Ulisses ao vestíbulo descansa
316 versos · 2 notas do tradutor
- Ulisses ao vestíbulo descansa:
- Em cru taurino coiro estende peles
- De imoladas ovelhas, e por cima
- Eurínoma lhe deita espessa manta;
- Lá, na vingança meditando, vela.
- Eis risonhas de cara e delambidas
- As que davam-se aos procos vêm saindo:
- Vivamente comoto, em si ventila
- Se de súbito as mate, ou lhes consinta
- A extrema vez coabitar com eles;
- E o coração lateja-lhe apressado,
- Como a galga, a cercar seus cachorrinhos,
- Ladra investindo a estranho. A ira enfreia,
- Bate nos peitos e cogita: ”Cala,
- Meu coração! mais suportaste quando
- O atroz Ciclope devorou-me os sócios:
- Com prudência da cova te livraste,
- Onde supunhas trucidado seres.”
- Assim reprime o palpitar interno,
- Tem-se; mas anda pela cama às voltas.
- Qual de um brasido ao lume o esfomeado
- Vira um gordo ventrículo sangüento
- Com desejos de assá-lo; inquieto Ulisses
- Assim de toda parte se remexe,
- Traçando o meio de bastar a tantos
- Insolentes rivais. Em vulto humano,
- Palas se lhe oferece à cabeceira:
- “Por que velas, misérrimo dos homens?
- Tens casa, tens mulher, tens nobre filho,
- Filho que outro qualquer te invejaria.”
- “Sempre acertas, responde, onisciente;
- Mas posso haver-me, ó deusa, contra a chusma
- Que infesta o meu palácio? Inda rumino
- Outro cuidado: se os vencer, por graça
- De Jove e tua, escaparei com vida?
- Rogo-te me aconselhes.” — “Insensato!
- Grita Minerva, um homem noutro néscio
- Homem se fia, e tu de mim duvidas?
- Guardo-te sempre, e deusa te protejo.
- Eu to declaro: embora multilíngües
- Cinqüenta batalhões, a rodear-nos,
- O exício teu conspirem, bois e ovelhas
- Tu lhes depredarias. Dorme, é grave
- Passar a noite em claro, e o teu mal finda.”
- E espreme-lhe nas pálpebras o sono,
- E ao céu volve no instante em que o sossego
- Lhe absorve as penas e amolenta os membros.
- Cedo acorda, e sentada ao fofo leito,
- Lassa do pranto, ora a Diana a diva,
- Das mulheres modelo, honesta esposa:
- “De Jove augusta prole, ou tu me arranques
- Esta alma a tiros, ou tufão me jogue,
- Arrebatada pelos ares cegos,
- Às fauces do retrógrado Oceano;
- Sorte que outrora às Pandareidas coube.
- Órfãs, sozinhas, por querer supremo,
- De leite e mel suave e doce vinho
- Citeréia as nutria, deu-lhes Juno
- Formosura e juízo incomparáveis,
- O talhe Délia, os dotes seus Minerva;
- Mas, remontando Vênus ao Tonante,
- Que a fundo a sina dos mortais conhece,
- A pedir flóreas núpcias para as virgens,
- As Harpias, roubando-as, ao serviço
- Das medonhas Erínies as puseram.
- Levem-me assim do Olimpo os moradores,
- Freche-me Artêmide; eu no abismo horrendo,
- Ulisses, te contemple, nem se goze
- De mim outro varão que não te iguala.
- Geme o infeliz no dia, à noite ao menos
- Esquece adormecido os bens e os males;
- A mim sempre um demônio me persegue:
- Acaba de antolhar-se-me a figura
- De Ulisses tal qual era; cria eu leda
- Isto visão real, não mero sonho.”
- Atento o herói divino a tais queixumes,
- Ao reluzir da Aurora em trono de ouro,
- Cuida-se descoberto e que ela o busca;
- Veste o manto, em cadeira os tosões pousa,
- Remove o coiro, em preces alça as palmas:
- “Júpiter, se por seca e úmida via
- A Ítaca imortais me conduziram,
- Dentro ouça de um desperto o bom presságio,
- Fora algum teu prodígio mo confirme.”
- De Ulisses com prazer, fulgure e toa
- De resplendida nuvem; perto, o agouro
- Solta uma escrava do pastor dos povos.
- Das doze que ao moinho o trigo e azeite,
- Medula de homens, preparar soíam,
- Fraca ela só, deitadas as parceiras,
- Não findava a tarefa: “Ó sumo Jove,
- Clamou, do éter sereno assim trovejas?
- Anúncio é para alguém. De mim coitada
- Os votos cumpre: o dia extremo seja
- Que à mesa de meu amo se regalem
- Esses a quem, de afã desfalecida,
- Eu môo esta farinha; acabem todos.”
- Do agouro e do trovão contente Ulisses,
- Os réus conta punir. Vêm logo as servas
- Acender o fogão da pulcra sala;
- O deiforme Telêmaco vestido
- Vem da alcova, de nítidas sandálias,
- No bálteo a espada, aguda lança em punho,
- E ao limiar com Euricléia fala:
- “Ama, honrastes meu hóspede vós outras,
- Ou maltrado jaz? Embora sábia,
- Minha mãe de um parleiro às vezes cura
- E despede um melhor.” — Mas Euricléia:
- “Injusto a acusas, filho. A gosto o velho
- Bebeu sentado, abstendo-se da ceia,
- Que ela ofertou-lhe mesma. À hora própria
- Mandou cama estender; mas ele, afeito
- À pena e dor, não quis macias colchas,
- E ao vestíbulo em coiro e ovinas peles,
- Com manta que lhe demos, repousou-se.”
- Hasta na mão, Telêmaco atravessa
- A grande sala, com dous cães ligeiros,
- Aos grevados Aqueus indo juntar-se.
- De Opes de Pisenor zelosa a filha
- Esperta as mais cativas: “Borrifada,
- Já já, varrei-me a casa, e de tapetes
- Forrai purpúreos as louçãs poltronas;
- Lustre as mesas a esponja, a copa e a frasca
- Purifiquem-se, e lestes ide à fonte:
- Eles madrugam sempre, e o dia de hoje
- A todos é festivo.” — Obedeceram:
- Ao profundo olho d’água partem vinte;
- As mais dentro o serviço desempenham.
- A preceito, chegando, a lenha racham
- Os soberbões; da fonte as servas tornam;
- O porqueiro também com três cevados
- Entra, em vastas pocilgas escolhidos,
- E brandamente fala: “Hóspede, os Gregos
- Te menoscabam sempre, ou já te poupam?”
- “Eumeu, responde o herói, provera aos deuses
- Os insultos punir e os maus desígnios
- Desses que estão, sem pinga de vergonha,
- Maquinando um alheio domicílio.”
- Entrementes, Melântio se aproxima,
- Com dous ajudas, conduzindo cabras
- As melhores do fato aos pretendentes,
- E amarrando-as ao pórtico sonoro,
- Pica a Ulisses de novo: “Inda importunas
- A todos pedinchando, e não te safas?
- Sem estas mãos provares, vil mendigo,
- Cuido que insistirás. Há comezaina
- Entre os outros Aqueus.” Tácito a fronte
- Sacode o herói, vinganças ruminando.
- Presenta-se Filétio, o mor vaqueiro,
- Uma toura guiando e gordas cabras,
- Que as passaram barqueiros do costume,
- E ao ligá-las ao pórtico, pergunta:
- “Que estranho é este, Eumeu? que gente a sua?
- Donde veio? O mesquinho um rei parece:
- Em dor o Céu mergulha os vagabundos,
- Mesmo a reis enovela os infortúnios.”
- Vôlto ao mendigo então, lhe cerra a destra:
- “Hóspede padre, salve! hoje em miséria,
- Inda sejas ditoso! Ó tu Satúrnio,
- Ó deus o mais cruel, não te comovem
- As mágoas dos varões por ti criados.
- Choro e suor agora me rebentam,
- Lembrando-me de Ulisses, que afiguro
- Assim roto a vagar, se é que o Sol goza.
- Mas se ele no Orco jaz, ai de mim triste!
- A quem tão bom senhor, ainda eu menino,
- Aos armentos prepôs-me em Cefalênia.
- Inúmeros os bois de larga fronte
- Medram mais que a nenhum: cá trago deles
- A gulosos, que o filho desfalcando,
- A punição dos numes nem receiam;
- Do ausente os bens tragar é quanto anelam.
- Dupla aflição me rói: com meus bois todos,
- Vivo Telêmaco, emigrar é feio;
- Mas dói muito engordá-lo para intrusos.
- Longe outro herói buscado eu já teria,
- Nesta angústia insofrível, se esperança
- De vir não me alentasse o miserando
- A profligar infames insolentes.”
- Ulisses respondeu: “Nem mau nem lerdo
- Pareces-me, pastor; eu pois to juro,
- Por Jove, pela mesa hospitaleira,
- Por este lar e asilo: com teus olhos
- Teu bravo amo verás, se o tu quiseres,
- Usurpadores crus mandar a Dite.”
- O vaqueiro ajuntou: “Permita-o Jove!
- Meu braço e minha fé conhecerias.”
- E Eumeu também rogava aos deuses todos
- Que de seu rei a vinda apressurassem.
- A Telêmaco, entanto, os corpos tecem
- Morte e ruína. Altívola à sinistra
- Pávida pomba uma águia eis traz nas garras
- E branda Anfínomo: “Ao convívio, amigos;
- O plano de matá-lo está frustrado.”
- Eles dóceis na sala sobre escanos
- E camilhas os mantos depuseram.
- Cabras e ovelhas, porcos sacrificam,
- E a grã novilha: as vísceras assadas
- Repartem, mesclam nas crateras vinho;
- Eumeu taças ministra; o pão, Filétio;
- Escanceia Melântio: o bodo encetam.
- À soleira, mas dentro, baixa mesa
- E tosco assento o filho pôs a Ulisses,
- Que astúcias combinava, e das entranhas
- O serve e entorna o vinho em áureo copo:
- “A gosto, hóspede, bebe entre os guerreiros;
- Salvar-te-ei de golpes e convícios:
- A casa não é pública; é de Ulisses,
- E herdeiro eu sou. Vós procos, refreai-vos,
- Ou lide cá teremos infalível.”
- Todos pasmam da audácia e os beiços mordem;
- Mas o Eupitéio: “Amigos, suportemos
- De Telêmaco as fúteis ameaças.
- A querer o Satúrnio, ora açaimado
- Aqui seria o parlador canoro.”
- Cala Antino, e Telêmaco o desdenha.
- Pela cidade arautos hecatombe
- Guiam sacra, e no umbroso Febeu luco
- Reúnem-se os Grajúgenas crinitos;
- Ao tempo que, do fogo assadas carnes
- Os príncipes tirando, as distribuem,
- E o festim saboreiam: coube a Ulisses,
- Como ordenara seu dileto filho,
- Igual porção, que os servos lhe ministram.
- Não consente Minerva que arrogantes
- Abstenham-se de afrontas, para o anôjo
- Mais do Laércio profundar no seio.
- De Same habitador, iníquo e duro
- Ctesipo, que alistou-se entre os amantes
- No rico pai fiado, assim vozeia:
- “Rivais extremos, é decente, é justo,
- Aquinhoá-lo bem; nada faleça
- De Telêmaco aos hóspedes, quais forem:
- Meu dom receba amável, com que brinde
- A quem, nos paços do imortal ausente,
- O banha ou trata.” Aqui, toma de um cesto
- E arroja um pé de boi; mas a cabeça
- Ulisses, com sardônico sorriso,
- Desvia, e o osso na parede bate.
- Em cólera Telêmaco lho exprobra:
- “Melhor te foi, Ctesipo, que evitasse
- O hóspede o golpe teu; senão, tu foras
- Desta lança varado, e em vez de núpcias
- Teu pai te aprestaria a sepultura.
- Proíbo em minha casa iniqüidades;
- Não mais criança, o bem do mal distingo:
- Só contra muitos, passo os desperdícios
- Do meu pão, do meu vinho, do meu gado;
- Mas cesse a hostilidade. E a bronze frio
- Se desejais matar-me, antes a morte
- Que ver-nos espancar meus protegidos,
- Na honrosa casa viciar as servas.”
- Lavra em roda o silêncio, até que o rompe
- Agelau Damastórides: “Amigos,
- Não braveje nenhum contra a justiça;
- Nem se maltrate o hóspede, nem outrem
- Que habite na mansão do nobre Ulisses.
- Grato seja a Telêmaco e à rainha
- O que tranqüilo exponho. Enquanto a vinda
- Esperáveis do grande e sábio Ulisses,
- Causa havia de aqui nos demorardes,
- E era justificável a constância;
- Mas que ele está perdido é manifesto.
- Pede pois a Penélope que eleja
- Quem lhe aprouver e a dote com largueza;
- Em paz a herança paternal desfrutes,
- E tua mãe do noivo orne o palácio.”
- Cauteloso Telêmaco: “Por Jove,
- Agelau, to assevero, pelas dores
- De meu pai, que está morto ou longe vaga:
- Minha mãe não coíbo, antes a empenho
- A esposar quem lhe agrade e muito oferte;
- Mas hei pejo e temor, tolham-me os deuses
- Desta casa bani-la ou violentá-la.”
- Aqui, Minerva os procos enlouquece,
- Um riso inestinguível excitando,
- Riso que erra nas bocas louquejantes:
- Comem cruentas carnes; de água os olhos
- Se lhes arrasa; n’alma o luto versa.
- Teoclímeno a vozes profetiza:
- “Misérrimos, que noite vos rodeia
- De alto a baixo! que lúgubre ululado!
- Estou já vendo lagrimosas faces,
- Em sangue estas paredes e estes postes,
- Cheio o vestíbulo e a brilhante sala
- De espectros, que ao profundo Érebo descem!
- Morre o Sol, e se esparge e adensa a treva!”
- Eles às gargalhadas o chasqueiam,
- E o de Pólibo grita: “O forasteiro,
- Cá vindo não sei donde, é mentecapto.
- Moços, ponde-o na rua; ande-se ao foro
- Quem por noite hoje toma o dia claro.”
- Mas o adivinho: “Eurímaco, retorque,
- Não hei mister escolta; olhos e orelhas,
- Bons pés tenho, e alma sã no peito alojo;
- Vou-me donde um mal grave está pendente:
- Nenhum se livrará dos que este asilo
- Manchais de insultos e de ações infames.”
- Disse, e foi-se a Pireu, que pronto o acolhe.
- Olhando-se e às risadas, mofam todos,
- E um moteja a Telêmaco: “És na escolha
- De hóspedes infeliz: tens um mendigo
- Sitibundo e famélico e vadio,
- Sem préstimo e valor, da terra peso;
- Outro a vaticinar pouco há surdiu-nos.
- Mais útil, eu proponho, é que à Sicília,
- Porque hajas pingue lucro, os embarquemos.”
- Desdenhoso o mancebo, taciturno
- Fita os olhos no pai, à espera sempre
- Do funesto sinal. De cima a Icária
- Prudente, em belo escano recostada,
- Os escutava. E rindo e zombeteiros,
- Tendo eles bastas reses abatido,
- Em festim novo e lauto iam cuidando;
- Mas, da injustiça em troca, lhes dispunham
- Uma deusa e um varão mais agra ceia.