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FaustoQuadro XXII
QuadroXXII

Campo. Dia enuviado

81 versos


Cena ÚNICA

FAUSTO e MEFISTÓFELES

FAUSTO

  1. Penúria, desconforto a vida inteira,
  2. e um cárcere afinal.
  3. Quem to diria,
  4. bela inocente! como ré fadada
  5. a cruz tormentos! Tanto pôde a sina!
  6. E este infame traidor a ter-mo oculto
  7. Ousa ainda encarar-me! Anda, dardeja-me
  8. as áscuas desse olhar. Se te parece,
  9. exaure-me de todo a paciência
  10. a arrostares-me em face!
  1. Encarcerada,
  2. falta de tudo, obsessa de demónios,
  3. em garras de juizes desalmados,
  4. e eu no entanto em mil frívolos recreios
  5. engodado por ti, seus ais não oiço,
  6. não na arranco do abismo onde a recalcas.

MEFISTÓFELES

  1. Já não é a primeira.

FAUSTO

  1. Ah perro! há monstro!
  2. Retorna-o, Senhor Deus, que podes tudo,
  3. ao ser canino com que o vi rojar-se
  4. aos meus pés, com que fila atraiçoado
  5. ao viandante incauto, e salta às costas
  6. do homem caído! ou torne à costumada
  7. forma de cobra, arraste-se na terra,
  8. e eu que pise, que esmague o miserável!
  9. Já não é a primeira!! Onde há ’í peito,
  10. que abranja horror tamanho! Haver mais de uma,
  11. que se tenha afogado em tal miséria!
  12. Não terem logo os transes da primeira
  13. por todas pago e resgatado a todas!
  1. Eu só de imaginar as penas desta
  2. sinto infernos cá dentro!... ele, impassível,
  3. mencionando as sem conto amostra os dentes!

MEFISTÓFELES

  1. E quer isto connosco associar-se!
  2. Onde a ciência em nós começa apenas,
  3. a de homens deu em seco.
  4. Ambicionaras
  5. seguir-me o voo, e mal batemos asas,
  6. já se te oira o juízo e cais.
  7. Busquei-te,
  8. ou buscaste-me tu?

FAUSTO

  1. Não me arreganhes
  2. a dentuça roaz! metes-me nojo!
  3. Espírito sublime, oh tu, que observas
  4. meu sentir e pensar, como te aprouve
  5. jungir-me escravo ao mais feroz dos génios,
  6. para o qual dor alheia é pasto, é glória!

MEFISTÓFELES

  1. Findou?

FAUSTO

  1. Salvá-la!... ou mal por ti, que voto
  2. com tal imprecação assoberbar-te,
  3. que te há-de durar séculos.

MEFISTÓFELES

  1. Não cabe
  2. na minha alçada espedaçar os ferros
  3. da pública vindicta. Acho-te pilhas
  4. no teu Salvá-la! Quem pregou com ela
  5. nesse abismo? eu ou tu?
  6. Vá lá. Fulmina-me!
  7. (Inda foi providência o não ser de homens
  8. o jus do raio.) Usual nos tiranetes
  9. foi sempre, onde inocentes se desculpam,
  10. tapar-lhe a boca, por livrar de empachos.

FAUSTO

  1. Leva-me a ela: vou soltá-la.

MEFISTÓFELES

  1. E os riscos?
  2. Lá na cidade o crime de homicida
  3. acha-se inda em aberto... Inda revoam
  4. sobre os terrões do morto espiritinhos
  5. vingadores, à espera do homicida.

FAUSTO

  1. Outra das tuas. Maldições sem termo
  2. sobre ti, monstro! Já to disse; mando
  3. que lá me ponhas, e ma salves.

MEFISTÓFELES

  1. Pronto,
  2. quanto ao levar-te; agora omnipotência
  3. confesso que a não tenho. O que eu só posso
  4. é sepultar em sono o carcereiro.
  5. O mais não me pertence: há-de ser de homem
  6. a mão que furte a chave e solte a presa.
  7. Eu fico de vigia. Tenho prestes
  8. os nossos palafrens enfeitiçados;
  9. montam, ponho-os em salvo. O que prometo
  10. é isto, e hei-de cumpri-lo.

FAUSTO

  1. Andar! Corramos!
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