Toma Ulisses a mão: — Potente Alcino
442 versos · 2 notas do tradutor
- Toma Ulisses a mão: — Potente Alcino,
- De povos sumo rei, nada há mais grato
- Que do cantor a divinal poesia;
- Nada mais deleitável que esta gente
- Lhe estar ouvindo a voz melodiosa
- À tua mesa, de regalos plena,
- E o vinho haurir que da cratera vaza
- Nos copos o escanção: minha alma o escuta.
- Mandas-me renovar a dor e o pranto:
- Que princípio, que meio, que remate
- A narração terá de imensos males
- A mim fadados? Por meu nome enceto.
- Escapo aqui da morte, hóspede vosso
- Perpétuo seja, inda que longe moro:
- Sou Ulisses Laércio, encomiado
- Por meus ardis, com fama até nos astros.
- Ítaca habito ocídua, e lá tremula
- Nerito a verde coma; circunstantes
- Ilhas há povoadas, como Same
- E Dulíquio e Zacinto nemorosa,
- Orientais e ao sul; Ítaca humilde
- Última as trevas olha, áspera e tosca,
- Porém não posso ver nada mais doce.
- Na gruta sua a ótima Calipso,
- Em casa teve-me a dolosa Eéia,
- Sem nunca afagos seus me demoverem,
- Pois ledo homem não vive e satisfeito
- Fora da pátria amiga e dos parentes,
- Bem que noutro país nade em riquezas.
- Ora de Ílio a tornada lagrimosa
- Referirei, disposição de Jove.
- À Ísmara o vento impele-me e aos Cícones
- Saqueio e os mato; com partilha justa
- As mulheres e a presa dividimos.
- Presto os insto a largar; mas insensatos
- Na praia indóceis a beber se ficam,
- Ovelhas abatendo e negros touros.
- Os fugitivos por socorro bramam,
- E n’alva em cópia do interior concorrem
- Bons peões e adestrados cavaleiros,
- Como as folhas vernais e as flores brotam.
- Jove de mil desgraças nos oprime:
- Eles às nossas naus o ataque apertam,
- Fervem de parte a parte os êneos tiros;
- Toda a manhã enquanto a luz crescia,
- Do número apesar, os contivemos;
- Ao Sol cadente, quando os bois descangam,
- Em fuga nós, poupando a Parca os outros,
- Armando seis de cada nau perdemos.
- Salvos, contudo mestos velejamos,
- Vezes três a invocar primeiro os sócios
- Ai! nas Cicônias margens trucidados.
- O Nimbífero o Bóreas assolou-nos;
- Tolda bulcão tristonho o mar e a terra,
- A noite rui do céu; de esguelha o vento
- As velas farpa, e súbito arreadas,
- Varei com susto. Lá cansaço e mágoa
- Nos ralou; mas, à terça ruiva aurora,
- Mastros eretos, brancos linho içado,
- Navego ao tom da brisa e dos pilotos.
- O natal chão tocava, quando Bóreas
- E do Maléia as correntes me empuxaram
- Muito além de Cítera. Dias nove
- Pelo piscoso ponto flutuando,
- No dezeno aos Lotófagos arribo,
- Que apascenta uma planta e flor cheirosa.
- Jantamos, feita aguada; envio arauto
- Com mais dous a inquirir de pão que gente
- Lá se nutria. Aos três em nada ofendem,
- Mas lhes ofertam loto; o mel provando,
- Os nossos o recado e a pátria esquecem,
- Querem permanecer para o gostarem.
- Constrangidos e em lágrimas os trago
- E amarro aos bancos; apressado os outros
- Sócios recolho, a fim que do regresso
- A doçura falaz os não deslembre.
- Em fila, a salsa espuma a remos ferem,
- E dali pesarosos nos partimos.
- Abordo a infanda plaga do Ciclopes,
- Que, à fiúza dos deuses, nem semeiam,
- Lavram nem plantam; sem cultivo e relha,
- Cresce o trigo e a cevada, os bagos de uvas
- Lhes engrossa o imbrífero Satúrnio.
- De conselho e assembléia e lei privados,
- Cada varão, de montes em cavernas,
- Rege absoluto filhos e mulheres,
- Vizinhos olvidando. Ilha daquela
- Tanto ou quanto remota, umbrosa estende-se,
- Altriz de agrestes cabras: nunca a pisa
- Humano pé, campônio, zagalejo,
- Ou caçador ao serro e à fraga atreito;
- Berrantes fatos inarada pasce.
- Nem construtores de vermelhos beques
- Nem galés tem que os mares atravessem,
- Que em longínquas cidades mercadejem,
- Donde a ilha deserta haja colonos.
- Tudo em sua estação produziria:
- Junto à costa oferece regadios
- E moles prados; ao vinhedo é própria;
- É fofo o solo e para messes pingue.
- De âncoras e de amarras prescindindo,
- Permanecer no porto os nautas podem,
- Até que as auras prósperas aspirem;
- De uma gruta, no topo, fresca fonte
- Límpida mana, de álemos sombrosa.
- Lá jogou-nos a vaga, e um deus foi guia;
- Nada na cega noite se enxergava:
- Na terra as naus, em densa escuridade
- Esmorecida a Lua, a terra oculta,
- Nem rolar a mareta às praias vimos,
- Antes que as proas abicassem nelas.
- Colhido o pano salta-se, e na areia,
- Da madrugada à espera, adormecemos.
- Do ar mal fulge a dedirrósea prole,
- Toda a ilha admirados perlustramos.
- Ninfas do aluno de Amaltéia agitam
- Para nosso jantar monteses cabras.
- Das naus trouxemos arcos e azagaias;
- Tripartidos, de caça o deus fartou-nos;
- Cabeças nove cada nau das doze,
- Uma de mais somente obteve a minha.
- Ao sol posto a comer, nos regalamos
- De roxo vinho; em ânforas a bordo,
- Roubo, do sacro burgo dos Cícones,
- Inda restava. Nos Ciclópeos cumes
- Fumo avistou-se, ouviram-se balidos.
- Anoitece e dormimos; na alvorada
- Convoco a gente: “Cá vos deixo, amigos;
- Eu mesmo explorarei se aqueles homens
- São ferozes e injustos e intratáveis.
- Ou tementes aos deuses e hospedeiros.”
- Ocupo o meu navio; os da companha,
- Desatando os calabres, abancados
- A branca espuma a remos açoutavam.
- Na próxima paragem, numa extrema,
- Junto ao mar descobriu-se alta espelunca,
- De loureiros opaca, onde albergava
- Cabrum gado e ovelhum, do pátio em roda
- A pique rochas, com alvares pinhos
- E carvalhos de topes verdejantes.
- Seus rebanhos ali desconversável
- Gigante pastorava, em separado,
- Só consigo maldades ruminando;
- Monstro não comparável aos humanos
- De pão nutridos, mas do monte ao cume
- Que selvoso dos outros se destaca.
- À nau ponho de guarda os camaradas;
- Escolho doze, um odre lhes confio
- Do vinho de Máron de Evanteu nado,
- Em Ísmara Apolíneo sacerdote;
- O qual poupamos e mulher e filhos,
- Na sagrada floresta, com respeito;
- E áureas talentos sete, urnas de prata,
- Mais uma dúzia de ânforas doou-me
- De almo licor nectáreo incorruptível.
- Desse vinho melífluo, em casa ignoto,
- Menos à esposa e à despenseira, um vaso
- Com vinte se mesclava de água pura,
- E tal cheiro divino recendia,
- Que dele alguém abster-se era um tormento.
- Encho um odre, uns alforjes abasteço,
- Audaz me deito a visitar o iníquo
- De alma ferrenha e desmedida força.
- Então fora pastava o nédio gado,
- E no interno o antro seu nos foi pasmoso:
- Nos cinchos pesam queijos; de cabritos
- E anhos currais se atulham, segregados
- Os meãos e os tenrinhos e os maiores;
- Mungido fresco em tarros e alguidares,
- Nada no soro o coalho. Os meus imploram
- Que, tomados os queijos e atraídos
- Cabritos e ambos, de embarcar tratemos:
- Fora certo o melhor, mas eu quis vê-lo
- E dons ter hospitais; futura aos sócios
- Vista ingrata. Imolando, aceso o fogo,
- Do lacticínio come-se, e aguardamos.
- Ei-lo, de lenha para a ceia, à porta
- A grossa atira estrepitosa carga;
- Tremendo no interior nos ocultamos.
- À espelunca recolhe as gordas fêmeas
- Para, ordenhar, de fora tendo os machos
- No amplo recinto, bodes e carneiros;
- Depois a entrada fecha, levantando
- Rocha tal, que mover nem poderiam
- Vinte dous carroções de quatro rodas.
- Sentado, ovelhas e balantes cabras
- Em ordem munge, e às mães submete as crias:
- Porções do leite coalha e aperta em fôrmas;
- Guarda metade, que ceando beba.
- Tudo aviado e em cobro, atiça o lume,
- E dá conosco e diz: “Quem sois vós outros?
- Navegais por negócio, ou ruins piratas
- Os mares infestais, expondo as vidas
- Para infortúnio e dano de estrangeiros?”
- Frios, do rouco som, do monstro mesmo
- Trememos todos; mas falar me atrevo:
- “Dos Gregos somos que, da pátria em busca,
- Desde Ílios furacões nos remessaram
- A estranhas plagas, por querer de Jove;
- No exército servimos de Agamemnon,
- Cuja glória a qualquer mundana eclipsa,
- Pois destruiu tal povo e tal cidade.
- A teus pés agasalho deprecamos.
- Ou brindes hospitais. Receia os deuses,
- Senhor; Júpiter vinga os suplicantes,
- E a bons e honrados hóspedes protege.”
- Turvo me respondeu: “Louco! tão longe
- Vens o temor dos deuses ensinar-me?
- Os Ciclopes, que os deuses mais prestantes,
- Esse aluno da cabra desdenhamos.
- Se não por mim, de Júpiter por medo
- Pensas que te perdoe e os companheiros?
- Onde ancoraste a nau? distante ou perto?
- Declara-o já.” — Manhoso ao laço fujo:
- “Desfez-ma o Enosigeu, na ponta e escolhos
- Dos fins da vossa terra; aqui, dos ventos
- Rojado, a custo me salvei com estes.”
- Ei-lo, sevo e em silêncio, a dous agarra,
- No chão como uns cãezinhos os machuca,
- E o cérebro no chão corre espargido;
- Os membros rasga, e lhes devora tudo,
- Fibra, entranha, osso mole ou meduloso,
- Qual faminto leão: chorando as palmas,
- Em desespero e grita, a Jove alçamos.
- Pleno de humanas carnes o amplo ventre,
- Leite bebe o Ciclope a grandes sorvos,
- E entre as ovelhas na caverna estira-se:
- Animoso de espada ia feri-lo,
- Onde o fígado junta-se ao diafragma,
- Quando à idéia me vem que, nímio débeis
- Para o empacho movermos da saída,
- Morreríamos todos morte acerba:
- A aurora pois gementes esperamos.
- Ao raiar da manhã, suscita o fogo,
- Ordenha e a cada mãe submete as crias.
- O serviço afervora, e para o almoço
- Mais dous empolga e traga; a pedra erguendo
- Fácil, como na aljava a tampa ajusta,
- A repõe, já de fora com seu gado;
- E, indo-se ao monte, ouvíamos seus urros.
- Vingança cogitada, invoco a Palas;
- Trás longo meditar, melhor conselho
- Este me pareceu: de um tronco pego
- Oleagíneo e verde, grosso e longo,
- No antro a secar jazendo para clava,
- Que o mastro parecia de um mercante
- Flutívago baixel de vinte remos;
- Corto-lhe uma braçada, os sócios mando
- O pedaço alisar, depois o aguço
- E o tosto a fogo ardente, no monturo
- Pela caverna acumulado o escondo.
- Sorteiam-se os que atrevam-se comigo
- No olho o pau enterrar-lhe pontiagudo,
- Enquanto sopitado em sono esteja;
- A sorte elege quatro, e eu faço o quinto.
- Chega à tarde o pastor, e sem no pátio
- Conter os machos, encurrala o gado.
- Ou por divino influxo ou por suspeita;
- A boca do antro fecha, em ordem munge
- Sentado as fêmeas e submete as crias.
- Presto acaba o serviço, e para ceia
- Inda esquarteja dous; eu perto exclamo,
- Taça a lhe oferecer de roxo vinho:
- “De carne humana estás, Ciclope, farto;
- Ora da nossa nau prova a bebida.
- Mais terias, se à casa me enviasses
- Por compaixão: que fúria intolerável!
- Como, de tanta crueldade à vista,
- Pode qualquer humano visitar-te?”
- Recebe a taça, com delícia a empina,
- E pede mais: “Dá-me de novo, dá-me;
- O nome teu me digas, para haveres
- Dom que te aprazirá. Nossa alma terra
- Vinho de uvas produz que orvalha Jove;
- Mas este, ambrosia é doce e néctar puro.”
- Renovo a taça ardente, que três vezes
- Néscio esgotou. Sentindo-o já toldado,
- Brando ajunto: “Ciclope, não me faltes
- À promessa. Meu nome tu perguntas?
- Eu me chamo Ninguém, Ninguém me chamam
- Vizinhos e parentes.” O ímpio e fero
- Balbuciou: “Ninguém, depois dos outros
- Último hei de comer-te; eis meu presente.”
- E ressupino cai e, a cerviz grossa
- Dobrando, ao sono domador se rende;
- A impar na embriaguez, ressona e arrota,
- Vomita o vinho e carne humana em postas.
- Na cinza o lenho aqueço, animo os sócios
- A não me abandonarem no perigo;
- O oleagíneo troço, inda que verde,
- Em brasa tiro, e um deus nos acorçoa;
- No olho ficam-lhe os meus o pau candente,
- Eu de cima o revolvo: qual se broca
- Naval madeira, que sustém com loros
- Do mestre oficiais de uma e outra banda
- E o trado gira sempre; assim viramos
- No olho o tição. Cálido sangue espirra;
- O vapor da pupila afogueada
- As pálpebras queimava e a sobrancelha;
- Do imo as raízes crepitar sentimos.
- Quando enxó n’água fria ou grã secure
- Imergindo o forjeiro a temperá-lo
- Caldeia o ferro, estrídulo este chia:
- Da trave em roda o olho assim chiava.
- O urro tremendo ecoa nos penedos;
- Assustados fugimos; ele, o tronco
- Todo em sangue arrancado, o lança fora
- Na veemência da dor, bramando horrível
- Pelos Ciclopes, que em vizinhas grutas
- Sobre ventosos cumes habitavam.
- Aos gritos acudindo, eles à entrada
- O que o aflige indagam: “Polifemo,
- Porque a noite balsâmica perturbas
- E nos rompes o sono com tais vozes?
- Acaso ovelha ou cabra te roubaram,
- Ou por dolo ou por força alguém matou-te?”
- “Amigo, do antro Polifemo disse,
- O ousado que por dolo, não por força,
- Matou-me, foi Ninguém.” — Replicam logo:
- “Se ninguém te ofendeu, se estás sozinho,
- Morbos que vem de Jove não se evitam;
- Pede que te alivie ao pai Netuno.”
- Com isto vão-se andando, e eu rio n’alma
- De que meu nome e alvitre os enganasse.
- Gemebundo o Ciclope e dolorido,
- Trêmulo apalpa, e removendo a pedra,
- Senta-se à boca do antro, as mãos estende
- A apanhar quem saísse entre as ovelhas.
- Ele cria-me estulto; eu cogitava
- Com que ardil me livrasse e os meus da morte
- Horrorosa e iminente, e o plano formo:
- Três a três ligo tácito uns carneiros
- De lã violáceas, grandes e alentados,
- Com retorcido vime, em cujos feixes
- Dormia o monstro; no do meio ajeito
- Um sócio, que os dous outros conduzissem;
- Do maior da manada abraço o tergo,
- E ao ventre submetendo-me veloso,
- Firme ao tosão me implico e me penduro.
- Carpindo à espera da manhã velamos.
- No arrebol urge o dono ao pasto os machos,
- Dentro a balar as fêmeas de ubres tesos,
- E em dores, à passagem, do que pára
- O dorso afaga, néscio de que os sócios
- Iam ligados aos lanudos peitos.
- Último andava o meu, tardio ao peso
- De mim, que em baixo astuto maquinava;
- A anca lhe amima terno: “O derradeiro
- Hoje és tu, preguiçoso? A largo passo
- Ias dantes em frente, a pascer flores
- E a banhar-te no límpido riacho,
- E de tarde ao redil vinhas primeiro.
- Do olho do senhor partes saudoso,
- Que, de vinho domando-me a cabeça,
- Cru mortal e os maus sócios me vazaram?
- Escapo inda o não julgo: tu sentisses
- Comigo e articulasses, que dirias
- Onde se oculta; e, esparsos os miolos
- Por toda a cova, ao mal, que me há causado
- O vil Ninguém, teria um refrigério.”
- Solto o martinho então, se pôs de fora.
- Distante um pouco da caverna e pátio,
- O meu largo e desprendo os mais carneiros;
- Salvos do monstro, à pressa o desviado
- Gordo rebanho para a nau guiamos,
- Onde em pranto ansiosos companheiros
- Nos receberam. Por acenos vedo
- Esse lamento, e mando que o lanoso
- Gado se embarque e o saldo mar cortemos.
- Dito e feito, e verberam já remeiros
- O encarnecido ponto, quando ao longe,
- Mas a alcance de gritos, o invectivo:
- “Não devoraste, Polifemo, os sócios
- De um homem sem valor; cruel e iníquo,
- De hóspedes em teus lares te sustentas;
- Júpiter castigou-te e os mais celestes.”
- Raivoso, ei-lo de um monte o cimo quebra,
- Joga a rocha, que ao pé da popa tomba:
- Ao choque a nau se inunda, e refluindo
- Sobre a terra a mareta nos empuxa.
- De um longuíssimo croque armado, o casco
- Da praia arredo, e por sinais ordeno
- Que, o trespasso esquivando, a voga piquem.
- Sulcado espaço igual, falo ao Ciclope;
- Em redor brandamente me retinham:
- “Incitar queres, mísero, o selvagem,
- Que a nau com novo tiro atraia à borda,
- Onde acabar cuidávamos? Se tuges,
- Ao perceber-te a voz, com força bruta
- Penedo vibrará, que nos esmague
- E este frágil madeiro desconjunte.”
- Preces vãs! generoso e inabalável
- Em cólera bradei: “Se o perguntarem,
- O olho dirás, vazou-te o arrasa-muros
- Ítaco Ulisses, de Laertes nado.”
- Trovejou Polifemo: “Encheu-se o agouro
- Ah! de Telemo Eurímides, profeta.
- Que envelheceu famoso entre os Ciclopes!
- Apagar-se-me a vista às mãos de Ulisses
- Vaticinou-me: um forte e ingente e belo
- Varão sempre cuidei que Ulisses fosse;
- Mas, falso embriagando-me, a pupila
- Furou-me um pífio imbele e pequenino!
- Hóspede, eis os presentes, vem tomá-los;
- Meu genitor confessa-se Netuno,
- Rogo-lhe que a viagem te encaminhe.
- Seja vontade sua, há de sarar-me;
- De outro deus nem mortal socorro espero.”
- “Pudesse eu, repliquei-lhe, de alma e vida
- Privar-te e remeter-te ao reino imano,
- Como nem mesmo o genitor Netuno
- O olho te sarará.” Súplices palmas
- Ele à sidérea abóbada levanta:
- “Ó rei Netuno de cerúlea coma,
- Se teu sou na verdade, ó pai, te imploro
- Que seu país não veja o arrasa-muros
- Ítaco Ulisses, de Laertes nado;
- Ou, se é fatal que à pátria amiga torne,
- Só de toda a campanha, em vaso alheio,
- Tardio aporte, e em casa encontre penas.”
- Seu rogo ouvido foi. Lasca outro pico
- Muito maior, que expede volteando
- Com sumo esforço: desta vez o leme
- Quase alcança, e nos molha a erguida brenha;
- Mas surde a proa azul, e a ilha toca
- Onde as naus de coberta e os sócios eram,
- Sempre a chorar por nós. Varado o casco,
- Saltamos, e conosco a ovelhum presa,
- Que divido irmãmente: a aqueles bravos
- Dão-me a parte o carneiro em que livrei-me,
- Eu na praia ao nimbífero Satúrnio
- Queimo-lhe as coxas; mas o deus supremo
- Enjeita o sacrífio, e delibera
- A frota consumir-me e os camaradas.
- Até Sol posto, à mesa nos fartamos
- De carne e doce vinho, e escura a noite,
- Na areia adormecemos. Vindo a rósea
- Aurora matutina, a gente embarco;
- Desamarrados, alva espuma torcem
- Dos remos ao compasso os marinheiros.
- Dali, da morte isentos; mas tristonhos
- Pelos míseros sócios navegamos.