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OdisseiaLivro I
LivroI

Canta, ó Musa, o varão que astucioso

355 versos · 5 notas do tradutor


  1. Canta, ó Musa, o varão que astucioso,
  2. Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,
  3. Viu de muitas nações costumes vários.
  4. Mil transes padeceu no equóreo ponto,
  5. Por segurar a vida e aos seus a volta;
  6. Baldo afã! pereceram, tendo insanos
  7. Ao claro Hiperiônio os bois comido,
  8. Que não quis para a pátria alumiá-los.
  9. Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra.
  10. Da guerra e do mar sevo recolhidos
  11. Os que eram salvos, um por seu consorte
  12. Calipso, ninfa augusta, apetecendo,
  13. Separava-o da esposa em cava gruta.
  14. O céu, porém, traçou, volvendo-se anos,
  15. De Ítaca reduzi-lo ao seio amigo,
  16. Onde novos trabalhos o aguardavam:
  17. De Ulisses condoíam-se as deidades;
  18. Mas, sempre infenso, obstava-lhe Netuno,
  19. Este era entre os Etíopes longínquos,
  20. Do oriente e ocidente últimos homens,
  21. Num de touros e ovelhas sacrifício
  22. A deleitar-se; e estavam já no alcáçar
  23. Do Olimpo os habitantes em concílio.
  24. O soberano, a recordar Egisto
  25. Do Agamenônio Orestes imolado,
  26. Principia: “Os mortais ah! nos imputam,
  27. Os males seus, que ao fado e à própria incúria
  28. Devem somente. Contra o fado mesmo,
  29. Do porvir não cuidoso, há pouco Egisto,
  30. Em seu regresso o Atrida assassinando,
  31. Esposou-lhe a mulher, bem que enviado
  32. O Argicida sutil o dissuadisse:
  33. — De o matar foge e poluir seu leito;
  34. Senão, tem de vingá-lo, adolescente
  35. Sendo investido no seu reino Orestes. —
  36. Mercúrio o amoestou, mas surdo Egisto,
  37. Os delitos por junto expia agora”.
  38. A quem Minerva: “Sumo pai Satúrnio,
  39. Jaz com razão punido esse perverso;
  40. Todo que o imitar, com ele acabe!
  41. Mas a aflição de Ulisses me compunge,
  42. Que, há tanto longe dos amenos lares,
  43. Em ilha está circúnflua e nemorosa,
  44. Lá no embigo do mar; onde é retido
  45. Pela filha de Atlante onisciente,
  46. Que o salso abismo sonda, o peso atura
  47. Das colunas que a terra e o céu demarcam.
  48. A deusa com blandícias o acarinha;
  49. De Ítaca ele saudoso, o pátrio fumo
  50. Ver deseja e morrer. Não te comoves?
  51. Irritou-te faltando, em sua amada
  52. E em Tróia, com ofertas e holocaustos?”
  53. E o Junta-nuvens: “Que proferes, filha,
  54. Do encerro dessa boca? eu deslembrar-me
  55. Do mortal mais sisudo, o mais devoto,
  56. Aos celícolas pio e dadivoso!
  57. Da terra o abarcador é quem o avexa,
  58. Por ter do olho privado a Polifemo,
  59. O mor Ciclope, que, num antro unida
  60. A Netuno, pariu Toosa, estirpe
  61. De Fórcis deus do pego insemeável.
  62. O Enosigeu d’então lhe poupa a vida,
  63. Mas de Ítaca o arreda. Provejamos
  64. Na vinda sua; aplaque-se Netuno:
  65. Só contra todos contender não pode”.
  66. A Olhicerúlea: “Ó padre, ó rei supremo,
  67. Se vos praz que à família torne Ulisses,
  68. Da ínsula Ogígia à ninfa emadeixada
  69. Mercúrio o intime, o herói prudente parta.
  70. A Ítaca baixo a confortar o filho:
  71. Os comantes Argeus convoque ousado;
  72. Suste aos vorazes procos a carnagem
  73. De flexípedes bois e ovelhas pingues.
  74. Dali, na Esparta e na arenosa Pilos,
  75. Do amado genitor se informe e indague,
  76. E entre humanos obtenha ilustre fama”.
  77. Já liga alparcas de ouro incorruptíveis,
  78. Que a propelem como aura pelas ondas
  79. Ou pelo amplo terreno; a lança empunha
  80. De érea afiada ponta e desmedida,
  81. Com que turmas de heróis desfaz metuenda,
  82. Progênie de tal pai. Do Olimpo frecha;
  83. Em Ítaca, ao vestíbulo de Ulisses
  84. Tem-se, e de hasta na destra, parecia
  85. O hóspede Mentes campeão dos Táfios.
  86. Ao pórtico acha intrusos pretendentes
  87. Sobre coiros de bois que morto haviam,
  88. Os dados a jogar. Servos e arautos
  89. Misturam nas crateras água e vinho,
  90. Ou com povosa esponja as mesas pulem,
  91. E partem nelas abundantes carnes.
  92. Distante a vê Telêmaco deiforme:
  93. No meio, taciturno e consternado
  94. No genitor pensava, que expulsá-los
  95. E reger venha o leme do governo.
  96. Entrementes a avista, e não sofrendo
  97. Por mais tempo de fora um peregrino,
  98. Corre, aperta-lhe a mão, sua arma toma:
  99. “Hóspede amigo, salve; o que precisas,
  100. Depois do teu repasto o saberemos”.
  101. Ei-lo encaminha a déia, e já na sala
  102. Ante celsa coluna encosta a lança
  103. À nítida hastaria, onde em fileira
  104. As de Ulisses valente em pé dormiam.
  105. Num trono a põe dedáleo de alcatifa
  106. E de escabelo aos pés, senta-se perto
  107. Em variegada sela; à parte ficam,
  108. Para que, à bulha e ao trato com soberbos,
  109. O hóspede o apetite não perdesse,
  110. E do pai ele a folgo o interrogasse.
  111. De gomil de ouro às mãos verte uma serva
  112. Água em bacia argêntea, a mesa lustra,
  113. Que enche a modesta afável despenseira
  114. De pães e das presentes iguarias;
  115. Escudelas de várias novas carnes
  116. O trinchante apresenta e copos de ouro,
  117. Que arrasa de almo vinho arauto assíduo.
  118. Suspenso o jogo, os feros pretendentes
  119. Ocupam já cadeiras e camilhas;
  120. Dão água às mãos arautos, pão comulam
  121. Servas em canistréis; atiram-se eles
  122. Aos regalados pratos, e as crateras
  123. Lhes coroam mancebos. Farta a sede,
  124. Farta a fome, em prazer os embriagam
  125. Música, dança, adornos de banquetes:
  126. Cítara ebúrnea entrega um dos arautos
  127. A Fêmio, que forçado ali tangia
  128. E o cântico ajustava ao som das cordas.
  129. Inclinou-se Telêmaco a Minerva,
  130. Dizendo à puridade: “Hóspede caro,
  131. Vou talvez enfadar-te? Eles só curam
  132. De cantigas e danças, porque impunes
  133. Comem do alheio, os bens do herói consumem.
  134. Cuja ossada ou jaz podre em longes terras,
  135. Ou rola entre maretas; ah! se o vissem
  136. Cá reaparecer, mais que ouro e galas,
  137. Planta leve amariam. Fado acerbo
  138. Urge-o porém, e embora algum terrestre
  139. A volta sua afirme, as esperanças
  140. Murchas estão, nem luzirá tal dia.
  141. Ora, quem és? de que família e pátria?
  142. Com que gente vieste e em que navio?
  143. Vindo a pé não te creio. Uses franqueza,
  144. Hóspede me és recente ou já paterno?
  145. A muitos nosso teto agasalhava,
  146. E meu pai atraía os forasteiros”.
  147. A de azuis claros olhos: “Não duvides,
  148. Mentes sou, de ser nado me glorio
  149. De Anquíale belaz, e os Táfios mando
  150. Náuticos hábeis. Vim, com meus remeiros
  151. Sulcando o negro pélago, a Temeses
  152. De estranha língua permutar meu ferro
  153. Pelo seu cobre: o vaso tenho surto
  154. No Retro porto, fora da cidade,
  155. Junto ao Neio frondoso. Antigo hospício
  156. Me une a teu pai, e o diga o bom Laertes;
  157. Herói que, é fama, a corte mesto esquiva
  158. Em campo solitário, onde ama idosa
  159. Lhe apresta a mesa, ao vir cansado e lasso
  160. De amanhar fertilíssimos vinhedos.
  161. Cuidei, corria voz, tornado Ulisses;
  162. Mas os deuses o impedem, que inda vive
  163. Em ilha de mar vasto circunfusa,
  164. Por bárbaros detido e involuntário.
  165. O que o Céu sugeriu-me, eu to assevero,
  166. Se bem áugur não seja ou grã-profeta:
  167. Não tardará; que, embora o tenham ferros,
  168. Ardis cogita. Sê sincero; os olhos
  169. E a cabeça tens dele, és tu seu filho?
  170. Como agora freqüentes conversávamos;
  171. Desde que para Tróia, entre os mais cabos,
  172. Se embarcou, nunca mais nos avistamos”.
  173. E o príncipe modesto: “Hóspede, é certo
  174. Que minha mãe de Ulisses me diz prole;
  175. Por si mesmo ninguém seu pai descobre.
  176. Oh! gerado fosse eu de um mais ditoso,
  177. Que em suas possessões envelhecesse!
  178. A porvir de um herói, já que o perguntas,
  179. Esse é desgraçadíssimo dos homens”.
  180. E Palas: “Deu-te o Céu preclaro berço,
  181. És da casta Penélope nascido.
  182. Mas, dize, que festim, que turba é esta?
  183. Para que a tens? são núpcias? é banquete?
  184. Por escote o não fazem. Que insolência!
  185. Qualquer homem de siso há de irritar-se
  186. De os ver assim”. — Telêmaco prudente:
  187. “Hóspede, honesta e rica era esta casa,
  188. Quando aquele varão conosco estava;
  189. Mas obscuro ocultá-lo aprouve aos deuses.
  190. Menos dor fora se acabasse em Ílion,
  191. Ou no meio de amigos triunfante:
  192. Erigindo-lhe a Grécia um monumento,
  193. Ao filho seu legara imensa glória.
  194. As Harpias cruéis mo arrebataram;
  195. Sem brilho algum morreu, só lutos, herdo.
  196. Outros prantos o fado nos suscita:
  197. Os chefes de Dulíquio ambiciosos,
  198. De Ítaca rude e Samos e Zacinto
  199. Pretendem minha mãe, que os não repulsa,
  200. Bem que fiel tais himeneus deteste;
  201. Famélicos o haver me dilapidam,
  202. E malvados a morte me aparelham”.
  203. Palas com dó: “Precisas de que Ulisses
  204. A mão carregue sobre audácia tanta.
  205. Oh! de seu paço à entrada aparecesse
  206. De elmo, adarga e hastas duas, qual chegando
  207. O vi de Éfira e de Ilo Mermérida,
  208. Aonde fora numa nau veleira
  209. Comprar veneno para ervar as setas;
  210. Mas, como Ilo o negou temendo os numes,
  211. Lho deu meu pai, que amigo em nossa casa
  212. O regalou de saborosos vinhos:
  213. Surdisse, e a boda amargaria aos procos.
  214. Se cá deva o Laércio ou não vingar-se,
  215. Arcano é divinal; tu considera
  216. De enxotá-los o modo, eu to aconselho:
  217. Em assembléia aos teus amanhã fala,
  218. Atesta o Céu, despede esses intrusos;
  219. A desejar Penélope outro esposo,
  220. Torne a seu pai, que as núpcias lá celebre,
  221. E um dote para a filha haja condigno.
  222. Se outro cordato aviso adotar queres,
  223. Navegues, a indagar de Ulisses novas,
  224. Em ótimo baixel de vinte remos:
  225. Talvez alguém te informe, ou soe o brado
  226. Com que Jove aos mortais gradua a fama.
  227. Interroga a Nestor primeiro em Pilos,
  228. Na Esparta ao louro Atrida, que o postremo
  229. Dos lorigados reis entrou na Grécia.
  230. Vivo Ulisses, paciente um ano esperes;
  231. Morto, regressa, um monumento exalça
  232. E consagra-lhe exéquias dignas dele;
  233. De ti novo marido a mãe receba.
  234. Isto acabado, às claras ou por fraude,
  235. Sério dos procos desfazer-te busca:
  236. De brincos pueris não é mais tempo.
  237. Ouves de Orestes o renome honroso,
  238. Por ter vingado o pai no infame Egisto?
  239. Sê no valor qual és no garbo e talhe;
  240. Gabem-te, filho, as gerações futuras.
  241. Vou-me à inquieta nau por minha ausência:
  242. Tudo observes, amigo, e nada esqueças”.
  243. E o moço: “Hóspede, os sábios teus conselhos
  244. Preceitos são de pai, que eu n’alma guardo.
  245. Mas demora-te ainda, a fim que um banho
  246. O coração te alegre, e prenda exímia
  247. Aceites hospital, que tu conserves,
  248. Doce memória da amizade nossa”.
  249. “Não me estorves, replica, ansioso parto.
  250. A tua oferta para a volta aceito;
  251. A Tafo hei de levá-la, e dignamente
  252. Retribuir”. Eis voa a gázea deusa,
  253. Águia Anopéia, infunde-lhe coragem,
  254. Na alma avivando o pai. Crendo-a celeste,
  255. O deiforme assombrado aos mais se agrega.
  256. Mudos a Fêmio atendem, que o de Tróia
  257. Triste regresso dos Aqueus modula,
  258. *Pom Minerva disposto. A nobre Icária
  259. Penélope a divina cantilena
  260. Do alto percebe, e desce pela escada.
  261. Não só, com duas servas; ante os procos,
  262. À porta, o véu de pejo ao rosto abaixa,
  263. Entre as servas lágrima, ao vale fala:
  264. Fêmio, outros carmes e trabalhos sabes
  265. De homens e deuses, da poesia assunto;
  266. Escolhe um que a beber te escutem ledos:
  267. Suspende esse cantar, que amargo sempre
  268. O coração me rala e mo entristece,
  269. À lembrança do herói, cuja alta glória
  270. Por toda Hélade e Argólida ressoa”.
  271. “Reprovas, minha mãe, contesta o filho,
  272. Que nos deleite a impulsos do seu gênio?
  273. Os poetas não culpes, culpa a Jove
  274. Que a prazer os inspira e o estro acende.
  275. Não peca em celebrar de Aqueus os males,
  276. E se é nova a canção, mais prende os homens:
  277. Reforça o ânimo teu para sustê-la.
  278. Se luz não teve para a volta Ulisses,
  279. Em Tróia outros heróis também ficaram.
  280. Mas dentro as servas atarefa, intende
  281. Na roca e no tear: varões discorram,
  282. E eu mormente que sou da casa o dono”.
  283. Recolheu-se com pasmo, na prudência
  284. Do filho meditando, pela escada,
  285. Mais as fâmulas duas, vai carpindo
  286. O amado ausente esposo, até que em sono
  287. Boa Minerva as pálpebras lhe fecha.
  288. De compartir seu leito ávidos eles,
  289. Na escurecida sala tumultuam;
  290. A quem Telêmaco: “O alarido cesse
  291. De Penélope amantes ultrajosos:
  292. Ora à mesa o cantor saboreemos,
  293. Na harmonia parelho às divindades.
  294. Amanhã sem rebouço, em parlamento,
  295. Exporei meu desejo de expulsar-vos:
  296. Mutuando os festins, comei do vosso.
  297. A preferirdes consumir sem termo
  298. Os bens de um só, recorro aos Sempiternos:
  299. Júpiter o castigo vos fulmine,
  300. E nestes paços expireis inultos”.
  301. Aqui, mordendo os beiços, da ousadia
  302. Pasmavam do mancebo; a Antino, garfo
  303. De Eupiteu, rebentou: “Do Olimpo, certo,
  304. A sublime linguagem te ensinaram;
  305. Se és audaz, é que de Ítaca circúnflua
  306. Oh! destinam-te o cetro hereditário”.
  307. Mui ponderoso o príncipe: “O que ajunto
  308. Não te exaspere, Antino: eu de vontade
  309. Granjeara de Júpiter o cetro.
  310. Mau reputas reinar? quem reina goza
  311. Opulenta morada e as mores honras.
  312. Na ilha há jovens e anciãos que aspiram,
  313. Morto Ulisses, ao mando: quero apenas
  314. O rei ser desta casa, e dos meus servos
  315. Pelo braço paterno conquistados”.
  316. E Eurímaco de Pólibo: “Quem seja
  317. De Ítaca rei, no grêmio está dos numes:
  318. Senhor és do palácio, e enquanto a pátria
  319. For habitada, príncipe, não temas
  320. Que da riqueza tua alguém te esbulhe.
  321. Mas conta-nos, amigo, donde veio,
  322. Que herdades o teu hóspede cultiva,
  323. Qual é sua prosápia. Anunciou-te
  324. Perto Ulisses, ou dívida reclama?
  325. Foi-se rapidamente e se encobria;
  326. Porém no aspecto seu nobreza inculca”.
  327. “Eurimaco, responde o cauto moço,
  328. Ah! não verei meu pai, nem creio anúncios,
  329. Nem curo de adivinhos que na régia
  330. Consulta minha mãe. Aquele é Mentes
  331. Hóspede meu paterno, que se jacta
  332. Filho do ilustre Anquíale; é de Tafo,
  333. Governa os Táfios navegantes hábeis”.
  334. Fala assim, mas conhece a divindade.
  335. Na dança e melodia eles se enleiam,
  336. Té que Vésper assoma, e fusca a noite
  337. Vão-se à casa lograr do mole sono.
  338. Cuidados cem Telêmaco rolando,
  339. Um pátio busca interno, onde aposento
  340. Soberbo tinha; avante, aceso um facho
  341. Ia a castíssima Euricléia, filha
  342. De Opes de Pisenor, que, enrubescida,
  343. Por vinte bois comprada, igual da esposa
  344. A estimava Laertes, mas honesto
  345. Nem lhe tocou, para forrar ciúmes;
  346. De Telêmaco a serva era dileta,
  347. Porque infante o pensara. Esta é quem abre
  348. O camarim formoso: ele na cama
  349. Despe a macia túnica; dobrada
  350. Em cabide a pendura junto ao leito
  351. A boa velha, que ao sair, a porta
  352. Por um anel de prata a si puxando,
  353. Corre da aldrava o loro. De ovelhuna
  354. Lã coberto, a cismar despende a noite
  355. Na viagem que a deusa lhe ordenara.

Nota a nota · 5 notas

v. 43–88Em ilha está circúnflua e nemorosa, ⋯ Os dados a jogar. Servos e arautos
Circúnfluo quer dizer cercado de ondas, e já é nosso. — Embigo do mar, versão literal do grego, significa o lugar mais elevado do mar: não quis diminuir a força do texto. — Pesoissi, interpretado calculis, indica o xadrez, que, segundo a tradição, pouco havia que Palamedes o tinha inventado, e devera ser o jogo da moda; mas parece que o termo grego indica antes o jogo de dados.
↩ voltar à passagem, v. 43
v. 104–114As de Ulisses valente em pé dormiam.
A expressão em pé dormiam, aplicada às lanças, é de Pindemonte, e parece-me ter lido em Francisco Manuel cousa parecida. — Das palavras a que faço corresponder presentes iguarias, vê-se que a serva pôs à mesa de Minerva alguns dos pratos que estavam na dos príncipes, e ao depois veio o cozinheiro trinchante com outros quentes: os primeiros deviam ser daqueles que, ainda entre os modernos, se costumam guardar, v. g. fiambres, doces, etc. Assim opinam comentadores, mas em várias traduções omite-se esta circunstância, que aliás mostra um uso da antiguidade.
↩ voltar à passagem, v. 104
v. 221E um dote para a filha haja condigno.
Não é claro se o dote seria dado pelo pai ou pelo noivo preferido: há diferentes opiniões, e eu sou mais da segunda.
↩ voltar ao verso 221
v. 274Que a prazer os inspira e o estro acende.
Diz M. Giguet: “Les poètes ne sont pas coupables; mais Jupiter, qui dispose à son gré du sort des humains.” Penso que o sentido é que Penélope não culpe a Fêmio o cantar aqueles versos, porque Júpiter é que inspira os poetas a seu prazer.
↩ voltar ao verso 274
v. 302–311Pasmavam do mancebo; a Antino, garfo
Digo Antino e não Antinôo, assim como Camões dizia Alcino e não Alcinôo. — Do verso 308-311, opina-se que o reinar não é um mal; o meu bom Ferreira, numa cena belíssima da Castro, é de voto contrário: a experiência contudo favorece o do poeta grego. Se fosse mau o reinar, não se teriam cometido tantos crimes para se obter um cetro. Ao momento de escrever isto, os próprios gregos lutam atrapalhados com a candidatura de muitos que aspiram a carregar sobre eles o mesmo cetro que o trágico lusitano qualifica de pesado para os que o trazem; e os três animais ferozes da Europa estão vibrando o olhar sangüíneo, uns contra os outros, por causa da presa.
↩ voltar à passagem, v. 302
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