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FaustoQuadro II
QuadroII

Aposento gótico, altamente abobadado. Uma porta ao fundo, e janela à direita. Entre um fog

597 versos · 2 notas do tradutor


Cena I

FAUSTO ( dessocegado, sentado numa poltrona de sola e pregaria de cobre, com a cabeça fincada nas mãos, e os cotovelos na mesa de estudo, na qual derrama luz frouxa um candeeiro aceso. )

  1. Ao cabo de escrutar co’o mais ansioso estudo
  2. filosofia, e foro, e medicina, e tudo
  3. até a teologia... encontro-me qual dantes;
  4. em nada me risquei do rol dos ignorantes.
  5. Mestre em artes me chamo; inculco-me Doutor;
  6. e em dez anos vai já que, intrépido impostor,
  7. aí trago em roda viva um bando de crendeiros,
  8. meus alunos... de nada, e ignaros verdadeiros.
  9. O que só liquidei depois de tanta lida,
  10. foi que a humana inciência é lei nunca infringida.
  11. Que frenesi! Sei mais, sei mais, isso é verdade,
  12. do que toda essa récua inchada de vaidade:
  13. lentes e bachareis, padres e escrevedores.
  14. Já me não fazem mossa escrúpulos, terrores
  15. de diabos e inferno, atribulados sonhos
  16. e martírio sem fim dos ânimos bisonhos.
  1. Mas, com te suplantar, fatal credulidade,
  2. que bens reais lucrei? gozo eu felicidade?
  3. Ah! nem a de iludir-me e crer-me sábio. Sei
  4. que finjo espalhar luz, e nunca a espalharei
  5. que dos maus faça bons, ou torne os bons melhores;
  6. antes faço os bons maus, e os maus inda piores.
  7. Lucro, sequer, eu próprio? Ambiciono opulência,
  8. e vivo pobre, quase à beira da indigência.
  9. Cobiço distinguir-me, enobrecer-me, e vou-me
  10. co’a vil plebe confuso, à espera em vão de um nome.
  11. E chama-se isto vida! Os próprios cães da rua
  12. não quereriam dar em troco desta a sua.

( Depois de longa pausa meditativa )

  1. Só falta recorrer às artes da magia.
  2. No espírito há poder; na voz cabe energia,
  3. que a transforma em cominando. Então, consociada
  4. a palavra ao querer, talvez lhe seja dada
  5. força para arrancar com soberano império
  6. à natureza avara o íntimo mistério.
  7. Se o chego a conseguir... que júbilo! que dita!
  8. Não precisarei mais, desde essa hora bendita,
  9. após trabalhos mil como esses que frustrei,
  10. dar por certas ao mundo as coisas que não sei.
  11. Ser-me-á fácil dizer o vínculo profundo
  12. que uniu partes sem conto, e fez do todo um mundo;
  13. ver a força motriz de tanto movimento,
  14. e consignar-lhe a causa. Ah! desde esse momento
  15. em que o cerrado enigma alfim me for notório,
  16. foi-se o torpe chatim de estulto palavrório.

( Depois de pausa, e voltando-se comovido, para a fresta por onde entra o luar )

  1. Oh minha lua cheia, oh minha doce amiga!
  2. Possas tu não mais ver em tão cruel fadiga
  3. o homem que tanta vez dos céus hás contemplado
  4. a desoras velando, em livros engolfado.
  5. Melancólica amante! a claridade tua
  6. achou-me sempre a ler. Se hoje um teu raio, ó lua,
  7. me levasse a pairar nos cumes apartados,
  8. a borboletear nos antros frequentados
  9. dos espíritos só, a saltitar liberto
  10. da científica névoa, em fundo de um deserto,
  11. à luz crepuscular que tácita derramas
  12. aos selvosos desvãos, por entre as móveis ramas!
  13. Que refrigério d’alma um banho nesse rócio
  14. não dera, amada lua, às febres do teu sócio!

( Silêncio. Cai em desalento. Depois levanta-se, e percorre com a vista o aposento )

  1. Que masmorra que é isto! E aqui me vou gastando
  2. neste covil infecto, abominoso, infando,
  3. lôbrega escuridade a que o celeste dia,
  4. prazer da terra toda, um raio a custo envia
  5. pelos vidros de cor em treva mascarado.
  6. Para onde quer que fuja o olhar do emparedado,
  7. bate nesta Babel de livros bolorentos,
  8. pastagem da polilha, informes, sonolentos,
  9. e em rumas de papeis, do tempo denegridos,
  10. caótico tropel de abortos esquecidos,
  11. que trepa, galga, encobre, enluta, afeia, inunda,
  12. a casa desde o solho à abobada profunda;
  13. sem falar no sem-fim de drogas, pós, essências,
  14. máquinas, que sei eu! misérias, importâncias,
  15. que já me infundem tédio. E a isto se apelida
  16. o meu mundo! Isto é mundo, ou esta vida é vida?

( Dolorosamente )

  1. E inda perguntarás, pobre homem, donde vem
  2. a angústia que te rala, e as forças te retém?
  3. Toda a gente a gozar dos bens que o Factor Sumo
  4. lhe faculta na terra; e eu... neste ascoso fumo
  5. entre ossos de animais e esqueletos!
  6. Sus! Sus!
  7. Fausto, longe daqui! Torna-te ao ar, à luz!

( Vai a sair. Retrograda lentamente )

  1. Mas... agora me ocorre; é bom tentar. Vejamos
  2. que nos diz no seu livro o sábio Nostradamus .
  3. Não há guia melhor.

( Tira da livraria um calhamaço, e põe-no numa alta estante de coro, que está colocada a um lado do proscénio )

  1. Aqui se põe patente
  2. dos planetas o influxo; e logo em continente,
  3. percebido o teor da natureza, tomo
  4. com ela intimidade, e a meu sabor a domo;
  5. trato-a de igual a igual. A espíritos é dada
  6. esta mútua influência. Eis a teoria achada...

( Pausa )

  1. Sim; mas o praticá-la! O humano entendimento
  2. não pode só por si colher o pensamento
  3. que o nosso abstruso autor depôs nestas figuras.
  1. Génios que me cercais, volantes e às escuras,
  2. se me ouvis, respondei!

( Continua a folhear o livro. Encara na estampa do Macrocosmo )

  1. Que imagem peregrina!
  2. que inefável delícia enleva repentina
  3. todo todo o meu ser! enchentes de doçura,
  4. nunca de mim sonhada! A mão que tal figura
  5. aqui delineou, à fé que era divina,
  6. pois só vê-la me acalma, a dor já me não mina.
  1. O coração me exulta, alegre, alvoroçado,
  2. sôfrego, crente, certo, ufano, endeusado
  3. de atingir afinal explicação completa
  4. do enigma que há já tanto os dias me inquieta.
  1. Dar-se-á que eu seja um deus? Não sei. A claridade
  2. que me cresce em redor, não é da humanidade.
  3. Neste debuxo morto avisto claramente
  4. a vivaz natureza, universal nascente,
  5. estar-se em criações contínuas prorrompendo.
  6. Vejo-o c’os olhos d’alma. Agora, agora intendo
  7. a sentença do sábio:

( Em tom de quem recita coisa decorada )

  1. - «O mundo espiritual
  2. «a ninguém é vedado. O porque o julgas tal
  3. «é por teres o senso obtuso, e o coração
  4. «defunto. Rompe a inércia! Expulsa a indecisão,
  5. «discípulo covarde, e engolfa-te brioso
  6. «no arrebol que entrevês.»

( Contempla a estampa )

  1. Quadro maravilhoso!
  2. Como tudo se tece e junto se unifica!
  3. Nora imensa e possante, esplendorosa, rica,
  4. música e gemedora, esvaziando e haurindo
  5. das matrizes dos céus, com jogo alterno e infindo,
  6. vida e morte, uma à outra amplíssimo tesoiro,
  7. tudo permisto e a flux nos alcatruzes de oiro,
  8. e tudo de auras mil de bênçãos ventilado,
  9. almo consolo empíreo ao mundo trabalhado!
  10. Que visão teatral! mas ai! visão somente!
  11. Oh Natureza enorme, oh tentação presente,
  12. hei-de entrar-te...
  13. Mas como? Onde é que tens sumidos
  14. os seios da abundância, a que andam suspendidos
  15. céu e terra? O meu ser, murcho, desanimado,
  16. almeja ir lá sugar leite caudal, jorrado
  17. a quanta sede há ’í! vê que só eu definho
  18. faminto na abundância.

( Voltando impaciente uma porção de folhas do livro )

  1. Avante! Outro caminho!

( Dá com a figura do Espírito da Terra )

  1. Acho influição melhor nesta figura.
  2. É Génio mais vizinho este da Terra.
  3. Recresce-me vigor; como que entrada
  4. de um vinho novo me referve a mente.
  5. Ouso ao mundo lançar-me: aos bens e aos males;
  6. Arcar com temporais; sentir sem medo
  7. O estrondo de um naufrágio.

( A ser possível, o teatro representará tudo que no decurso da fala se vai mencionando )

  1. Olha o negrume
  2. que lá vai pela abobada! Sumiu-se
  3. de todo a lua. A lâmpada vasqueja...
  4. apagou-se, fumega. Raios rubros
  5. sinto zunir-me em derredor das fontes.
  6. Da abóbada me sopram calafrios...
  1. Bem te pressinto, Espírito invocado!
  2. Aparece! Todo eu já sou tumulto.
  3. Transforma-se o meu ser: anseio, anelo
  4. por novas sensações. A ti me entrego.
  5. Obedece! Mando eu. Sai! sai! Não tremo;
  6. custe-me embora a vida.

( Pega do livro, e profere em baixa voz a fórmula da evocação do Espírito. Acende-se uma chama avermelhada e trémula. Aparece nela o Espírito. )

Cena II

Um ESPÍRITO e o dito

ESPÍRITO

  1. Quem me chama?

FAUSTO

  1. Horrendo aspecto!

ESPÍRITO

  1. Pois me evocaste
  2. da minha esfera,
  3. eis-me...

FAUSTO (afastando os olhos, e como quem foge)

  1. Não posso!...

( Durante esta fala, Fausto vai fazendo os gestos e accionados que o Espírito denuncia )

ESPÍRITO

  1. Olha-me! Espera!
  2. Já que almejaste
  3. por ver e ouvir-me,
  4. podes falar!
  5. Olha-me firme
  6. sem titubar!
  7. Aos teus conjuros
  8. obedeci.
  9. Bem! Que me queres?
  10. Pronto! Eis-me aqui.
  11. Pasmas, covarde?
  12. foge-te a cor?
  13. perdeste a fala?
  14. tremes de horror?
  15. O sábio, o forte,
  16. o sem segundo,
  17. o que em seu peito
  18. criava um mundo,
  19. o que nutria
  20. orgulho tal,
  21. que a nós, Espíritos,
  22. se cria igual,
  23. aí jaz por terra
  24. convulso, exausto!
  25. Quem me dá novas
  26. do antigo Fausto?
  27. Tu, que ousaste apostrofar-me
  28. no teu carme,
  29. co’a insolência mais que rara
  30. de afrontar-me cara a cara,
  31. mal que aspiras
  32. o ar que efundo,
  33. já deliras,
  34. já no fundo
  35. mais profundo
  36. do teu ser,
  37. verme calcado,
  38. sentes a vida
  39. quase perdida!

FAUSTO

  1. Eu ceder-te, fogo fátuo!
  2. Nunca tu presumas tal!
  3. Sou Fausto; sou Fausto;
  4. de ti sou igual.

ESPÍRITO

  1. Neste mar,
  2. neste mar tempestuoso
  3. do viver e do actuar,
  4. subo, desço, não repouso,
  5. vou e venho sem cessar
  6. neste mar.
  7. Morredoiras vidas,
  8. mortes renascidas
  9. em fogosas lidas,
  10. sem jamais parar...
  11. eis de que eu fabrico
  12. no imenso tear
  13. as roupas fulgentes
  14. que o rico mais rico,
  15. que o Ente dos Entes
  16. se digna trajar.

FAUSTO

  1. Génio activo e infatigável,
  2. bem que abarques todo o mundo,
  3. eu, espírito incansável,
  4. posso crer-me a ti segundo.

ESPÍRITO

  1. Segundo a um ser, tua invenção,
  2. mas a mim não.

( Desaparece. )

Cena III

FAUSTO (só)

  1. A ti não! a quem então?
  2. Eu que de Deus imagem ser me cri,
  3. nem sequer posso comparar-me a ti?

( Batem à porta )

  1. Que raiva! Não me engano... Há-de ser Wagner,
  2. o aluno cá de casa. E lá se perde
  3. tão bela ocasião. Vem este mono
  4. dar-me quebra a visões desta importância!

Cena IV

WAGNER, de roupão e barrete de dormir, com um candeeiro na mão. FAUSTO vira-se de mau humor.

WAGNER

  1. Queira-me perdoar o interrompê-lo.
  2. O Mestre estava agora declamando;
  3. não ’stava? Dou que lia alguma cena
  4. do seu teatro grego. O que eu gostava
  5. de ser também um dia actor dramático!
  6. É coisa que anda em moda, e rende fama.
  7. Um moralista cénico, até dizem
  8. ser mais útil que um padre.

FAUSTO

  1. Ah, sim, se o padre
  2. é moralista cómico; há bastantes.

WAGNER

  1. O que me faz cabeça, é como pode
  2. quem vive no seu canto, e não vê mundo
  3. salvo algum dia santo, e só o observa
  4. de longe e por um óculo, repito,
  5. como pode ser guia de costumes.

FAUSTO

  1. E certo que o não pode, se em si mesmo
  2. não sentir lá por dentro o fogo sacro.
  3. É só co’a inspiração própria, espontânea,
  4. que se domina a turba, O chocho, o inerte,
  5. como de seu não tem, mas quer pôr mesa,
  6. pilha aqui, sisa ali; mistura, assopra
  7. no seu fogareirinho um lumezito,
  8. e sai-se co’um pitéu de mistifório,
  9. que só porcos ou cães o tragariam.
  10. Se gostas, prol te faça. Mas banquete
  11. que seduza, e convide, e preste aos homens,
  12. só dos miolos teus podes guisá-lo.

WAGNER

  1. E eu a cuidar que nos sermões, o tudo
  2. era a voz, o accionado, o tom solene!
  3. Que lanzudo que eu era!

FAUSTO

  1. Arma aos benesses
  2. sem faltar ao decoro. Farfalhices
  3. e guizalhada a bobos só pertencem.
  4. A paixão verdadeira, o senso recto
  5. escusam de artifício. Assunto sério
  6. não se anda à caça de vistosas frases.
  7. Os discursos de alardo e de oiropeles
  8. com que os vícios zurzis, servem e aprazem
  9. como o vento do outono às folhas secas.

WAGNER

  1. Deus me acuda! A arte é longa, a vida breve.
  2. Já de tanto estudar chego a ter dores
  3. de cabeça e de peito. O achar caminho
  4. certo, seguro, que nos leve às causas,
  5. tem busílis. Primeiro que lá chegue,
  6. pode mil vezes dar o triste à casca.

FAUSTO

  1. Engano, engano! Onde há nuns alfarrábios
  2. nascente milagrosa em que de um sorvo
  3. se fartem para sempre as sedes d’alma?
  4. Refrigério eficaz para tais sedes
  5. só em ti o acharás.

WAGNER

  1. Mas um bom livro!
  2. Não será gosto o recuar nas eras,
  3. ver o que era o saber da primitiva,
  4. e compará-lo ao de hoje? Que progresso!
  5. que esplêndido subir!

FAUSTO

  1. Pois não! já vamos
  2. pelo sétimo céu! Wagner amigo,
  3. o mundo velho é livro arqui-brochado
  4. com sete selos. Isso, que vós outros
  5. apelidais o espírito de um século,
  6. é simplesmente o vosso próprio espírito,
  7. a debuxar fantasmas que abalaram.
  8. Mas que espelho tão pífio a quem o observa!
  9. Faz nojo; faz fugir; bem comparado,
  10. como um barril do lixo, ou como um sótão
  11. de cacaréus sem préstimo nem graça;
  12. ou, por melhor dizer, como comédia
  13. em barraca de feira, alardeando
  14. pomposas vistas, máximas de arromba,
  15. que em falsetes de títeres chimpadas,
  16. são da plebe regalo e maravilha.

WAGNER

  1. Conhecer o que o mundo e os homens sejam
  2. a toda a gente agrada.

FAUSTO

  1. E essa tal gente
  2. que chama conhecer? Quem é que pode
  3. dar à mínima coisa o nome próprio?
  4. Os raros, que algo disso entreluziram,
  5. e que, em vez de o esconder a sete chaves,
  6. foram à doida assoalhar no vulgo
  7. seu pensar e sentir em toda a parte,
  8. acabaram na cruz ou na fogueira.
  9. .................................
  10. .................................
  11. Amigo, por quem és, vai alta a noite.
  12. Basta por hoje.

WAGNER

  1. Eu cá por mim gostoso
  2. velara a ouvir tal sábio a vida inteira.
  3. Mas enfim cá me vou. Levo inda uns pontos
  4. por aclarar; nas boas horas fiquem
  5. para amanhã, que é Páscoa d’Aleluia.
  6. Eu moirejo a estudar, e sei já muito,
  7. mas inda não sei tudo.

( Sai )

Cena V

FAUSTO (só)

  1. Como estes crendeirões esperam sempre!
  2. Fossam na terra, à cata de um tesoiro,
  3. dão co’uma vil minhoca, e ficam pagos!
  4. Mas aqui, aqui mesmo, onde há tão pouco
  5. me conversava um génio, como pude
  6. ouvir a voz deste homem? Todavia
  7. bem hajas tu, misérrimo vivente,
  8. pois vieste arrancar-me ao desespero
  9. que me ia aniquilar.
  10. Tão monstruosa
  11. era aquela avejão, que me sentia
  12. a par dela pigmeu.
  13. Ter eu suposto
  14. que era imagem de Deus! Crer-me chegado
  15. à intuição da verdade, já despido
  16. na plena luz o invólucro terreno!
  17. e exceder querubins! e a meu talante
  18. por toda a natureza insinuar-me,
  19. fruindo gozos da criadora essência!!...
  20. Pago bem caro o orgulho. Trovejou-me
  21. tremenda voz: «És nada.»
  22. Sim. Nem posso
  23. equiparar-me a ti! Pude evocar-te
  24. mas reter-te não pude. Vi-me a um tempo
  25. sumo e ínfimo. Espírito inclemente,
  26. co’um mero Vade retro me atiraste
  27. de novo ao flutuar da sorte humana.
  1. A quem já buscarei para instruir-me?
  2. e de que hei-de temer-me?
  3. É bem que eu ceda
  4. ao meu impulso actual, ou que o resista?
  5. Que maior jus terão sobre a existência
  6. Os males do que a força?
  7. És tu, matéria,
  8. parte vil do meu ser, és tu quem sempre
  9. vem contrastar do espírito os arrojos.
  10. Como na vida há bens, fora da vida
  11. já não cremos que os possa haver maiores.
  12. Altos assomos d’alma, que haveriam
  13. de nos dar a ventura, eis que os afoga
  14. um mar d’interessículos mundanos.
  15. Quando audaz fantasia arranca o voo,
  16. brada insofrida: Eternidade, és minha!...»
  17. leva-lhe as asas repentino raio;
  18. esperança, alegria estão desfeitas,
  19. e um cantinho qualquer então lhe basta.
  20. Mas se a vaidade é ida, aí vem cuidados
  21. ralar-nos o interior e destruir-nos
  22. alegria e descanso; não sossegam;
  23. trajam máscaras mil; agora a casa,
  24. logo o paço, a mulher, a prole, os servos,
  25. fogo, punhal, venenos, mar. Trememos
  26. com receios quiméricos; choramos
  27. perdas sonhadas, ilusórias, nulas.

( Pausa )

  1. Deus, eu! Pois eu não vejo claramente
  2. que não sou Deus? Imagem sua! imagem
  3. mais depressa de um verme: um verme vive
  4. a afuroar na terra, a alimentar-se
  5. do pó da terra, enquanto um passageiro
  6. o não pisa e sepulta.
  7. E em a realidade
  8. que é senão pó tudo isto que me cerca,
  9. em tanta prateleira acumulado?
  10. toda essa pedantona bugiaria,
  11. que inda ao mundo dos vermes me afeiçoa?
  12. Ali é que hei-de achar o que me falta?
  13. Terei de ler milheiros de volumes
  14. para saber que em tudo e em toda a parte
  15. os homens tem vivido a atormentar-se?
  16. não havendo senão de longe em longe
  17. num sítio ou noutro alguém que se não queixe?

( Encarando no esqueleto )

  1. Que me estás tu daí zombeteando,
  2. caveira despejada? Entendo a mofa:
  3. dizes que os teus miolos, quando os tinhas,
  4. também como hoje os meus, esfervilhavam;
  5. tudo era afadigarem-se às escuras
  6. em demanda da luz que vivifica;
  7. por gosto erravas, mísero, qual erro,
  8. traz a verdade e em vão.

( Virando-se para as máquinas )

  1. Se até vós mesmos,
  2. instrumentos, que nunca houvestes alma,
  3. estais co’as vossas cordas e cilindros,
  4. rodas e dentes, a meter-me à bulha!
  5. Eu ter-vos, eu supor-vos chave mestra
  6. de tanto arcano, estar-lhe ansioso à porta,
  7. forcejar... e afinal desenganar-me
  8. de que a chave não diz co’a fechadura!
  9. Ciosa de seus véus a natureza
  10. nem ao mais claro dia se descobre;
  11. e o que ela nos não mostre por si mesma
  12. não lho hão-de arrancar máquinas.
  13. Conservo
  14. para aí todas essas velharias
  15. porque eram de meu pai, que eu fruto delas
  16. inda o não vi; nenhum! Olha a roldana,
  17. como está do candeeiro enfumaçada!
  18. Pudera! um lucubrar de tantos anos!
  19. Melhor eu me tivera descartado
  20. de tão reles herança, encargo e carga
  21. que me faz suar tanto! O que homem herda
  22. só o pode chamar seu quando o utiliza.
  23. Haver que nos não presta é simples ónus.
  24. Só no uso consiste a propriedade.
  1. ( Encara numa âmbula de vidro, que está na
  2. prateleira )
  1. Mas, que atracção possante,
  2. dalém, a todo o instante,
  3. me está chamando o olhar?
  4. Âmbula cristalina,
  5. teu brilho me fascina,
  6. me alegra e me ilumina.
  7. Nesta alma, selva escura,
  8. graças a ti fulgura
  9. esplêndido luar.

( Tira a âmbula )

  1. Salve, ó cristal que eu tiro
  2. do ocioso teu retiro
  3. com fé, com devoção!
  4. Conténs a quinta essência
  5. da indústria, da ciência,
  6. a inércia, a sonolência,
  7. a morte fulminante.
  8. Sê-me, ó licor prestante,
  9. refúgio e salvação.
  1. Miro-te, e a dor se acalma.
  2. Empunho-te, e já n’alma
  3. se infiltra placidez.
  4. Outra maré que estua:
  5. Que ímpeto em mim actua!
  6. e sobre a face tua,
  7. vítreo estendal das vagas
  8. me arroja a ignotas plagas
  9. onde outros céus já vês.
  1. Ígnea carroça alígera
  2. aí vem tomar-me. Parto.
  3. Já por caminho insólito
  4. da terra vil me aparto.
  5. Remonto no éter fluido.
  6. Sacudo a humanidade.
  7. Engolfo-me nos vórtices
  8. da suma actividade.
  1. Oh! que existir magnífico!
  2. Sublimo-me até Deus.
  3. Sus, verme; sus, blasfemo,
  4. que o ínfimo ao supremo
  5. alças nos sonhos teus!
  1. De insanos terrores zomba!
  2. Costas vira ao sol da terra!
  3. Portão que a todos aterra,
  4. eis braço audaz que te arromba.
  5. Por um acto só pendente
  6. da minha própria vontade,
  7. provarei que a humanidade
  8. é também omnipotente;
  9. que não passam de delírios,
  10. abortos da mente insana
  11. esses infernos-martírios
  12. com que a morte à vida engana.
  13. Almejo ir com ledo rosto
  14. devassar o passo estreito,
  15. onde o humano preconceito
  16. tão vivos fogos tem posto.
  17. Partamos! É vinda a hora;
  18. rompa-se a treva cerrada;
  19. embora no arrojo, embora,
  20. meu ser se resolva em nada.

( Tira um copo lavrado )

  1. Desce! Vem! Sai do cofre esquecido
  2. (e há bem anos) oh taça, que hás sido
  3. dos avitos festins o prazer.
  4. De conviva a conviva girando
  5. nenhum triste, em te aos lábios chegando,
  6. resistia ao teu ledo poder.
  7. Cada um quando a vez lhe chegava,
  8. sua trova às figuras cantava
  9. do teu fúlgido insigne lavor,
  10. e depois te enxugava de um trago.
  11. Como em voz a sorrir inda vago,
  12. tempos bons do meu flóreo verdor!
  13. Agora estou sozinho;
  14. não há já ’í vizinho
  15. a que haja de passar-te.
  16. Agora já não tenho
  17. que me apurar o engenho
  18. nos teus primores d’arte.
  19. Bom! Venha este licor que súbito inebria;
  20. dele é que te hei-de encher; eu mesmo o preparei;
  21. nenhum lhe chega em força.
  1. ( Depois de ter vazado o veneno, da âmbula
  2. para o copo, diz com solenidade: )
  1. Aurora do grão dia!
  2. Com este tetro misto alfim te brindarei!

( Ao chegar a taça aos lábios tangem campas; ouvem-se anjos a cantar )

CORO DE ANJOS (não vistos pelo espectador, sons que chegam da Igreja vizinha)

  1. Cristo ressuscita!
  2. Jubilai alturas!
  3. Paz às criaturas,
  4. salvas e seguras
  5. da prisão maldita!
  1. ( Continuam a ouvir-se ao longe repicar os
  2. campanários da cidade. )

FAUSTO

  1. Que divina toada e inesperado encanto
  2. dos lábios me repulsa o líquido letal!
  3. Este repique ao longe é já o sinal santo
  4. que anuncia aos fieis o júbilo Pascal?
  5. Será este cantar o do celeste coro
  6. que outrora em dia igual, trocando em festa o choro,
  7. por cima do sepulcro aberto ao Redentor
  8. hosanas entoara à nova lei do amor?
  1. CORO DE MULHERES ( que cantam, sem serem vistas
  2. também, no próximo templo )
  1. Por nós, seus devotos
  2. aqui foi trazido;
  3. aqui, entre votos
  4. de aromas ungido,
  5. aqui o envolvemos
  6. no linho mais fino.
  7. Como é que o perdemos,
  8. o Mestre Divino?

CORO DOS ANJOS (que não são vistos)

  1. Ressurgiu Cristo amante,
  2. ileso, triunfante
  3. de tanta provação.
  4. Traz por coroa ufana
  5. a humana salvação.

FAUSTO

  1. Vozes celestiais, potente suavidade,
  2. que assim baixais ao pó, de mim que pretendeis?
  3. Não faltam por aí fracos em quem podeis
  4. empregar-vos em cheio. Oiço-vos, é verdade,
  5. mas falece-me a fé... Sem fé, que racional
  6. daria seu assenso ao sobrenatural?
  7. Àquelas regiões, donde oiço a boa nova,
  8. não ouso abalançar-me. E ainda todavia,
  9. só porque na puerícia os mesmos sons ouvia,
  10. como que reverdeço, e o crer se me renova.
  11. Ai, domingo Pascal, o que eras algum dia!
  12. Coavas por mim dentro um ósculo celeste.
  13. O argentino repique era uma profecia...
  14. Ai, dia do Senhor, que júbilos me deste!
  15. Era-me êxtase orar. Impulso irresistível,
  16. inefável saudade, encanto indefinível
  17. me levava a girar nos campos florescentes,
  18. ou no mais ermo bosque, onde em silêncio fundo,
  19. debulhando-me à farta em lágrimas ferventes,
  20. sentia dentro n’alma abrir-se um novo mundo.
  21. Este alegre cantar era, naquela idade,
  22. um bando de folgança à pronta mocidade:
  23. Vinha lá primavera! Inda hoje estas lembranças
  24. de boa fé tamanha e tão pueris folganças
  25. tanta força em mim tem, que junto ao passo extremo,
  26. depois de resoluto... hesito, se não tremo.
  27. Bem hajais! Prossegui!... oh cânticos celestes,
  28. que abrir-me enfim soubestes
  29. a fonte onde a ternura as lágrimas encerra.
  30. Por vencido me dou: reconquistou-me a terra.

CORO DOS DISCÍPULOS (Invisíveis para o espectador)

  1. Do avarento moimento arrombado
  2. reascendeu para o trono paterno,
  3. Deus de Deus, luz de luz, sempiterno,
  4. perenal Criador incriado.
  5. Ai de nós! ai, que invejas ao Mestre!
  6. De ora avante sem ele tão sós
  7. cá ficamos no exílio terrestre,
  8. Ai saudades! ai céus! ai de nós!

CORO DOS ANJOS ((invisíveis para o espectador)

  1. Da corrupção da morte
  2. alou-se incorruptível.
  3. Discípulos do forte,
  4. fugi da mesma sorte
  5. da culpa à herança horrível!
  6. Aos que amam de verdade,
  7. cumprem a caridade,
  8. e para a eternidade
  9. chamando os homens vão,
  10. a esses, pia gente,
  11. o que chorais ausente
  12. é, foi, será presente:
  13. pai, mestre, amigo, irmão!

Nota a nota · 2 notas

v. 83que nos diz no seu livro o sábio Nostradamus .
* – NOSTRADAMUS. – Miguel de Nostre Dame, conhecido pelo nome alatinado de Nostradamus era um cristão novo, procedente de família da tribo de Issachaar. Nasceu em S. Remígio na Provença. Dos desta tribo lê-se nos Paralipomenos: De filiis quoque Issachaar viri eruditi, qui noverant omnia tempora. Bem pode ser que esta sentença do Antigo Testamento actuasse no miolo do homem, para se meter em presunções de descobrir passados e revelar futuros, sestro em que também deram depois dele outros seus parentes. Como quer que seja, este Miguel Nostradamus adquiriu grande nomeada de curandeiro e adivinhão, com dez centúrias de quartetos disparatados, com versinhos daquém e dalém-metro, tudo em estilo sibilino, e nos quais, como os nossos sebastianistas nas profecias do Bandarra, os crendeiros enxergavam, cada um o que lhe fazia conta, ou que desejava se realizasse. Deste orate explorador da simpleza do próximo do seu tempo existe impresso um tratado de astrologia. É provavelmente esse o livro que o doutor Fausto consulta; ou então algum outro, que o poeta lhe atribua, e que ficaria inédito. Sobre os seus vaticínios compôs um curioso o seguinte dístico: Nostra damus, quum falsa damus; nam fallere nostrum est. Et, quum falsa damus, nil, nisi nostra, damus.
↩ voltar ao verso 83
v. 517Cristo ressuscita!
* – CORO DE ANJOS (não vistos do espectador). – A Baronesa de Stael, relatando na sua prosa, que desbanca a muitas poesias, o drama Fausto, acode aqui com uma plausível explicação dos cantares que dissipam no ânimo de Fausto a resolução do suicídio, quando a taça do veneno ia já caminho dos lábios. Todos estes cantares, diz ela que chegam da igreja vizinha. O autor esquecera-se de o declarar; com o que pouco explicável ficou, e escusadamente sobrenatural, que o filósofo, e bem assim os espectadores, pudessem ouvir tais coros. Entendemos portanto dever perfilhar, como fizemos, a discreta correcção da eminente escritora.
↩ voltar ao verso 517
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Próximo quadroIIIFora de portas. Variado campo. Ao fundo escureja a porta baixa e arqueada da cidade. À dir