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OdisseiaLivro IX
LivroIX

Toma Ulisses a mão: — Potente Alcino

442 versos · 2 notas do tradutor


  1. Toma Ulisses a mão: — Potente Alcino,
  2. De povos sumo rei, nada há mais grato
  3. Que do cantor a divinal poesia;
  4. Nada mais deleitável que esta gente
  5. Lhe estar ouvindo a voz melodiosa
  6. À tua mesa, de regalos plena,
  7. E o vinho haurir que da cratera vaza
  8. Nos copos o escanção: minha alma o escuta.
  9. Mandas-me renovar a dor e o pranto:
  10. Que princípio, que meio, que remate
  11. A narração terá de imensos males
  12. A mim fadados? Por meu nome enceto.
  13. Escapo aqui da morte, hóspede vosso
  14. Perpétuo seja, inda que longe moro:
  15. Sou Ulisses Laércio, encomiado
  16. Por meus ardis, com fama até nos astros.
  17. Ítaca habito ocídua, e lá tremula
  18. Nerito a verde coma; circunstantes
  19. Ilhas há povoadas, como Same
  20. E Dulíquio e Zacinto nemorosa,
  21. Orientais e ao sul; Ítaca humilde
  22. Última as trevas olha, áspera e tosca,
  23. Porém não posso ver nada mais doce.
  24. Na gruta sua a ótima Calipso,
  25. Em casa teve-me a dolosa Eéia,
  26. Sem nunca afagos seus me demoverem,
  27. Pois ledo homem não vive e satisfeito
  28. Fora da pátria amiga e dos parentes,
  29. Bem que noutro país nade em riquezas.
  30. Ora de Ílio a tornada lagrimosa
  31. Referirei, disposição de Jove.
  32. À Ísmara o vento impele-me e aos Cícones
  33. Saqueio e os mato; com partilha justa
  34. As mulheres e a presa dividimos.
  35. Presto os insto a largar; mas insensatos
  36. Na praia indóceis a beber se ficam,
  37. Ovelhas abatendo e negros touros.
  38. Os fugitivos por socorro bramam,
  39. E n’alva em cópia do interior concorrem
  40. Bons peões e adestrados cavaleiros,
  41. Como as folhas vernais e as flores brotam.
  42. Jove de mil desgraças nos oprime:
  43. Eles às nossas naus o ataque apertam,
  44. Fervem de parte a parte os êneos tiros;
  45. Toda a manhã enquanto a luz crescia,
  46. Do número apesar, os contivemos;
  47. Ao Sol cadente, quando os bois descangam,
  48. Em fuga nós, poupando a Parca os outros,
  49. Armando seis de cada nau perdemos.
  50. Salvos, contudo mestos velejamos,
  51. Vezes três a invocar primeiro os sócios
  52. Ai! nas Cicônias margens trucidados.
  53. O Nimbífero o Bóreas assolou-nos;
  54. Tolda bulcão tristonho o mar e a terra,
  55. A noite rui do céu; de esguelha o vento
  56. As velas farpa, e súbito arreadas,
  57. Varei com susto. Lá cansaço e mágoa
  58. Nos ralou; mas, à terça ruiva aurora,
  59. Mastros eretos, brancos linho içado,
  60. Navego ao tom da brisa e dos pilotos.
  61. O natal chão tocava, quando Bóreas
  62. E do Maléia as correntes me empuxaram
  63. Muito além de Cítera. Dias nove
  64. Pelo piscoso ponto flutuando,
  65. No dezeno aos Lotófagos arribo,
  66. Que apascenta uma planta e flor cheirosa.
  67. Jantamos, feita aguada; envio arauto
  68. Com mais dous a inquirir de pão que gente
  69. Lá se nutria. Aos três em nada ofendem,
  70. Mas lhes ofertam loto; o mel provando,
  71. Os nossos o recado e a pátria esquecem,
  72. Querem permanecer para o gostarem.
  73. Constrangidos e em lágrimas os trago
  74. E amarro aos bancos; apressado os outros
  75. Sócios recolho, a fim que do regresso
  76. A doçura falaz os não deslembre.
  77. Em fila, a salsa espuma a remos ferem,
  78. E dali pesarosos nos partimos.
  79. Abordo a infanda plaga do Ciclopes,
  80. Que, à fiúza dos deuses, nem semeiam,
  81. Lavram nem plantam; sem cultivo e relha,
  82. Cresce o trigo e a cevada, os bagos de uvas
  83. Lhes engrossa o imbrífero Satúrnio.
  84. De conselho e assembléia e lei privados,
  85. Cada varão, de montes em cavernas,
  86. Rege absoluto filhos e mulheres,
  87. Vizinhos olvidando. Ilha daquela
  88. Tanto ou quanto remota, umbrosa estende-se,
  89. Altriz de agrestes cabras: nunca a pisa
  90. Humano pé, campônio, zagalejo,
  91. Ou caçador ao serro e à fraga atreito;
  92. Berrantes fatos inarada pasce.
  93. Nem construtores de vermelhos beques
  94. Nem galés tem que os mares atravessem,
  95. Que em longínquas cidades mercadejem,
  96. Donde a ilha deserta haja colonos.
  97. Tudo em sua estação produziria:
  98. Junto à costa oferece regadios
  99. E moles prados; ao vinhedo é própria;
  100. É fofo o solo e para messes pingue.
  101. De âncoras e de amarras prescindindo,
  102. Permanecer no porto os nautas podem,
  103. Até que as auras prósperas aspirem;
  104. De uma gruta, no topo, fresca fonte
  105. Límpida mana, de álemos sombrosa.
  106. Lá jogou-nos a vaga, e um deus foi guia;
  107. Nada na cega noite se enxergava:
  108. Na terra as naus, em densa escuridade
  109. Esmorecida a Lua, a terra oculta,
  110. Nem rolar a mareta às praias vimos,
  111. Antes que as proas abicassem nelas.
  112. Colhido o pano salta-se, e na areia,
  113. Da madrugada à espera, adormecemos.
  114. Do ar mal fulge a dedirrósea prole,
  115. Toda a ilha admirados perlustramos.
  116. Ninfas do aluno de Amaltéia agitam
  117. Para nosso jantar monteses cabras.
  118. Das naus trouxemos arcos e azagaias;
  119. Tripartidos, de caça o deus fartou-nos;
  120. Cabeças nove cada nau das doze,
  121. Uma de mais somente obteve a minha.
  122. Ao sol posto a comer, nos regalamos
  123. De roxo vinho; em ânforas a bordo,
  124. Roubo, do sacro burgo dos Cícones,
  125. Inda restava. Nos Ciclópeos cumes
  126. Fumo avistou-se, ouviram-se balidos.
  127. Anoitece e dormimos; na alvorada
  128. Convoco a gente: “Cá vos deixo, amigos;
  129. Eu mesmo explorarei se aqueles homens
  130. São ferozes e injustos e intratáveis.
  131. Ou tementes aos deuses e hospedeiros.”
  132. Ocupo o meu navio; os da companha,
  133. Desatando os calabres, abancados
  134. A branca espuma a remos açoutavam.
  135. Na próxima paragem, numa extrema,
  136. Junto ao mar descobriu-se alta espelunca,
  137. De loureiros opaca, onde albergava
  138. Cabrum gado e ovelhum, do pátio em roda
  139. A pique rochas, com alvares pinhos
  140. E carvalhos de topes verdejantes.
  141. Seus rebanhos ali desconversável
  142. Gigante pastorava, em separado,
  143. Só consigo maldades ruminando;
  144. Monstro não comparável aos humanos
  145. De pão nutridos, mas do monte ao cume
  146. Que selvoso dos outros se destaca.
  147. À nau ponho de guarda os camaradas;
  148. Escolho doze, um odre lhes confio
  149. Do vinho de Máron de Evanteu nado,
  150. Em Ísmara Apolíneo sacerdote;
  151. O qual poupamos e mulher e filhos,
  152. Na sagrada floresta, com respeito;
  153. E áureas talentos sete, urnas de prata,
  154. Mais uma dúzia de ânforas doou-me
  155. De almo licor nectáreo incorruptível.
  156. Desse vinho melífluo, em casa ignoto,
  157. Menos à esposa e à despenseira, um vaso
  158. Com vinte se mesclava de água pura,
  159. E tal cheiro divino recendia,
  160. Que dele alguém abster-se era um tormento.
  161. Encho um odre, uns alforjes abasteço,
  162. Audaz me deito a visitar o iníquo
  163. De alma ferrenha e desmedida força.
  164. Então fora pastava o nédio gado,
  165. E no interno o antro seu nos foi pasmoso:
  166. Nos cinchos pesam queijos; de cabritos
  167. E anhos currais se atulham, segregados
  168. Os meãos e os tenrinhos e os maiores;
  169. Mungido fresco em tarros e alguidares,
  170. Nada no soro o coalho. Os meus imploram
  171. Que, tomados os queijos e atraídos
  172. Cabritos e ambos, de embarcar tratemos:
  173. Fora certo o melhor, mas eu quis vê-lo
  174. E dons ter hospitais; futura aos sócios
  175. Vista ingrata. Imolando, aceso o fogo,
  176. Do lacticínio come-se, e aguardamos.
  177. Ei-lo, de lenha para a ceia, à porta
  178. A grossa atira estrepitosa carga;
  179. Tremendo no interior nos ocultamos.
  180. À espelunca recolhe as gordas fêmeas
  181. Para, ordenhar, de fora tendo os machos
  182. No amplo recinto, bodes e carneiros;
  183. Depois a entrada fecha, levantando
  184. Rocha tal, que mover nem poderiam
  185. Vinte dous carroções de quatro rodas.
  186. Sentado, ovelhas e balantes cabras
  187. Em ordem munge, e às mães submete as crias:
  188. Porções do leite coalha e aperta em fôrmas;
  189. Guarda metade, que ceando beba.
  190. Tudo aviado e em cobro, atiça o lume,
  191. E dá conosco e diz: “Quem sois vós outros?
  192. Navegais por negócio, ou ruins piratas
  193. Os mares infestais, expondo as vidas
  194. Para infortúnio e dano de estrangeiros?”
  195. Frios, do rouco som, do monstro mesmo
  196. Trememos todos; mas falar me atrevo:
  197. “Dos Gregos somos que, da pátria em busca,
  198. Desde Ílios furacões nos remessaram
  199. A estranhas plagas, por querer de Jove;
  200. No exército servimos de Agamemnon,
  201. Cuja glória a qualquer mundana eclipsa,
  202. Pois destruiu tal povo e tal cidade.
  203. A teus pés agasalho deprecamos.
  204. Ou brindes hospitais. Receia os deuses,
  205. Senhor; Júpiter vinga os suplicantes,
  206. E a bons e honrados hóspedes protege.”
  207. Turvo me respondeu: “Louco! tão longe
  208. Vens o temor dos deuses ensinar-me?
  209. Os Ciclopes, que os deuses mais prestantes,
  210. Esse aluno da cabra desdenhamos.
  211. Se não por mim, de Júpiter por medo
  212. Pensas que te perdoe e os companheiros?
  213. Onde ancoraste a nau? distante ou perto?
  214. Declara-o já.” — Manhoso ao laço fujo:
  215. “Desfez-ma o Enosigeu, na ponta e escolhos
  216. Dos fins da vossa terra; aqui, dos ventos
  217. Rojado, a custo me salvei com estes.”
  218. Ei-lo, sevo e em silêncio, a dous agarra,
  219. No chão como uns cãezinhos os machuca,
  220. E o cérebro no chão corre espargido;
  221. Os membros rasga, e lhes devora tudo,
  222. Fibra, entranha, osso mole ou meduloso,
  223. Qual faminto leão: chorando as palmas,
  224. Em desespero e grita, a Jove alçamos.
  225. Pleno de humanas carnes o amplo ventre,
  226. Leite bebe o Ciclope a grandes sorvos,
  227. E entre as ovelhas na caverna estira-se:
  228. Animoso de espada ia feri-lo,
  229. Onde o fígado junta-se ao diafragma,
  230. Quando à idéia me vem que, nímio débeis
  231. Para o empacho movermos da saída,
  232. Morreríamos todos morte acerba:
  233. A aurora pois gementes esperamos.
  234. Ao raiar da manhã, suscita o fogo,
  235. Ordenha e a cada mãe submete as crias.
  236. O serviço afervora, e para o almoço
  237. Mais dous empolga e traga; a pedra erguendo
  238. Fácil, como na aljava a tampa ajusta,
  239. A repõe, já de fora com seu gado;
  240. E, indo-se ao monte, ouvíamos seus urros.
  241. Vingança cogitada, invoco a Palas;
  242. Trás longo meditar, melhor conselho
  243. Este me pareceu: de um tronco pego
  244. Oleagíneo e verde, grosso e longo,
  245. No antro a secar jazendo para clava,
  246. Que o mastro parecia de um mercante
  247. Flutívago baixel de vinte remos;
  248. Corto-lhe uma braçada, os sócios mando
  249. O pedaço alisar, depois o aguço
  250. E o tosto a fogo ardente, no monturo
  251. Pela caverna acumulado o escondo.
  252. Sorteiam-se os que atrevam-se comigo
  253. No olho o pau enterrar-lhe pontiagudo,
  254. Enquanto sopitado em sono esteja;
  255. A sorte elege quatro, e eu faço o quinto.
  256. Chega à tarde o pastor, e sem no pátio
  257. Conter os machos, encurrala o gado.
  258. Ou por divino influxo ou por suspeita;
  259. A boca do antro fecha, em ordem munge
  260. Sentado as fêmeas e submete as crias.
  261. Presto acaba o serviço, e para ceia
  262. Inda esquarteja dous; eu perto exclamo,
  263. Taça a lhe oferecer de roxo vinho:
  264. “De carne humana estás, Ciclope, farto;
  265. Ora da nossa nau prova a bebida.
  266. Mais terias, se à casa me enviasses
  267. Por compaixão: que fúria intolerável!
  268. Como, de tanta crueldade à vista,
  269. Pode qualquer humano visitar-te?”
  270. Recebe a taça, com delícia a empina,
  271. E pede mais: “Dá-me de novo, dá-me;
  272. O nome teu me digas, para haveres
  273. Dom que te aprazirá. Nossa alma terra
  274. Vinho de uvas produz que orvalha Jove;
  275. Mas este, ambrosia é doce e néctar puro.”
  276. Renovo a taça ardente, que três vezes
  277. Néscio esgotou. Sentindo-o já toldado,
  278. Brando ajunto: “Ciclope, não me faltes
  279. À promessa. Meu nome tu perguntas?
  280. Eu me chamo Ninguém, Ninguém me chamam
  281. Vizinhos e parentes.” O ímpio e fero
  282. Balbuciou: “Ninguém, depois dos outros
  283. Último hei de comer-te; eis meu presente.”
  284. E ressupino cai e, a cerviz grossa
  285. Dobrando, ao sono domador se rende;
  286. A impar na embriaguez, ressona e arrota,
  287. Vomita o vinho e carne humana em postas.
  288. Na cinza o lenho aqueço, animo os sócios
  289. A não me abandonarem no perigo;
  290. O oleagíneo troço, inda que verde,
  291. Em brasa tiro, e um deus nos acorçoa;
  292. No olho ficam-lhe os meus o pau candente,
  293. Eu de cima o revolvo: qual se broca
  294. Naval madeira, que sustém com loros
  295. Do mestre oficiais de uma e outra banda
  296. E o trado gira sempre; assim viramos
  297. No olho o tição. Cálido sangue espirra;
  298. O vapor da pupila afogueada
  299. As pálpebras queimava e a sobrancelha;
  300. Do imo as raízes crepitar sentimos.
  301. Quando enxó n’água fria ou grã secure
  302. Imergindo o forjeiro a temperá-lo
  303. Caldeia o ferro, estrídulo este chia:
  304. Da trave em roda o olho assim chiava.
  305. O urro tremendo ecoa nos penedos;
  306. Assustados fugimos; ele, o tronco
  307. Todo em sangue arrancado, o lança fora
  308. Na veemência da dor, bramando horrível
  309. Pelos Ciclopes, que em vizinhas grutas
  310. Sobre ventosos cumes habitavam.
  311. Aos gritos acudindo, eles à entrada
  312. O que o aflige indagam: “Polifemo,
  313. Porque a noite balsâmica perturbas
  314. E nos rompes o sono com tais vozes?
  315. Acaso ovelha ou cabra te roubaram,
  316. Ou por dolo ou por força alguém matou-te?”
  317. “Amigo, do antro Polifemo disse,
  318. O ousado que por dolo, não por força,
  319. Matou-me, foi Ninguém.” — Replicam logo:
  320. “Se ninguém te ofendeu, se estás sozinho,
  321. Morbos que vem de Jove não se evitam;
  322. Pede que te alivie ao pai Netuno.”
  323. Com isto vão-se andando, e eu rio n’alma
  324. De que meu nome e alvitre os enganasse.
  325. Gemebundo o Ciclope e dolorido,
  326. Trêmulo apalpa, e removendo a pedra,
  327. Senta-se à boca do antro, as mãos estende
  328. A apanhar quem saísse entre as ovelhas.
  329. Ele cria-me estulto; eu cogitava
  330. Com que ardil me livrasse e os meus da morte
  331. Horrorosa e iminente, e o plano formo:
  332. Três a três ligo tácito uns carneiros
  333. De lã violáceas, grandes e alentados,
  334. Com retorcido vime, em cujos feixes
  335. Dormia o monstro; no do meio ajeito
  336. Um sócio, que os dous outros conduzissem;
  337. Do maior da manada abraço o tergo,
  338. E ao ventre submetendo-me veloso,
  339. Firme ao tosão me implico e me penduro.
  340. Carpindo à espera da manhã velamos.
  341. No arrebol urge o dono ao pasto os machos,
  342. Dentro a balar as fêmeas de ubres tesos,
  343. E em dores, à passagem, do que pára
  344. O dorso afaga, néscio de que os sócios
  345. Iam ligados aos lanudos peitos.
  346. Último andava o meu, tardio ao peso
  347. De mim, que em baixo astuto maquinava;
  348. A anca lhe amima terno: “O derradeiro
  349. Hoje és tu, preguiçoso? A largo passo
  350. Ias dantes em frente, a pascer flores
  351. E a banhar-te no límpido riacho,
  352. E de tarde ao redil vinhas primeiro.
  353. Do olho do senhor partes saudoso,
  354. Que, de vinho domando-me a cabeça,
  355. Cru mortal e os maus sócios me vazaram?
  356. Escapo inda o não julgo: tu sentisses
  357. Comigo e articulasses, que dirias
  358. Onde se oculta; e, esparsos os miolos
  359. Por toda a cova, ao mal, que me há causado
  360. O vil Ninguém, teria um refrigério.”
  361. Solto o martinho então, se pôs de fora.
  362. Distante um pouco da caverna e pátio,
  363. O meu largo e desprendo os mais carneiros;
  364. Salvos do monstro, à pressa o desviado
  365. Gordo rebanho para a nau guiamos,
  366. Onde em pranto ansiosos companheiros
  367. Nos receberam. Por acenos vedo
  368. Esse lamento, e mando que o lanoso
  369. Gado se embarque e o saldo mar cortemos.
  370. Dito e feito, e verberam já remeiros
  371. O encarnecido ponto, quando ao longe,
  372. Mas a alcance de gritos, o invectivo:
  373. “Não devoraste, Polifemo, os sócios
  374. De um homem sem valor; cruel e iníquo,
  375. De hóspedes em teus lares te sustentas;
  376. Júpiter castigou-te e os mais celestes.”
  377. Raivoso, ei-lo de um monte o cimo quebra,
  378. Joga a rocha, que ao pé da popa tomba:
  379. Ao choque a nau se inunda, e refluindo
  380. Sobre a terra a mareta nos empuxa.
  381. De um longuíssimo croque armado, o casco
  382. Da praia arredo, e por sinais ordeno
  383. Que, o trespasso esquivando, a voga piquem.
  384. Sulcado espaço igual, falo ao Ciclope;
  385. Em redor brandamente me retinham:
  386. “Incitar queres, mísero, o selvagem,
  387. Que a nau com novo tiro atraia à borda,
  388. Onde acabar cuidávamos? Se tuges,
  389. Ao perceber-te a voz, com força bruta
  390. Penedo vibrará, que nos esmague
  391. E este frágil madeiro desconjunte.”
  392. Preces vãs! generoso e inabalável
  393. Em cólera bradei: “Se o perguntarem,
  394. O olho dirás, vazou-te o arrasa-muros
  395. Ítaco Ulisses, de Laertes nado.”
  396. Trovejou Polifemo: “Encheu-se o agouro
  397. Ah! de Telemo Eurímides, profeta.
  398. Que envelheceu famoso entre os Ciclopes!
  399. Apagar-se-me a vista às mãos de Ulisses
  400. Vaticinou-me: um forte e ingente e belo
  401. Varão sempre cuidei que Ulisses fosse;
  402. Mas, falso embriagando-me, a pupila
  403. Furou-me um pífio imbele e pequenino!
  404. Hóspede, eis os presentes, vem tomá-los;
  405. Meu genitor confessa-se Netuno,
  406. Rogo-lhe que a viagem te encaminhe.
  407. Seja vontade sua, há de sarar-me;
  408. De outro deus nem mortal socorro espero.”
  409. “Pudesse eu, repliquei-lhe, de alma e vida
  410. Privar-te e remeter-te ao reino imano,
  411. Como nem mesmo o genitor Netuno
  412. O olho te sarará.” Súplices palmas
  413. Ele à sidérea abóbada levanta:
  414. “Ó rei Netuno de cerúlea coma,
  415. Se teu sou na verdade, ó pai, te imploro
  416. Que seu país não veja o arrasa-muros
  417. Ítaco Ulisses, de Laertes nado;
  418. Ou, se é fatal que à pátria amiga torne,
  419. Só de toda a campanha, em vaso alheio,
  420. Tardio aporte, e em casa encontre penas.”
  421. Seu rogo ouvido foi. Lasca outro pico
  422. Muito maior, que expede volteando
  423. Com sumo esforço: desta vez o leme
  424. Quase alcança, e nos molha a erguida brenha;
  425. Mas surde a proa azul, e a ilha toca
  426. Onde as naus de coberta e os sócios eram,
  427. Sempre a chorar por nós. Varado o casco,
  428. Saltamos, e conosco a ovelhum presa,
  429. Que divido irmãmente: a aqueles bravos
  430. Dão-me a parte o carneiro em que livrei-me,
  431. Eu na praia ao nimbífero Satúrnio
  432. Queimo-lhe as coxas; mas o deus supremo
  433. Enjeita o sacrífio, e delibera
  434. A frota consumir-me e os camaradas.
  435. Até Sol posto, à mesa nos fartamos
  436. De carne e doce vinho, e escura a noite,
  437. Na areia adormecemos. Vindo a rósea
  438. Aurora matutina, a gente embarco;
  439. Desamarrados, alva espuma torcem
  440. Dos remos ao compasso os marinheiros.
  441. Dali, da morte isentos; mas tristonhos
  442. Pelos míseros sócios navegamos.

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v. 15–34Sou Ulisses Laércio, encomiado ⋯ As mulheres e a presa dividimos.
O reconhecimento parece tardio, crê-se à primeira vista que devera ser muito antes; mas note-se que Homero no livro VII, como para escapar à objeção, faz Ulisses dizer a Areta que não pode já narrar todas as aventuras, e só responderia às últimas perguntas: assim, respeitou Alcino o seu silêncio, até vir a ocasião de saber-se aonde a nau devia conduzi-lo. Esta demora, adaptada à marcha dramática do poema, tenho-a por um belo artificio. — Same é o mais antigo nome de Samos; Ísmara é cidade, assim lhe chama Virgílio, sem confundi-la com o monte, que se diz Ísmaro. — Ulisses, depois de saquear os Cicones, que justamente o escarmentaram, gaba-se da boa repartição da presa: entre os mesmos salteadores há uma espécie de eqüidade, para se poderem manter.
↩ voltar à passagem, v. 15
v. 343–361E em dores, à passagem, do que pára ⋯ Solto o martinho então, se pôs de fora.
Esta passagem tem sido censurada por inverossímil: a saída dos companheiros, cada um no animal do meio e conduzido pelos dous dos lados, compreende-se melhor; mas a de Ulisses num só carneiro, posto que o maior do rebanho, é difícil de conceber, sem embargo das diferentes explicações. Como porém o gigante estava cego e Minerva protegia a Ulisses, pode supor-se que, por influxo divino, afagou Polifemo o tal carneiro só em partes onde não se sentisse o engano. — O adjetivo cru do verso 355, onde o gigante se queixa de o terem cegado, quando acabava de comer seis homens, não admira na boca de um monstro brutal; nós outros somos propensos a ter por injusto o mal que nos fazem, e a achar pequeno o que aos outros fazemos: a modo que Homero quis representar um dos achaques da humanidade.
↩ voltar à passagem, v. 343
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