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FaustoQuadro VIII
QuadroVIII

Vista de rua

80 versos


Cena I

FAUSTO, já remoçado , MARGARIDA, que vai passando

FAUSTO

  1. Minha linda fidalga, dá licença
  2. de oferecer-lhe o braço e acompanhá-la?

MARGARIDA

  1. Senhor, nem sou fidalga, nem sou linda.
  2. Vou para casa só, perfeitamente.

( Dá-lhe costas, e sai )

Cena II

FAUSTO (só)

  1. Vive Deus! que formosa criatura!
  2. Nunca vi coisa assim. É tão sisuda,
  3. tão bela! Tem de mau só a esquivança.
  4. Nunca me hão-de esquecer em toda a vida.
  5. o carmim da boquinha, a cor das faces!
  6. Aquele abaixar de olhos, que profundo
  7. que se gravou cá dentro! E as respostinhas
  8. tão concisas! Encanto como aquele
  9. não quero eu que haja outro.

Cena III

O MESMO e MEFISTÓFELES

FAUSTO

  1. Uma palavra:
  2. Arranjas-me a cachopa?

MEFISTÓFELES

  1. Eu! qual?

FAUSTO

  1. Aquela
  2. que por aqui passou não há minutos.

MEFISTÓFELES

  1. Ah, sim, sim: essa vinha do confesso,
  2. por sinal que o padreca lhe lançara
  3. o te absolvo dos pecados todos,
  4. o que eu sei de raiz, porque à sorrelfa
  5. pelo confessionário ia passando.
  6. Se há inocência é aquilo; escrupuliza
  7. de uma aresta que seja, e não sossega
  8. sem ir desabafar aos pés do padre.
  9. Naquela nada posso.

FAUSTO

  1. O quê! pois ela
  2. não tem já seus quatorze?

MEFISTÓFELES

  1. Ui! Já lá vamos,
  2. meu Dom João de obra grossa? Pelos modos,
  3. onde houver flor é sua; o privilégio
  4. de colher honras e estrear carícias
  5. é só deste senhor. Contas são essas,
  6. que ao enfiar às vezes se escangalham.

FAUSTO

  1. Mestre paparrotão! Deixemos regras.
  2. Digo-lhe isto, e mais nada. Se esta noite
  3. não abraço a moçoila, ao dar das doze
  4. acabou-se o contrato.

MEFISTÓFELES

  1. Ao que me pede
  2. não chega a minha alçada. Quinze dias
  3. gastarei eu no esquadrinhar os azos.

FAUSTO

  1. Com sete horas, não mais, se as eu tivesse,
  2. era capaz de haver a franganota,
  3. sem precisar ajudas de diabos.

MEFISTÓFELES

  1. Galra, que nem francês. Mas piano, piano!
  2. Gozar logo à primeira, é parvoíce.
  3. O verdadeiro, o fino, é quando um homem
  4. amassa de princípio, amolda, ajeita
  5. com mil quindins a sua bonequinha;
  6. do que dão fé novelas estrangeiras.

FAUSTO

  1. Bom apetite escusa especiarias.

MEFISTÓFELES

  1. Mas sério, sério, a moça, inda o repito,
  2. não é dessas, que amor leva d’assalto;
  3. precisa-se estratégia.

FAUSTO

  1. Vê se ao menos
  2. me trazes desse angélico tesoiro
  3. uma prenda qualquer. Leva-me ao quarto
  4. em que pernoita. Brinda-me co’um lenço
  5. que lhe velasse o peito, co’uma liga
  6. que lhe cingisse a curva torneada...

MEFISTÓFELES

  1. Bem! Para lhe provar quanto desejo
  2. dar algum lenitivo a tais ardores,
  3. levo-o sem mais tardança ao quarto dela.

FAUSTO

  1. A vê-la? a possuí-la?

MEFISTÓFELES

  1. É cedo, é cedo.
  2. Saiu a visitar certa vizinha;
  3. portanto pode, a sós inteiramente,
  4. chamar a casa sua; e antegozando
  5. já no ânimo outros bens, inebriar-se
  6. a fartar na atmosfera do seu anjo.

FAUSTO

  1. Vamos já?

MEFISTÓFELES

  1. Dentro em pouco.

FAUSTO

  1. Hás-de arranjar-me
  2. algum dom que lhe eu leve.

( Sai. )

Cena IV

MEFISTÓFELES (só)

  1. Já presentes?!
  2. Macacão! sabe-a toda! Agora digo
  3. que a tem na palma, e breve. O meu canhenho
  4. reza de mil tesoiros enterrados.
  5. Vou-me à busca de algum que lhe encha o olho.
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