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OdisseiaLivro XI
LivroXI

Deitado ao mar divino o fresco lenho

506 versos · 5 notas do tradutor


  1. Deitado ao mar divino o fresco lenho,
  2. Dentro as hóstias, o mastro e o pano armados,
  3. Em tristíssimas lágrimas partimos.
  4. Bom sócio, enfuna e sopra o vento em popa,
  5. Que invoca a deusa de anelado crino.
  6. Tudo a ponto, abancamo-nos entregues
  7. Às auras e ao piloto; sempre à vela,
  8. Sobre a tarde, os caminhos se obumbravam,
  9. E aos fins chegamos do profundo Oceano.
  10. Lá dos Cimérios de caligem feia
  11. Cidade jaz, do Sol ao olho oculta,
  12. Quer ao pólo estelífero se eleve,
  13. Quer descambe na terra: intensa noite
  14. Aos mesquinhos mortais perpétua reina.
  15. Da nau varada os animais tirando,
  16. O Oceano abeiramos até onde
  17. Nos indicara Circe. Perimedes,
  18. Mais Euríloco, as vítimas sustinha;
  19. De espada a cova cubital escavo;
  20. De mulso e leite libações vazamos
  21. Às mãos ambas, depois de mero vinho,
  22. Terceiras de água, e branco farro mesclo.
  23. Imploro aos oucos manes e prometo,
  24. Em Ítaca imolada a melhor toura,
  25. De dons a pira encher, e ao só Tirésias
  26. Preto carneiro consagrar sem mancha,
  27. Flor dos nossos rebanhos. Evocados
  28. Os defuntos, as vítimas degolo,
  29. Flui na cova o cruor: do Érebo as almas
  30. Congregavam-se em turmas, noivas, moços,
  31. Melancólicos velhos, virgenzinhas
  32. Do luto prematuro angustiadas,
  33. Muitos guerreiros em sangrentas armas
  34. De êneas lanças passados; ante a cova,
  35. Num confuso rumor, se atropelavam.
  36. Pálido e em susto, exorto a que esfoladas
  37. Queimem-se as reses pelo bronze troncas;
  38. Voto a Plutão pujante e à seva esposa.
  39. De espada arredo os mortos, que não bebam
  40. Sem que eu tenha o adivinho interrogado.
  41. Veio primeiro de Elpenor a sombra.
  42. Que nos paços de Circe, pela urgência,
  43. Não chorado e insepulto abandonamos.
  44. Lagrimo, ao vê-lo, comovido clamo:
  45. “Como, Elpenor, mais presto ao reino escuro,
  46. Que eu no alado navio, a pé chegaste?”
  47. Ele em suspiros: “Sábio e grã Laércio,
  48. Um nocivo demônio embebedou-me:
  49. Do terraço de Circe, entontecido,
  50. Pela escada não dei, caí do teto;
  51. Fraturou-se-me o colo, eis-me no inferno.
  52. Sei que do Orco irás inda à ilha Eéia:
  53. Por teus caros ausentes, pela esposa,
  54. Pelo pai que de ti cuidou na infância,
  55. Por Telêmaco exoro, único filho
  56. Que tens no doce lar, de mim te lembres:
  57. Teme os numes, enterra-me e pranteia;
  58. Comigo, tais quais são, me queima as armas,
  59. N’alva praia o sepulcro, por memória
  60. De um miserável, planta em cima o remo
  61. Que entre os meus camaradas me servia.”
  62. “Tudo, infeliz, bradei, será cumprido.”
  63. E alternamos quietos mil tristezas,
  64. De espada eu sobre a cova, e o simulacro
  65. A derramar queixumes. Ao da madre
  66. Minha, filha de Antolico, Anticléia,
  67. Que ao ir-me a Tróia a luz inda gozava,
  68. Vedo, a gemer com dor, que loque o sangue
  69. Primeiro que Tirésias. De áureo cetro,
  70. A alma aparece do Tebano cego,
  71. Reconheceu-me: “Ao claro Sol fugindo,
  72. Ai! vens a estância visitar funesta?
  73. Pois da cova te arreda e o gume esconde,
  74. Para que eu beba o sangue e profetize.”
  75. Dês que embainho a espada claviargêntea,
  76. Bebe o vate infalível e começa:
  77. “O mel da volta, nobre Ulisses, buscas?
  78. Netuno irado, a quem cegaste o filho
  79. To embarga. A seu pesar, tens de alcançá-lo,
  80. A seres comedido e os companheiros,
  81. Do atro pego arribados à Trinácria,
  82. Onde achareis pastando bois e ovelhas
  83. Do Sol, que tudo vê, que exouve tudo:
  84. Ileso o gado, a custo ireis à pátria;
  85. Ofendido, ao navio agouro a perda,
  86. E a te salvares, tornarás tardeiro,
  87. Só dos consócios teus, em vaso estranho.
  88. Depararás no interno uns prepotentes,
  89. Que estragam-te a fazenda, e requestando
  90. A diva esposa tua, a presenteiam;
  91. Mas, por tamanha audácia, a bronze agudo
  92. Às claras ou por dolo hás de puni-los.
  93. Depois toma ágil remo, a povos anda
  94. Que o mar ignoram, nem com sal temperam,
  95. Que amuradas puníceas não conhecem,
  96. Nem remos, asas de baixéis velozes.
  97. Guarda o sinal: assim que um viandante
  98. Pá creia o remo ser que ao ombro tenhas,
  99. Finca-o no chão; carneiro e touro imoles,
  100. Varrão que inça a pocilga, ao rei Netuno;
  101. Em Ítaca, aos celícolas por ordem
  102. Hecatombes completas sacrifiques
  103. Ali do mar vir-te-á mais lenta a morte,
  104. Feliz velho, entre gentes venturosas.
  105. Preenchidos serão meus vaticinios.”
  106. “Tirésias, prossegui, tal é meu fado.
  107. Lá, do sangue remota, olhar seu filho
  108. Nem ousa tácita a materna imagem:
  109. Como há de perceber-me, ó rei, me ensina.”
  110. E ele: “É simples: sincero, a quem permitas
  111. Provar do sangue, falará; contidos,
  112. Os mais recuarão”. Nisto, o profeta
  113. Pela estância Plutônia esvaeceu-se.
  114. Aguardei minha mãe, que o negro sangue
  115. Beber veio, e bradou-me lamentosa:
  116. “Que! filho meu, chegaste à escura treva!
  117. É difícil aos vivos, entre enormes
  118. E válidas correntes; nau compacta
  119. Há mister o Oceano invadeável.
  120. De Ílio, há muito errabundo, os sócios trazes?
  121. Ítaca inda não viste, a esposa tua?”
  122. “Ah! minha mãe, respondo, urgiu-me a sorte
  123. A vir ao Orco interrogar Tirésias.
  124. Não fui à nossa terra, ou mesmo à Grécia;
  125. Desde essa expedição, vagueio aflito.
  126. Conta-me, adormeceste em sono eterno
  127. Por doença aturada, ou pelas doces
  128. Farpas da sagitífera Diana?
  129. Conta-me de meu pai; se o caro herdeiro
  130. Dos meus haveres goza, ou tem-nos outrem,
  131. E cuidam que não volto. A esposa minha
  132. Mora com nosso filho, os bens zelando,
  133. Ou já foi por um grande conduzida?”
  134. E a veneranda mãe: “Constante em casa,
  135. Dia e noite suspira atribulada.
  136. Ninguém dos teus domínios apossou-se;
  137. Lavra-os Telêmaco, e a festins o atraem
  138. Próprios de quem justiça aos povos rende.
  139. Só teu pai, da cidade sempre fora,
  140. Sem macios colchões, tapetes, mantas,
  141. Como os escravos, deita-se de inverno
  142. Ao pé da cinza, veste humildes roupas;
  143. De outono e de verão, na fértil vinha,
  144. Em cama dorme de caídas folhas;
  145. Por ti chora, e é dos anos molestado,
  146. Em contínua tristeza. Tal finei-me,
  147. Não da frecheira deusa a tiros brandos,
  148. Não de mal que definha e roi a vida,
  149. Mas de dor, meu bom filho; a tua ausência
  150. E as lembranças de ti me sepultaram.”
  151. Três vezes ao materno simulacro
  152. Fui me abraçar, três vezes dissipou-se
  153. Igual ao vento leve ao sono alado.
  154. Mágoa pungiu-me acerba: “A meus desejos
  155. Te esquivas, minha mãe? ao colo os braços,
  156. Ambos nos deleitássemos de pranto
  157. Pela casa Plutônia! És vácuo espectro,
  158. Pela augusta Prosérpina enviado
  159. Para agravar meus ais? — “Não, contestou-me,
  160. Filho amado, oh! misérrimo dos homens,
  161. Não te engana a de Júpiter progênie;
  162. É nossa condição depois da morte:
  163. Os nervos carnes e ossos não mais ligam,
  164. A fogueira os consome irresistível;
  165. Tanto que a vida os órgãos desampara,
  166. A alma como visão remonta e voa.
  167. Quanto antes volve à luz, e tudo aprendas
  168. Para à casta Penélope o narrares.”
  169. Durante a nossa prática, incitadas
  170. Pela ínclita Prosérpina, se apinham
  171. De heróis muitas ou filhas ou mulheres:
  172. A fim de uma por uma interrogá-las,
  173. Sacar prefiro o gume dante o fêmur,
  174. Para juntas o sangue não beberem;
  175. Todas à espera, a cada qual pergunto,
  176. E ia-me de seus casos informando.
  177. Tiro primeira vi, que se aclamava
  178. Do temerário Salmoneu vergôntea,
  179. E de Creteu Eólides consorte.
  180. Amorosa do fresco Enipeu divo,
  181. Da pulcra veia à borda se entretinha:
  182. Disfarçado no rio verticoso,
  183. À foz se encosta o Enosigeu, cambiante
  184. Curvo aqueu monte empina, que em seu grêmio
  185. Sorve a mortal e o nume; o cinto à virgem
  186. Ele desata, em êxtase embebida.
  187. Cumulado o prazer, da mão lhe trava:
  188. “Alegra-te, mulher, no giro do ano
  189. Lindos gêmeos terás, que terna cries;
  190. Ósculo de imortais sempre é fecundo.
  191. Anda, cala contigo, eu sou Netuno.”
  192. E se afundou no flutuante pego.
  193. Tiro houve a Pélias e Neleu, de Jove
  194. Régios ministros, na arenosa pilos
  195. Neleu, Pélias na fértil em manadas
  196. Ampla Iaolcos. A Creteu marido
  197. Pariu também a guapa soberana
  198. O éqüite Amitáon e Éson e Feres.
  199. Antíope de Asopo eu vi: nos braços
  200. Concebeu do Satúrnio Anfion e Zeto,
  201. Que alcançaram Tebas a de sete portas
  202. E a muniram de torres, pois sem elas,
  203. Bem que heróis, habitá-la não podiam.
  204. Alcmena Anfitriônia eu vi, que, ilusa
  205. Unindo-se ao Tonante, Hércules teve
  206. De ânimo de leão; depois, Megara,
  207. Do semideus mulher, de Créon prole.
  208. Epicasta eu vi bela, em cujo toro,
  209. Fatal engano! entrou seu filho Édipo,
  210. Ignaro parricida. O fato horrível
  211. Tendo o Céu revelado, ele, por dura
  212. Sentença divinal curtindo penas,
  213. Os Cadmeus regeu na amena Tebas;
  214. Ela em agro pesar, suspenso um laço
  215. De Celsa trave, do Orco às portas baixa,
  216. Ao cúmplice legando quantas fúrias
  217. Sabe evocar do inferno a dor materna.
  218. A de Anfíon Iásides mais jovem,
  219. Clóris vi, que Neleu com pingue dote
  220. Esposou por formosa, herói que em Pilos
  221. E na Miniéia Orcômeno imperava;
  222. Do qual teve os gentis Nestor e Crômio,
  223. Periclímeno ilustre, e aquela Pero
  224. De todos maravilha ambicionada.
  225. Por Neleu prometida a quem furtasse
  226. De Íficlo as negras vacas largifrontes,
  227. Só tentou vate exímio essa árdua empresa;
  228. Mas, por destino austero, o agrilhoaram
  229. Em Fílace os boeiros. Já corridos
  230. Meses e dias e estações de um ano,
  231. Tendo agouros solvido ao rei potente,
  232. Libertou-se, de Jove por vontade.
  233. A Leda eu vi, que a Tíndaro excelentes
  234. Filhos pariu, Castor na picaria,
  235. No pugilato Pólux: vivos ambos.
  236. No térreo bojo, alternam vida e morte;
  237. Por turno o Padre sumo os diviniza.
  238. Vi de Aloeu a cônjuge Ifimedia,
  239. Fera de concebido haver dous filhos
  240. De Netuno, Efialtes e Otogemeos,
  241. Da alma terra pulquérrimos gigantes,
  242. Após Órion, se bem de alento breve:
  243. Aos nove anos, já tinham de cintura
  244. Cúbitos nove, com tresdôbro de alto.
  245. Movendo ao mesmo Céu guerra estrondosa,
  246. Para a escalada, sobre o Olimpo o Ossa
  247. Tentaram pôr e sobre o Ossa o Pélion:
  248. Talvez na puberdade o acabariam,
  249. Se o de Latona e Jove os não matasse
  250. Antes que o buço as faces lhes pungisse:
  251. Ou flórea barba sombreasse os mentos.
  252. Prócris e Fedra vi, de Mimos sábio
  253. Ariadna filha, que Teseu de Creta
  254. Para Atenas levava culta e fértil;
  255. Mas de caminho lha embargou Diana,
  256. De Baco a instâncias, na circúnflua Dia
  257. Mera e Climene, Erifile odiosa,
  258. Que traiu seu marido à força de ouro.
  259. Mas, se nomeio quantas vi mulheres
  260. Ou gênitas de heróis, ir-se-ia a noite,
  261. Que, entre os sócios a bordo ou neste paço,
  262. Já me empenha balsâmica ao repouso.
  263. A volta minha incumbe a vós e aos deuses.” —
  264. Na eloqüência enlevados os convivas,
  265. Silêncio guardam pela sala umbrosa.
  266. A alva Areta o quebranta: “Em forma e talhe
  267. Que vos parece tal varão, Feaces,
  268. E em mente sã? Bem que hóspede meu seja,
  269. Da honra participais: daqui não parta,
  270. Sem dons lhe prodigardes na indigência,
  271. Pois tendes muito por mercê divina.”
  272. Equeneu ponderou, maior na idade:
  273. “Obedecei-lhe, amigos, não sem tento
  274. Exprimiu-se a rainha; o exemplo e as ordens
  275. Manem de Alcino.” E Alcino: “Enquanto reja
  276. A marítima gente, igual aviso
  277. O meu será. Comprime a impaciência,
  278. Té que, hóspede, amanheça e os dons colhamos
  279. Da tua volta os nossos curam todos,
  280. E eu mais, cujo poder no povo estriba.”
  281. Logo o astuto: “Em preparos da viagem
  282. Com magníficos dons, ó rei possante,
  283. Se um ano me entretens, um ano fico:
  284. De mãos cheias à pátria ir me aproveita,
  285. Para ser venerado e mais querido.”
  286. O rei continuou: “Prudente Ulisses,
  287. Quem atentar em ti, não pode crer-te
  288. Impostor, quais a terra esparsos nutre
  289. A decantar mentiras sem contraste:
  290. Sisudo e simples, como um vate narras
  291. A história dos Aqueus e os lances próprios.
  292. Viste algum bravo sócio em Tróia extinto?
  293. Cedo é para dormir, a noite é longa:
  294. Se a tua dor consente o prosseguires,
  295. A alvorada me encontre a ouvir teus casos.”
  296. Ulisses prosseguiu: “Preclaro amigo,
  297. Horas há de falar e horas de sono;
  298. Mas, se o levas em gosto, não recuso
  299. Dos meus contar-te os lutos e infortúnios,
  300. E dos que, livres da cruenta guerra,
  301. Na pátria sucumbiram pela infâmia
  302. De uma falsa mulher. — Disperso tendo
  303. Prosérpina os femíneos simulacros,
  304. O de Agamemnon surge, e os dos que Egisto
  305. Com ele assassinou. Bebido o sangue,
  306. Braços me estende, em lágrimas a pares;
  307. O alento lhe falece, que era dantes
  308. Em seus membros flexíveis, e eu carpindo
  309. Lhe brado condoído: “Ó glorioso
  310. Rei dos reis, como houveste o fatal golpe?
  311. Domou-te o azul tirano em tempestade?
  312. Ou mãos hostis em terra, ao dcpredares
  313. Armentio e rebanho? ou defendo
  314. O pátrio muro e a honra das famílias?”
  315. “Divo e sábio Laércio, respondeu-me,
  316. Não me domou Netuno em tempestade,
  317. Nem mãos hostis em terra: Egisto à casa,
  318. Com minha atroz consorte conluiado,
  319. Atraiu-me, e no meio de um banquete,
  320. Como a rês no presepe, derribou-me;
  321. E estes sócios comigo estrangularam,
  322. Quais porcos de um ricaço destinados
  323. A função por escote ou bródio ou núpcias.
  324. Estiveste em conflitos e carnagens,
  325. Mas por tão feio horror nunca choraste:
  326. Cratera e mesas e comer e sangue
  327. Mistos rolam; no chão pungentes gritos
  328. Soam-me de Cassandra Priaméia,
  329. Que ante mim trucidava Clitemnestra;
  330. Soergo-me, e inda busco moribundo
  331. Pegar do alfange; aparta-se a impudente,
  332. Nem quis, no instante que eu baixava a Dite
  333. Cerrar-me os olhos e compor-me os lábios.
  334. Nada há mais sevo que a mulher indigna
  335. Capaz de conceber tamanhos crimes.
  336. A que esposei donzela assim tratou-me:
  337. Crua morte me urdiu, quando eu pensava
  338. Prazer vir dar a fâmulos e a filhos.
  339. Torpemente manchou-se, e tanta infâmia
  340. Tem as mais virtuosas deslustrado.”
  341. “Hui! de Atreu contra a raça, exclamo, é fado
  342. Que a Jove irritem feminis conselhos:
  343. De tantos funerais foi causa Helena;
  344. Traições tramou-te ausente Clitemnestra.”
  345. E ele: “Austero à mulher nunca fraquejes;
  346. Reveles o preciso, o mais lhe encubras.
  347. Não virá de Penélope desastre,
  348. Sábia filha de Icário intemerata;
  349. Inda noiva a deixamos, ao partirmos,
  350. Com seu filho de mama, hoje homem feito;
  351. Ditoso hás de abraçá-lo, há de ele ver-te:
  352. No meu vedou-me saciar os olhos
  353. Clitemnestra cruel. Mas, n’alma o graves,
  354. Não fiar de mulheres; cauto e oculto
  355. Aborda à pátria, conta-me, entretanto,
  356. Se no seio de Orcômeno ou de Pilos,
  357. Ou junto a Menelau na vasta Esparta,
  358. De meu filho soubeste; pois da terra
  359. A Dite inda não veio o divo Orestes.”
  360. “Para que hei de enganar-te? respondi-lhe
  361. Se é vivo ignoro.” E enquanto lagrimamos,
  362. Aparecem-me Aquiles e Pátroclo,
  363. Mais Antíloco e Ajax, que ao só Pelides
  364. Entre os Gregos cedia em gentileza.
  365. O Eácida ligeiro, ao conhecer-me,
  366. Gritou: “Sábio Laércio generoso,
  367. Que te falta, infeliz, para empreenderes?
  368. Vires ao reino escuro, só de aéreos
  369. Incorpóreos fantasmas habitado!”
  370. “Valente dos valentes, vim, lhe torno,
  371. Perguntar a Tirésias como à pátria
  372. Fragosa aportarei. Mesquinho e errante,
  373. Nela não estive, nem sequer na Acaia.
  374. Tu, feliz no passado e no futuro,
  375. Eras em vida qual um deus aceito,
  376. E ora as almas dominas; do trespasso
  377. Não deves pois te lamentar, Aquiles.”
  378. “Ínclito Ulisses, retorquiu, da morte
  379. Não me consoles; pago anteporia
  380. Servir escassa rústica choupana
  381. A defuntos reger. Dize, meu filho
  382. Na frente sempre ou no tropel combate?
  383. Que é de Peleu brioso? inda o veneram,
  384. Ou na Hélade e Pítia hoje o desdenham,
  385. Por que a velhice pés e mãos lhe tolhe?
  386. Ao sol não mais respiro, como em Tróia,
  387. Batalhões derrotando em pró dos Gregos:
  388. Se eu tocasse um momento o pátrio alvergue,
  389. A intrepidez e audácia embotaria
  390. Dos que o privem das honras e homenagens.”
  391. “Nada, lhe digo, de Peleu me consta;
  392. Mas de Neotólemo aqui te informo:
  393. De Ciro transportei-o em nau bojuda
  394. Aos grevados Aqueus. Sempre em consultas
  395. Primeiro, sem desvio discursando,
  396. A mim próprio e a Nestor se equiparava;
  397. Sempre avante, na turba não se tinha,
  398. Na refega a ninguém rendia a palma,
  399. Sem conto propinando o acerbo trago.
  400. Uma façanha apontarei somente:
  401. A Euripilo Teléfides com muitos
  402. A bronze derribou, dos Ceteus cabo,
  403. Que, por dons feminis, passara a Tróia,
  404. E após Mênon divino era o mais belo.
  405. O cavalo de Epeu quando montamos,
  406. Abrir, fechar as cálidas insídias,
  407. Ficou tudo a meu cargo: os reis e os chefes
  408. Estremecendo o pranto sufocavam;
  409. Pálido nunca o vi nas gentis faces,
  410. Nunca uma lágrima enxugando. Oh! como
  411. Do cavalo sair me suplicava!
  412. Como apunhava a espada e a lança aênea,
  413. Aos contrários minaz! Depois de rasas
  414. As muralhas Priâmeas, embarcou-se
  415. Com rica presa, ileso de êneos golpes
  416. Ou de longe ou de perto, a comum fúria
  417. De Marte sem provar na atroz contenda.”
  418. A alma do Velocípede, orgulhosa
  419. Das notícias do filho, corta alegre
  420. Em marcha triunfante o verde prado.
  421. Outras males seus também me expunham;
  422. Mas a de Ajax, de parte, irosa estava
  423. Pelas armas de Aquiles, que a mãe Tétis
  424. Ante as naus presentara, e por sentença
  425. Me adjudicaram Teucros e Minerva.
  426. Ah! nunca me coubera essa vitória,
  427. Que o herói tumulou dos Gregos todos
  428. O mais formoso e bravo, exceto Aquiles!
  429. Meigo lhe imploro: “Exímio Telamônio,
  430. Nem morto esqueces a fatal porfia,
  431. Celeste punição da gente Argiva!
  432. Da pátria ó fortaleza, o luto nosso
  433. Não foi maior quando morreu Pelides.
  434. A culpa é só de Júpiter, que os Dânaos
  435. Abomina e te impôs tão dura sorte
  436. Chega-te, ouve-me, ó rei, teu ódio aplaca,
  437. No ânimo generoso me perdoa.”
  438. Não deu palavra, e tácito ia andando
  439. No Érebo a esconder-se. Inda que torvo,
  440. Me falara por fim; mas outras sombras
  441. Examinar o peito me pedia.
  442. Minos, gérmen Dial, tendo áureo cetro,
  443. Sentado o avisto a conhecer dos mortos,
  444. Que, esparsos no Orco, se erguem por seu turno,
  445. Dizem do seu direito. Órion avisto,
  446. Por várzeas de gamões a acossar feras
  447. Que vivente abatera em montes ermos,
  448. De érea clava na mão. — Eis Tício, aluno
  449. Da gloriosa Terra, que estendia-se
  450. Por jeiras nove, e abutres, sem podê-los
  451. Despregar, às entranhas aferrados,
  452. Lhe estão roendo o fígado, em castigo
  453. Da tentada violência à do Tonante
  454. Casta esposa Latona, indo ela a Pito
  455. Pelas do Panopeu ridentes margens.
  456. Vi Tântalo também, num lago imenso
  457. Que o mento lhe banhava, ardendo em sede.
  458. Pois, a apagá-la se perdia o velho,
  459. A água absorta escoando-se, um demônio
  460. Aos pés seco atro lodo lhe mostrava.
  461. Sobre a cabeça corpulentos galhos
  462. Suspendiam-se frutas sazonadas,
  463. Figos doces, romãs, pêras e olivas;
  464. Mas, se o velho faminto ia colhê-las,
  465. O vento as levantava às densas nuvens.
  466. Vi Sísifo, anelante e afadigado,
  467. Em pés e mãos firmar-se, pedra ingente
  468. Para um monte empurrando, e lá do cume
  469. Galgado por Crateis, rolar de novo
  470. O pertinaz penedo; ei-lo persiste,
  471. Suor escorre e a testa se empoeira.
  472. Hércules se me antolha, em simulacro,
  473. Pois no céu liba o néctar, caro esposo
  474. De Hebe de lindos pés, de Jove e Juno
  475. De áureas sandálias filha: em guinchos de aves,
  476. Cercam-no, espalham-se, a fugir os mortos;
  477. Cor da noite, ele ajusta a frecha ao nervo,
  478. Na ação de disparar, tétrico olhando.
  479. Ao peito áureo talim cinge estupendo,
  480. Onde leões, javardos e ursos, tinha
  481. Com primor esculpidos, e recontros
  482. E batalhas e estragos e homicídios:
  483. Mestre algum peça igual fabricou nunca,
  484. Nem há de fabricar. O herói sem custo
  485. Reconhece-me e fala comovido:
  486. “Nobre e sábio Laércio, ai! tens a sorte
  487. Misérrima que tive, quando aos raios
  488. Eu respirei do Sol. Nasci de Jove,
  489. Mas fui de angústias mil atormentado,
  490. Sujeito a homem de valor somenos,
  491. Que me impunha asperíssimos trabalhos!
  492. Cargo o pior, mandou-me o cão trifauce
  493. Cá prender; eu do inferno o tirei fora,
  494. Por Mercúrio ajudado e por Minerva.”
  495. Disse e foi-se ao profundo; eu quedo espero
  496. Por mais outros varões dos priscos tempos:
  497. Gostoso a muitos vira, e contemplara
  498. Pirítoo e Teseu, divina prole;
  499. Mas com harto ruído infinda chusma
  500. Ávida concorrendo, enfim de medo
  501. Que do imo a soberana me enviasse
  502. A Gorgônia horrendíssima cabeça.
  503. Rápido embarco a gente e safo os cabos;
  504. Nas tostes a maruja, a correnteza
  505. Pelo Oceano rio nos levava,
  506. Ao som da voga e favorável brisa.

Nota a nota · 5 notas

v. 10–16Lá dos Cimérios de caligem feia
Questionam os eruditos se os Cimérios ficavam na Quersoneso Táurica, ou junto a Nápoles, ou fora das colunas de Hércules. Fundam-se os da última opinião na palavra Oceano de que usa o poeta; mas, em grego e latim, Oceano tomava-se pelo mar todo e qualquer, e mesmo por um golfo, e só este argumento parece que não conclui. Rochefort trabalha por mostrar que os Cimérios de Homero são na Quersoneso Táurica, e cita os principais que até seu tempo trataram da questão. Sou mais da segunda opinião, confessando contudo que é matéria duvidosa, e o sou: 1.°) porque sempre foi este o parecer dos antigos de maior nota; 2.°) porque o adotou Virgílio, autoridade para mim de toda a exceção; e enfim, pelos argumentos que vêm na Lettre à M. Victor Langlois par Ch. Em. Ruelle, publicada em Paris em 1859, à qual pode recorrer o leitor curioso, pois citá-los todos faria não pequeno volume.
↩ voltar à passagem, v. 10
v. 298Mas, se o levas em gosto, não recuso
Levar em gosto, boa e usada locução, vem em Morais, mas falta em Constâncio: é de óbvio sentido, e da conversação ordinária.
↩ voltar ao verso 298
v. 402–403A bronze derribou, dos Ceteus cabo,
Não é líquido quem fossem os Ceteus comandados por Eurípilo: pensam uns que eram simples mercenários; outros certos povos da Míria; outros, da Eléia, por causa do rio Ceteu, que é dessa parte da Grécia; outros enfim, de Pérgamo. Há também dúvida quanto às palavras gunaion eineka dõrõn: uns dizem que Príamo fez presentes à mulher e à mãe de Eurípilo a fim que este o ajudasse; outros, que lhe prometeu uma das filhas para atraí-lo. Pindemonte é do segundo parecer; eu sou do primeiro, porque o plural gunaion indica antes que Homero se refere às dádivas, que a só filha de Príamo. M. Giguet verteu à letra, à cause des presents des femmes; o que não levo a mal, posto que assim torne-se escura a passagem, pois a escuridade vem do próprio autor e não do seu tradutor.
↩ voltar à passagem, v. 402
v. 438–441Não deu palavra, e tácito ia andando
Apesar de Mme. Dacier e dos mais tradutores, este encontro não é tão belo como o de Enéias com Dido. “A inflexibilidade de Ajax, diz Rochefort, é verdadeiramente sublime; a cena patética dos dous heróis perde muito com dous atores como Enéias e a sua amante, sobretudo ao voar Dido aos braços de um marido de quem se esquecera”. Deslembrou-se o crítico de que os fundadores de Roma e de Cartago, na hipótese de Virgílio, eram também dous heróis e dous heróis muito úteis; e a circunstância de amantes acrescenta o interesse dramático. Rochefort devera ser mais ciumento que um Turco, pois não admitia que uma viúva, depois de vingar o seu primeiro esposo, passados tantos anos, quisesse casar de novo para ter um defensor e aumentar a sua colônia. Siqueu não tinha sido atraiçoado, e justo era que perdoasse um erro onde a sua honra não fora comprometida; o perdão de Siqueu e o amor de Dido para com o marido que a não tinha manchado (assim opino eu em nota à Eneida) causam grande comoção. O meu bom camarada Garret, no seu “Fr. Luís de Sousa”, um dos primores do nosso teatro, melhor conheceu, conheceu como Virgílio, a delicadeza de um grande coração, quando fez que o primeiro marido de D. Madalena, sabendo-a casada com um cavaleiro generoso, em vez de mostrar ciúme estúpido se compadecesse dos novos consortes e desaparecesse. Já toquei, em nota ao sexto livro da Eneida, que o silêncio de Dido sobe ao cume do sublime pela sua irrevogabilidade, exprimida com a comparação Quam si dura silex aut siet Marpesia cautes; e a de Ajax diminui de força pela afirmação de que ele teria falado a Ulisses, a ter este insistido. — Para mim o inferno do poeta Latino é grandemente superior ao do poeta Grego; mas, quanto ao mérito dos autores, é cousa diferente: Homero, como criador, está sentado na principal cadeira, e com razão tem sido representado na figura de um rio caudaloso em cuja urna cada qual dos outros vem encher a sua.
↩ voltar à passagem, v. 438
v. 504Nas tostes a maruja, a correnteza
As tostes, em latim transtra, que Larramendi cuida vir do vasconso tostae, são bancos de navios de remos, e não só bancos de forçados, segundo o querem dar a entender os nossos dicionaristas.
↩ voltar ao verso 504
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