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OdisseiaLivro VI
LivroVI

Enquanto lasso e grave Ulisses dorme

258 versos · 4 notas do tradutor


  1. Enquanto lasso e grave Ulisses dorme,
  2. Corre Minerva ao povo dos Feaces,
  3. Que antes moravam na espaçosa Hipéria.
  4. De arrogantes Ciclopes infestada.
  5. À Esquéria os trouxe o divo Nausítoo,
  6. De homens cultos remota; ali fez muros,
  7. Casas e templos, dividiu seus campos.
  8. Desce a Dite, e por numes instruído
  9. O substitui Alcino: aos paços deste
  10. Palas de Ulisses foi dispor a entrada.
  11. Na câmara dedálea de Nausica,
  12. Na beleza e no porte sobre-humana,
  13. Régia virgem, como aura introduziu-se,
  14. Bem que, êmulas das Graças, duas servas
  15. Lá de uma e outra banda repousassem
  16. Às reluzentes e cerradas portas.
  17. A eqüeva amiga da princesa, filha
  18. Do marítimo Dimas afamado,
  19. Ela imitando, à cabeceira clama:
  20. “Lenta a mãe tua te pariu, Nausica?
  21. Descuidas-te da roupa, e as núpcias instam;
  22. Para ti mesma e a comitiva toda,
  23. Hás mister os vestidos mais formosos:
  24. Ganhas assim renome, dás contento
  25. Aos genitores teus. N’alva, a caminho,
  26. O mais depressa lavaremos juntas;
  27. Pois longo tempo não serás donzela:
  28. Pretendem-te os melhores dos Feaces,
  29. Da mesma estirpe tua. Ao rei mus pede,
  30. Carroça que amanhã transporte os cintos,
  31. Peplos e mantos: ir a pé mau fora;
  32. Distam muito os lavacros da cidade.”
  33. Advertida a princesa, a déia ascende
  34. À beata mansão, que deleitosa
  35. Nunca ventos açoutam, regam chuvas,
  36. Ou neve asperge; onde ar sereno e limpo,
  37. Onde vivo esplendor eterno brilha.
  38. A Aurora apoltronada esperta a jovem,
  39. Que, atravessando as casas, vai comota
  40. Ao pai contar o sonho e à mãe augusta:
  41. Ela, ao fogão, fiava lã purpúrea
  42. Entre as servas; tardio, ele à soleira,
  43. Para o grande conselho ia saindo.
  44. A filha o atalha: “Genitor amado,
  45. Mandas-me aparelhar carroça leve,
  46. Onde carregue à fonte as pulcras vestes
  47. Que cujas guardo? Em conferências cumpre
  48. Estares com asseio ante os senhores;
  49. De cinco filhos teus, são dous casados,
  50. Mas lépidos os três querem solteiros
  51. De lavado ir à dança: eu tudo avio”.
  52. Cala as núpcias ao pai, que assaz percebe:
  53. “Nada, filha, te nego; ágil carroça
  54. Terás de taipas cinta”. Ao mando, os pajens
  55. Tiram-na fora e os mus, que ao jugo prendem.
  56. Ela do plaustro ao leito a roupa desce;
  57. Vários manjares traz a mãe num cesto,
  58. Com sobremessa e um odre bom de vinho;
  59. À filha, já montada, uma áurea entrega
  60. Redoma de óleo, que as perfume. A jovem
  61. Brida flagela os mus, que estrepitosos
  62. A carga e o flóreo bando arrebatavam.
  63. Junto ao rio, onde há poças de água pura
  64. Que a sordidez expurga, os brutos soltam
  65. Nas margens a pascer melosa grama
  66. Tiram a roupa, acalcam-na à porfia
  67. Dentro das covas, torcem-na, enxaguada
  68. A estendem pela praia, onde os seixinhos
  69. Tinha alvejado o mar. Enquanto a enxugam
  70. Ao Sol fulgente, banham-se elas mesmas,
  71. E de óleo ungidas à ribeira jantam.
  72. Fartas já de comer, as toucas despem
  73. E à pela jogam; doce cantilena
  74. Entoa a bracicândida Nausica.
  75. Se, no excelso Taígete cu no Erímanto,
  76. Javalis a caçar e gamos leves,
  77. Das de Jove escoltada agrestes ninfas,
  78. Se diverte a frecheira irmã de Febo;
  79. Com prazer de Latona, alta cabeça,
  80. Entre as belas belíssima se estrema:
  81. Tal as outras supera a intacta virgem.
  82. Mas, jungida a parelha para a volta,
  83. A roupa elas dobravam, quando Palas
  84. Traça a maneira por que veja Ulisses
  85. A que aos Feaces conduzi-lo deve.
  86. Eis a princesa a uma atira a pela,
  87. Que errada cai no pego; as moças gritam,
  88. E Ulisses, despertando, em si discursa:
  89. “Ai de mim! que mortais aqui se alvergam?
  90. Bárbaros são, injustos e ferozes,
  91. Ou tementes aos deuses e hospedeiros?
  92. Senti femínea voz, talvez de ninfas
  93. Que habitem nestes coles, nestas fontes,
  94. Nestes ervosos lagos. Inquiramos
  95. Se homens são porventura e conversáveis”.
  96. Com mãos inchadas quebra um denso ramo
  97. Que os genitais encubra, e da espessura
  98. Sai qual montês leão, que, em si fiado,
  99. Arrosta o vento e a chuva, e de olho em brasa
  100. Cães e ovelhas comete e agrestes corças;
  101. Mesmo a curral seguro o ventre o impele:
  102. Tal, em nudez forçada, à companhia
  103. Pulcrícoma o varão se apresentava
  104. Horrível da salsugem, dele fogem
  105. Por entre as ribas: só de Alcino a jovem,
  106. Por Minerva animada, o encara afouta.
  107. Reflete o sábio se lhe abrace as plantas,
  108. Ou rogue-lhe de longe que um vestido
  109. Preste e a cidade ensine: e, receoso
  110. De lhe ofender o pejo, este segundo
  111. Meio prefere e brandamente implora:
  112. “Deusa ou mulher, suplico-te, ó rainha.
  113. Se és íncola do Olimpo, representas
  114. Em talhe e porte esbeíto a grã Diana,
  115. Prole de Jove sumo; se és terrestre,
  116. Oh! três vezes teus pais e irmãos felizes,
  117. Que alegras nas coréias graciosas!
  118. De todos felicíssimo o que à cheia
  119. Casa te guie bem dotada e rica!
  120. Nunca de sexo algum meus olhos viram
  121. Tão formoso mortal: admiro e pasmo.
  122. Nesta rota sinistra, eu fui-me a Delos
  123. Com boa gente, e ao pé crescia da ara
  124. Apolínea um renovo de plameria,
  125. Cujo aspecto assombrou-me; eu não pensava
  126. Que maravilha tal brotasse a terra:
  127. Assim, mulher, me espantas, nem me atrevo
  128. Nesta grave miséria, os pés tocar-te.
  129. Pós dias vinte que da ilha Ogígia
  130. Flutuava em borrascas, enfim ontem
  131. Um deus cá me aportou, para outros males;
  132. Inda os Céus não cansaram de afligir-me.
  133. De mim tem dó, rainha, a ti primeira
  134. Na desgraça recorro; uma alma viva
  135. Eu não conheço: aponta-me a cidade;
  136. Se o tens acaso, um roto ou velho pano
  137. Dá que me esconda as carnes. Justos numes
  138. Te concedam, senhora, o que desejas,
  139. Marido e paz doméstica e família:
  140. Do acordo conjugal nasce a ventura;
  141. Tudo medra, os consortes são ditosos;
  142. Causa prazer aos bons e aos maus inveja”.
  143. E a cândida Nausica: “Hóspede, ignóbil
  144. Nem insano te julgo. A seu falante
  145. Aquinhoa os mortais o Olímpio Jove:
  146. Se te coube o infortúnio, a fronte acurva.
  147. Já que abordaste aqui, terás vestidos
  148. E o que pede um mesquinho suplicante.
  149. Vou guiar-te à cidade; habito nela
  150. E em seu distrito o povo dos Feaces.
  151. Filha me honro de Alcino generoso,
  152. Que tem do império o cetro soberano”.
  153. Vira-se à comitiva: “Olá! criadas,
  154. Fugis deste varão, como inimigo?
  155. Ninguém nos hostiliza; aqui num cabo
  156. Do undoso campo, sem comércio externo,
  157. São dos deuses validos os Feaces.
  158. Um triste peregrino, o envia o Padre,
  159. Aos pobres compassivo; a contentá-lo
  160. Tênue dom basta. Ao nosso, ó companheiras,
  161. Dai bebida e comer; do rio em parte
  162. Ide-o banhar dos ventos abrigada.”
  163. Param; mútuo exortando-se, o conduzem
  164. Ao prescrito lugar, e apõem-lhe e entregam
  165. Manto, as mais vestes, a redoma de ouro,
  166. E a meter-se o convidam na corrente.
  167. Mas o divino Ulisses: “Apartai-vos,
  168. Quero mesmo limpar-me da salsugem,
  169. E o que há muito não faço, ungir-me de óleo:
  170. Temo lavar-me todo nu, de moças
  171. Ofendendo o pudor.” — Elas se afastam
  172. E o contam à contam à senhora. Imundas costas,
  173. Cabeça e largos ombros, ele esfrega;
  174. Veste o que a virgem dera, enxuto e ungido.
  175. Maior o torna e mais robusto Palas,
  176. Solta-lhe a coma ondada e semelhante
  177. À jacintina flor; qual fabro exímio,
  178. Que ela mesma adestrara e o coxo mestre,
  179. Graça lhe imprime na pessoa a déia.
  180. Marcha, e à praia sentado, em gentileza
  181. Resplandecia; às aneladas servas
  182. Diz absorta a senhora: “Albinitentes
  183. Companheiras, ouvi-me: sem mistério
  184. Não veio o herói; vulgar primeiro o cria;
  185. E aos numes o comparo. Oh! se eu tivesse
  186. Tal marido, e na Esquéria nos ficasse!
  187. Vós do que houver servi-o.” Assim fizeram.
  188. Por tão longo jejum, sôfrego Ulisses
  189. Come e bebe; e Nausica bracinívea
  190. Na carroça depõe dobrada a roupa,
  191. Os ungüíssonos ata, monta, amoesta
  192. O alto varão: “Sus, hóspedes, à cidade;
  193. Ao paterno palácio te encaminho,
  194. Onde os magnatas acharás Feaces.
  195. Razoável te suponho, isto executes:
  196. Por agros e plantios, eu diante,
  197. Com minhas servas anda após o carro;
  198. Mas retém-te às muralhas da cidade,
  199. Que dous portos possui de estreita boca
  200. Lá vara cada um na sua estância
  201. O açoutado baixel. Medeia aos portos
  202. Largo foro, com lajes das pedreiras
  203. Dos contornos calçado, e nele o templo
  204. Alteia de Netuno. Ali conservam
  205. Mastros, cabos, maçame, e remos talham;
  206. Que os Feaces não curam de arco e aljava,
  207. Sim de antenas e velas, que bizarros
  208. Pelo espumoso pélago os naveguem.
  209. O pé digo reprimas; que, insolente
  210. Como é do bairro a plebe, a desluzir-me
  211. Algum pode morder-me: — “Olhai Nausica;
  212. Segue-a gentil estranho apessoado;
  213. Será marido? Perto nenhum mora;
  214. De um navio errabundo o ajuntaria?
  215. Ou deus será do Olimpo que, a seus rogos
  216. Baixe e lhe assista sempre? É bom que fora
  217. Fosse-o tomar; que os muitos que a desejam
  218. Da Feácia nobreza, ela os despreza.”
  219. Desta afronta e censura hei de correr-me;
  220. E em caso igual censurarei aquela
  221. Que, a despeito dos pais, antes das núpcias,
  222. Com homens se mostrasse. Hóspede, à risca
  223. Preenche o meu conselho, a fim que obtenhas
  224. Do rei gente e socorro e pronta volta.
  225. No caminho, alameda encontraremos,
  226. Luco Paládio, e fonte e em roda prados,
  227. Onde meu pai tem quinta e flóreos hortos,
  228. E dali à cidade em grito alcança:
  229. Neste lugar espera, e quando penses
  230. Que é tempo já de estarmos recolhidas,
  231. Entra no muro, indaga onde o palácio
  232. Do magnânimo Alcino; outra morada
  233. Os Feaces não têm que a rivalize,
  234. E um menino qualquer pode ensinar-ta.
  235. Do átrio penetres velozmente à sala,
  236. E busques minha mãe: sentada ao lume
  237. Do aceso lar, é maravilha vê-la
  238. E detrás dela escravas; encostada
  239. Ao pilar, volve um fuso purpurino.
  240. Próximo está meu pai qual deus, no sólio
  241. Almo vinho gostando: o rei pretiras,
  242. E os joelhos abraces da consorte,
  243. Para que da partida a luz te raie;
  244. Por distante que habites, se a comoves,
  245. Ver conta a celsa casa e a doce pátria.”
  246. Ei-la verbera os mus, que o rio deixam
  247. À desfilada, airoso o passo alternam;
  248. Mas de jeito regia o açoute e as rédeas,
  249. Para os a pé de vista a não perderem.
  250. Cai o sol; ao delubro de Minerva
  251. Demorando-se Ulisses, a depreca:
  252. “Do aluno de Amaltéia, ouve-me, ó filha!
  253. Se tu não me atendeste quando jogo
  254. Fui do ínclito Netuno, atende-me ora,
  255. Dá que os Feaces mísero me amparem.”
  256. Palas o escuta, sem que lhe apareça,
  257. Com temor de seu tio, que iracundo
  258. Até Ítaca mesma há de vexá-lo.

Nota a nota · 4 notas

v. 42–66Entre as servas; tardio, ele à soleira, ⋯ Tiram a roupa, acalcam-na à porfia
Alguns vertem que Nausica achou o pai ao limiar, a partir, com os outros chefes para o conselho, onde os Feaces o esperavam: eu com Pindemonte, verto que ela o achou ao limiar a partir para o conselho, onde o esperavam; porque, sendo madrugada, é inverossímil que os magnatas fossem tão cedo incomodar a Alcino. — Note-se que este costume de bater com os pés a roupa dentro d’água, dura ainda na mourama, v. g. em Túnis: muitos costumes dos tempos homéricos, uns conservam-se no Oriente, e não poucos no Ocidente.
↩ voltar à passagem, v. 42
v. 96–102Com mãos inchadas quebra um denso ramo
Tomam pacheiè por forte: creio que o adjetivo grego, significando propriamente grosso ou gordo, aqui não quer dizer forte mas inchado; porque Ulisses deixou a pele das mãos ao rochedo a que esteve agarrado, e elas deviam estar inflamadas ou inchadas, sentindo que mais se aproxima ao próprio: certo é que isto mesmo demonstra a sua fortaleza, todavia por uma indução e não diretamente. M. Giguet, com escrúpulo talvez de servir-se do correspondente ao nosso termo genitais, verte que Ulisses cobriu com o ramo a sua nudez, e logo adiante que, malgré sa nudité, veio ter com as moças: ora ou ele não cobriu a sua nudez, ou não veio ter com as moças nu. Quem seguir o texto, solve esta contradição: Ulisses com o ramo cobriu os genitais, e apesar da nudez dos outros membros, apareceu forçado a Nausica e às servas. Não tenho escrúpulo de usar do termo próprio, que não encerra obscenidade alguma: obscenas são as palavras que, ao declararem a cousa, indicam em quem as profere uma torpe e maligna intenção. O nosso épico, na estância XVIII do canto sexto, acerca de Tritão nos diz: “O corpo nu e os membros genitais”.
↩ voltar à passagem, v. 96
v. 128Nesta grave miséria, os pés tocar-te.
No hemistíquio do verso 169, a que este meu corresponde, alguns põem um ponto final, e tomam o segundo hemistíquio, principiando pela palavra chalepon, como cousa inteiramente separada: cuido, ao contrário, que um se refere ao outro, e que a palavra penthos não comemora todas as misérias de Ulisses, mas unicamente a de ver-se obrigado a falar a uma senhora no vergonhoso estado em que se achava. Isto é mais da situação, e mostra o grande respeito do herói para com mulheres jovens e pudicas.
↩ voltar ao verso 128
v. 236–239E busques minha mãe: sentada ao lume
Estes versos, com leve mudança, os traz Filinto em uma nota ao livro I dos Mártires. Sempre que tamanho mestre houver traduzido uma passagem de Homero, de seus versos me aproveitarei, e das suas frases principalmente.
↩ voltar à passagem, v. 236
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