Calam-se todos, em deleite absortos
340 versos · 4 notas do tradutor
- Calam-se todos, em deleite absortos,
- Pela ampla sala opaca. E Alcino: “Ulisses,
- Pois que vieste a meu palácio aêneo,
- Teus males findos creio e teus errores.
- Vós que a branda harmonia e o vinho de honra
- Gozais em meus festins, às ricas vestes
- E ouro acendrado n’arca sua inclusos,
- Dádivas dos senhores, por cabeça
- Grandes bacia e tripode ajuntai-me;
- Já que sós não bastamos, brinde o povo
- Conosco à larga este hóspede bizarro”.
- Aprovou-se, e a dormir se retiraram.
- No arrebol da manhã de róseos dedos,
- Levando o forte bronze, à nau concorrem;
- Vindo Alcino em pessoa, nas bancadas,
- Para a folgo remarem, dispõe tudo.
- Ao paço tornam, do banquete cuidam:
- O rei mata ao nimboso onipotente
- E as táureas coxas torra; à mesa alegres,
- O canto logram do acatado vate.
- Ulisses, para o Sol volto a miúde,
- No ocaso o quer, o embarque apetecendo:
- Como a sombria tarde e a ceia anela
- Quem, já de joelhos frouxos, pelo alqueive
- Regeu de negros bois no arado a junta
- O dia todo; a luz tal vê murchada
- Ulisses, que aos marítimos Feaces
- E ao rei perora: “Ó maioral de povos,
- Despedi-me e libai; vós outros, salve!
- Cheio o meu voto, com presentes parto,
- De que o Céu por mão vossa enriqueceu-me
- Ache eu no lar a esposa irrepreensível
- E incólumes os meus. Ficai-vos todos
- Satisfeitos com filhos e consortes;
- Para impedir o público infortúnio,
- Toda virtude os numes vos concedam.”
- Louvando o siso do hóspede facundo
- Que despedi-lo cumpre a eito votam;
- Alcino o arauto afronta: “Na cratera
- Mescles, Pontono, do licor ardente;
- Em despedida a Júpiter brindemos.”
- Mescla Pontono e distribui o vinho:
- Libam do assento aos imortais beatos;
- Mas Ulisses divino em pé, depondo
- A bicôncava taça em mãos de Areta,
- Rápido exclama: “Ó grã rainha, vale!
- Parto; mas sê ditosa com teus filhos,
- Teu povo e o nobre Alcino, até que venham,
- Humana condição, velhice e morte.”
- Aqui, salva a soleira: avante o arauto
- Condu-lo à praia; à voz de Areta, as servas
- Uma a túnica bela e o manto puro,
- Outra uma arca tapada, enfim terceira
- O pão leva consigo e roxo vinho.
- Ledos a carga e o mantimento arrumam,
- Cama de branco linho e moles colchas
- Alastram no convés, onde silente
- O herói deitou-se; da furada pedra
- Solto o calabre, em renque a espuma agitam.
- Enleiam-se as pálpebras num sono
- Doce e quieto, semelhante à morte.
- Como, incitada pelo açoute, o espaço
- Mede orgulhosa máscula quadriga,
- Das vagas ao rumor desfecha a popa;
- Em seu vôo segura, preterira
- Ao gavião, levíssima das aves.
- O Ítaco rei, no tento igual aos deuses,
- Molestado em procelas e batalhas,
- Esquece tudo em plácido sossego.
- Abordou-se ao luzir a estrela d’alva,
- Núncia a melhor da rubicunda aurora.
- Tem no agro de Ítaco o marinho Forco
- Porto, que a prumo cabos dous estreitam
- E de ventos estrídulos defendem,
- Onde vaso alteroso escusa amarras.
- Espalmada, no fundo, uma oliveira
- Gruta ensombra, de Náiades sacrário:
- Ânforas há lapídeas e crateras;
- Sussurrantes abelhas melificam;
- Bancos de pedra encerra; as ninfas tecem
- Maravilhosos purpurinos panos;
- Possui água perene; dupla a entrada,
- Uma ao norte acessível aos humanos,
- Outra ao sul para os deuses. Meio impelem
- De voga o lenho os práticos Feaces;
- Adormecido Ulisses desembarcam,
- Nas mesmas colchas e lençóis envolto;
- À sombra da oliveira os dons colocam,
- À larga obtidos por mercê de Palas,
- Fora da estrada, a fim que não lhos toque,
- Antes que ele desperte um viandante.
- Isto acabado, para a Esquéria voltam.
- Das ameaças ao divino Ulisses
- Lembrado, ao grande irmão sondou Netuno:
- “Como hão de honrar-me, Júpiter, os deuses,
- Se homens de mim provindos me desonram?
- Sem proibir de Ulisses o regresso,
- Que tu juraste mesmo, inda eu cuidava,
- Antes de recolher-se, escarmentá-lo;
- Mas puseram-no em Ítaca os Feaces,
- Meu reino atravessando, e o cumularam
- De ouro e bronze e tecidos, quanto nunca
- Salvo de Ílio trouxera e teve em sorte.”
- Respondeu-lhe o Nimbífero: “Hui! Netuno,
- Desprezarem-te os numes! Árduo fora,
- Que és mais velho e prestante e prepotente.
- Se um mortal altanado não te adora,
- Puni-lo a teu prazer te cabe sempre.”
- De novo o Enosigeu: “Fá-lo-ei, se o queres;
- De irar-te, anuviador, me abstenho e fujo:
- Para que mais ninguém transportar ousem,
- Destruída na volta a nau Feácia,
- À cidade oporei montanha ingente.”
- E Júpiter: “Irmão, da praia quando
- Olhar curiosa a turba a nau que abica,
- Trocada em penha, a forma lhe conserves,
- Futuro assombro, e essa montanha eleves.”
- Busca Netuno a Esquéria, e quedo aguarda
- A flutívaga nau, que às bordas voa;
- A mão carrega-lhe e a converte em rocha,
- As raízes lhe afunda e se retira.
- E a marinheira gente, uns para os outros:
- “Ai! quem prendeu no pego, à vista nossa,
- A nau que ao porto alígera aproava?”
- Assim discorrem; mas arenga Alcino:
- “Deuses, verificou-se o triste agouro!
- Vaticinou meu pai que, por valermos
- Aos náufragos, Netuno em ira ardendo
- Pulcro baixel à volta abismaria,
- De alto monte a cidade circundando.
- Cumpriu-se tudo; agora, obedecei-me:
- Ninguém mais deste porto conduzamos;
- Sacrifiquemos touros doze eleitos,
- A fim que piedoso o rei Netuno
- Desse monte a cidade nos preserve.”
- Com medo eis logo as reses preparavam,
- Da ara em torno deprecam Neptunina
- Dos Feaces os príncipes e cabos.
- Abre os olhos na pátria o divo Ulisses.
- Ausente há muito, a estranha, pois de névoa
- Palas Dial o cinge, para ignoto
- O aconselhar, nem ser da esposa e amigos
- E dos mais cidadãos reconhecido,
- Sem dos procos vingar-se; pareceu-lhe
- Diverso tudo, o acomodado porto,
- Os extensos caminhos, os penedos,
- As verdejantes árvores; desperto,
- Olha em cerco, de palmas fere as ancas,
- E lamenta e se carpe: “Ah! nestas plagas
- Gente bárbara mora injusta e fera,
- Ou pia e hospitaleira? onde é que vago?
- Onde esconder os meus tesouros posso?
- Estivesse na Esquéria, e me asilara
- Outro brioso rei, que boa escolta
- Me daria ao trajeto. Ignoro o meio
- De guardar estes bens, que não mos roubem.
- Certo nem eram probos nem cientes
- Os que a Ítaca amiga prometeram
- Levar-me a salvo e aqui me depuseram:
- Desagrava-me, ó Júpiter, que amparas
- Os suplicantes e a traição condenas.
- Mas compute-se tudo, examinemos
- Se eles de qualquer dom me desfalcaram.”
- Já trípodes, bacias e ouro conta,
- Conta os belos tecidos: nada falta.
- Por Ítaca ele chama, Ítaca chora
- Pelas praias do mar circunsonante,
- Quando no vulto lhe aparece Palas
- De um jovem ovelheiro, delicado
- Como os filhos dos reis: pelico airoso
- Aos ombros traça; aos pés chapins luzentes,
- Floreia um dardo. Ulisses a encontrá-la
- Corre contente, rápido profere:
- “Pois me ocorres primeiro, amigo, salve!
- Guarda-me estas riquezas e a mim próprio.
- Como a nume to imploro de joelhos;
- Declara-me que terra e povo é este:
- Por acaso ilha amena, ou de gleboso
- Continente um bojante promontório?”
- A Olhicerúlea: “És, hóspede, insensato,
- Ou de país remoto. Que perguntas?
- É conhecido o nosso dos que habitam
- Para o noturno ocaso e a roxa aurora:
- Alpestre e avesso a poldros, pouco vasto,
- Viceja em trigo e vinha, que fecunda
- Orvalho ou chuva; grato a bois e a cabras,
- Tem várias selvas e perenes águas.
- De Ítaca o nome em Tróia alto ressoa,
- Em regiões da Acaia mui distantes.”
- Folga o divino herói de estar na pátria,
- Que do Egíaco a filha anunciava;
- Discursa presto, com desvio e austúcia,
- Ardis sempre no peito revolvendo:
- “De Ítaca ouvi na transfretana Creta,
- Larga e longínqua. Aos meus deixando parte,
- Fugi com estes bens, lá tendo morto
- O régio garfo Orsíloco ligeiro,
- Que no curso vencia os bravos Cressos;
- Pois quis privar-me dos despojos de Ílio,
- Ganhos com tanta lida nas batalhas
- E a tanto mar escapos, de ciúmes
- Que eu, a outros mandando, às ordens nunca
- Do genitor Idomeneu servisse.
- Tendo um sócio, no campo numa espera,
- Orsíloco atravesso ao pé da estrada:
- Oculta a morte pela opaca noite,
- Ninguém por ela deu. Porção da presa
- A ganância fartou de nau Fenícia,
- Que me largasse em Pilos ou na diva
- Élide Epéia. O rijo oposto vento
- Afastou-nos do rumo, e constrangidos,
- Não por fraude, arribamos pelo escuro;
- No posto aqui saltando, sem tratarmos
- De preciso repasto, nos deitamos.
- Lasso peguei no sono; eles, na areia
- Depositadas as riquezas minhas,
- A Sidônia se foram populosa:
- Triste ah! fiquei na praia abandonado.”
- A Glaucópide rindo a mão lhe afaga,
- Disfarçada em mulher vistosa e guapa,
- Ilustre no lavor: “Sagaz e astuto,
- Só te excedera um deus! matreiro e fino,
- Mesmo exerces na pátria os falsilóquios,
- Dolos e ardis, que desde o berço amaste.
- Não uses tu comigo de rodeios:
- Se aos mortais no juízo te avantajas,
- Eu me avantajo aos deuses. Desconheces
- Tritônia, que te assiste em dúbios transes?
- Eu te fiz agradável aos Feaces;
- Agora venho consultar contigo,
- E o tesouro esconder que ao povo egrégio
- Inspirei te doasse. Em teu palácio
- Olha que inda é forçoso padeceres:
- A varão nem mulher tu não descubras
- O teu regresso; tácito suportes
- A própria dor e injúrias e insolências.”
- Prudente Ulisses: “Deusa, ao mais sabido
- Conhecer-te é custoso em tantas formas.
- Sei que nas Tróicas lides me escudavas;
- Mas dês que, rasa a Príamo a cidade,
- Um deus nos dispersou, nunca a nau minha
- Te viu, Dial progênie, em meus trabalhos:
- De alma chagada, errei de praia em praia,
- Até que o Céu de mim compadeceu-se,
- Depois que entre os Feaces opulentos
- Me confortaste enfim, me foste guia.
- Eu não me julgo em Ítaca risonha;
- Vago, e me iludes: por teu pai suplico,
- Declara-me se estou na pátria amada.”
- “És, volve a deusa, um poço de suspeitas!
- Facundo e sábio, de altaneiro engenho,
- De ti não me descuido no infortúnio.
- Quem não ardera, após tamanha ausência,
- Por ver seus lares e mulher e filhos?
- Mas nada ouvir te agrada, sem provares
- A constância da esposa, que em retiro
- Dia e noite lamenta e curte mágoas.
- Seu temor nunca tive, sim previa
- Que só dos teus voltasses. A Netuno
- Não quis opor-me, tio meu, que irou-se
- Por cegares seu filho Polifemo.
- Ítaca vou mostrar-te, não duvides:
- De Forco é este o porto; jaz no fundo
- O antro e a basta oliveira, estância amável,
- Das Náiades sacelo, onde lhes deves
- Sacrificar perfeitas hecatombes;
- Aquele monte é Nerito selvoso.”
- Dissipa a deusa a névoa; alegre a terra
- O Ítaco reconhece, o almo chão beija,
- E exalça as palmas e depreca às ninfas:
- “Progênitas de Jove, eu não pensava
- Rever-vos mais; contente vos saúdo,
- Mil dons hei de, como antes, ofertar-vos:
- Assim de Jove a predadora prole
- Me consinta viver, medrar meu filho!”
- Palas então: “Sossega, ânimo cobra.
- No antro guarda-se tudo, e resolvemos
- O melhor.” Eis penetra os escondrijos;
- O herói carreta o ouro e o cobre e as roupas;
- E, estando a bom recado esses presentes,
- Ela aos portais arrima grossa pedra.
- À raiz ambos da oliveira santa,
- No castigo dos procos meditavam,
- E Palas começou: “Divo Laércio,
- De carregar o modo consideres
- A mão nos insolentes que um triênio
- Há que em teu paço imperam, dadivosos
- A casta mulher tua requestando.
- Ela porém suspira-te e pranteia,
- E um por um entretendo com promessas,
- A todos esperança e embai a todos.”
- “Céus! acode o Laércio, em meu palácio
- O fado me aguardava de Agamemnon,
- Se não me houvesses, déia, esclarecido!
- Eia, a maneira tece de vingar-me;
- Está comigo, minha audácia aumenta,
- Qual a soberba Tróia ao suplantarmos.
- Se me ajudas, augusta protetora,
- Eu basto só contra varões trezentos.”
- Presto a Glaucópide: “Eu serei contigo
- No executar-se a empresa; o vasto solho
- Conto que o sangue e cérebro enodoem
- De cada um dos vis que os bens te comem.
- Vou, para ignoto seres, enrugar-te
- A lisa pele dos flexíveis membros,
- Sumir-te a loura coma, em despiciendos
- Andrajos envolver-te, e aos vivos olhos
- O brilho embaciar, para que a todos,
- Mesmo a filho e mulher, pareças torpe.
- Tu, busca o teu porqueiro, amigo vero,
- Que a Telêmaco e à mãe fiel tem sido;
- Entre os marrões o encontrarás, da penha
- Do Corvo em torno e da Aretusa fonte,
- Onde, cevados com macia glande
- E água lodosa, gordurentos viçam:
- Indaga dele o mais, enquanto a Esparta
- Ando-me em formosuras afamada,
- A teu filho chamar, que novas tuas
- Foi recolher de Menelau na corte.”
- “Por que, argúi o herói, pois tudo sabes,
- Não lho disseste? queres que erradio
- Pelo indômito pélago padeça,
- E que outros a substância lhe consumam?”
- Minerva retorquiu: “Não te inquietes;
- Eu mesma o encaminhei; porque destarte
- Bem reputado seja: ora em seguro
- Se acha do Atrida na abundante casa.
- Almejando matá-lo antes que aborde,
- Armam-lhe os procos numa nau ciladas;
- Mas tenho que primeiro a terra oprima
- Alguns dos que a substância lhe consomem.”
- Aqui, de vara o toca: a pele toda
- Se lhe encarquilha, escalva-se a cabeça,
- Olhos murcha; um decrépito afigura.
- Deita-lhe um mau gabão, túnica em tiras
- Suja e tisnada, e espólio nu de corça;
- Dá-lhe um bordão, com torsos loros preso
- Roto a lugares desmarcado alforje.
- Isto enchido, apartaram-se, e Minerva
- Endereçou-se à grã Lacedemônia.