Do Hipótades Eolo, aceito ao numes
432 versos · 6 notas do tradutor
- Do Hipótades Eolo, aceito ao numes,
- A ilha abordamos, a nadante Eólia,
- De éreo muro infrangível circundada
- Sobre liso penedo. Ele os seis pares
- Consorciou de filhos, para todos
- Junto ao bom pai e à casta mãe comerem
- À mesma vária mesa: ao dia, a casa
- Harmônica recende; à noite, aos braços
- Das consortes pudicas se repousam,
- Em tapetes e leitos recortados
- Nessa bela vivenda um mês inteiro
- Amigável tratou-me, a indagar sempre
- De Ílion, da frota Argiva e da tornada;
- Eu recontava tudo. Enfim licença
- Rogo-lhe de sair, ao que ele acede
- E dispõe a partida: os rijos ventos
- Feche em pele de um touro de nove anos,
- Porque a seu grado, permissão de Jove,
- Os subleva ou contêm; por um calabre
- Argênteo os cerra no porão, temendo
- Um hálito qualquer; único solto,
- Nos vai soprando Zéfiro propício.
- Tais precauções frustou-nos a loucura.
- Navego assíduo; na dezena tarde,
- Ítaca e os lumes seus me apareciam:
- Rendo-me ao sono ali, cansado e lasso,
- Pois nunca o leme a outrem confiara,
- Para em terra o mais cedo nos acharmos.
- Do generoso Hipótades riquezas
- Crendo que eu recebera, os da equipagem
- Discorriam destarte: “Oh! quanto Ulisses
- Por onde quer que aborde é festejado!
- Onusto vem de Ilíacos tesouros,
- E nós, tendo corrido iguais tormentas,
- Vamos ao pátrio lar de mãos vazias.
- Brindes lhe fez agora o amigo Eolo;
- Veja-se que ouro e argento esse odre guarda.”
- Vencendo o mau conselho, o desataram:
- Os ventos a ruir, de Ítaca os deitam,
- A empegá-los em lágrimas desfeitos.
- Acordo; ao mar calculo se me atire,
- Ou sofra a nova dor: sofri, jazendo
- No fundo oculto; os outros, suspiravam.
- Procela atrás à Eólia nos remessa:
- Feita aguada na praia e um jantar breve,
- Como o arauto e um guerreiro me endereço
- De Eolo aos paços, que ao festim seus filhos
- E a mulher tinha; sento-me à soleira,
- E eles pasmados: “Foi-te um nume infenso?
- Tornaste, Ulisses? Tudo acautelamos,
- Para a salvo aos penates reverteres.”
- Triste respondo: “Sócios temerários
- E fatal sono, amigo, me perderam;
- Auxílio, que o podeis.” Com brandas vozes
- Quis demovê-los, mas seu pai retorque:
- “Fora, não devo proteger um homem
- Ingrato ao Céu; foge daqui, malvado,
- És ódio aos imortais.” E agro e severo,
- Da Eólia nos despede a soluçarmos.
- A vogar, fatigada já do remo,
- Do erro se argúi a gente esmorecida.
- Gastas seis, na setena singradura
- Arribou-se de Lamos à eminente
- Lestrigônia Telépila, onde o gado
- Recolhendo o pastor, pelo outro chama,
- Que obediente sai; onde o salário
- O insone dobraria, apascentando
- Já manadas, já greis de branco velo:
- Tanto ali se aproxima a noite e o dia.
- Do porto em roda a pique há celsas pedras,
- E a barra estreitam cabos dous bojantes:
- As naus dentro se amarram conchegadas,
- Que o mar dorme tranqüilo e não se altera.
- A minha só de fora atei por cabos
- A um rochedo apartado, e ao cimo trepo
- A especular se em torno divisava
- De homens ou bois trabalho; só rompia
- Do solo um fumo. Escolho dous, que saibam,
- Com o arauto, a quem lá sustente Ceres;
- Trilham por onde carreava lenha
- Dos montes à cidade, e perto a filha
- Do Lestrigão Antífates encontram,
- Guapa donzela, que de Artácia à fonte
- Clara descera, donde o povo bebe;
- Quem no país mandava lhe perguntam,
- E o paterno palácio indica a jovem.
- Entram; com susto a esposa, igual de um morro,
- De Antífates avistam; que, chamado,
- Presto chega da praça, atroz empolga
- Um para a crua ceia; os dous conseguem
- Refugiar-se à frota. Ao grito régio,
- Da cidade, homens não, gigantes fervem,
- E a penedos, que arrancam, nos lapidam,
- O estrépito a soar de moribundos
- E naus quebradas; para o triste pasto.
- Qual peixe os Lestrigões a gente enfiam.
- Enquanto esses no porto assim perecem,
- Do meu navio a gládio amarras talho;
- A esquivar a desgraça insto a companha,
- Que açodada e medrosa os remos força:
- O meu baixel evita os sáxeos tiros;
- Os mais daquela chuva ali soçobram.
- Da morte isentos, por amigos tantos
- O negro mar tristíssimos cortamos.
- Na ilha aporto Eéia, da terrível
- Música Circe de madeixas de ouro,
- Irmã de Etas prudente, nados ambos
- Do claro Sol e da Oceânia Persa.
- A largo surgidouro um deus nos guia;
- Lá, de cansaço e de ânsias corroídos,
- Longamente e em silêncio repousamos.
- Da aurora crinisparsa à luz terceira,
- A espada e lança tomo, um alto subo
- Donde ouça vozes ou culturas veja;
- Paro no áspero tope, enxergo um fumo
- Que dentre um carvalhal saía em cerco
- Do palácio de Circe. N’alma volvo
- Se após o fumo avance; mas prefiro
- Ir a bordo, e à maruja dado o almoço,
- Enviar adiante exploradores.
- Da nau já perto, condoído um nume
- Da minha soledade, ofereceu-me
- Galheiro cervo, que do pasto ao rio
- Vinha beber, da calma estimulado:
- A bronze o atravessei pelo espinhaço,
- E o bruto cai berrando e a vida exala;
- Pulo, saco-lhe o hastil, por terra o deixo,
- Vimes despego e silvas, e torcendo-os
- Corda formo de braça, os pés lhe amarro;
- Firme n’hasta, ao cachaço o levo preso,
- Porque de uma só mão, sobre uma espádua,
- Suster carga tamanha era impossível.
- Ante os sócios o arrojo, e em modo afável
- Os conforto um por um: “A Dite, amigos,
- Só baixaremos do fatal instante;
- Comei, bebei, de fome não morramos.”
- Dóceis levantam-se, e na praia admiram
- O enorme cervo, e os olhos tendo fartos,
- As mãos lavadas, o festim preparam.
- Veação gorda e vinho, até ser tarde,
- Nos regalaram; sobre a noite escura
- Na marítima areia adormecemos.
- No amanhecer, convoco e falo a todos:
- “Por mais graves que sejam nossas penas,
- Atendei-me, consócios. Ignoramos
- Se a terra é donde o Sol mergulha em trevas,
- Ou do fúlgido eôo em que ele nasce;
- Quero vos consultar, eu nada afirmo.
- Do cume de um penhasco, vi que a cinge
- Mar infinito, humilde ilha pequena,
- Que dentre basto carvalhal fumega.”
- Estala o coração, lágrimas chovem;
- Das cruezas de Antífates se lembram,
- E do fero antropófago Ciclope.
- Chorar que vale? Em corpos dous os nossos,
- Mando eu um, outro Euríloco deiforme:
- Sacudidas as sortes no elmo aêneo,
- Sai a do bravo Euríloco; este parte
- Com vinte dous gementes companheiros,
- Que apartam-se de nós também gementes.
- Num vale acham marmóreo insigne paço,
- Que cercam lobos e leões, de Circe
- Com peçonha amansados: contra a gente
- Não remeteram de unhas lacerantes,
- Sim alongando a cauda os afagaram,
- Como festejam cães o meigo dono
- Que lhes traz do banquete algum bocado;
- Mas, a tal vista, ao pórtico medrosos
- Retiveram-se os Gregos. Dentro ouviam
- Cantar suave a crinipulcra Circe,
- Teia a correr brilhante, que só deusas
- Lavram tão fina e bela. Eis diz Polites,
- Chefe que eu mais prezava: “No alto, amigos,
- Mulher ou deusa tece; o pavimento
- Ressoa todo ao cântico: falemos.”
- Gritam; Circe aparece, e abrindo as portas
- Resplendentes, convida esses incautos;
- Só, receoso, Euríloco repugna.
- Senta-os a deusa em tronos e camilhas;
- Escândea e queijo com Paneio vinho
- Mistura e fresco mel, poção lhe ajunta
- Que deslembra da pátria. Mal a engolem,
- Toca-os de vara, na pocilga os fecha,
- Porcos sendo no som, no vulto e cerdas,
- A inteligência embora conservassem.
- Tristes grunhindo, a maga lhes atira
- Glande, azinha e cornisolo, sustento
- Próprio desses rasteiros foçadores.
- Veio Euríloco à pressa anunciar-nos
- O caso infando, que articula apenas
- Pela força da dor, pois lhe excitava
- Luto no coração, água nos olhos;
- E, instado, o exício narra: “Ao teu preceito,
- Fomos, Laércio, num convale achamos
- Em vistoso lugar marmóreo paço.
- Mulher ou deusa que a tecer cantava,
- Abre, ao nosso gritar, fulgentes portas:
- Este convite, eu só de fora, temo;
- De esperar canso, os mais despareceram.”
- De tachonado bronze a tiracolo
- E o arco aos ombros, pela mesma senda
- Mando que me encaminhe; ele os joelhos
- Chorando me abraçou: “Divino aluno,
- A ir não me constranjas. Tu não voltas,
- Sei que os nossos perderam-se; os restantes
- Esquivemos, fugindo, o negro fado.”
- “Bebe e come, retruco, em ócio a bordo;
- Por mim clama o dever.” E a trilha enceto.
- Já, pelo sacro bosque, avisto o alcáçar
- Da venéfica Circe, quando o nume
- Do caduceu me encontra, afigurado
- Num gentil gracioso adolescente;
- Ele trava-me a destra: “Ignotos serros,
- Mísero, andas sozinho? os teus, quais porcos,
- Os tem Circe em fortíssimo escondrijo.
- Vens tu livrá-los? sorte igual te espera.
- Antídoto haverás, que te preserve
- Da encantadora. Seus ardis aprende:
- Num misto lançará sutil veneno,
- Em meu remédio fia-te; ao sentires
- De vara o toque, puxa dante o fêmur,
- Como para feri-la, a espada aguda;
- Quase a medo, ao seu toro há de invitar-te.
- Amores não recuses de uma deusa,
- Que te socorra e desencante os sócios;
- Mas dela exige o grande juramento,
- A fim que outras ofensas não te apreste,
- Nem do valor te dispa e te efemine.”
- Da terra aqui Mercúrio extraiu planta,
- E ma explicou: raiz escura tinha
- E láctea a flor; os deuses moli a chamam;
- É-lhes fácil cavá-la, aos homens custa.
- Foi-se da ilha espessa ao grande Olimpo;
- Nisto e pensoso dirigi-me a Circe.
- Eu da entrançada Eéia às portas grito,
- Que abre logo os resplêndidos batentes,
- E a seu convite, contristado, a sigo.
- Aos pés lindo escabelo, num dedáleo
- Trono me colocou de argênteos cravos.
- Misturada a bebida em áurea taça,
- Provei; não me fez mal; da vara ao toque,
- Disse: “Vai-te à pocilga, aos mais te agrega.”
- Como para matá-la, o gládio saco;
- Brada, furta-se ao bote, a meus pés freme:
- “Quem és? de que nação? de que família?
- Pasmo de que resistas; este encanto,
- Nunca o susteve alguém por cujos dentes
- Se infiltrasse o veneno: alma inconcussa
- Tens no peito. És por certo o sábio Ulisses,
- Que o de áureo caduceu me afirmou sempre
- De Ílio cá surgiria em nau veleira.
- Embainha essa espada; em nosso toro,
- Em mútua confiança, o amor gozemos.”
- Repliquei-lhe: “A contigo humanizar-me
- Tu, Circe, me alicias, tu que em porcos
- Meus sócios transformaste, e aqui dolosa
- Me instigas ao teu leito, a fim que, inerme
- E despido me enerves e efemines?
- Solene jura, ó deusa, que em meu dano
- Mais nada empreenderás.” — Jurou-me, eu subo
- Ao tálamo loução. Criadas quatro
- Fiéis com diligência ali serviam,
- Ninfas de bosque ou fonte ou santo rio:
- Uma forra de púrpura as cadeiras,
- Pondo alvo linho em baixo; outra bufetes
- Argênteos cobre de áureos açafates;
- Outra em cratera argêntea o vinho infunde,
- Que em áureos copos distribui melífluo;
- A quarta ferve em trípode ênea e grande
- Água sonora, que tempera e em ampla
- Tina me esparge por cabeça e ombros
- Tépido grato banho, até que os membros
- Me refaz do cansaço. Fresco e ungido,
- Em manto airoso e túnica, de prata
- Num trono cravejado e precioso,
- De artefato escabelo, a mesma entorna
- Linfa às mãos de elegante jarro de ouro
- Numa argêntea bacia, e me desdobra
- Limpa mesa; que amável despenseira
- De pães enche e abundantes iguarias,
- Instando-me a comer; eu com fastio
- Abanquei-me a cismar e a prever males.
- Próxima Circe, a minha dor percebe:
- “De ânsias ralado, Ulisses, emudeces?
- Nem tocas na bebida e nos manjares!
- Certo algum dolo temes, não refletes
- Que jurei pela Estige.” — Eu logo: “Circe,
- Que homem justo beber ou comer pode,
- Antes que valha aos míseros amigos?
- Se a teu festim me queres satisfeito,
- Soltos eu veja os prediletos sócios.”
- Ela, pegando a vara, sai de casa
- E abre o chiqueiro; tira-os parecidos
- A varrões de nove anos, em fileira
- Um por um vai com bálsamo esfregando,
- Cair fazendo o pêlo que o veneno
- Exicial criara, e mais os torna
- Jovens e esbeltos. A chorar de gosto,
- Beijam-me a destra, o pranto ressoava.
- Doeu-se a déia: “Ulisses engenhoso
- Em seco o vaso, nas vizinhas grutas
- Guarda o que tens, riquezas e aparelhos;
- Venham contigo os prediletos sócios.”
- Persuadiu-me; encontro os meus na pra
- A nutrir-se de choro e de suspiros:
- Quais agrários bezerros, quando as vacas
- Ao curral vêm de relva saciadas,
- Sem que os vedem redis, mugindo pulam
- Das mães em derredor; assim me cercam
- Lagrimando os consócios; cuidam quase
- Ítaca ver em mim rude, mas terra
- Onde foram gerados e nascidos,
- E dizem-me a gemer: “De Jove aluno,
- De rever-te folgamos, qual se aos campos
- Volvêssemos da pátria. Ora nos conta
- O infortúnio dos nossos.” — Eu me apresso
- A animá-los: “Varemos o navio,
- O que ele encerra em grutas recolhamos;
- Vinde comigo todos, que os amigos
- No palácio de Circe à farta vivem.”
- Prontos obedeciam, mas bradando
- Euríloco os deteve: “Ah! desgraçados,
- Onde imos? à mansão da maga Circe,
- Que em porcos, lobos ou leões, vos mude,
- E a rodar seu palácio vos constranja?
- Tereis outra caverna do Ciclope,
- Matadouro dos sócios por audácia
- Do insano Ulisses”. Cala, e eu saco a espada,
- Pretendendo a cabeça decepar-lhe,
- Bem que parente fosse; mas os nossos
- Com doçura o impediram: “Se o permites,
- Ele cá permaneça e a nau vigie,
- E da deusa à morada nos conduzas.”
- Saímos pois da praia, e da ameaça
- Medroso o mesmo Euríloco nos segue.
- Circe os outros cuidosa em casa banha
- Perfuma e paramenta: em lauto bodo
- Os achamos de túnicas e mantos.
- Mestos a prantear se comunicam,
- E o paço retumbava; a veneranda
- Circe atalhou: “Não mais, divino Ulisses,
- Vos exciteis ao luto. Eu sei dos transes
- Padecidos por vós no mar piscoso,
- De hostilidades mil que em terra houveste.
- Comei, bebei, refocilai; no peito
- Renasça o ardor que tínheis ao deixardes
- Ítaca alpestre: agora ah! desabridos
- Por tão penoso errar, por tantas mágoas,
- Ao júbilo e prazer sois insensíveis!”
- Comoveu-nos, e em mimos lá ficamos
- Um ano inteiro. As estações decorrem
- E longuíssimos dias, e em segredo
- Os meus advertem-me: “Infeliz, deslembras
- O chão natal? O fado reservou-te
- À pátria e aos lares teus.” Meu brio esperta.
- Enquanto o Sol não cai, bom vinho e carnes
- Desfrutamos; à noite, por obscuras
- Salas dormindo os mais, subo ao divino
- Tálamo refulgente e me ajoelho:
- “Cumpre, Circe, a promessa, a pátria anelo;
- Por mim to rogo, pelos ais de tantos
- Que em tua ausência o coração me partem.”
- A augustíssima ninfa respondeu-me:
- “Divo astuto Laércio, constranger-vos
- Não quero; mas convém baixeis primeiro
- De Prosérpina e Dite à feia estância,
- O vate a consultar cego Tirésias,
- Único morto a quem a inferna Juno
- O saber e o pensar tem conservado,
- Não sendo os outros mais que aéreas sombras.”
- De alma rasgada, a Circe a cama inundo,
- Enjeito a vida, o claro Sol odeio;
- Mas, de chorar e revolver-me lasso:
- “Quem há-de, perguntei, pilotear-me?
- No Orco nenhum desembarcou té hoje.”
- “Isso, replica, não te dê cuidado:
- Arma, Ulisses, o mastro, expande as velas;
- Senta-te, e a Bóreas encomenda o rumo.
- Quando, por entre o pego, à mole praia
- E ao luco de Prosérpina chegares,
- De salgueiros estéreis e altos choupos,
- Surjas lá no Oceano vorticoso,
- E à casa opaca de Plutão caminhes,
- Onde o Cocito, que do Estige mana,
- Com o ígneo Flegetonte, separando
- Celsa penha os ruidosos confluentes,
- Mete-se no Aqueronte. Ali, te aviso,
- Em cova cubital por toda parte,
- Libações vaza herói, de mulso e leite
- Às mãos ambas, depois de mero vinho,
- Terceira de água, e branco farro mescles.
- Implora os oucos manes e promete,
- Em Ítaca imolada a melhor toura,
- De dons a pira encher, e ao mesmo vate
- Sacrificar sem mancha atro carneiro,
- Flor dos rebanhos vossos. Dos finados
- Assim que às gentes ínclitas orares,
- Pretas reses degola, macho e fêmea,
- Do Érebo em face, e averso atenta o rio;
- Hão-de presto acudir enxames de almas.
- Queimar as hóstias esfoladas manda:
- Vota a Plutão pujante e à seva esposa.
- De espada em punho, junto à cova, impede
- Que, antes de questionares a Tirésias,
- Provem do sangue os manes: pronto o vate
- Virá mostrar, ó capitão de povos,
- Como sulques o ponto e à pátria voltes.”
- A Aurora em cróceo trono radiava:
- Circe de capa e túnica vestiu-me;
- Vestiu-se de alva estola fina e bela,
- Cinto áureo atou, pôs à cabeça coifa.
- Pelos salões desperto os camaradas,
- Brando os careio: “Ao sono, sus, furtai-vos;
- A partir me suade a mesma Circe.”
- Afervoram-se alegres; mas não pude
- Salvar a todos: Elpenor imbele,
- Estólido e o mais moço, da vinhaça
- Para se refrescar, dormiu sozinho
- De cima no terraço, e ao movimento
- E estrépito acordando, entontecido
- Não desce a escada longa, mas do teto
- Rui, fratura o pescoço, ao Orco afunda.
- Falo aos demais: “Talvez cuideis que à pátria
- Vamos, amigos; prescreveu-me a ninfa
- Que, a Prosérpina e Dite visitando,
- O Tebano Tirésias consultemos.”
- Consternam-se a tal nova e se arrepelam.
- A dor que importa? À praia aproximados,
- Chorando mestos, em pessoa Circe,
- Rápida e invisa, à nau já tinha presos
- Carneiro e preta ovelha: quem, se um nume
- Quer subtrair-se, rastejá-lo pode?