Deitado ao mar divino o fresco lenho
506 versos · 5 notas do tradutor
- Deitado ao mar divino o fresco lenho,
- Dentro as hóstias, o mastro e o pano armados,
- Em tristíssimas lágrimas partimos.
- Bom sócio, enfuna e sopra o vento em popa,
- Que invoca a deusa de anelado crino.
- Tudo a ponto, abancamo-nos entregues
- Às auras e ao piloto; sempre à vela,
- Sobre a tarde, os caminhos se obumbravam,
- E aos fins chegamos do profundo Oceano.
- Lá dos Cimérios de caligem feia
- Cidade jaz, do Sol ao olho oculta,
- Quer ao pólo estelífero se eleve,
- Quer descambe na terra: intensa noite
- Aos mesquinhos mortais perpétua reina.
- Da nau varada os animais tirando,
- O Oceano abeiramos até onde
- Nos indicara Circe. Perimedes,
- Mais Euríloco, as vítimas sustinha;
- De espada a cova cubital escavo;
- De mulso e leite libações vazamos
- Às mãos ambas, depois de mero vinho,
- Terceiras de água, e branco farro mesclo.
- Imploro aos oucos manes e prometo,
- Em Ítaca imolada a melhor toura,
- De dons a pira encher, e ao só Tirésias
- Preto carneiro consagrar sem mancha,
- Flor dos nossos rebanhos. Evocados
- Os defuntos, as vítimas degolo,
- Flui na cova o cruor: do Érebo as almas
- Congregavam-se em turmas, noivas, moços,
- Melancólicos velhos, virgenzinhas
- Do luto prematuro angustiadas,
- Muitos guerreiros em sangrentas armas
- De êneas lanças passados; ante a cova,
- Num confuso rumor, se atropelavam.
- Pálido e em susto, exorto a que esfoladas
- Queimem-se as reses pelo bronze troncas;
- Voto a Plutão pujante e à seva esposa.
- De espada arredo os mortos, que não bebam
- Sem que eu tenha o adivinho interrogado.
- Veio primeiro de Elpenor a sombra.
- Que nos paços de Circe, pela urgência,
- Não chorado e insepulto abandonamos.
- Lagrimo, ao vê-lo, comovido clamo:
- “Como, Elpenor, mais presto ao reino escuro,
- Que eu no alado navio, a pé chegaste?”
- Ele em suspiros: “Sábio e grã Laércio,
- Um nocivo demônio embebedou-me:
- Do terraço de Circe, entontecido,
- Pela escada não dei, caí do teto;
- Fraturou-se-me o colo, eis-me no inferno.
- Sei que do Orco irás inda à ilha Eéia:
- Por teus caros ausentes, pela esposa,
- Pelo pai que de ti cuidou na infância,
- Por Telêmaco exoro, único filho
- Que tens no doce lar, de mim te lembres:
- Teme os numes, enterra-me e pranteia;
- Comigo, tais quais são, me queima as armas,
- N’alva praia o sepulcro, por memória
- De um miserável, planta em cima o remo
- Que entre os meus camaradas me servia.”
- “Tudo, infeliz, bradei, será cumprido.”
- E alternamos quietos mil tristezas,
- De espada eu sobre a cova, e o simulacro
- A derramar queixumes. Ao da madre
- Minha, filha de Antolico, Anticléia,
- Que ao ir-me a Tróia a luz inda gozava,
- Vedo, a gemer com dor, que loque o sangue
- Primeiro que Tirésias. De áureo cetro,
- A alma aparece do Tebano cego,
- Reconheceu-me: “Ao claro Sol fugindo,
- Ai! vens a estância visitar funesta?
- Pois da cova te arreda e o gume esconde,
- Para que eu beba o sangue e profetize.”
- Dês que embainho a espada claviargêntea,
- Bebe o vate infalível e começa:
- “O mel da volta, nobre Ulisses, buscas?
- Netuno irado, a quem cegaste o filho
- To embarga. A seu pesar, tens de alcançá-lo,
- A seres comedido e os companheiros,
- Do atro pego arribados à Trinácria,
- Onde achareis pastando bois e ovelhas
- Do Sol, que tudo vê, que exouve tudo:
- Ileso o gado, a custo ireis à pátria;
- Ofendido, ao navio agouro a perda,
- E a te salvares, tornarás tardeiro,
- Só dos consócios teus, em vaso estranho.
- Depararás no interno uns prepotentes,
- Que estragam-te a fazenda, e requestando
- A diva esposa tua, a presenteiam;
- Mas, por tamanha audácia, a bronze agudo
- Às claras ou por dolo hás de puni-los.
- Depois toma ágil remo, a povos anda
- Que o mar ignoram, nem com sal temperam,
- Que amuradas puníceas não conhecem,
- Nem remos, asas de baixéis velozes.
- Guarda o sinal: assim que um viandante
- Pá creia o remo ser que ao ombro tenhas,
- Finca-o no chão; carneiro e touro imoles,
- Varrão que inça a pocilga, ao rei Netuno;
- Em Ítaca, aos celícolas por ordem
- Hecatombes completas sacrifiques
- Ali do mar vir-te-á mais lenta a morte,
- Feliz velho, entre gentes venturosas.
- Preenchidos serão meus vaticinios.”
- “Tirésias, prossegui, tal é meu fado.
- Lá, do sangue remota, olhar seu filho
- Nem ousa tácita a materna imagem:
- Como há de perceber-me, ó rei, me ensina.”
- E ele: “É simples: sincero, a quem permitas
- Provar do sangue, falará; contidos,
- Os mais recuarão”. Nisto, o profeta
- Pela estância Plutônia esvaeceu-se.
- Aguardei minha mãe, que o negro sangue
- Beber veio, e bradou-me lamentosa:
- “Que! filho meu, chegaste à escura treva!
- É difícil aos vivos, entre enormes
- E válidas correntes; nau compacta
- Há mister o Oceano invadeável.
- De Ílio, há muito errabundo, os sócios trazes?
- Ítaca inda não viste, a esposa tua?”
- “Ah! minha mãe, respondo, urgiu-me a sorte
- A vir ao Orco interrogar Tirésias.
- Não fui à nossa terra, ou mesmo à Grécia;
- Desde essa expedição, vagueio aflito.
- Conta-me, adormeceste em sono eterno
- Por doença aturada, ou pelas doces
- Farpas da sagitífera Diana?
- Conta-me de meu pai; se o caro herdeiro
- Dos meus haveres goza, ou tem-nos outrem,
- E cuidam que não volto. A esposa minha
- Mora com nosso filho, os bens zelando,
- Ou já foi por um grande conduzida?”
- E a veneranda mãe: “Constante em casa,
- Dia e noite suspira atribulada.
- Ninguém dos teus domínios apossou-se;
- Lavra-os Telêmaco, e a festins o atraem
- Próprios de quem justiça aos povos rende.
- Só teu pai, da cidade sempre fora,
- Sem macios colchões, tapetes, mantas,
- Como os escravos, deita-se de inverno
- Ao pé da cinza, veste humildes roupas;
- De outono e de verão, na fértil vinha,
- Em cama dorme de caídas folhas;
- Por ti chora, e é dos anos molestado,
- Em contínua tristeza. Tal finei-me,
- Não da frecheira deusa a tiros brandos,
- Não de mal que definha e roi a vida,
- Mas de dor, meu bom filho; a tua ausência
- E as lembranças de ti me sepultaram.”
- Três vezes ao materno simulacro
- Fui me abraçar, três vezes dissipou-se
- Igual ao vento leve ao sono alado.
- Mágoa pungiu-me acerba: “A meus desejos
- Te esquivas, minha mãe? ao colo os braços,
- Ambos nos deleitássemos de pranto
- Pela casa Plutônia! És vácuo espectro,
- Pela augusta Prosérpina enviado
- Para agravar meus ais? — “Não, contestou-me,
- Filho amado, oh! misérrimo dos homens,
- Não te engana a de Júpiter progênie;
- É nossa condição depois da morte:
- Os nervos carnes e ossos não mais ligam,
- A fogueira os consome irresistível;
- Tanto que a vida os órgãos desampara,
- A alma como visão remonta e voa.
- Quanto antes volve à luz, e tudo aprendas
- Para à casta Penélope o narrares.”
- Durante a nossa prática, incitadas
- Pela ínclita Prosérpina, se apinham
- De heróis muitas ou filhas ou mulheres:
- A fim de uma por uma interrogá-las,
- Sacar prefiro o gume dante o fêmur,
- Para juntas o sangue não beberem;
- Todas à espera, a cada qual pergunto,
- E ia-me de seus casos informando.
- Tiro primeira vi, que se aclamava
- Do temerário Salmoneu vergôntea,
- E de Creteu Eólides consorte.
- Amorosa do fresco Enipeu divo,
- Da pulcra veia à borda se entretinha:
- Disfarçado no rio verticoso,
- À foz se encosta o Enosigeu, cambiante
- Curvo aqueu monte empina, que em seu grêmio
- Sorve a mortal e o nume; o cinto à virgem
- Ele desata, em êxtase embebida.
- Cumulado o prazer, da mão lhe trava:
- “Alegra-te, mulher, no giro do ano
- Lindos gêmeos terás, que terna cries;
- Ósculo de imortais sempre é fecundo.
- Anda, cala contigo, eu sou Netuno.”
- E se afundou no flutuante pego.
- Tiro houve a Pélias e Neleu, de Jove
- Régios ministros, na arenosa pilos
- Neleu, Pélias na fértil em manadas
- Ampla Iaolcos. A Creteu marido
- Pariu também a guapa soberana
- O éqüite Amitáon e Éson e Feres.
- Antíope de Asopo eu vi: nos braços
- Concebeu do Satúrnio Anfion e Zeto,
- Que alcançaram Tebas a de sete portas
- E a muniram de torres, pois sem elas,
- Bem que heróis, habitá-la não podiam.
- Alcmena Anfitriônia eu vi, que, ilusa
- Unindo-se ao Tonante, Hércules teve
- De ânimo de leão; depois, Megara,
- Do semideus mulher, de Créon prole.
- Epicasta eu vi bela, em cujo toro,
- Fatal engano! entrou seu filho Édipo,
- Ignaro parricida. O fato horrível
- Tendo o Céu revelado, ele, por dura
- Sentença divinal curtindo penas,
- Os Cadmeus regeu na amena Tebas;
- Ela em agro pesar, suspenso um laço
- De Celsa trave, do Orco às portas baixa,
- Ao cúmplice legando quantas fúrias
- Sabe evocar do inferno a dor materna.
- A de Anfíon Iásides mais jovem,
- Clóris vi, que Neleu com pingue dote
- Esposou por formosa, herói que em Pilos
- E na Miniéia Orcômeno imperava;
- Do qual teve os gentis Nestor e Crômio,
- Periclímeno ilustre, e aquela Pero
- De todos maravilha ambicionada.
- Por Neleu prometida a quem furtasse
- De Íficlo as negras vacas largifrontes,
- Só tentou vate exímio essa árdua empresa;
- Mas, por destino austero, o agrilhoaram
- Em Fílace os boeiros. Já corridos
- Meses e dias e estações de um ano,
- Tendo agouros solvido ao rei potente,
- Libertou-se, de Jove por vontade.
- A Leda eu vi, que a Tíndaro excelentes
- Filhos pariu, Castor na picaria,
- No pugilato Pólux: vivos ambos.
- No térreo bojo, alternam vida e morte;
- Por turno o Padre sumo os diviniza.
- Vi de Aloeu a cônjuge Ifimedia,
- Fera de concebido haver dous filhos
- De Netuno, Efialtes e Otogemeos,
- Da alma terra pulquérrimos gigantes,
- Após Órion, se bem de alento breve:
- Aos nove anos, já tinham de cintura
- Cúbitos nove, com tresdôbro de alto.
- Movendo ao mesmo Céu guerra estrondosa,
- Para a escalada, sobre o Olimpo o Ossa
- Tentaram pôr e sobre o Ossa o Pélion:
- Talvez na puberdade o acabariam,
- Se o de Latona e Jove os não matasse
- Antes que o buço as faces lhes pungisse:
- Ou flórea barba sombreasse os mentos.
- Prócris e Fedra vi, de Mimos sábio
- Ariadna filha, que Teseu de Creta
- Para Atenas levava culta e fértil;
- Mas de caminho lha embargou Diana,
- De Baco a instâncias, na circúnflua Dia
- Mera e Climene, Erifile odiosa,
- Que traiu seu marido à força de ouro.
- Mas, se nomeio quantas vi mulheres
- Ou gênitas de heróis, ir-se-ia a noite,
- Que, entre os sócios a bordo ou neste paço,
- Já me empenha balsâmica ao repouso.
- A volta minha incumbe a vós e aos deuses.” —
- Na eloqüência enlevados os convivas,
- Silêncio guardam pela sala umbrosa.
- A alva Areta o quebranta: “Em forma e talhe
- Que vos parece tal varão, Feaces,
- E em mente sã? Bem que hóspede meu seja,
- Da honra participais: daqui não parta,
- Sem dons lhe prodigardes na indigência,
- Pois tendes muito por mercê divina.”
- Equeneu ponderou, maior na idade:
- “Obedecei-lhe, amigos, não sem tento
- Exprimiu-se a rainha; o exemplo e as ordens
- Manem de Alcino.” E Alcino: “Enquanto reja
- A marítima gente, igual aviso
- O meu será. Comprime a impaciência,
- Té que, hóspede, amanheça e os dons colhamos
- Da tua volta os nossos curam todos,
- E eu mais, cujo poder no povo estriba.”
- Logo o astuto: “Em preparos da viagem
- Com magníficos dons, ó rei possante,
- Se um ano me entretens, um ano fico:
- De mãos cheias à pátria ir me aproveita,
- Para ser venerado e mais querido.”
- O rei continuou: “Prudente Ulisses,
- Quem atentar em ti, não pode crer-te
- Impostor, quais a terra esparsos nutre
- A decantar mentiras sem contraste:
- Sisudo e simples, como um vate narras
- A história dos Aqueus e os lances próprios.
- Viste algum bravo sócio em Tróia extinto?
- Cedo é para dormir, a noite é longa:
- Se a tua dor consente o prosseguires,
- A alvorada me encontre a ouvir teus casos.”
- Ulisses prosseguiu: “Preclaro amigo,
- Horas há de falar e horas de sono;
- Mas, se o levas em gosto, não recuso
- Dos meus contar-te os lutos e infortúnios,
- E dos que, livres da cruenta guerra,
- Na pátria sucumbiram pela infâmia
- De uma falsa mulher. — Disperso tendo
- Prosérpina os femíneos simulacros,
- O de Agamemnon surge, e os dos que Egisto
- Com ele assassinou. Bebido o sangue,
- Braços me estende, em lágrimas a pares;
- O alento lhe falece, que era dantes
- Em seus membros flexíveis, e eu carpindo
- Lhe brado condoído: “Ó glorioso
- Rei dos reis, como houveste o fatal golpe?
- Domou-te o azul tirano em tempestade?
- Ou mãos hostis em terra, ao dcpredares
- Armentio e rebanho? ou defendo
- O pátrio muro e a honra das famílias?”
- “Divo e sábio Laércio, respondeu-me,
- Não me domou Netuno em tempestade,
- Nem mãos hostis em terra: Egisto à casa,
- Com minha atroz consorte conluiado,
- Atraiu-me, e no meio de um banquete,
- Como a rês no presepe, derribou-me;
- E estes sócios comigo estrangularam,
- Quais porcos de um ricaço destinados
- A função por escote ou bródio ou núpcias.
- Estiveste em conflitos e carnagens,
- Mas por tão feio horror nunca choraste:
- Cratera e mesas e comer e sangue
- Mistos rolam; no chão pungentes gritos
- Soam-me de Cassandra Priaméia,
- Que ante mim trucidava Clitemnestra;
- Soergo-me, e inda busco moribundo
- Pegar do alfange; aparta-se a impudente,
- Nem quis, no instante que eu baixava a Dite
- Cerrar-me os olhos e compor-me os lábios.
- Nada há mais sevo que a mulher indigna
- Capaz de conceber tamanhos crimes.
- A que esposei donzela assim tratou-me:
- Crua morte me urdiu, quando eu pensava
- Prazer vir dar a fâmulos e a filhos.
- Torpemente manchou-se, e tanta infâmia
- Tem as mais virtuosas deslustrado.”
- “Hui! de Atreu contra a raça, exclamo, é fado
- Que a Jove irritem feminis conselhos:
- De tantos funerais foi causa Helena;
- Traições tramou-te ausente Clitemnestra.”
- E ele: “Austero à mulher nunca fraquejes;
- Reveles o preciso, o mais lhe encubras.
- Não virá de Penélope desastre,
- Sábia filha de Icário intemerata;
- Inda noiva a deixamos, ao partirmos,
- Com seu filho de mama, hoje homem feito;
- Ditoso hás de abraçá-lo, há de ele ver-te:
- No meu vedou-me saciar os olhos
- Clitemnestra cruel. Mas, n’alma o graves,
- Não fiar de mulheres; cauto e oculto
- Aborda à pátria, conta-me, entretanto,
- Se no seio de Orcômeno ou de Pilos,
- Ou junto a Menelau na vasta Esparta,
- De meu filho soubeste; pois da terra
- A Dite inda não veio o divo Orestes.”
- “Para que hei de enganar-te? respondi-lhe
- Se é vivo ignoro.” E enquanto lagrimamos,
- Aparecem-me Aquiles e Pátroclo,
- Mais Antíloco e Ajax, que ao só Pelides
- Entre os Gregos cedia em gentileza.
- O Eácida ligeiro, ao conhecer-me,
- Gritou: “Sábio Laércio generoso,
- Que te falta, infeliz, para empreenderes?
- Vires ao reino escuro, só de aéreos
- Incorpóreos fantasmas habitado!”
- “Valente dos valentes, vim, lhe torno,
- Perguntar a Tirésias como à pátria
- Fragosa aportarei. Mesquinho e errante,
- Nela não estive, nem sequer na Acaia.
- Tu, feliz no passado e no futuro,
- Eras em vida qual um deus aceito,
- E ora as almas dominas; do trespasso
- Não deves pois te lamentar, Aquiles.”
- “Ínclito Ulisses, retorquiu, da morte
- Não me consoles; pago anteporia
- Servir escassa rústica choupana
- A defuntos reger. Dize, meu filho
- Na frente sempre ou no tropel combate?
- Que é de Peleu brioso? inda o veneram,
- Ou na Hélade e Pítia hoje o desdenham,
- Por que a velhice pés e mãos lhe tolhe?
- Ao sol não mais respiro, como em Tróia,
- Batalhões derrotando em pró dos Gregos:
- Se eu tocasse um momento o pátrio alvergue,
- A intrepidez e audácia embotaria
- Dos que o privem das honras e homenagens.”
- “Nada, lhe digo, de Peleu me consta;
- Mas de Neotólemo aqui te informo:
- De Ciro transportei-o em nau bojuda
- Aos grevados Aqueus. Sempre em consultas
- Primeiro, sem desvio discursando,
- A mim próprio e a Nestor se equiparava;
- Sempre avante, na turba não se tinha,
- Na refega a ninguém rendia a palma,
- Sem conto propinando o acerbo trago.
- Uma façanha apontarei somente:
- A Euripilo Teléfides com muitos
- A bronze derribou, dos Ceteus cabo,
- Que, por dons feminis, passara a Tróia,
- E após Mênon divino era o mais belo.
- O cavalo de Epeu quando montamos,
- Abrir, fechar as cálidas insídias,
- Ficou tudo a meu cargo: os reis e os chefes
- Estremecendo o pranto sufocavam;
- Pálido nunca o vi nas gentis faces,
- Nunca uma lágrima enxugando. Oh! como
- Do cavalo sair me suplicava!
- Como apunhava a espada e a lança aênea,
- Aos contrários minaz! Depois de rasas
- As muralhas Priâmeas, embarcou-se
- Com rica presa, ileso de êneos golpes
- Ou de longe ou de perto, a comum fúria
- De Marte sem provar na atroz contenda.”
- A alma do Velocípede, orgulhosa
- Das notícias do filho, corta alegre
- Em marcha triunfante o verde prado.
- Outras males seus também me expunham;
- Mas a de Ajax, de parte, irosa estava
- Pelas armas de Aquiles, que a mãe Tétis
- Ante as naus presentara, e por sentença
- Me adjudicaram Teucros e Minerva.
- Ah! nunca me coubera essa vitória,
- Que o herói tumulou dos Gregos todos
- O mais formoso e bravo, exceto Aquiles!
- Meigo lhe imploro: “Exímio Telamônio,
- Nem morto esqueces a fatal porfia,
- Celeste punição da gente Argiva!
- Da pátria ó fortaleza, o luto nosso
- Não foi maior quando morreu Pelides.
- A culpa é só de Júpiter, que os Dânaos
- Abomina e te impôs tão dura sorte
- Chega-te, ouve-me, ó rei, teu ódio aplaca,
- No ânimo generoso me perdoa.”
- Não deu palavra, e tácito ia andando
- No Érebo a esconder-se. Inda que torvo,
- Me falara por fim; mas outras sombras
- Examinar o peito me pedia.
- Minos, gérmen Dial, tendo áureo cetro,
- Sentado o avisto a conhecer dos mortos,
- Que, esparsos no Orco, se erguem por seu turno,
- Dizem do seu direito. Órion avisto,
- Por várzeas de gamões a acossar feras
- Que vivente abatera em montes ermos,
- De érea clava na mão. — Eis Tício, aluno
- Da gloriosa Terra, que estendia-se
- Por jeiras nove, e abutres, sem podê-los
- Despregar, às entranhas aferrados,
- Lhe estão roendo o fígado, em castigo
- Da tentada violência à do Tonante
- Casta esposa Latona, indo ela a Pito
- Pelas do Panopeu ridentes margens.
- Vi Tântalo também, num lago imenso
- Que o mento lhe banhava, ardendo em sede.
- Pois, a apagá-la se perdia o velho,
- A água absorta escoando-se, um demônio
- Aos pés seco atro lodo lhe mostrava.
- Sobre a cabeça corpulentos galhos
- Suspendiam-se frutas sazonadas,
- Figos doces, romãs, pêras e olivas;
- Mas, se o velho faminto ia colhê-las,
- O vento as levantava às densas nuvens.
- Vi Sísifo, anelante e afadigado,
- Em pés e mãos firmar-se, pedra ingente
- Para um monte empurrando, e lá do cume
- Galgado por Crateis, rolar de novo
- O pertinaz penedo; ei-lo persiste,
- Suor escorre e a testa se empoeira.
- Hércules se me antolha, em simulacro,
- Pois no céu liba o néctar, caro esposo
- De Hebe de lindos pés, de Jove e Juno
- De áureas sandálias filha: em guinchos de aves,
- Cercam-no, espalham-se, a fugir os mortos;
- Cor da noite, ele ajusta a frecha ao nervo,
- Na ação de disparar, tétrico olhando.
- Ao peito áureo talim cinge estupendo,
- Onde leões, javardos e ursos, tinha
- Com primor esculpidos, e recontros
- E batalhas e estragos e homicídios:
- Mestre algum peça igual fabricou nunca,
- Nem há de fabricar. O herói sem custo
- Reconhece-me e fala comovido:
- “Nobre e sábio Laércio, ai! tens a sorte
- Misérrima que tive, quando aos raios
- Eu respirei do Sol. Nasci de Jove,
- Mas fui de angústias mil atormentado,
- Sujeito a homem de valor somenos,
- Que me impunha asperíssimos trabalhos!
- Cargo o pior, mandou-me o cão trifauce
- Cá prender; eu do inferno o tirei fora,
- Por Mercúrio ajudado e por Minerva.”
- Disse e foi-se ao profundo; eu quedo espero
- Por mais outros varões dos priscos tempos:
- Gostoso a muitos vira, e contemplara
- Pirítoo e Teseu, divina prole;
- Mas com harto ruído infinda chusma
- Ávida concorrendo, enfim de medo
- Que do imo a soberana me enviasse
- A Gorgônia horrendíssima cabeça.
- Rápido embarco a gente e safo os cabos;
- Nas tostes a maruja, a correnteza
- Pelo Oceano rio nos levava,
- Ao som da voga e favorável brisa.