O herói, por serros e áspera azinhaga
420 versos · 4 notas do tradutor
- O herói, por serros e áspera azinhaga,
- Segue do porto, à selva, o divo busca
- Leal pastor, que lhe afirmou Tritônia
- Ser dos escravos dele o mais zeloso.
- Achava-se ao portal, num sítio alegre
- Onde, n’ausência do amo, edificara,
- Sem da senhora auxílio ou de Laertes,
- Vistoso amplo curral de pedra ensossa;
- De espinho sebe em roda, e cerca de achas
- Do cerne de carvalho externa havia.
- Na área em chiqueiros doze conchegados,
- Em cada qual cinqüenta, se espojavam
- Prenhes porcas; dormiam fora os machos,
- Poucos, pois de contínuo aos pretendentes
- O mais nédio cevado remetia:
- Trezentos e sessenta eram por todos.
- Ao pé jaziam quatro cães de fila,
- Pelo porqueiro maioral mantidos.
- Este a seus pés talhava umas sandálias
- De táureo tinto coiro; três ajudas
- As varas pastorar, mandara o quarto
- Conduzir constrangido um bom capado,
- Que na régia a gulosos recheasse.
- Ladrando os brabos cães a Ulisses correm,
- Que assenta-se manhoso e o bordão larga;
- Mas vítima seria, se o porqueiro,
- Cair deixando o coiro, à pressa e em gritos
- Não viesse a pedradas enchotá-los.
- E a ele se virou: “Meus cães, ó velho,
- Quase, por meu labéu, que te espedaçam,
- E os deuses de outras penas me acabrunham:
- Choro a engordar os cerdos para estranhos,
- E o meu divo senhor quiçá faminto
- Vaga de povo em povo, se é que vive
- E goza a luz do Sol. Comida e vinho
- Terás naquela choça, e tu repleto,
- Me refiras teus males e aventuras.”
- Na choça introduzido, em ramas densas,
- De agreste cabra com velosa pele,
- Do porqueiro acamadas, pousa Ulisses,
- E lho agradece: “Abençoado amigo,
- Compensem-te os Supremos o agasalho.”
- Tu respondeste, Eumeu: “Ninguém desprezo,
- Qualquer acolherei de ti somenos;
- Jove os mendigos e hóspedes protege,
- Aprova os tênues dons que a medo faço,
- Pobre servo, a mancebo submetido!
- O Céu de meu senhor veda o regresso,
- Que tanto me queria, e, como é de uso
- Para com bons escravos laboriosos,
- A envelhecer aqui, me enriquecera
- Com mulher e pecúlio, pois os deuses
- Têm prosperado meu serviço. Ai dele!
- Pereça toda a geração de Helena,
- Dano e exício de heróis! Para essa Tróia
- Também foi meu senhor vingar o Atrida.”
- E ataca mal o cinto, e dous farroupos
- Trazendo, os mata e lhes chamusca pêlo,
- Corta, espeta, e no espeto o assado quente
- Oferece e apolvilha de farinha;
- Vinho melífluo em copo de sobreiro
- Mistura, à face do hóspede se assenta:
- “Anda, ora come do que aos servos cabe;
- Os cevados aos procos se reservam,
- Que do castigo olvidam-se impiedosos.
- Néscios! os numes a violência odeiam
- E a virtude honram só. De alheias plagas
- Invasores hostis, que em naus de espólios
- Onustas partem pôr favor de Jove,
- Temem-se do castigo; os procos, julgo,
- Voz divina informou da triste morte.
- Nenhum de núpcias trata ou de ir-se embora,
- Todos em voraz ócio os bens estragam:
- Uma nem duas vítimas lhes bastam;
- Noites e dias, quantos Jove alterna,
- Consomem carnes, ânforas esgotam.
- Em Ítaca e no escuro continente,
- Não há magnata que possua tanto,
- Nem vinte juntos; a resenha escuta:
- Pastam-lhe em terra firme doze armentos,
- E há porcadas iguais, iguais rebanhos,
- Vastos cabruns encerros, com pastores
- De fora ou do país; nesta ilha mesma,
- Guardam fiéis cabreiros onze fatos,
- E eu rejo estas pocilgas. Nós forçados,
- Pensão quotidiana, remetemos
- A mais nédia cabeça a tais senhores.”
- Tácito Ulisses come e ávido bebe,
- Ideando a vingança; e, confortado,
- A copa do porqueiro aceita plena,
- Jubiloso e veloz: “Rico era e forte
- Quem te comprou, qual, hóspede, o apregoas?
- Morto o crês pela causa de Agamemnon:
- Talvez o conhecesse eu vagamundo;
- Sabe a etérea mansão, quando o nomeies,
- Se ocultar testemunho em mim depares.”
- “Velho, constesta Eumeu, não mais se apoiam
- Em peregrino algum a esposa e o filho:
- Quanto são mentirosos os mendigos!
- A senhora os socorre e asila e inquire;
- Mas incrédula geme, qual viúva
- Que lamenta o marido ao longe extinto.
- Urdir hoje uma fábula pretendes,
- Para de capa e túnica mudares?
- As entranhas cães e aves lhe tragaram,
- Ou, dos peixes roído, a vaga os ossos
- Lançou-lhe à praia e os cobre densa areia.
- Morreu, morreu, deixando em luto amigos,
- Mormente a mim, que o não terei tão brando,
- Nem que de pai e mãe voltasse à casa,
- Onde a luz vi primeiro e me criaram:
- Tão saudoso os não choro e a pátria amada,
- Como Ulisses me lembra. Até receio,
- Pois tanto me estimava e destinguia,
- N’ausência nomeá-lo, irmão n’ausência
- Mais velho o chamo, a suspirar por ele.”
- E o divo herói: “Bem que emperrado o negues,
- Não temerário to assevero e juro,
- Ulisses vem; de alvíçaras me aprontas
- Capa e túnica, inteira vestidura;
- Mas, inda que indigente, o prêmio enjeito,
- Antes que ele se mostre em seu palácio:
- Como do inferno as portas, abomino
- Falácias da pobreza. Atesto Jove,
- De teu amo o lar puro a que me encosto
- E a mesa hospitaleira, o anúncio é vero:
- Neste ano e lua mesma, ou na vindoura,
- Cá de retorno, punirá severo
- Os ultrajes da esposa e de seu filho.”
- Não ganharás alvíçaras, meu velho,
- Ajunta Eumeu; não conto mais com ele.
- Bebe tranqüilo; outras lembranças volve,
- Que este assunto angustia-me e contrista.
- Juramentos a parte, oh! se viesse,
- Qual o anelo, Penélope e Laertes,
- E o deiforme Telêmaco. Esta agora
- Única planta choro, que ao celeste
- Bafo eu supunha igual de rei medrasse
- Em garbo, esforço e mente; mas, iluso
- Por imortal ou por humano, a Pilos
- Do pai foi-se em procura, e à volta os procos
- O incidiam cruéis, para que arranquem
- Da ilha a estirpe do divino Arcésio.
- Basta; se escape ou não, toca ao destino,
- E o Satúrnio o proteja. Ora me explanes
- Quem és, de que família, de que terra,
- Os infortúnios teus; que exímios nautas
- E em que navio aqui te conduziram?
- A Ítaca não creio a pé viesses.”
- Começa Ulisses: “Narrarei sincero.
- Se de espaço a lograr teu vinho e pasto,
- Incumbido o serviço a outros sendo,
- Fôssemos nesta choça, inda que um giro
- Decorresse anual, não me era fácil
- Expor as penas que infligiu-me a sorte.
- “O Hilácides Castor, na extensa Creta.
- Gerou-me numa pelice comprada,
- E a par de seus legítimos criou-me
- E honrava em seu palácio; é glória minha
- De um pai vir dos Cretenses endeusado,
- Por opulência e muita clara prole.
- No Orco o sumiu fatal necessidade:
- Meus irmãos tudo em lotes partilharam,
- Escassos bens e um teto me cederam.
- Casei por meu valor com rica herdeira,
- Pois fugaz, nunca fui nem vil e inerte:
- Posto porém que as forças me falecem,
- De tamanha miséria quebrantadas,
- Pela palha avalia o que era a messe.
- De Mavorte e Minerva obtive audácia:
- Hostes rompi; se, infenso e belicoso
- Da emboscada elegia os camaradas,
- Nunca da morte o horror se me antolhava;
- Sempre avante, os contrários punha em fuga,
- De lança indo alcançando os mais ronceiros:
- Tal em combates fui. Nunca me aprouve
- Na família cuidar, cuidar nos filhos;
- Sonhava em remos, naus, zargunchos, frechas,
- Em petrechos de guerra sanguinosos:
- Dos homens são diversos os prazeres;
- Um deus nesse meu ânimo cevava.
- Antes de irmos a Tróia, vezes nove
- Regi corsários: da escolhida presa,
- Aos matalotes sorteado o resto,
- Locupletou-se a casa, e entre os Cretenses
- Tive grande renome e autoridade.
- Mas, decretando Jove aquela empresa
- Tão matadoura, os povos me expediram
- Adido a Idomeneu; sem resistirmos,
- Que o público rumor nos obrigava,
- Velejamos. Nove anos pelejou-se:
- Ao décimo, assolada Ílio Priaméia,
- Dispersa no regresso a frota Aquiva,
- Ai! guardou-me o Satúrnio outros pesares!
- “Um mês único estando em meus haveres
- Com filhos e a mulher que esposei virgem,
- A vogar para o Egito inclino a idéia,
- E nove embarcações tripulo em breve,
- Reses degolo e sagro; os divos sócios
- De solenes festins seis dias gozam.
- De Creta largo ao sétimo, e do puro
- Bóreas ao fresco alento, qual se fosse
- Veia abaixo, aportamos sem perigo,
- Aos pilotos e ao vento encomendados.
- À quinta singradura o Egito enxergo,
- No rio surjo caudaloso e belo;
- Exorto a se manter a bordo a gente,
- E encalho as naus flutívagas, mandando
- À terra exploradores. Estes loucos,
- A impulsos do apetite, agros depredam,
- Matam, mulheres e crianças roubam:
- Mas, ao rumor, de madrugada acorrem
- Éqüites e peões erifulgentes
- Que enchem toda a campina e o Fulminante
- Medo incutindo aos meus, nenhum resiste;
- Cercados, parte a bronze agudo acaba,
- É reduzido o resto a cativeiro.
- Mesmo o deus (mais valera que eu no Egito
- Falecesse e os trabalhos atalhasse)
- Isto inspirou-me: o elmo da cabeça,
- Do ombro tiro o broquel, deponho a lança;
- Do rei boto-me ao coche e as plantas beijo.
- Com mágoa do meu pranto, ele consigo
- Dirigiu-me a seu paço; e, bem que de hastas
- O sanhoso tropel me acometia,
- Contê-los soube, atento ao Padre sumo,
- Às injúrias dos hóspedes avesso.
- “Sete anos lá no Egito enriquei muito,
- Pois muito me brindavam; mas, no oitavo,
- Cadimo comilão, vezeiro e useiro,
- Induziu-me à Fenícia pátria sua,
- E me reteve. As estações volveram;
- Para ajudá-lo na descarga, à Líbia
- Fingido o avaro me arrastou, vender-me
- Tencionando: embarco suspeitoso.
- Creta avistamos com sereno Bóreas;
- Mas, alagada a ilha, os céus e o ponto
- Sós nos rodeiam; Júpiter cerúlea
- Grossa nuvem desfecha, ofusca os mares,
- Fuzila, toa; um raio a nau revira
- E enxofra toda; a gente cai nas ondas,
- Como alcatrazes de redor flutuam,
- Da volta os priva um deus; que, em tanta afronta,
- No mastro me salvou. Nele abracei-me
- Dias nove, e à dezena escura noite,
- Quase a morrer de frio e de fadiga,
- Arrojou-me à Tesprócia um rolo d’água.
- Do régio herói Fídon o amado filho,
- Levantando-me, ao pai guiou-me afável,
- Que me proveu de túnica e vestidos.
- “Lá foi que ao bom monarca ouvi de Ulisses,
- Hóspede seu; mostrou-me os dons em cópia,
- De ouro, de bronze ou trabalhado ferro,
- Para dez gerações talvez sobejos:
- Em depósito achavam-se no erário,
- Dês que ao Dodônio falador carvalho
- Foi-se o Laércio demandar a Jove
- Se, após tão largo tempo, aqui regresse
- Oculta ou claramente. O rei jurou-me,
- Com libações, que a nau já tinha prestes
- E a companha que à pátria o conduzissem.
- “Fídon, sendo teu amo inda em consulta,
- Num Tesprócio navio, que a Dulíquio
- Frumentária partia, remeteu-me
- À real proteção do ilustre Acasto;
- Mas, com malvado arbítrio, ao largo a gente,
- Maquinando afundir-me em servil dia,
- Despojam-me, e o que vês grosseiro trapo
- Vestem-me e este gabão. Na tarde abordam,
- Prendem-me à toste com torcida corda,
- Saltam para cear na praia amena:
- Fácil os mesmos deuses me desatam;
- À cabeça o capuz, do leme ao fio
- N’água deslizo, a braços remo e nado;
- Inadvertido escapo, terra tomo,
- De flório carvalhal me estiro à copa.
- A suspirar procuram-me, e cansados
- Vogam de novo: o Céu, pois meu destino
- Inda é viver, manteve-me escondido,
- E a benfazejo teto encaminhou-me.”
- E Eumeu: “Tal vaguear, tanto infortúnio,
- Me abalou. Só de Ulisses nada creio:
- Homem cordato, como assim mentiste?
- Balda esperança! Em Tróia o Céu vedou-lhe
- Morte egrégia ou nos braços dos amigos:
- Honrara ao filho o túmulo exalçado,
- E as harpias inglório o têm roído!
- Solitário entre os porcos, só me movo
- Da prudente Penélope ao chamado,
- Quando há qualquer notícia. Os que a ladeiam,
- Ou chorem meu senhor ou se comprazam
- De gastar-lhe a fazenda, me interrogam:
- Nada investigo, dês que um vago Etólio,
- Neste alvergue hospedado por homizio,
- Jurou que o viu na régia, estando em Creta
- As naus a reparar de uma tormenta:
- Que no estio ou no outono aqui seria
- Com imensa fortuna e os divos sócios.
- E tu, velho infeliz, que o deus me envia,
- Não penses me agradar com tais embustes:
- Não te honrarei nem te amarei por eles,
- Sim porque temo a Jove e hei de ti mágoa.”
- Ulisses replicou: “Nem juramentos
- Vencem-te a pertinácia! Ante os Supremos,
- Sacro ajuste se firme: a vir teu amo,
- Segundo os meus desejos, me transportes,
- Com manto novo e túnica, a Dulíquio;
- Senão, de alto os ajudas me despenhem,
- Para que outro mendigo não te engane.”
- Logo o pastor: “Minha virtude e fama
- Agora e no porvir se manchariam.
- Como! a vida arrancar-te, neste asilo
- Depois de te acolher! Ao grã Tonante
- Nunca mais suplicar me atreveria.
- Hora é de ceia, e os sócios cá não tardam,
- Para mais abundante a prepararmos.”
- Chegam nisto os serventes, e as manadas
- A pernoitar encerram nos chiqueiros,
- Que ressoam de roncos e grunhidos.
- Insta-os o maioral: “Trazei-me um porco
- Ótimo, que, imolado ao peregrino,
- Regale-nos também, já que albidentes
- Animais com fadiga pastoramos
- E outros sem trabalhar impune os comem.”
- Eis racha a bronze a lenha, e ao lar presentam
- Um quinquene cevado. Não se esquece
- Dos imortais; raspa da nuca o pêlo,
- Queima em primícias, do amo a volta implora.
- Um troço de carvalho não fendido
- Na rês descarga; sangram-na, chamuscam,
- Desentranham, dividem; na gordura
- Eumeu porções do corpo todo envolve
- E ao fogo os põe de farro apolvilhadas;
- As postas a preceito assam de espeto;
- E, do brasido à mesa vindo as carnes,
- Alçado o justo Eumeu, conforme ao rito,
- Forma sete quinhões: um vota às ninfas
- E ao que nasceu de Maia, e os mais reparte
- A cada comensal; o dorso inteiro
- Do albidente por honra a Ulisses coube,
- Que em júbilo exclamou: “Dileto a Jove
- Tanto fosses, Eumeu, quanto me és caro.
- Tu que nesta miséria assim me tratas!”
- “Do que há, disse o pastor, come a teu gosto
- O deus, hóspede egrégio, os bens outorga,
- Ou tira a seu prazer, pois tudo pode.”
- E as primícias oferta aos Sempiternos,
- Liba, o copo ao turrífrago sentado
- Junto ao quinhão transmite. Os pães Melausio
- Distribui, que o pastor, ausente Ulisses,
- Sem sabê-lo Penélope ou Laertes,
- Do seu comprara aos Táfios. Satisfeitas
- Sede e fome, levanta o escravo a mesa,
- E os convivas contentes vão deitar-se.
- Brusca a noite, chovia sempre Jove,
- Mádido sempre o Zéfiro espirava;
- Por tentar se o capote lhe conceda
- Solícito o pastor, ou qualquer outro,
- Um conto Ulisses tece: “Eumeu, vós todos,
- Escutai-me a vanglória; pois com vinho
- Doudeja o sábio, cantarola e dança,
- Ri solto, parla o que era bom calasse:
- Ora desato a língua, e nada encubro.
- Oh! saúde eu tivesse e o vigor d’antes,
- Ao pormo-nos em Tróia de emboscada!
- Ulisses comandava e o louro Atrida,
- Sendo eu terceiro por escolha de ambos.
- Ante o muro jazíamos armados,
- Entre urzes e morraças pantanosas;
- Bóreas esfria o tempo, geia e neva,
- Encaramela o arnez; de escudo aos ombros,
- Dormindo os mais embrulham-se em capotes;
- O meu tinha esquecido, não cuidoso
- De que gelasse, e de broquel e banda
- Nítida vim somente. Um terço a noite
- Já decorria, os astros resvalavam;
- O cotovelo do vizinho Ulisses,
- Que prestes me sentiu, belisco e falo:
- — Solerte herói, domado pelo inverno
- Vai-se-me a vida: falta-me o capote;
- Que a túnica bastava persuadiu-me
- Algum demônio, e agora é sem remédio. —
- “Ele, exímio no prélio e no conselho,
- Com pronto aviso em baixa voz responde:
- Cal-te não te ouça a escolta. — E ao braço e punho
- Apoiando a cabeça: — Amigos, disse,
- Visão divina o sono interrompeu-me;
- Longe estamos da frota; alguém se apresse
- A pedir a Agamemnon um reforço. —
- Lesto levanta-se o Andremônio Toas,
- Larga o purpúreo manto e à frota corre;
- Seu manto enfio, e durmo até que fulge
- A aurora em trono de ouro. Ah! se eu tivesse
- Aquela idade e força, um dos pastores
- Me daria um capote, em reverência
- Ao homem de valor; mas, roto e velho,
- Pouco socorro espero e poucas honras.”
- Acode Eumeu: “Foi guapa a tua história
- Nem discorreste em vão, cordato amigo.
- Não te faleça roupa, ou cousa alguma
- Que há mister suplicante peregrino;
- Mas teus andrajos de manhã retoma;
- De muda nada temos, uma andaina
- De roupa há cada qual. Em vindo o filho
- De Ulisses, te dará túnica e manto,
- E os meios de partir para onde queiras.”
- Nisto, ao fogão lhe achega e alastra a cama,
- Que de espólios cabruns e ovelhuns cobre;
- Deita-lhe em cima o gabinardo espesso
- Que em temporais tremendos envergava.
- O herói se estira, muito perto os moços;
- Porém não pôde Eumeu longe dos porcos
- Pegar no sono, e, com prazer de Ulisses
- De que houvesses tal zelo em sua ausência,
- Para sair cortante espada ombreia,
- Veste albornoz ao vento impenetrável,
- Mais uma pele de crescida cabra;
- Contra os mastins e os malfazejos dardo
- Rijo empunha, e dormir foi com seus porcos
- Em caverna de Bóreas abrigada.