Enquanto lasso e grave Ulisses dorme
258 versos · 4 notas do tradutor
- Enquanto lasso e grave Ulisses dorme,
- Corre Minerva ao povo dos Feaces,
- Que antes moravam na espaçosa Hipéria.
- De arrogantes Ciclopes infestada.
- À Esquéria os trouxe o divo Nausítoo,
- De homens cultos remota; ali fez muros,
- Casas e templos, dividiu seus campos.
- Desce a Dite, e por numes instruído
- O substitui Alcino: aos paços deste
- Palas de Ulisses foi dispor a entrada.
- Na câmara dedálea de Nausica,
- Na beleza e no porte sobre-humana,
- Régia virgem, como aura introduziu-se,
- Bem que, êmulas das Graças, duas servas
- Lá de uma e outra banda repousassem
- Às reluzentes e cerradas portas.
- A eqüeva amiga da princesa, filha
- Do marítimo Dimas afamado,
- Ela imitando, à cabeceira clama:
- “Lenta a mãe tua te pariu, Nausica?
- Descuidas-te da roupa, e as núpcias instam;
- Para ti mesma e a comitiva toda,
- Hás mister os vestidos mais formosos:
- Ganhas assim renome, dás contento
- Aos genitores teus. N’alva, a caminho,
- O mais depressa lavaremos juntas;
- Pois longo tempo não serás donzela:
- Pretendem-te os melhores dos Feaces,
- Da mesma estirpe tua. Ao rei mus pede,
- Carroça que amanhã transporte os cintos,
- Peplos e mantos: ir a pé mau fora;
- Distam muito os lavacros da cidade.”
- Advertida a princesa, a déia ascende
- À beata mansão, que deleitosa
- Nunca ventos açoutam, regam chuvas,
- Ou neve asperge; onde ar sereno e limpo,
- Onde vivo esplendor eterno brilha.
- A Aurora apoltronada esperta a jovem,
- Que, atravessando as casas, vai comota
- Ao pai contar o sonho e à mãe augusta:
- Ela, ao fogão, fiava lã purpúrea
- Entre as servas; tardio, ele à soleira,
- Para o grande conselho ia saindo.
- A filha o atalha: “Genitor amado,
- Mandas-me aparelhar carroça leve,
- Onde carregue à fonte as pulcras vestes
- Que cujas guardo? Em conferências cumpre
- Estares com asseio ante os senhores;
- De cinco filhos teus, são dous casados,
- Mas lépidos os três querem solteiros
- De lavado ir à dança: eu tudo avio”.
- Cala as núpcias ao pai, que assaz percebe:
- “Nada, filha, te nego; ágil carroça
- Terás de taipas cinta”. Ao mando, os pajens
- Tiram-na fora e os mus, que ao jugo prendem.
- Ela do plaustro ao leito a roupa desce;
- Vários manjares traz a mãe num cesto,
- Com sobremessa e um odre bom de vinho;
- À filha, já montada, uma áurea entrega
- Redoma de óleo, que as perfume. A jovem
- Brida flagela os mus, que estrepitosos
- A carga e o flóreo bando arrebatavam.
- Junto ao rio, onde há poças de água pura
- Que a sordidez expurga, os brutos soltam
- Nas margens a pascer melosa grama
- Tiram a roupa, acalcam-na à porfia
- Dentro das covas, torcem-na, enxaguada
- A estendem pela praia, onde os seixinhos
- Tinha alvejado o mar. Enquanto a enxugam
- Ao Sol fulgente, banham-se elas mesmas,
- E de óleo ungidas à ribeira jantam.
- Fartas já de comer, as toucas despem
- E à pela jogam; doce cantilena
- Entoa a bracicândida Nausica.
- Se, no excelso Taígete cu no Erímanto,
- Javalis a caçar e gamos leves,
- Das de Jove escoltada agrestes ninfas,
- Se diverte a frecheira irmã de Febo;
- Com prazer de Latona, alta cabeça,
- Entre as belas belíssima se estrema:
- Tal as outras supera a intacta virgem.
- Mas, jungida a parelha para a volta,
- A roupa elas dobravam, quando Palas
- Traça a maneira por que veja Ulisses
- A que aos Feaces conduzi-lo deve.
- Eis a princesa a uma atira a pela,
- Que errada cai no pego; as moças gritam,
- E Ulisses, despertando, em si discursa:
- “Ai de mim! que mortais aqui se alvergam?
- Bárbaros são, injustos e ferozes,
- Ou tementes aos deuses e hospedeiros?
- Senti femínea voz, talvez de ninfas
- Que habitem nestes coles, nestas fontes,
- Nestes ervosos lagos. Inquiramos
- Se homens são porventura e conversáveis”.
- Com mãos inchadas quebra um denso ramo
- Que os genitais encubra, e da espessura
- Sai qual montês leão, que, em si fiado,
- Arrosta o vento e a chuva, e de olho em brasa
- Cães e ovelhas comete e agrestes corças;
- Mesmo a curral seguro o ventre o impele:
- Tal, em nudez forçada, à companhia
- Pulcrícoma o varão se apresentava
- Horrível da salsugem, dele fogem
- Por entre as ribas: só de Alcino a jovem,
- Por Minerva animada, o encara afouta.
- Reflete o sábio se lhe abrace as plantas,
- Ou rogue-lhe de longe que um vestido
- Preste e a cidade ensine: e, receoso
- De lhe ofender o pejo, este segundo
- Meio prefere e brandamente implora:
- “Deusa ou mulher, suplico-te, ó rainha.
- Se és íncola do Olimpo, representas
- Em talhe e porte esbeíto a grã Diana,
- Prole de Jove sumo; se és terrestre,
- Oh! três vezes teus pais e irmãos felizes,
- Que alegras nas coréias graciosas!
- De todos felicíssimo o que à cheia
- Casa te guie bem dotada e rica!
- Nunca de sexo algum meus olhos viram
- Tão formoso mortal: admiro e pasmo.
- Nesta rota sinistra, eu fui-me a Delos
- Com boa gente, e ao pé crescia da ara
- Apolínea um renovo de plameria,
- Cujo aspecto assombrou-me; eu não pensava
- Que maravilha tal brotasse a terra:
- Assim, mulher, me espantas, nem me atrevo
- Nesta grave miséria, os pés tocar-te.
- Pós dias vinte que da ilha Ogígia
- Flutuava em borrascas, enfim ontem
- Um deus cá me aportou, para outros males;
- Inda os Céus não cansaram de afligir-me.
- De mim tem dó, rainha, a ti primeira
- Na desgraça recorro; uma alma viva
- Eu não conheço: aponta-me a cidade;
- Se o tens acaso, um roto ou velho pano
- Dá que me esconda as carnes. Justos numes
- Te concedam, senhora, o que desejas,
- Marido e paz doméstica e família:
- Do acordo conjugal nasce a ventura;
- Tudo medra, os consortes são ditosos;
- Causa prazer aos bons e aos maus inveja”.
- E a cândida Nausica: “Hóspede, ignóbil
- Nem insano te julgo. A seu falante
- Aquinhoa os mortais o Olímpio Jove:
- Se te coube o infortúnio, a fronte acurva.
- Já que abordaste aqui, terás vestidos
- E o que pede um mesquinho suplicante.
- Vou guiar-te à cidade; habito nela
- E em seu distrito o povo dos Feaces.
- Filha me honro de Alcino generoso,
- Que tem do império o cetro soberano”.
- Vira-se à comitiva: “Olá! criadas,
- Fugis deste varão, como inimigo?
- Ninguém nos hostiliza; aqui num cabo
- Do undoso campo, sem comércio externo,
- São dos deuses validos os Feaces.
- Um triste peregrino, o envia o Padre,
- Aos pobres compassivo; a contentá-lo
- Tênue dom basta. Ao nosso, ó companheiras,
- Dai bebida e comer; do rio em parte
- Ide-o banhar dos ventos abrigada.”
- Param; mútuo exortando-se, o conduzem
- Ao prescrito lugar, e apõem-lhe e entregam
- Manto, as mais vestes, a redoma de ouro,
- E a meter-se o convidam na corrente.
- Mas o divino Ulisses: “Apartai-vos,
- Quero mesmo limpar-me da salsugem,
- E o que há muito não faço, ungir-me de óleo:
- Temo lavar-me todo nu, de moças
- Ofendendo o pudor.” — Elas se afastam
- E o contam à contam à senhora. Imundas costas,
- Cabeça e largos ombros, ele esfrega;
- Veste o que a virgem dera, enxuto e ungido.
- Maior o torna e mais robusto Palas,
- Solta-lhe a coma ondada e semelhante
- À jacintina flor; qual fabro exímio,
- Que ela mesma adestrara e o coxo mestre,
- Graça lhe imprime na pessoa a déia.
- Marcha, e à praia sentado, em gentileza
- Resplandecia; às aneladas servas
- Diz absorta a senhora: “Albinitentes
- Companheiras, ouvi-me: sem mistério
- Não veio o herói; vulgar primeiro o cria;
- E aos numes o comparo. Oh! se eu tivesse
- Tal marido, e na Esquéria nos ficasse!
- Vós do que houver servi-o.” Assim fizeram.
- Por tão longo jejum, sôfrego Ulisses
- Come e bebe; e Nausica bracinívea
- Na carroça depõe dobrada a roupa,
- Os ungüíssonos ata, monta, amoesta
- O alto varão: “Sus, hóspedes, à cidade;
- Ao paterno palácio te encaminho,
- Onde os magnatas acharás Feaces.
- Razoável te suponho, isto executes:
- Por agros e plantios, eu diante,
- Com minhas servas anda após o carro;
- Mas retém-te às muralhas da cidade,
- Que dous portos possui de estreita boca
- Lá vara cada um na sua estância
- O açoutado baixel. Medeia aos portos
- Largo foro, com lajes das pedreiras
- Dos contornos calçado, e nele o templo
- Alteia de Netuno. Ali conservam
- Mastros, cabos, maçame, e remos talham;
- Que os Feaces não curam de arco e aljava,
- Sim de antenas e velas, que bizarros
- Pelo espumoso pélago os naveguem.
- O pé digo reprimas; que, insolente
- Como é do bairro a plebe, a desluzir-me
- Algum pode morder-me: — “Olhai Nausica;
- Segue-a gentil estranho apessoado;
- Será marido? Perto nenhum mora;
- De um navio errabundo o ajuntaria?
- Ou deus será do Olimpo que, a seus rogos
- Baixe e lhe assista sempre? É bom que fora
- Fosse-o tomar; que os muitos que a desejam
- Da Feácia nobreza, ela os despreza.”
- Desta afronta e censura hei de correr-me;
- E em caso igual censurarei aquela
- Que, a despeito dos pais, antes das núpcias,
- Com homens se mostrasse. Hóspede, à risca
- Preenche o meu conselho, a fim que obtenhas
- Do rei gente e socorro e pronta volta.
- No caminho, alameda encontraremos,
- Luco Paládio, e fonte e em roda prados,
- Onde meu pai tem quinta e flóreos hortos,
- E dali à cidade em grito alcança:
- Neste lugar espera, e quando penses
- Que é tempo já de estarmos recolhidas,
- Entra no muro, indaga onde o palácio
- Do magnânimo Alcino; outra morada
- Os Feaces não têm que a rivalize,
- E um menino qualquer pode ensinar-ta.
- Do átrio penetres velozmente à sala,
- E busques minha mãe: sentada ao lume
- Do aceso lar, é maravilha vê-la
- E detrás dela escravas; encostada
- Ao pilar, volve um fuso purpurino.
- Próximo está meu pai qual deus, no sólio
- Almo vinho gostando: o rei pretiras,
- E os joelhos abraces da consorte,
- Para que da partida a luz te raie;
- Por distante que habites, se a comoves,
- Ver conta a celsa casa e a doce pátria.”
- Ei-la verbera os mus, que o rio deixam
- À desfilada, airoso o passo alternam;
- Mas de jeito regia o açoute e as rédeas,
- Para os a pé de vista a não perderem.
- Cai o sol; ao delubro de Minerva
- Demorando-se Ulisses, a depreca:
- “Do aluno de Amaltéia, ouve-me, ó filha!
- Se tu não me atendeste quando jogo
- Fui do ínclito Netuno, atende-me ora,
- Dá que os Feaces mísero me amparem.”
- Palas o escuta, sem que lhe apareça,
- Com temor de seu tio, que iracundo
- Até Ítaca mesma há de vexá-lo.