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OdisseiaLivro XX
LivroXX

Ulisses ao vestíbulo descansa

316 versos · 2 notas do tradutor


  1. Ulisses ao vestíbulo descansa:
  2. Em cru taurino coiro estende peles
  3. De imoladas ovelhas, e por cima
  4. Eurínoma lhe deita espessa manta;
  5. Lá, na vingança meditando, vela.
  6. Eis risonhas de cara e delambidas
  7. As que davam-se aos procos vêm saindo:
  8. Vivamente comoto, em si ventila
  9. Se de súbito as mate, ou lhes consinta
  10. A extrema vez coabitar com eles;
  11. E o coração lateja-lhe apressado,
  12. Como a galga, a cercar seus cachorrinhos,
  13. Ladra investindo a estranho. A ira enfreia,
  14. Bate nos peitos e cogita: ”Cala,
  15. Meu coração! mais suportaste quando
  16. O atroz Ciclope devorou-me os sócios:
  17. Com prudência da cova te livraste,
  18. Onde supunhas trucidado seres.”
  19. Assim reprime o palpitar interno,
  20. Tem-se; mas anda pela cama às voltas.
  21. Qual de um brasido ao lume o esfomeado
  22. Vira um gordo ventrículo sangüento
  23. Com desejos de assá-lo; inquieto Ulisses
  24. Assim de toda parte se remexe,
  25. Traçando o meio de bastar a tantos
  26. Insolentes rivais. Em vulto humano,
  27. Palas se lhe oferece à cabeceira:
  28. “Por que velas, misérrimo dos homens?
  29. Tens casa, tens mulher, tens nobre filho,
  30. Filho que outro qualquer te invejaria.”
  31. “Sempre acertas, responde, onisciente;
  32. Mas posso haver-me, ó deusa, contra a chusma
  33. Que infesta o meu palácio? Inda rumino
  34. Outro cuidado: se os vencer, por graça
  35. De Jove e tua, escaparei com vida?
  36. Rogo-te me aconselhes.” — “Insensato!
  37. Grita Minerva, um homem noutro néscio
  38. Homem se fia, e tu de mim duvidas?
  39. Guardo-te sempre, e deusa te protejo.
  40. Eu to declaro: embora multilíngües
  41. Cinqüenta batalhões, a rodear-nos,
  42. O exício teu conspirem, bois e ovelhas
  43. Tu lhes depredarias. Dorme, é grave
  44. Passar a noite em claro, e o teu mal finda.”
  45. E espreme-lhe nas pálpebras o sono,
  46. E ao céu volve no instante em que o sossego
  47. Lhe absorve as penas e amolenta os membros.
  48. Cedo acorda, e sentada ao fofo leito,
  49. Lassa do pranto, ora a Diana a diva,
  50. Das mulheres modelo, honesta esposa:
  51. “De Jove augusta prole, ou tu me arranques
  52. Esta alma a tiros, ou tufão me jogue,
  53. Arrebatada pelos ares cegos,
  54. Às fauces do retrógrado Oceano;
  55. Sorte que outrora às Pandareidas coube.
  56. Órfãs, sozinhas, por querer supremo,
  57. De leite e mel suave e doce vinho
  58. Citeréia as nutria, deu-lhes Juno
  59. Formosura e juízo incomparáveis,
  60. O talhe Délia, os dotes seus Minerva;
  61. Mas, remontando Vênus ao Tonante,
  62. Que a fundo a sina dos mortais conhece,
  63. A pedir flóreas núpcias para as virgens,
  64. As Harpias, roubando-as, ao serviço
  65. Das medonhas Erínies as puseram.
  66. Levem-me assim do Olimpo os moradores,
  67. Freche-me Artêmide; eu no abismo horrendo,
  68. Ulisses, te contemple, nem se goze
  69. De mim outro varão que não te iguala.
  70. Geme o infeliz no dia, à noite ao menos
  71. Esquece adormecido os bens e os males;
  72. A mim sempre um demônio me persegue:
  73. Acaba de antolhar-se-me a figura
  74. De Ulisses tal qual era; cria eu leda
  75. Isto visão real, não mero sonho.”
  76. Atento o herói divino a tais queixumes,
  77. Ao reluzir da Aurora em trono de ouro,
  78. Cuida-se descoberto e que ela o busca;
  79. Veste o manto, em cadeira os tosões pousa,
  80. Remove o coiro, em preces alça as palmas:
  81. “Júpiter, se por seca e úmida via
  82. A Ítaca imortais me conduziram,
  83. Dentro ouça de um desperto o bom presságio,
  84. Fora algum teu prodígio mo confirme.”
  85. De Ulisses com prazer, fulgure e toa
  86. De resplendida nuvem; perto, o agouro
  87. Solta uma escrava do pastor dos povos.
  88. Das doze que ao moinho o trigo e azeite,
  89. Medula de homens, preparar soíam,
  90. Fraca ela só, deitadas as parceiras,
  91. Não findava a tarefa: “Ó sumo Jove,
  92. Clamou, do éter sereno assim trovejas?
  93. Anúncio é para alguém. De mim coitada
  94. Os votos cumpre: o dia extremo seja
  95. Que à mesa de meu amo se regalem
  96. Esses a quem, de afã desfalecida,
  97. Eu môo esta farinha; acabem todos.”
  98. Do agouro e do trovão contente Ulisses,
  99. Os réus conta punir. Vêm logo as servas
  100. Acender o fogão da pulcra sala;
  101. O deiforme Telêmaco vestido
  102. Vem da alcova, de nítidas sandálias,
  103. No bálteo a espada, aguda lança em punho,
  104. E ao limiar com Euricléia fala:
  105. “Ama, honrastes meu hóspede vós outras,
  106. Ou maltrado jaz? Embora sábia,
  107. Minha mãe de um parleiro às vezes cura
  108. E despede um melhor.” — Mas Euricléia:
  109. “Injusto a acusas, filho. A gosto o velho
  110. Bebeu sentado, abstendo-se da ceia,
  111. Que ela ofertou-lhe mesma. À hora própria
  112. Mandou cama estender; mas ele, afeito
  113. À pena e dor, não quis macias colchas,
  114. E ao vestíbulo em coiro e ovinas peles,
  115. Com manta que lhe demos, repousou-se.”
  116. Hasta na mão, Telêmaco atravessa
  117. A grande sala, com dous cães ligeiros,
  118. Aos grevados Aqueus indo juntar-se.
  119. De Opes de Pisenor zelosa a filha
  120. Esperta as mais cativas: “Borrifada,
  121. Já já, varrei-me a casa, e de tapetes
  122. Forrai purpúreos as louçãs poltronas;
  123. Lustre as mesas a esponja, a copa e a frasca
  124. Purifiquem-se, e lestes ide à fonte:
  125. Eles madrugam sempre, e o dia de hoje
  126. A todos é festivo.” — Obedeceram:
  127. Ao profundo olho d’água partem vinte;
  128. As mais dentro o serviço desempenham.
  129. A preceito, chegando, a lenha racham
  130. Os soberbões; da fonte as servas tornam;
  131. O porqueiro também com três cevados
  132. Entra, em vastas pocilgas escolhidos,
  133. E brandamente fala: “Hóspede, os Gregos
  134. Te menoscabam sempre, ou já te poupam?”
  135. “Eumeu, responde o herói, provera aos deuses
  136. Os insultos punir e os maus desígnios
  137. Desses que estão, sem pinga de vergonha,
  138. Maquinando um alheio domicílio.”
  139. Entrementes, Melântio se aproxima,
  140. Com dous ajudas, conduzindo cabras
  141. As melhores do fato aos pretendentes,
  142. E amarrando-as ao pórtico sonoro,
  143. Pica a Ulisses de novo: “Inda importunas
  144. A todos pedinchando, e não te safas?
  145. Sem estas mãos provares, vil mendigo,
  146. Cuido que insistirás. Há comezaina
  147. Entre os outros Aqueus.” Tácito a fronte
  148. Sacode o herói, vinganças ruminando.
  149. Presenta-se Filétio, o mor vaqueiro,
  150. Uma toura guiando e gordas cabras,
  151. Que as passaram barqueiros do costume,
  152. E ao ligá-las ao pórtico, pergunta:
  153. “Que estranho é este, Eumeu? que gente a sua?
  154. Donde veio? O mesquinho um rei parece:
  155. Em dor o Céu mergulha os vagabundos,
  156. Mesmo a reis enovela os infortúnios.”
  157. Vôlto ao mendigo então, lhe cerra a destra:
  158. “Hóspede padre, salve! hoje em miséria,
  159. Inda sejas ditoso! Ó tu Satúrnio,
  160. Ó deus o mais cruel, não te comovem
  161. As mágoas dos varões por ti criados.
  162. Choro e suor agora me rebentam,
  163. Lembrando-me de Ulisses, que afiguro
  164. Assim roto a vagar, se é que o Sol goza.
  165. Mas se ele no Orco jaz, ai de mim triste!
  166. A quem tão bom senhor, ainda eu menino,
  167. Aos armentos prepôs-me em Cefalênia.
  168. Inúmeros os bois de larga fronte
  169. Medram mais que a nenhum: cá trago deles
  170. A gulosos, que o filho desfalcando,
  171. A punição dos numes nem receiam;
  172. Do ausente os bens tragar é quanto anelam.
  173. Dupla aflição me rói: com meus bois todos,
  174. Vivo Telêmaco, emigrar é feio;
  175. Mas dói muito engordá-lo para intrusos.
  176. Longe outro herói buscado eu já teria,
  177. Nesta angústia insofrível, se esperança
  178. De vir não me alentasse o miserando
  179. A profligar infames insolentes.”
  180. Ulisses respondeu: “Nem mau nem lerdo
  181. Pareces-me, pastor; eu pois to juro,
  182. Por Jove, pela mesa hospitaleira,
  183. Por este lar e asilo: com teus olhos
  184. Teu bravo amo verás, se o tu quiseres,
  185. Usurpadores crus mandar a Dite.”
  186. O vaqueiro ajuntou: “Permita-o Jove!
  187. Meu braço e minha fé conhecerias.”
  188. E Eumeu também rogava aos deuses todos
  189. Que de seu rei a vinda apressurassem.
  190. A Telêmaco, entanto, os corpos tecem
  191. Morte e ruína. Altívola à sinistra
  192. Pávida pomba uma águia eis traz nas garras
  193. E branda Anfínomo: “Ao convívio, amigos;
  194. O plano de matá-lo está frustrado.”
  195. Eles dóceis na sala sobre escanos
  196. E camilhas os mantos depuseram.
  197. Cabras e ovelhas, porcos sacrificam,
  198. E a grã novilha: as vísceras assadas
  199. Repartem, mesclam nas crateras vinho;
  200. Eumeu taças ministra; o pão, Filétio;
  201. Escanceia Melântio: o bodo encetam.
  202. À soleira, mas dentro, baixa mesa
  203. E tosco assento o filho pôs a Ulisses,
  204. Que astúcias combinava, e das entranhas
  205. O serve e entorna o vinho em áureo copo:
  206. “A gosto, hóspede, bebe entre os guerreiros;
  207. Salvar-te-ei de golpes e convícios:
  208. A casa não é pública; é de Ulisses,
  209. E herdeiro eu sou. Vós procos, refreai-vos,
  210. Ou lide cá teremos infalível.”
  211. Todos pasmam da audácia e os beiços mordem;
  212. Mas o Eupitéio: “Amigos, suportemos
  213. De Telêmaco as fúteis ameaças.
  214. A querer o Satúrnio, ora açaimado
  215. Aqui seria o parlador canoro.”
  216. Cala Antino, e Telêmaco o desdenha.
  217. Pela cidade arautos hecatombe
  218. Guiam sacra, e no umbroso Febeu luco
  219. Reúnem-se os Grajúgenas crinitos;
  220. Ao tempo que, do fogo assadas carnes
  221. Os príncipes tirando, as distribuem,
  222. E o festim saboreiam: coube a Ulisses,
  223. Como ordenara seu dileto filho,
  224. Igual porção, que os servos lhe ministram.
  225. Não consente Minerva que arrogantes
  226. Abstenham-se de afrontas, para o anôjo
  227. Mais do Laércio profundar no seio.
  228. De Same habitador, iníquo e duro
  229. Ctesipo, que alistou-se entre os amantes
  230. No rico pai fiado, assim vozeia:
  231. “Rivais extremos, é decente, é justo,
  232. Aquinhoá-lo bem; nada faleça
  233. De Telêmaco aos hóspedes, quais forem:
  234. Meu dom receba amável, com que brinde
  235. A quem, nos paços do imortal ausente,
  236. O banha ou trata.” Aqui, toma de um cesto
  237. E arroja um pé de boi; mas a cabeça
  238. Ulisses, com sardônico sorriso,
  239. Desvia, e o osso na parede bate.
  240. Em cólera Telêmaco lho exprobra:
  241. “Melhor te foi, Ctesipo, que evitasse
  242. O hóspede o golpe teu; senão, tu foras
  243. Desta lança varado, e em vez de núpcias
  244. Teu pai te aprestaria a sepultura.
  245. Proíbo em minha casa iniqüidades;
  246. Não mais criança, o bem do mal distingo:
  247. Só contra muitos, passo os desperdícios
  248. Do meu pão, do meu vinho, do meu gado;
  249. Mas cesse a hostilidade. E a bronze frio
  250. Se desejais matar-me, antes a morte
  251. Que ver-nos espancar meus protegidos,
  252. Na honrosa casa viciar as servas.”
  253. Lavra em roda o silêncio, até que o rompe
  254. Agelau Damastórides: “Amigos,
  255. Não braveje nenhum contra a justiça;
  256. Nem se maltrate o hóspede, nem outrem
  257. Que habite na mansão do nobre Ulisses.
  258. Grato seja a Telêmaco e à rainha
  259. O que tranqüilo exponho. Enquanto a vinda
  260. Esperáveis do grande e sábio Ulisses,
  261. Causa havia de aqui nos demorardes,
  262. E era justificável a constância;
  263. Mas que ele está perdido é manifesto.
  264. Pede pois a Penélope que eleja
  265. Quem lhe aprouver e a dote com largueza;
  266. Em paz a herança paternal desfrutes,
  267. E tua mãe do noivo orne o palácio.”
  268. Cauteloso Telêmaco: “Por Jove,
  269. Agelau, to assevero, pelas dores
  270. De meu pai, que está morto ou longe vaga:
  271. Minha mãe não coíbo, antes a empenho
  272. A esposar quem lhe agrade e muito oferte;
  273. Mas hei pejo e temor, tolham-me os deuses
  274. Desta casa bani-la ou violentá-la.”
  275. Aqui, Minerva os procos enlouquece,
  276. Um riso inestinguível excitando,
  277. Riso que erra nas bocas louquejantes:
  278. Comem cruentas carnes; de água os olhos
  279. Se lhes arrasa; n’alma o luto versa.
  280. Teoclímeno a vozes profetiza:
  281. “Misérrimos, que noite vos rodeia
  282. De alto a baixo! que lúgubre ululado!
  283. Estou já vendo lagrimosas faces,
  284. Em sangue estas paredes e estes postes,
  285. Cheio o vestíbulo e a brilhante sala
  286. De espectros, que ao profundo Érebo descem!
  287. Morre o Sol, e se esparge e adensa a treva!”
  288. Eles às gargalhadas o chasqueiam,
  289. E o de Pólibo grita: “O forasteiro,
  290. Cá vindo não sei donde, é mentecapto.
  291. Moços, ponde-o na rua; ande-se ao foro
  292. Quem por noite hoje toma o dia claro.”
  293. Mas o adivinho: “Eurímaco, retorque,
  294. Não hei mister escolta; olhos e orelhas,
  295. Bons pés tenho, e alma sã no peito alojo;
  296. Vou-me donde um mal grave está pendente:
  297. Nenhum se livrará dos que este asilo
  298. Manchais de insultos e de ações infames.”
  299. Disse, e foi-se a Pireu, que pronto o acolhe.
  300. Olhando-se e às risadas, mofam todos,
  301. E um moteja a Telêmaco: “És na escolha
  302. De hóspedes infeliz: tens um mendigo
  303. Sitibundo e famélico e vadio,
  304. Sem préstimo e valor, da terra peso;
  305. Outro a vaticinar pouco há surdiu-nos.
  306. Mais útil, eu proponho, é que à Sicília,
  307. Porque hajas pingue lucro, os embarquemos.”
  308. Desdenhoso o mancebo, taciturno
  309. Fita os olhos no pai, à espera sempre
  310. Do funesto sinal. De cima a Icária
  311. Prudente, em belo escano recostada,
  312. Os escutava. E rindo e zombeteiros,
  313. Tendo eles bastas reses abatido,
  314. Em festim novo e lauto iam cuidando;
  315. Mas, da injustiça em troca, lhes dispunham
  316. Uma deusa e um varão mais agra ceia.

Nota a nota · 2 notas

v. 120–156Esperta as mais cativas: “Borrifada, ⋯ Mesmo a reis enovela os infortúnios.”
Como é antiquíssimo o borrifar as casas para as varrer! Assim o fazem na Itália aos pavimentos de tijolos, gerais ainda nas maiores cidades; assim o fazem no Brasil, onde o uso desses pavimentos é muito menor. — Frasca é o que os afrancesados chamam bateria de cozinha. — Os mesmos senhores é que rachavam a lenha, por ser a festa solene de Apolo: é o que diz o original, apesar dos que traduzem que os servos dos procos é que o faziam. — Enovelar ou dobrar o fio dos infortúnios é o que propriamente exprime o verbo grego.
↩ voltar à passagem, v. 120
v. 313–315Tendo eles bastas reses abatido,
Os pretendentes acabavam de jantar, e iam já preparando outro repasto; o autor acrescenta que ceia menos agradável lhes tinham de preparar Minerva e Ulisses. Pindemonte seguia passo a passo a Homero; mas M. Giguet, omitindo a circunstância da ceia, diz: “Mais bientôt une déesse et un invencible héros vont dissiper leur joie par des exploits terribles”. Esta última versão está longe de ser fiel, nem tem a energia do original.
↩ voltar à passagem, v. 313
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