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FaustoQuadro V
QuadroV

O mesmo camarim de Fausto

612 versos


Cena I

FAUSTO, depois MEFISTÓFELES, trajado como ele mesmo indica no diálogo. Batem.

FAUSTO

  1. Bateram. Entre! Quem virá moer-me?

MEFISTÓFELES (de fora)

  1. Sou eu.

FAUSTO

  1. Entre!

MEFISTÓFELES

  1. Repita-mo três vezes!

FAUSTO

  1. Pois pela vez terceira, entre!

MEFISTÓFELES (entrando)

  1. Ora graças!
  2. Voltei ou não voltei?
  3. Manos a l’obra!
  4. Toca a deitar cá fora. Eu já no intuito
  5. de lhe furtar a mente a hipocondrias,
  6. aqui venho, entrajado à fidalguinha:
  7. - corpete carmesim bordado de oiro,
  8. - capa de gorgorão, gorra enfeitada
  9. com sua pena de galo,- e o coruscante
  10. chanfalho à cinta. Não percamos tempo.
  11. Vestir como eu, e andar! Livre dos cepos,
  12. verá o que é viver.

FAUSTO

  1. Mudar de pele
  2. não muda interior. Com quaisquer trapos
  3. há-de ir comigo o meu viver terrestre.
  4. Já sou velho de mais para brinquedos,
  5. e para descartar-me de cobiças
  6. inda muito rapaz. Que há nesse mundo
  7. que me possa atrair? Priva-te! Abstém-te!
  8. Eis o eterno refrão com que nos quebram
  9. o bichinho do ouvido a toda a hora.
  10. De manhã, quando acordo, é sempre aflito
  11. e ansioso de chorar, pela certeza
  12. de que o dia que enceto é, como os outros,
  13. incapaz de cumprir-me um só desejo,
  14. nem um só. Pois se eu sei que a expectativa
  15. do mínimo prazer já chega eivada
  16. de sua improbação, e cada almejo
  17. do meu férvido sangue há-de ir gelar-se
  18. ante as carrancas do viver prosaico!
  19. À noite é-me forçoso entrar num leito
  20. onde já sei me aguarda o labirinto
  21. da turbulenta insónia, e, se olhos cerro,
  22. medonho pesadelo! O Deus que me enche
  23. rege-me a seu talante, influi, domina
  24. té o âmago mais fundo o meu composto.
  1. E tamanha potência nada pode
  2. fora de mim nos mínimos objectos!
  3. Dura carga é viver! quem dera a morte!

MEFISTÓFELES (ironicamente)

  1. Devagar, devagar! Hóspeda é essa
  2. que dispensa convite e zanga a todos.

FAUSTO

  1. - Feliz o herói que, na embriaguez da glória,
  2. no instante mesmo em que lhe pega os loiros
  3. com sangue hostil nas fontes a vitória,
  4. cai fulminado ao silvo dos peloiros!
  5. - Feliz o amante que depois do enleio
  6. de louca dança, e no auge do delírio,
  7. súbito expira no adorado seio,
  8. e antes da morte vislumbrou o Empíreo!
  9. - E feliz eu, se quando, face a face,
  10. logrei tratar com génio alto e possante,
  11. nesse extra-vida glorioso instante
  12. morte improvisa os dias meus soprasse!

MEFISTÓFELES (ironicamente)

  1. Assim será; mas certo sujeitinho,
  2. certa noite que eu sei, não teve a força
  3. de tragar certo líquido.

FAUSTO

  1. Já vejo
  2. que também gostas de espiar.

MEFISTÓFELES

  1. Não digo
  2. que tudo sei, mas sei que farte.

FAUSTO

  1. E ignoras
  2. o porque eu não bebi? Foi porque a ponto
  3. uns conhecidos sons, ecos da infância,
  4. me arrancaram do horrendo labirinto
  5. por onde eu tumultuava, e me puseram
  6. nos meus primeiros, meus saudosos dias!...
  7. e era tudo fantástico!
  8. Mal haja quanto humano artifício enleia as almas,
  9. e com suaves forças lisonjeiras
  10. na mundanal caverna as traz cativas.
  11. - Maldita a presunção, que ilude ao homem.
  12. - Malditas as miragens, que nos cegam.
  13. - Maldita a glória vã.- Maldito o sonho
  14. dos póstumos laureis. - Maldito o gozo
  15. do possuir: de ter esposa, filhos,
  16. servos, campos ubérrimos. - Maldito
  17. o Mamon, que envidando-nos seu oiro,
  18. ora nos lança às íngremes façanhas,
  19. ora (e só para uns frívolos recreios)
  20. por cima dos deveres nos afofa
  21. preguiceiros coxins. - Maldita a vinha
  22. co’o seu néctar balsâmico - Maldita
  23. essa das graças graça, amor chamada.
  24. - Maldito o esperar sempre. - A fé maldita.
  25. - Maldita sobre tudo a paciência!

CORO DE ESPÍRITOS (invisíveis)

  1. Ai ai! desta feita deixaste arrasado
  2. c’oa força do murro tão lindo universo;
  3. já tudo em ruínas desaba disperso.
  4. Já é! Ver um homem com Deus comparado!
  1. Andar, companheiros, levar por ’í fora,
  2. para os sumidoiros do vácuo sem fundo,
  3. os cacos e entulhos da fábrica mundo.
  4. Pasmava-se dela; choremo-la agora.
  1. Sus, filho do barro, sus, sus, potentado!
  2. Em troca do mundo, que já destruiste,
  3. extrai de ti outro, melhor, menos triste!
  4. Profere o teu Fiat, e logo é criado!
  1. Vida nova, clara vida,
  2. corra limpa de mistérios!
  3. Encha os âmbitos etéreos
  4. o cantar do teu Edén!
  1. Ao factor do novo mundo
  2. fama em cânticos florida
  3. alce em coro adorando
  4. glória, glória, glória, Amen!

MEFISTÓFELES

  1. Aí tem no que os meus pajens lhe cantaram
  2. regras do bom viver; de mais acerto
  3. nem conselheiros velhos as dariam.
  4. Aproveite a lição! Torne-se ao mundo!
  5. Fuja do viver só, que estagna a mente,
  6. os sentidos embota, e mole-mole
  7. chucha os sucos vitais. Mau passatempo
  8. é esse de cevar melancolia,
  9. feros abutres d’alma. Em sociedade,
  10. por mui ruim que seja, ao menos sente-se
  11. com homens homem. Não direi que desça
  12. a conviver co’a sórdida gentalha.
  13. Figurão não sou eu; mas se lhe serve
  14. comigo acompanhar na aventureira
  15. jornada deste mundo, pronto e às ordens!
  16. Aqui tem um criado, um companheiro,
  17. um pau mandado, o mais pontual dos servos.

FAUSTO

  1. E eu que te hei-de pagar?

MEFISTÓFELES

  1. Depois veremos;
  2. não é coisa de pressa.

FAUSTO

  1. Ai, nada, nada,
  2. que eu sei de cor as manhas dos diabos:
  3. não dão ponto sem nó. Venha o primeiro
  4. que pelo amor de Deus a alguém servisse.
  5. Vamos às condições: propõe-nas franco.
  6. No tomar um tal servo há seus perigos.

MEFISTÓFELES

  1. Obrigo-me a servi-lo em tudo e à risca
  2. enquanto vivo for, e obedecer-lhe
  3. aos acenos até, sem cansar nunca.
  4. Depois, quando lá em baixo nos toparmos
  5. trocamos os papéis.

FAUSTO

  1. Pouco me afreimo
  2. do teu depois , e mais do teu lá em baixo !
  3. Escavaca este mundo, e engendra um novo,
  4. que se me dá, se é deste que deriva
  5. tudo que me contenta, e o sol que doira
  6. os meus males é este? Em se acabando
  7. mundo e sol para mim, saia o que saia;
  8. e não há mais dizer. Que me interessa
  9. que lá se odeie ou se ame? haja ou não haja
  10. um abaixo e um acima ?

MEFISTÓFELES

  1. Então já pode
  2. no pacto conchavar-se. O que eu lhe afirmo
  3. é que estes dias que passarmos juntos
  4. lhe hão-de por minhas artes dar tais gostos
  5. quais os não teve alguém.

FAUSTO

  1. Pobre diabo,
  2. que hás-de tu dar-me? O espírito de um homem
  3. como eu sou, foi jamais compreensível
  4. aos da tua relé? Tens iguarias
  5. que não matam a fome; oiro que fulge,
  6. mas que igual ao mercúrio, escapa aos dedos;
  7. jogo em que é certa a perda; uma beldade
  8. que até nos braços meus soltando arrulhos,
  9. já está piscando o olho ao meu vizinho;
  10. pompas de glória, um fumo!
  11. O que eu preciso,
  12. se o tens, são frutos a pender de copa
  13. sempre frondosa, e que antes de apanhados
  14. não tenham já por dentro o podre e os vermes.

MEFISTÓFELES

  1. Bem; tudo isso há-de ter; conte comigo
  2. Desde agora, amiguinho, à rédea solta.
  3. Folgar e mais folgar! Leva de escrúpulos!
  4. Tudo quanto bem sabe, é permitido.

FAUSTO

  1. Se eu me acosto jamais em fofa cama,
  2. contente e em paz, que nesse instante eu morra!
  3. Se uma só vez com falsas louvaminhas
  4. chegares por tal arte a alucinar-me
  5. que eu me agrade a mim próprio; se valeres
  6. a cativar-me com deleites frívolos,
  7. súbito a luz da vida se me apague.
  8. Vá! queres apostar?

MEFISTÓFELES

  1. Se quero! Aposto.

FAUSTO

  1. Aperto mais: Se me chegar momento
  2. a que eu diga: «Demora-te! És formoso»
  3. então aos teus grilhões entrego os pulsos;
  4. então a morte aceito; os sinos dobrem;
  5. já livre estás de mim. Dessa hora avante,
  6. quede o relógio! Caiam-lhe os ponteiros!
  7. Acabou-se-me o tempo.

MEFISTÓFELES

  1. Olhe o que afirma,
  2. que entre nós outros nada esquece.

FAUSTO

  1. Embora!
  2. Não me obriguei de leve. O que eu padeço
  3. não é escravidão? Ser logo servo
  4. de outro ou de ti, que monta?

MEFISTÓFELES

  1. Às suas ordens,
  2. desde já. Tem a nata dos serventes
  3. para este bródio de barrete fora,
  4. meu querido Doutor!
  5. Mais uma nica.
  6. Há morrer e viver. É bom primeiro
  7. pôr o preto no branco: um tudo-nada;
  8. duas regritas só.

FAUSTO

  1. Que é! Papeladas
  2. até no inferno, rábula! Bem mostras
  3. entender pouco do que seja um homem.
  4. Não vai librado o meu destino inteiro
  5. na palavra que dou? Sendo o universo
  6. um turbilhão perene, achas que possam
  7. quatro letras de borra agrilhoar-me?
  8. (E é geral todavia o preconceito)
  9. Feliz o que tem fé: não se aventura
  10. a coisas em que é tarde o arrepender-se.
  11. De pôr num pergaminho uns papa-ratos,
  12. e assiná-lo, é que todos estremecem,
  13. por entenderem... que a palavra humana
  14. que na pena é já morta, assume vida
  15. se a uma pele defunta a incorporaram.
  16. Vá! Que exiges, espírito danado?
  17. pergaminho? papel? mármore? bronze?
  18. letra de pena, de buril, de escopro?
  19. Escolhe!

MEFISTÓFELES

  1. Ih! que facúndia, e que fogachos
  2. sem quê nem para quê! Basta um farrapo
  3. de papel fino ou grosso, e uma gotinha
  4. do sangue próprio, com que assigne em baixo.

FAUSTO

  1. Se nessas pataratas fazes luxo,
  2. vá lá!

( Arregaça o braço esquerdo; Mefistófeles pica-lhe a veia; Fausto molha no sangue a pena, e assina com ela o pergaminho que Mefistófeles lhe apresenta. )

MEFISTÓFELES

  1. Isto do sangue é burundanga
  2. que tem seu quê.

FAUSTO

  1. Não te violo a avença;
  2. não tenhas medo. As minhas posses todas,
  3. já daqui tas obrigo. Inchei de modo
  4. que só posso caber na tua esfera.
  5. O Factor Sumo pôs-me em bando. Encontro
  6. cancelos a vedar-me a natureza.
  7. O fio do pensar quebrou-se. Há muito
  8. que de todo o saber vivo enjoado.
  9. Deixar-me ora engolfar em vosso abismo,
  10. deleites sensuais, paixões fogosas!
  11. Rompam já ’í portentos e portentos,
  12. qual a qual mais possante a enfeitiçar-me!
  13. Mergulhemos no vórtice dos tempos,
  14. no encapelado mar das aventuras.
  15. Sigam-se embora, como queiram, dores
  16. a deleites, ou júbilos a mágoas.
  17. Tudo, menos a inércia, o mal dos males,
  18. o que mais vexa a dignidade humana.

MEFISTÓFELES

  1. Não ponho restrições; peça por boca!
  2. Se as primícias quiser libar de tudo,
  3. de qualquer coisa (por fugaz que seja)
  4. se quiser na voadura apoderar-se,
  5. não faça cerimónia; e que lhe preste!

FAUSTO

  1. Entendamo-nos bem. Não ponho eu mira
  2. na posse do que o mundo alcunha gozos .
  3. O que preciso e quero, é atordoar-me.
  4. Quero a embriaguez de incomportáveis dores,
  5. a volúpia do ódio, o arroubamento
  6. das sumas aflições. Estou curado
  7. das sedes do saber; de ora em diante
  8. às dores todas escancaro est’alma.
  9. As sensações da espécie humana em peso,
  10. quero-as eu dentro em mim; seus bens, seus males
  11. mais atrozes, mais íntimos, se entranhem
  12. aqui onde à vontade a mente minha
  13. os abrace, os tacteie; assim me torno
  14. eu próprio a humanidade; e se ela ao cabo
  15. perdida for, me perderei com ela.

MEFISTÓFELES

  1. Pode crer (há muitos mil janeiros
  2. que eu ando a roer nisto), inda não houve
  3. homem nenhum que desde o berço à cova
  4. lograsse digerir esse fermento.
  5. O complexo do mundo (e pode crê-lo,
  6. pois lho afirma um diabo) é incompreensível
  7. a todos salvo a Deus. Só ele brilha
  8. na luz perpétua; a nós enclausurou-nos
  9. nas trevas sem limite; e a vós, aos homens,
  10. alterna dia e noite.

FAUSTO

  1. E eu quero.

MEFISTÓFELES

  1. Entendo.
  2. O mau é que a arte é longa, e a vida breve.
  3. Dou que não leva a mal uma lembrança.
  4. Tome por sócio um vate, e dê-lhe largas.
  5. Deixe-o campear nos páramos dos sonhos,
  6. até ao ponto de ajuntar às prendas
  7. do meu caro Doutor os dons mais nobres:
  8. valor leonino, rapidez de cervo,
  9. estro d'Itália, madurez do Norte.
  1. Deixe-o ver se, por artes de berliques,
  2. o faz a par magnânimo e velhaco;
  3. se lhe improvisa uns férvidos amores
  4. como os tinha em rapaz, e juntamente
  5. segundo o plano dele arrazoados!
  6. Figurão tal, quem dera vê-lo! Eu curvo
  7. chamava-o logo - «Senhor Dom Mundinho!»

FAUSTO

  1. Mas então eu que sou, se me é defeso
  2. ao ápice aspirar da humanidade,
  3. alvo constante de meus crus anseios?

MEFISTÓFELES

  1. É...? o que é... e acabou-se. Erga o toitiço
  2. emperrucado com milhões de crespos,
  3. ponha salto em tacões maior de vara,
  4. que não cresce uma aresta.

FAUSTO

  1. Em mal, que é certo.
  2. Quanta ciência em mente de homem cabe
  3. toda em balde juntei; por mais que explore,
  4. força nenhuma se criou cá dentro;
  5. não cresci a grossura de um cabelo,
  6. e em nada do infinito estou mais perto.

MEFISTÓFELES

  1. Senhor meu! Ver as coisas desse modo
  2. é vê-las como o vulgo. A nós compete
  3. pensar com mais juízo, enquanto há vida
  4. para se desfrutar. Eu t’arrenego!
  5. Se tem por coisa sua os pés, os braços,
  6. cabeça, et cœt’ra ... ao mais de que se apossa
  7. porque o não tem por seu? Merco seis urcos,
  8. de seis urcos a força ajunto à minha.
  9. Levo-me pelo ar, porque possuo
  10. mais vinte e quatro pés. Fora tontices!
  11. Vamos por esse mundo. O que lhe eu digo
  12. é que um palerma que esperdiça o tempo
  13. em perpétuo hesitar, é como besta
  14. levada pela beiça à roda, à roda,
  15. por mão de um trasgo em árida charneca
  16. insulada entre flóridos pastios.

FAUSTO

  1. E onde nos vamos?

MEFISTÓFELES

  1. Vamo-nos primeiro
  2. pôr já já daqui fora, que em tal sítio
  3. só mártires. E chama-se isto vida!
  4. uma eterna moedeira dos rapazes
  5. e de si próprio! Deixe-me esse inferno
  6. ao seu vizinho Pança! Há quantos anos
  7. anda aí como o boi no calcadoiro!
  8. e inda assim o mais fino do que sabe
  9. não lhe é dado ensiná-lo aos estudantes.
  10. .................................
  11. Passos no corredor... Algum que chega.

FAUSTO

  1. Não me é possível recebê-lo agora.

MEFISTÓFELES

  1. Coitado! Estar à espera há tanto tempo,
  2. e ao cabo... Não consinto. Eu lho recebo.
  3. Faça favor, empreste-me a batina,
  4. mais o barrete.

( Fausto despe o trajo de Doutor, e Mefistófeles atavia-se com ele )

  1. Cáspite! Que estampa!
  2. que vera efígies de Doutor chapado!
  3. Deixe por minha conta o mais da festa.
  4. Dê-me este quarto de hora; e vá no entanto
  5. para a nossa viajata aperceber-se.

( Fausto vai-se pela porta da esquerda para o corredor. )

Cena II

  1. MEFISTÓFELES ( só )
  2. ( Voltado para a porta por onde saiu Fausto )
  1. Descarta-te do siso e da ciência,
  2. máximas forças do homem! Crê somente
  3. nas ficções dos espíritos falazes,
  4. e és meu sem redenção! Deu-te o destino
  5. alma que, desdenhando os bens do mundo,
  6. só aspira vaidosa a bens sem termo.
  7. Com este posso eu bem. Voto arrastá-lo
  8. por quanto há ’í de frioleiras chilras
  9. ao mais bruto viver. Já o estou vendo
  10. escabujar de raiva, inteiriçar-se
  11. aferrado à matéria. À boca, aos olhos,
  12. (quando o vir mais sedento e mais faminto)
  13. hei-de-me regalar de negacear-lhe
  14. fartos manjares, rescendentes vinhos.
  15. Dar-se ao diabo este asneirão foi luxo,
  16. que ele ia ao fundo pelo próprio peso.

Cena III

O MESMO, e UM RAPAZOLA, simplório e acanhadíssimo.

RAPAZOLA

  1. Eu vim há pouco tempo. Desejava
  2. falar, podendo ser, a um grande sábio
  3. que diz que mora aqui.

MEFISTÓFELES

  1. Muito obrigado
  2. por tanta cortesia. Encontra um homem
  3. como todos os mais. Já viu a terra?

RAPAZOLA

  1. O meu empenho todo é que me tome,
  2. Senhor Doutor, à sua conta. Eu venho
  3. co’as melhores tenções; dinheiro, trago
  4. quanto me baste; e sou rapaz sadio,
  5. bem vê. Lá a mãezinha, essa, coitada,
  6. é que lhe custou muito eu vir-me embora.
  7. Mas eu, sim, eu... percebe-me? trazia
  8. na ideia outra tineta: era uma ânsia
  9. de vir para a cidade, e aprender tudo...
  10. como o outro que diz...

MEFISTÓFELES

  1. Pois, meu menino,
  2. sou por dizer-lhe que acertou co’a a porta.

RAPAZOLA (depois de ter estado a considerar mudamente no aspecto da casa; e mudando para o tom de aborrido)

  1. Falo a verdade. Quem me dera ver
  2. já bem longe daqui! Estas paredes,
  3. estes tectos arcados, aborrecem-me.
  4. Faltam-me o espaço e o ar; nem folha verde,
  5. nem árvore descubro. Em me sentando
  6. no banco duro de uma sala destas,
  7. já não vejo, não oiço, e nada entendo.

MEFISTÓFELES

  1. Tudo vai do costume. Um pequenito
  2. recém-nascido esquiva-se da mama,
  3. depois já busca o bico, e chuchurreia.
  4. Aplico el cuento: as tetas da ciência
  5. vão sabendo melhor dia a dia.

RAPAZOLA

  1. Quem já me dera pendurado nelas!
  2. Mas se eu não sei trepar!

MEFISTÓFELES (sentando-se doutoralmente na cadeira de Fausto, e deixando o rapaz em pé)

  1. Vamos por partes.
  2. Que faculdade elege?

RAPAZOLA

  1. Eu sei! queria
  2. tornar-me sabichão de maço e mona.
  3. Queria compreender a natureza
  4. e abarcar a ciência; o que se avista
  5. na terra, e o que há no céu.

MEFISTÓFELES (que em todo o diálogo vai, de vez em quando, tabaqueando o caso, de uma grande caixa, que tirou do bolso, e pôs em cima da mesa)

  1. E deu co’a estrada.
  2. O tudo está em conservar o acúmen
  3. da aplicação científica, evitando
  4. pestes scientiæ as distracções.

RAPAZOLA

  1. Percebo.
  2. E essa gana trago eu. Só lembro o gosto
  3. que eu teria, aos domingos de bom tempo,
  4. em saltar por ’í fora.

MEFISTÓFELES

  1. Foge a vida
  2. more fluentis aquæ . Necessário
  3. se faz logo com regra aproveitá-la.
  4. Siga, amiguinho, siga o meu conselho,
  5. que não se há-de dar mal.

( Levanta-se )

  1. E antes de tudo
  2. muito colegium logicum ; por ele
  3. é que um novato aprende a enfiar justinho
  4. os pés da mente em botas à espanhola,
  5. que assim é que é seguir, sereno e cauto,
  6. pé ante pé, a via das ciências,
  7. em vez de andar pulando a um lado e a outro,
  8. qual fogo fátuo em chão de cemitério.
  9. Depois, levam-se meses a ensinar-lhe
  10. o que antes de ensinado é já sabido,
  11. como o comer, como o beber, et cœtera;
  12. Naturæ donam , sapiência infusa,
  13. mas vulgar, mas sem brilho e sem relevo.
  14. Acode um sábio; espostejou-se a coisa:
  15. «Um, dois, três.» Sim senhor, é o que lhe digo.
  16. A alma, que de ideias nos faz teias,
  17. é como o tecelão, quando se esmera
  18. em obra de examina: a cada piso
  19. que ele na apianha dá, mil fios move;
  20. voa, indo e vindo a lisa lançadeira;
  21. no ordume a trama às cegas se entretece;
  22. um golpe só fez tudo.
  23. Ora o filósofo
  24. bate a pata do espírito, e provou-nos
  25. que o que é, devia ser; sendo o primeiro
  26. isto, e aquilo o segundo, é consequência
  27. ser o terceiro assim, e o quarto assado.
  28. É corolário pois, que suprimidos
  29. o primeiro e o segundo, era impossível
  30. que existissem jamais terceiro e quarto
  31. «Bela demonstração!» proclama à uma
  32. a escola toda... mas nem meio ouvinte
  33. nos saiu tecelão.
  34. Pretende um sábio
  35. conhecer e pintar qualquer vivente:
  36. lança-lhe a garra e avia-o. Tem sem dúvida
  37. todas as partes dele. O que lhe falta?
  38. Unicamente o seu vivaz liame:
  39. Encheiresin naturæ o chama a química.
  40. Zomba de si, sem perceber que zomba.

RAPAZOLA

  1. A modo que não pesco.

MEFISTÓFELES

  1. Em pouco tempo
  2. há-de entender melhor, quando já saiba
  3. reduzir e classar.

RAPAZOLA

  1. Faz-me tudo isto
  2. confusão tal, que sinto, me parece,
  3. galgas de azenha a andar-me no miolo.

MEFISTÓFELES

  1. Logo depois, tratar da metafísica.
  2. Com ela buscará sondar a fundo
  3. o que no humano cérebro não cabe;
  4. mas ou lá caiba ou não, nunca nos falta
  5. para uma pressa um termo altissonante.
  6. Agora, estes seis meses mais chegados,
  7. há-de ir empregando em costumar-se
  8. a ser em tudo tudo arranjinho.
  9. Cada dia cinco horas para a aula,
  10. entrando sempre ao toque da sineta;
  11. a lição bem de cor, trinchada em párrafos.
  12. Disto saca um proveito: é ficar certo
  13. de que o seu mestre não falseia o livro,
  14. nem lhe acrescenta um jota. Não obstante,
  15. desunhe-se a escrever na caderneta
  16. quanto ele proferir como ditado
  17. pelo Espírito Santo.

RAPAZOLA

  1. Entendo à légua;
  2. e é muito bom conselho. Uma pessoa,
  3. levando para casa a coisa escrita,
  4. vai até mais segura e mais contente.

MEFISTÓFELES (tornando a sentar-se)

  1. Mas torno a perguntar; que ciência elege?

RAPAZOLA (depois de ter estado a cuidar entre si)

  1. Lá da jurisprudência Deus me livre.

MEFISTÓFELES

  1. E acho que tem razão. Não sei que exista
  2. faculdade mais chocha. Herdam-se e testam-se
  3. leis e direitos, tais e quais se coam
  4. de bisavós a avós, de pais a filhos
  5. o sangue eivado, a tísica, as alporcas.
  6. Não há mudar, não há progresso: aviso
  7. chama-se parvulez; o benefício
  8. degenera em trabalho. És descendente
  9. de Fuão? mal por ti: do teu direito
  10. real e inato, é que o Pretor não cura.

RAPAZOLA

  1. O teiró que eu já tinha a tal ciência
  2. tresdobrou desta feita.

( À parte )

  1. Isto é que é mestre.
  2. Que achadão! que fortuna!

( Alto )

  1. E a teologia?
  2. Talvez que...

MEFISTÓFELES

  1. De enganá-lo é que eu não gosto.
  2. Na teologia há mil caminhos falsos
  3. difíceis de evitar; há mil peçonhas
  4. tão ruins, que estremá-las de remédios
  5. é quantas vezes foro de impossíveis.
  6. Também nesta ciência, o mais seguro
  7. é não pensar por si, mas jurar sempre
  8. na palavra do mestre. Em suma, os textos
  9. boias são que, em se a elas aferrando,
  10. nunca um bom nadador se vai ao fundo.

RAPAZOLA

  1. Mas as palavras devem ter sentido.

MEFISTÓFELES

  1. Deverão, deverão; mas não é caso
  2. para tanto ralar, porque onde falta
  3. ideia que se intenda, acode um texto
  4. que vem de molde, e calafeta o rombo.
  5. O palavrório é tudo. Com palavras
  6. se esgrime, contra ou pró, nas magnas teses.
  7. Com palavras arranja-se um sistema.
  8. As palavras tem fé. De uma palavra
  9. não se cerceia um til.

RAPAZOLA

  1. Eu bem conheço
  2. que tanto perguntar é de importuno;
  3. mas gostava de ouvir-lhe um poucochinho
  4. sobre a ciência médica.

MEFISTÓFELES

  1. Esse estudo
  2. leva três anos só; que são três anos
  3. para um campo tão vasto? em se apontando
  4. a boca de um caminho, é como um gamo:
  5. correr e mais correr.

( À parte )

  1. Leva de embófias!
  2. Vou falar chão, como a diabo cumpre.

( Alto )

  1. O essencial da medicina é fácil.
  2. Lê por dentro e por fora o mundo e o homem,
  3. e afinal vê sair-lhe cada coisa
  4. conforme aprouve a Deus. Esbaforis-vos
  5. num corropio à roda da ciência,
  6. e cada qual por fim... pilha o que pilha.
  7. Saber aproveitar as circunstâncias
  8. é que cifra o saber. Pois bem! Figura
  9. não lhe falta, e suponho-lhe ousadia.
  10. Que mais quer? fie em si; verá se os outros
  11. se não fiam também.
  12. Co’o mulherio
  13. é que mais se precisa habilidade.
  14. Os seus ai-ais e ui-uis, perene tema
  15. de eternas variações, curam-se todos
  16. co’a mesmíssima droga. Ao que bem sabe
  17. ser magano à socapa, inda a primeira
  18. há-de vir que resista; é que um sujeito
  19. com Carta de Doutor merece crédito,
  20. e a arte que ele pratica excede a todas.
  21. Anos empata um suplicante avulso
  22. em vencer nicas; um Doutor fez tudo
  23. no primeiro rompante: pede o pulso,
  24. dão-lho logo; tacteia-o brandamente,
  25. regala-se a estudá-lo, e vai no entanto
  26. co’o meigo olhar incendiando a linda;
  27. depois, sem má tenção, sem falsos pejos
  28. apalpa-lhe a cintura, a ver não traga
  29. demasiado aperto no espartilho.

RAPAZOLA (pulando de contente, e esfregando as mãos)

  1. Por aí! por aí! Dessa maneira
  2. vê-se o que há e não há.

MEFISTÓFELES

  1. Meu caro amigo,
  2. toda a teoria é névoas; auriverde
  3. só a árvore da vida.

RAPAZOLA

  1. À fé que ouvi-lo
  2. é para mim como um sonhar delícias.
  3. Se me desse licença, ateimaria
  4. em causticá-lo, até roçar no fundo
  5. poço tal de saber.

MEFISTÓFELES

  1. Vá, não se acanhe;
  2. até onde eu chegar...

RAPAZOLA

  1. Eu desejava,
  2. antes de me ir embora, merecer-lhe
  3. a honra de escrever neste meu álbum.

( Entrega o álbum a Mefistófeles, o qual depois de escrever nele, o restitui ao dono. Este recebe-o mui respeitosamente, e lê estas palavras. )

  1. «Eritis sicut Deus, scientes bonum et malum.»

( O rapaz fecha o livro com grande reverência, e retira-se às cortesias, até sair pela porta do fundo. )

Cena IV

MEFISTÓFELES (só)

  1. Adopta o parecer da minha tia cobra!
  2. Um dia no pavor com que o ânimo soçobra
  3. lá reconhecerás, passando a ser dos meus,
  4. se há ou se houve jamais um ente igual a Deus.

Cena V

O MESMO, e FAUSTO, que volta do corredor, já entrajado à fidalga, como Mefistófeles, mas ainda de barbas compridas

FAUSTO

  1. Onde iremos?

MEFISTÓFELES

  1. Escolha! Acho que poderemos
  2. correr da sociedade os dois confins extremos,
  3. começando na plebe, e indo do baixo ao sumo.
  4. Que instrução! que recreio há-de encontrar, presumo,
  5. nesta desfrutação!

FAUSTO

  1. Com barbas tão compridas,
  2. índole assim montês, maneiras encolhidas,
  3. que vou eu lá tentar? Sou feito deste modo.
  4. Detesto o conviver. Não sei, não me acomodo,
  5. co’o bulício mundano. Onde se encontra gente,
  6. fico como um pigmeu tolhido inteiramente.

MEFISTÓFELES

  1. Isso, amigo, mau é; mas não há mal sem cura.
  2. Anime-se e verá...
  3. Mas que olha? que procura?

FAUSTO

  1. Como havemos nós de ir? Cavalos, trens, criados...
  2. onde estão?

MEFISTÓFELES

  1. Nunca eu tivesse outros cuidados!
  2. Estende-se este manto, embarca-se a seu bordo,
  3. e despede-se o voo.

FAUSTO

  1. Isso é melhor, concordo.

MEFISTÓFELES

  1. De certo. Saiba mais que para tal viagem
  2. bom será não levar grande matalotagem.
  3. Enquanto fecho um olho, apronto o gás que deve
  4. levantar-nos da terra. Assim, quanto mais leve
  5. for a carga, melhor. Que rapidez! Aceite
  6. já os meus parabéns, à conta do deleite
  7. que tem de lhe excitar na mente comovida
  8. o ver entrado-a nova e prodigiosa vida,

( Durante esta fala, tem Mefistófeles ido estendendo no chão a capa; e quando se está colocando sobre ela, cai o pano. )

Próximo quadroVITaberna do Retiro d’Auerbach, em Leipsick. Porta, ao fundo, para a rua, entre duas janelas