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OdisseiaLivro XIX
LivroXIX

A meditar com Palas na matança

463 versos · 5 notas do tradutor


  1. A meditar com Palas na matança
  2. Fica o divo Laércio, e diz: “Meu filho,
  3. Agora as armas recolher te cumpre;
  4. E caso algum o estranhe, assim te escuses:
  5. Quais as deixou meu pai, já não luziam;
  6. Do vapor do fogão fui preservá-las.
  7. E outro medo o Satúrnio suscitou-me:
  8. Entre os copos ferir-vos poderíeis,
  9. Nosso convívio e os esponsais manchando;
  10. Pois a força do ferro atrai o homem.”
  11. Telêmaco obedece ao pai querido,
  12. Chama Euricléia à parte: “Eia, as mulheres
  13. Retém, ama, lá dentro, enquanto acima
  14. Reponho as pulcras armas, desprezadas
  15. E do vapor do fogo denegridas
  16. Na ausência de meu pai. Menino eu dantes,
  17. Ora quero do fumo preservá-las.”
  18. A ama logo: “Oxalá com tal prudência
  19. A casa rejas! Mas diante, filho,
  20. Quem te há de alumiar, senão as servas?”
  21. “Este hóspede, responde acautelado;
  22. Que do meu coma ocioso, não tolero.”
  23. Ordem fútil não foi, porque os batentes
  24. Fecha Euricléia. À pressa ambos carregam
  25. Elmos, cavos broquéis e agudas lanças;
  26. Precede-os Palas de lanterna de ouro.
  27. “Meu pai, observa o moço, que milagre!
  28. As paredes, as traves abietinas,
  29. As grossas vigas, as colunas altas,
  30. Em lume vivo aos olhos me lampejam:
  31. Um deus parece dentro esclarecê-las.”
  32. “Tá! não tujas, o atalha o sábio Ulisses:
  33. Os íncolas do Olimpo assim costumam.
  34. Deita-te: à espreita eu fico das criadas;
  35. Esperarei que em pranto me interrogue
  36. Tua mãe.” — Ei-lo busca a própria alcova
  37. No meio do esplendor, e em brando sono
  38. Pega até que desponte a diva aurora;
  39. Mas o herói permanece com Minerva,
  40. A pensar no horroroso morticínio.
  41. Sai, qual Diana casta ou loura Vênus,
  42. Penélope do tálamo, e lhe achegam
  43. Ao lar o usado assento, obra de argênteas
  44. E ebúrneas orlas, do famoso Icmálio,
  45. De apto escabelo e forro de pelame.
  46. As cativas gentis ali vieram
  47. Erguer das mesas muito pão restante,
  48. E a copa que servira aos convidados;
  49. Em terra as brasas dos fogões depondo,
  50. Lenha renovam, que ilumine e aqueça.
  51. Doesta a Ulisses outra vez Melântia:
  52. “À noite, malandrino, inda importunas?
  53. Espias as mulheres? Farto e impando,
  54. Fora, fora; ao contrário, atiçoadas
  55. Eu te farei mais presto escafeder-te.”
  56. Averso a encara: “Insultas-me, demônio,
  57. Por que, em vez de luzir, mesquinho e roto
  58. A mendigar meu pão sou constrangido?
  59. É de errabundos sina. Eu já palácio
  60. Tive e escravos, e o mais que adita os homens,
  61. E a quaisquer indigentes socorria:
  62. Ora o querer de Jove arruninou-me!
  63. Também murchar-te a formosura pode,
  64. Que entre as servas te exorna; pode irada
  65. Reprimir-te a rainha, e mesmo aquele
  66. Que inda esperar se deve. Mas, se Ulisses
  67. Perdeu-se enfim, outro ele e não criança,
  68. De Apolo por favor, conhece o filho
  69. Quantas mulheres esta casa infetam.”
  70. Ouve-a e grita a rainha: “Descarada,
  71. Em ti recairá tanta ousadia.
  72. De mim triste soubeste que informar-me
  73. Do esposo vem.” A Eurínoma virou-se;
  74. “Traze-me, ecônoma, um forrado escano;
  75. Em repouso, comigo ele converse.”
  76. À pressa o escano de tosões coberto,
  77. Lhe trouxe a velha; ao divo herói sentado
  78. Penélope interroga: “Hóspede, vamos
  79. Quem és; de que família? de que pátria?”
  80. E o circunspecto: “No orbe, alta senhora,
  81. Ninguém te vitupera, e a glória tua
  82. Penetra o céu; qual a de um rei sem pecha,
  83. Que é pio e seus magnatas justo enfreia,
  84. A quem do fruto as árvores se vergam,
  85. O agro viça e engradece, a quem produzem
  86. Greis e armentios, ferve o mar com peixes,
  87. E cujos povos a bondade exercem.
  88. De outra cousa me inquiras, não da pátria,
  89. Não da família; ao recordá-las, custa
  90. Gemer em casa alheia. Enfada o choro:
  91. De alguma serva o escárneo atrairia,
  92. Se o teu não fosse, e pode ser que ao vinho
  93. Meu luto lagrimoso atribuíssem.”
  94. E ela: “O Céu me tirou beleza e forças,
  95. Desde que a Tróia Ulisses me levaram.
  96. Venha, mande-me e reja, e a minha glória
  97. Mais resplendeceria: hoje um demônio
  98. Me entristece e comprime. A flor dos Gregos
  99. De Dulíquio, Zacinto, Ítaca e Same,
  100. Requestando-me invita, os bens me estragam.
  101. Já nos pobres nem hóspedes provejo,
  102. Ou nos arautos, público ministros:
  103. Saudosa a prantear consumo a vida;
  104. Urgem-me os procos, e eu maquino enganos.
  105. Um gênio me inspirou tramar imensa
  106. Larga teia delgada, e assim lhes disse:
  107. — Amantes meus depois de morto Ulisses,
  108. Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
  109. Sem que do herói Laertes a mortalha
  110. Toda seja tecida, para quando
  111. No sono longo o sopitar o fado:
  112. Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
  113. Manto rico não ter quem teve tanto. —
  114. A diurna obra desfazia à noite,
  115. E os entretive ilusos por três anos;
  116. Mas, gastas luas e horas, veio o quarto,
  117. E então, por traça de impudentes servas
  118. Apanhando-me, encheram-me de afrontas,
  119. E a concluir a teia me forçaram.
  120. Nem mais efúgio nem recurso tenho:
  121. Muito a casar instigam-me os parentes;
  122. Leva meu filho o mal que os bens lhe comam,
  123. Pois, homem já, da casa tratar pode,
  124. Como os que de honras Júpiter cumula.
  125. Dize-me assim quem és; tu não das penhas,
  126. Não do robre nascestes fabuloso.”
  127. E ele cortês: “Mulher de Ulisses digna,
  128. Já que insistes, conhece-me a linhagem;
  129. E, bem que obedecendo agrave as penas,
  130. Inerentes aos tristes que erradios
  131. Têm andado, como eu, de povo em povo,
  132. Satisfazer-te vou. — De escuras vagas
  133. Circúnflua jaz recunda e linda Creta,
  134. Com cidades noventa e infindos homens
  135. De língua mista: Aqueus, Cídones, Cressos
  136. Indígenas de prol, divos Pelasgos,
  137. Dórios cristados. Na ampla Gnosso Minos,
  138. Cada nove anos comensal de Jove,
  139. Pai de meu pai Deucalião brioso,
  140. Os governava. Éton me chamam todos.
  141. Meu régio irmão Idomeneu de Tróia
  142. Foi-se à guerra, mais velho e mais valente.
  143. Na mesma empresa, à força de procelas
  144. Do Maleia a Creta Ulisses impelido,
  145. Surgiu do Aniso num difícil porto,
  146. Onde é das Ilitias, a espelunca.
  147. Apenas salvo, a Idomeneu procura,
  148. Que hóspedes seu dizia venerando;
  149. Mas este era partido em naus rostadas,
  150. Uns onze sóis talvez. Do porto a Ulisses
  151. Escoltei mesmo, e na abundante casa
  152. Amigo o recebi. Do povo obtidos,
  153. Bois, pães e vinhos dei, por doze dias
  154. Os seus provi de tudo, porque o Bóreas,
  155. De um sevo deus movido, não deixava
  156. Em pé ter-se ninguém; mas no trezeno,
  157. Calmado o vento, o pano desferiram.”
  158. Assim fingia verossímeis contos,
  159. E ela a chorar de ouví-lo definhava:
  160. Qual, por Zéfiro a neve amolecida,
  161. Liquesce do Euro ao sopro em celsos cumes,
  162. Desata-se em arroios e incha os rios;
  163. Tal inundava as rubicundas faces,
  164. Anelando o marido ali sentado.
  165. Compunge a Ulisses da consorte o pranto;
  166. Mas, como ou ferro ou corno, firme e seco,
  167. Por não trair-se, as pálpebras continha.
  168. De lágrimas saciada, continua:
  169. “Quero, hóspede, sondar se na verdade
  170. A Ulisses recolheste: qual seu trajo,
  171. Qual seu porte, quais eram seus guerreiros?”
  172. O marido prossegue: “Árduo é, senhora,
  173. Indo em vinte anos que saiu de Creta,
  174. Exato ser; mas ouve o que me lembra.
  175. De áureo firmal e duplo anel, seu manto
  176. Era encorpado e mórbido e púrpureo,
  177. De alto lavor: nas anteriores patas
  178. Um cão tinha tremente corçozinho,
  179. E ávido o sufocava; ele a escapar-se
  180. Com palpitantes pés se debatia:
  181. Foi pasmo a todos o recamo e a tela.
  182. Notei-lhe ao corpo a túnica lustrosa,
  183. Fina qual seca tona de cebola,
  184. Alva imitante ao Sol, macia e leve,
  185. Que espantava as melhores tecedeiras.
  186. Toma sentido, ignoro se tais vestes
  187. Houve-as de casa, ou deu-lhas em viagem
  188. Hóspede ou matalote; pois de muitos
  189. Era benquisto, e poucos o igualavam.
  190. Eu doei-lhe ênea espada, roxo e duplo
  191. Manto e roupa talar, e à despedida
  192. À tabulada nau fui respeitoso.
  193. Do arauto seu, mais velho alguma cousa,
  194. Eu me recordo: Euríbato giboso
  195. Era e trigueiro e de cabelo crespo;
  196. Ulisses entre os sócios o estimava,
  197. Por atinado concordar com ele.”
  198. A tão veros sinais, dobrou de pranto;
  199. Mas acalmada: “Se eras um pedinte,
  200. Ês, hóspede, hoje o amigo desta casa.
  201. Trouxe eu mesma da câmara essas vestes,
  202. Eu mesma do firmal ornei luzente.
  203. Ah! não mais torna à pátria o caro esposo!
  204. Fatal partida para a infame Tróia!”
  205. “Bem que a dor justa seja, o herói contesta,
  206. Real consorte, o corpo não maceres:
  207. Nunca chorou mulher perdido um jovem
  208. Pai amoroso de seus doces filhos
  209. Melhor que Ulisses, comparado aos numes;
  210. Porém sossega e atende, eu serei franco.
  211. Tesprotes opulentos me contaram
  212. Que, de riquezas o Laércio onusto,
  213. Na praia ali sozinho aparecera;
  214. Pois, ao vir da Trinácria, irado Jove
  215. E o Sol, do armento seu pela matança,
  216. No undoso ponto os sócios afundaram;
  217. E ele, agarrado à quilha, enfim surgindo
  218. Na Esquéria, aceito foi dos bons Feaces
  219. Como um deus, e de ofertas carregado
  220. Quiseram transportá-lo. Há muito Ulisses
  221. Ileso fora aqui, se em outros climas
  222. Não preferisse cumular tesouros;
  223. Para o que ninguém há de astúcia tanta.
  224. Fídon rei dos Tesprotes me jurava,
  225. Com libações, que a nau já tinha prestes
  226. Para o trazer, e num baixel mercante
  227. Remeteu-me a Dulíquio frumentária;
  228. Mas primeiro mostrou-me hospitais brindes,
  229. A uma dez gerações talvez sobejos,
  230. Postos no erário, enquanto ia o Laércio
  231. Ao de Dodona falador carvalho,
  232. A indagar dos oráculos de Jove
  233. Se, após tão largo tempo, cá regresse
  234. Oculta ou claramente. Ele é pois salvo,
  235. Nem da casa está longe; eu vou jurar-to:
  236. Atesto o Padre sumo e o lar de Ulisses.
  237. Onde me asilo, aqui virás sem falta,
  238. Mesmo este ano, esta lua ou na seguinte.”
  239. “Oxalá, diz Penólope! Eu faria
  240. Liberal que ditoso te aclamassem.
  241. Mas temo, hóspede meu; nem ele volta,
  242. Nem tu conseguirás daqui passagem.
  243. Outro Ulisses não tenho (oh! se o tivesse!)
  244. Que afague e expeça honrados forasteiros.
  245. Depois de um pedilúvio, em cama, ó servas,
  246. De mantas bem se aqueça e belas colchas;
  247. E, assim que a manhã brilhe em trono de ouro,
  248. Banhado e ungido com meu filho coma.
  249. Ai do que ouse ofendê-lo petulante!
  250. Sem trabalhar descanse, inda que raivem.
  251. De sisuda mulher me louvarias,
  252. A estares mal vestido à nossa mesa?
  253. Duram breve os mortais: o iníquo e fero,
  254. Sempre de imprecações coberto em vivo,
  255. Maldizem-no defunto; o afetuoso
  256. E de alma nobre, os hóspedes lhe estendem
  257. A glória e fama, e todos o abençoam.”
  258. Opõe-se o herói: “De Ulisses digna esposa,
  259. Mantas e moles colchas aborreço,
  260. Dês que em remada nau de Creta os cimos
  261. Deixei nevosos: deito-me, como antes
  262. Noites passava insones, e outras muitas,
  263. À espera da alva aurora, adormecia
  264. No duro chão. De banhos eu prescindo,
  265. Nem me toque nos pés, senão prudente
  266. Anciã no mal provada e oficiosa.”
  267. E ela: “Nunca de amáveis peregrinos
  268. Tive outrem como tu: quanto proferes
  269. Siso respira. No infeliz conservo
  270. A ama discreta, que, nascido apenas,
  271. Da mãe o recebera e amamentara:
  272. Inda que fraca, os pés lavar-te pode.
  273. Anda, Euricléia, este coevo banha
  274. De teu senhor: talvez que ele tal seja
  275. E dos pés e das mãos; pois no infortúnio
  276. Rapidamente os homens envelhecem.”
  277. Tapa a nutriz o lagrimoso rosto
  278. A soluçar: “Ai filho, em vão te anseio!
  279. Pio embora, és de Jove o detestado!
  280. Ninguém tantas queimou sucosas coxas,
  281. Nem lhe deu mais solenes hecatombes,
  282. Viver quando rogava longa vida
  283. E teu filho educar; mas o Tonante
  284. Sumiu-te a luz da volta! Alhures, zombam
  285. Ah! dele, amigo, em pórticos soberbos,
  286. Outras como as que foges despejadas.
  287. Lavo-te os pés, não só porque mo ordena
  288. De Icário a boa filha, mas de grado,
  289. Por mera compaixão. Têm vindo muitos
  290. Peregrinantes cá; nenhum, te afirmo,
  291. A Ulisses como tu se assemelhava,
  292. No meneio e no andar, em voz e em gesto.”
  293. Cauteloso a atalhou: “Sim, todos eram
  294. Desse teu mesmo aviso.” Reluzente
  295. Bacia a velha toma, onde água fresca
  296. Vaza e a fervente em cima. Ao lar no escuro
  297. Senta-se vôlto Ulisses, receoso
  298. Que a cicatriz o arcano revelasse.
  299. Ela, o senhor banhando, essa conhece
  300. Marca do alvo colmilho de um javardo,
  301. Quando ao Parnaso visitou seus tios
  302. E avô materno Autólico, entre os homens
  303. No pilhar e jurar manhoso e mestre;
  304. Por Mercúrio assistido, a quem de chibos
  305. E anhos queimava as agradáveis coxas.
  306. Veio Autólico a Ítaca ubertosa
  307. De seu neto ao nascer; e, mal cearam,
  308. Põe-lhe o infante aos joelhos Euricléia:
  309. “Tu o almejavas tanto, agora inventa
  310. Um nome ao filho da querida filha.”
  311. Disse o avô: “Genro meu, minha Anticléia,
  312. Eu ressentido contra muitos venho
  313. De um e outro sexo na selvosa terra;
  314. Um nome lhe imporei, chame-se Ulisses.
  315. Crescido, a casa a visitar materna,
  316. Vindo ao Parnaso, onde as riquezas tenho,
  317. Hei de brindá-lo e despedir contente.”
  318. Foi-se do prometido em busca Ulisses:
  319. Antólico e família o abraçam ternos;
  320. Carinhosa Anfitéia avó beijou-lhe
  321. A testa e olhos gentis. Ao pátrio mando,
  322. Para o banquete opíparo, a preceito,
  323. Qüinquene touro os príncipes esfolam,
  324. Picam-no, assam de espeto, e em roda servem;
  325. E, o dia inteiro à grande regalados,
  326. Liga-os a noite opaca em brando sono.
  327. Ulisses, no arrebol, em montearia
  328. Trilhando as selvas do íngreme Parnaso,
  329. A ventosas fraguras segue os tios;
  330. E, no arraiar o Sol do mudo Oceano,
  331. Precedendo a matilha farejante,
  332. Vibra o dardo num vale o divo moço.
  333. Em brenha oculto um javali jazia,
  334. Brenha à diurna torreira impenetrável,
  335. Ao sopro aquoso, à desatada chuva,
  336. Pleno o covil de bastas secas folhas:
  337. Ao latir e ao tropel, sanhuda a fera
  338. Sai, de eriçado pêlo e a vista em brasa,
  339. Tem-se de perto; Ulisses o primeiro
  340. Com forte ávida mão levanta o pinque;
  341. Prevenindo-lhe o golpe, o dente o cerdo
  342. Lhe aferra no joelho, mas oblíquo,
  343. Sem osso lhe ofender, na carne o embebe:
  344. De ênea cúspide o herói na destra espádua
  345. O atravessa; ei-lo grunhe e tomba e morre.
  346. Expertos a ferida ao bravo pensam,
  347. Vedam-lhe por encantos o atro sangue;
  348. Curam-no em casa, e dele satisfeitos,
  349. Ledo com riscos dons à pátria o mandam.
  350. Laertes e Antícléia, jubilosos,
  351. Da cicatriz a causa e tudo inquirem;
  352. No Parnaso ele conta que o mordera,
  353. Junto a seus tios, javali terrível.
  354. Palpando, a cicatriz conhece a velha,
  355. Nem pode o pé suster; cai dentro a perna,
  356. E a bacia retine e se derrama.
  357. Dor a assalta e prazer; nos olhos água,
  358. Presa às fauces a voz, lhe afaga o mento,
  359. E balbucia enfim: “Tu és, meu filho,
  360. És Ulisses; depois que te hei palpado,
  361. Ora por meu senhor te reconheço.”
  362. E olhou para Penélope, o dileto
  363. Marido a lhe indicar; mas, por Minerva
  364. Distraída, a senhora o não percebe.
  365. Da destra ele sustendo-lhe a garganta,
  366. A si da esquerda a puxa: “Ama, a teus peitos
  367. Amamentado, queres tu perder-me?
  368. Volto ao vigésimo ano, após mil transes;
  369. Mas, já que um nume to mostrou, silêncio,
  370. A ninguém me delates. No imo o estampes:
  371. Se me der Jove debelar soberbos,
  372. Não pouparei culpada a nutriz mesma,
  373. Furioso a todas que o palácio infamem.”
  374. “Filho, acode Euricléia, que proferes
  375. Do encerro desses dentes? Inflexível
  376. Tu bem sabes que sou, qual pedra ou ferro.
  377. Toma sentido: a permitir-te Jove
  378. Soberbos debelar, as que te mancham
  379. A casa apontarei.” — De pronto Ulisses:
  380. “Ama, nem é mister, nem te isso cabe;
  381. Toca-me descobri-las e julgá-las.
  382. Guarda o segredo, e o mais aos deuses fique.”
  383. Sendo o primeiro banho extravasado,
  384. Sai pela sala a velha em busca de outro,
  385. E o lava e unge; o herói senta-se ao fogo
  386. Se aquece e cobre a cicatriz com panos.
  387. Ata a rainha a prática: “Inda um pouco,
  388. Hóspede meu, que a hora se apropinqua
  389. Do meigo sono, alívio dos cuidados,
  390. Menos dos que um demônio me pródiga.
  391. Sequer de dia em choro desabafo,
  392. Inspecionando as servas; mas de noite,
  393. Ao reinar o sossego, eu só no leito
  394. Sou de pungentes mágoas salteada.
  395. A Pandareida verde Filomela,
  396. Na doce quadra amena, entre a folhagem
  397. Flébeis queixumes sonorosa trina
  398. Pelo dela e de Zeto amado filho
  399. Itilo, a quem matou por erro infando:
  400. Assim lamento, a revolver incerta
  401. Se ao pé do meu conserve, respeitosa
  402. Ao toro conjugal e à voz do povo,
  403. Servas, paço e riqueza; ou, bem dotada,
  404. Siga o melhor de assíduos pretendentes.
  405. Enquanto o meu Telêmaco era débil,
  406. Não quis largar a marital vivenda;
  407. Mas, púbere hoje, me insta que lha deixe,
  408. Contra os vorazes procos irritado.
  409. “Explica-me ora um sonho. Gansos vinte
  410. Folgo de ver comendo os grãos no pátio;
  411. Porém de bico adunco montês águia
  412. Sonhei que, tendo lhes quebrado os colos,
  413. Amontoado no terreiro os mortos,
  414. Pelo ar divino alou-se; e eu grito e choro,
  415. E emadeixadas Gregas me circundam
  416. Na minha dor, ao tempo que, voltando,
  417. A águia fala da grimpa em voz humana:
  418. — Ânimo, ó filha do pujante Icário!
  419. Não é sonho, é visão realizável:
  420. Gansos os procos são; eu, antes águia,
  421. Sou teu marido, e castigá-los venho.
  422. Nisto, acordo, olho em torno, e como é de uso,
  423. Vejo os gansos na praia a comer trigo.”
  424. Pausado o herói: “Interpretar o sonho
  425. De outro modo que Ulisses me é defeso:
  426. Iminente é dos príncipes a perda;
  427. Nenhum tem de esquivar-se à morte escura.”
  428. Ela acrescenta: “Os sonhos são difíceis;
  429. Muitos, hóspede, nunca se efetuam.
  430. Têm eles dous portões, ebúrneo e córneo:
  431. Os do ebúrneo, falazes, mentem sempre;
  432. Nunca os do córneo falham. Que o meu, deste
  433. Vindo, a mim e a Telêmaco aproveite,
  434. Não me lisonjo. Agora sê-me atento.
  435. O albor nefasto aponta em que dos paços
  436. Me apartarei de Ulisses, e um certame
  437. Vou propor. Inda em casa há meu marido
  438. Secures doze, que erigia em hastes,
  439. E por seus olhos doze em direitura
  440. De longe a frecha rápida enfiava:
  441. Seguirei quem mais fácil o arco estenda
  442. E as secures traspasse, abandonando
  443. Ah! tão saudosa e farta e bela estância,
  444. Da qual me lembrarei té nos meus sonhos.”
  445. E Ulisses: “Do Laércio augusta esposa,
  446. Não retardes a prova. Hás de o consorte
  447. Aqui ter, antes que eles o arco verguem
  448. E, tesa a corda, os ferros atravessem.”
  449. Inda Penélope: “Hóspede, a quereres
  450. Junto a mim conversar, de ouvir-te o gosto
  451. Me estancaria o sono; mas não devem
  452. Os mortais velar sempre, e na alma terra
  453. Lei sobre tudo os numes impuseram.
  454. Subo a deitar-me enfim no amargo leito
  455. Que de contínuas lágrimas ensopo,
  456. Dês que Ulisses partiu para essa Tróia
  457. De execranda memória. Tu repousa
  458. A teu prazer, no solho ou numa cama
  459. Que se te aprestará”: Disse, e montando
  460. Não só, com duas fâmulas, na excelsa
  461. Maravilhosa câmara pranteia
  462. Seu caro esposo, até que amigo sono
  463. Lhe infunde pelas pálpebras Minerva.

Nota a nota · 5 notas

v. 94–98E ela: “O Céu me tirou beleza e forças,
Não me atrevo a suprimir esta passagem, que vem nas diferentes edições, não obstante pensar com Rochefort, que há interpolação. Com efeito, falando o falso mendigo só da glória da rainha, parece-me inconveniente que ela de mão fale da sua própria formosura. Estes versos vêm mais a propósito no livro antecedente, como diz o mesmo Rochefort.
↩ voltar à passagem, v. 94
v. 134Com cidades noventa e infindos homens
Homero dá sempre a Creta cem cidades, menos aqui, onde só lhe dá noventa. Os Críticos dizem que o redondo número de cem é para encarecer; outros cuidam que, tendo sido cem, Idomeneu destruiu dez numa sedição.
↩ voltar ao verso 134
v. 166Mas, como ou ferro ou corno, firme e seco,
A Clavis Homerica de muitos seguida, acha ótima a comparação com o ferro ou com o corno por causa da sua natural secura; mas Rochefort, sempre fiel ao seu sistema, achando corno matéria indigna de uma epopéia, o substituiu por marfim.
↩ voltar ao verso 166
v. 309–312“Tu o almejavas tanto, agora inventa
O nome Ulisses ou Odusseus vem do verbo odussó, irar-se. Querem muitos que a história da ferida, a qual vai seguindo, seja uma interpolação. Pode ser que haja acrescentamentos; porém Homero, em ambos os seus poemas, não perde ocasião de contar-nos sucessos ainda mais longos, e estes, interessantes como pertencentes ao seu herói, é provável que os não quisesse omitir.
↩ voltar à passagem, v. 309
v. 439E por seus olhos doze em direitura
Olho chama-se o buraco por onde se introduz o cabo do machado e de outros instrumentos.
↩ voltar ao verso 439
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