Aposento gótico, altamente abobadado. Uma porta ao fundo, e janela à direita. Entre um fog
597 versos · 2 notas do tradutor
Cena I
FAUSTO ( dessocegado, sentado numa poltrona de sola e pregaria de cobre, com a cabeça fincada nas mãos, e os cotovelos na mesa de estudo, na qual derrama luz frouxa um candeeiro aceso. )
- Ao cabo de escrutar co’o mais ansioso estudo
- filosofia, e foro, e medicina, e tudo
- até a teologia... encontro-me qual dantes;
- em nada me risquei do rol dos ignorantes.
- Mestre em artes me chamo; inculco-me Doutor;
- e em dez anos vai já que, intrépido impostor,
- aí trago em roda viva um bando de crendeiros,
- meus alunos... de nada, e ignaros verdadeiros.
- O que só liquidei depois de tanta lida,
- foi que a humana inciência é lei nunca infringida.
- Que frenesi! Sei mais, sei mais, isso é verdade,
- do que toda essa récua inchada de vaidade:
- lentes e bachareis, padres e escrevedores.
- Já me não fazem mossa escrúpulos, terrores
- de diabos e inferno, atribulados sonhos
- e martírio sem fim dos ânimos bisonhos.
- Mas, com te suplantar, fatal credulidade,
- que bens reais lucrei? gozo eu felicidade?
- Ah! nem a de iludir-me e crer-me sábio. Sei
- que finjo espalhar luz, e nunca a espalharei
- que dos maus faça bons, ou torne os bons melhores;
- antes faço os bons maus, e os maus inda piores.
- Lucro, sequer, eu próprio? Ambiciono opulência,
- e vivo pobre, quase à beira da indigência.
- Cobiço distinguir-me, enobrecer-me, e vou-me
- co’a vil plebe confuso, à espera em vão de um nome.
- E chama-se isto vida! Os próprios cães da rua
- não quereriam dar em troco desta a sua.
( Depois de longa pausa meditativa )
- Só falta recorrer às artes da magia.
- No espírito há poder; na voz cabe energia,
- que a transforma em cominando. Então, consociada
- a palavra ao querer, talvez lhe seja dada
- força para arrancar com soberano império
- à natureza avara o íntimo mistério.
- Se o chego a conseguir... que júbilo! que dita!
- Não precisarei mais, desde essa hora bendita,
- após trabalhos mil como esses que frustrei,
- dar por certas ao mundo as coisas que não sei.
- Ser-me-á fácil dizer o vínculo profundo
- que uniu partes sem conto, e fez do todo um mundo;
- ver a força motriz de tanto movimento,
- e consignar-lhe a causa. Ah! desde esse momento
- em que o cerrado enigma alfim me for notório,
- foi-se o torpe chatim de estulto palavrório.
( Depois de pausa, e voltando-se comovido, para a fresta por onde entra o luar )
- Oh minha lua cheia, oh minha doce amiga!
- Possas tu não mais ver em tão cruel fadiga
- o homem que tanta vez dos céus hás contemplado
- a desoras velando, em livros engolfado.
- Melancólica amante! a claridade tua
- achou-me sempre a ler. Se hoje um teu raio, ó lua,
- me levasse a pairar nos cumes apartados,
- a borboletear nos antros frequentados
- dos espíritos só, a saltitar liberto
- da científica névoa, em fundo de um deserto,
- à luz crepuscular que tácita derramas
- aos selvosos desvãos, por entre as móveis ramas!
- Que refrigério d’alma um banho nesse rócio
- não dera, amada lua, às febres do teu sócio!
( Silêncio. Cai em desalento. Depois levanta-se, e percorre com a vista o aposento )
- Que masmorra que é isto! E aqui me vou gastando
- neste covil infecto, abominoso, infando,
- lôbrega escuridade a que o celeste dia,
- prazer da terra toda, um raio a custo envia
- pelos vidros de cor em treva mascarado.
- Para onde quer que fuja o olhar do emparedado,
- bate nesta Babel de livros bolorentos,
- pastagem da polilha, informes, sonolentos,
- e em rumas de papeis, do tempo denegridos,
- caótico tropel de abortos esquecidos,
- que trepa, galga, encobre, enluta, afeia, inunda,
- a casa desde o solho à abobada profunda;
- sem falar no sem-fim de drogas, pós, essências,
- máquinas, que sei eu! misérias, importâncias,
- que já me infundem tédio. E a isto se apelida
- o meu mundo! Isto é mundo, ou esta vida é vida?
( Dolorosamente )
- E inda perguntarás, pobre homem, donde vem
- a angústia que te rala, e as forças te retém?
- Toda a gente a gozar dos bens que o Factor Sumo
- lhe faculta na terra; e eu... neste ascoso fumo
- entre ossos de animais e esqueletos!
- Sus! Sus!
- Fausto, longe daqui! Torna-te ao ar, à luz!
( Vai a sair. Retrograda lentamente )
- Mas... agora me ocorre; é bom tentar. Vejamos
- que nos diz no seu livro o sábio Nostradamus .
- Não há guia melhor.
( Tira da livraria um calhamaço, e põe-no numa alta estante de coro, que está colocada a um lado do proscénio )
- Aqui se põe patente
- dos planetas o influxo; e logo em continente,
- percebido o teor da natureza, tomo
- com ela intimidade, e a meu sabor a domo;
- trato-a de igual a igual. A espíritos é dada
- esta mútua influência. Eis a teoria achada...
( Pausa )
- Sim; mas o praticá-la! O humano entendimento
- não pode só por si colher o pensamento
- que o nosso abstruso autor depôs nestas figuras.
- Génios que me cercais, volantes e às escuras,
- se me ouvis, respondei!
( Continua a folhear o livro. Encara na estampa do Macrocosmo )
- Que imagem peregrina!
- que inefável delícia enleva repentina
- todo todo o meu ser! enchentes de doçura,
- nunca de mim sonhada! A mão que tal figura
- aqui delineou, à fé que era divina,
- pois só vê-la me acalma, a dor já me não mina.
- O coração me exulta, alegre, alvoroçado,
- sôfrego, crente, certo, ufano, endeusado
- de atingir afinal explicação completa
- do enigma que há já tanto os dias me inquieta.
- Dar-se-á que eu seja um deus? Não sei. A claridade
- que me cresce em redor, não é da humanidade.
- Neste debuxo morto avisto claramente
- a vivaz natureza, universal nascente,
- estar-se em criações contínuas prorrompendo.
- Vejo-o c’os olhos d’alma. Agora, agora intendo
- a sentença do sábio:
( Em tom de quem recita coisa decorada )
- - «O mundo espiritual
- «a ninguém é vedado. O porque o julgas tal
- «é por teres o senso obtuso, e o coração
- «defunto. Rompe a inércia! Expulsa a indecisão,
- «discípulo covarde, e engolfa-te brioso
- «no arrebol que entrevês.»
( Contempla a estampa )
- Quadro maravilhoso!
- Como tudo se tece e junto se unifica!
- Nora imensa e possante, esplendorosa, rica,
- música e gemedora, esvaziando e haurindo
- das matrizes dos céus, com jogo alterno e infindo,
- vida e morte, uma à outra amplíssimo tesoiro,
- tudo permisto e a flux nos alcatruzes de oiro,
- e tudo de auras mil de bênçãos ventilado,
- almo consolo empíreo ao mundo trabalhado!
- Que visão teatral! mas ai! visão somente!
- Oh Natureza enorme, oh tentação presente,
- hei-de entrar-te...
- Mas como? Onde é que tens sumidos
- os seios da abundância, a que andam suspendidos
- céu e terra? O meu ser, murcho, desanimado,
- almeja ir lá sugar leite caudal, jorrado
- a quanta sede há ’í! vê que só eu definho
- faminto na abundância.
( Voltando impaciente uma porção de folhas do livro )
- Avante! Outro caminho!
( Dá com a figura do Espírito da Terra )
- Acho influição melhor nesta figura.
- É Génio mais vizinho este da Terra.
- Recresce-me vigor; como que entrada
- de um vinho novo me referve a mente.
- Ouso ao mundo lançar-me: aos bens e aos males;
- Arcar com temporais; sentir sem medo
- O estrondo de um naufrágio.
( A ser possível, o teatro representará tudo que no decurso da fala se vai mencionando )
- Olha o negrume
- que lá vai pela abobada! Sumiu-se
- de todo a lua. A lâmpada vasqueja...
- apagou-se, fumega. Raios rubros
- sinto zunir-me em derredor das fontes.
- Da abóbada me sopram calafrios...
- Bem te pressinto, Espírito invocado!
- Aparece! Todo eu já sou tumulto.
- Transforma-se o meu ser: anseio, anelo
- por novas sensações. A ti me entrego.
- Obedece! Mando eu. Sai! sai! Não tremo;
- custe-me embora a vida.
( Pega do livro, e profere em baixa voz a fórmula da evocação do Espírito. Acende-se uma chama avermelhada e trémula. Aparece nela o Espírito. )
Cena II
Um ESPÍRITO e o dito
ESPÍRITO
- Quem me chama?
FAUSTO
- Horrendo aspecto!
ESPÍRITO
- Pois me evocaste
- da minha esfera,
- eis-me...
FAUSTO (afastando os olhos, e como quem foge)
- Não posso!...
( Durante esta fala, Fausto vai fazendo os gestos e accionados que o Espírito denuncia )
ESPÍRITO
- Olha-me! Espera!
- Já que almejaste
- por ver e ouvir-me,
- podes falar!
- Olha-me firme
- sem titubar!
- Aos teus conjuros
- obedeci.
- Bem! Que me queres?
- Pronto! Eis-me aqui.
- Pasmas, covarde?
- foge-te a cor?
- perdeste a fala?
- tremes de horror?
- O sábio, o forte,
- o sem segundo,
- o que em seu peito
- criava um mundo,
- o que nutria
- orgulho tal,
- que a nós, Espíritos,
- se cria igual,
- aí jaz por terra
- convulso, exausto!
- Quem me dá novas
- do antigo Fausto?
- Tu, que ousaste apostrofar-me
- no teu carme,
- co’a insolência mais que rara
- de afrontar-me cara a cara,
- mal que aspiras
- o ar que efundo,
- já deliras,
- já no fundo
- mais profundo
- do teu ser,
- verme calcado,
- sentes a vida
- quase perdida!
FAUSTO
- Eu ceder-te, fogo fátuo!
- Nunca tu presumas tal!
- Sou Fausto; sou Fausto;
- de ti sou igual.
ESPÍRITO
- Neste mar,
- neste mar tempestuoso
- do viver e do actuar,
- subo, desço, não repouso,
- vou e venho sem cessar
- neste mar.
- Morredoiras vidas,
- mortes renascidas
- em fogosas lidas,
- sem jamais parar...
- eis de que eu fabrico
- no imenso tear
- as roupas fulgentes
- que o rico mais rico,
- que o Ente dos Entes
- se digna trajar.
FAUSTO
- Génio activo e infatigável,
- bem que abarques todo o mundo,
- eu, espírito incansável,
- posso crer-me a ti segundo.
ESPÍRITO
- Segundo a um ser, tua invenção,
- mas a mim não.
( Desaparece. )
Cena III
FAUSTO (só)
- A ti não! a quem então?
- Eu que de Deus imagem ser me cri,
- nem sequer posso comparar-me a ti?
( Batem à porta )
- Que raiva! Não me engano... Há-de ser Wagner,
- o aluno cá de casa. E lá se perde
- tão bela ocasião. Vem este mono
- dar-me quebra a visões desta importância!
Cena IV
WAGNER, de roupão e barrete de dormir, com um candeeiro na mão. FAUSTO vira-se de mau humor.
WAGNER
- Queira-me perdoar o interrompê-lo.
- O Mestre estava agora declamando;
- não ’stava? Dou que lia alguma cena
- do seu teatro grego. O que eu gostava
- de ser também um dia actor dramático!
- É coisa que anda em moda, e rende fama.
- Um moralista cénico, até dizem
- ser mais útil que um padre.
FAUSTO
- Ah, sim, se o padre
- é moralista cómico; há bastantes.
WAGNER
- O que me faz cabeça, é como pode
- quem vive no seu canto, e não vê mundo
- salvo algum dia santo, e só o observa
- de longe e por um óculo, repito,
- como pode ser guia de costumes.
FAUSTO
- E certo que o não pode, se em si mesmo
- não sentir lá por dentro o fogo sacro.
- É só co’a inspiração própria, espontânea,
- que se domina a turba, O chocho, o inerte,
- como de seu não tem, mas quer pôr mesa,
- pilha aqui, sisa ali; mistura, assopra
- no seu fogareirinho um lumezito,
- e sai-se co’um pitéu de mistifório,
- que só porcos ou cães o tragariam.
- Se gostas, prol te faça. Mas banquete
- que seduza, e convide, e preste aos homens,
- só dos miolos teus podes guisá-lo.
WAGNER
- E eu a cuidar que nos sermões, o tudo
- era a voz, o accionado, o tom solene!
- Que lanzudo que eu era!
FAUSTO
- Arma aos benesses
- sem faltar ao decoro. Farfalhices
- e guizalhada a bobos só pertencem.
- A paixão verdadeira, o senso recto
- escusam de artifício. Assunto sério
- não se anda à caça de vistosas frases.
- Os discursos de alardo e de oiropeles
- com que os vícios zurzis, servem e aprazem
- como o vento do outono às folhas secas.
WAGNER
- Deus me acuda! A arte é longa, a vida breve.
- Já de tanto estudar chego a ter dores
- de cabeça e de peito. O achar caminho
- certo, seguro, que nos leve às causas,
- tem busílis. Primeiro que lá chegue,
- pode mil vezes dar o triste à casca.
FAUSTO
- Engano, engano! Onde há nuns alfarrábios
- nascente milagrosa em que de um sorvo
- se fartem para sempre as sedes d’alma?
- Refrigério eficaz para tais sedes
- só em ti o acharás.
WAGNER
- Mas um bom livro!
- Não será gosto o recuar nas eras,
- ver o que era o saber da primitiva,
- e compará-lo ao de hoje? Que progresso!
- que esplêndido subir!
FAUSTO
- Pois não! já vamos
- pelo sétimo céu! Wagner amigo,
- o mundo velho é livro arqui-brochado
- com sete selos. Isso, que vós outros
- apelidais o espírito de um século,
- é simplesmente o vosso próprio espírito,
- a debuxar fantasmas que abalaram.
- Mas que espelho tão pífio a quem o observa!
- Faz nojo; faz fugir; bem comparado,
- como um barril do lixo, ou como um sótão
- de cacaréus sem préstimo nem graça;
- ou, por melhor dizer, como comédia
- em barraca de feira, alardeando
- pomposas vistas, máximas de arromba,
- que em falsetes de títeres chimpadas,
- são da plebe regalo e maravilha.
WAGNER
- Conhecer o que o mundo e os homens sejam
- a toda a gente agrada.
FAUSTO
- E essa tal gente
- que chama conhecer? Quem é que pode
- dar à mínima coisa o nome próprio?
- Os raros, que algo disso entreluziram,
- e que, em vez de o esconder a sete chaves,
- foram à doida assoalhar no vulgo
- seu pensar e sentir em toda a parte,
- acabaram na cruz ou na fogueira.
- .................................
- .................................
- Amigo, por quem és, vai alta a noite.
- Basta por hoje.
WAGNER
- Eu cá por mim gostoso
- velara a ouvir tal sábio a vida inteira.
- Mas enfim cá me vou. Levo inda uns pontos
- por aclarar; nas boas horas fiquem
- para amanhã, que é Páscoa d’Aleluia.
- Eu moirejo a estudar, e sei já muito,
- mas inda não sei tudo.
( Sai )
Cena V
FAUSTO (só)
- Como estes crendeirões esperam sempre!
- Fossam na terra, à cata de um tesoiro,
- dão co’uma vil minhoca, e ficam pagos!
- Mas aqui, aqui mesmo, onde há tão pouco
- me conversava um génio, como pude
- ouvir a voz deste homem? Todavia
- bem hajas tu, misérrimo vivente,
- pois vieste arrancar-me ao desespero
- que me ia aniquilar.
- Tão monstruosa
- era aquela avejão, que me sentia
- a par dela pigmeu.
- Ter eu suposto
- que era imagem de Deus! Crer-me chegado
- à intuição da verdade, já despido
- na plena luz o invólucro terreno!
- e exceder querubins! e a meu talante
- por toda a natureza insinuar-me,
- fruindo gozos da criadora essência!!...
- Pago bem caro o orgulho. Trovejou-me
- tremenda voz: «És nada.»
- Sim. Nem posso
- equiparar-me a ti! Pude evocar-te
- mas reter-te não pude. Vi-me a um tempo
- sumo e ínfimo. Espírito inclemente,
- co’um mero Vade retro me atiraste
- de novo ao flutuar da sorte humana.
- A quem já buscarei para instruir-me?
- e de que hei-de temer-me?
- É bem que eu ceda
- ao meu impulso actual, ou que o resista?
- Que maior jus terão sobre a existência
- Os males do que a força?
- És tu, matéria,
- parte vil do meu ser, és tu quem sempre
- vem contrastar do espírito os arrojos.
- Como na vida há bens, fora da vida
- já não cremos que os possa haver maiores.
- Altos assomos d’alma, que haveriam
- de nos dar a ventura, eis que os afoga
- um mar d’interessículos mundanos.
- Quando audaz fantasia arranca o voo,
- brada insofrida: Eternidade, és minha!...»
- leva-lhe as asas repentino raio;
- esperança, alegria estão desfeitas,
- e um cantinho qualquer então lhe basta.
- Mas se a vaidade é ida, aí vem cuidados
- ralar-nos o interior e destruir-nos
- alegria e descanso; não sossegam;
- trajam máscaras mil; agora a casa,
- logo o paço, a mulher, a prole, os servos,
- fogo, punhal, venenos, mar. Trememos
- com receios quiméricos; choramos
- perdas sonhadas, ilusórias, nulas.
( Pausa )
- Deus, eu! Pois eu não vejo claramente
- que não sou Deus? Imagem sua! imagem
- mais depressa de um verme: um verme vive
- a afuroar na terra, a alimentar-se
- do pó da terra, enquanto um passageiro
- o não pisa e sepulta.
- E em a realidade
- que é senão pó tudo isto que me cerca,
- em tanta prateleira acumulado?
- toda essa pedantona bugiaria,
- que inda ao mundo dos vermes me afeiçoa?
- Ali é que hei-de achar o que me falta?
- Terei de ler milheiros de volumes
- para saber que em tudo e em toda a parte
- os homens tem vivido a atormentar-se?
- não havendo senão de longe em longe
- num sítio ou noutro alguém que se não queixe?
( Encarando no esqueleto )
- Que me estás tu daí zombeteando,
- caveira despejada? Entendo a mofa:
- dizes que os teus miolos, quando os tinhas,
- também como hoje os meus, esfervilhavam;
- tudo era afadigarem-se às escuras
- em demanda da luz que vivifica;
- por gosto erravas, mísero, qual erro,
- traz a verdade e em vão.
( Virando-se para as máquinas )
- Se até vós mesmos,
- instrumentos, que nunca houvestes alma,
- estais co’as vossas cordas e cilindros,
- rodas e dentes, a meter-me à bulha!
- Eu ter-vos, eu supor-vos chave mestra
- de tanto arcano, estar-lhe ansioso à porta,
- forcejar... e afinal desenganar-me
- de que a chave não diz co’a fechadura!
- Ciosa de seus véus a natureza
- nem ao mais claro dia se descobre;
- e o que ela nos não mostre por si mesma
- não lho hão-de arrancar máquinas.
- Conservo
- para aí todas essas velharias
- porque eram de meu pai, que eu fruto delas
- inda o não vi; nenhum! Olha a roldana,
- como está do candeeiro enfumaçada!
- Pudera! um lucubrar de tantos anos!
- Melhor eu me tivera descartado
- de tão reles herança, encargo e carga
- que me faz suar tanto! O que homem herda
- só o pode chamar seu quando o utiliza.
- Haver que nos não presta é simples ónus.
- Só no uso consiste a propriedade.
- ( Encara numa âmbula de vidro, que está na
- prateleira )
- Mas, que atracção possante,
- dalém, a todo o instante,
- me está chamando o olhar?
- Âmbula cristalina,
- teu brilho me fascina,
- me alegra e me ilumina.
- Nesta alma, selva escura,
- graças a ti fulgura
- esplêndido luar.
( Tira a âmbula )
- Salve, ó cristal que eu tiro
- do ocioso teu retiro
- com fé, com devoção!
- Conténs a quinta essência
- da indústria, da ciência,
- a inércia, a sonolência,
- a morte fulminante.
- Sê-me, ó licor prestante,
- refúgio e salvação.
- Miro-te, e a dor se acalma.
- Empunho-te, e já n’alma
- se infiltra placidez.
- Outra maré que estua:
- Que ímpeto em mim actua!
- e sobre a face tua,
- vítreo estendal das vagas
- me arroja a ignotas plagas
- onde outros céus já vês.
- Ígnea carroça alígera
- aí vem tomar-me. Parto.
- Já por caminho insólito
- da terra vil me aparto.
- Remonto no éter fluido.
- Sacudo a humanidade.
- Engolfo-me nos vórtices
- da suma actividade.
- Oh! que existir magnífico!
- Sublimo-me até Deus.
- Sus, verme; sus, blasfemo,
- que o ínfimo ao supremo
- alças nos sonhos teus!
- De insanos terrores zomba!
- Costas vira ao sol da terra!
- Portão que a todos aterra,
- eis braço audaz que te arromba.
- Por um acto só pendente
- da minha própria vontade,
- provarei que a humanidade
- é também omnipotente;
- que não passam de delírios,
- abortos da mente insana
- esses infernos-martírios
- com que a morte à vida engana.
- Almejo ir com ledo rosto
- devassar o passo estreito,
- onde o humano preconceito
- tão vivos fogos tem posto.
- Partamos! É vinda a hora;
- rompa-se a treva cerrada;
- embora no arrojo, embora,
- meu ser se resolva em nada.
( Tira um copo lavrado )
- Desce! Vem! Sai do cofre esquecido
- (e há bem anos) oh taça, que hás sido
- dos avitos festins o prazer.
- De conviva a conviva girando
- nenhum triste, em te aos lábios chegando,
- resistia ao teu ledo poder.
- Cada um quando a vez lhe chegava,
- sua trova às figuras cantava
- do teu fúlgido insigne lavor,
- e depois te enxugava de um trago.
- Como em voz a sorrir inda vago,
- tempos bons do meu flóreo verdor!
- Agora estou sozinho;
- não há já ’í vizinho
- a que haja de passar-te.
- Agora já não tenho
- que me apurar o engenho
- nos teus primores d’arte.
- Bom! Venha este licor que súbito inebria;
- dele é que te hei-de encher; eu mesmo o preparei;
- nenhum lhe chega em força.
- ( Depois de ter vazado o veneno, da âmbula
- para o copo, diz com solenidade: )
- Aurora do grão dia!
- Com este tetro misto alfim te brindarei!
( Ao chegar a taça aos lábios tangem campas; ouvem-se anjos a cantar )
CORO DE ANJOS (não vistos pelo espectador, sons que chegam da Igreja vizinha)
- Cristo ressuscita!
- Jubilai alturas!
- Paz às criaturas,
- salvas e seguras
- da prisão maldita!
- ( Continuam a ouvir-se ao longe repicar os
- campanários da cidade. )
FAUSTO
- Que divina toada e inesperado encanto
- dos lábios me repulsa o líquido letal!
- Este repique ao longe é já o sinal santo
- que anuncia aos fieis o júbilo Pascal?
- Será este cantar o do celeste coro
- que outrora em dia igual, trocando em festa o choro,
- por cima do sepulcro aberto ao Redentor
- hosanas entoara à nova lei do amor?
- CORO DE MULHERES ( que cantam, sem serem vistas
- também, no próximo templo )
- Por nós, seus devotos
- aqui foi trazido;
- aqui, entre votos
- de aromas ungido,
- aqui o envolvemos
- no linho mais fino.
- Como é que o perdemos,
- o Mestre Divino?
CORO DOS ANJOS (que não são vistos)
- Ressurgiu Cristo amante,
- ileso, triunfante
- de tanta provação.
- Traz por coroa ufana
- a humana salvação.
FAUSTO
- Vozes celestiais, potente suavidade,
- que assim baixais ao pó, de mim que pretendeis?
- Não faltam por aí fracos em quem podeis
- empregar-vos em cheio. Oiço-vos, é verdade,
- mas falece-me a fé... Sem fé, que racional
- daria seu assenso ao sobrenatural?
- Àquelas regiões, donde oiço a boa nova,
- não ouso abalançar-me. E ainda todavia,
- só porque na puerícia os mesmos sons ouvia,
- como que reverdeço, e o crer se me renova.
- Ai, domingo Pascal, o que eras algum dia!
- Coavas por mim dentro um ósculo celeste.
- O argentino repique era uma profecia...
- Ai, dia do Senhor, que júbilos me deste!
- Era-me êxtase orar. Impulso irresistível,
- inefável saudade, encanto indefinível
- me levava a girar nos campos florescentes,
- ou no mais ermo bosque, onde em silêncio fundo,
- debulhando-me à farta em lágrimas ferventes,
- sentia dentro n’alma abrir-se um novo mundo.
- Este alegre cantar era, naquela idade,
- um bando de folgança à pronta mocidade:
- Vinha lá primavera! Inda hoje estas lembranças
- de boa fé tamanha e tão pueris folganças
- tanta força em mim tem, que junto ao passo extremo,
- depois de resoluto... hesito, se não tremo.
- Bem hajais! Prossegui!... oh cânticos celestes,
- que abrir-me enfim soubestes
- a fonte onde a ternura as lágrimas encerra.
- Por vencido me dou: reconquistou-me a terra.
CORO DOS DISCÍPULOS (Invisíveis para o espectador)
- Do avarento moimento arrombado
- reascendeu para o trono paterno,
- Deus de Deus, luz de luz, sempiterno,
- perenal Criador incriado.
- Ai de nós! ai, que invejas ao Mestre!
- De ora avante sem ele tão sós
- cá ficamos no exílio terrestre,
- Ai saudades! ai céus! ai de nós!
CORO DOS ANJOS ((invisíveis para o espectador)
- Da corrupção da morte
- alou-se incorruptível.
- Discípulos do forte,
- fugi da mesma sorte
- da culpa à herança horrível!
- Aos que amam de verdade,
- cumprem a caridade,
- e para a eternidade
- chamando os homens vão,
- a esses, pia gente,
- o que chorais ausente
- é, foi, será presente:
- pai, mestre, amigo, irmão!