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OdisseiaLivro XXII
LivroXXII

Despe os trapos o herói, pula à soleira

372 versos · 6 notas do tradutor


  1. Despe os trapos o herói, pula à soleira
  2. De arco e de aljava, e aos pés derrama as frechas,
  3. Dizendo aos procos: “A árdua empresa é finda;
  4. Num alvo nunca dantes alcançado
  5. A mira tenho, e dê-me glória Febo.”
  6. A Antino aqui dispara o tiro acerbo,
  7. Quando ele as duas asas d’áurea taça
  8. Maneava, e o licor ia empinando,
  9. Não cuidoso da morte. Quem previra
  10. Que entre muitos um só, famoso embora,
  11. À Parca o renderia? A ponta o vara
  12. Da goela à cerviz tenra; ao golpe, Antino
  13. Deixa a taça cair, de ilharga tomba;
  14. Sangue das ventas jorra, e a pés convulso
  15. A mesa empurra; espalha-se a comida,
  16. Suja-se a carne e o pão. Ferve o tumulto;
  17. Erguem-se alvorotados, procurando
  18. Em vão, pelas paredes esculpidas,
  19. Escudo ou lança, em cólera fremiam:
  20. “Que! forasteiro, aos homens é que apontas!
  21. Final proeza: abutres vão tragar-te;
  22. Mataste a flor dos Ítacos mancebos.
  23. Louco! acidental suponho o caso,
  24. Nenhum tão iminente o fado cria”;
  25. Mas carrancudo Ulisses: “Cães! julgando
  26. Que eu de Ílio não viesse, consumida
  27. Nossa fazenda, as servas estupráveis,
  28. E de um vivo a consorte pretendíeis,
  29. Sem pejo nem temor de homens e deuses!
  30. Agora transporei o umbral da morte.”
  31. Susto e palor os cobre; olhando buscam
  32. Algum refúgio, e Eurímaco responde:
  33. “Se és na verdade Ulisses Itacense,
  34. Tens razão, porque os Dânoas cometeram
  35. Neste paço e no campo iniqüidades.
  36. Mas ali jaz quem foi de tudo causa,
  37. Antino: a tais ofensas induziu-nos,
  38. Por amor não das núpcias, por cobiça
  39. E ambição de reinar; quis de teu filho,
  40. O que o Satúrnio lhe tolheu, dar cabo.
  41. As traições expiou; poupa teus povos.
  42. Será pública a emenda, e prometemos,
  43. Pagando quanto aqui te consumimos,
  44. Cada um com vinte bois satisfazer-te,
  45. Com ouro e bronze que teu peito alegrem.
  46. O desagravo aplaque-te os furores.”
  47. Tétrico o herói: “Toda a paterna herança
  48. E muito mais, Eurímaco, me désseis,
  49. A desforra cruenta era infalível.
  50. Só vos pode salvar combate ou fuga;
  51. Nenhum cuido porém que a Parca evite.”
  52. Esmoreceu com isto, os joelhos frouxam,
  53. E Eurímaco replica: “Aljava e arco
  54. Ele não deporá das mãos invictas,
  55. Sem que do limiar nos prostre, amigos.
  56. Sus, dos gládios puxai, fazer das mesas
  57. Reparo aos tiros seus; num grupo unidos,
  58. O expilamos do ingresso, e reclamemos
  59. Pela cidade auxílio: último o dia
  60. Seja em que setas rápidas jacule.”
  61. O bronze afiado arranca de dous gumes,
  62. Salta horrendo a rugir contra o Laércio;
  63. Que lesto à mama o fere, e a veloz farpa
  64. No fígado lhe prega: a espada vai-se;
  65. Revolto em cerco à mesa, donde rola
  66. Comida e louça, de cabeça em terra
  67. Bate, e a pés, convulsivo e agonizante,
  68. Sacode o assento; a vista se lhe entrava.
  69. Corre Anfínomo a Ulisses glorioso,
  70. De alfanje nu, para o expelir da entrada;
  71. Mas o pique Telêmaco entre os ombros
  72. Atrás lhe enterra e os peitos lhe traspassa;
  73. Só não lho extrai, de medo que, ao sacá-lo,
  74. Prono o apunhalem. Súbito recorre
  75. A seu pai: “Vou trazer-te aêneo casco,
  76. Dous dardos e um broquel. Tempo é de armar-me
  77. E os pastores fiéis.” — “Sim, volve Ulisses,
  78. Não tardes, filho; enquanto as frechas durem,
  79. Todos eles das portas não me arredam.”
  80. À voz do caro pai, despede aonde
  81. Recolheram-se as armas; oito escudos,
  82. Hastas oito, quatro elmos traz cristados,
  83. E ao campeão de pronto vem juntar-se;
  84. Arneza-se primeiro e os dous pastores,
  85. Com quem de Ulisses em redor se posta.
  86. Do cauto herói cada frechada abate
  87. Um dos procos, e em pilha iam caindo.
  88. Esgotado o carcás, à ombreira o encosta
  89. E o válido arco à nítida fachada;
  90. Quádruple escudo embraça, rígido elmo
  91. Nutante enfia de cocar eqüino,
  92. Éreos dardos fortíssimos apunha.
  93. Alta janela havia na parede,
  94. E ao cabo do vestíbulo de tábuas
  95. Estreita rampa, a única subida:
  96. Manda Ulisses a Eumeu que ali vigie.
  97. Agelau, que o percebe: “Amigos, disse,
  98. Não há quem monte à superior janela,
  99. Pelo povo a bradar? com sua ajuda,
  100. Este homem nunca mais dardejaria.”
  101. Melântio refletiu: “Não é possível,
  102. Divo Agelau; que a rampa, junta ao pátio,
  103. Por empinada e angusta, um só valente
  104. Basta a guardá-la. Acima eu vou pôr armas,
  105. Ânimo! estão, suponho, em celsa estância,
  106. Onde Ulisses e o filho as depuseram.”
  107. Por interior escada ei-lo que passa
  108. À câmara de Ulisses, donde aos procos
  109. Doze dardos fornece e broquéis doze,
  110. Doze êneos cascos de camada crista.
  111. O herói tituba um tanto, ao ver arnêses
  112. Fugir aos peitos e nas mãos remessos;
  113. Maior a empresa então se lhe afigura,
  114. E grita: “Armou-nos, filho, uma das servas
  115. Cruel certame, se não foi Melantio.”
  116. “A culpa é minha, o príncipe confessa,
  117. A câmara, meu pai, deixando aberta;
  118. Eles desse descuido se valeram.
  119. Anda a fechá-la, e observa, Eumeu, se alguma
  120. Escrava é quem nos trai, ou, como julgo,
  121. De Dólio o filho.” — Entanto, Eumeu lobriga
  122. Melântio a remontar: “Solerte Ulisses,
  123. O traidor é o ruim que suspeitamos.
  124. Se o venço, hei de matá-lo, ou conduzir-to
  125. Por que pene os excessos perpetrados?”
  126. E o rei prudente: “A lhes conter a fúria
  127. Eu basto com Telêmaco. Vós ambos
  128. Na câmara o tranqueis: atai-lhe às costas
  129. Mãos e pés; ao pilar da corda o extremo
  130. O ice; da trave atormentado penda.”
  131. Apressuram-se os dous. Sem que os bispasse
  132. Já dentro, armas catando, o guarda-cabras,
  133. De sentinela ao patamar ficaram;
  134. Até que sai, com reluzente casco
  135. Na esquerda, na direita um ressequido
  136. Largo e velho broquel do bom Laertes,
  137. Que estava ali de loros despegados.
  138. Com juvenil ardor, no solho interno
  139. Rojam-no preso, amarram-no e penduram,
  140. De seu senhor executando as ordens.
  141. Mordaz, Eumeu, clamaste: “Ora, Melântio,
  142. Na mole veles merecida cama;
  143. E, ao raiar do Oceano a matutina
  144. Aurora em trono de ouro, não te esqueças
  145. De lhes trazer para os banquetes cabras.”
  146. Arrouchado e suspenso, o abandonaram,
  147. Fechando a porta; e em bronze reluzindo,
  148. A respirar vigor, juntam-se ao divo
  149. Sábio guerreiro: à entrada apenas quatro,
  150. São muitos os da sala e não cobardes.
  151. Em Mentor se disfarça e vem Minerva;
  152. Ulisses a folgar: “Mentor, socorro;
  153. Amigo teu fui sempre, e me és coevo.”
  154. Ora assim, mas suspeita ser Tritônia.
  155. Rompem logo em doestos, e é primeiro
  156. Agelau Damastórides: “Ulisses
  157. Contra os procos, Mentor, não te seduza;
  158. Ou com teu sangue expiarás a culpa,
  159. Assim que ele e Telêmaco sucumbam,
  160. Como é de crer. Depois que o bronze expires,
  161. Teus bens de fora e urbanos confundidos
  162. E os do Laércio, de Ítaca a família,
  163. Os filhos teus, as filhas, casta esposa,
  164. Nós surdos à piedade expulsaremos.”
  165. Em mais cólera a déia: “Já te falta,
  166. Ulisses, o valor que, da alva e nobre
  167. Helena a pró, nove anos despregaste,
  168. Varões tantos rendendo em graves prélios,
  169. Ílion por teus conselhos derrocada:
  170. Como! nas tuas possessões recusas
  171. A insolentes punir! Ânimo, filho;
  172. O Alcimides verás como te é grato.”
  173. E a fim de comprovar o esforço dele
  174. E do excelso Telêmaco, a vitória
  175. Inda balança, e em resplendente poste,
  176. A revoar, qual andorinha, pousa.
  177. Eurínomo, Agelau, Demoptólemo,
  178. Anfimédon, Pisandro Politório,
  179. Pólibo armiperito, aos seus roboram;
  180. Os fortes são que vivos pleiteavam,
  181. Pois o arco assíduo os outros já domara.
  182. “Vêde-o, grita Agelau, que as mãos invictas
  183. Retêm; Mentor jactancioso foi-se;
  184. À entrada, amigos, sós pelejam quatro.
  185. Eia, brandi, não todos, mas seis dardos:
  186. Jove nos glorifique, o herói firamos;
  187. Dos mais não se nos dê, se ele é vencido.”
  188. Frustra Minerva os dardos seis que voam:
  189. Prega-se à porta um freixo de érea choupa,
  190. Outro ao grosso alizar, outro à parede.
  191. Malogrados os tiros, manda Ulisses
  192. Paciente e firme: “Toca-nos, ó caros,
  193. Punir os que ardem consumar seus crimes
  194. Com nossa morte.” Lanças quatro zunem:
  195. Ele a Demoptólemo, o filho a Euríade,
  196. A Élato Eumeu, Filétio ao Politório,
  197. Morder o vasto pavimento fazem.
  198. Recua ao fundo a chusma, e os quatro os freixos
  199. De chofre dos cadáveres desprendem.
  200. De novo os procos a vibrar forcejam,
  201. E as hastas quase inutiliza Palas:
  202. No portal finca-se uma, outra num poste,
  203. Ou num lanço da sala; mas o corpo
  204. A Telêmaco esfola a de Anfimédon,
  205. E a de Ctesipo, a Eumeu roçando a espádua,
  206. Salva o escudo e baqueia. Em torno ao chefe
  207. Mantêm-se inda mais bravos: a Eurídamas
  208. O eversor de muralhas, a Anfimédon
  209. Fere Telêmaco, o porqueiro a Pólibo;
  210. A Ctesipo Filétio os peitos vara,
  211. E ufaneia: “Insultante Politérside,
  212. Cessas de encher a boca de estultícias;
  213. Cabe o discurso aos poderosos numes.
  214. Pago és do pé de boi com que hospedaste
  215. O divo herói mendigo em seu palácio.”
  216. Ao falar o vaqueiro, fronte a fronte
  217. Seu amo a Damastórides lanceia;
  218. Por Telêmaco a bronze roto o ventre,
  219. Se debruça Leócrito Evenório,
  220. Bate no solo a testa . Eis do fastígio
  221. Alça Tritônia a égide homicida:
  222. Vagam todos atônitos, qual fogem
  223. Do vário ágil tavão picadas reses
  224. Nos vernais longos dias. Da montanha,
  225. De garra e bico adunco, abutres saltam
  226. Sobre aves, que tremendo alam-se às nuvens;
  227. Eles porém, folgando os campesinos,
  228. Sem mais refúgio, alcançam devorá-las:
  229. Assim de cabo a cabo a turba acossam,
  230. Rompem, vulneram; mestos ais ressoam,
  231. E todo o pavimento em sangue ondeia.
  232. Súbito abraça a Ulisses os joelhos
  233. Suplicante Liodes: “Compassivo
  234. Me sê, Laércio. Nunca obrei, nem disse
  235. Cousa que as servas tuas ofendesse;
  236. Antes continha os sócios, que emperrados
  237. O mal purgaram já com morte feia.
  238. Vate e inocente, padecer não devo:
  239. Recompensa futura aos bons compete.”
  240. Sombrio o rei troveja: “Eras seu vate,
  241. Longe me ansiavas dos queridos lares,
  242. Ter de minha mulher quisestes filhos;
  243. Trago amargo haverás.” E, erguendo a espada
  244. Que ao morrer Agelau deixara em terra,
  245. Com mão forte a Liodes, que ainda orava,
  246. A cabeça mutila e em pó lha envolve.
  247. O Terpíades Fêmio, dos intrusos
  248. Cantor coato, esquiva-se ao trespasso;
  249. E, em punho a lira arguta, considera,
  250. À superior saída, se abrigar-se
  251. Na ara de Jove iria, onde o Laércio
  252. E o pai queimaram coxas mil taurinas,
  253. Se deitar-se-lhe aos pés: foi deste aviso.
  254. Entre a cratera e a sede clavi-argêntea
  255. Pondo o cavo instrumento, implora e estreita
  256. Os joelhos do herói: “Príncipe augusto,
  257. Perdão! há de pesar-te se exterminas
  258. Vate que humanos e imortais celebra.
  259. Eu doutrinei-me, o Céu me inspirou mesmo
  260. Onígenas canções; posso entoar-tas,
  261. Qual a um deus: no meu sangue ah! não te manches.
  262. Por indigência não, teu filho o sabe,
  263. Dos procos aos festins forçado vinha;
  264. Tantos e mais potentes me obrigavam.”
  265. Enérgico Telêmaco: “Este insonte,
  266. Nem o arauto castigues, pois na infância
  267. De mim curava, se é que Eumeu, Filétio,
  268. Ou golpes teus letais o não prostraram.”
  269. Ouve-o Médon alerta, que medroso,
  270. De baixo do seu trono, em fresca pele
  271. Bovina se escondera; e, sacudindo-a,
  272. Ajoelha-se a Telêmaco: “O paterno
  273. Cru bronze, amigo, aos loucos não me iguale
  274. Que, esbanjados os bens, te desonravam.”
  275. Sorrindo o herói: “Telêmaco salvou-te
  276. Sus, apregoa que vantagem leva
  277. Sempre a virtude ao vício. Ao pátio aguarda
  278. Mais o cantor famoso, que eu preencha
  279. Quanto me cumpre.” — Da carnagem fora,
  280. Ambos da ara de Jove tudo espreitam.
  281. Na sala, circunspecto, ele examina
  282. Se inda algum respirava, e em pó sangrento
  283. Jaziam todos: qual à praia curva
  284. Arrasta a malha os peixes, que, empilhados
  285. Na areia, mudos cobiçando as vagas,
  286. À luz do Sol em breve o alento exalem;
  287. Tais os procos ali se amontoavam.
  288. E Ulisses: “Da nutriz já já preciso,
  289. Telêmaco.” O postigo o moço volve:
  290. “Olá, quer-te meu pai, não tardes, ama,
  291. Que és das fâmulas todas superiora.”
  292. Fútil mando não foi; que, abrindo as portas,
  293. Caminha após Telêmaco Euricléia:
  294. De mãos e pés imundo encontra a Ulisses
  295. De fresca mortualha circundado;
  296. Como o leão, que, tendo a rês comido,
  297. Cruento o peito e a cara, avulta horrível.
  298. Nos mortos atentando e no alto feito,
  299. Ia a velha gritar; seu amo o atalha:
  300. “Folgues embora em ti, mas não jubiles;
  301. Cousa é torpe exultar por homicídios.
  302. Cru destino os domou, sua impiedade:
  303. Sem respeito a ninguém, por bom que fosse,
  304. Pecados seus à Parca os devotaram.
  305. Agora as delinqüentes me enumera,
  306. Que esta casa honestíssima desdouram.”
  307. E a dileta nutriz: “Meu filho, escuta.
  308. Fâmulas tens cinqüenta, que ensinamos
  309. A lavrar, a cardar, a submeter-se
  310. À escravidão: na impudícia doze,
  311. De mim não se lhes dá, nem dá senhora
  312. Telêmaco, inda há pouco adolescente,
  313. Que a mulheres governe a mãe proíbe.
  314. Eu já subo a falar com tua esposa,
  315. Por divino favor adormecida.”
  316. Mas ele: “Não é tempo de acordá-la.
  317. Aqui me chama as impudentes servas.”
  318. Apressura-se a velha mensageira.
  319. A Telêmaco o rei e aos dous pastores
  320. Juntos prescreve: “A transferir os mortos
  321. Começai, das mulheres ajudados;
  322. Expurguem-se depois com água e esponja
  323. Tronos e mesas. Toda a sala em ordem,
  324. As rês daqui levai; de espada a fios
  325. Da cerca do átrio em meio e da rotunda,
  326. Expire uma por uma, e esqueçam Vênus
  327. Que furtivas as ligava aos pretendentes.”
  328. Elas em pranto e ais chegadas foram;
  329. Soluçando, os cadáveres às costas,
  330. Ao pórtico do pátio os depuseram,
  331. Mútuo auxílio a prestar-se; o mesmo Ulisses
  332. As concitava, e a custo prosseguiam.
  333. Limpos à esponja os móveis elegantes,
  334. O solo os três com pás iam raspando,
  335. O lixo as criminosas carregavam.
  336. E concertada a sala, as conduziram
  337. Da cerca do átrio ao meio e da rotunda,
  338. Augusto sítio, impedimento à fuga.
  339. Lá Telêmaco disse aos companheiros:
  340. “Não morram simples morte as que, nos braços
  341. De infames tais, enchiam-me de opróbrio
  342. E a minha casta mãe.” Nisto, um calabre
  343. Naval de uma coluna atando, em roda
  344. No alto passa da torre, que nenhuma
  345. O chão de pés tocasse. Qual, entrando
  346. Pombas ou tordos num vergel, da moita
  347. Em rede caem de estendidas asas,
  348. Triste poleiro e cama; assim, por ordem
  349. Elas em laços, curto esperneando.
  350. Cessam de palpitar estranguladas.
  351. Ao vestíbulo e átrio, a sevo bronze,
  352. Ventas e orelhas a Melântio cortam,
  353. Lançam-lhe os genitais a cães famintos,
  354. Pés decepam-lhe e mãos. — Completa a obra,
  355. Vão-se purificados ao Laércio,
  356. Que determina: “Salutar enxofre
  357. Traze e fogo, Euricléia; defumada
  358. Seja a casa. Ao depois a vir exortes
  359. A rainha e as escravas.” — Mas a velha:
  360. “Otimamente, filho meu, discorres;
  361. Outras vestes porém dar-te-ei primeiro:
  362. Decoroso não é que em teu palácio
  363. Forres de andrajos os robustos membros.”
  364. Insta o senhor: “O fogo é já preciso.”
  365. Fogo e enxofre sem réplica ela trouxe.
  366. Com que Ulisses defuma a sala e o pátio.
  367. Sobe a ama de novo e intima as ordens:
  368. As servas em tropel sustendo fachos,
  369. Ledas em torno, abraçam-no e saúdam,
  370. Beijando-lhe a cabeça e as mãos e espáduas;
  371. E ele, que n’alma as reconhece, um doce
  372. Desejo tem de choro e de suspiros.

Nota a nota · 6 notas

v. 93–98Alta janela havia na parede,
A posição desta janela e subida não se pode bem determinar; os comentadores não explicam o lugar satisfatoriamente, nem eu me lisonjeio de ter acertado.
↩ voltar à passagem, v. 93
v. 141–145Mordaz, Eumeu, clamaste: “Ora, Melântio,
Nesta passagem, principalmente no fim, apartei-me um pouco do sentido literal, para melhor exprimir a zombaria de Eumeu.
↩ voltar à passagem, v. 141
v. 155Rompem logo em doestos, e é primeiro
Doesto significa injúria ou vitupário; sem embargo de alguns diários e folhas o tomarem erradamente por dor ou pesadume.
↩ voltar ao verso 155
v. 210A Ctesipo Filétio os peitos vara,
Advirto que, sempre que vem o nome Ctsipo com duas sílabas, eu o faço de três Ctesipo, como o fez Pindemonte; porque na língua portuguesa, que foge de muitas consoantes seguidas, o dissílabo seria áspero em qualquer verso.
↩ voltar ao verso 210
v. 342–354E a minha casta mãe.” Nisto, um calabre ⋯ Pés decepam-lhe e mãos. — Completa a obra,
Toda esta cena de serralho, como a nomeia M. Giguet, é horribilíssima; e acrescenta o horror o suplício de Melântio, sobre quem se exerce uma vingança brutal. Não é mau que Homero nos pintasse um tal quadro, para avaliarmos os costumes daqueles tempos. Contudo, se fosse Virgílio que o fizesse, quantas pragas não choveriam das bocas e penas de certos críticos modernos!
↩ voltar à passagem, v. 342
v. 368–372As servas em tropel sustendo fachos,
Depois da cruel carniçaria, Homero desenluta o seu ouvinte ou leitor com a ternura das servas inocentes, e com o desejo de chorar que teve o senhor ao reconhecê-las; mas, não obstante a habilidade com que traça este novo quadro, o primeiro não se apaga e nos deixa uma dolorosa impressão.
↩ voltar à passagem, v. 368
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