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FaustoQuadro XIII
QuadroXIII

Quintal com árvores, pertencente à morada de Marta. Do lado direito a casa. Do esquerdo, v

234 versos


Cena I

MARGARIDA, FAUSTO, MARTA, e MEFISTÓFELES

( Esta cena complexa é ordenada do seguinte modo: Formam-se dois grupos: Margarida, de braço dado com Fausto; Marta com Mefistófeles. Estes dois pares, cada um dos quais trata assunto inteiramente desligado do do outro, passeiam desencontradamente: um sobe o teatro até o fundo, enquanto o outro desce do fundo até o proscénio. Cada um deles, tanto ao aproximar-se, como já defronte dos espectadores, diz as respectivas falas, enquanto o outro mais distante, só pelos gestos se conhece que está conversando. )

MARGARIDA (pelo braço de Fausto)

  1. Por ver que eu nada sei, é que o senhor só usa
  2. dessas falas tão chãs. Sinto-me até confusa
  3. da minha estupidez. Um sábio viajante
  4. tratar tão mão por mão co’uma pobre ignorante!
  5. É força de bondade!

FAUSTO

  1. O que te sai dos lábios,
  2. o que te luz no olhar... diz mais que dez mil sábios
  3. para o meu coração.

( Beija a mão dela )

MARGARIDA

  1. Jesus! Não se incomode,
  2. meu senhor! Mão grosseira assim, como é que a pode
  3. beijar um cavalheiro? Em casa não há lida
  4. para que a minha mãe não chame a Margarida:
  5. então bem vê que as mãos...

( Vão subindo, enquanto o outro par vem descendo. )

MARTA

  1. Não sei como se atura
  2. andar sempre a viajar.

MEFISTÓFELES

  1. Tive esta sina escura;
  2. que lhe quer? é dever; segui esta carreira.
  3. Deus sabe quanta vez, por mais que um homem queira
  4. dilatar-se num sítio, a atroz necessidade
  5. o arroja para longe, e zomba da saudade!

MARTA

  1. Nos anos verdes, vá; lá pode achar-se gosto
  2. no andar correndo mundo; agora, no sol posto,
  3. quando já vem caindo as sombras da velhice,
  4. acho eu que um solteirão, que não se prevenisse
  5. de um arrimo de amor, enquanto a idade o aprova,
  6. para depois descer manso e chorado à cova,
  7. grande pesar curtira.

MEFISTÓFELES

  1. Essa aflição tardia
  2. já só de a imaginar me assombra de agonia.

MARTA

  1. Então não perca tempo!

( Vão subindo, enquanto o outro par vem descendo. )

MARGARIDA

  1. Ah! sim, longe da vista,
  2. longe do coração. Por mais que afirme e insista,
  3. não me há-de convencer de que esses seus louvores
  4. passem de um comprimento usual entre senhores.
  5. Por força que há-de ter no rol da gente imensa
  6. com quem trata e convive, e que aprendeu e pensa,
  7. quem discorra melhor de que eu, que não sei nada,

FAUSTO

  1. Crê, crê, mulher sem par, que vives enganada.
  2. Bastas vezes no mundo o nome de ciência
  3. é c’roa da vaidade, e véu da insipiência.

MARGARIDA

  1. Não percebo.

FAUSTO

  1. Faz dó ver a simples candura
  2. ignorar sua ingénua e santa formosura.
  3. Pródiga natureza! A modesta humildade
  4. é o mais formoso dom que hás feito à humanidade!

MARGARIDA

  1. Acha que hei-de alembrar-lhe alguma vez por lá?
  2. Eu cá, não se pergunta; a mim não se me dá
  3. de nada mais no mundo; então...

FAUSTO

  1. Vives sozinha
  2. quase sempre?

MARGARIDA

  1. Isso vivo. A casa é pobrezinha,
  2. mas dá bem que fazer. Como não há criada,
  3. sou eu só quem faz tudo, e nunca estou parada.
  4. Eu lido na cozinha, eu varro, eu coso, eu fio,
  5. eu recados por fora... em suma, um corropio
  6. de manhã té à noite. A mãe, coitada, quer
  7. ver tudo num brinquinho; e se eu lho não fizer
  8. não sei como há-de ser; que em realidade a gente
  9. não tinha precisão de andar eternamente
  10. metida nesta frágua. O meu pai, que Deus tem,
  11. deixou, graças a Deus, com que passarmos bem,
  12. e melhor do que alguns que estão à boa vida
  13. fazendo mais figura. A conta, se duvida,
  14. é fácil: ademais da casa, nosso ninho,
  15. temos no arrabalde um lindo quintalinho.
  16. Vivo em paz, isso vivo; agora mui contente
  17. não direi. Meu irmão tem praça, e vive ausente;
  18. e a minha irmã pequena está no céu... Que linda
  19. que era aquela criança! e o que eu a amava! Ainda
  20. oh! permitisse-o Deus, aceitava com ânsia
  21. as canseiras que tinha em na velar na infância.

FAUSTO

  1. Sendo ela como tu, melhor dizer podias
  2. um anjo a velar outro.

MARGARIDA

  1. Alembram-me esses dias
  2. como uma primavera; a sua inseparável
  3. fui eu sempre, e ela a minha; o risinho amorável
  4. com que ela me pagava as festas e as carícias!
  5. Servi-la para mim era colher delícias.
  1. Quando ela veio à luz, tinha já falecido
  2. o nosso pai; a mãe, co’a pena do marido,
  3. esteve vai não vai, tão mal tão mal, que espanta
  4. como pôde arribar; graças à Virgem Santa,
  5. lá foi a pouco e pouco enfim convalescendo;
  6. já vê que nesse tempo era impossível, tendo
  7. tão pouca força ainda, haver sequer lembrança
  8. de empregar-se em tratar da pobre da criança;
  9. quem a esteou fui eu, só eu, com água e leite;
  10. medrou, medrou, medrou, que o vê-la era um deleite;
  11. pois quando eu a trazia ao colo, ou do regaço
  12. lhe fazia bercinho?! aquilo é que era um passo:
  13. vê-la rir, pernear, crescer.

FAUSTO

  1. Assim tiveste
  2. o bem dos bens do mundo.

MARGARIDA

  1. Um bem quase celeste,
  2. certo é, porém rajado às vezes de tormentos:
  3. co’o berço ao pé da cama, a quaisquer movimentos
  4. que a menina fazia, aí ’stava eu já desperta
  5. a enxugá-la, a voltá-la, a pô-la bem coberta,
  6. a dar-lhe de beber, a metê-la na cama,
  7. a conchegá-la a mim, e até (são pensões de ama)
  8. se ateimava no choro, a erguer-me, (pobre linda!)
  9. cantando sem vontade horas e horas! Se ainda
  10. pelo menos, depois da noite assim passada,
  11. se pudesse dormir... mas qual! Vindo a alvorada,
  12. era saltar do leito, era ir lavar na tina
  13. antes de nada mais a roupa da menina;
  14. depois fazer o almoço, ir às compras, e a esmo
  15. assim o dia todo, e cada dia o mesmo.
  16. O que eu lhe digo só, meu senhor, é que a vida
  17. levada deste modo é pouco divertida...
  18. se bem que para abrir apetite à gente
  19. e dar sonos bem bons, não na há mais excelente.

( Vão subindo. O outro par desce )

MARTA

  1. Mau, mau é ser mulher. Os senhores solteiros
  2. são caça tão arisca! e fogem tão ligeiros!

MEFISTÓFELES

  1. É verdade: em geral pouco nos agarramos
  2. ao visco, de que o sexo unta os floridos ramos;
  3. entretanto eu por mim talvez talvez caisse,
  4. se uma dama que eu sei...

MARTA

  1. Vá, inda mo não disse:
  2. Nunca achou até hoje algum ditoso objecto,
  3. que nesse coração causasse muito afecto?

MEFISTÓFELES

  1. «Lar próprio e mulher boa (o provérbio que o diz
  2. é que o sabe) mais são que minas de rubis.»

MARTA

  1. Portanto, é natural que alguma vez... teria
  2. suas... sim, tentações...

MEFISTÓFELES

  1. Nunca até este dia
  2. me receberam mal em parte alguma.

MARTA

  1. Vejo
  2. que não me explico bem. O que eu saber desejo
  3. é se ainda não amou digo amar seriamente.

MEFISTÓFELES

  1. Pois com damas quem brinca?

MARTA

  1. Indubitavelmente
  2. não me entende.

MEFISTÓFELES

  1. Paciência. Entendo todavia
  2. que ninguém vence em graça a Vossa Senhoria.

( Sobem. Vem ao proscénio o outro par )

FAUSTO

  1. Mal que entrei no quintal, pergunto, o meu anjinho
  2. reconheceu-me logo?

MARGARIDA

  1. Ai, logo de caminho,
  2. tanto assim que abaixei os olhos de repente.

FAUSTO

  1. Inda me queres mal pela audácia impudente
  2. com que te ousei falar quando vinhas da Igreja?

MARGARIDA

  1. Causou-me admiração, causou, verdade seja.
  2. Era a primeira vez que tal me sucedia;
  3. ninguém teve jamais que me dizer. Veria
  4. em ti ou no teu ar (dizia-me eu comigo)
  5. alguma leviandade (abr’núncio do inimigo!)
  6. para te vir falar com tanto desempeno?!
  7. Contudo já então no seio mal-sereno
  8. confesso... um não sei quê, novo, desconhecido,
  9. me andava a suplicar perdoasse ao atrevido.
  10. A raiva com que estava a mim própria era tal
  11. que nem lugar me deu para lhe eu querer mal.

FAUSTO

  1. Oh querida, querida!

MARGARIDA (largando o braço de Fausto)

  1. Ai, quero ver.

( Apanha um malmequer, de uma das redoiças de flores, e principia a desfolhá-lo. )

FAUSTO

  1. Que fazes?
  2. Um ramalhete?

MARGARIDA

  1. Nada; um brinco dos rapazes.

FAUSTO

  1. Que brinco?

MARGARIDA

  1. Ai, quer-se rir? não digo; esteja quedo.

( Continua a desfolhar a florinha, falando baixo. )

FAUSTO

  1. Tu, que estás murmurando? Ah!! temos um segredo!

MARGARIDA (sempre na mesma ocupação, mas falando de modo que se oiça)

  1. Bem me quer, mal me quer...

FAUSTO (à parte)

  1. Rosto do paraíso!

MARGARIDA

  1. Bem me quer, mal me quer...

FAUSTO (como acima)

  1. Tem sustos no sorriso.

MARGARIDA

  1. Bem me quer, mal me quer...

( Arrancando a última pétala, louca de alegria )

  1. Bem me quer!

FAUSTO

  1. Sim meu bem!
  2. Falou-te Deus na flor; na flor creio eu também.
  3. Se te quer! o feliz por quem a desfolhaste!
  4. mas com que veras d’alma! Ainda não amaste
  5. de certo; mas por fé procura adivinhar
  6. o infinito que encerra esta palavra: amar
  7. Amo-te, amo-te.

( Pega-lhe em ambas as mãos. )

MARGARIDA

  1. Sinto em mim toda um abalo,
  2. um tremor...

FAUSTO

  1. Sê mulher! impõe-te dominá-lo!
  2. Consente que este olhar que em ti se está cravando,
  3. consente que estas mãos às tuas abraçando,
  4. te expressem mudamente o que de mim tens feito,
  5. o que nem cabe em voz, nem cabe já no peito;
  6. permite-me engolfar-me em bem-aventurança,
  7. num afecto sem fim, sem quebra nem mudança,
  8. eterno... sim, que a ser menor que a eternidade,
  9. seria o desespero, o nada. Este não há-de,
  10. não pode já ter fim; jamais, jamais.

( Margarida aperta-lhe as mãos, e foge precipitadamente pela vereda da esquerda, ao fundo do teatro. Fausto fica alguns instantes absorto, e depois como acordando, procura Margarida; não a avistando, corre ao acaso pela mesma vereda por onde ela desaparecera. )

MARTA (que desce com Mefistófeles)

  1. O dia
  2. findou.

MEFISTÓFELES

  1. Força é deixar tão bela companhia.

MARTA

  1. Eu havia de instar para que estes senhores
  2. se demorassem mais; porém murmuradores,
  3. que em toda a parte os há, tem línguas tão daninhas!
  4. e então cá nesta rua!... eu tremo das vizinhas;
  5. o seu modo de vida é estar continuamente
  6. a espiar, a inquirir tudo que faz a gente;
  7. a princípio é zum-zum; depois já são balelas...
  8. Livrar de bachareis... e mais, de bacharelas!...
  9. Mas que fim levaria o nosso casalinho?
  10. onde estarão?

( Durante a fala precedente, tem, do lado esquerdo, entrado no caramanchão Margarida, que se põe ansiosamente a espreitar em todas as direcções. )

MEFISTÓFELES

  1. Descanse; é perto e bom caminho.
  2. Vi-os ir-se um trás outro, além, de fito posto

( Indicando o caramanchão )

  1. na casinhola verde, e voavam que era um gosto!
  2. não lembravam, senão dois pássaros maganos,
  3. acesos co’o verão.

( Vê-se Fausto voltar da alameda por onde saíra, e procurar Margarida por toda a parte )

MARTA

  1. Eu lá desses arcanos
  2. pouco sei, porém ele acho que gosta dela.

MEFISTÓFELES

  1. E ela dele. No amor é jogo usual a pela.

( Continuam ambos a conversar baixo, indo para o fundo do teatro. Fausto aproxima-se do caramanchão. Margarida, de modo que o espectador veja, cose-se com a verdura, e espia para fora. )

MARGARIDA

  1. Lá vem ele!

FAUSTO (entrando para o caramanchão)

  1. Ah velhaquita!
  2. Supunhas zombar comigo.
  3. Toma para teu castigo! ( Beija-a. )

MARGARIDA (beijando-o também)

  1. Meu amado! e minha dita!

( Mefistófeles tira uma cana do tecido do caramanchão, e bate com ela na ombreira da porta, como quem pede para entrar. )

FAUSTO (batendo com o pé no chão)

  1. Quem é?

MEFISTÓFELES

  1. Paz.

FAUSTO

  1. Besta!

MEFISTÓFELES

  1. É já tarde.

MARTA (chegando)

  1. Por certo, já não é cedo.

FAUSTO (a Margarida)

  1. Acompanho-a?

MARGARIDA (em decisão e acanhamento)

  1. Eu sei...?

FAUSTO

  1. Tens medo?

MARGARIDA

  1. Minha mãe...

FAUSTO (com pesar)

  1. Pois Deus te guarde.

MARGARIDA

  1. É forçoso que me ausente.

MARTA

  1. Boas noites, meus senhores.

MARGARIDA

  1. Até breve...

( Saem Fausto, e Mefistófeles, pela porta do fundo. )

Cena II

MARGARIDA e MARTA

MARGARIDA

  1. Ó Deus clemente!
  2. Esclarece os meus temores!
  3. Não há nada que ele ignore;
  4. nada escapa ao seu engenho.
  5. O enleio que ante ele eu tenho
  6. faz que eu de mim própria core.
  7. Digo-lhe a tudo que sim.
  8. Pareço uma criancinha.
  9. Sou mais dele do que minha.
  10. Mas que acharia ele em mim?
Próximo quadroXIVFloresta no meio de fraguedo, escancarado em cavernas. De uma rocha alta, precipita-se uma