Quintal de Marta, como no quadro XIII
151 versos
Cena I
MARGARIDA e FAUSTO
MARGARIDA
- Sim? prometes-mo, Henrique?
FAUSTO
- Inda o duvidas?
- Tudo quanto eu puder.
MARGARIDA
- Pois bem: que ideia
- tens da religião? Sei que és bondoso;
- agora crente... desconfio um tanto.
FAUSTO
- Melhor é que tratemos de outra coisa,
- filha. Sabes se eu te amo, e se eu daria
- por ti a própria vida; agora as crenças.
- deixo-as a cada um.
MARGARIDA
- Pois não to louvo.
- Crença é dever.
FAUSTO
- Dever!
MARGARIDA
- Eu não queria
- senão poder guiar-te. E os Sacramentos,
- respeitá-los?
FAUSTO
- Respeito.
MARGARIDA
- Oh sim, mas frio.
- Não vais à confissão, não vais à missa...
- Crês em Deus?
FAUSTO
- Quem se atreve, amada prenda,
- a dizer: Creio em Deus ? Se o perguntares
- a qualquer padre, a qualquer sábio, afirmo-te
- que há-de a resposta parecer-te escárnio.
MARGARIDA
- Então não crês?
FAUSTO
- Encanto meu querido,
- não tomes o que digo em mau sentido.
- Defini-lo, que língua o tentara?
- Quem se atreve a dizer: Em Deus creio ?
- Ou quem pode, sentindo-o no seio,
- Não há Deus , temerário afirmar?
- Pois aquele que abrange, que ampara
- todo um mundo em seu grémio patente,
- a nós ambos não pode igualmente
- e a si próprio abranger, amparar?
- Não nos cobre uma abóbada imensa?
- Não pisamos um chão tão seguro?
- Não nos banha em clarões pelo escuro
- de astros meigos perene caudal?
- Quando embebo este olhar, que em ti pensa,
- nesse teu, que à minha alma responde,
- ¿de um poder que entreluz e se esconde
- não sentimos o influxo fatal?
- Toda a vez que o teu peito sedento
- se afundir neste mar de doçura,
- põe-lhe o nome a teu gosto: ventura,
- céu de amor, ou potência de um Deus.
- Eu nenhum. De o gozar me contento.
- Nome é fumo em que a luz se reveste;
- e eu não quero um tal fogo celeste
- encobrir aos teus olhos e aos meus
MARGARIDA
- Lindo! O meu director diz-me isso mesmo,
- por outras expressões.
FAUSTO
- Em toda a parte
- rompe idêntica voz das consciências;
- cada um na linguagem que lhe é própria
- a traduz, e eu na minha.
MARGARIDA
- Em realidade
- o que aí me tens dito não destoa
- de todo em todo... mas não sei se envolve
- sua moedinha falsa... Enfim, vá tudo:
- tu não tens fé cristã.
FAUSTO
- Meu caro anjinho!
MARGARIDA
- Uma coisa que há muito me faz peso
- é ver acompanhar com tal figura.
FAUSTO
- Como assim?
MARGARIDA
- É verdade: desadoro
- do teu colchete; não vi coisa nunca
- jamais que tanto horror me produzisse
- como aquela carranca.
FAUSTO
- Ele, criança,
- que mal te fez?
MARGARIDA
- Não sei; ferve-me o sangue
- sempre que o vejo; é a única pessoa
- a que não quero bem. Tanto me alegro
- quando tu chegas, como ao vê-lo esfrio.
- Tem-me ar, Deus me perdoe, de um sacripante.
FAUSTO
- Como há gente sisuda, há valdevinos;
- que se lhe há-de fazer?
MARGARIDA
- Deus me livrara
- de conviver com semelhante escória!
- Quando entra, encara sempre nas pessoas
- como quem zombeteia ou vem zangado;
- não toma nada a sério; está-se lendo
- naquela testa que ninguém lhe agrada.
- Sinto-me tão contente a sós contigo!
- tão senhora de mim! tanto à vontade
- no calor que a tua alma infunde à minha!
- vem ele... e eis-me tolhida inteiramente.
FAUSTO
- Superstições de um anjo.
MARGARIDA
- É tal o enguiço
- que onde me ele aparece, até já cuido
- que não gosto de ti. Diante dele,
- fosse eu querer rezar! Faz-me cá dentro
- tudo isto uma aflição! Não te sucede
- o mesmo, Henrique?
FAUSTO
- Antipatias.
MARGARIDA
- Vou-me.
- É forçoso.
FAUSTO
- O que eu dera, Margarida,
- por poder, uma hora, uma só hora,
- passar contigo descansado! unidos
- peito a peito! alma a alma!
MARGARIDA
- Tu bem sabes
- que não durmo sozinha. Eu, por meu gosto,
- deixava-te ficar já hoje a porta
- fechada em falso, e então... Mas a mãezinha
- tem o sono tão leve! E se ela fosse
- dar connosco, eu morria de repente.
FAUSTO
- Para isso, meu anjo, há bom remédio.
- Toma este vidro! basta que lhe lances
- três gotas na bebida, e adormeceu-ta
- a bom levar: nenhum rumor ta esperta.
MARGARIDA
- Desejas, cumpro. Esta água, já se sabe,
- não pode fazer mal...
FAUSTO
- Pois, se o pudesse,
- eu dava-ta, querida?
MARGARIDA
- Homem como este,
- onde há outro? Sim, sim, querido amante;
- lê-se no teu aspecto a probidade
- às cegas te obedeço. Tenho feito
- por ti já tanto que o restante é nada.
( Sai. )
Cena II
MEFISTÓFELES e FAUSTO
MEFISTÓFELES (entrando)
- A espertalhona foi-se?
FAUSTO
- E não me perdes
- a manha de espiar.
MEFISTÓFELES
- Ouvi-lhe tudo;
- desta feita o Doutor, em catecismo
- pode fazer exame; que lhe preste!
- O amigo é pouco visto em raparigas:
- não dão ponto sem nó. Talvez não saiba
- porque as encanta o converter marmanjos;
- é porque dizem: - Quem me cede nisto,
- há-de ceder-me em tudo.
FAUSTO
- Ó monstro bruto!
- Pois não concebes que uma crente ingénua,
- convicta de que ao céu não vão descrentes,
- curta um martírio em só cuidar que o homem
- que ela a todos prefere é já do inferno?
MEFISTÓFELES
- Charco de vício e flor de namorados!
- Com que assim dás o beiço a uma criança!
FAUSTO
- Fogo do inferno, e espírito de borra!
MEFISTÓFELES
- E é mestra em decifrar fisionomias:
- - Tenho ar, Deus lhe perdoe, de um sacripante!
- - Ver, é ficar tolhida! - Acha-me uns ares
- de traidor mascarado, algum duende,
- talvez até diabo...
- Então o amigo...
- sempre, esta noite...?
FAUSTO
- Que te importa?
MEFISTÓFELES
- Ai! muito.
- Vou-lhe bailar na boda as tripecinhas.