISTA

  1. Domina-me a fantasia.
  2. Se quanto existe sou eu,
  3. havendo gente sandia,
  4. ergo sou também sandeu.

O REALISTA

  1. Ser é para mim tormento;
  2. devo aborrecer o ser;
  3. são-me as pernas fundamento
  4. que sinto hoje estremecer.

O SUPER-NATURALISTA

  1. Dou a tudo isto mil gabos;
  2. folgo com estes marmanjos;
  3. pois de existirem diabos
  4. concluo existirem anjos.

O CÉPTICO

  1. Anda após luzes-luzes toda a gente
  2. um tesoiro a buscar sempre escondido;
  3. a dúvida é aos diabos inerente;
  4. fico-me entre eles, que eu também duvido.

O MESTRE DE CAPELA

  1. Rãs nos ervançais, grilos nos relvados,
  2. músicos danados!
  3. moscas e mosquitos!
  4. que inferneira é esta!
  5. que orquestra!
  6. músicos malditos!

OS HABILIDOSOS

  1. Somos uns padres sem cuidados;
  2. nosso viver é desfrutar.
  3. Quando nos tolhem caminhar
  4. co’os pés no chão, pronto virados,
  5. nas mãos e cabeça firmados,
  6. corremos de pés para o ar.

OS LORPAS

  1. Que bons bocados que outrora
  2. apanhávamos! agora,
  3. a poder de rapapés
  4. foram-se as solas; e os pés
  5. andam co’os dedos de fora.

FOGOS FÁTUOS

  1. Recém-nados dos lameiros
  2. cá viemos mui lampeiros
  3. figurar de cavalheiros
  4. assoalhando estes luzeiros.

ESTRELA CADENTE

  1. Já fui astro dos céus; caí num mato agreste;
  2. poder nenhum me acode.
  3. Quem reascender-me pode
  4. Do pó em que ora jazo, à cúpula celeste?

OS SÓLIDOS

  1. Arreda! afasta! abram caminho!
  2. guardar de baixo ervas e arbustos!
  3. somos espíritos robustos;
  4. pesamos pois um poucochinho.

PUCK (para o sólidos)

  1. Nada de peso de elefantes
  2. no dia de hoje hoje é mister
  3. que todos vençam em farsantes
  4. ao próprio Puck; e ele o requer.

ARIEL

  1. Se asas tendes vigorosas,
  2. por condão da natureza,
  3. e do génio criador,
  4. é seguir-me com presteza
  5. ao montículo onde as rosas
  6. dão fragrância e sombra a amor.

ORQUESTRA (pianíssimo)

  1. O sol reaparece; desfaz-se a neblina;
  2. nas canas, nas ervas, por toda a colina
  3. sussurram as auras; desfez-se o prestígio;
  4. de tanta diabrura não resta vestígio...

FINIS LAUS DEO

Nota a nota · 24 notas

v. 107do espantoso Mamon .
* – Do espantoso Mamon. – Mamon ou Mamona divindade de origem assíria, segundo se crê, é nomeado no Novo Testamento como demónio das riquezas ou como sinónimo delas. Ninguém pode servir ao mesmo tempo a Deus e a Mamona diz o texto. Razão teve logo o poeta para conferir a tal génio uma espécie de presidência sobre as inferneiras da véspera de Santa Valburga. Não deixa de ser curioso o pequeno artigo de Bluteau no vocabulário acerca de Mamona.
↩ voltar ao verso 107
v. 151é o senhor Dom Fulano
* É o senhor Dom Fulano Quem preside ao nosso arcano. Fulano pareceu a melhor tradução do nome Urian posto por Goethe e convertido pelo tradutor francês em Belial, pelo Sr. Maffei em Uran, pelo Sr. Ornellas em Uriante. A palavra alemã não é nome próprio, empregam-na quando querem suprir com um termo genérico um nome que ou não ocorre ou por qualquer motivo se pretende ocultar, assim como entre nós se diz fulano ou sicrano, e fuão se dizia entre os nossos passados. A repugnância que muitos sentem a proferir diabo, Lúcifer, Satanás, etc., tem ocasionado no povo o costume de o designarem por diversas alcunhas: o cão ou perro tinhoso, o careca, o Pero de Malasartes o inimigo, o tentador, o maldito, o atiça, o canhoto, o Pero Botelho, etc., etc. Pareceu-nos, atento tudo isto, e considerando que as bruxas o não quereriam injuriar, que a designação de fulano vinha em tudo de molde para verter o Urian.
↩ voltar ao verso 151
v. 375Não passem, fregueses, sem ver a fazenda
* – BRUXA BELFURINHEIRA – Há quem presuma que a pregoeira de monstruosidades, perfídias e infâmias simboliza a Imprensa desaforada.
↩ voltar ao verso 375
v. 404Repare; é a Lilita .
* – Lilita. – Pareceu-nos que o nome assim escrito saia melhor para o português que Lilit. O que ainda não conseguimos entender é a razão de se ter assim trocado o nome de Eva bem como o dizer-se que fora ela a primeira mulher de Adão. Se graça é isto que o poeta põe na boca do pai da mentira, fria graça nos parece. Andaria aí alguma alusão à Lili, por quem o poeta nos conta nas suas memórias ter andado perdido de amor? A ser isso, o trecho para ele e para ela poderia ter algum sentido talvez: para os mais ficou enigma indecifrável. Como disparates se podem sem dispensa casar entre si, não pusemos dúvida em aplicar ao primeiro homem o apelido de Barros e à primeira mulher o de Costa, destemperado joguete de palavras que nos lembra ter encontrado nas facécias do poeta cabeleireiro António Joaquim de Carvalho.
↩ voltar ao verso 404
v. 525Sus, boa gente de Miedingue !
* – Miedingue. – Escrevemos em português Miedingue em lugar de Mieding, que era o verdadeiro nome do alemão. Dele diz em nota o nosso laborioso predecessor na tradução do Fausto, o Sr. Agostinho de Ornellas, o seguinte: «João Martinho Mieding era director do cenário no teatro da corte em Weimar. Chamava-lhe Goethe, em razão da sua habilidade, o director da natureza.»
↩ voltar ao verso 525
v. 531De oiro se chama o casamento
* – De oiro se chama o casamento. – Inegavelmente a ideia originária destas Áureas núpcias pertence, como já tocámos, a Shakespeare. Da mesma fonte procedeu também provavelmente o Oberon de Wieland, donde adveio à nossa poesia o mais agradável dos escritos de Filinto Elísio.
↩ voltar ao verso 531
v. 543Cá vem Róbim desengonçado,
* – Cá vem Róbim desengonçado. – Este Puck, Robin, Róbim, Robino, ou como mais acertadamente se possa chamar, é um trasgo brincalhão, pertencente à corte do rei dos génios Oberon, e filho também do fecundo espírito de Shakespeare. Se quereis ver o diabrete retratado por si mesmo, ouvi-o no drama do seu ilustre progenitor. Fala assim: Sim, o tal sou que leva à tuna a noite em peças; por fortuna consigo às vezes distrair El-Rei meu amo, e faço-o rir. Vejo um cavalo sossegado, de boa fava arraçoado, dou-lhe de longe o meu relincho de égua amorosa; é logo um pincho, e orelha fita. Encontro a Brázia, comadre séria, ancha e durázia, que está co’o olho na bebida, faço-me, zaz! maçã cozida dentro na malga ocultamente; põe-se a beber; vou de repente, filo-lhe o beiço. A velha fula pula; a cerveja com ela pula; verte-se, e toda se desata pelas beiçolas e barbela rugosa, flácida, amarela dela; não há, não há cascata de tanta graça como aquela! Austera avó para contar um caso atroz de arrepiar, quer-se assentar na tripecinha que ao lado enxerga, e em que eu me tinha mudado adrede; eu fujo, e truz! sentou-se no ar, cai de chapuz! fica no chão amesendada; salta-lhe a tosse; quer surgir, tosse cresce; está danada; tudo doido! a rir! a rir!
↩ voltar ao verso 543
v. 549Cá está o Ariel dos sons divinos,
* – ARIEL. – Também este Ariel, génio músico, é, assim como o Puck, filho legitimo de Shakespeare, que no drama da tempestade o pôs ao serviço do feiticeiro Próspero.
↩ voltar ao verso 549
v. 573Pés de aranha, barriga de sapo,
* – ESPIRITINHO (que se está formando). – Aqui dizem ter sido a intenção do autor meter a bulha os poetas do género chamado vaporoso, que por esses tempos formigavam em Alemanha, e cuja raça tanto se propagou por toda a parte, que não leva jeitos de acabar. O chiste da pintura, poderá ser muito, mas o tradutor confessa que ainda não cai nele. Será porventura aquilo paráfrase, ou paródia, ou reminiscência vaga, dos primeiros versos da Epístola de Horácio aos Pisões até .......nec pes nec caput uni redatur formæ?
↩ voltar ao verso 573
v. 577Passinhos, pulinhos por névoas melífluas
* – PARZINHO. – Uns querem ver nesta copla um busca-pé atirado ao Wieland por causa do seu poema Oberon Outros fundando-se talvez no termo parzinho, conjecturam que o remoque satírico recai nos poetas e músicos das dúzias, que, sem talento nem inspiração, se consociam para aborrir e adormentar o próximo.
↩ voltar ao verso 577
v. 581Que será o que vejo? mascarada
* – VIANDANTE CURIOSO. – Fantasiam que o alvo desta frechada de Goethe bem poderá ter sido Nicolai, que não podia levar à paciência coisa que cheirasse, nem por longe, a superstição ou misticidade.
↩ voltar ao verso 581
v. 586Não tem unhas nem tem rabo;
* – ORTODOXO. – Tinha Schiller publicado o seu poemeto dos deuses da Grécia; suscitou-se grave escândalo entre os teólogos alemães; tomaram a ode em trambolho, e apodaram de ímpio (nada menos) ao poeta. A essa desavença é que afirmam aludir-se no quarteto.
↩ voltar ao verso 586
v. 592Onde eu me vim meter! que bruxas depravadas!
* – PURISTA. – Anotando este passo, diz o tradutor italiano o Sr. Andrea Maffei: «O purista representa Joaquim Henrique Campe, que em pontinhos de vernaculidade era cheio de escrúpulos, e que, pelo seu amor ao purismo não punha dúvida em despojar a língua dos termos mais necessários e já consagrados pelo uso».
↩ voltar ao verso 592
v. 613Quem viu nunca melhor sociedade?
* – CATA-VENTO. – Traduzamos também aqui o comentário do Sr. Maffei: «Parece que o poeta, com este seu cata-vento, quererá aludir aos irmãos Stolberg, os quais na mocidade se tomaram daquela inclinação para a independência, que andava em moda por esse tempo; e pressupondo (com Rousseau) que o homem devia tornar-se para o primitivo estado natural, tinham para si que se haviam de desprezar todos os respeitos mundanos; mas de repente, eis que os nossos dois Condesinhos renegam este culto encarecido da natureza, e tomam pelo rumo inteiramente contrário».
↩ voltar ao verso 613
v. 621Vespões de acérrimos ferrões
* – XÉNIOS. – Xénios (e não xénias) se chamavam os presentes que o dono da casa dava aos seus convidados, depois do festim, ou lhes mandava a casa no dia seguinte, e que em geral consistiam em comestíveis de regalo. Deste costume, que os romanos tomariam dos gregos, se originou o titulo que Marcial pôs ao livro XIII dos seus epigramas; assim como do livro XIII dos epigramas de Marcial proveio sem dúvida o ter Schiller baptizado com o nome de xenios uma colecção de quatro centos dísticos satíricos, que publicou em 1797 no Almanaque das Musas; com esta notável diferença porém, que em vez de serem mimos para o paladar, os seus epigramas eram azedos e envenenados. Os autores de pouco mérito, e as doutrinas falsas e destemperadas desse tempo, tiveram ali o seu peloirinho. Nestes xénios do Schiller já o seu amigo Goethe tinha colaborado; o que, apesar de ter saído anónimo o opúsculo, foi para logo adivinhado pela opinião pública. O mais que na matéria poderíamos aqui dizer, já lá o tocámos na nota ao titulo das Áureas núpcias.
↩ voltar ao verso 621
v. 625Tem muita graça o denso enxame;
* Pág. 399, lin. 16 – HENNINGS. – Este é Augusto Adriano Frederico de Hennings, um dos atassalhados nos xénios de Schiller e Goethe. Era camarista do Rei de Dinamarca. Fundou e redigiu o periódico Génio do século, e nele invectivou com acrimónia os autores dos xénios, como desonradores da musa, escrevedores de trivialidades, e gente maligna. Dizem os imparciais, que lhe não faltava razão para o afirmar.
↩ voltar ao verso 625
v. 629Sim senhor; aqui sim, neste bando
* – MUSAGETE. – Outra vez em cena o mesmo Hennings. Designa-se aqui por Musagete, que vale tanto como dizer condutor das Musas, em razão de ter sido ele o redactor de um jornal intitulado As Musas e as Graças.
↩ voltar ao verso 629
v. 634«Chega-te aos bons» - diz o rifão;
* – EX-GÉNIO DO SÉCULO. – Ecce iterum Chrispinus; outro encontrão no pobre Hennings.
↩ voltar ao verso 634
v. 639Aquele figurão empertigado,
* – VIANDANTE CURIOSO. – Nova alusão a Nicolai, autor de uma viagem pela Europa escrita com o propósito assentado de descobrir e denunciar jesuítas. Vê-los em todos, em tudo, e por toda a parte era a sua mania; por onde já os alemães o alcunhavam, Jesuitenriecher (farejador de jesuítas).
↩ voltar ao verso 639
v. 643Nas águas turvas pesco assim como nas claras;
* – GROU. – Por esta alcunha costumava o poeta designar um Lavater, grande místico, nessa parte o antípoda do farejador de jesuítas.
↩ voltar ao verso 643
v. 647Há, sempre houve, e há-de haver, beatos dessa casta
* – MUNDANO. – Diz o Sr. Maffei que neste quarteto o poeta se representou a si mesmo na figura do Mundano. Pouco verosímil nos parece isso, e mais fácil cortar fundo nos outros do que arranhar homem em si próprio.
↩ voltar ao verso 647
v. 666Nem objecções nem críticas
* – DOGMÁTICO. – O Dogmático, o Idealista, o Realista, o Semi-naturalista e o Céptico são representantes das diversas escolas filosóficas em que a Alemanha andava dispartida no tempo do poeta.
↩ voltar ao verso 666
v. 684Anda após luzes-luzes toda a gente
* – CÉPTICO. – Anotando o dito do céptico, escreveu um tradutor francês o seguinte: Na estrofe alemã o chiste está num joguete de palavras, que não era traduzível. Teufel, diabo, e Zweifel, dúvida, são termos uníssonos, e por isso o céptico se acha no inferno, não por ser a dúvida consentânea ao diabo, mas sim porque o diabo e a dúvida rimam. À vista disto pôs o mencionado tradutor francês o seguinte: Courant après maints feux follets, Chaqu’un voite de l’or dans du sable; Puisque le doute sied au diable Ici je demeure, et m’y plais. O Sr. Maffei pôs: Van seguendo fiammele, ed al tesoro Vicini si prosumono costoro: Nel mio seggio stò qui, pero che fanno «Dubio» e «diavolo» rimi in allemano. Esta cláusula do in allemano é que não ocorreu ao Sr. Agostinho Ornellas, e, por isso ficou tão confusa a sua quadra: Seguem das chamas o rasto cuidando o tesoiro achar; «diabo» rima com «dúvida»; aqui estou no meu lugar. O terceiro verso desta quadra ainda assim não é tanto para estranheza como poderia parecer a quem não soubesse ao verbo rimar senão a sua acepção usual. Vejam-lhe a outra no dicionário de Moraes. Quanto a nós, entendemos que não valia a pena de grandes trabalhos, para conservar tão pequenina pedra de sal; e preferimos dar aproximativamente o pensamento, que é o nosso descarte do costume em apertos semelhantes.
↩ voltar ao verso 684
v. 713Arreda! afasta! abram caminho!
* – SÓLIDOS. – Presume o Sr. Maffei que estes sólidos vem a ser os homens das revoluções, os quais tendem aos seus fins sem se importarem com os obstáculos que no caminho encontram.
↩ voltar ao verso 713
↑ voltar ao topo das notas
Próximo quadroXXIICampo. Dia enuviado