Campo. Dia enuviado
81 versos
Cena ÚNICA
FAUSTO e MEFISTÓFELES
FAUSTO
- Penúria, desconforto a vida inteira,
- e um cárcere afinal.
- Quem to diria,
- bela inocente! como ré fadada
- a cruz tormentos! Tanto pôde a sina!
- E este infame traidor a ter-mo oculto
- Ousa ainda encarar-me! Anda, dardeja-me
- as áscuas desse olhar. Se te parece,
- exaure-me de todo a paciência
- a arrostares-me em face!
- Encarcerada,
- falta de tudo, obsessa de demónios,
- em garras de juizes desalmados,
- e eu no entanto em mil frívolos recreios
- engodado por ti, seus ais não oiço,
- não na arranco do abismo onde a recalcas.
MEFISTÓFELES
- Já não é a primeira.
FAUSTO
- Ah perro! há monstro!
- Retorna-o, Senhor Deus, que podes tudo,
- ao ser canino com que o vi rojar-se
- aos meus pés, com que fila atraiçoado
- ao viandante incauto, e salta às costas
- do homem caído! ou torne à costumada
- forma de cobra, arraste-se na terra,
- e eu que pise, que esmague o miserável!
- Já não é a primeira!! Onde há ’í peito,
- que abranja horror tamanho! Haver mais de uma,
- que se tenha afogado em tal miséria!
- Não terem logo os transes da primeira
- por todas pago e resgatado a todas!
- Eu só de imaginar as penas desta
- sinto infernos cá dentro!... ele, impassível,
- mencionando as sem conto amostra os dentes!
MEFISTÓFELES
- E quer isto connosco associar-se!
- Onde a ciência em nós começa apenas,
- a de homens deu em seco.
- Ambicionaras
- seguir-me o voo, e mal batemos asas,
- já se te oira o juízo e cais.
- Busquei-te,
- ou buscaste-me tu?
FAUSTO
- Não me arreganhes
- a dentuça roaz! metes-me nojo!
- Espírito sublime, oh tu, que observas
- meu sentir e pensar, como te aprouve
- jungir-me escravo ao mais feroz dos génios,
- para o qual dor alheia é pasto, é glória!
MEFISTÓFELES
- Findou?
FAUSTO
- Salvá-la!... ou mal por ti, que voto
- com tal imprecação assoberbar-te,
- que te há-de durar séculos.
MEFISTÓFELES
- Não cabe
- na minha alçada espedaçar os ferros
- da pública vindicta. Acho-te pilhas
- no teu Salvá-la! Quem pregou com ela
- nesse abismo? eu ou tu?
- Vá lá. Fulmina-me!
- (Inda foi providência o não ser de homens
- o jus do raio.) Usual nos tiranetes
- foi sempre, onde inocentes se desculpam,
- tapar-lhe a boca, por livrar de empachos.
FAUSTO
- Leva-me a ela: vou soltá-la.
MEFISTÓFELES
- E os riscos?
- Lá na cidade o crime de homicida
- acha-se inda em aberto... Inda revoam
- sobre os terrões do morto espiritinhos
- vingadores, à espera do homicida.
FAUSTO
- Outra das tuas. Maldições sem termo
- sobre ti, monstro! Já to disse; mando
- que lá me ponhas, e ma salves.
MEFISTÓFELES
- Pronto,
- quanto ao levar-te; agora omnipotência
- confesso que a não tenho. O que eu só posso
- é sepultar em sono o carcereiro.
- O mais não me pertence: há-de ser de homem
- a mão que furte a chave e solte a presa.
- Eu fico de vigia. Tenho prestes
- os nossos palafrens enfeitiçados;
- montam, ponho-os em salvo. O que prometo
- é isto, e hei-de cumpri-lo.
FAUSTO
- Andar! Corramos!