A meditar com Palas na matança
463 versos · 5 notas do tradutor
- A meditar com Palas na matança
- Fica o divo Laércio, e diz: “Meu filho,
- Agora as armas recolher te cumpre;
- E caso algum o estranhe, assim te escuses:
- Quais as deixou meu pai, já não luziam;
- Do vapor do fogão fui preservá-las.
- E outro medo o Satúrnio suscitou-me:
- Entre os copos ferir-vos poderíeis,
- Nosso convívio e os esponsais manchando;
- Pois a força do ferro atrai o homem.”
- Telêmaco obedece ao pai querido,
- Chama Euricléia à parte: “Eia, as mulheres
- Retém, ama, lá dentro, enquanto acima
- Reponho as pulcras armas, desprezadas
- E do vapor do fogo denegridas
- Na ausência de meu pai. Menino eu dantes,
- Ora quero do fumo preservá-las.”
- A ama logo: “Oxalá com tal prudência
- A casa rejas! Mas diante, filho,
- Quem te há de alumiar, senão as servas?”
- “Este hóspede, responde acautelado;
- Que do meu coma ocioso, não tolero.”
- Ordem fútil não foi, porque os batentes
- Fecha Euricléia. À pressa ambos carregam
- Elmos, cavos broquéis e agudas lanças;
- Precede-os Palas de lanterna de ouro.
- “Meu pai, observa o moço, que milagre!
- As paredes, as traves abietinas,
- As grossas vigas, as colunas altas,
- Em lume vivo aos olhos me lampejam:
- Um deus parece dentro esclarecê-las.”
- “Tá! não tujas, o atalha o sábio Ulisses:
- Os íncolas do Olimpo assim costumam.
- Deita-te: à espreita eu fico das criadas;
- Esperarei que em pranto me interrogue
- Tua mãe.” — Ei-lo busca a própria alcova
- No meio do esplendor, e em brando sono
- Pega até que desponte a diva aurora;
- Mas o herói permanece com Minerva,
- A pensar no horroroso morticínio.
- Sai, qual Diana casta ou loura Vênus,
- Penélope do tálamo, e lhe achegam
- Ao lar o usado assento, obra de argênteas
- E ebúrneas orlas, do famoso Icmálio,
- De apto escabelo e forro de pelame.
- As cativas gentis ali vieram
- Erguer das mesas muito pão restante,
- E a copa que servira aos convidados;
- Em terra as brasas dos fogões depondo,
- Lenha renovam, que ilumine e aqueça.
- Doesta a Ulisses outra vez Melântia:
- “À noite, malandrino, inda importunas?
- Espias as mulheres? Farto e impando,
- Fora, fora; ao contrário, atiçoadas
- Eu te farei mais presto escafeder-te.”
- Averso a encara: “Insultas-me, demônio,
- Por que, em vez de luzir, mesquinho e roto
- A mendigar meu pão sou constrangido?
- É de errabundos sina. Eu já palácio
- Tive e escravos, e o mais que adita os homens,
- E a quaisquer indigentes socorria:
- Ora o querer de Jove arruninou-me!
- Também murchar-te a formosura pode,
- Que entre as servas te exorna; pode irada
- Reprimir-te a rainha, e mesmo aquele
- Que inda esperar se deve. Mas, se Ulisses
- Perdeu-se enfim, outro ele e não criança,
- De Apolo por favor, conhece o filho
- Quantas mulheres esta casa infetam.”
- Ouve-a e grita a rainha: “Descarada,
- Em ti recairá tanta ousadia.
- De mim triste soubeste que informar-me
- Do esposo vem.” A Eurínoma virou-se;
- “Traze-me, ecônoma, um forrado escano;
- Em repouso, comigo ele converse.”
- À pressa o escano de tosões coberto,
- Lhe trouxe a velha; ao divo herói sentado
- Penélope interroga: “Hóspede, vamos
- Quem és; de que família? de que pátria?”
- E o circunspecto: “No orbe, alta senhora,
- Ninguém te vitupera, e a glória tua
- Penetra o céu; qual a de um rei sem pecha,
- Que é pio e seus magnatas justo enfreia,
- A quem do fruto as árvores se vergam,
- O agro viça e engradece, a quem produzem
- Greis e armentios, ferve o mar com peixes,
- E cujos povos a bondade exercem.
- De outra cousa me inquiras, não da pátria,
- Não da família; ao recordá-las, custa
- Gemer em casa alheia. Enfada o choro:
- De alguma serva o escárneo atrairia,
- Se o teu não fosse, e pode ser que ao vinho
- Meu luto lagrimoso atribuíssem.”
- E ela: “O Céu me tirou beleza e forças,
- Desde que a Tróia Ulisses me levaram.
- Venha, mande-me e reja, e a minha glória
- Mais resplendeceria: hoje um demônio
- Me entristece e comprime. A flor dos Gregos
- De Dulíquio, Zacinto, Ítaca e Same,
- Requestando-me invita, os bens me estragam.
- Já nos pobres nem hóspedes provejo,
- Ou nos arautos, público ministros:
- Saudosa a prantear consumo a vida;
- Urgem-me os procos, e eu maquino enganos.
- Um gênio me inspirou tramar imensa
- Larga teia delgada, e assim lhes disse:
- — Amantes meus depois de morto Ulisses,
- Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
- Sem que do herói Laertes a mortalha
- Toda seja tecida, para quando
- No sono longo o sopitar o fado:
- Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
- Manto rico não ter quem teve tanto. —
- A diurna obra desfazia à noite,
- E os entretive ilusos por três anos;
- Mas, gastas luas e horas, veio o quarto,
- E então, por traça de impudentes servas
- Apanhando-me, encheram-me de afrontas,
- E a concluir a teia me forçaram.
- Nem mais efúgio nem recurso tenho:
- Muito a casar instigam-me os parentes;
- Leva meu filho o mal que os bens lhe comam,
- Pois, homem já, da casa tratar pode,
- Como os que de honras Júpiter cumula.
- Dize-me assim quem és; tu não das penhas,
- Não do robre nascestes fabuloso.”
- E ele cortês: “Mulher de Ulisses digna,
- Já que insistes, conhece-me a linhagem;
- E, bem que obedecendo agrave as penas,
- Inerentes aos tristes que erradios
- Têm andado, como eu, de povo em povo,
- Satisfazer-te vou. — De escuras vagas
- Circúnflua jaz recunda e linda Creta,
- Com cidades noventa e infindos homens
- De língua mista: Aqueus, Cídones, Cressos
- Indígenas de prol, divos Pelasgos,
- Dórios cristados. Na ampla Gnosso Minos,
- Cada nove anos comensal de Jove,
- Pai de meu pai Deucalião brioso,
- Os governava. Éton me chamam todos.
- Meu régio irmão Idomeneu de Tróia
- Foi-se à guerra, mais velho e mais valente.
- Na mesma empresa, à força de procelas
- Do Maleia a Creta Ulisses impelido,
- Surgiu do Aniso num difícil porto,
- Onde é das Ilitias, a espelunca.
- Apenas salvo, a Idomeneu procura,
- Que hóspedes seu dizia venerando;
- Mas este era partido em naus rostadas,
- Uns onze sóis talvez. Do porto a Ulisses
- Escoltei mesmo, e na abundante casa
- Amigo o recebi. Do povo obtidos,
- Bois, pães e vinhos dei, por doze dias
- Os seus provi de tudo, porque o Bóreas,
- De um sevo deus movido, não deixava
- Em pé ter-se ninguém; mas no trezeno,
- Calmado o vento, o pano desferiram.”
- Assim fingia verossímeis contos,
- E ela a chorar de ouví-lo definhava:
- Qual, por Zéfiro a neve amolecida,
- Liquesce do Euro ao sopro em celsos cumes,
- Desata-se em arroios e incha os rios;
- Tal inundava as rubicundas faces,
- Anelando o marido ali sentado.
- Compunge a Ulisses da consorte o pranto;
- Mas, como ou ferro ou corno, firme e seco,
- Por não trair-se, as pálpebras continha.
- De lágrimas saciada, continua:
- “Quero, hóspede, sondar se na verdade
- A Ulisses recolheste: qual seu trajo,
- Qual seu porte, quais eram seus guerreiros?”
- O marido prossegue: “Árduo é, senhora,
- Indo em vinte anos que saiu de Creta,
- Exato ser; mas ouve o que me lembra.
- De áureo firmal e duplo anel, seu manto
- Era encorpado e mórbido e púrpureo,
- De alto lavor: nas anteriores patas
- Um cão tinha tremente corçozinho,
- E ávido o sufocava; ele a escapar-se
- Com palpitantes pés se debatia:
- Foi pasmo a todos o recamo e a tela.
- Notei-lhe ao corpo a túnica lustrosa,
- Fina qual seca tona de cebola,
- Alva imitante ao Sol, macia e leve,
- Que espantava as melhores tecedeiras.
- Toma sentido, ignoro se tais vestes
- Houve-as de casa, ou deu-lhas em viagem
- Hóspede ou matalote; pois de muitos
- Era benquisto, e poucos o igualavam.
- Eu doei-lhe ênea espada, roxo e duplo
- Manto e roupa talar, e à despedida
- À tabulada nau fui respeitoso.
- Do arauto seu, mais velho alguma cousa,
- Eu me recordo: Euríbato giboso
- Era e trigueiro e de cabelo crespo;
- Ulisses entre os sócios o estimava,
- Por atinado concordar com ele.”
- A tão veros sinais, dobrou de pranto;
- Mas acalmada: “Se eras um pedinte,
- Ês, hóspede, hoje o amigo desta casa.
- Trouxe eu mesma da câmara essas vestes,
- Eu mesma do firmal ornei luzente.
- Ah! não mais torna à pátria o caro esposo!
- Fatal partida para a infame Tróia!”
- “Bem que a dor justa seja, o herói contesta,
- Real consorte, o corpo não maceres:
- Nunca chorou mulher perdido um jovem
- Pai amoroso de seus doces filhos
- Melhor que Ulisses, comparado aos numes;
- Porém sossega e atende, eu serei franco.
- Tesprotes opulentos me contaram
- Que, de riquezas o Laércio onusto,
- Na praia ali sozinho aparecera;
- Pois, ao vir da Trinácria, irado Jove
- E o Sol, do armento seu pela matança,
- No undoso ponto os sócios afundaram;
- E ele, agarrado à quilha, enfim surgindo
- Na Esquéria, aceito foi dos bons Feaces
- Como um deus, e de ofertas carregado
- Quiseram transportá-lo. Há muito Ulisses
- Ileso fora aqui, se em outros climas
- Não preferisse cumular tesouros;
- Para o que ninguém há de astúcia tanta.
- Fídon rei dos Tesprotes me jurava,
- Com libações, que a nau já tinha prestes
- Para o trazer, e num baixel mercante
- Remeteu-me a Dulíquio frumentária;
- Mas primeiro mostrou-me hospitais brindes,
- A uma dez gerações talvez sobejos,
- Postos no erário, enquanto ia o Laércio
- Ao de Dodona falador carvalho,
- A indagar dos oráculos de Jove
- Se, após tão largo tempo, cá regresse
- Oculta ou claramente. Ele é pois salvo,
- Nem da casa está longe; eu vou jurar-to:
- Atesto o Padre sumo e o lar de Ulisses.
- Onde me asilo, aqui virás sem falta,
- Mesmo este ano, esta lua ou na seguinte.”
- “Oxalá, diz Penólope! Eu faria
- Liberal que ditoso te aclamassem.
- Mas temo, hóspede meu; nem ele volta,
- Nem tu conseguirás daqui passagem.
- Outro Ulisses não tenho (oh! se o tivesse!)
- Que afague e expeça honrados forasteiros.
- Depois de um pedilúvio, em cama, ó servas,
- De mantas bem se aqueça e belas colchas;
- E, assim que a manhã brilhe em trono de ouro,
- Banhado e ungido com meu filho coma.
- Ai do que ouse ofendê-lo petulante!
- Sem trabalhar descanse, inda que raivem.
- De sisuda mulher me louvarias,
- A estares mal vestido à nossa mesa?
- Duram breve os mortais: o iníquo e fero,
- Sempre de imprecações coberto em vivo,
- Maldizem-no defunto; o afetuoso
- E de alma nobre, os hóspedes lhe estendem
- A glória e fama, e todos o abençoam.”
- Opõe-se o herói: “De Ulisses digna esposa,
- Mantas e moles colchas aborreço,
- Dês que em remada nau de Creta os cimos
- Deixei nevosos: deito-me, como antes
- Noites passava insones, e outras muitas,
- À espera da alva aurora, adormecia
- No duro chão. De banhos eu prescindo,
- Nem me toque nos pés, senão prudente
- Anciã no mal provada e oficiosa.”
- E ela: “Nunca de amáveis peregrinos
- Tive outrem como tu: quanto proferes
- Siso respira. No infeliz conservo
- A ama discreta, que, nascido apenas,
- Da mãe o recebera e amamentara:
- Inda que fraca, os pés lavar-te pode.
- Anda, Euricléia, este coevo banha
- De teu senhor: talvez que ele tal seja
- E dos pés e das mãos; pois no infortúnio
- Rapidamente os homens envelhecem.”
- Tapa a nutriz o lagrimoso rosto
- A soluçar: “Ai filho, em vão te anseio!
- Pio embora, és de Jove o detestado!
- Ninguém tantas queimou sucosas coxas,
- Nem lhe deu mais solenes hecatombes,
- Viver quando rogava longa vida
- E teu filho educar; mas o Tonante
- Sumiu-te a luz da volta! Alhures, zombam
- Ah! dele, amigo, em pórticos soberbos,
- Outras como as que foges despejadas.
- Lavo-te os pés, não só porque mo ordena
- De Icário a boa filha, mas de grado,
- Por mera compaixão. Têm vindo muitos
- Peregrinantes cá; nenhum, te afirmo,
- A Ulisses como tu se assemelhava,
- No meneio e no andar, em voz e em gesto.”
- Cauteloso a atalhou: “Sim, todos eram
- Desse teu mesmo aviso.” Reluzente
- Bacia a velha toma, onde água fresca
- Vaza e a fervente em cima. Ao lar no escuro
- Senta-se vôlto Ulisses, receoso
- Que a cicatriz o arcano revelasse.
- Ela, o senhor banhando, essa conhece
- Marca do alvo colmilho de um javardo,
- Quando ao Parnaso visitou seus tios
- E avô materno Autólico, entre os homens
- No pilhar e jurar manhoso e mestre;
- Por Mercúrio assistido, a quem de chibos
- E anhos queimava as agradáveis coxas.
- Veio Autólico a Ítaca ubertosa
- De seu neto ao nascer; e, mal cearam,
- Põe-lhe o infante aos joelhos Euricléia:
- “Tu o almejavas tanto, agora inventa
- Um nome ao filho da querida filha.”
- Disse o avô: “Genro meu, minha Anticléia,
- Eu ressentido contra muitos venho
- De um e outro sexo na selvosa terra;
- Um nome lhe imporei, chame-se Ulisses.
- Crescido, a casa a visitar materna,
- Vindo ao Parnaso, onde as riquezas tenho,
- Hei de brindá-lo e despedir contente.”
- Foi-se do prometido em busca Ulisses:
- Antólico e família o abraçam ternos;
- Carinhosa Anfitéia avó beijou-lhe
- A testa e olhos gentis. Ao pátrio mando,
- Para o banquete opíparo, a preceito,
- Qüinquene touro os príncipes esfolam,
- Picam-no, assam de espeto, e em roda servem;
- E, o dia inteiro à grande regalados,
- Liga-os a noite opaca em brando sono.
- Ulisses, no arrebol, em montearia
- Trilhando as selvas do íngreme Parnaso,
- A ventosas fraguras segue os tios;
- E, no arraiar o Sol do mudo Oceano,
- Precedendo a matilha farejante,
- Vibra o dardo num vale o divo moço.
- Em brenha oculto um javali jazia,
- Brenha à diurna torreira impenetrável,
- Ao sopro aquoso, à desatada chuva,
- Pleno o covil de bastas secas folhas:
- Ao latir e ao tropel, sanhuda a fera
- Sai, de eriçado pêlo e a vista em brasa,
- Tem-se de perto; Ulisses o primeiro
- Com forte ávida mão levanta o pinque;
- Prevenindo-lhe o golpe, o dente o cerdo
- Lhe aferra no joelho, mas oblíquo,
- Sem osso lhe ofender, na carne o embebe:
- De ênea cúspide o herói na destra espádua
- O atravessa; ei-lo grunhe e tomba e morre.
- Expertos a ferida ao bravo pensam,
- Vedam-lhe por encantos o atro sangue;
- Curam-no em casa, e dele satisfeitos,
- Ledo com riscos dons à pátria o mandam.
- Laertes e Antícléia, jubilosos,
- Da cicatriz a causa e tudo inquirem;
- No Parnaso ele conta que o mordera,
- Junto a seus tios, javali terrível.
- Palpando, a cicatriz conhece a velha,
- Nem pode o pé suster; cai dentro a perna,
- E a bacia retine e se derrama.
- Dor a assalta e prazer; nos olhos água,
- Presa às fauces a voz, lhe afaga o mento,
- E balbucia enfim: “Tu és, meu filho,
- És Ulisses; depois que te hei palpado,
- Ora por meu senhor te reconheço.”
- E olhou para Penélope, o dileto
- Marido a lhe indicar; mas, por Minerva
- Distraída, a senhora o não percebe.
- Da destra ele sustendo-lhe a garganta,
- A si da esquerda a puxa: “Ama, a teus peitos
- Amamentado, queres tu perder-me?
- Volto ao vigésimo ano, após mil transes;
- Mas, já que um nume to mostrou, silêncio,
- A ninguém me delates. No imo o estampes:
- Se me der Jove debelar soberbos,
- Não pouparei culpada a nutriz mesma,
- Furioso a todas que o palácio infamem.”
- “Filho, acode Euricléia, que proferes
- Do encerro desses dentes? Inflexível
- Tu bem sabes que sou, qual pedra ou ferro.
- Toma sentido: a permitir-te Jove
- Soberbos debelar, as que te mancham
- A casa apontarei.” — De pronto Ulisses:
- “Ama, nem é mister, nem te isso cabe;
- Toca-me descobri-las e julgá-las.
- Guarda o segredo, e o mais aos deuses fique.”
- Sendo o primeiro banho extravasado,
- Sai pela sala a velha em busca de outro,
- E o lava e unge; o herói senta-se ao fogo
- Se aquece e cobre a cicatriz com panos.
- Ata a rainha a prática: “Inda um pouco,
- Hóspede meu, que a hora se apropinqua
- Do meigo sono, alívio dos cuidados,
- Menos dos que um demônio me pródiga.
- Sequer de dia em choro desabafo,
- Inspecionando as servas; mas de noite,
- Ao reinar o sossego, eu só no leito
- Sou de pungentes mágoas salteada.
- A Pandareida verde Filomela,
- Na doce quadra amena, entre a folhagem
- Flébeis queixumes sonorosa trina
- Pelo dela e de Zeto amado filho
- Itilo, a quem matou por erro infando:
- Assim lamento, a revolver incerta
- Se ao pé do meu conserve, respeitosa
- Ao toro conjugal e à voz do povo,
- Servas, paço e riqueza; ou, bem dotada,
- Siga o melhor de assíduos pretendentes.
- Enquanto o meu Telêmaco era débil,
- Não quis largar a marital vivenda;
- Mas, púbere hoje, me insta que lha deixe,
- Contra os vorazes procos irritado.
- “Explica-me ora um sonho. Gansos vinte
- Folgo de ver comendo os grãos no pátio;
- Porém de bico adunco montês águia
- Sonhei que, tendo lhes quebrado os colos,
- Amontoado no terreiro os mortos,
- Pelo ar divino alou-se; e eu grito e choro,
- E emadeixadas Gregas me circundam
- Na minha dor, ao tempo que, voltando,
- A águia fala da grimpa em voz humana:
- — Ânimo, ó filha do pujante Icário!
- Não é sonho, é visão realizável:
- Gansos os procos são; eu, antes águia,
- Sou teu marido, e castigá-los venho.
- Nisto, acordo, olho em torno, e como é de uso,
- Vejo os gansos na praia a comer trigo.”
- Pausado o herói: “Interpretar o sonho
- De outro modo que Ulisses me é defeso:
- Iminente é dos príncipes a perda;
- Nenhum tem de esquivar-se à morte escura.”
- Ela acrescenta: “Os sonhos são difíceis;
- Muitos, hóspede, nunca se efetuam.
- Têm eles dous portões, ebúrneo e córneo:
- Os do ebúrneo, falazes, mentem sempre;
- Nunca os do córneo falham. Que o meu, deste
- Vindo, a mim e a Telêmaco aproveite,
- Não me lisonjo. Agora sê-me atento.
- O albor nefasto aponta em que dos paços
- Me apartarei de Ulisses, e um certame
- Vou propor. Inda em casa há meu marido
- Secures doze, que erigia em hastes,
- E por seus olhos doze em direitura
- De longe a frecha rápida enfiava:
- Seguirei quem mais fácil o arco estenda
- E as secures traspasse, abandonando
- Ah! tão saudosa e farta e bela estância,
- Da qual me lembrarei té nos meus sonhos.”
- E Ulisses: “Do Laércio augusta esposa,
- Não retardes a prova. Hás de o consorte
- Aqui ter, antes que eles o arco verguem
- E, tesa a corda, os ferros atravessem.”
- Inda Penélope: “Hóspede, a quereres
- Junto a mim conversar, de ouvir-te o gosto
- Me estancaria o sono; mas não devem
- Os mortais velar sempre, e na alma terra
- Lei sobre tudo os numes impuseram.
- Subo a deitar-me enfim no amargo leito
- Que de contínuas lágrimas ensopo,
- Dês que Ulisses partiu para essa Tróia
- De execranda memória. Tu repousa
- A teu prazer, no solho ou numa cama
- Que se te aprestará”: Disse, e montando
- Não só, com duas fâmulas, na excelsa
- Maravilhosa câmara pranteia
- Seu caro esposo, até que amigo sono
- Lhe infunde pelas pálpebras Minerva.