Foi-se a Lacedemônia a instar Minerva
420 versos · 5 notas do tradutor
- Foi-se a Lacedemônia a instar Minerva
- A que volte o magnânimo Ulisseida.
- Ele e o Nestório ao pórtico repousam
- De Menelau: Pisístrato num meigo
- Sono estava; desperto o companheiro,
- N’alta noite em seu pai medita e pensa.
- “Telêmaco, a Glaucópide bradou-lhe,
- Não mais vagues, soberbos tendo em casa
- Que, entre si partilhando, os bens te gastem:
- A viagem falharia. Ao bravo Atrida
- Requer a despedida, para achares
- A casta mãe, do pai e irmão rogada
- A casar com Eurímaco, o mais largo
- Nos presentes e dote. Ela é possível
- Que te desfalque; a natureza ignoras
- Do peito feminil? Ao novo esposo
- Quer aumentar: o antigo não lhe importa,
- E dos primeiros filhos se deslembra.
- Anda, à cativa que melhor julgares
- Tudo comete, enquanto uma consorte
- Não te destine o Céu. Mas, n’alma o graves,
- Os mais valentes procos te insidiam,
- Da áspera Same e de Ítaca no estreito,
- Na ânsia de assassinar-te: eu creio que antes
- Há de engolir a terra esses vorazes.
- Navega ao mar das ilhas e de noite;
- Vento haverás galerno e um deus propício.
- Assim que abiques na Itacense plaga,
- Manda à cidade a nau; tu só de pronto
- Vai-te ao porqueiro Eumeu, que te ama tanto;
- Lá pernoita, e a Penélope despacha-o,
- Que te anuncie incólume de Pilos.”
- Acaba, e voa para o vasto Olimpo.
- Telêmaco, ao Nestório o pé calcando,
- O acorda: “Sus, Pisístrato, a caminho,
- Aparelhem-se ungüíssonos ginetes.”
- Mas Pisístrato: “Embora apressurados,
- Não convém que trotemos pelo escuro.
- A manhã vai luzir; os dons aguarda
- Que Menelau no coche te acumule,
- E nos despeça com gentis maneiras:
- De herói tal a amizade não se olvida,
- E a nossa gratidão será perpétua.”
- A aurora então raiou. Vem ter com eles
- O marcial Atrida, que se erguia
- Do toro da pulcrícoma Lacena.
- O de Ulisses querido, ao pressenti-lo,
- Alva túnica cinge, aos largos ombros
- O manto enfia grande, e fora o encontra:
- “Príncipe excelso, à pátria me remetas;
- Já já partir o coração me pede.”
- Responde-lhe o guerreiro: “A teus desejos
- Não me oponho, Telêmaco; reprovo
- Que, por nímia afeição ou nímio enfado,
- Seja detido o hóspede ou repulso;
- Dá-se igual dano, e todo excesso é vício:
- Parta à vontade, amemo-lo presente.
- Espera que no carro os dons te alegrem,
- E um almoço abundante se te apreste:
- Viajardes sem fome, é lucro e honra.
- Toda a Hélade e Argólida, consintas,
- Em coche meu perlustrarei contigo:
- De cidade e cidade não sem fruto,
- Sequer aênea trípode haveremos,
- Ou caldeira, ou dous mus, ou taça de ouro.”
- E o sisudo mancebo: “O divo aluno,
- De povos maioral, quero-me em casa:
- Lá não deixei quem zele os meus haveres
- Procurando a meu pai, temo a ruína,
- Ou ser de meus tesouros defraudado.”
- O rei pois encomenda a Helena e às servas
- O almoço, e do melhor: do leito surge
- Eteoneu Boetóides, que era perto,
- E ao fogo, à voz do Atrida, as carnes assa.
- Menelau desce à câmara odorosa,
- Descem com ele a esposa e Megapentes:
- Copo tira dos cofres duplifundo,
- E de prata a cratera traz o filho;
- Da arca, onde os peplos tinha variegados,
- Lavor seu, a formosa das formosas
- Tira o mais amplo e lindo, que debaixo
- Entre os outros fulgia como estrela.
- Sobem de novo, e Menelau perora:
- “Cumpra o de Juno troador marido
- O que anseias, amigo. Obra Vulcânia,
- E a melhor que possuo, te ofereço,
- Uma argêntea cratera de orlas de ouro:
- Deu-me em brinde hospital, à volta minha,
- Fédimo o rei Sidônio; eu dou-ta agora.”
- Nisto, passou-lhe às mãos primeiro o copo;
- Mas a cratera, o forte Megapentes.
- A rainha pegou do fino peplo:
- “Toma, Helena o teceu; tal prenda, filho,
- Orne-te a noiva à hora apetecida.
- Entanto, a mãe to guarde em seu palácio;
- De mim terno conserva esta lembrança.”
- Ele contente o aceita; o herói Pisístrato,
- Que admira os dons, num cesto os acomoda.
- À sala os endereça o flavo Atrida:
- Em camilhas sentados, uma serva
- Água em bacia argêntea às mãos entorna
- De áureo jarro, e desdobra e limpa a mesa;
- Os pães a despenseira atenciosa
- Traz da copa e iguarias reservadas;
- Eteoneu trincha e distribui as carnes;
- Ministra o vinho o ilustre Megapentes;
- Logram-se do banquete os comensais.
- Depois jungem Telêmaco e o Nestório
- O árdego tiro, ao vário coche montam,
- E o vestíbulo deixam ressonante.
- Menelau vai com eles, áurea taça
- Tendo na destra, a fim que à despedida
- Libem do almo licor, e ante a parelha
- Venerando lhes fala: “Adeus, mancebos;
- Recomendai-me ao ínclito Gerênio;
- Doce pai me foi sempre, enquanto aos muros
- De Ílion nós os Grajúgenas pugnamos.”
- “À risca, ó generoso, o teu recado,
- O Ulisseida acudiu, referiremos.
- Oh! se na volta, os ricos dons à vista,
- Eu contasse a meu pai favores tantos!”
- Súbito uma águia à destra sobrevoa,
- Empolgando no pátio enorme ganso;
- Mulheres e homens a gritar a seguem;
- Apropinqua-se aos moços e à direita
- Alteia o surto; em regozijo atentam,
- Mas Pisístrato: “Observa, ó rei sublime,
- Se é para ti, se para nós o agouro.”
- Considerava o Atrida na resposta,
- E o precede a mulher de peplo ornada:
- “A solução do agouro o Céu me inspira.
- A águia, ao baixar da brenha onde há seu ninho,
- O ganso arrebatou nutrido em casa:
- Tornando Ulisses de aflições e errores,
- Ultrajes punirá; se é que não veio,
- E, plantada a vingança, o fruto espera.”
- Telêmaco, do carro: “Oh! permitisse-o
- De Juno o esposo! A ti, que se um deus fosses,
- Deprecaria.” Nisto, açouta os brutos,
- Que por entre a cidade ao campo correm,
- Sem todo o dia desjungidos serem.
- Cadente o Sol e escuros os caminhos,
- Em Feres hospedados por Díocles,
- Filho de Orsíloco, o do Alfeu renovo,
- Pernoitam; mas, na aurora, o coche arreiam,
- Do sonoro vestíbulo despedem.
- Incitada a parelha e por si voa,
- Até que a celsa Pilos descortinam.
- Ao Nestório Telêmaco virou-se:
- “Como é que hás de a promessa preencher-me?
- Hóspedes nossos pais, idade a mesma,
- Esta viagem nos liga: além do embarque
- Não me leves, aqui me apeio, amigo;
- Temo instâncias do velho afetuoso,
- E urge a partida.” — O jovem pensa um pouco,
- E à nau ligeiro trota; nela encerra
- As dádivas do Atrida: “Amigo, disse,
- Antes que eu entre em casa, embarcai todos.
- O ânimo e fogo de meu pai conheço:
- Há de vir em pessoa demorar-te,
- Sem de vazio andares; já prevejo
- Contra mim seu furor.” Os crinipulcros
- Toca para a cidade e se recolhe.
- “Aparelhai, Telêmaco aos seus grita,
- Eia, à derrota.” E enquanto aparelhavam,
- À popa ora a Minerva. Ao libar, chega
- Por homicídio um de Argos exilado,
- Geração de Melampo, que habitara
- Em Pilos, mãe de ovelhas, celso alcáçar.
- Desterrou-se Melampo, receoso
- Do preclaro Neleu, que inteiro um ano
- Reteve-lhe os tesouros, quando preso
- No torreão de Fílaco estivera,
- Penas curtindo, por amor de Pero,
- Da atroz Erínis sugestão ruinosa.
- Livre, trouxe de Fílace os mugintes
- Bois a Pilos; do cru Neleu vingou-se,
- Raptada a esposa para o irmão levando.
- Passou-se ao povo de Argos pascigosa,
- Onde era fado em muitos imperasse:
- Lá casando, um palácio ergueu soberbo,
- E houve os bravos Antífates e Mântio.
- Antífates foi pai de Oicleu brioso;
- Oicleu, de Anfiarau da gente amparo,
- Do coração do Egíaco e de Apolo:
- Da velhice, contudo, sem que à porta
- Batesse, em Tebas sucumbiu traído,
- Por enfeites, peitada a mulher sua,
- Já de Alcméon e Anfíloco mãe sendo.
- Gerou Mântio a Polifides e Clito:
- Da amante Aurora Clito arrebatado,
- Por formoso entre os numes se numera;
- A Polifides, morto Anfiarau,
- Fez Apolo um profeta, que eminente
- Vaticinava a todos, na Hiperésia
- Pelas iras paternas emigrado.
- Profeta era também Teoclímeno,
- Filho seu, que, a Telêmaco avistando
- Em preces e a libar, alvoroçado:
- “Amigo, lhe clamou, já que te encontro
- Num sacrifício, pelo deus que honoras,
- Pela cabeça tua e a dos consócios,
- Franco as minhas perguntas satisfaças:
- Quem és? de que família? de que terra?”
- Ei-lo sério e prudente: “Eu não te iludo
- Ítaco, hóspede, sou; meu pai, Ulisses:
- Neste negro baixel, com estes, ando
- A investigar da triste morte sua.”
- “E eu, torna-lhe o adivinho, expatriei-me,
- Tendo matado um cidadão potente:
- Perseguem-me os irmãos, e a tribo inteira,
- De alta influência e poderio em Argos;
- Vago a fugir da Parca. Tu me asila,
- Eu to imploro.” — E Telêmaco: “Por certo
- Não te repulso; em meu baixel, amigo,
- Igualmente que nós serás provido.”
- Aqui, toma e ao convés lhe encosta a lança;
- Consigo à popa o assenta. À voz tonante,
- Cabos safa a maruja, à faina atende:
- Reto encaixam na base o grosso abeto
- E o firmam nos ovéns, por tortos loros
- Içada a vela expandem. Manda Palas
- Brisa feliz, que pelas salsas ondas
- Faça o navio despejar caminho.
- Do Nubícogo ao sopro, o Sol no ocaso,
- Perpassa Feres, Élide costeia,
- De Epeus domínio; entre ilhas eriçadas
- Voga dali, da morte ou vida incerto.
- Na choça entanto o herói com seus pastores
- Ceava, e após sondou se Eumeu queria
- Inda mantê-lo: “Agora a vós me explico.
- Tenciono de manhã de porta em porta,
- Por não vos ser pesado, ir às esmolas;
- Fiel guia hei mister para a cidade,
- A mendigar meu pão sou constrangido.
- Vou dar notícias do divino Ulisses
- À modesta Penélope, e o sustento
- Pedir aos soberbões, que o têm de sobra.
- Servi-los-ei; pois, graças a Mercúrio
- Que honra e prospera as obras, to assevero,
- Ninguém melhor o fogo arruma ou poupa,
- Racha lenha, cozinha, assa, escanceia:
- Primo no que o pequeno ao grande presta.”
- E o porqueiro indignado: “Enloqueceste?
- Projeto infausto! Se perder-te anseias,
- Busca essa corja desdenhante e ingrata,
- Cuja violência o férreo céu penetra.
- Não como tu, sim bem trajados moços,
- Louçãos de ungida coma, lhes ministram
- Vinho e manjares na profusa mesa.
- Fica, a mim nem aos sócios enfastias;
- Venha Telêmaco, e terás vestidos
- E os meios de partir, como é teu gosto.”
- Paciente o Laércio: “Ao rei dos numes,
- Quanto me és caro, Eumeu, dileto sejas,
- Pois de tamanho peso me alivias!
- Nada há pior que errar sem domicílio:
- Flagela ao triste o vitupério, a fome
- O rói e abate, e o pungem mil desgostos.
- Já que esperar Telêmaco me ordenas,
- Da mãe de Ulisses, de seu pai me informes,
- Da velhice deixado às negras portas:
- Gozam do Sol, ou do Orco estão nas sombras?”
- Franco Eumeu: “Vivo o pai, morte ao Supremo
- Roga, dês que a mulher, do ausente filho
- Agravando-lhe a mágoa, falecida
- A velhice apressou-lhe: a um fim tremendo
- Foi da materna dor precipitada!
- Ah! fujam quantos amo a tal miséria.
- Mau grado às aflições, lhe era jocundo
- Entreter-se comigo: a par criou-me
- Da velada Ctímena, última filha,
- E quase amor igual me demonstrava.
- Na leda puberdade, em Same a casam
- Com dote infindo, e aos seus currais preposto,
- Bem vestido e calçado, meiga e boa
- Envia-me Anticléia. Amarga perda!
- Mas o Céu frutifica os meus granjeios;
- Deles me nutro e valho a desditosos.
- Oh! se ouvir da senhora inda eu pudesse
- A amiga voz! O paço lhe invadiram
- A insolência e a desgraça: interrogá-la,
- Ou já da própria mesa é-nos vedado
- O comer e beber, ir para o campo
- Com seus dons, o que a fâmulos consola.”
- “Ah! da pátria e parentes, clama Ulisses,
- Roubaram-te em menino! Ingênuo expõe-nos:
- És de vasta cidade sovertida,
- Que teu pai habitasse e a casta mãe;
- Ou junto a bois e ovelhas te furtaram,
- E a teu senhor venderam-te piratas?”
- E Eumeu: “Pois bebe e escuta, a noite é grande:
- Apraz dormir, também deleita o conto;
- Nímio sono aborrece, e não te quadra.
- Se algum destes o quer, pode ir deitar-se,
- E n’alva almoce e o gado heril pastore.
- Nossas penas à mesa recordemos.
- Quem longo há padecido e vagueado,
- Acha prazer em memorar seus males.
- “Demora Ciros (se hás notícia dela)
- Ilha onde estão marcados os solstícios,
- Além da Ortígia; embora pouco vasta,
- Em greis abunda e armento, em grãos e vinho.
- Lá fome nem doença invade os homens:
- No grêmio da família acabam velhos,
- Do Argentiarquivo e Febe asseteados.
- Lá, nas duas cidades, o Ormênides
- Ctésio meu divo pai reinava, quando
- Chatins Fenícios dobres a abordaram,
- Onusta a nau de industres bagatelas.
- De casa esses velhacos seduziram
- Feniça esbelta e linda, em obras destra:
- Lavava, e um deles, junto à nau gozando-a,
- A embriagou de amores e carícias,
- Que à mulher mais honesta o juízo enturvam.
- Rogado a moça, declarou quem era
- E o paço meu paterno: — Ser blasono
- Da erífera Sidônia, do opulento
- Aribas filha; Táfios me roubaram
- Ao vir do campo, a Ctésio me venderam,
- Que lhes pagou por mim preço avultado. —
- “O amante acrescentou: — Pois vem conosco;
- Verás teus pais, que o nome têm de ricos,
- Em seu alto palácio. — Isso eu faria,
- Prosseguiu, se a meus pais restituir-me
- Salva jurásseis todos. — Eles juram,
- E a moça: — Nunca mais, em fonte ou rua,
- Nenhum de vós me fale; que, se o velho
- O suspeita, em prisões há de lançar-me
- E urdir a morte vossa. Eia, segredo;
- Completo o vosso escambo e a carga dentro,
- Avisai-me com tempo: quanto pilhe,
- Ouro trarei. Mor frete oh! se eu vos desse!
- Nas casas do senhor penso um menino
- Travesso e andejo; à nau guiá-lo posso:
- Com ele alcançareis copioso lucro,
- Se for mercado ao longe. — Disse e foi-se.
- “Um ano inteiro a traficar despendem;
- E, abarrotada a nau de veniagas,
- De meu pai veio ao paço um núncio esperto
- Com brilhante colar de electro e ouro
- Que remirando minha mãe e as servas
- De mão em mão passavam: justo o preço,
- O sinal faz à escrava e se retira.
- Ela trava de mim, sai fora; encontra
- Nas mesas ao vestíbulo a baixela,
- Que de meu pai servira aos convidados,
- Para o conselho popular partidos;
- No seio três esconde copos de ouro:
- Com pueril descuido a vou seguindo.
- Cedia o Sol à treva: ao porto fomos,
- Onde o navio estava, pressurosos;
- Embarcados, soprando amigo Jove,
- Fendemos logo as úmidas campinas.
- Seis dias e seis noites navegamos:
- Subitamente, à sétima jornada,
- Como gaivota, a péssima Feniça,
- Aos golpes tomba da frecheira deusa
- No bojo do navio, em pasto aos focas
- E aos peixes foi dos cúmplices entregue,
- Eu triste fico e só. Do mar e vento
- Aqui trazido, me comprou Laertes:
- Ítaca assim de então meus olhos viram:”
- “Eumeu, responde o herói, tocou-me n’alma
- A simples narração das mágoas tuas!
- Mas Jove misturou-te os bens e os males;
- Depois desse revés, entraste em casa
- Benévola, onde a vida se te escoa
- Sem fome e dissabor: de praia em praia
- Errante chego, da pousada incerto!”
- Finda a conversação, dormiram pouco;
- Veio em breve luzindo a roxa aurora.
- A vela os de Telêmaco arriando,
- O mastro abaixam, para o porto vogam,
- Amaram, saltam. Já na areia almoçam;
- E, saciada a fome e ardente sede,
- Ergue o príncipe a voz: “Para a cidade
- Remai; que eu vou-me aos campos e pastios,
- À tarde, assim que os vir, serei convosco,
- E em prêmio desta rota, na alvorada
- Almo havereis convívio e doce vinho.”
- “E eu, reclamou Teoclímeno vate,
- Onde irei filho? à casa de um magnata
- Que em Ítaca domine, ou da mãe tua?”
- Prudente o moço: “A nossa eu te indicara,
- Em dons hospitaleiros abundante;
- Mas pior te seria, pois me ausento,
- Nem verás minha mãe, que em cima tece
- E raramente mostra-se. Eu te inculco
- O de Pólibo Eurímaco, adorado
- Em Ítaca, o rival mais extremoso
- Que de Ulisses o reino e o toro afeta.
- O Olímpio etéreo o sabe, e se tais núpcias
- Não tem de alumiar da morte o facho.”
- Aqui, núncio de Apolo, um circo à destra
- Voa e depena a unhas uma pomba,
- E entre o navio e o chefe atira as plumas.
- A Telêmaco o vate, em separado,
- A mão pega e lhe diz: “Sem nume à destra
- Essa ave não voou; de fronte olhando,
- O agouro conheci: mais que outra, sempre
- Reinará neste povo a estirpe vossa.”
- O príncipe gritou: “Se tal se cumpre,
- Liberal provarás minha amizade;
- Poderão proclamar-te venturoso.”
- Vôlto ao filho de Clito: “És dos que a Pilos
- Me seguiram, Pireu, quem mais distingo
- Na obediência: este hóspede agasalha,
- Acarinha e afeiçoa, até que eu venha.”
- Responde-lhe Pireu: “Por mais que seja
- Longa a demora tua, hei de afagá-lo
- E prevenir em tudo os seus desejos.”
- Então Pireu se embarca, e a seu mandado
- Soltam cabos e abancam-se nas tostes.
- Pulcros talares calça, e de érea ponta
- Lança arvora Telêmaco robusta.
- Para a cidade os sócios navegavam,
- Como ordenara o ínclito Ulisseida;
- E ele às pocilgas parte, que o zeloso
- Fiel porqueiro a seu senhor mantinha.