Noite de Santa Valburga . Montanhas de Harz. Região de Schirke e Elend
730 versos · 24 notas do tradutor
Cena I
FAUSTO e MEFISTÓFELES
MEFISTÓFELES (a Fausto)
- Em vez de palmilhar, Doutor, não gostaria
- de ir num pau de vassoira? Eu por mim preferia
- montar um bom cabrão. Antes que lá cheguemos
- não nos falta que andar.
FAUSTO
- Sou rijo; caminhemos.
- Este bordão de nós por ora me é bastante.
- E apressar, para quê? Se há gosto que me encante
- na jornada que faço, é isto: ir à vontade
- vendo este labirinto e a sua variedade;
- tanto vale espantoso! e aqui sobre esta penha
- a cascata sem fim que troa e se despenha!
- Já primavera nova anima os vidoeiros;
- engalana-se o mato; alegram-se os pinheiros.
- Poderá resistir a natureza humana
- a tais influições?
MEFISTÓFELES
- Se o mato se engalana
- e o Doutor se alvoroça, eu cá não sinto nada.
- O que eu tomara sempre era grande invernada,
- frio de tiritar, e por quaisquer caminhos
- ver só neve, sentir só neve nos focinhos.
- Como hoje vem a lua avermelhada, cava,
- e a alar-se sem poder! por pouco mais, deixava
- às escuras o mundo; é quebrar os narizes
- de contínuo em calhaus, em troncos, em raízes.
- ... Um fogo-fátuo! Bravo! Há-de dar licença
- de o chamar. Fraca luz val mais que sombra densa.
- Uh! uh! ó da luzerna! Há-de ter a bondade
- de vir mais para aqui. Não gaste a claridade
- assim sem mais nem mais. Obséquio nos faria,
- se nos fosse diante a destrinçar-nos via
- por esta serra acima!
Cena II
Um FOGO-FÁTUO e os ditos
FOGO-FÁTUO
- Inda que a nossa essência
- é saltitar à toa, eu farei diligência,
- já que manda quem pode.
MEFISTÓFELES
- Esta é que não é feia.
- Até já este pífio os homens macaqueia!
- Salte-nos para a frente, em nome do diabo;
- e ir direito; senão, verás como te acabo
- co’a flamante farófia; um sopro basta.
FOGO-FÁTUO
- Sei
- que está em sua casa; o que mandar fá-lo-ei;
- mas veja que esta noite é a festa das diabruras
- cá no monte; e eu também sou uma das figuras,
- mas vá lá; faltarei, contanto que releve
- a um pobre fogo-fátuo o modo como o leve.
FAUSTO
- Cuido que já ’stamos no país fantástico
- de encantos e sonhos.
- Avante, bom guia! Transpõe estes páramos
- vazios, tristonhos.
- Como umas trás outras nos fogem as árvores,
- recurvas, ligeiras!
- E os serros baixando-se! E os roncos e os síbilos
- das rotas pedreiras, que vão a arquejar!
- Que palram as águas? que diz toda a harmónica
- loquaz natureza?
- Serão ternas mágoas, queixumes, ou cânticos?
- é gozo? é tristeza?
- de dias celestes celestes memórias?
- amor? esperança?
- recordos confusos de gostos pretéritos?
- vão eco? ou lembrança de lenda a passar?
MEFISTÓFELES
- Ui! que algaravia!
- Bufídos e pios,
- silvos e assobios
- cada vez mais perto!
- Já antes do dia,
- cá neste deserto,
- andam levantados
- gaios, papafigos!
- Que sócios e amigos
- tão desafinados
- as c’rujas não tem!
FAUSTO
- E aqueles pernudos,
- ascosos, pançudos,
- nas moitas além...
- serão salamandras?
- E aquelas malandras,
- que rompem das gandras,
- fazendo ameaços,
- lançando mil braços
- qual polvo traidor!
MEFISTÓFELES
- Meras raizadas,
- todas emproadas
- a aterrar as gentes,
- fingindo serpentes.
FAUSTO
- Toupeiras e ratos,
- relé variegada,
- no musgo dos matos,
- na lama encharcada
- sem conto esfervilham.
- Para a festa voam, brilham,
- vaga-lumes aos milhares,
- azoinado redemoinho.
MEFISTÓFELES
- Mas seguimos nós caminho,
- ou quedamo-nos pasmados?
FAUSTO
- Tenho os olhos já cansados
- de ver tudo a rodopiar,
- de ver tanto horrendo esgar
- nuns penedos desalmados,
- na rudez de uns troncos broncos
- tão medonhas carantonhas.
- Fogos-fátuos nunca vi
- como aqui tão abundantes,
- alentados e arrogantes.
MEFISTÓFELES (a Fausto)
- Mas não me largue a cauda. Estamos na eminência,
- que descobre em redor toda a magnificência
- do espantoso Mamon .
FAUSTO
- Que baça aurora estranha
- se espraia lá por baixo ao sopé da montanha
- té ao mais fundo abismo! Aqui surge um vapor,
- exalações de além; mais longe um misto horror
- de treva e fogo, a andar como um fio delgado,
- que afinal como fonte em jorro desatado
- serpeia pelo vale em cem veias; confluem
- todas ao mesmo ponto, e dali distribuem
- no vizinho arredor chispante areia d’oiro.
- Quem a escarpa do monte iluminou de estoiro,
- toda de cima a baixo?
MEFISTÓFELES
- In verbo luminárias,
- as do senhor Mamon são extraordinárias;
- pois não são? Despicou-se a abrilhantar a festa.
- À fé que o meu Doutor nunca esperou por esta;
- hein?
- Mas tate... que avento a cáfila bravia
- vir já lá de rondão ao cheiro da folia.
FAUSTO
- Safa, que furacão! Mete-me as costas dentro.
MEFISTÓFELES
- Se não quer ir parar do negro abismo ao centro,
- Doutor, não há remédio; é com unhas e dentes
- ferrar-se por aí às costelas patentes
- do serro descarnado. Ui! que nevoeiro cego
- cega inda mais a noite, escura como um prego!
- Ouviu nunca fragor como anda no arvoredo?
- As corujas pelo ar esvoaçam-se de medo;
- as colunas do paço eterno-verde racham
- as pernadas gemendo estorcem-se e se escacham;
- estalam troncos; rota a raizada crepita;
- tudo em medonho caos rui e se precipita,
- trovejando e silvando até o fundo abismo
- das voragens que atulha o horrendo cataclismo.
- Não sente vozear lá no alto, e ao longe, e ao perto?
- Ora aí vem já de certo
- chegando o reboliço
- que vem povoar este montês deserto
- nas horas do feitiço.
Cena III E SEGUINTES
OS MESMOS, e sucessivamente as figuras que a seus tempos se irão indicando
FEITICEIRAS E FEITICEIROS
- De Brocken ao rochedo,
- correr, correr, bruxedo!
- Onde a cana já loireja,
- mas a espiga inda verdeja,
- todo o bando unido seja.
- Posto de alto e todo mano,
- é o senhor Dom Fulano
- quem preside ao nosso arcano.
- Por cima da folha, mais do pedregulho,
- festança rasgada com todo o barulho.
- O bode tresanda fartum que enfeitiça,
- e a bruxa castiça, castiça e castiça.
UMA BRUXA
- Lá vem, e vem só,
- a velha Bóbó,
- nossa rica avó.
- Que flamante vem
- para a patuscada,
- toda escarranchada
- numa porca-mãe!
CORO
- Quem de todas é primeira,
- toca-lhe ir na dianteira.
- Tudo atrás da vo-vozinha,
- que parece uma rainha
- sobre a porca parideira.
UMA BRUXA (para outra)
- Donde vens?
A OUTRA
- Da roca
- d’Ilsen, onde está,
- dentro numa toca
- funda negra e suja,
- ninho de coruja.
- Deitou-me de lá,
- com ar macambúzio,
- por ver a espreitá-la,
- um lúzio... que lúzio!
BRUXA
- Cal’-te aí! Quem te ora fala
- de coruja? Subvertida
- sejas tu!
OUTRA
- Mas que pressa! Onde é a ida?
A OUTRA
- Já do chouto vou ferida.
- Podes vê-lo: olha este...
FEITICEIRAS E FEITICEIROS
- Leva, leva, cavalgada,
- que tão cedo não se apanha
- ver o fim de tal jornada
- por tais fragas de montanha.
- A vassoira arranha.
- O forcado fura.
- E todas põe manha
- na cavalgadura.
- E o chouto nas panças
- abafa as crianças.
- E as mães coitadinhas,
- a cada pinote
- vão para as vizinhas
- tocando fagote.
O CORIFEU DOS FEITICEIROS
- Deixar lá ir as seresmas
- de escantilhão nos seus potros.
- Fica melhor a nós-outros
- esta andadura de lesmas.
- Se tudo vai para o paço
- do Grão-Perro, não se queira
- estranhar ao femeaço
- que nos leve dianteira.
A CORIFÉIA DAS FEITICEIRAS
- Falem, falem, linguarudos!
- É que na estrada dos demos,
- onde nós mil passos demos,
- chegam num pulo os barbudos.
VOZ DO ALTO DO MONTE
- Olá da lagoa,
- vinde para a altura!
VOZ NA BAIXA
- A vontade é boa,
- mas o banho apura
- do corpo a brancura.
- Por isso, cá ’stamos,
- se bem, coitadinhas,
- que, mais que façamos,
- por mais que lavamos,
- por mais que esfregamos,
- ficamos maninhas,
FEITICEIRAS E FEITICEIROS
- Cala o vento; não há vê-la
- meia estrela.
- A baça lua
- de todo amua.
- Passa alvorotado
- o bando encantado
- como um turbilhão,
- deixando crivado
- de chispas o chão.
VOZ EM BAIXO
- Parem, parem!
VOZ NO ALTO
- Quem nos brada
- dos algares do rochedo?
VOZ EM BAIXO
- Levai-me deste degredo,
- que a trepar pelo fraguedo
- levo há já trezentos anos,
- sem chegar à cumeada!
- Deixai-me ir convosco hermanos!
FEITICEIRAS E FEITICEIROS
- Ala, ala, vassouras, forcados,
- bodes, trancas! arriba, às alturas!
- Ai de quem as não vinga; maus fados
- para sempre lhe estão destinados
- nas funduras.
SEMI-BRUXA (na baixa)
- Vou-lhes na peugada
- correndo estafada.
- Tamanho é o avanço,
- que não as alcanço.
- Já lá na casinha
- Não tinha descanso.
- Mesquinha, mesquinha,
- debalde me canso.
FEITICEIRAS
- Feiticeira bem untada
- feiticeira bem dotada.
- De uma gamela
- faz caravela;
- de uma rodilha
- faz uma vela
- com que a amantilha.
- Navega por ’í fora;
- bom vento, e vive Alah!
- Quem não viaja agora,
- quando viajará?
TUTTI
- Sus, apear, desembarcar!
- Chegou-se enfim aos grandes cimos.
- Poisar agora e descansar
- quantos e quantas ora vimos
- esta charneca povoar!
( Vão-se assentando).
MEFISTÓFELES
- Que apertão, que empurrões, que barafunda,
- tropeções, castanholas, assobios,
- empuxões, voltas, pálreas, luzes-luzes,
- fagulharia, fétidos ardores...
- em suma feira franca de feitiços.
- Cosa-se bem comigo, que a esgarrar-se
- não sei onde irá ter... Onde está ele?...
- Doutor! Doutor!
FAUSTO (Muito longe)
- Aqui...
MEFISTÓFELES
- Já lá tão longe!
- Não há remédio. Cá nos meus morgados
- sou eu só quem governa. Afasta! arreda!
- Dom Barzabu que chega! Abri-lhe praça,
- raia miúda!
- Aqui, Doutor! segure-se!
- Belo; e agora é safarmo-nos num pulo,
- dentre esta turbamulta, que atordoa
- até aos do meu pano.
- Espere... aquilo
- que será que além brilha? Estou curioso,
- Meto-me à sarça. Venha, venha! Entremos,
- sem fazer bulha.
FAUSTO
- Mais variável génio
- do que tu és, não quero que haja. Embora!
- Vamos lá; mas só doidos tal fariam:
- Cansar a gente a marinhar ao Brocken
- na noite de Valburga, e por desfecho
- ter o que? embrenhar-se como os bichos.
MEFISTÓFELES
- Não trove de repente! Afirme a vista!
- Perceberá candeios de mil cores.
- Há lá festa; há-de achar-se acompanhado,
- mas sem balbúrdia.
FAUSTO
- Ao píncaro do monte
- mais folgara que fôssemos; avisto
- já por lá turbilhões de fogo e fumo.
- Que de devotos que ao maligno acodem!
- E que de enigmas que hão-de ali solver-se!
MEFISTÓFELES
- E que de outros urdir-se! Os mais que folguem
- a seu sabor; nós-outros desfrutemos
- à chucha-caladinha a nossa conta.
- Isto de conventículos formados
- na grande sociedade é moda antiga.
- Lá vejo eu bem gentis feiticeirinhas
- nuas em pelo; e velhas à cautela
- todas bioco. Não me faça d’urso!
- Mas que seja tão só por me dar gosto,
- quero-o ver todo França. O custo é pouco,
- e o gáudio de enche-mão. Oiço instrumentos,
- ou coisa que o parece; irra, que bulha!
- Paciência! a princípio é que se estranha.
- Venha comigo, mexa-se! já agora
- não há remédio. Eu sou quem o apresenta,
- por isso vou diante. Em realidade,
- sempre o nosso Doutor me deve muito!
- Que tal acha este campo? é formidável,
- pois não é? custa a ver o limite.
- Arde ao redor um cento de fogueiras;
- baila-se; palra-se; enche-se a barriga;
- pinga a rodo; mocedo à tripa forra.
- Onde é que pode haver melhor cantate?
FAUSTO
- Tu, como é que na súcia te apresentas?
- como diabo, ou disfarçado em bruxo?
MEFISTÓFELES
- Costumo andar incógnito; mas hoje
- dia de gala, assoalham-se as veneras;
- não ponho jarreteira; o pé de cabra
- mete mais vista. Já lá vem a rastos
- um caramujo, de focinho em terra;
- já me aventou aposto. Está sabido:
- encobrir-me eu aqui, era impossível.
- Toca, toca a rodar essas fogueiras.
- O alcaiote sou eu; por sua conta,
- só fica o desfrutar.
( Dirige-se a uma roda de velhos , que cercam um brasido de fogueira )
- Vocês, velhotes,
- que fazem por aqui? Se os visse andarem-se
- de réstia co’os pimpões da brincadeira,
- entendia; mas isto, acantoados
- como ermitães, que val ou que lhes presta?
- Era muito melhor não vir à festa.
- UM DOS VELHOS, GENERAL
- No fim lhe há-de achar a errata
- um parvo que serve ao povo,
- e por lhe agradar se mata.
- Mulher quer sempre ao mais novo;
- plebe ao da última data.
- OUTRO VELHO, MINISTRO
- Tempinho santo o passado.
- Hoje, que há ’í de sisudo,
- de bom, de bem ordenado?
- Século, em que éramos tudo,
- foste o século doirado.
- TERCEIRO VELHO, PARVENU
- Espertos, também nós fomos,
- que engordámos e subimos,
- sem nos prendermos nos cornos.
- Entraram novos mordomos,
- fugiu-nos tudo, e caímos.
- QUARTO VELHO, UM AUTOR
- Quem sofre hoje as obras ler
- de chorume e de saber?
- A exclusiva faculdade
- do julgar e do escrever
- toca à fátua mocidade.
MEFISTÓFELES (parecendo de repente velhíssimo)
- O dia de juízo é já propínquo.
- Nesta minha subida derradeira
- ao monte dos feitiços, reconheço
- que está chegada ao termo a humanidade;
- por isso o meu barril já deita as borras.
UMA BRUXA BELFURINHEIRA
- Não passem, fregueses, sem ver a fazenda
- de trinta mil castas, que trago hoje à venda.
- Não são galanduchas, que nunca alguém visse.
- Não vem coisa alguma, que já não servisse
- uma vez ao menos de perder a alguém.
- quem vem? quem enfeira? fregueses, quem vem?
- Nenhum punhal trago que não se embainhasse
- nalgum coração;
- nem copa brilhante, que não propinasse
- veneno terrível aos lábios de um são;
- nem jóia que à honra de bela donzela
- não fosse fatal;
- nem folha de espada que nunca em cilada
- se visse cravada por mão desleal.
- Mil outras como estas a arqueta contém,
- que em algo funestas já foram a alguém.
- Quem vem? quem enfeira? fregueses, quem vem?
MEFISTÓFELES (tornando-se outra vez moço)
- A adela anda no mundo trasnoitada,
- por força; pois não sabes que hoje em dia
- só se quer dito e feito, e sempre novo?
FAUSTO
- Já começo a temer, com tal barulho,
- de mim próprio afinal vir a esquecer-me.
- E chama-se isto feira!
MEFISTÓFELES
- Antes se chame
- fervença de ambiciosos apostados
- a qual primeiro se verá no cume.
- Cuidas ir empurrando, e és empurrado.
FAUSTO
- Aquela quem será?
MEFISTÓFELES
- Pois não conhece!
- Repare; é a Lilita .
FAUSTO
- Hein! que Lilita?
MEFISTÓFELES
- A Lilita da Costa; não te lembras?
- a primeira mulher de Adão de Barros.
- Cuidado em ti co’os seus gentis cabelos,
- que os não há mais encanto. Ai do mancebo
- que neles se enredar; nunca mais foge.
FAUSTO
- E essas duas a par tão bem sentadas,
- a velha, mais a moça? Esbaforiu-as
- sem dúvida o bailar.
MEFISTÓFELES
- Isto hoje, amigo,
- não dá trégua nem folga. Aí principia
- já outro bailarico. Ande depressa!
- agarre um par e salte! A coisa é essa.
( Fausto dança com a moça, e Mefistófeles com a velha. )
FAUSTO (dançando e cantando)
- Em macieira de estima
- sonhei ver duas maçãs;
- tão d’enche-mão, tão louçãs
- que lhes saltei logo em cima.
BELA (idem)
- Se de maçãs tanto gostas,
- não vás com o Éden sonhar.
- Também eu no meu pomar
- cá tenho maçãs bem-postas.
MEFISTÓFELES (idem)
- E eu sonhei co’uma cepeira
- .................................
- .................................
- .................................
A VELHA (dançando)
- Lá tocas não têm concerto,
- senhor Dom Pé cavalar,
- .................................
- .................................
PROCTOFANTASMISTA
- Gente maldita, que ousadia a vossa!
- Não se vos provou já que nunca espírito
- pode aguentar-se em pé? Sais-me agora
- até dançantes!
BELA (continuando a dançar)
- Que lhe importa a ele
- o que se faz no baile?
FAUSTO (dançando)
- É manha velha:
- em tudo se intromete. Em não podendo
- impugnar cada passo, abnega o todo.
- E o que o mais rala, é ver que se progride.
- Resolvessem-se os mais a andar como ele
- sempre à roda em zunzum de dobadoira,
- tinham certo o seu A, principalmente
- se o mazorral sistema encomiassem.
PROCTOFANTASMISTA
- Ateimam! não se vão! Quem viu tal birra?
- Víspere, coisas más! Não nos ouviste
- O Fiat lux ? Canalha de diabos,
- as regras só lhes servem de debique.
- Até nós, nós, protótipo do siso,
- sentimos dar-nos volta a mioleira,
- pensando no que aí vai. Ter eu varrido
- todas essas insulsas nigromâncias,
- e ver como inda o mundo me enxovalham
- Ateimam! Não se vão! Quem viu tal birra?
BELA
- Homem, não mace mais!
PROCTOFANTASMISTA
- Na própria cara
- vo-lo repito, Espíritos! Não sofro
- a Espíritos ser déspotas; e a causa
- é que déspota ser não posso eu mesmo.
( Continuam a dançar )
- Tudo hoje me sai torto. Paciência!
- Aldemenos, fiz mais esta Viagem.
- E antes que faça a última, inda espero
- vencer alfim diabos e poetas.
MEFISTÓFELES
- Daqui a nada, assenta-se num charco,
- que nisso é que acha alívio. As sanguessugas
- as nalgas lhe dessangram, té que o deixem
- de espíritos e espírito curado.
( A Fausto, que deixou a dama )
- Deu de mão à formosa parceirinha,
- tão sereia no canto?
FAUSTO
- Irra, que nojo!
- Ao cantar, cuspiu fora um morganhinho,
- por sinal encarnado.
MEFISTÓFELES
- Ora que espantos!
- Inda se fosse pardo... E por tão pouco
- se esperdiça a maré do carvoeiro?
FAUSTO
- Mas é que inda vi mais.
MEFISTÓFELES
- Mais quê?
FAUSTO
- Repara!
- Não vês além ...ao longe...em pé...sozinha
- uma linda menina, aspecto pálido,
- passos de quem arrasta ferropeias?
- Quer-se-me figurar que as parecenças
- são tais quais as da boa Margarida.
MEFISTÓFELES
- Deixe lá isso: o engar em certas coisas
- às vezes não é bom. São vãs sombrinhas;
- que lhe quer? imposturas do bruxedo.
- Querer vê-las ao perto é perigoso.
- Pessoa em que as visões encarem fito
- ficou, a bem dizer, petrificada.
- Sabe o que era a Medusa?
FAUSTO
- Em realidade,
- os olhos são como olhos de defunto
- não cerrados à luz por mão piedosa.
- Aquele é o próprio seio, o ninho amante
- da minha Margarida; aquele o corpo
- que já foi meu tesoiro.
MEFISTÓFELES
- Usuais efeitos
- da arte ruim, meu crendeirão palerma.
- Cada um vê naquilo a própria amada.
FAUSTO
- Oh que céu! oh que inferno! Olhar é esse,
- que o não posso fugir. E a gargantilha
- que lhe cinge o pescoço! um fio apenas,
- estreito como as costas de uma faca,
- e vermelho.
MEFISTÓFELES
- Bem vejo. Até podia
- trazer já a cabeça sobraçada,
- que lha cortou Perseu; não há quimeras
- que lhe fartem a sede.
- Ora subamos
- àquele oiteiro; é vista deleitosa
- como a do Prater .
- Bravo! Se não trago
- eu próprio a vista co’os feitiços doida,
- vejo um teatro. Que irá lá?
SERVIBILIS
- Senhores,
- há hoje peça nova, a derradeira
- das sete do costume; é de um curioso,
- e por curiosos só representada.
- Sem mais, vou-me com pressa erguer o pano.
MEFISTÓFELES
- Sim senhor; se no Block a representam,
- em sítio próprio o seu teatro assentam.
ADVERTÊNCIA ACERCA DAS ÁUREAS NÚPCIAS DE OBERON E TITÂNIA
Havia o tradutor omitido a princípio esta pequena parte do poema; movera-o a isso o receio de quebrar importunamente o fio dramático; e, mais que tudo, o horror à escuridade que afronta e regela o trecho todo, no conceito dos próprios alemães.
Ficaram-no todavia remordendo escrúpulos por uma parte, por outra receios do que diriam praguentos, pelo decote cérceo de tal enxerto; e (custasse o que custasse, e desse por onde desse) resolveu à última hora que se atulhasse o fosso, para que o poema saísse, se não mais aprazível a quem houvesse de o correr, pelo menos sem a pecha de incompleto.
Cabe porém advertir que o próprio autor, já talvez por descargo de consciência, intitulara intermesso esta ensancha alinhavada no seu manto poético, e da qual os seus patrícios, e seus primeiros admiradores, nenhuma conta fazem nas representações do Fausto .
Outro tanto poderão fazer os nossos leitores quando aqui chegarem.
Pelo que toca ao mérito literário e poético do fragmento, muito de indústria se abstém o tradutor de emitir aqui a sua opinião. Declara só que nenhuma outra parte de todo o livro lhe queimou tanto o sangue como esta; e que ainda agora lhe desvela horas da noite o cuidar, se às vezes não andaria perdido por tão intrincado labirinto.
As Áureas Núpcias são, em boa e leal verdade, uma enfiada de adivinhações, mais temperadas, ao que se pode crer, de pimenta que de sal, e com cujo sentido alusivo, ou satírico, dou que nem já atinarão hoje em dia os mais dos leitores dessas Alemanhas.
Vai pois a coisa o melhor, ou o menos mal que por cá se pôde entender e interpretar.
ÁUREAS NÚPCIAS DE OBERON E TITÂNIA OU OS CINQÜENTA ANOS DE CASADOS (INTERMESSO)
( N. B. - A vista poderá ser ainda a precedente )
O DIRECTOR DO TEATRO
- Sus, boa gente de Miedingue !
- folguedo franco hoje nos vingue
- da eterna lida teatral.
- Para o bailete alegre e vário
- aí ’stá nosso único cenário:
- um monte seco, e um fresco val.
ARAUTO
- De oiro se chama o casamento
- que atingiu de anos meio cento
- mas eu mais de oiro o chamarei,
- quando, após guerras desabridas,
- a paz reenlaça as duas vidas.
- Esse é que é de oiro, e oiro de lei.
OBERON
- Olá, meus génios! se a alegria,
- que me alvoroça neste dia,
- é para vós também prazer,
- deveis mostrá-lo. Hoje a Rainha,
- graças a Amor, volve a ser minha,
- como eu já dela torno a ser.
PUCK
- Cá vem Róbim desengonçado,
- como pião num pé firmado,
- e à roda dele o outro a girar.
- Doutros que tais profuso bando
- o vem à farta acompanhando,
- que a todos toca este folgar.
ARIEL
- Cá está o Ariel dos sons divinos,
- que enleva a muitos malandrinos,
- e a belas mil também atrai.
OBERON
- Pares de esposos desgraçados,
- se desejais ser bem casados,
- lição e exemplo em nós tomai.
- Quem me hoje alegra o casamento
- não foi senão o apartamento;
- o apartamento esperta amor.
TITÂNIA
- Quem vir mulher que já não zomba,
- e homem que sempre anda de tromba
- cure-os de mal tão sem-sabor:
- mande o marido para o norte,
- e para o sul mande a consorte;
- reacendeu-se o extinto ardor.
ORQUESTRA TUTTI (fortíssimo)
- Besoiros e moscas, e mais parentela
- que zumbe e gaiteia por vários estilos,
- as rãs nos caniços, nas tocas os grilos,
- serão nossa orquestra; quem na ouviu mais bela?
SOLO
- Lá vem por cornamusa
- a bolha de sabão,
- com salsada abstrusa
- das cantilenas que usa
- juntar ao seu roncão.
ESPIRITINHO (que se está formando)
- Pés de aranha, barriga de sapo,
- e asasitas de um nada vivente,
- se de ser animálculo escapo,
- em poemeto darei certamente.
PARZINHO
- Passinhos, pulinhos por névoas melífluas
- consomem-te, matam-te em ânsia ilusória.
- Patinha, patinha, já nunca do ínfimo
- te irás às esferas; gorou-se-te a glória.
VIANDANTE CURIOSO
- Que será o que vejo? mascarada
- sem tom nem som,
- ou delírio da vista alucinada?
- será esta realmente a venerada
- figura de Oberon?
ORTODOXO
- Não tem unhas nem tem rabo;
- mas com lhe faltar tal sécia,
- é, como Os Deuses da Grécia ,
- um verdadeiro diabo.
ARTISTA DO NORTE
- Só faço por enquanto esboços d’arte;
- mas cedo, Itália, espero visitar-te.
PURISTA
- Onde eu me vim meter! que bruxas depravadas!
- só duas, duas só, só duas empoadas!
BRUXA MOCINHA
- Quem é carcassa usa polvilho,
- e cobre o corpo o mais que pode;
- eu monto nua no meu bode;
- quem é gentil não quer mais brilho.
BRUXA MATRONA
- Não somos nós tão grosseironas,
- que te queiramos replicar;
- mas se co’as graças te apavonas,
- olha que a rosa há-de murchar.
MESTRE DE CAPELA
- Besoiro trompa,
- mosquito gaita,
- co’a nua pompa
- da serigaita
- que tendes vós?
- grilos e relas
- a tempo a voz;
- solfas tão belas
- sem o compasso
- com que vos maço
- são bulha atroz.
O CATA-VENTO (para um lado)
- Quem viu nunca melhor sociedade?
- tudo moças, perfeitas donzelas!
- tudo moços digníssimos delas!
- que promessas à posteridade!
( Para o outro lado )
- Eu se a terra, enquanto encho um só giro,
- se não abre e os soverte por junto,
- juro, à fé de quem sou, que barrunto
- abismar-me no inferno; e prefiro.
XÉNIOS
- Vespões de acérrimos ferrões
- cá vimos nós; arredem lá;
- morder é a chança dos vespões,
- mais de Satã seu bom papá.
HENNINGS
- Tem muita graça o denso enxame;
- que ingenuidade de vespões!
- ninguém lhe chame
- maus corações.
MUSAGETE
- Sim senhor; aqui sim, neste bando
- de bruxas machuchas
- é que eu ando no meu elemento.
- As musas confusas
- nunca eu trouxe a mandamento.
O EX-GÉNIO DO SÉCULO
- «Chega-te aos bons» - diz o rifão;
- portanto, agarra-te ao meu rabo;
- esta montanha do diabo
- é como o Parnaso alemão,
- que ninguém pode ver o cabo.
O VIANDANTE CURIOSO
- Aquele figurão empertigado,
- ventas no ar, olho alerta, orelhas fitas,
- quem será? que fareja azafamado?
- anda à caça; de quê? de jesuítas.
O GROU
- Nas águas turvas pesco assim como nas claras;
- de quaisquer sítios gosto, em sendo à pesca idóneos.
- Se o tiveras sabido, à fé que não pasmaras
- de ver tão mão por mão um santo com demónios.
UM MUNDANO
- Há, sempre houve, e há-de haver, beatos dessa casta
- que o int’resse conduz, como a boi, pela soga
- qualquer demo os atrai à sua sinagoga,
- co’o engodo do lucro; é acenar-lho, e basta.
O DANÇARINO
- Outro coro lá vem; não ouvis
- tamboris?
- Sossegai; não é som de pelejas;
- são narcejas
- lá ao longe a gralhar nos caniços
- movediços.
O MESTRE DE DANÇA
- Aquele perneia, que é só o que importa;
- dá saltos cá este, que os olhos entorta;
- est’outro, o baselga, pirueta; e nem meio
- pergunta se dança bonito nem feio.
O RABEQUISTA
- Em toda esta súcia nenhum dos mais gosta;
- tomaram trincar-se! irias vê-los à aposta
- de mútuos cortejos! à gaita de fole
- se deve o milagre; domou alimárias
- como Orfeu, à lira casando as suas árias.
O DOGMÁTICO
- Nem objecções nem críticas
- me hão-de tirar da minha
- e escusam de gritar;
- o diabo algo é sem dúvida;
- se não fosse algo, eu tinha
- modo de o acreditar?
O IDEALISTA
- Domina-me a fantasia.
- Se quanto existe sou eu,
- havendo gente sandia,
- ergo sou também sandeu.
O REALISTA
- Ser é para mim tormento;
- devo aborrecer o ser;
- são-me as pernas fundamento
- que sinto hoje estremecer.
O SUPER-NATURALISTA
- Dou a tudo isto mil gabos;
- folgo com estes marmanjos;
- pois de existirem diabos
- concluo existirem anjos.
O CÉPTICO
- Anda após luzes-luzes toda a gente
- um tesoiro a buscar sempre escondido;
- a dúvida é aos diabos inerente;
- fico-me entre eles, que eu também duvido.
O MESTRE DE CAPELA
- Rãs nos ervançais, grilos nos relvados,
- músicos danados!
- moscas e mosquitos!
- que inferneira é esta!
- que orquestra!
- músicos malditos!
OS HABILIDOSOS
- Somos uns padres sem cuidados;
- nosso viver é desfrutar.
- Quando nos tolhem caminhar
- co’os pés no chão, pronto virados,
- nas mãos e cabeça firmados,
- corremos de pés para o ar.
OS LORPAS
- Que bons bocados que outrora
- apanhávamos! agora,
- a poder de rapapés
- foram-se as solas; e os pés
- andam co’os dedos de fora.
FOGOS FÁTUOS
- Recém-nados dos lameiros
- cá viemos mui lampeiros
- figurar de cavalheiros
- assoalhando estes luzeiros.
ESTRELA CADENTE
- Já fui astro dos céus; caí num mato agreste;
- poder nenhum me acode.
- Quem reascender-me pode
- Do pó em que ora jazo, à cúpula celeste?
OS SÓLIDOS
- Arreda! afasta! abram caminho!
- guardar de baixo ervas e arbustos!
- somos espíritos robustos;
- pesamos pois um poucochinho.
PUCK (para o sólidos)
- Nada de peso de elefantes
- no dia de hoje hoje é mister
- que todos vençam em farsantes
- ao próprio Puck; e ele o requer.
ARIEL
- Se asas tendes vigorosas,
- por condão da natureza,
- e do génio criador,
- é seguir-me com presteza
- ao montículo onde as rosas
- dão fragrância e sombra a amor.
ORQUESTRA (pianíssimo)
- O sol reaparece; desfaz-se a neblina;
- nas canas, nas ervas, por toda a colina
- sussurram as auras; desfez-se o prestígio;
- de tanta diabrura não resta vestígio...
FINIS LAUS DEO