Despe os trapos o herói, pula à soleira
372 versos · 6 notas do tradutor
- Despe os trapos o herói, pula à soleira
- De arco e de aljava, e aos pés derrama as frechas,
- Dizendo aos procos: “A árdua empresa é finda;
- Num alvo nunca dantes alcançado
- A mira tenho, e dê-me glória Febo.”
- A Antino aqui dispara o tiro acerbo,
- Quando ele as duas asas d’áurea taça
- Maneava, e o licor ia empinando,
- Não cuidoso da morte. Quem previra
- Que entre muitos um só, famoso embora,
- À Parca o renderia? A ponta o vara
- Da goela à cerviz tenra; ao golpe, Antino
- Deixa a taça cair, de ilharga tomba;
- Sangue das ventas jorra, e a pés convulso
- A mesa empurra; espalha-se a comida,
- Suja-se a carne e o pão. Ferve o tumulto;
- Erguem-se alvorotados, procurando
- Em vão, pelas paredes esculpidas,
- Escudo ou lança, em cólera fremiam:
- “Que! forasteiro, aos homens é que apontas!
- Final proeza: abutres vão tragar-te;
- Mataste a flor dos Ítacos mancebos.
- Louco! acidental suponho o caso,
- Nenhum tão iminente o fado cria”;
- Mas carrancudo Ulisses: “Cães! julgando
- Que eu de Ílio não viesse, consumida
- Nossa fazenda, as servas estupráveis,
- E de um vivo a consorte pretendíeis,
- Sem pejo nem temor de homens e deuses!
- Agora transporei o umbral da morte.”
- Susto e palor os cobre; olhando buscam
- Algum refúgio, e Eurímaco responde:
- “Se és na verdade Ulisses Itacense,
- Tens razão, porque os Dânoas cometeram
- Neste paço e no campo iniqüidades.
- Mas ali jaz quem foi de tudo causa,
- Antino: a tais ofensas induziu-nos,
- Por amor não das núpcias, por cobiça
- E ambição de reinar; quis de teu filho,
- O que o Satúrnio lhe tolheu, dar cabo.
- As traições expiou; poupa teus povos.
- Será pública a emenda, e prometemos,
- Pagando quanto aqui te consumimos,
- Cada um com vinte bois satisfazer-te,
- Com ouro e bronze que teu peito alegrem.
- O desagravo aplaque-te os furores.”
- Tétrico o herói: “Toda a paterna herança
- E muito mais, Eurímaco, me désseis,
- A desforra cruenta era infalível.
- Só vos pode salvar combate ou fuga;
- Nenhum cuido porém que a Parca evite.”
- Esmoreceu com isto, os joelhos frouxam,
- E Eurímaco replica: “Aljava e arco
- Ele não deporá das mãos invictas,
- Sem que do limiar nos prostre, amigos.
- Sus, dos gládios puxai, fazer das mesas
- Reparo aos tiros seus; num grupo unidos,
- O expilamos do ingresso, e reclamemos
- Pela cidade auxílio: último o dia
- Seja em que setas rápidas jacule.”
- O bronze afiado arranca de dous gumes,
- Salta horrendo a rugir contra o Laércio;
- Que lesto à mama o fere, e a veloz farpa
- No fígado lhe prega: a espada vai-se;
- Revolto em cerco à mesa, donde rola
- Comida e louça, de cabeça em terra
- Bate, e a pés, convulsivo e agonizante,
- Sacode o assento; a vista se lhe entrava.
- Corre Anfínomo a Ulisses glorioso,
- De alfanje nu, para o expelir da entrada;
- Mas o pique Telêmaco entre os ombros
- Atrás lhe enterra e os peitos lhe traspassa;
- Só não lho extrai, de medo que, ao sacá-lo,
- Prono o apunhalem. Súbito recorre
- A seu pai: “Vou trazer-te aêneo casco,
- Dous dardos e um broquel. Tempo é de armar-me
- E os pastores fiéis.” — “Sim, volve Ulisses,
- Não tardes, filho; enquanto as frechas durem,
- Todos eles das portas não me arredam.”
- À voz do caro pai, despede aonde
- Recolheram-se as armas; oito escudos,
- Hastas oito, quatro elmos traz cristados,
- E ao campeão de pronto vem juntar-se;
- Arneza-se primeiro e os dous pastores,
- Com quem de Ulisses em redor se posta.
- Do cauto herói cada frechada abate
- Um dos procos, e em pilha iam caindo.
- Esgotado o carcás, à ombreira o encosta
- E o válido arco à nítida fachada;
- Quádruple escudo embraça, rígido elmo
- Nutante enfia de cocar eqüino,
- Éreos dardos fortíssimos apunha.
- Alta janela havia na parede,
- E ao cabo do vestíbulo de tábuas
- Estreita rampa, a única subida:
- Manda Ulisses a Eumeu que ali vigie.
- Agelau, que o percebe: “Amigos, disse,
- Não há quem monte à superior janela,
- Pelo povo a bradar? com sua ajuda,
- Este homem nunca mais dardejaria.”
- Melântio refletiu: “Não é possível,
- Divo Agelau; que a rampa, junta ao pátio,
- Por empinada e angusta, um só valente
- Basta a guardá-la. Acima eu vou pôr armas,
- Ânimo! estão, suponho, em celsa estância,
- Onde Ulisses e o filho as depuseram.”
- Por interior escada ei-lo que passa
- À câmara de Ulisses, donde aos procos
- Doze dardos fornece e broquéis doze,
- Doze êneos cascos de camada crista.
- O herói tituba um tanto, ao ver arnêses
- Fugir aos peitos e nas mãos remessos;
- Maior a empresa então se lhe afigura,
- E grita: “Armou-nos, filho, uma das servas
- Cruel certame, se não foi Melantio.”
- “A culpa é minha, o príncipe confessa,
- A câmara, meu pai, deixando aberta;
- Eles desse descuido se valeram.
- Anda a fechá-la, e observa, Eumeu, se alguma
- Escrava é quem nos trai, ou, como julgo,
- De Dólio o filho.” — Entanto, Eumeu lobriga
- Melântio a remontar: “Solerte Ulisses,
- O traidor é o ruim que suspeitamos.
- Se o venço, hei de matá-lo, ou conduzir-to
- Por que pene os excessos perpetrados?”
- E o rei prudente: “A lhes conter a fúria
- Eu basto com Telêmaco. Vós ambos
- Na câmara o tranqueis: atai-lhe às costas
- Mãos e pés; ao pilar da corda o extremo
- O ice; da trave atormentado penda.”
- Apressuram-se os dous. Sem que os bispasse
- Já dentro, armas catando, o guarda-cabras,
- De sentinela ao patamar ficaram;
- Até que sai, com reluzente casco
- Na esquerda, na direita um ressequido
- Largo e velho broquel do bom Laertes,
- Que estava ali de loros despegados.
- Com juvenil ardor, no solho interno
- Rojam-no preso, amarram-no e penduram,
- De seu senhor executando as ordens.
- Mordaz, Eumeu, clamaste: “Ora, Melântio,
- Na mole veles merecida cama;
- E, ao raiar do Oceano a matutina
- Aurora em trono de ouro, não te esqueças
- De lhes trazer para os banquetes cabras.”
- Arrouchado e suspenso, o abandonaram,
- Fechando a porta; e em bronze reluzindo,
- A respirar vigor, juntam-se ao divo
- Sábio guerreiro: à entrada apenas quatro,
- São muitos os da sala e não cobardes.
- Em Mentor se disfarça e vem Minerva;
- Ulisses a folgar: “Mentor, socorro;
- Amigo teu fui sempre, e me és coevo.”
- Ora assim, mas suspeita ser Tritônia.
- Rompem logo em doestos, e é primeiro
- Agelau Damastórides: “Ulisses
- Contra os procos, Mentor, não te seduza;
- Ou com teu sangue expiarás a culpa,
- Assim que ele e Telêmaco sucumbam,
- Como é de crer. Depois que o bronze expires,
- Teus bens de fora e urbanos confundidos
- E os do Laércio, de Ítaca a família,
- Os filhos teus, as filhas, casta esposa,
- Nós surdos à piedade expulsaremos.”
- Em mais cólera a déia: “Já te falta,
- Ulisses, o valor que, da alva e nobre
- Helena a pró, nove anos despregaste,
- Varões tantos rendendo em graves prélios,
- Ílion por teus conselhos derrocada:
- Como! nas tuas possessões recusas
- A insolentes punir! Ânimo, filho;
- O Alcimides verás como te é grato.”
- E a fim de comprovar o esforço dele
- E do excelso Telêmaco, a vitória
- Inda balança, e em resplendente poste,
- A revoar, qual andorinha, pousa.
- Eurínomo, Agelau, Demoptólemo,
- Anfimédon, Pisandro Politório,
- Pólibo armiperito, aos seus roboram;
- Os fortes são que vivos pleiteavam,
- Pois o arco assíduo os outros já domara.
- “Vêde-o, grita Agelau, que as mãos invictas
- Retêm; Mentor jactancioso foi-se;
- À entrada, amigos, sós pelejam quatro.
- Eia, brandi, não todos, mas seis dardos:
- Jove nos glorifique, o herói firamos;
- Dos mais não se nos dê, se ele é vencido.”
- Frustra Minerva os dardos seis que voam:
- Prega-se à porta um freixo de érea choupa,
- Outro ao grosso alizar, outro à parede.
- Malogrados os tiros, manda Ulisses
- Paciente e firme: “Toca-nos, ó caros,
- Punir os que ardem consumar seus crimes
- Com nossa morte.” Lanças quatro zunem:
- Ele a Demoptólemo, o filho a Euríade,
- A Élato Eumeu, Filétio ao Politório,
- Morder o vasto pavimento fazem.
- Recua ao fundo a chusma, e os quatro os freixos
- De chofre dos cadáveres desprendem.
- De novo os procos a vibrar forcejam,
- E as hastas quase inutiliza Palas:
- No portal finca-se uma, outra num poste,
- Ou num lanço da sala; mas o corpo
- A Telêmaco esfola a de Anfimédon,
- E a de Ctesipo, a Eumeu roçando a espádua,
- Salva o escudo e baqueia. Em torno ao chefe
- Mantêm-se inda mais bravos: a Eurídamas
- O eversor de muralhas, a Anfimédon
- Fere Telêmaco, o porqueiro a Pólibo;
- A Ctesipo Filétio os peitos vara,
- E ufaneia: “Insultante Politérside,
- Cessas de encher a boca de estultícias;
- Cabe o discurso aos poderosos numes.
- Pago és do pé de boi com que hospedaste
- O divo herói mendigo em seu palácio.”
- Ao falar o vaqueiro, fronte a fronte
- Seu amo a Damastórides lanceia;
- Por Telêmaco a bronze roto o ventre,
- Se debruça Leócrito Evenório,
- Bate no solo a testa . Eis do fastígio
- Alça Tritônia a égide homicida:
- Vagam todos atônitos, qual fogem
- Do vário ágil tavão picadas reses
- Nos vernais longos dias. Da montanha,
- De garra e bico adunco, abutres saltam
- Sobre aves, que tremendo alam-se às nuvens;
- Eles porém, folgando os campesinos,
- Sem mais refúgio, alcançam devorá-las:
- Assim de cabo a cabo a turba acossam,
- Rompem, vulneram; mestos ais ressoam,
- E todo o pavimento em sangue ondeia.
- Súbito abraça a Ulisses os joelhos
- Suplicante Liodes: “Compassivo
- Me sê, Laércio. Nunca obrei, nem disse
- Cousa que as servas tuas ofendesse;
- Antes continha os sócios, que emperrados
- O mal purgaram já com morte feia.
- Vate e inocente, padecer não devo:
- Recompensa futura aos bons compete.”
- Sombrio o rei troveja: “Eras seu vate,
- Longe me ansiavas dos queridos lares,
- Ter de minha mulher quisestes filhos;
- Trago amargo haverás.” E, erguendo a espada
- Que ao morrer Agelau deixara em terra,
- Com mão forte a Liodes, que ainda orava,
- A cabeça mutila e em pó lha envolve.
- O Terpíades Fêmio, dos intrusos
- Cantor coato, esquiva-se ao trespasso;
- E, em punho a lira arguta, considera,
- À superior saída, se abrigar-se
- Na ara de Jove iria, onde o Laércio
- E o pai queimaram coxas mil taurinas,
- Se deitar-se-lhe aos pés: foi deste aviso.
- Entre a cratera e a sede clavi-argêntea
- Pondo o cavo instrumento, implora e estreita
- Os joelhos do herói: “Príncipe augusto,
- Perdão! há de pesar-te se exterminas
- Vate que humanos e imortais celebra.
- Eu doutrinei-me, o Céu me inspirou mesmo
- Onígenas canções; posso entoar-tas,
- Qual a um deus: no meu sangue ah! não te manches.
- Por indigência não, teu filho o sabe,
- Dos procos aos festins forçado vinha;
- Tantos e mais potentes me obrigavam.”
- Enérgico Telêmaco: “Este insonte,
- Nem o arauto castigues, pois na infância
- De mim curava, se é que Eumeu, Filétio,
- Ou golpes teus letais o não prostraram.”
- Ouve-o Médon alerta, que medroso,
- De baixo do seu trono, em fresca pele
- Bovina se escondera; e, sacudindo-a,
- Ajoelha-se a Telêmaco: “O paterno
- Cru bronze, amigo, aos loucos não me iguale
- Que, esbanjados os bens, te desonravam.”
- Sorrindo o herói: “Telêmaco salvou-te
- Sus, apregoa que vantagem leva
- Sempre a virtude ao vício. Ao pátio aguarda
- Mais o cantor famoso, que eu preencha
- Quanto me cumpre.” — Da carnagem fora,
- Ambos da ara de Jove tudo espreitam.
- Na sala, circunspecto, ele examina
- Se inda algum respirava, e em pó sangrento
- Jaziam todos: qual à praia curva
- Arrasta a malha os peixes, que, empilhados
- Na areia, mudos cobiçando as vagas,
- À luz do Sol em breve o alento exalem;
- Tais os procos ali se amontoavam.
- E Ulisses: “Da nutriz já já preciso,
- Telêmaco.” O postigo o moço volve:
- “Olá, quer-te meu pai, não tardes, ama,
- Que és das fâmulas todas superiora.”
- Fútil mando não foi; que, abrindo as portas,
- Caminha após Telêmaco Euricléia:
- De mãos e pés imundo encontra a Ulisses
- De fresca mortualha circundado;
- Como o leão, que, tendo a rês comido,
- Cruento o peito e a cara, avulta horrível.
- Nos mortos atentando e no alto feito,
- Ia a velha gritar; seu amo o atalha:
- “Folgues embora em ti, mas não jubiles;
- Cousa é torpe exultar por homicídios.
- Cru destino os domou, sua impiedade:
- Sem respeito a ninguém, por bom que fosse,
- Pecados seus à Parca os devotaram.
- Agora as delinqüentes me enumera,
- Que esta casa honestíssima desdouram.”
- E a dileta nutriz: “Meu filho, escuta.
- Fâmulas tens cinqüenta, que ensinamos
- A lavrar, a cardar, a submeter-se
- À escravidão: na impudícia doze,
- De mim não se lhes dá, nem dá senhora
- Telêmaco, inda há pouco adolescente,
- Que a mulheres governe a mãe proíbe.
- Eu já subo a falar com tua esposa,
- Por divino favor adormecida.”
- Mas ele: “Não é tempo de acordá-la.
- Aqui me chama as impudentes servas.”
- Apressura-se a velha mensageira.
- A Telêmaco o rei e aos dous pastores
- Juntos prescreve: “A transferir os mortos
- Começai, das mulheres ajudados;
- Expurguem-se depois com água e esponja
- Tronos e mesas. Toda a sala em ordem,
- As rês daqui levai; de espada a fios
- Da cerca do átrio em meio e da rotunda,
- Expire uma por uma, e esqueçam Vênus
- Que furtivas as ligava aos pretendentes.”
- Elas em pranto e ais chegadas foram;
- Soluçando, os cadáveres às costas,
- Ao pórtico do pátio os depuseram,
- Mútuo auxílio a prestar-se; o mesmo Ulisses
- As concitava, e a custo prosseguiam.
- Limpos à esponja os móveis elegantes,
- O solo os três com pás iam raspando,
- O lixo as criminosas carregavam.
- E concertada a sala, as conduziram
- Da cerca do átrio ao meio e da rotunda,
- Augusto sítio, impedimento à fuga.
- Lá Telêmaco disse aos companheiros:
- “Não morram simples morte as que, nos braços
- De infames tais, enchiam-me de opróbrio
- E a minha casta mãe.” Nisto, um calabre
- Naval de uma coluna atando, em roda
- No alto passa da torre, que nenhuma
- O chão de pés tocasse. Qual, entrando
- Pombas ou tordos num vergel, da moita
- Em rede caem de estendidas asas,
- Triste poleiro e cama; assim, por ordem
- Elas em laços, curto esperneando.
- Cessam de palpitar estranguladas.
- Ao vestíbulo e átrio, a sevo bronze,
- Ventas e orelhas a Melântio cortam,
- Lançam-lhe os genitais a cães famintos,
- Pés decepam-lhe e mãos. — Completa a obra,
- Vão-se purificados ao Laércio,
- Que determina: “Salutar enxofre
- Traze e fogo, Euricléia; defumada
- Seja a casa. Ao depois a vir exortes
- A rainha e as escravas.” — Mas a velha:
- “Otimamente, filho meu, discorres;
- Outras vestes porém dar-te-ei primeiro:
- Decoroso não é que em teu palácio
- Forres de andrajos os robustos membros.”
- Insta o senhor: “O fogo é já preciso.”
- Fogo e enxofre sem réplica ela trouxe.
- Com que Ulisses defuma a sala e o pátio.
- Sobe a ama de novo e intima as ordens:
- As servas em tropel sustendo fachos,
- Ledas em torno, abraçam-no e saúdam,
- Beijando-lhe a cabeça e as mãos e espáduas;
- E ele, que n’alma as reconhece, um doce
- Desejo tem de choro e de suspiros.