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OdisseiaLivro XIII
LivroXIII

Calam-se todos, em deleite absortos

340 versos · 4 notas do tradutor


  1. Calam-se todos, em deleite absortos,
  2. Pela ampla sala opaca. E Alcino: “Ulisses,
  3. Pois que vieste a meu palácio aêneo,
  4. Teus males findos creio e teus errores.
  5. Vós que a branda harmonia e o vinho de honra
  6. Gozais em meus festins, às ricas vestes
  7. E ouro acendrado n’arca sua inclusos,
  8. Dádivas dos senhores, por cabeça
  9. Grandes bacia e tripode ajuntai-me;
  10. Já que sós não bastamos, brinde o povo
  11. Conosco à larga este hóspede bizarro”.
  12. Aprovou-se, e a dormir se retiraram.
  13. No arrebol da manhã de róseos dedos,
  14. Levando o forte bronze, à nau concorrem;
  15. Vindo Alcino em pessoa, nas bancadas,
  16. Para a folgo remarem, dispõe tudo.
  17. Ao paço tornam, do banquete cuidam:
  18. O rei mata ao nimboso onipotente
  19. E as táureas coxas torra; à mesa alegres,
  20. O canto logram do acatado vate.
  21. Ulisses, para o Sol volto a miúde,
  22. No ocaso o quer, o embarque apetecendo:
  23. Como a sombria tarde e a ceia anela
  24. Quem, já de joelhos frouxos, pelo alqueive
  25. Regeu de negros bois no arado a junta
  26. O dia todo; a luz tal vê murchada
  27. Ulisses, que aos marítimos Feaces
  28. E ao rei perora: “Ó maioral de povos,
  29. Despedi-me e libai; vós outros, salve!
  30. Cheio o meu voto, com presentes parto,
  31. De que o Céu por mão vossa enriqueceu-me
  32. Ache eu no lar a esposa irrepreensível
  33. E incólumes os meus. Ficai-vos todos
  34. Satisfeitos com filhos e consortes;
  35. Para impedir o público infortúnio,
  36. Toda virtude os numes vos concedam.”
  37. Louvando o siso do hóspede facundo
  38. Que despedi-lo cumpre a eito votam;
  39. Alcino o arauto afronta: “Na cratera
  40. Mescles, Pontono, do licor ardente;
  41. Em despedida a Júpiter brindemos.”
  42. Mescla Pontono e distribui o vinho:
  43. Libam do assento aos imortais beatos;
  44. Mas Ulisses divino em pé, depondo
  45. A bicôncava taça em mãos de Areta,
  46. Rápido exclama: “Ó grã rainha, vale!
  47. Parto; mas sê ditosa com teus filhos,
  48. Teu povo e o nobre Alcino, até que venham,
  49. Humana condição, velhice e morte.”
  50. Aqui, salva a soleira: avante o arauto
  51. Condu-lo à praia; à voz de Areta, as servas
  52. Uma a túnica bela e o manto puro,
  53. Outra uma arca tapada, enfim terceira
  54. O pão leva consigo e roxo vinho.
  55. Ledos a carga e o mantimento arrumam,
  56. Cama de branco linho e moles colchas
  57. Alastram no convés, onde silente
  58. O herói deitou-se; da furada pedra
  59. Solto o calabre, em renque a espuma agitam.
  60. Enleiam-se as pálpebras num sono
  61. Doce e quieto, semelhante à morte.
  62. Como, incitada pelo açoute, o espaço
  63. Mede orgulhosa máscula quadriga,
  64. Das vagas ao rumor desfecha a popa;
  65. Em seu vôo segura, preterira
  66. Ao gavião, levíssima das aves.
  67. O Ítaco rei, no tento igual aos deuses,
  68. Molestado em procelas e batalhas,
  69. Esquece tudo em plácido sossego.
  70. Abordou-se ao luzir a estrela d’alva,
  71. Núncia a melhor da rubicunda aurora.
  72. Tem no agro de Ítaco o marinho Forco
  73. Porto, que a prumo cabos dous estreitam
  74. E de ventos estrídulos defendem,
  75. Onde vaso alteroso escusa amarras.
  76. Espalmada, no fundo, uma oliveira
  77. Gruta ensombra, de Náiades sacrário:
  78. Ânforas há lapídeas e crateras;
  79. Sussurrantes abelhas melificam;
  80. Bancos de pedra encerra; as ninfas tecem
  81. Maravilhosos purpurinos panos;
  82. Possui água perene; dupla a entrada,
  83. Uma ao norte acessível aos humanos,
  84. Outra ao sul para os deuses. Meio impelem
  85. De voga o lenho os práticos Feaces;
  86. Adormecido Ulisses desembarcam,
  87. Nas mesmas colchas e lençóis envolto;
  88. À sombra da oliveira os dons colocam,
  89. À larga obtidos por mercê de Palas,
  90. Fora da estrada, a fim que não lhos toque,
  91. Antes que ele desperte um viandante.
  92. Isto acabado, para a Esquéria voltam.
  93. Das ameaças ao divino Ulisses
  94. Lembrado, ao grande irmão sondou Netuno:
  95. “Como hão de honrar-me, Júpiter, os deuses,
  96. Se homens de mim provindos me desonram?
  97. Sem proibir de Ulisses o regresso,
  98. Que tu juraste mesmo, inda eu cuidava,
  99. Antes de recolher-se, escarmentá-lo;
  100. Mas puseram-no em Ítaca os Feaces,
  101. Meu reino atravessando, e o cumularam
  102. De ouro e bronze e tecidos, quanto nunca
  103. Salvo de Ílio trouxera e teve em sorte.”
  104. Respondeu-lhe o Nimbífero: “Hui! Netuno,
  105. Desprezarem-te os numes! Árduo fora,
  106. Que és mais velho e prestante e prepotente.
  107. Se um mortal altanado não te adora,
  108. Puni-lo a teu prazer te cabe sempre.”
  109. De novo o Enosigeu: “Fá-lo-ei, se o queres;
  110. De irar-te, anuviador, me abstenho e fujo:
  111. Para que mais ninguém transportar ousem,
  112. Destruída na volta a nau Feácia,
  113. À cidade oporei montanha ingente.”
  114. E Júpiter: “Irmão, da praia quando
  115. Olhar curiosa a turba a nau que abica,
  116. Trocada em penha, a forma lhe conserves,
  117. Futuro assombro, e essa montanha eleves.”
  118. Busca Netuno a Esquéria, e quedo aguarda
  119. A flutívaga nau, que às bordas voa;
  120. A mão carrega-lhe e a converte em rocha,
  121. As raízes lhe afunda e se retira.
  122. E a marinheira gente, uns para os outros:
  123. “Ai! quem prendeu no pego, à vista nossa,
  124. A nau que ao porto alígera aproava?”
  125. Assim discorrem; mas arenga Alcino:
  126. “Deuses, verificou-se o triste agouro!
  127. Vaticinou meu pai que, por valermos
  128. Aos náufragos, Netuno em ira ardendo
  129. Pulcro baixel à volta abismaria,
  130. De alto monte a cidade circundando.
  131. Cumpriu-se tudo; agora, obedecei-me:
  132. Ninguém mais deste porto conduzamos;
  133. Sacrifiquemos touros doze eleitos,
  134. A fim que piedoso o rei Netuno
  135. Desse monte a cidade nos preserve.”
  136. Com medo eis logo as reses preparavam,
  137. Da ara em torno deprecam Neptunina
  138. Dos Feaces os príncipes e cabos.
  139. Abre os olhos na pátria o divo Ulisses.
  140. Ausente há muito, a estranha, pois de névoa
  141. Palas Dial o cinge, para ignoto
  142. O aconselhar, nem ser da esposa e amigos
  143. E dos mais cidadãos reconhecido,
  144. Sem dos procos vingar-se; pareceu-lhe
  145. Diverso tudo, o acomodado porto,
  146. Os extensos caminhos, os penedos,
  147. As verdejantes árvores; desperto,
  148. Olha em cerco, de palmas fere as ancas,
  149. E lamenta e se carpe: “Ah! nestas plagas
  150. Gente bárbara mora injusta e fera,
  151. Ou pia e hospitaleira? onde é que vago?
  152. Onde esconder os meus tesouros posso?
  153. Estivesse na Esquéria, e me asilara
  154. Outro brioso rei, que boa escolta
  155. Me daria ao trajeto. Ignoro o meio
  156. De guardar estes bens, que não mos roubem.
  157. Certo nem eram probos nem cientes
  158. Os que a Ítaca amiga prometeram
  159. Levar-me a salvo e aqui me depuseram:
  160. Desagrava-me, ó Júpiter, que amparas
  161. Os suplicantes e a traição condenas.
  162. Mas compute-se tudo, examinemos
  163. Se eles de qualquer dom me desfalcaram.”
  164. Já trípodes, bacias e ouro conta,
  165. Conta os belos tecidos: nada falta.
  166. Por Ítaca ele chama, Ítaca chora
  167. Pelas praias do mar circunsonante,
  168. Quando no vulto lhe aparece Palas
  169. De um jovem ovelheiro, delicado
  170. Como os filhos dos reis: pelico airoso
  171. Aos ombros traça; aos pés chapins luzentes,
  172. Floreia um dardo. Ulisses a encontrá-la
  173. Corre contente, rápido profere:
  174. “Pois me ocorres primeiro, amigo, salve!
  175. Guarda-me estas riquezas e a mim próprio.
  176. Como a nume to imploro de joelhos;
  177. Declara-me que terra e povo é este:
  178. Por acaso ilha amena, ou de gleboso
  179. Continente um bojante promontório?”
  180. A Olhicerúlea: “És, hóspede, insensato,
  181. Ou de país remoto. Que perguntas?
  182. É conhecido o nosso dos que habitam
  183. Para o noturno ocaso e a roxa aurora:
  184. Alpestre e avesso a poldros, pouco vasto,
  185. Viceja em trigo e vinha, que fecunda
  186. Orvalho ou chuva; grato a bois e a cabras,
  187. Tem várias selvas e perenes águas.
  188. De Ítaca o nome em Tróia alto ressoa,
  189. Em regiões da Acaia mui distantes.”
  190. Folga o divino herói de estar na pátria,
  191. Que do Egíaco a filha anunciava;
  192. Discursa presto, com desvio e austúcia,
  193. Ardis sempre no peito revolvendo:
  194. “De Ítaca ouvi na transfretana Creta,
  195. Larga e longínqua. Aos meus deixando parte,
  196. Fugi com estes bens, lá tendo morto
  197. O régio garfo Orsíloco ligeiro,
  198. Que no curso vencia os bravos Cressos;
  199. Pois quis privar-me dos despojos de Ílio,
  200. Ganhos com tanta lida nas batalhas
  201. E a tanto mar escapos, de ciúmes
  202. Que eu, a outros mandando, às ordens nunca
  203. Do genitor Idomeneu servisse.
  204. Tendo um sócio, no campo numa espera,
  205. Orsíloco atravesso ao pé da estrada:
  206. Oculta a morte pela opaca noite,
  207. Ninguém por ela deu. Porção da presa
  208. A ganância fartou de nau Fenícia,
  209. Que me largasse em Pilos ou na diva
  210. Élide Epéia. O rijo oposto vento
  211. Afastou-nos do rumo, e constrangidos,
  212. Não por fraude, arribamos pelo escuro;
  213. No posto aqui saltando, sem tratarmos
  214. De preciso repasto, nos deitamos.
  215. Lasso peguei no sono; eles, na areia
  216. Depositadas as riquezas minhas,
  217. A Sidônia se foram populosa:
  218. Triste ah! fiquei na praia abandonado.”
  219. A Glaucópide rindo a mão lhe afaga,
  220. Disfarçada em mulher vistosa e guapa,
  221. Ilustre no lavor: “Sagaz e astuto,
  222. Só te excedera um deus! matreiro e fino,
  223. Mesmo exerces na pátria os falsilóquios,
  224. Dolos e ardis, que desde o berço amaste.
  225. Não uses tu comigo de rodeios:
  226. Se aos mortais no juízo te avantajas,
  227. Eu me avantajo aos deuses. Desconheces
  228. Tritônia, que te assiste em dúbios transes?
  229. Eu te fiz agradável aos Feaces;
  230. Agora venho consultar contigo,
  231. E o tesouro esconder que ao povo egrégio
  232. Inspirei te doasse. Em teu palácio
  233. Olha que inda é forçoso padeceres:
  234. A varão nem mulher tu não descubras
  235. O teu regresso; tácito suportes
  236. A própria dor e injúrias e insolências.”
  237. Prudente Ulisses: “Deusa, ao mais sabido
  238. Conhecer-te é custoso em tantas formas.
  239. Sei que nas Tróicas lides me escudavas;
  240. Mas dês que, rasa a Príamo a cidade,
  241. Um deus nos dispersou, nunca a nau minha
  242. Te viu, Dial progênie, em meus trabalhos:
  243. De alma chagada, errei de praia em praia,
  244. Até que o Céu de mim compadeceu-se,
  245. Depois que entre os Feaces opulentos
  246. Me confortaste enfim, me foste guia.
  247. Eu não me julgo em Ítaca risonha;
  248. Vago, e me iludes: por teu pai suplico,
  249. Declara-me se estou na pátria amada.”
  250. “És, volve a deusa, um poço de suspeitas!
  251. Facundo e sábio, de altaneiro engenho,
  252. De ti não me descuido no infortúnio.
  253. Quem não ardera, após tamanha ausência,
  254. Por ver seus lares e mulher e filhos?
  255. Mas nada ouvir te agrada, sem provares
  256. A constância da esposa, que em retiro
  257. Dia e noite lamenta e curte mágoas.
  258. Seu temor nunca tive, sim previa
  259. Que só dos teus voltasses. A Netuno
  260. Não quis opor-me, tio meu, que irou-se
  261. Por cegares seu filho Polifemo.
  262. Ítaca vou mostrar-te, não duvides:
  263. De Forco é este o porto; jaz no fundo
  264. O antro e a basta oliveira, estância amável,
  265. Das Náiades sacelo, onde lhes deves
  266. Sacrificar perfeitas hecatombes;
  267. Aquele monte é Nerito selvoso.”
  268. Dissipa a deusa a névoa; alegre a terra
  269. O Ítaco reconhece, o almo chão beija,
  270. E exalça as palmas e depreca às ninfas:
  271. “Progênitas de Jove, eu não pensava
  272. Rever-vos mais; contente vos saúdo,
  273. Mil dons hei de, como antes, ofertar-vos:
  274. Assim de Jove a predadora prole
  275. Me consinta viver, medrar meu filho!”
  276. Palas então: “Sossega, ânimo cobra.
  277. No antro guarda-se tudo, e resolvemos
  278. O melhor.” Eis penetra os escondrijos;
  279. O herói carreta o ouro e o cobre e as roupas;
  280. E, estando a bom recado esses presentes,
  281. Ela aos portais arrima grossa pedra.
  282. À raiz ambos da oliveira santa,
  283. No castigo dos procos meditavam,
  284. E Palas começou: “Divo Laércio,
  285. De carregar o modo consideres
  286. A mão nos insolentes que um triênio
  287. Há que em teu paço imperam, dadivosos
  288. A casta mulher tua requestando.
  289. Ela porém suspira-te e pranteia,
  290. E um por um entretendo com promessas,
  291. A todos esperança e embai a todos.”
  292. “Céus! acode o Laércio, em meu palácio
  293. O fado me aguardava de Agamemnon,
  294. Se não me houvesses, déia, esclarecido!
  295. Eia, a maneira tece de vingar-me;
  296. Está comigo, minha audácia aumenta,
  297. Qual a soberba Tróia ao suplantarmos.
  298. Se me ajudas, augusta protetora,
  299. Eu basto só contra varões trezentos.”
  300. Presto a Glaucópide: “Eu serei contigo
  301. No executar-se a empresa; o vasto solho
  302. Conto que o sangue e cérebro enodoem
  303. De cada um dos vis que os bens te comem.
  304. Vou, para ignoto seres, enrugar-te
  305. A lisa pele dos flexíveis membros,
  306. Sumir-te a loura coma, em despiciendos
  307. Andrajos envolver-te, e aos vivos olhos
  308. O brilho embaciar, para que a todos,
  309. Mesmo a filho e mulher, pareças torpe.
  310. Tu, busca o teu porqueiro, amigo vero,
  311. Que a Telêmaco e à mãe fiel tem sido;
  312. Entre os marrões o encontrarás, da penha
  313. Do Corvo em torno e da Aretusa fonte,
  314. Onde, cevados com macia glande
  315. E água lodosa, gordurentos viçam:
  316. Indaga dele o mais, enquanto a Esparta
  317. Ando-me em formosuras afamada,
  318. A teu filho chamar, que novas tuas
  319. Foi recolher de Menelau na corte.”
  320. “Por que, argúi o herói, pois tudo sabes,
  321. Não lho disseste? queres que erradio
  322. Pelo indômito pélago padeça,
  323. E que outros a substância lhe consumam?”
  324. Minerva retorquiu: “Não te inquietes;
  325. Eu mesma o encaminhei; porque destarte
  326. Bem reputado seja: ora em seguro
  327. Se acha do Atrida na abundante casa.
  328. Almejando matá-lo antes que aborde,
  329. Armam-lhe os procos numa nau ciladas;
  330. Mas tenho que primeiro a terra oprima
  331. Alguns dos que a substância lhe consomem.”
  332. Aqui, de vara o toca: a pele toda
  333. Se lhe encarquilha, escalva-se a cabeça,
  334. Olhos murcha; um decrépito afigura.
  335. Deita-lhe um mau gabão, túnica em tiras
  336. Suja e tisnada, e espólio nu de corça;
  337. Dá-lhe um bordão, com torsos loros preso
  338. Roto a lugares desmarcado alforje.
  339. Isto enchido, apartaram-se, e Minerva
  340. Endereçou-se à grã Lacedemônia.

Nota a nota · 4 notas

v. 35–36Para impedir o público infortúnio,
Interpretam este lugar assim: “Os deuses vos ornem de todas as virtudes e vos livrem das calamidades públicas”. O pensamento é mais digno da sabedoria de Ulisses; com o texto à vista, parece-me que se dá um conselho aos reis dos Feaces: por boca do herói, o poeta reconhece que o mal público vem da falta de virtudes nos grandes, ou que os maus governos é que excitam as revoluções, para falarmos a linguagem moderna.
↩ voltar à passagem, v. 35
v. 86–87Adormecido Ulisses desembarcam,
Na opinião de Aristóteles, seria esta inverossimilhança intolerável, se as belezas do estilo não fizessem esquecer a pequenez da invenção. Sem embargo da sentença do oráculo da antiguidade, faria algumas observações a favor do poeta. A inverossimilhança consiste em desembarcarem a Ulisses dormindo sem que ele despertasse. Advirta-se porém que, depois de quebrar-se o navio onde longamente padeceu, depois de nadar quase três dias com o auxílio da cintura de Leucotéia, depois de escalavrar as mãos nos rochedos, ainda não tinha assaz reparado as forças perdidas: o sono mais salutar foi o que dormiu no bosque antes de lhe aparecer Nausica; porquanto na cidade, onde esteve dois dias, pouco descansou, levando quase todo o tempo a narrar suas aventuras, o que por certo não lhe diminuía o cansaço. Necessariamente, ao chegar ao navio dos Feaces, devera cair em profunda modorra. Tenho visto mudarem-se muitos adormecidos, principalmente meninos, sem darem por si; e o que a idade faz nos meninos, podia fazer em Ulisses a extraordinária fadiga. Se Aristóteles tivesse passado por iguais trabalhos, talvez não teria despertado.
↩ voltar à passagem, v. 86
v. 295Eia, a maneira tece de vingar-me;
Homero, para exaltar o herói, diz acima que a deusa da sabedoria com Ulisses consultou; mas este, por veneração para com Minerva, nunca se mete a par, antes pede-lhe sempre o seu parecer e proteção. M. Giguet verteu: “Voyons comment nous punirons ces audacieux”. O que era permitido a Homero por exageração poética, isto é, pôr o mortal conjuntamente a deliberar com a deusa, não era permitido a Ulisses, que nunca ali falou no dual nem no plural; e a imodéstia ou atrevimento, que se lhe empresta, é em contradição com as habituais cautelas do astuto.
↩ voltar ao verso 295
v. 317–340Ando-me em formosuras afamada, ⋯ Endereçou-se à grã Lacedemônia.
Constâncio dá por antiquado o verbo andar-se e manda ver andar; foi um descuido: ele mesmo diz com acerto que se com os verbos absolutos indica espontaneidade; portanto, andar não é o mesmo que andar-se, do uso de clássicos nossos. — No último verso, omiti que Minerva partiu para chamar a Telêmaco, e digo só que partiu para Esparta, porque pouco atrás ela afirmou que a sua ida era para chamá-lo. Estas supressões, que me permito quando não ofendem a clareza, tendem a tornar concisa a minha tradução, e o estilo asiático de Homero a isto se presta sem inconveniente; supressões que não se podem fazer em Lucrécio, Virgílio, Horácio, Pérsio, Dante, nem em Sá de Miranda e Ferreira, e em poucos outros poetas que só dizem o bastante, e onde cada palavra oferece uma nova idéia. O leitor que, neste e em muitos lugares, me julgar em falta, não decida sem consultar os antecedentes ou subseqüentes.
↩ voltar à passagem, v. 317
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