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FaustoQuadro XVI
QuadroXVI

Quintal de Marta, como no quadro XIII

151 versos


Cena I

MARGARIDA e FAUSTO

MARGARIDA

  1. Sim? prometes-mo, Henrique?

FAUSTO

  1. Inda o duvidas?
  2. Tudo quanto eu puder.

MARGARIDA

  1. Pois bem: que ideia
  2. tens da religião? Sei que és bondoso;
  3. agora crente... desconfio um tanto.

FAUSTO

  1. Melhor é que tratemos de outra coisa,
  2. filha. Sabes se eu te amo, e se eu daria
  3. por ti a própria vida; agora as crenças.
  4. deixo-as a cada um.

MARGARIDA

  1. Pois não to louvo.
  2. Crença é dever.

FAUSTO

  1. Dever!

MARGARIDA

  1. Eu não queria
  2. senão poder guiar-te. E os Sacramentos,
  3. respeitá-los?

FAUSTO

  1. Respeito.

MARGARIDA

  1. Oh sim, mas frio.
  2. Não vais à confissão, não vais à missa...
  3. Crês em Deus?

FAUSTO

  1. Quem se atreve, amada prenda,
  2. a dizer: Creio em Deus ? Se o perguntares
  3. a qualquer padre, a qualquer sábio, afirmo-te
  4. que há-de a resposta parecer-te escárnio.

MARGARIDA

  1. Então não crês?

FAUSTO

  1. Encanto meu querido,
  2. não tomes o que digo em mau sentido.
  1. Defini-lo, que língua o tentara?
  2. Quem se atreve a dizer: Em Deus creio ?
  3. Ou quem pode, sentindo-o no seio,
  4. Não há Deus , temerário afirmar?
  5. Pois aquele que abrange, que ampara
  6. todo um mundo em seu grémio patente,
  7. a nós ambos não pode igualmente
  8. e a si próprio abranger, amparar?
  9. Não nos cobre uma abóbada imensa?
  10. Não pisamos um chão tão seguro?
  11. Não nos banha em clarões pelo escuro
  12. de astros meigos perene caudal?
  13. Quando embebo este olhar, que em ti pensa,
  14. nesse teu, que à minha alma responde,
  15. ¿de um poder que entreluz e se esconde
  16. não sentimos o influxo fatal?
  17. Toda a vez que o teu peito sedento
  18. se afundir neste mar de doçura,
  19. põe-lhe o nome a teu gosto: ventura,
  20. céu de amor, ou potência de um Deus.
  21. Eu nenhum. De o gozar me contento.
  1. Nome é fumo em que a luz se reveste;
  2. e eu não quero um tal fogo celeste
  3. encobrir aos teus olhos e aos meus

MARGARIDA

  1. Lindo! O meu director diz-me isso mesmo,
  2. por outras expressões.

FAUSTO

  1. Em toda a parte
  2. rompe idêntica voz das consciências;
  3. cada um na linguagem que lhe é própria
  4. a traduz, e eu na minha.

MARGARIDA

  1. Em realidade
  2. o que aí me tens dito não destoa
  3. de todo em todo... mas não sei se envolve
  4. sua moedinha falsa... Enfim, vá tudo:
  5. tu não tens fé cristã.

FAUSTO

  1. Meu caro anjinho!

MARGARIDA

  1. Uma coisa que há muito me faz peso
  2. é ver acompanhar com tal figura.

FAUSTO

  1. Como assim?

MARGARIDA

  1. É verdade: desadoro
  2. do teu colchete; não vi coisa nunca
  3. jamais que tanto horror me produzisse
  4. como aquela carranca.

FAUSTO

  1. Ele, criança,
  2. que mal te fez?

MARGARIDA

  1. Não sei; ferve-me o sangue
  2. sempre que o vejo; é a única pessoa
  3. a que não quero bem. Tanto me alegro
  4. quando tu chegas, como ao vê-lo esfrio.
  5. Tem-me ar, Deus me perdoe, de um sacripante.

FAUSTO

  1. Como há gente sisuda, há valdevinos;
  2. que se lhe há-de fazer?

MARGARIDA

  1. Deus me livrara
  2. de conviver com semelhante escória!
  3. Quando entra, encara sempre nas pessoas
  4. como quem zombeteia ou vem zangado;
  5. não toma nada a sério; está-se lendo
  6. naquela testa que ninguém lhe agrada.
  7. Sinto-me tão contente a sós contigo!
  8. tão senhora de mim! tanto à vontade
  9. no calor que a tua alma infunde à minha!
  10. vem ele... e eis-me tolhida inteiramente.

FAUSTO

  1. Superstições de um anjo.

MARGARIDA

  1. É tal o enguiço
  2. que onde me ele aparece, até já cuido
  3. que não gosto de ti. Diante dele,
  4. fosse eu querer rezar! Faz-me cá dentro
  5. tudo isto uma aflição! Não te sucede
  6. o mesmo, Henrique?

FAUSTO

  1. Antipatias.

MARGARIDA

  1. Vou-me.
  2. É forçoso.

FAUSTO

  1. O que eu dera, Margarida,
  2. por poder, uma hora, uma só hora,
  3. passar contigo descansado! unidos
  4. peito a peito! alma a alma!

MARGARIDA

  1. Tu bem sabes
  2. que não durmo sozinha. Eu, por meu gosto,
  3. deixava-te ficar já hoje a porta
  4. fechada em falso, e então... Mas a mãezinha
  5. tem o sono tão leve! E se ela fosse
  6. dar connosco, eu morria de repente.

FAUSTO

  1. Para isso, meu anjo, há bom remédio.
  2. Toma este vidro! basta que lhe lances
  3. três gotas na bebida, e adormeceu-ta
  4. a bom levar: nenhum rumor ta esperta.

MARGARIDA

  1. Desejas, cumpro. Esta água, já se sabe,
  2. não pode fazer mal...

FAUSTO

  1. Pois, se o pudesse,
  2. eu dava-ta, querida?

MARGARIDA

  1. Homem como este,
  2. onde há outro? Sim, sim, querido amante;
  3. lê-se no teu aspecto a probidade
  4. às cegas te obedeço. Tenho feito
  5. por ti já tanto que o restante é nada.

( Sai. )

Cena II

MEFISTÓFELES e FAUSTO

MEFISTÓFELES (entrando)

  1. A espertalhona foi-se?

FAUSTO

  1. E não me perdes
  2. a manha de espiar.

MEFISTÓFELES

  1. Ouvi-lhe tudo;
  2. desta feita o Doutor, em catecismo
  3. pode fazer exame; que lhe preste!
  4. O amigo é pouco visto em raparigas:
  5. não dão ponto sem nó. Talvez não saiba
  6. porque as encanta o converter marmanjos;
  7. é porque dizem: - Quem me cede nisto,
  8. há-de ceder-me em tudo.

FAUSTO

  1. Ó monstro bruto!
  2. Pois não concebes que uma crente ingénua,
  3. convicta de que ao céu não vão descrentes,
  4. curta um martírio em só cuidar que o homem
  5. que ela a todos prefere é já do inferno?

MEFISTÓFELES

  1. Charco de vício e flor de namorados!
  2. Com que assim dás o beiço a uma criança!

FAUSTO

  1. Fogo do inferno, e espírito de borra!

MEFISTÓFELES

  1. E é mestra em decifrar fisionomias:
  2. - Tenho ar, Deus lhe perdoe, de um sacripante!
  3. - Ver, é ficar tolhida! - Acha-me uns ares
  4. de traidor mascarado, algum duende,
  5. talvez até diabo...
  6. Então o amigo...
  7. sempre, esta noite...?

FAUSTO

  1. Que te importa?

MEFISTÓFELES

  1. Ai! muito.
  2. Vou-lhe bailar na boda as tripecinhas.
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