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OdisseiaLivro X
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Do Hipótades Eolo, aceito ao numes

432 versos · 6 notas do tradutor


  1. Do Hipótades Eolo, aceito ao numes,
  2. A ilha abordamos, a nadante Eólia,
  3. De éreo muro infrangível circundada
  4. Sobre liso penedo. Ele os seis pares
  5. Consorciou de filhos, para todos
  6. Junto ao bom pai e à casta mãe comerem
  7. À mesma vária mesa: ao dia, a casa
  8. Harmônica recende; à noite, aos braços
  9. Das consortes pudicas se repousam,
  10. Em tapetes e leitos recortados
  11. Nessa bela vivenda um mês inteiro
  12. Amigável tratou-me, a indagar sempre
  13. De Ílion, da frota Argiva e da tornada;
  14. Eu recontava tudo. Enfim licença
  15. Rogo-lhe de sair, ao que ele acede
  16. E dispõe a partida: os rijos ventos
  17. Feche em pele de um touro de nove anos,
  18. Porque a seu grado, permissão de Jove,
  19. Os subleva ou contêm; por um calabre
  20. Argênteo os cerra no porão, temendo
  21. Um hálito qualquer; único solto,
  22. Nos vai soprando Zéfiro propício.
  23. Tais precauções frustou-nos a loucura.
  24. Navego assíduo; na dezena tarde,
  25. Ítaca e os lumes seus me apareciam:
  26. Rendo-me ao sono ali, cansado e lasso,
  27. Pois nunca o leme a outrem confiara,
  28. Para em terra o mais cedo nos acharmos.
  29. Do generoso Hipótades riquezas
  30. Crendo que eu recebera, os da equipagem
  31. Discorriam destarte: “Oh! quanto Ulisses
  32. Por onde quer que aborde é festejado!
  33. Onusto vem de Ilíacos tesouros,
  34. E nós, tendo corrido iguais tormentas,
  35. Vamos ao pátrio lar de mãos vazias.
  36. Brindes lhe fez agora o amigo Eolo;
  37. Veja-se que ouro e argento esse odre guarda.”
  38. Vencendo o mau conselho, o desataram:
  39. Os ventos a ruir, de Ítaca os deitam,
  40. A empegá-los em lágrimas desfeitos.
  41. Acordo; ao mar calculo se me atire,
  42. Ou sofra a nova dor: sofri, jazendo
  43. No fundo oculto; os outros, suspiravam.
  44. Procela atrás à Eólia nos remessa:
  45. Feita aguada na praia e um jantar breve,
  46. Como o arauto e um guerreiro me endereço
  47. De Eolo aos paços, que ao festim seus filhos
  48. E a mulher tinha; sento-me à soleira,
  49. E eles pasmados: “Foi-te um nume infenso?
  50. Tornaste, Ulisses? Tudo acautelamos,
  51. Para a salvo aos penates reverteres.”
  52. Triste respondo: “Sócios temerários
  53. E fatal sono, amigo, me perderam;
  54. Auxílio, que o podeis.” Com brandas vozes
  55. Quis demovê-los, mas seu pai retorque:
  56. “Fora, não devo proteger um homem
  57. Ingrato ao Céu; foge daqui, malvado,
  58. És ódio aos imortais.” E agro e severo,
  59. Da Eólia nos despede a soluçarmos.
  60. A vogar, fatigada já do remo,
  61. Do erro se argúi a gente esmorecida.
  62. Gastas seis, na setena singradura
  63. Arribou-se de Lamos à eminente
  64. Lestrigônia Telépila, onde o gado
  65. Recolhendo o pastor, pelo outro chama,
  66. Que obediente sai; onde o salário
  67. O insone dobraria, apascentando
  68. Já manadas, já greis de branco velo:
  69. Tanto ali se aproxima a noite e o dia.
  70. Do porto em roda a pique há celsas pedras,
  71. E a barra estreitam cabos dous bojantes:
  72. As naus dentro se amarram conchegadas,
  73. Que o mar dorme tranqüilo e não se altera.
  74. A minha só de fora atei por cabos
  75. A um rochedo apartado, e ao cimo trepo
  76. A especular se em torno divisava
  77. De homens ou bois trabalho; só rompia
  78. Do solo um fumo. Escolho dous, que saibam,
  79. Com o arauto, a quem lá sustente Ceres;
  80. Trilham por onde carreava lenha
  81. Dos montes à cidade, e perto a filha
  82. Do Lestrigão Antífates encontram,
  83. Guapa donzela, que de Artácia à fonte
  84. Clara descera, donde o povo bebe;
  85. Quem no país mandava lhe perguntam,
  86. E o paterno palácio indica a jovem.
  87. Entram; com susto a esposa, igual de um morro,
  88. De Antífates avistam; que, chamado,
  89. Presto chega da praça, atroz empolga
  90. Um para a crua ceia; os dous conseguem
  91. Refugiar-se à frota. Ao grito régio,
  92. Da cidade, homens não, gigantes fervem,
  93. E a penedos, que arrancam, nos lapidam,
  94. O estrépito a soar de moribundos
  95. E naus quebradas; para o triste pasto.
  96. Qual peixe os Lestrigões a gente enfiam.
  97. Enquanto esses no porto assim perecem,
  98. Do meu navio a gládio amarras talho;
  99. A esquivar a desgraça insto a companha,
  100. Que açodada e medrosa os remos força:
  101. O meu baixel evita os sáxeos tiros;
  102. Os mais daquela chuva ali soçobram.
  103. Da morte isentos, por amigos tantos
  104. O negro mar tristíssimos cortamos.
  105. Na ilha aporto Eéia, da terrível
  106. Música Circe de madeixas de ouro,
  107. Irmã de Etas prudente, nados ambos
  108. Do claro Sol e da Oceânia Persa.
  109. A largo surgidouro um deus nos guia;
  110. Lá, de cansaço e de ânsias corroídos,
  111. Longamente e em silêncio repousamos.
  112. Da aurora crinisparsa à luz terceira,
  113. A espada e lança tomo, um alto subo
  114. Donde ouça vozes ou culturas veja;
  115. Paro no áspero tope, enxergo um fumo
  116. Que dentre um carvalhal saía em cerco
  117. Do palácio de Circe. N’alma volvo
  118. Se após o fumo avance; mas prefiro
  119. Ir a bordo, e à maruja dado o almoço,
  120. Enviar adiante exploradores.
  121. Da nau já perto, condoído um nume
  122. Da minha soledade, ofereceu-me
  123. Galheiro cervo, que do pasto ao rio
  124. Vinha beber, da calma estimulado:
  125. A bronze o atravessei pelo espinhaço,
  126. E o bruto cai berrando e a vida exala;
  127. Pulo, saco-lhe o hastil, por terra o deixo,
  128. Vimes despego e silvas, e torcendo-os
  129. Corda formo de braça, os pés lhe amarro;
  130. Firme n’hasta, ao cachaço o levo preso,
  131. Porque de uma só mão, sobre uma espádua,
  132. Suster carga tamanha era impossível.
  133. Ante os sócios o arrojo, e em modo afável
  134. Os conforto um por um: “A Dite, amigos,
  135. Só baixaremos do fatal instante;
  136. Comei, bebei, de fome não morramos.”
  137. Dóceis levantam-se, e na praia admiram
  138. O enorme cervo, e os olhos tendo fartos,
  139. As mãos lavadas, o festim preparam.
  140. Veação gorda e vinho, até ser tarde,
  141. Nos regalaram; sobre a noite escura
  142. Na marítima areia adormecemos.
  143. No amanhecer, convoco e falo a todos:
  144. “Por mais graves que sejam nossas penas,
  145. Atendei-me, consócios. Ignoramos
  146. Se a terra é donde o Sol mergulha em trevas,
  147. Ou do fúlgido eôo em que ele nasce;
  148. Quero vos consultar, eu nada afirmo.
  149. Do cume de um penhasco, vi que a cinge
  150. Mar infinito, humilde ilha pequena,
  151. Que dentre basto carvalhal fumega.”
  152. Estala o coração, lágrimas chovem;
  153. Das cruezas de Antífates se lembram,
  154. E do fero antropófago Ciclope.
  155. Chorar que vale? Em corpos dous os nossos,
  156. Mando eu um, outro Euríloco deiforme:
  157. Sacudidas as sortes no elmo aêneo,
  158. Sai a do bravo Euríloco; este parte
  159. Com vinte dous gementes companheiros,
  160. Que apartam-se de nós também gementes.
  161. Num vale acham marmóreo insigne paço,
  162. Que cercam lobos e leões, de Circe
  163. Com peçonha amansados: contra a gente
  164. Não remeteram de unhas lacerantes,
  165. Sim alongando a cauda os afagaram,
  166. Como festejam cães o meigo dono
  167. Que lhes traz do banquete algum bocado;
  168. Mas, a tal vista, ao pórtico medrosos
  169. Retiveram-se os Gregos. Dentro ouviam
  170. Cantar suave a crinipulcra Circe,
  171. Teia a correr brilhante, que só deusas
  172. Lavram tão fina e bela. Eis diz Polites,
  173. Chefe que eu mais prezava: “No alto, amigos,
  174. Mulher ou deusa tece; o pavimento
  175. Ressoa todo ao cântico: falemos.”
  176. Gritam; Circe aparece, e abrindo as portas
  177. Resplendentes, convida esses incautos;
  178. Só, receoso, Euríloco repugna.
  179. Senta-os a deusa em tronos e camilhas;
  180. Escândea e queijo com Paneio vinho
  181. Mistura e fresco mel, poção lhe ajunta
  182. Que deslembra da pátria. Mal a engolem,
  183. Toca-os de vara, na pocilga os fecha,
  184. Porcos sendo no som, no vulto e cerdas,
  185. A inteligência embora conservassem.
  186. Tristes grunhindo, a maga lhes atira
  187. Glande, azinha e cornisolo, sustento
  188. Próprio desses rasteiros foçadores.
  189. Veio Euríloco à pressa anunciar-nos
  190. O caso infando, que articula apenas
  191. Pela força da dor, pois lhe excitava
  192. Luto no coração, água nos olhos;
  193. E, instado, o exício narra: “Ao teu preceito,
  194. Fomos, Laércio, num convale achamos
  195. Em vistoso lugar marmóreo paço.
  196. Mulher ou deusa que a tecer cantava,
  197. Abre, ao nosso gritar, fulgentes portas:
  198. Este convite, eu só de fora, temo;
  199. De esperar canso, os mais despareceram.”
  200. De tachonado bronze a tiracolo
  201. E o arco aos ombros, pela mesma senda
  202. Mando que me encaminhe; ele os joelhos
  203. Chorando me abraçou: “Divino aluno,
  204. A ir não me constranjas. Tu não voltas,
  205. Sei que os nossos perderam-se; os restantes
  206. Esquivemos, fugindo, o negro fado.”
  207. “Bebe e come, retruco, em ócio a bordo;
  208. Por mim clama o dever.” E a trilha enceto.
  209. Já, pelo sacro bosque, avisto o alcáçar
  210. Da venéfica Circe, quando o nume
  211. Do caduceu me encontra, afigurado
  212. Num gentil gracioso adolescente;
  213. Ele trava-me a destra: “Ignotos serros,
  214. Mísero, andas sozinho? os teus, quais porcos,
  215. Os tem Circe em fortíssimo escondrijo.
  216. Vens tu livrá-los? sorte igual te espera.
  217. Antídoto haverás, que te preserve
  218. Da encantadora. Seus ardis aprende:
  219. Num misto lançará sutil veneno,
  220. Em meu remédio fia-te; ao sentires
  221. De vara o toque, puxa dante o fêmur,
  222. Como para feri-la, a espada aguda;
  223. Quase a medo, ao seu toro há de invitar-te.
  224. Amores não recuses de uma deusa,
  225. Que te socorra e desencante os sócios;
  226. Mas dela exige o grande juramento,
  227. A fim que outras ofensas não te apreste,
  228. Nem do valor te dispa e te efemine.”
  229. Da terra aqui Mercúrio extraiu planta,
  230. E ma explicou: raiz escura tinha
  231. E láctea a flor; os deuses moli a chamam;
  232. É-lhes fácil cavá-la, aos homens custa.
  233. Foi-se da ilha espessa ao grande Olimpo;
  234. Nisto e pensoso dirigi-me a Circe.
  235. Eu da entrançada Eéia às portas grito,
  236. Que abre logo os resplêndidos batentes,
  237. E a seu convite, contristado, a sigo.
  238. Aos pés lindo escabelo, num dedáleo
  239. Trono me colocou de argênteos cravos.
  240. Misturada a bebida em áurea taça,
  241. Provei; não me fez mal; da vara ao toque,
  242. Disse: “Vai-te à pocilga, aos mais te agrega.”
  243. Como para matá-la, o gládio saco;
  244. Brada, furta-se ao bote, a meus pés freme:
  245. “Quem és? de que nação? de que família?
  246. Pasmo de que resistas; este encanto,
  247. Nunca o susteve alguém por cujos dentes
  248. Se infiltrasse o veneno: alma inconcussa
  249. Tens no peito. És por certo o sábio Ulisses,
  250. Que o de áureo caduceu me afirmou sempre
  251. De Ílio cá surgiria em nau veleira.
  252. Embainha essa espada; em nosso toro,
  253. Em mútua confiança, o amor gozemos.”
  254. Repliquei-lhe: “A contigo humanizar-me
  255. Tu, Circe, me alicias, tu que em porcos
  256. Meus sócios transformaste, e aqui dolosa
  257. Me instigas ao teu leito, a fim que, inerme
  258. E despido me enerves e efemines?
  259. Solene jura, ó deusa, que em meu dano
  260. Mais nada empreenderás.” — Jurou-me, eu subo
  261. Ao tálamo loução. Criadas quatro
  262. Fiéis com diligência ali serviam,
  263. Ninfas de bosque ou fonte ou santo rio:
  264. Uma forra de púrpura as cadeiras,
  265. Pondo alvo linho em baixo; outra bufetes
  266. Argênteos cobre de áureos açafates;
  267. Outra em cratera argêntea o vinho infunde,
  268. Que em áureos copos distribui melífluo;
  269. A quarta ferve em trípode ênea e grande
  270. Água sonora, que tempera e em ampla
  271. Tina me esparge por cabeça e ombros
  272. Tépido grato banho, até que os membros
  273. Me refaz do cansaço. Fresco e ungido,
  274. Em manto airoso e túnica, de prata
  275. Num trono cravejado e precioso,
  276. De artefato escabelo, a mesma entorna
  277. Linfa às mãos de elegante jarro de ouro
  278. Numa argêntea bacia, e me desdobra
  279. Limpa mesa; que amável despenseira
  280. De pães enche e abundantes iguarias,
  281. Instando-me a comer; eu com fastio
  282. Abanquei-me a cismar e a prever males.
  283. Próxima Circe, a minha dor percebe:
  284. “De ânsias ralado, Ulisses, emudeces?
  285. Nem tocas na bebida e nos manjares!
  286. Certo algum dolo temes, não refletes
  287. Que jurei pela Estige.” — Eu logo: “Circe,
  288. Que homem justo beber ou comer pode,
  289. Antes que valha aos míseros amigos?
  290. Se a teu festim me queres satisfeito,
  291. Soltos eu veja os prediletos sócios.”
  292. Ela, pegando a vara, sai de casa
  293. E abre o chiqueiro; tira-os parecidos
  294. A varrões de nove anos, em fileira
  295. Um por um vai com bálsamo esfregando,
  296. Cair fazendo o pêlo que o veneno
  297. Exicial criara, e mais os torna
  298. Jovens e esbeltos. A chorar de gosto,
  299. Beijam-me a destra, o pranto ressoava.
  300. Doeu-se a déia: “Ulisses engenhoso
  301. Em seco o vaso, nas vizinhas grutas
  302. Guarda o que tens, riquezas e aparelhos;
  303. Venham contigo os prediletos sócios.”
  304. Persuadiu-me; encontro os meus na pra
  305. A nutrir-se de choro e de suspiros:
  306. Quais agrários bezerros, quando as vacas
  307. Ao curral vêm de relva saciadas,
  308. Sem que os vedem redis, mugindo pulam
  309. Das mães em derredor; assim me cercam
  310. Lagrimando os consócios; cuidam quase
  311. Ítaca ver em mim rude, mas terra
  312. Onde foram gerados e nascidos,
  313. E dizem-me a gemer: “De Jove aluno,
  314. De rever-te folgamos, qual se aos campos
  315. Volvêssemos da pátria. Ora nos conta
  316. O infortúnio dos nossos.” — Eu me apresso
  317. A animá-los: “Varemos o navio,
  318. O que ele encerra em grutas recolhamos;
  319. Vinde comigo todos, que os amigos
  320. No palácio de Circe à farta vivem.”
  321. Prontos obedeciam, mas bradando
  322. Euríloco os deteve: “Ah! desgraçados,
  323. Onde imos? à mansão da maga Circe,
  324. Que em porcos, lobos ou leões, vos mude,
  325. E a rodar seu palácio vos constranja?
  326. Tereis outra caverna do Ciclope,
  327. Matadouro dos sócios por audácia
  328. Do insano Ulisses”. Cala, e eu saco a espada,
  329. Pretendendo a cabeça decepar-lhe,
  330. Bem que parente fosse; mas os nossos
  331. Com doçura o impediram: “Se o permites,
  332. Ele cá permaneça e a nau vigie,
  333. E da deusa à morada nos conduzas.”
  334. Saímos pois da praia, e da ameaça
  335. Medroso o mesmo Euríloco nos segue.
  336. Circe os outros cuidosa em casa banha
  337. Perfuma e paramenta: em lauto bodo
  338. Os achamos de túnicas e mantos.
  339. Mestos a prantear se comunicam,
  340. E o paço retumbava; a veneranda
  341. Circe atalhou: “Não mais, divino Ulisses,
  342. Vos exciteis ao luto. Eu sei dos transes
  343. Padecidos por vós no mar piscoso,
  344. De hostilidades mil que em terra houveste.
  345. Comei, bebei, refocilai; no peito
  346. Renasça o ardor que tínheis ao deixardes
  347. Ítaca alpestre: agora ah! desabridos
  348. Por tão penoso errar, por tantas mágoas,
  349. Ao júbilo e prazer sois insensíveis!”
  350. Comoveu-nos, e em mimos lá ficamos
  351. Um ano inteiro. As estações decorrem
  352. E longuíssimos dias, e em segredo
  353. Os meus advertem-me: “Infeliz, deslembras
  354. O chão natal? O fado reservou-te
  355. À pátria e aos lares teus.” Meu brio esperta.
  356. Enquanto o Sol não cai, bom vinho e carnes
  357. Desfrutamos; à noite, por obscuras
  358. Salas dormindo os mais, subo ao divino
  359. Tálamo refulgente e me ajoelho:
  360. “Cumpre, Circe, a promessa, a pátria anelo;
  361. Por mim to rogo, pelos ais de tantos
  362. Que em tua ausência o coração me partem.”
  363. A augustíssima ninfa respondeu-me:
  364. “Divo astuto Laércio, constranger-vos
  365. Não quero; mas convém baixeis primeiro
  366. De Prosérpina e Dite à feia estância,
  367. O vate a consultar cego Tirésias,
  368. Único morto a quem a inferna Juno
  369. O saber e o pensar tem conservado,
  370. Não sendo os outros mais que aéreas sombras.”
  371. De alma rasgada, a Circe a cama inundo,
  372. Enjeito a vida, o claro Sol odeio;
  373. Mas, de chorar e revolver-me lasso:
  374. “Quem há-de, perguntei, pilotear-me?
  375. No Orco nenhum desembarcou té hoje.”
  376. “Isso, replica, não te dê cuidado:
  377. Arma, Ulisses, o mastro, expande as velas;
  378. Senta-te, e a Bóreas encomenda o rumo.
  379. Quando, por entre o pego, à mole praia
  380. E ao luco de Prosérpina chegares,
  381. De salgueiros estéreis e altos choupos,
  382. Surjas lá no Oceano vorticoso,
  383. E à casa opaca de Plutão caminhes,
  384. Onde o Cocito, que do Estige mana,
  385. Com o ígneo Flegetonte, separando
  386. Celsa penha os ruidosos confluentes,
  387. Mete-se no Aqueronte. Ali, te aviso,
  388. Em cova cubital por toda parte,
  389. Libações vaza herói, de mulso e leite
  390. Às mãos ambas, depois de mero vinho,
  391. Terceira de água, e branco farro mescles.
  392. Implora os oucos manes e promete,
  393. Em Ítaca imolada a melhor toura,
  394. De dons a pira encher, e ao mesmo vate
  395. Sacrificar sem mancha atro carneiro,
  396. Flor dos rebanhos vossos. Dos finados
  397. Assim que às gentes ínclitas orares,
  398. Pretas reses degola, macho e fêmea,
  399. Do Érebo em face, e averso atenta o rio;
  400. Hão-de presto acudir enxames de almas.
  401. Queimar as hóstias esfoladas manda:
  402. Vota a Plutão pujante e à seva esposa.
  403. De espada em punho, junto à cova, impede
  404. Que, antes de questionares a Tirésias,
  405. Provem do sangue os manes: pronto o vate
  406. Virá mostrar, ó capitão de povos,
  407. Como sulques o ponto e à pátria voltes.”
  408. A Aurora em cróceo trono radiava:
  409. Circe de capa e túnica vestiu-me;
  410. Vestiu-se de alva estola fina e bela,
  411. Cinto áureo atou, pôs à cabeça coifa.
  412. Pelos salões desperto os camaradas,
  413. Brando os careio: “Ao sono, sus, furtai-vos;
  414. A partir me suade a mesma Circe.”
  415. Afervoram-se alegres; mas não pude
  416. Salvar a todos: Elpenor imbele,
  417. Estólido e o mais moço, da vinhaça
  418. Para se refrescar, dormiu sozinho
  419. De cima no terraço, e ao movimento
  420. E estrépito acordando, entontecido
  421. Não desce a escada longa, mas do teto
  422. Rui, fratura o pescoço, ao Orco afunda.
  423. Falo aos demais: “Talvez cuideis que à pátria
  424. Vamos, amigos; prescreveu-me a ninfa
  425. Que, a Prosérpina e Dite visitando,
  426. O Tebano Tirésias consultemos.”
  427. Consternam-se a tal nova e se arrepelam.
  428. A dor que importa? À praia aproximados,
  429. Chorando mestos, em pessoa Circe,
  430. Rápida e invisa, à nau já tinha presos
  431. Carneiro e preta ovelha: quem, se um nume
  432. Quer subtrair-se, rastejá-lo pode?

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v. 64Lestrigônia Telépila, onde o gado
A interpretação explica Telepylon por distantes portas. Rochefort, Pindemonte e outros, são deste parecer; mas eu, com M. Giguet, tomo Telépita por uma cidade do rei Lamos sita na Lestrigônia, viesse embora o nome da posição das suas portas.
↩ voltar ao verso 64
v. 107Irmã de Etas prudente, nados ambos
O irmão de Circe é em latim Æetes ou Æeta, ou simplesmente Æta; mas o nosso Antônio José, na sua ópera “Encantos de Medéia”, chama-lhe Etas: estando já o nome consagrado em português por tão engenhoso poeta, não fiz mais que segui-lo.
↩ voltar ao verso 107
v. 174–175Mulher ou deusa tece; o pavimento
Dapedon é o pavimento: alguns o tomaram por muros, alguns pela casa toda; eu creio que se deve conservar a palavra pavimento. Ainda hoje dizemos que o sobrado parece cair com o estrépito, e na verdade figura-se à imaginação que é o pavimento que vai desabar.
↩ voltar à passagem, v. 174
v. 232É-lhes fácil cavá-la, aos homens custa.
Usa Homero de oryssein, em latim effossa, porque a erva mole estava metida na terra, como a gengibre ou o mendobim (que os afetados e até Morais, contra o uso comum e que nos veio de África, chamam amendoim, para camparem de reinóis), e como outras muitas plantas: cavar melhor exprime a cousa do que arrancar, porque mostra que o fruto não se via de fora. Alguns fazem que Mercúrio ofereça a Ulisses a planta, que ele já tinha arrancado; mas diz o texto que foi cavada ali mesmo, depois do oferecimento.
↩ voltar ao verso 232
v. 264–265Uma forra de púrpura as cadeiras,
Diz Homero que aos pés das cadeiras ou poltronas, cobertas de belos tapetes, havia tecidos de alvo linho: M. Giguet, à francesa e à moderna, põe os tecidos por cima da púrpura dos assentos, como para servirem de capas; não advertiu que em dia de festa e ostentação (tal era o em que Circe recebeu a Ulisses) tiram-se as capas e descobre-se a riqueza da tapeçaria. Ao presente, v. g. no Peru, consta-me que nos bailes estendem-se por cima das alcatifas ricos e alvíssimos tecidos.
↩ voltar à passagem, v. 264
v. 410Vestiu-se de alva estola fina e bela,
Phãgros, em latim stola, era das deusas e das matronas; ao depois a adotaram os sacerdotes; mas entre os cristãos restringiu-se a palavra estola a significar uma tira de seda, larga para as pontas, que se veste por cima da alva e por baixo da casula. Uso de estola no sentido primitivo, porque não temos um termo especial, e desagradam-me tais generalidades. Pindemonte empregou o termo gonna: mas ignoro se ele compreende a estola inteira, saia e corpo, ou somente a saia — neste último caso, falta-lhe a força do grego e do latim.
↩ voltar ao verso 410
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