Quintal com árvores, pertencente à morada de Marta. Do lado direito a casa. Do esquerdo, v
234 versos
Cena I
MARGARIDA, FAUSTO, MARTA, e MEFISTÓFELES
( Esta cena complexa é ordenada do seguinte modo: Formam-se dois grupos: Margarida, de braço dado com Fausto; Marta com Mefistófeles. Estes dois pares, cada um dos quais trata assunto inteiramente desligado do do outro, passeiam desencontradamente: um sobe o teatro até o fundo, enquanto o outro desce do fundo até o proscénio. Cada um deles, tanto ao aproximar-se, como já defronte dos espectadores, diz as respectivas falas, enquanto o outro mais distante, só pelos gestos se conhece que está conversando. )
MARGARIDA (pelo braço de Fausto)
- Por ver que eu nada sei, é que o senhor só usa
- dessas falas tão chãs. Sinto-me até confusa
- da minha estupidez. Um sábio viajante
- tratar tão mão por mão co’uma pobre ignorante!
- É força de bondade!
FAUSTO
- O que te sai dos lábios,
- o que te luz no olhar... diz mais que dez mil sábios
- para o meu coração.
( Beija a mão dela )
MARGARIDA
- Jesus! Não se incomode,
- meu senhor! Mão grosseira assim, como é que a pode
- beijar um cavalheiro? Em casa não há lida
- para que a minha mãe não chame a Margarida:
- então bem vê que as mãos...
( Vão subindo, enquanto o outro par vem descendo. )
MARTA
- Não sei como se atura
- andar sempre a viajar.
MEFISTÓFELES
- Tive esta sina escura;
- que lhe quer? é dever; segui esta carreira.
- Deus sabe quanta vez, por mais que um homem queira
- dilatar-se num sítio, a atroz necessidade
- o arroja para longe, e zomba da saudade!
MARTA
- Nos anos verdes, vá; lá pode achar-se gosto
- no andar correndo mundo; agora, no sol posto,
- quando já vem caindo as sombras da velhice,
- acho eu que um solteirão, que não se prevenisse
- de um arrimo de amor, enquanto a idade o aprova,
- para depois descer manso e chorado à cova,
- grande pesar curtira.
MEFISTÓFELES
- Essa aflição tardia
- já só de a imaginar me assombra de agonia.
MARTA
- Então não perca tempo!
( Vão subindo, enquanto o outro par vem descendo. )
MARGARIDA
- Ah! sim, longe da vista,
- longe do coração. Por mais que afirme e insista,
- não me há-de convencer de que esses seus louvores
- passem de um comprimento usual entre senhores.
- Por força que há-de ter no rol da gente imensa
- com quem trata e convive, e que aprendeu e pensa,
- quem discorra melhor de que eu, que não sei nada,
FAUSTO
- Crê, crê, mulher sem par, que vives enganada.
- Bastas vezes no mundo o nome de ciência
- é c’roa da vaidade, e véu da insipiência.
MARGARIDA
- Não percebo.
FAUSTO
- Faz dó ver a simples candura
- ignorar sua ingénua e santa formosura.
- Pródiga natureza! A modesta humildade
- é o mais formoso dom que hás feito à humanidade!
MARGARIDA
- Acha que hei-de alembrar-lhe alguma vez por lá?
- Eu cá, não se pergunta; a mim não se me dá
- de nada mais no mundo; então...
FAUSTO
- Vives sozinha
- quase sempre?
MARGARIDA
- Isso vivo. A casa é pobrezinha,
- mas dá bem que fazer. Como não há criada,
- sou eu só quem faz tudo, e nunca estou parada.
- Eu lido na cozinha, eu varro, eu coso, eu fio,
- eu recados por fora... em suma, um corropio
- de manhã té à noite. A mãe, coitada, quer
- ver tudo num brinquinho; e se eu lho não fizer
- não sei como há-de ser; que em realidade a gente
- não tinha precisão de andar eternamente
- metida nesta frágua. O meu pai, que Deus tem,
- deixou, graças a Deus, com que passarmos bem,
- e melhor do que alguns que estão à boa vida
- fazendo mais figura. A conta, se duvida,
- é fácil: ademais da casa, nosso ninho,
- temos no arrabalde um lindo quintalinho.
- Vivo em paz, isso vivo; agora mui contente
- não direi. Meu irmão tem praça, e vive ausente;
- e a minha irmã pequena está no céu... Que linda
- que era aquela criança! e o que eu a amava! Ainda
- oh! permitisse-o Deus, aceitava com ânsia
- as canseiras que tinha em na velar na infância.
FAUSTO
- Sendo ela como tu, melhor dizer podias
- um anjo a velar outro.
MARGARIDA
- Alembram-me esses dias
- como uma primavera; a sua inseparável
- fui eu sempre, e ela a minha; o risinho amorável
- com que ela me pagava as festas e as carícias!
- Servi-la para mim era colher delícias.
- Quando ela veio à luz, tinha já falecido
- o nosso pai; a mãe, co’a pena do marido,
- esteve vai não vai, tão mal tão mal, que espanta
- como pôde arribar; graças à Virgem Santa,
- lá foi a pouco e pouco enfim convalescendo;
- já vê que nesse tempo era impossível, tendo
- tão pouca força ainda, haver sequer lembrança
- de empregar-se em tratar da pobre da criança;
- quem a esteou fui eu, só eu, com água e leite;
- medrou, medrou, medrou, que o vê-la era um deleite;
- pois quando eu a trazia ao colo, ou do regaço
- lhe fazia bercinho?! aquilo é que era um passo:
- vê-la rir, pernear, crescer.
FAUSTO
- Assim tiveste
- o bem dos bens do mundo.
MARGARIDA
- Um bem quase celeste,
- certo é, porém rajado às vezes de tormentos:
- co’o berço ao pé da cama, a quaisquer movimentos
- que a menina fazia, aí ’stava eu já desperta
- a enxugá-la, a voltá-la, a pô-la bem coberta,
- a dar-lhe de beber, a metê-la na cama,
- a conchegá-la a mim, e até (são pensões de ama)
- se ateimava no choro, a erguer-me, (pobre linda!)
- cantando sem vontade horas e horas! Se ainda
- pelo menos, depois da noite assim passada,
- se pudesse dormir... mas qual! Vindo a alvorada,
- era saltar do leito, era ir lavar na tina
- antes de nada mais a roupa da menina;
- depois fazer o almoço, ir às compras, e a esmo
- assim o dia todo, e cada dia o mesmo.
- O que eu lhe digo só, meu senhor, é que a vida
- levada deste modo é pouco divertida...
- se bem que para abrir apetite à gente
- e dar sonos bem bons, não na há mais excelente.
( Vão subindo. O outro par desce )
MARTA
- Mau, mau é ser mulher. Os senhores solteiros
- são caça tão arisca! e fogem tão ligeiros!
MEFISTÓFELES
- É verdade: em geral pouco nos agarramos
- ao visco, de que o sexo unta os floridos ramos;
- entretanto eu por mim talvez talvez caisse,
- se uma dama que eu sei...
MARTA
- Vá, inda mo não disse:
- Nunca achou até hoje algum ditoso objecto,
- que nesse coração causasse muito afecto?
MEFISTÓFELES
- «Lar próprio e mulher boa (o provérbio que o diz
- é que o sabe) mais são que minas de rubis.»
MARTA
- Portanto, é natural que alguma vez... teria
- suas... sim, tentações...
MEFISTÓFELES
- Nunca até este dia
- me receberam mal em parte alguma.
MARTA
- Vejo
- que não me explico bem. O que eu saber desejo
- é se ainda não amou digo amar seriamente.
MEFISTÓFELES
- Pois com damas quem brinca?
MARTA
- Indubitavelmente
- não me entende.
MEFISTÓFELES
- Paciência. Entendo todavia
- que ninguém vence em graça a Vossa Senhoria.
( Sobem. Vem ao proscénio o outro par )
FAUSTO
- Mal que entrei no quintal, pergunto, o meu anjinho
- reconheceu-me logo?
MARGARIDA
- Ai, logo de caminho,
- tanto assim que abaixei os olhos de repente.
FAUSTO
- Inda me queres mal pela audácia impudente
- com que te ousei falar quando vinhas da Igreja?
MARGARIDA
- Causou-me admiração, causou, verdade seja.
- Era a primeira vez que tal me sucedia;
- ninguém teve jamais que me dizer. Veria
- em ti ou no teu ar (dizia-me eu comigo)
- alguma leviandade (abr’núncio do inimigo!)
- para te vir falar com tanto desempeno?!
- Contudo já então no seio mal-sereno
- confesso... um não sei quê, novo, desconhecido,
- me andava a suplicar perdoasse ao atrevido.
- A raiva com que estava a mim própria era tal
- que nem lugar me deu para lhe eu querer mal.
FAUSTO
- Oh querida, querida!
MARGARIDA (largando o braço de Fausto)
- Ai, quero ver.
( Apanha um malmequer, de uma das redoiças de flores, e principia a desfolhá-lo. )
FAUSTO
- Que fazes?
- Um ramalhete?
MARGARIDA
- Nada; um brinco dos rapazes.
FAUSTO
- Que brinco?
MARGARIDA
- Ai, quer-se rir? não digo; esteja quedo.
( Continua a desfolhar a florinha, falando baixo. )
FAUSTO
- Tu, que estás murmurando? Ah!! temos um segredo!
MARGARIDA (sempre na mesma ocupação, mas falando de modo que se oiça)
- Bem me quer, mal me quer...
FAUSTO (à parte)
- Rosto do paraíso!
MARGARIDA
- Bem me quer, mal me quer...
FAUSTO (como acima)
- Tem sustos no sorriso.
MARGARIDA
- Bem me quer, mal me quer...
( Arrancando a última pétala, louca de alegria )
- Bem me quer!
FAUSTO
- Sim meu bem!
- Falou-te Deus na flor; na flor creio eu também.
- Se te quer! o feliz por quem a desfolhaste!
- mas com que veras d’alma! Ainda não amaste
- de certo; mas por fé procura adivinhar
- o infinito que encerra esta palavra: amar
- Amo-te, amo-te.
( Pega-lhe em ambas as mãos. )
MARGARIDA
- Sinto em mim toda um abalo,
- um tremor...
FAUSTO
- Sê mulher! impõe-te dominá-lo!
- Consente que este olhar que em ti se está cravando,
- consente que estas mãos às tuas abraçando,
- te expressem mudamente o que de mim tens feito,
- o que nem cabe em voz, nem cabe já no peito;
- permite-me engolfar-me em bem-aventurança,
- num afecto sem fim, sem quebra nem mudança,
- eterno... sim, que a ser menor que a eternidade,
- seria o desespero, o nada. Este não há-de,
- não pode já ter fim; jamais, jamais.
( Margarida aperta-lhe as mãos, e foge precipitadamente pela vereda da esquerda, ao fundo do teatro. Fausto fica alguns instantes absorto, e depois como acordando, procura Margarida; não a avistando, corre ao acaso pela mesma vereda por onde ela desaparecera. )
MARTA (que desce com Mefistófeles)
- O dia
- findou.
MEFISTÓFELES
- Força é deixar tão bela companhia.
MARTA
- Eu havia de instar para que estes senhores
- se demorassem mais; porém murmuradores,
- que em toda a parte os há, tem línguas tão daninhas!
- e então cá nesta rua!... eu tremo das vizinhas;
- o seu modo de vida é estar continuamente
- a espiar, a inquirir tudo que faz a gente;
- a princípio é zum-zum; depois já são balelas...
- Livrar de bachareis... e mais, de bacharelas!...
- Mas que fim levaria o nosso casalinho?
- onde estarão?
( Durante a fala precedente, tem, do lado esquerdo, entrado no caramanchão Margarida, que se põe ansiosamente a espreitar em todas as direcções. )
MEFISTÓFELES
- Descanse; é perto e bom caminho.
- Vi-os ir-se um trás outro, além, de fito posto
( Indicando o caramanchão )
- na casinhola verde, e voavam que era um gosto!
- não lembravam, senão dois pássaros maganos,
- acesos co’o verão.
( Vê-se Fausto voltar da alameda por onde saíra, e procurar Margarida por toda a parte )
MARTA
- Eu lá desses arcanos
- pouco sei, porém ele acho que gosta dela.
MEFISTÓFELES
- E ela dele. No amor é jogo usual a pela.
( Continuam ambos a conversar baixo, indo para o fundo do teatro. Fausto aproxima-se do caramanchão. Margarida, de modo que o espectador veja, cose-se com a verdura, e espia para fora. )
MARGARIDA
- Lá vem ele!
FAUSTO (entrando para o caramanchão)
- Ah velhaquita!
- Supunhas zombar comigo.
- Toma para teu castigo! ( Beija-a. )
MARGARIDA (beijando-o também)
- Meu amado! e minha dita!
( Mefistófeles tira uma cana do tecido do caramanchão, e bate com ela na ombreira da porta, como quem pede para entrar. )
FAUSTO (batendo com o pé no chão)
- Quem é?
MEFISTÓFELES
- Paz.
FAUSTO
- Besta!
MEFISTÓFELES
- É já tarde.
MARTA (chegando)
- Por certo, já não é cedo.
FAUSTO (a Margarida)
- Acompanho-a?
MARGARIDA (em decisão e acanhamento)
- Eu sei...?
FAUSTO
- Tens medo?
MARGARIDA
- Minha mãe...
FAUSTO (com pesar)
- Pois Deus te guarde.
MARGARIDA
- É forçoso que me ausente.
MARTA
- Boas noites, meus senhores.
MARGARIDA
- Até breve...
( Saem Fausto, e Mefistófeles, pela porta do fundo. )
Cena II
MARGARIDA e MARTA
MARGARIDA
- Ó Deus clemente!
- Esclarece os meus temores!
- Não há nada que ele ignore;
- nada escapa ao seu engenho.
- O enleio que ante ele eu tenho
- faz que eu de mim própria core.
- Digo-lhe a tudo que sim.
- Pareço uma criancinha.
- Sou mais dele do que minha.
- Mas que acharia ele em mim?