O mesmo camarim de Fausto
612 versos
Cena I
FAUSTO, depois MEFISTÓFELES, trajado como ele mesmo indica no diálogo. Batem.
FAUSTO
- Bateram. Entre! Quem virá moer-me?
MEFISTÓFELES (de fora)
- Sou eu.
FAUSTO
- Entre!
MEFISTÓFELES
- Repita-mo três vezes!
FAUSTO
- Pois pela vez terceira, entre!
MEFISTÓFELES (entrando)
- Ora graças!
- Voltei ou não voltei?
- Manos a l’obra!
- Toca a deitar cá fora. Eu já no intuito
- de lhe furtar a mente a hipocondrias,
- aqui venho, entrajado à fidalguinha:
- - corpete carmesim bordado de oiro,
- - capa de gorgorão, gorra enfeitada
- com sua pena de galo,- e o coruscante
- chanfalho à cinta. Não percamos tempo.
- Vestir como eu, e andar! Livre dos cepos,
- verá o que é viver.
FAUSTO
- Mudar de pele
- não muda interior. Com quaisquer trapos
- há-de ir comigo o meu viver terrestre.
- Já sou velho de mais para brinquedos,
- e para descartar-me de cobiças
- inda muito rapaz. Que há nesse mundo
- que me possa atrair? Priva-te! Abstém-te!
- Eis o eterno refrão com que nos quebram
- o bichinho do ouvido a toda a hora.
- De manhã, quando acordo, é sempre aflito
- e ansioso de chorar, pela certeza
- de que o dia que enceto é, como os outros,
- incapaz de cumprir-me um só desejo,
- nem um só. Pois se eu sei que a expectativa
- do mínimo prazer já chega eivada
- de sua improbação, e cada almejo
- do meu férvido sangue há-de ir gelar-se
- ante as carrancas do viver prosaico!
- À noite é-me forçoso entrar num leito
- onde já sei me aguarda o labirinto
- da turbulenta insónia, e, se olhos cerro,
- medonho pesadelo! O Deus que me enche
- rege-me a seu talante, influi, domina
- té o âmago mais fundo o meu composto.
- E tamanha potência nada pode
- fora de mim nos mínimos objectos!
- Dura carga é viver! quem dera a morte!
MEFISTÓFELES (ironicamente)
- Devagar, devagar! Hóspeda é essa
- que dispensa convite e zanga a todos.
FAUSTO
- - Feliz o herói que, na embriaguez da glória,
- no instante mesmo em que lhe pega os loiros
- com sangue hostil nas fontes a vitória,
- cai fulminado ao silvo dos peloiros!
- - Feliz o amante que depois do enleio
- de louca dança, e no auge do delírio,
- súbito expira no adorado seio,
- e antes da morte vislumbrou o Empíreo!
- - E feliz eu, se quando, face a face,
- logrei tratar com génio alto e possante,
- nesse extra-vida glorioso instante
- morte improvisa os dias meus soprasse!
MEFISTÓFELES (ironicamente)
- Assim será; mas certo sujeitinho,
- certa noite que eu sei, não teve a força
- de tragar certo líquido.
FAUSTO
- Já vejo
- que também gostas de espiar.
MEFISTÓFELES
- Não digo
- que tudo sei, mas sei que farte.
FAUSTO
- E ignoras
- o porque eu não bebi? Foi porque a ponto
- uns conhecidos sons, ecos da infância,
- me arrancaram do horrendo labirinto
- por onde eu tumultuava, e me puseram
- nos meus primeiros, meus saudosos dias!...
- e era tudo fantástico!
- Mal haja quanto humano artifício enleia as almas,
- e com suaves forças lisonjeiras
- na mundanal caverna as traz cativas.
- - Maldita a presunção, que ilude ao homem.
- - Malditas as miragens, que nos cegam.
- - Maldita a glória vã.- Maldito o sonho
- dos póstumos laureis. - Maldito o gozo
- do possuir: de ter esposa, filhos,
- servos, campos ubérrimos. - Maldito
- o Mamon, que envidando-nos seu oiro,
- ora nos lança às íngremes façanhas,
- ora (e só para uns frívolos recreios)
- por cima dos deveres nos afofa
- preguiceiros coxins. - Maldita a vinha
- co’o seu néctar balsâmico - Maldita
- essa das graças graça, amor chamada.
- - Maldito o esperar sempre. - A fé maldita.
- - Maldita sobre tudo a paciência!
CORO DE ESPÍRITOS (invisíveis)
- Ai ai! desta feita deixaste arrasado
- c’oa força do murro tão lindo universo;
- já tudo em ruínas desaba disperso.
- Já é! Ver um homem com Deus comparado!
- Andar, companheiros, levar por ’í fora,
- para os sumidoiros do vácuo sem fundo,
- os cacos e entulhos da fábrica mundo.
- Pasmava-se dela; choremo-la agora.
- Sus, filho do barro, sus, sus, potentado!
- Em troca do mundo, que já destruiste,
- extrai de ti outro, melhor, menos triste!
- Profere o teu Fiat, e logo é criado!
- Vida nova, clara vida,
- corra limpa de mistérios!
- Encha os âmbitos etéreos
- o cantar do teu Edén!
- Ao factor do novo mundo
- fama em cânticos florida
- alce em coro adorando
- glória, glória, glória, Amen!
MEFISTÓFELES
- Aí tem no que os meus pajens lhe cantaram
- regras do bom viver; de mais acerto
- nem conselheiros velhos as dariam.
- Aproveite a lição! Torne-se ao mundo!
- Fuja do viver só, que estagna a mente,
- os sentidos embota, e mole-mole
- chucha os sucos vitais. Mau passatempo
- é esse de cevar melancolia,
- feros abutres d’alma. Em sociedade,
- por mui ruim que seja, ao menos sente-se
- com homens homem. Não direi que desça
- a conviver co’a sórdida gentalha.
- Figurão não sou eu; mas se lhe serve
- comigo acompanhar na aventureira
- jornada deste mundo, pronto e às ordens!
- Aqui tem um criado, um companheiro,
- um pau mandado, o mais pontual dos servos.
FAUSTO
- E eu que te hei-de pagar?
MEFISTÓFELES
- Depois veremos;
- não é coisa de pressa.
FAUSTO
- Ai, nada, nada,
- que eu sei de cor as manhas dos diabos:
- não dão ponto sem nó. Venha o primeiro
- que pelo amor de Deus a alguém servisse.
- Vamos às condições: propõe-nas franco.
- No tomar um tal servo há seus perigos.
MEFISTÓFELES
- Obrigo-me a servi-lo em tudo e à risca
- enquanto vivo for, e obedecer-lhe
- aos acenos até, sem cansar nunca.
- Depois, quando lá em baixo nos toparmos
- trocamos os papéis.
FAUSTO
- Pouco me afreimo
- do teu depois , e mais do teu lá em baixo !
- Escavaca este mundo, e engendra um novo,
- que se me dá, se é deste que deriva
- tudo que me contenta, e o sol que doira
- os meus males é este? Em se acabando
- mundo e sol para mim, saia o que saia;
- e não há mais dizer. Que me interessa
- que lá se odeie ou se ame? haja ou não haja
- um abaixo e um acima ?
MEFISTÓFELES
- Então já pode
- no pacto conchavar-se. O que eu lhe afirmo
- é que estes dias que passarmos juntos
- lhe hão-de por minhas artes dar tais gostos
- quais os não teve alguém.
FAUSTO
- Pobre diabo,
- que hás-de tu dar-me? O espírito de um homem
- como eu sou, foi jamais compreensível
- aos da tua relé? Tens iguarias
- que não matam a fome; oiro que fulge,
- mas que igual ao mercúrio, escapa aos dedos;
- jogo em que é certa a perda; uma beldade
- que até nos braços meus soltando arrulhos,
- já está piscando o olho ao meu vizinho;
- pompas de glória, um fumo!
- O que eu preciso,
- se o tens, são frutos a pender de copa
- sempre frondosa, e que antes de apanhados
- não tenham já por dentro o podre e os vermes.
MEFISTÓFELES
- Bem; tudo isso há-de ter; conte comigo
- Desde agora, amiguinho, à rédea solta.
- Folgar e mais folgar! Leva de escrúpulos!
- Tudo quanto bem sabe, é permitido.
FAUSTO
- Se eu me acosto jamais em fofa cama,
- contente e em paz, que nesse instante eu morra!
- Se uma só vez com falsas louvaminhas
- chegares por tal arte a alucinar-me
- que eu me agrade a mim próprio; se valeres
- a cativar-me com deleites frívolos,
- súbito a luz da vida se me apague.
- Vá! queres apostar?
MEFISTÓFELES
- Se quero! Aposto.
FAUSTO
- Aperto mais: Se me chegar momento
- a que eu diga: «Demora-te! És formoso»
- então aos teus grilhões entrego os pulsos;
- então a morte aceito; os sinos dobrem;
- já livre estás de mim. Dessa hora avante,
- quede o relógio! Caiam-lhe os ponteiros!
- Acabou-se-me o tempo.
MEFISTÓFELES
- Olhe o que afirma,
- que entre nós outros nada esquece.
FAUSTO
- Embora!
- Não me obriguei de leve. O que eu padeço
- não é escravidão? Ser logo servo
- de outro ou de ti, que monta?
MEFISTÓFELES
- Às suas ordens,
- desde já. Tem a nata dos serventes
- para este bródio de barrete fora,
- meu querido Doutor!
- Mais uma nica.
- Há morrer e viver. É bom primeiro
- pôr o preto no branco: um tudo-nada;
- duas regritas só.
FAUSTO
- Que é! Papeladas
- até no inferno, rábula! Bem mostras
- entender pouco do que seja um homem.
- Não vai librado o meu destino inteiro
- na palavra que dou? Sendo o universo
- um turbilhão perene, achas que possam
- quatro letras de borra agrilhoar-me?
- (E é geral todavia o preconceito)
- Feliz o que tem fé: não se aventura
- a coisas em que é tarde o arrepender-se.
- De pôr num pergaminho uns papa-ratos,
- e assiná-lo, é que todos estremecem,
- por entenderem... que a palavra humana
- que na pena é já morta, assume vida
- se a uma pele defunta a incorporaram.
- Vá! Que exiges, espírito danado?
- pergaminho? papel? mármore? bronze?
- letra de pena, de buril, de escopro?
- Escolhe!
MEFISTÓFELES
- Ih! que facúndia, e que fogachos
- sem quê nem para quê! Basta um farrapo
- de papel fino ou grosso, e uma gotinha
- do sangue próprio, com que assigne em baixo.
FAUSTO
- Se nessas pataratas fazes luxo,
- vá lá!
( Arregaça o braço esquerdo; Mefistófeles pica-lhe a veia; Fausto molha no sangue a pena, e assina com ela o pergaminho que Mefistófeles lhe apresenta. )
MEFISTÓFELES
- Isto do sangue é burundanga
- que tem seu quê.
FAUSTO
- Não te violo a avença;
- não tenhas medo. As minhas posses todas,
- já daqui tas obrigo. Inchei de modo
- que só posso caber na tua esfera.
- O Factor Sumo pôs-me em bando. Encontro
- cancelos a vedar-me a natureza.
- O fio do pensar quebrou-se. Há muito
- que de todo o saber vivo enjoado.
- Deixar-me ora engolfar em vosso abismo,
- deleites sensuais, paixões fogosas!
- Rompam já ’í portentos e portentos,
- qual a qual mais possante a enfeitiçar-me!
- Mergulhemos no vórtice dos tempos,
- no encapelado mar das aventuras.
- Sigam-se embora, como queiram, dores
- a deleites, ou júbilos a mágoas.
- Tudo, menos a inércia, o mal dos males,
- o que mais vexa a dignidade humana.
MEFISTÓFELES
- Não ponho restrições; peça por boca!
- Se as primícias quiser libar de tudo,
- de qualquer coisa (por fugaz que seja)
- se quiser na voadura apoderar-se,
- não faça cerimónia; e que lhe preste!
FAUSTO
- Entendamo-nos bem. Não ponho eu mira
- na posse do que o mundo alcunha gozos .
- O que preciso e quero, é atordoar-me.
- Quero a embriaguez de incomportáveis dores,
- a volúpia do ódio, o arroubamento
- das sumas aflições. Estou curado
- das sedes do saber; de ora em diante
- às dores todas escancaro est’alma.
- As sensações da espécie humana em peso,
- quero-as eu dentro em mim; seus bens, seus males
- mais atrozes, mais íntimos, se entranhem
- aqui onde à vontade a mente minha
- os abrace, os tacteie; assim me torno
- eu próprio a humanidade; e se ela ao cabo
- perdida for, me perderei com ela.
MEFISTÓFELES
- Pode crer (há muitos mil janeiros
- que eu ando a roer nisto), inda não houve
- homem nenhum que desde o berço à cova
- lograsse digerir esse fermento.
- O complexo do mundo (e pode crê-lo,
- pois lho afirma um diabo) é incompreensível
- a todos salvo a Deus. Só ele brilha
- na luz perpétua; a nós enclausurou-nos
- nas trevas sem limite; e a vós, aos homens,
- alterna dia e noite.
FAUSTO
- E eu quero.
MEFISTÓFELES
- Entendo.
- O mau é que a arte é longa, e a vida breve.
- Dou que não leva a mal uma lembrança.
- Tome por sócio um vate, e dê-lhe largas.
- Deixe-o campear nos páramos dos sonhos,
- até ao ponto de ajuntar às prendas
- do meu caro Doutor os dons mais nobres:
- valor leonino, rapidez de cervo,
- estro d'Itália, madurez do Norte.
- Deixe-o ver se, por artes de berliques,
- o faz a par magnânimo e velhaco;
- se lhe improvisa uns férvidos amores
- como os tinha em rapaz, e juntamente
- segundo o plano dele arrazoados!
- Figurão tal, quem dera vê-lo! Eu curvo
- chamava-o logo - «Senhor Dom Mundinho!»
FAUSTO
- Mas então eu que sou, se me é defeso
- ao ápice aspirar da humanidade,
- alvo constante de meus crus anseios?
MEFISTÓFELES
- É...? o que é... e acabou-se. Erga o toitiço
- emperrucado com milhões de crespos,
- ponha salto em tacões maior de vara,
- que não cresce uma aresta.
FAUSTO
- Em mal, que é certo.
- Quanta ciência em mente de homem cabe
- toda em balde juntei; por mais que explore,
- força nenhuma se criou cá dentro;
- não cresci a grossura de um cabelo,
- e em nada do infinito estou mais perto.
MEFISTÓFELES
- Senhor meu! Ver as coisas desse modo
- é vê-las como o vulgo. A nós compete
- pensar com mais juízo, enquanto há vida
- para se desfrutar. Eu t’arrenego!
- Se tem por coisa sua os pés, os braços,
- cabeça, et cœt’ra ... ao mais de que se apossa
- porque o não tem por seu? Merco seis urcos,
- de seis urcos a força ajunto à minha.
- Levo-me pelo ar, porque possuo
- mais vinte e quatro pés. Fora tontices!
- Vamos por esse mundo. O que lhe eu digo
- é que um palerma que esperdiça o tempo
- em perpétuo hesitar, é como besta
- levada pela beiça à roda, à roda,
- por mão de um trasgo em árida charneca
- insulada entre flóridos pastios.
FAUSTO
- E onde nos vamos?
MEFISTÓFELES
- Vamo-nos primeiro
- pôr já já daqui fora, que em tal sítio
- só mártires. E chama-se isto vida!
- uma eterna moedeira dos rapazes
- e de si próprio! Deixe-me esse inferno
- ao seu vizinho Pança! Há quantos anos
- anda aí como o boi no calcadoiro!
- e inda assim o mais fino do que sabe
- não lhe é dado ensiná-lo aos estudantes.
- .................................
- Passos no corredor... Algum que chega.
FAUSTO
- Não me é possível recebê-lo agora.
MEFISTÓFELES
- Coitado! Estar à espera há tanto tempo,
- e ao cabo... Não consinto. Eu lho recebo.
- Faça favor, empreste-me a batina,
- mais o barrete.
( Fausto despe o trajo de Doutor, e Mefistófeles atavia-se com ele )
- Cáspite! Que estampa!
- que vera efígies de Doutor chapado!
- Deixe por minha conta o mais da festa.
- Dê-me este quarto de hora; e vá no entanto
- para a nossa viajata aperceber-se.
( Fausto vai-se pela porta da esquerda para o corredor. )
Cena II
- MEFISTÓFELES ( só )
- ( Voltado para a porta por onde saiu Fausto )
- Descarta-te do siso e da ciência,
- máximas forças do homem! Crê somente
- nas ficções dos espíritos falazes,
- e és meu sem redenção! Deu-te o destino
- alma que, desdenhando os bens do mundo,
- só aspira vaidosa a bens sem termo.
- Com este posso eu bem. Voto arrastá-lo
- por quanto há ’í de frioleiras chilras
- ao mais bruto viver. Já o estou vendo
- escabujar de raiva, inteiriçar-se
- aferrado à matéria. À boca, aos olhos,
- (quando o vir mais sedento e mais faminto)
- hei-de-me regalar de negacear-lhe
- fartos manjares, rescendentes vinhos.
- Dar-se ao diabo este asneirão foi luxo,
- que ele ia ao fundo pelo próprio peso.
Cena III
O MESMO, e UM RAPAZOLA, simplório e acanhadíssimo.
RAPAZOLA
- Eu vim há pouco tempo. Desejava
- falar, podendo ser, a um grande sábio
- que diz que mora aqui.
MEFISTÓFELES
- Muito obrigado
- por tanta cortesia. Encontra um homem
- como todos os mais. Já viu a terra?
RAPAZOLA
- O meu empenho todo é que me tome,
- Senhor Doutor, à sua conta. Eu venho
- co’as melhores tenções; dinheiro, trago
- quanto me baste; e sou rapaz sadio,
- bem vê. Lá a mãezinha, essa, coitada,
- é que lhe custou muito eu vir-me embora.
- Mas eu, sim, eu... percebe-me? trazia
- na ideia outra tineta: era uma ânsia
- de vir para a cidade, e aprender tudo...
- como o outro que diz...
MEFISTÓFELES
- Pois, meu menino,
- sou por dizer-lhe que acertou co’a a porta.
RAPAZOLA (depois de ter estado a considerar mudamente no aspecto da casa; e mudando para o tom de aborrido)
- Falo a verdade. Quem me dera ver
- já bem longe daqui! Estas paredes,
- estes tectos arcados, aborrecem-me.
- Faltam-me o espaço e o ar; nem folha verde,
- nem árvore descubro. Em me sentando
- no banco duro de uma sala destas,
- já não vejo, não oiço, e nada entendo.
MEFISTÓFELES
- Tudo vai do costume. Um pequenito
- recém-nascido esquiva-se da mama,
- depois já busca o bico, e chuchurreia.
- Aplico el cuento: as tetas da ciência
- vão sabendo melhor dia a dia.
RAPAZOLA
- Quem já me dera pendurado nelas!
- Mas se eu não sei trepar!
MEFISTÓFELES (sentando-se doutoralmente na cadeira de Fausto, e deixando o rapaz em pé)
- Vamos por partes.
- Que faculdade elege?
RAPAZOLA
- Eu sei! queria
- tornar-me sabichão de maço e mona.
- Queria compreender a natureza
- e abarcar a ciência; o que se avista
- na terra, e o que há no céu.
MEFISTÓFELES (que em todo o diálogo vai, de vez em quando, tabaqueando o caso, de uma grande caixa, que tirou do bolso, e pôs em cima da mesa)
- E deu co’a estrada.
- O tudo está em conservar o acúmen
- da aplicação científica, evitando
- pestes scientiæ as distracções.
RAPAZOLA
- Percebo.
- E essa gana trago eu. Só lembro o gosto
- que eu teria, aos domingos de bom tempo,
- em saltar por ’í fora.
MEFISTÓFELES
- Foge a vida
- more fluentis aquæ . Necessário
- se faz logo com regra aproveitá-la.
- Siga, amiguinho, siga o meu conselho,
- que não se há-de dar mal.
( Levanta-se )
- E antes de tudo
- muito colegium logicum ; por ele
- é que um novato aprende a enfiar justinho
- os pés da mente em botas à espanhola,
- que assim é que é seguir, sereno e cauto,
- pé ante pé, a via das ciências,
- em vez de andar pulando a um lado e a outro,
- qual fogo fátuo em chão de cemitério.
- Depois, levam-se meses a ensinar-lhe
- o que antes de ensinado é já sabido,
- como o comer, como o beber, et cœtera;
- Naturæ donam , sapiência infusa,
- mas vulgar, mas sem brilho e sem relevo.
- Acode um sábio; espostejou-se a coisa:
- «Um, dois, três.» Sim senhor, é o que lhe digo.
- A alma, que de ideias nos faz teias,
- é como o tecelão, quando se esmera
- em obra de examina: a cada piso
- que ele na apianha dá, mil fios move;
- voa, indo e vindo a lisa lançadeira;
- no ordume a trama às cegas se entretece;
- um golpe só fez tudo.
- Ora o filósofo
- bate a pata do espírito, e provou-nos
- que o que é, devia ser; sendo o primeiro
- isto, e aquilo o segundo, é consequência
- ser o terceiro assim, e o quarto assado.
- É corolário pois, que suprimidos
- o primeiro e o segundo, era impossível
- que existissem jamais terceiro e quarto
- «Bela demonstração!» proclama à uma
- a escola toda... mas nem meio ouvinte
- nos saiu tecelão.
- Pretende um sábio
- conhecer e pintar qualquer vivente:
- lança-lhe a garra e avia-o. Tem sem dúvida
- todas as partes dele. O que lhe falta?
- Unicamente o seu vivaz liame:
- Encheiresin naturæ o chama a química.
- Zomba de si, sem perceber que zomba.
RAPAZOLA
- A modo que não pesco.
MEFISTÓFELES
- Em pouco tempo
- há-de entender melhor, quando já saiba
- reduzir e classar.
RAPAZOLA
- Faz-me tudo isto
- confusão tal, que sinto, me parece,
- galgas de azenha a andar-me no miolo.
MEFISTÓFELES
- Logo depois, tratar da metafísica.
- Com ela buscará sondar a fundo
- o que no humano cérebro não cabe;
- mas ou lá caiba ou não, nunca nos falta
- para uma pressa um termo altissonante.
- Agora, estes seis meses mais chegados,
- há-de ir empregando em costumar-se
- a ser em tudo tudo arranjinho.
- Cada dia cinco horas para a aula,
- entrando sempre ao toque da sineta;
- a lição bem de cor, trinchada em párrafos.
- Disto saca um proveito: é ficar certo
- de que o seu mestre não falseia o livro,
- nem lhe acrescenta um jota. Não obstante,
- desunhe-se a escrever na caderneta
- quanto ele proferir como ditado
- pelo Espírito Santo.
RAPAZOLA
- Entendo à légua;
- e é muito bom conselho. Uma pessoa,
- levando para casa a coisa escrita,
- vai até mais segura e mais contente.
MEFISTÓFELES (tornando a sentar-se)
- Mas torno a perguntar; que ciência elege?
RAPAZOLA (depois de ter estado a cuidar entre si)
- Lá da jurisprudência Deus me livre.
MEFISTÓFELES
- E acho que tem razão. Não sei que exista
- faculdade mais chocha. Herdam-se e testam-se
- leis e direitos, tais e quais se coam
- de bisavós a avós, de pais a filhos
- o sangue eivado, a tísica, as alporcas.
- Não há mudar, não há progresso: aviso
- chama-se parvulez; o benefício
- degenera em trabalho. És descendente
- de Fuão? mal por ti: do teu direito
- real e inato, é que o Pretor não cura.
RAPAZOLA
- O teiró que eu já tinha a tal ciência
- tresdobrou desta feita.
( À parte )
- Isto é que é mestre.
- Que achadão! que fortuna!
( Alto )
- E a teologia?
- Talvez que...
MEFISTÓFELES
- De enganá-lo é que eu não gosto.
- Na teologia há mil caminhos falsos
- difíceis de evitar; há mil peçonhas
- tão ruins, que estremá-las de remédios
- é quantas vezes foro de impossíveis.
- Também nesta ciência, o mais seguro
- é não pensar por si, mas jurar sempre
- na palavra do mestre. Em suma, os textos
- boias são que, em se a elas aferrando,
- nunca um bom nadador se vai ao fundo.
RAPAZOLA
- Mas as palavras devem ter sentido.
MEFISTÓFELES
- Deverão, deverão; mas não é caso
- para tanto ralar, porque onde falta
- ideia que se intenda, acode um texto
- que vem de molde, e calafeta o rombo.
- O palavrório é tudo. Com palavras
- se esgrime, contra ou pró, nas magnas teses.
- Com palavras arranja-se um sistema.
- As palavras tem fé. De uma palavra
- não se cerceia um til.
RAPAZOLA
- Eu bem conheço
- que tanto perguntar é de importuno;
- mas gostava de ouvir-lhe um poucochinho
- sobre a ciência médica.
MEFISTÓFELES
- Esse estudo
- leva três anos só; que são três anos
- para um campo tão vasto? em se apontando
- a boca de um caminho, é como um gamo:
- correr e mais correr.
( À parte )
- Leva de embófias!
- Vou falar chão, como a diabo cumpre.
( Alto )
- O essencial da medicina é fácil.
- Lê por dentro e por fora o mundo e o homem,
- e afinal vê sair-lhe cada coisa
- conforme aprouve a Deus. Esbaforis-vos
- num corropio à roda da ciência,
- e cada qual por fim... pilha o que pilha.
- Saber aproveitar as circunstâncias
- é que cifra o saber. Pois bem! Figura
- não lhe falta, e suponho-lhe ousadia.
- Que mais quer? fie em si; verá se os outros
- se não fiam também.
- Co’o mulherio
- é que mais se precisa habilidade.
- Os seus ai-ais e ui-uis, perene tema
- de eternas variações, curam-se todos
- co’a mesmíssima droga. Ao que bem sabe
- ser magano à socapa, inda a primeira
- há-de vir que resista; é que um sujeito
- com Carta de Doutor merece crédito,
- e a arte que ele pratica excede a todas.
- Anos empata um suplicante avulso
- em vencer nicas; um Doutor fez tudo
- no primeiro rompante: pede o pulso,
- dão-lho logo; tacteia-o brandamente,
- regala-se a estudá-lo, e vai no entanto
- co’o meigo olhar incendiando a linda;
- depois, sem má tenção, sem falsos pejos
- apalpa-lhe a cintura, a ver não traga
- demasiado aperto no espartilho.
RAPAZOLA (pulando de contente, e esfregando as mãos)
- Por aí! por aí! Dessa maneira
- vê-se o que há e não há.
MEFISTÓFELES
- Meu caro amigo,
- toda a teoria é névoas; auriverde
- só a árvore da vida.
RAPAZOLA
- À fé que ouvi-lo
- é para mim como um sonhar delícias.
- Se me desse licença, ateimaria
- em causticá-lo, até roçar no fundo
- poço tal de saber.
MEFISTÓFELES
- Vá, não se acanhe;
- até onde eu chegar...
RAPAZOLA
- Eu desejava,
- antes de me ir embora, merecer-lhe
- a honra de escrever neste meu álbum.
( Entrega o álbum a Mefistófeles, o qual depois de escrever nele, o restitui ao dono. Este recebe-o mui respeitosamente, e lê estas palavras. )
- «Eritis sicut Deus, scientes bonum et malum.»
( O rapaz fecha o livro com grande reverência, e retira-se às cortesias, até sair pela porta do fundo. )
Cena IV
MEFISTÓFELES (só)
- Adopta o parecer da minha tia cobra!
- Um dia no pavor com que o ânimo soçobra
- lá reconhecerás, passando a ser dos meus,
- se há ou se houve jamais um ente igual a Deus.
Cena V
O MESMO, e FAUSTO, que volta do corredor, já entrajado à fidalga, como Mefistófeles, mas ainda de barbas compridas
FAUSTO
- Onde iremos?
MEFISTÓFELES
- Escolha! Acho que poderemos
- correr da sociedade os dois confins extremos,
- começando na plebe, e indo do baixo ao sumo.
- Que instrução! que recreio há-de encontrar, presumo,
- nesta desfrutação!
FAUSTO
- Com barbas tão compridas,
- índole assim montês, maneiras encolhidas,
- que vou eu lá tentar? Sou feito deste modo.
- Detesto o conviver. Não sei, não me acomodo,
- co’o bulício mundano. Onde se encontra gente,
- fico como um pigmeu tolhido inteiramente.
MEFISTÓFELES
- Isso, amigo, mau é; mas não há mal sem cura.
- Anime-se e verá...
- Mas que olha? que procura?
FAUSTO
- Como havemos nós de ir? Cavalos, trens, criados...
- onde estão?
MEFISTÓFELES
- Nunca eu tivesse outros cuidados!
- Estende-se este manto, embarca-se a seu bordo,
- e despede-se o voo.
FAUSTO
- Isso é melhor, concordo.
MEFISTÓFELES
- De certo. Saiba mais que para tal viagem
- bom será não levar grande matalotagem.
- Enquanto fecho um olho, apronto o gás que deve
- levantar-nos da terra. Assim, quanto mais leve
- for a carga, melhor. Que rapidez! Aceite
- já os meus parabéns, à conta do deleite
- que tem de lhe excitar na mente comovida
- o ver entrado-a nova e prodigiosa vida,
( Durante esta fala, tem Mefistófeles ido estendendo no chão a capa; e quando se está colocando sobre ela, cai o pano. )