Vista de rua
80 versos
Cena I
FAUSTO, já remoçado , MARGARIDA, que vai passando
FAUSTO
- Minha linda fidalga, dá licença
- de oferecer-lhe o braço e acompanhá-la?
MARGARIDA
- Senhor, nem sou fidalga, nem sou linda.
- Vou para casa só, perfeitamente.
( Dá-lhe costas, e sai )
Cena II
FAUSTO (só)
- Vive Deus! que formosa criatura!
- Nunca vi coisa assim. É tão sisuda,
- tão bela! Tem de mau só a esquivança.
- Nunca me hão-de esquecer em toda a vida.
- o carmim da boquinha, a cor das faces!
- Aquele abaixar de olhos, que profundo
- que se gravou cá dentro! E as respostinhas
- tão concisas! Encanto como aquele
- não quero eu que haja outro.
Cena III
O MESMO e MEFISTÓFELES
FAUSTO
- Uma palavra:
- Arranjas-me a cachopa?
MEFISTÓFELES
- Eu! qual?
FAUSTO
- Aquela
- que por aqui passou não há minutos.
MEFISTÓFELES
- Ah, sim, sim: essa vinha do confesso,
- por sinal que o padreca lhe lançara
- o te absolvo dos pecados todos,
- o que eu sei de raiz, porque à sorrelfa
- pelo confessionário ia passando.
- Se há inocência é aquilo; escrupuliza
- de uma aresta que seja, e não sossega
- sem ir desabafar aos pés do padre.
- Naquela nada posso.
FAUSTO
- O quê! pois ela
- não tem já seus quatorze?
MEFISTÓFELES
- Ui! Já lá vamos,
- meu Dom João de obra grossa? Pelos modos,
- onde houver flor é sua; o privilégio
- de colher honras e estrear carícias
- é só deste senhor. Contas são essas,
- que ao enfiar às vezes se escangalham.
FAUSTO
- Mestre paparrotão! Deixemos regras.
- Digo-lhe isto, e mais nada. Se esta noite
- não abraço a moçoila, ao dar das doze
- acabou-se o contrato.
MEFISTÓFELES
- Ao que me pede
- não chega a minha alçada. Quinze dias
- gastarei eu no esquadrinhar os azos.
FAUSTO
- Com sete horas, não mais, se as eu tivesse,
- era capaz de haver a franganota,
- sem precisar ajudas de diabos.
MEFISTÓFELES
- Galra, que nem francês. Mas piano, piano!
- Gozar logo à primeira, é parvoíce.
- O verdadeiro, o fino, é quando um homem
- amassa de princípio, amolda, ajeita
- com mil quindins a sua bonequinha;
- do que dão fé novelas estrangeiras.
FAUSTO
- Bom apetite escusa especiarias.
MEFISTÓFELES
- Mas sério, sério, a moça, inda o repito,
- não é dessas, que amor leva d’assalto;
- precisa-se estratégia.
FAUSTO
- Vê se ao menos
- me trazes desse angélico tesoiro
- uma prenda qualquer. Leva-me ao quarto
- em que pernoita. Brinda-me co’um lenço
- que lhe velasse o peito, co’uma liga
- que lhe cingisse a curva torneada...
MEFISTÓFELES
- Bem! Para lhe provar quanto desejo
- dar algum lenitivo a tais ardores,
- levo-o sem mais tardança ao quarto dela.
FAUSTO
- A vê-la? a possuí-la?
MEFISTÓFELES
- É cedo, é cedo.
- Saiu a visitar certa vizinha;
- portanto pode, a sós inteiramente,
- chamar a casa sua; e antegozando
- já no ânimo outros bens, inebriar-se
- a fartar na atmosfera do seu anjo.
FAUSTO
- Vamos já?
MEFISTÓFELES
- Dentro em pouco.
FAUSTO
- Hás-de arranjar-me
- algum dom que lhe eu leve.
( Sai. )
Cena IV
MEFISTÓFELES (só)
- Já presentes?!
- Macacão! sabe-a toda! Agora digo
- que a tem na palma, e breve. O meu canhenho
- reza de mil tesoiros enterrados.
- Vou-me à busca de algum que lhe encha o olho.