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OdisseiaLivro XIV
LivroXIV

O herói, por serros e áspera azinhaga

420 versos · 4 notas do tradutor


  1. O herói, por serros e áspera azinhaga,
  2. Segue do porto, à selva, o divo busca
  3. Leal pastor, que lhe afirmou Tritônia
  4. Ser dos escravos dele o mais zeloso.
  5. Achava-se ao portal, num sítio alegre
  6. Onde, n’ausência do amo, edificara,
  7. Sem da senhora auxílio ou de Laertes,
  8. Vistoso amplo curral de pedra ensossa;
  9. De espinho sebe em roda, e cerca de achas
  10. Do cerne de carvalho externa havia.
  11. Na área em chiqueiros doze conchegados,
  12. Em cada qual cinqüenta, se espojavam
  13. Prenhes porcas; dormiam fora os machos,
  14. Poucos, pois de contínuo aos pretendentes
  15. O mais nédio cevado remetia:
  16. Trezentos e sessenta eram por todos.
  17. Ao pé jaziam quatro cães de fila,
  18. Pelo porqueiro maioral mantidos.
  19. Este a seus pés talhava umas sandálias
  20. De táureo tinto coiro; três ajudas
  21. As varas pastorar, mandara o quarto
  22. Conduzir constrangido um bom capado,
  23. Que na régia a gulosos recheasse.
  24. Ladrando os brabos cães a Ulisses correm,
  25. Que assenta-se manhoso e o bordão larga;
  26. Mas vítima seria, se o porqueiro,
  27. Cair deixando o coiro, à pressa e em gritos
  28. Não viesse a pedradas enchotá-los.
  29. E a ele se virou: “Meus cães, ó velho,
  30. Quase, por meu labéu, que te espedaçam,
  31. E os deuses de outras penas me acabrunham:
  32. Choro a engordar os cerdos para estranhos,
  33. E o meu divo senhor quiçá faminto
  34. Vaga de povo em povo, se é que vive
  35. E goza a luz do Sol. Comida e vinho
  36. Terás naquela choça, e tu repleto,
  37. Me refiras teus males e aventuras.”
  38. Na choça introduzido, em ramas densas,
  39. De agreste cabra com velosa pele,
  40. Do porqueiro acamadas, pousa Ulisses,
  41. E lho agradece: “Abençoado amigo,
  42. Compensem-te os Supremos o agasalho.”
  43. Tu respondeste, Eumeu: “Ninguém desprezo,
  44. Qualquer acolherei de ti somenos;
  45. Jove os mendigos e hóspedes protege,
  46. Aprova os tênues dons que a medo faço,
  47. Pobre servo, a mancebo submetido!
  48. O Céu de meu senhor veda o regresso,
  49. Que tanto me queria, e, como é de uso
  50. Para com bons escravos laboriosos,
  51. A envelhecer aqui, me enriquecera
  52. Com mulher e pecúlio, pois os deuses
  53. Têm prosperado meu serviço. Ai dele!
  54. Pereça toda a geração de Helena,
  55. Dano e exício de heróis! Para essa Tróia
  56. Também foi meu senhor vingar o Atrida.”
  57. E ataca mal o cinto, e dous farroupos
  58. Trazendo, os mata e lhes chamusca pêlo,
  59. Corta, espeta, e no espeto o assado quente
  60. Oferece e apolvilha de farinha;
  61. Vinho melífluo em copo de sobreiro
  62. Mistura, à face do hóspede se assenta:
  63. “Anda, ora come do que aos servos cabe;
  64. Os cevados aos procos se reservam,
  65. Que do castigo olvidam-se impiedosos.
  66. Néscios! os numes a violência odeiam
  67. E a virtude honram só. De alheias plagas
  68. Invasores hostis, que em naus de espólios
  69. Onustas partem pôr favor de Jove,
  70. Temem-se do castigo; os procos, julgo,
  71. Voz divina informou da triste morte.
  72. Nenhum de núpcias trata ou de ir-se embora,
  73. Todos em voraz ócio os bens estragam:
  74. Uma nem duas vítimas lhes bastam;
  75. Noites e dias, quantos Jove alterna,
  76. Consomem carnes, ânforas esgotam.
  77. Em Ítaca e no escuro continente,
  78. Não há magnata que possua tanto,
  79. Nem vinte juntos; a resenha escuta:
  80. Pastam-lhe em terra firme doze armentos,
  81. E há porcadas iguais, iguais rebanhos,
  82. Vastos cabruns encerros, com pastores
  83. De fora ou do país; nesta ilha mesma,
  84. Guardam fiéis cabreiros onze fatos,
  85. E eu rejo estas pocilgas. Nós forçados,
  86. Pensão quotidiana, remetemos
  87. A mais nédia cabeça a tais senhores.”
  88. Tácito Ulisses come e ávido bebe,
  89. Ideando a vingança; e, confortado,
  90. A copa do porqueiro aceita plena,
  91. Jubiloso e veloz: “Rico era e forte
  92. Quem te comprou, qual, hóspede, o apregoas?
  93. Morto o crês pela causa de Agamemnon:
  94. Talvez o conhecesse eu vagamundo;
  95. Sabe a etérea mansão, quando o nomeies,
  96. Se ocultar testemunho em mim depares.”
  97. “Velho, constesta Eumeu, não mais se apoiam
  98. Em peregrino algum a esposa e o filho:
  99. Quanto são mentirosos os mendigos!
  100. A senhora os socorre e asila e inquire;
  101. Mas incrédula geme, qual viúva
  102. Que lamenta o marido ao longe extinto.
  103. Urdir hoje uma fábula pretendes,
  104. Para de capa e túnica mudares?
  105. As entranhas cães e aves lhe tragaram,
  106. Ou, dos peixes roído, a vaga os ossos
  107. Lançou-lhe à praia e os cobre densa areia.
  108. Morreu, morreu, deixando em luto amigos,
  109. Mormente a mim, que o não terei tão brando,
  110. Nem que de pai e mãe voltasse à casa,
  111. Onde a luz vi primeiro e me criaram:
  112. Tão saudoso os não choro e a pátria amada,
  113. Como Ulisses me lembra. Até receio,
  114. Pois tanto me estimava e destinguia,
  115. N’ausência nomeá-lo, irmão n’ausência
  116. Mais velho o chamo, a suspirar por ele.”
  117. E o divo herói: “Bem que emperrado o negues,
  118. Não temerário to assevero e juro,
  119. Ulisses vem; de alvíçaras me aprontas
  120. Capa e túnica, inteira vestidura;
  121. Mas, inda que indigente, o prêmio enjeito,
  122. Antes que ele se mostre em seu palácio:
  123. Como do inferno as portas, abomino
  124. Falácias da pobreza. Atesto Jove,
  125. De teu amo o lar puro a que me encosto
  126. E a mesa hospitaleira, o anúncio é vero:
  127. Neste ano e lua mesma, ou na vindoura,
  128. Cá de retorno, punirá severo
  129. Os ultrajes da esposa e de seu filho.”
  130. Não ganharás alvíçaras, meu velho,
  131. Ajunta Eumeu; não conto mais com ele.
  132. Bebe tranqüilo; outras lembranças volve,
  133. Que este assunto angustia-me e contrista.
  134. Juramentos a parte, oh! se viesse,
  135. Qual o anelo, Penélope e Laertes,
  136. E o deiforme Telêmaco. Esta agora
  137. Única planta choro, que ao celeste
  138. Bafo eu supunha igual de rei medrasse
  139. Em garbo, esforço e mente; mas, iluso
  140. Por imortal ou por humano, a Pilos
  141. Do pai foi-se em procura, e à volta os procos
  142. O incidiam cruéis, para que arranquem
  143. Da ilha a estirpe do divino Arcésio.
  144. Basta; se escape ou não, toca ao destino,
  145. E o Satúrnio o proteja. Ora me explanes
  146. Quem és, de que família, de que terra,
  147. Os infortúnios teus; que exímios nautas
  148. E em que navio aqui te conduziram?
  149. A Ítaca não creio a pé viesses.”
  150. Começa Ulisses: “Narrarei sincero.
  151. Se de espaço a lograr teu vinho e pasto,
  152. Incumbido o serviço a outros sendo,
  153. Fôssemos nesta choça, inda que um giro
  154. Decorresse anual, não me era fácil
  155. Expor as penas que infligiu-me a sorte.
  156. “O Hilácides Castor, na extensa Creta.
  157. Gerou-me numa pelice comprada,
  158. E a par de seus legítimos criou-me
  159. E honrava em seu palácio; é glória minha
  160. De um pai vir dos Cretenses endeusado,
  161. Por opulência e muita clara prole.
  162. No Orco o sumiu fatal necessidade:
  163. Meus irmãos tudo em lotes partilharam,
  164. Escassos bens e um teto me cederam.
  165. Casei por meu valor com rica herdeira,
  166. Pois fugaz, nunca fui nem vil e inerte:
  167. Posto porém que as forças me falecem,
  168. De tamanha miséria quebrantadas,
  169. Pela palha avalia o que era a messe.
  170. De Mavorte e Minerva obtive audácia:
  171. Hostes rompi; se, infenso e belicoso
  172. Da emboscada elegia os camaradas,
  173. Nunca da morte o horror se me antolhava;
  174. Sempre avante, os contrários punha em fuga,
  175. De lança indo alcançando os mais ronceiros:
  176. Tal em combates fui. Nunca me aprouve
  177. Na família cuidar, cuidar nos filhos;
  178. Sonhava em remos, naus, zargunchos, frechas,
  179. Em petrechos de guerra sanguinosos:
  180. Dos homens são diversos os prazeres;
  181. Um deus nesse meu ânimo cevava.
  182. Antes de irmos a Tróia, vezes nove
  183. Regi corsários: da escolhida presa,
  184. Aos matalotes sorteado o resto,
  185. Locupletou-se a casa, e entre os Cretenses
  186. Tive grande renome e autoridade.
  187. Mas, decretando Jove aquela empresa
  188. Tão matadoura, os povos me expediram
  189. Adido a Idomeneu; sem resistirmos,
  190. Que o público rumor nos obrigava,
  191. Velejamos. Nove anos pelejou-se:
  192. Ao décimo, assolada Ílio Priaméia,
  193. Dispersa no regresso a frota Aquiva,
  194. Ai! guardou-me o Satúrnio outros pesares!
  195. “Um mês único estando em meus haveres
  196. Com filhos e a mulher que esposei virgem,
  197. A vogar para o Egito inclino a idéia,
  198. E nove embarcações tripulo em breve,
  199. Reses degolo e sagro; os divos sócios
  200. De solenes festins seis dias gozam.
  201. De Creta largo ao sétimo, e do puro
  202. Bóreas ao fresco alento, qual se fosse
  203. Veia abaixo, aportamos sem perigo,
  204. Aos pilotos e ao vento encomendados.
  205. À quinta singradura o Egito enxergo,
  206. No rio surjo caudaloso e belo;
  207. Exorto a se manter a bordo a gente,
  208. E encalho as naus flutívagas, mandando
  209. À terra exploradores. Estes loucos,
  210. A impulsos do apetite, agros depredam,
  211. Matam, mulheres e crianças roubam:
  212. Mas, ao rumor, de madrugada acorrem
  213. Éqüites e peões erifulgentes
  214. Que enchem toda a campina e o Fulminante
  215. Medo incutindo aos meus, nenhum resiste;
  216. Cercados, parte a bronze agudo acaba,
  217. É reduzido o resto a cativeiro.
  218. Mesmo o deus (mais valera que eu no Egito
  219. Falecesse e os trabalhos atalhasse)
  220. Isto inspirou-me: o elmo da cabeça,
  221. Do ombro tiro o broquel, deponho a lança;
  222. Do rei boto-me ao coche e as plantas beijo.
  223. Com mágoa do meu pranto, ele consigo
  224. Dirigiu-me a seu paço; e, bem que de hastas
  225. O sanhoso tropel me acometia,
  226. Contê-los soube, atento ao Padre sumo,
  227. Às injúrias dos hóspedes avesso.
  228. “Sete anos lá no Egito enriquei muito,
  229. Pois muito me brindavam; mas, no oitavo,
  230. Cadimo comilão, vezeiro e useiro,
  231. Induziu-me à Fenícia pátria sua,
  232. E me reteve. As estações volveram;
  233. Para ajudá-lo na descarga, à Líbia
  234. Fingido o avaro me arrastou, vender-me
  235. Tencionando: embarco suspeitoso.
  236. Creta avistamos com sereno Bóreas;
  237. Mas, alagada a ilha, os céus e o ponto
  238. Sós nos rodeiam; Júpiter cerúlea
  239. Grossa nuvem desfecha, ofusca os mares,
  240. Fuzila, toa; um raio a nau revira
  241. E enxofra toda; a gente cai nas ondas,
  242. Como alcatrazes de redor flutuam,
  243. Da volta os priva um deus; que, em tanta afronta,
  244. No mastro me salvou. Nele abracei-me
  245. Dias nove, e à dezena escura noite,
  246. Quase a morrer de frio e de fadiga,
  247. Arrojou-me à Tesprócia um rolo d’água.
  248. Do régio herói Fídon o amado filho,
  249. Levantando-me, ao pai guiou-me afável,
  250. Que me proveu de túnica e vestidos.
  251. “Lá foi que ao bom monarca ouvi de Ulisses,
  252. Hóspede seu; mostrou-me os dons em cópia,
  253. De ouro, de bronze ou trabalhado ferro,
  254. Para dez gerações talvez sobejos:
  255. Em depósito achavam-se no erário,
  256. Dês que ao Dodônio falador carvalho
  257. Foi-se o Laércio demandar a Jove
  258. Se, após tão largo tempo, aqui regresse
  259. Oculta ou claramente. O rei jurou-me,
  260. Com libações, que a nau já tinha prestes
  261. E a companha que à pátria o conduzissem.
  262. “Fídon, sendo teu amo inda em consulta,
  263. Num Tesprócio navio, que a Dulíquio
  264. Frumentária partia, remeteu-me
  265. À real proteção do ilustre Acasto;
  266. Mas, com malvado arbítrio, ao largo a gente,
  267. Maquinando afundir-me em servil dia,
  268. Despojam-me, e o que vês grosseiro trapo
  269. Vestem-me e este gabão. Na tarde abordam,
  270. Prendem-me à toste com torcida corda,
  271. Saltam para cear na praia amena:
  272. Fácil os mesmos deuses me desatam;
  273. À cabeça o capuz, do leme ao fio
  274. N’água deslizo, a braços remo e nado;
  275. Inadvertido escapo, terra tomo,
  276. De flório carvalhal me estiro à copa.
  277. A suspirar procuram-me, e cansados
  278. Vogam de novo: o Céu, pois meu destino
  279. Inda é viver, manteve-me escondido,
  280. E a benfazejo teto encaminhou-me.”
  281. E Eumeu: “Tal vaguear, tanto infortúnio,
  282. Me abalou. Só de Ulisses nada creio:
  283. Homem cordato, como assim mentiste?
  284. Balda esperança! Em Tróia o Céu vedou-lhe
  285. Morte egrégia ou nos braços dos amigos:
  286. Honrara ao filho o túmulo exalçado,
  287. E as harpias inglório o têm roído!
  288. Solitário entre os porcos, só me movo
  289. Da prudente Penélope ao chamado,
  290. Quando há qualquer notícia. Os que a ladeiam,
  291. Ou chorem meu senhor ou se comprazam
  292. De gastar-lhe a fazenda, me interrogam:
  293. Nada investigo, dês que um vago Etólio,
  294. Neste alvergue hospedado por homizio,
  295. Jurou que o viu na régia, estando em Creta
  296. As naus a reparar de uma tormenta:
  297. Que no estio ou no outono aqui seria
  298. Com imensa fortuna e os divos sócios.
  299. E tu, velho infeliz, que o deus me envia,
  300. Não penses me agradar com tais embustes:
  301. Não te honrarei nem te amarei por eles,
  302. Sim porque temo a Jove e hei de ti mágoa.”
  303. Ulisses replicou: “Nem juramentos
  304. Vencem-te a pertinácia! Ante os Supremos,
  305. Sacro ajuste se firme: a vir teu amo,
  306. Segundo os meus desejos, me transportes,
  307. Com manto novo e túnica, a Dulíquio;
  308. Senão, de alto os ajudas me despenhem,
  309. Para que outro mendigo não te engane.”
  310. Logo o pastor: “Minha virtude e fama
  311. Agora e no porvir se manchariam.
  312. Como! a vida arrancar-te, neste asilo
  313. Depois de te acolher! Ao grã Tonante
  314. Nunca mais suplicar me atreveria.
  315. Hora é de ceia, e os sócios cá não tardam,
  316. Para mais abundante a prepararmos.”
  317. Chegam nisto os serventes, e as manadas
  318. A pernoitar encerram nos chiqueiros,
  319. Que ressoam de roncos e grunhidos.
  320. Insta-os o maioral: “Trazei-me um porco
  321. Ótimo, que, imolado ao peregrino,
  322. Regale-nos também, já que albidentes
  323. Animais com fadiga pastoramos
  324. E outros sem trabalhar impune os comem.”
  325. Eis racha a bronze a lenha, e ao lar presentam
  326. Um quinquene cevado. Não se esquece
  327. Dos imortais; raspa da nuca o pêlo,
  328. Queima em primícias, do amo a volta implora.
  329. Um troço de carvalho não fendido
  330. Na rês descarga; sangram-na, chamuscam,
  331. Desentranham, dividem; na gordura
  332. Eumeu porções do corpo todo envolve
  333. E ao fogo os põe de farro apolvilhadas;
  334. As postas a preceito assam de espeto;
  335. E, do brasido à mesa vindo as carnes,
  336. Alçado o justo Eumeu, conforme ao rito,
  337. Forma sete quinhões: um vota às ninfas
  338. E ao que nasceu de Maia, e os mais reparte
  339. A cada comensal; o dorso inteiro
  340. Do albidente por honra a Ulisses coube,
  341. Que em júbilo exclamou: “Dileto a Jove
  342. Tanto fosses, Eumeu, quanto me és caro.
  343. Tu que nesta miséria assim me tratas!”
  344. “Do que há, disse o pastor, come a teu gosto
  345. O deus, hóspede egrégio, os bens outorga,
  346. Ou tira a seu prazer, pois tudo pode.”
  347. E as primícias oferta aos Sempiternos,
  348. Liba, o copo ao turrífrago sentado
  349. Junto ao quinhão transmite. Os pães Melausio
  350. Distribui, que o pastor, ausente Ulisses,
  351. Sem sabê-lo Penélope ou Laertes,
  352. Do seu comprara aos Táfios. Satisfeitas
  353. Sede e fome, levanta o escravo a mesa,
  354. E os convivas contentes vão deitar-se.
  355. Brusca a noite, chovia sempre Jove,
  356. Mádido sempre o Zéfiro espirava;
  357. Por tentar se o capote lhe conceda
  358. Solícito o pastor, ou qualquer outro,
  359. Um conto Ulisses tece: “Eumeu, vós todos,
  360. Escutai-me a vanglória; pois com vinho
  361. Doudeja o sábio, cantarola e dança,
  362. Ri solto, parla o que era bom calasse:
  363. Ora desato a língua, e nada encubro.
  364. Oh! saúde eu tivesse e o vigor d’antes,
  365. Ao pormo-nos em Tróia de emboscada!
  366. Ulisses comandava e o louro Atrida,
  367. Sendo eu terceiro por escolha de ambos.
  368. Ante o muro jazíamos armados,
  369. Entre urzes e morraças pantanosas;
  370. Bóreas esfria o tempo, geia e neva,
  371. Encaramela o arnez; de escudo aos ombros,
  372. Dormindo os mais embrulham-se em capotes;
  373. O meu tinha esquecido, não cuidoso
  374. De que gelasse, e de broquel e banda
  375. Nítida vim somente. Um terço a noite
  376. Já decorria, os astros resvalavam;
  377. O cotovelo do vizinho Ulisses,
  378. Que prestes me sentiu, belisco e falo:
  379. — Solerte herói, domado pelo inverno
  380. Vai-se-me a vida: falta-me o capote;
  381. Que a túnica bastava persuadiu-me
  382. Algum demônio, e agora é sem remédio. —
  383. “Ele, exímio no prélio e no conselho,
  384. Com pronto aviso em baixa voz responde:
  385. Cal-te não te ouça a escolta. — E ao braço e punho
  386. Apoiando a cabeça: — Amigos, disse,
  387. Visão divina o sono interrompeu-me;
  388. Longe estamos da frota; alguém se apresse
  389. A pedir a Agamemnon um reforço. —
  390. Lesto levanta-se o Andremônio Toas,
  391. Larga o purpúreo manto e à frota corre;
  392. Seu manto enfio, e durmo até que fulge
  393. A aurora em trono de ouro. Ah! se eu tivesse
  394. Aquela idade e força, um dos pastores
  395. Me daria um capote, em reverência
  396. Ao homem de valor; mas, roto e velho,
  397. Pouco socorro espero e poucas honras.”
  398. Acode Eumeu: “Foi guapa a tua história
  399. Nem discorreste em vão, cordato amigo.
  400. Não te faleça roupa, ou cousa alguma
  401. Que há mister suplicante peregrino;
  402. Mas teus andrajos de manhã retoma;
  403. De muda nada temos, uma andaina
  404. De roupa há cada qual. Em vindo o filho
  405. De Ulisses, te dará túnica e manto,
  406. E os meios de partir para onde queiras.”
  407. Nisto, ao fogão lhe achega e alastra a cama,
  408. Que de espólios cabruns e ovelhuns cobre;
  409. Deita-lhe em cima o gabinardo espesso
  410. Que em temporais tremendos envergava.
  411. O herói se estira, muito perto os moços;
  412. Porém não pôde Eumeu longe dos porcos
  413. Pegar no sono, e, com prazer de Ulisses
  414. De que houvesses tal zelo em sua ausência,
  415. Para sair cortante espada ombreia,
  416. Veste albornoz ao vento impenetrável,
  417. Mais uma pele de crescida cabra;
  418. Contra os mastins e os malfazejos dardo
  419. Rijo empunha, e dormir foi com seus porcos
  420. Em caverna de Bóreas abrigada.

Nota a nota · 4 notas

v. 21–57As varas pastorar, mandara o quarto ⋯ E ataca mal o cinto, e dous farroupos
Vara de porcos, não vem em Constâncio, posto que venha em Morais, e que Lobo, na Corte na Aldeia, diga ser o mais próprio para significar a reunião destes animais. — Eumeu, com a pressa de ir buscar sustento para o hóspede, aperta mal o cinto. M. Giguet diz: “Eumée relève sa tunique, qu’il passe dans sa ceinture.” Diz Pindemonte: “La tunica si strinse col cinto, et alle spalle in freta mosse.” Nem um nem outro, parece-me, exprimiu o pensamento: o essencial e o belo é ter o pastor, com o afogo de servir o seu hóspede, atacado mal o cinto, para não perder tempo. Esta passagem assim entendida, como é forçoso que o seja à vista do texto, foi louvada por Chateaubriand.
↩ voltar à passagem, v. 21
v. 182–186Antes de irmos a Tróia, vezes nove
É antiquíssimo o costume de não se atender ao modo por que se ganhou a fortuna: fosse por furtos, vexações, pirataria, pouco importa; há dinheiro, e basta. Não raramente, as condecorações e os títulos vêm dourar o baixo metal de que se compõem certas riquezas; e no futuro os descendentes honrar-se-ão do negro tronco donde procedem.
↩ voltar à passagem, v. 182
v. 237Mas, alagada a ilha, os céus e o ponto
Alagar-se a terra é frase marítima, assim como arrasar-se, para exprimir que ela com o andar do navio tem desaparecido: falta nos dicionários.
↩ voltar ao verso 237
v. 409–416Deita-lhe em cima o gabinardo espesso
Gabinarda, ou gabinardo como dizem Filinto e outros, é um grande capote de mangas; vem em Morais e não em Constâncio. Quanto a albornoz, capa aguadeira de capuz, eu assim o pronuncio pelas razões do mesmo Constâncio, e não albernoz, como escrevem com Filinto alguns autores.
↩ voltar à passagem, v. 409
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