Calça Telêmaco, ao raiar da aurora
464 versos · 8 notas do tradutor
- Calça Telêmaco, ao raiar da aurora,
- Belas sandálias, forte lança adapta:
- “Irmão, disse o pastor, corro açodado;
- Sem que me veja minha mãe, duvido
- Que ela suspenda o lagrimoso luto.
- Nosso hóspede infeliz, eu to prescrevo,
- Guia à cidade; ali seu pão mendigue,
- Nem faltará quem dê: com tantas penas,
- É-me impossível sustentar a todos.
- Não se agrave, é pior; praz-me a franqueza.”
- E ele: “Nem quero me deter no campo;
- Melhor, amigo, esmola-se nas ruas.
- De útil ser aos currais não sou na idade,
- Nem de curvar-me em tudo à voz de um chefe.
- Anda; irei com teu servo, assim que ao fogo
- Me aqueça e alteie o Sol: com tais vestidos,
- Longa a via se diz, o orvalho temo.”
- Do Laércio o querido veloz parte,
- Semeando na mente o mal dos procos.
- Chegado, a uma coluna encosta a lança
- Entra o portal marmóreo: é visto logo
- Da ama Euricléia, que em dedáleos tronos
- As peles estendia, e vem chorando;
- Beijam-lhe em torno as mais a testa e os ombros.
- Sai, de Artêmide igual e da áurea Vênus,
- Da câmara Penélope, a seu filho
- Consigo estreita, o rosto e pulcros olhos
- Terna lhe oscula, e suspirando geme:
- “Eis-te, meu doce lume! não mais ver-te
- Cria, dês que a saber do pai notícias,
- Oculto e a meu pesar, te foste a Pilos.
- Conta-me o que passaste.” — “Ó mãe, responde,
- Livre eu do risco, o pranto não me excites.
- Lava e de limpas vestes cinge o corpo;
- Com tuas servas monta, aos numes vota,
- Vingue-me Jove, inteiras hecatombes.
- À praça irei chamar um forasteiro
- Que também embarcou-se, e adiante veio
- Com meus divos consócios; no ausentar-me,
- A Pireu confiei sua hospedagem.”
- Vozes tais sem efeito não voaram:
- A mãe lava-se e veste, aos numes vota,
- Se o vingar Jove, inteiras hecatombes.
- Atrás com dous alãos e em punho a lança
- Graça divina a lhe infundir Minerva,
- No garbo o admira o povo; em roda os procos,
- Traição n’alma incubando, o lisonjeiam.
- Ele se afasta, e ao pé de amigos velhos
- De Ulisses vai sentar-se, de Haliterses,
- E de Antifo e Mentor, que o interrogam.
- O lanceiro Pireu pela cidade
- O hóspede guia ao foro, e a poucos passos
- A Telêmaco diz, que os topa e encara:
- “De minha casa aqueles dons, amigo,
- Manda buscar.” — Telêmaco responde:
- “O que será, Pireu, nós ignoramos.
- Se matam-me em segredo e o meu partilham,
- Goza esses dons, não eles; se triunfo,
- Então ledo a mim ledo os restituas.”
- Do hóspede miserando aqui se apossa,
- Condu-lo ao seu magnífico aposento;
- E, em poltronas e escanos posto o fato,
- Banham-se em lisas tinas; das criadas
- Sendo ungidos e envoltos em felpudas
- Moles capas e túnicas macias,
- Recostam-se em camilhas. Qual das servas
- Água lhes verte às mãos, qual mesa limpa
- Desdobra; a despenseira atenciosa
- Traz com pão reservadas iguarias.
- Senta-se a mãe junto ao pilar defronte,
- Um volve tênue purpurino fuso.
- Refeitos já, Penélope queixou-se:
- “Ao toro, filho, subirei viúva,
- Quem lágrimas ensopo desde a empresa
- Letal, e antes que intrusos nô-lo empeçam,
- De teu pai as notícias não me fias!”
- E ele: “A verdade, minha mãe, te exponho.
- A Pilos navegamos; recebeu-me
- O maioral Gerênio, como a filho
- De fresco vindo ao lar pós longos anos,
- E houve-se amiga a sua ilustre prole.
- De Ulisses nada ouviu; mas num seu carro
- A Menelau me fui, com quem vi junta
- Helena, a causa de fatais horrores.
- De ir à divina Esparta o régio Atrida
- Perguntou-me a razão: contei-lhe tudo.
- Indignado o valente: “Hui! vis imbeles
- De um guerreiro completo ao leito aspiram!
- Se de mama os cervatos mete em pouso
- De um leão cerva incauta, e ao vale ou bosque
- Vai pascer, no covil os traga a fera:
- É como os tragará na volta Ulisses.
- Permiti que se mostre aos pretendentes,
- Ó Jove, Palas, Febo, como em Lesbos,
- Quando ao provocador Filomelides
- Prostrou na luta, com prazer dos Gregos:
- A boda em breve acerba lhes seria.
- Dir-te-ei sem rebuço o que me imploras:
- Descobriu-me o veraz marinho velho
- Que em pranto o vira, e que o retém Calipso;
- Que dessa ilha, sem baixel nem vogas,
- Romper o dorso equóreo não podia. —
- Assim de Menelau sendo informado,
- Cá regressando, com favônias auras
- Conduziram-me a Ítaca os Supremos.”
- Comovida Penélope, exclamou-lhe
- Teoclímeno vate: “Ó veneranda
- Mulher de Ulisses, muito ignora o filho;
- A profecia escuta: a Jove atesto,
- A mesa hospitaleira, a que me asila
- Casa do forte herói, que já na pátria,
- Ou quedo ou serpeando, ora o castigo
- Traça do mal. Telêmaco os agouros
- Que observei no baixel, presente os soube.”
- A quem Penélope: “Oxalá se cumpram!
- De mim terás penhores de amizade,
- Que hão de, hóspede, aclamar-te venturoso.”
- Ao pórtico, entretanto, os pretendentes,
- N’área onde a contumélia exercitavam,
- A disco e a dardo se entretêm jogando.
- Já do pastio as greis se recolhiam,
- E admitido aos festins, Médon graceja:
- “De jogos basta, ó jovens, ao banquete;
- A seu tempo um jantar é bem cabido.”
- Entram; pousando os mantos em poltronas,
- Para o convívio imolam gordos porcos,
- Ovelhas, cabras e armental novilha.
- Ir do campo à cidade se dispunham
- Ulisses e o pastor, que diz primeiro:
- “Por guarda, hóspede, aqui te aceitaria;
- Mas, prescreve-o Telêmaco, partamos,
- Se é teu desejo: de um senhor me custam
- Repreensões e ameaças. A caminho;
- O dia aumenta, e esfriará de tarde.”
- Presto Ulisses: “Recordo-me e compreendo
- Vamos, tu me dirige; um bordão corta
- Em que me apoie na escabrosa rota.”
- E o remendado alforje por seus loros
- Às costas prende. O maioral porqueiro,
- Fornecido o bordão, fiando a casa
- Aos bons servos e aos cães, vai conduzindo
- E sustendo seu rei, que parecia
- Decrépito mendigo esfarrapado.
- Já, por áspera via, à fonte chegam
- De alvo cristal, de que a cidade bebe,
- Construída por Ítaco, primeiro,
- Nérito e Politor, bosque o circula
- De uns aquáticos choupos; frio o arroio
- Da penha rui; tem ara as ninfas no alto,
- Em que todo o viandante sacrifica.
- De Dólio o filho os encontrou, Melanto
- Que ia, com dous zagais, levar aos procos
- Do cabrum gado a flor. Minaz, ao vê-los,
- Ao Laércio pungiu com seus doestos:
- “Um mau leva outro mau; deus há que sempre
- Une os iguais. Aonde, ó vil porqueiro,
- Guias esse glutão, das mesas peste,
- Que aos portais gaste os ombros, não caldeiras,
- Armas não, sim migalhas pedinchando?
- Venha dos meus currais para vigia,
- Expurgue o lixo, traga aos chibos folhas;
- Beberá soro e criará panturra.
- Mas, vadio chapado e mestre em vícios,
- Trêmulo a escorregar por entre o povo,
- Quer encher o bandulho insaciável.
- Se ele aos paços reais, eu to asseguro,
- Do grande Ulisses for, de mãos nervosas
- À cabeça, voando-lhe escabelos,
- Tem de a partir, moê-lo ou derreá-lo.”
- Na perna eis louco um pontapé lhe senta:
- Firme Ulisses da trilha nem se arreda;
- Cogita se a cajado o estire e acabe,
- Ou se o erga e no chão lhe esmague a testa;
- Mas coíbe-se e atura. Eumeu rebenta,
- Alça as palmas a orar: “De Jove ó Náiades,
- Se de anhos e cabritos coxas pingues
- Ulisses te queimou, torne, eu vos rogo,
- E um deus nô-lo encaminhe! A ti, cabreiro,
- Dissipavam-se os fumos com que arruas,
- A zagais incumbindo o pobre gado.”
- E Melanto: “Hui! que rosna o cão matreiro?
- Olha, que, em negra nau socado, ao longe
- Não vão por mantimentos escambar-te.
- Assim, de Apolo às frechas ou dos procos
- Hoje aos golpes, Telêmaco sucumba,
- Como é perdido para sempre Ulisses.”
- Então ambos deixou, que lentos andam,
- E em casa do senhor sem mora entrado,
- Põe-se em face de Eurimaco, de todos
- O seu maior amigo; os moços carne,
- Pão lhe abastece a ecônoma. Os dous chegam,
- Ouvem cantar ao som da lira Fêmio;
- Toma Ulisses a destra e ao pastor fala:
- “O palácio real este é suponho;
- Entre os mais facilmente se distingue,
- Por seus andares, átrios, muro e ameias,
- E bífores portões inexpugnáveis:
- Que se está num banquete o nidor mostra;
- Mostra a lira, às funções divino adorno.”
- Tu respondeste, Eumeu: “Não lerdo, amigo,
- Em tudo acertas. Consultemos: queres
- Primeiro oferecer-te, eu cá ficando;
- Ou ficar, entrando eu? Resolve, e presto;
- Se fora alguém te vir, talvez te espanque
- E te repulse.” — E o paciente Ulisses:
- “Percebo o que ponderas. Vai, que é tempo;
- Suportar sei feridas e pancadas:
- Afeito à guerra e às ondas e a reveses,
- Por estes passarei. Mas, não to escondo,
- Conselheira do mal urge-me a fome,
- A fome, que entre vagas furibundas,
- Armadas leva contra alheias terras.”
- Aqui, deitado um cão, de orelhas tesas
- A cabeça levanta, Argos tem nome:
- Hoje langue, e o nutria o próprio Ulisses,
- Antes que se embarcasse. Costumava
- Lebres caçar e corças e veados;
- Ora de bois e mus no esterco o deixam,
- Que às portas se amontoa, enquanto os servos
- Para estrume da lavra o não carregam.
- Jazia ali de carrapatos cheio,
- E meigo, assim que a seu senhor fareja,
- As orelhas bulindo, agita o rabo;
- Mas não pôde acercar-se. O bom Laércio
- Uma lágrima enxuga às escondidas,
- E questiona o pastor: “Um cão tão belo
- Pasmo que esteja, Eumeu, nesse monturo;
- Talvez, com tanto garbo, ágil não fosse,
- E à mesa por formoso é que o tratavam.”
- “É do herói, dis Eumeu, roubado à pátria!
- Pasmaras sim, ligeiro e forte e guapo
- Se fosse qual no tempo era de Ulisses:
- O animal dele visto, ou rastejado,
- Não lhe escapava em brenha ou fundo vale.
- Morto meu amo, enfermo e débil Argos,
- Negligentes mulheres nunca o pensam:
- Do senhor quando a voz não soa, escravos
- Furtam-se a obrigações. O Altitonante
- Metade anula da virtude ao homem
- Que a triste luz da servidão respira.”
- Argos nesse momento, após vinte anos
- Seu dono a contemplar, morreu de gosto.
- Eumeu vai-se direito aos feros procos;
- No atravessar, Telêmaco lhe acena;
- Ele, em circuito olhando, um banco puxa,
- O do trinchante cozinheiro, e em face
- Do príncipe repousa. O arauto à mesa
- Traz-lhe pão do açafate e o seu conduto.
- Curvo ao bastão se arrima e surde Ulisses,
- Como um rafado esquálido mendigo;
- Dentro ao fraxíneo limiar descansa,
- No umbral cuprésseo encosta-se, que destro
- Esquadrara e polira um carpinteiro.
- Sólido um pão Telêmaco tomando,
- E nas mãos quanta carne lhe cabia:
- “Do hóspede, Eumeu, lhe disse, o quinhão leves;
- Ele esmole depois da sala em torno:
- A vergonha a pedintes é nociva.”
- Do hóspede Eumeu de pronto se aproxima:
- “Este quinhão Telêmaco te manda;
- Quer pelos circunstantes que mendigues:
- A vergonha a pedintes é nociva.”
- Sem demora o prudente: “O rei Satúrnio
- A Telêmaco adite, e lhe conceda
- O que tem no desejo!” —Aceita Ulisses
- A mãos ambas os dons, que aos pés coloca
- Sobre o indecente alforje; enquanto come,
- Fêmio divino à cítara cantava.
- Cessa a música, e os procos tumultuam.
- Ao Laércio apropinqua-se Minerva,
- A exortá-lo a pedir aos pretendentes,
- A conhecer qual duro ou justo fosse,
- Bem que a nenhum exima do castigo.
- A mão pela direita ia estendendo,
- Como vero mendigo; os mais piedosos
- Dão-lhe, quem era atônitos indagam.
- Melanto os interrompe: “Ó da rainha
- Dignos amantes, eu não sei quem seja,
- Bem que visse o porqueiro a dirigi-lo.”
- Minaz Antino contra Eumeu dispara:
- “Aqui, pastor famoso, o endereçaste?
- Os desmancha-prazeres já não bastam
- Que esta cidade infestam? poucos julgas
- E à mesa de teu amo esse outro queres?”
- Tu retorquiste, Eumeu: “Bom és, Antino,
- E não discorres bem. Que homem convida
- Vindiço algum sem préstimo e sem arte?
- Um médico, um profeta, um marceneiro,
- Um deleitoso músico divino,
- Estes granjeia e atrai a imensa terra;
- Mas ninguém chama um comedor inútil.
- Aos servos és de Ulisses o mais duro,
- Mormente a mim: que importa? eu nada temo,
- Enquanto aqui Penélope sisuda
- E o divinal Telêmaco viverem.”
- Telêmaco ajuntou: “Cala, és sobejo
- Em responder. Com chascos sempre irrita,
- Provocando a imitá-lo os companheiros.”
- E então virou-se: “Antino, como o filho
- Me governas, meu hóspede enxotando:
- Um nume o não permita. A mal não tenho,
- Amo à larga lhe dês; perde o receio
- De minha mãe, dos servos desta casa.
- Mas um tal pensamento nem te ocorre:
- Comer sem repartir é teu cuidado.”
- Replicou ele: “Altíloquo Telêmaco,
- Soberbo destemperas? Dessem-lhe outros
- Como darei, que ao menos por três luas
- Daqui se iria.” Então levanta e mostra
- O escabelo que estava aos pés luzidos.
- De carne e pães o alforge os mais lhe enchiam.
- Ei-io à soleira a desfrutar se volta
- As esmolas dos Gregos; junto pára
- De Antino e clama: “Tem piedade, amigo;
- Não te creio o pior, no aspecto régio
- Vê-se que és maioral: dá mais que os outros,
- E hei de louvar-te pela imensa terra.
- Já ditoso habitei palácio altivo,
- E acolhi peregrinos e indigentes;
- Servos em cópia tive, e a pompa toda
- Com que os mortais se inculcam venturosos.
- Quis Júpiter porém, para meu dano,
- Que ao rio Egito eu fosse com piratas:
- Mantenho a bordo a gente, e as naus em seco,
- Despacho exploradores. Estes néscios,
- A impulsos do apetite, agros talando,
- Matam, mulheres e crianças preiam;
- Mas, ao rumor, de madrugada acorrem
- Éqüites e peões erifulgentes
- A juncar a campina, e o Fluminante
- Medo incutindo aos meus, nenhum resiste:
- Cercados sendo, a bronze agudo expiram,
- E é reduzido o resto a cativeiro.
- Ao rei Dmétor Iáside fui dado,
- Que transportou-me a Chipre onde imperava:
- Dali vim cá, passando horríveis transes.”
- Torvo Antino: “Que peste um deus nos trouxe!
- Desta mesa te aparta, ao meio tem-te:
- Olha outro Egito e Chipre não te amarguem.
- Descarado mendigo, a sala corres,
- E cada qual, nadando na abundância,
- Do alheio às cegas e sem dó largueia.”
- E afastando-se Ulisses: “Hui! não quadra
- Com teu desplante o siso: à tua porta
- Mesmo sal a um pedinte recusaras,
- Tu que do alheio na abundância nadas,
- E um pedaço de pão sem dó me negas.”
- De cólera abafado, o encara Antino:
- “Já que insultos proferes, fico-te ora
- Que não saias daqui sem vitupério.”
- E despede o escabelo, que lhe apanha
- Do ombro direito a ponta: firme rocha,
- Do tiro zomba, tácito a cabeça
- Meneia e urde vingar-se. Ao portal volve
- Com seu provido alforje: “Amantes, clama,
- Da grã rainha, est’alma vos descubro:
- Mágoa e opróbio não é feridos sermos
- Em defensa dos bens e bois e ovelhas;
- Mas Antino feriu-me, porque a fome,
- Causa de infindos males, me atormenta.
- Se o pobre é caro aos numes e às Erínies,
- Antes do seu noivado a morte o sorva!”
- E o filho de Eupiteu: “Come tranqüilo,
- Ou mosca-te, importuno, antes que os servos
- Por mão ou pé rojando-te, insolente,
- Retalhem-te esse corpo.” — Os mais se indignam,
- E um diz: “Por que esse mísero maltratas?
- Nume será talvez: que em trajo os numes
- De peregrinos as cidades vagam,
- Mil formas revestindo e inspecionando
- A dos homens justiça ou petulância.”
- Ele surdo mofafa; mas seu golpe
- A Telêmaco no íntimo doía,
- Que mudo, a ruminar, também meneia,
- Sem verter uma lágrima, a cabeça.
- Ouviu dentro Penélope o sucesso,
- E imprecou: “Tal o fira o arqueiro Apolo!”
- Mas a ecônoma Eurinoma: “Valessem
- Pragas nossas, que um só do rubro eôo
- Não reveria o coche.” E inda a senhora:
- “Maus, ama, todos são, maquinam todos;
- Porém Antino iguala a nera Parca.
- Da penúria impelido, um miserável
- Pedia esmola: os príncipes lha davam;
- Ele o escabelo à espádua arremessou-lhe.”
- Ceava o herói; na câmara entre as servas
- Desabafa Penélope, e chamado,
- Ao bom pastor ordena: “Eumeu divino,
- Aqui venha teu hóspede informar-me,
- Pois ter parece errado pelo mundo,
- Se viu, se há novas do sofrido Ulisses.”
- A quem Eumeu: “Deixassem-te, ó rainha,
- Os Aquivos silentes escutá-lo,
- Para no imo folgares! De um navio
- Em meu teto abrigou-se, e por três noites
- E três dias narrou seus infortúnios,
- Se todos memorar. Quando um poeta
- Canta inspirado e cessa o doce canto,
- Que o repita anelamos: tal na choça
- Me aconteceu. Inculca-se de Ulisses,
- Paterno amigo, da Minóia Creta;
- Que veio cá ludíbrio da fortuna;
- Que dos Tesprotes soube que opulento
- Já teu marido à pátria se encaminha.”
- “Pois tudo me refira, insta a senhora.
- Eles ao pórtico e na sala jogam;
- Porque poupam seus víveres, a servos
- Só nutrindo, e em banquetes nesta casa
- Diariamente à grande nos consomem
- Cabras e ovelhas, bois e ardente vinho.
- Falta varão que ensine esses intrusos;
- Ulisses nos ressurja, e incontinenti
- Punirá com seu filho audácia tanta.”
- Nisto, espirra Telêmaco, estrondando
- Em redor; a mãe solta uma risada:
- “Vai pelo hóspede, Eumeu. Sentiste agora
- O espirro de meu filho às vozes minhas?
- É que infalível morte os cerca todos.
- Se o teu mendigo, na memória o imprimas
- Falar verdade, espere bons vestidos.”
- Apressou-se o pastor: “Hóspede padre,
- Quer-te a mãe de Telêmaco sisuda
- Inquirir do marido, angustiada.
- Sê franco, e a roupa ganharás precisa,
- Capa e túnica: o pão, que mate a fome,
- A quem quer pedirás de porta em porta.”
- “Nua a verdade, Eumeu, responde Ulisses ,
- Vou revelar à comedida Icária:
- Dele sei tudo, e padecemos juntos.
- Receio o ruim tropel dos pretendentes,
- Cuja violência o férreo céu penetra:
- Um com cego furor, pouco há, vibrou-me
- Golpe que me doeu; nenhum dos outros,
- Nem Telêmaco, obstou. Portanto, amoestes
- A conter-se a rainha até Sol posto;
- Ao depois, do marido me interrogue,
- Sentada ao lar: primeiro eu supliquei-te;
- Rotas as vestes, bem conheces, tenho.”
- Volta o pastor, e ao limiar Penélope:
- “Que é dele, Eumeu? que pensa? há de alguém medo,
- Ou da casa vergonha? Ai do pedinte
- Mui fácil em vexar-se!” — E Eumeu: “Rainha,
- Falou como o fizera o de mais tino,
- Os prepotentes príncipes receia;
- Roga-te paciência até Sol posto.
- Conversardes a sós é preferível.”
- Penélope acudiu: “Quem quer que seja,
- Lerdo não é. Convenho tais perfídias
- Nunca os maiores monstros intentaram.”
- O divino pastor, isto acabado,
- Aos demais se reúne, e a fronte inclina
- Em voz baixa a Telêmaco advertindo:
- “Ó dileto a cuidar me vou dos porcos,
- Dos teus bens e dos meus. Tem cobro em tudo,
- E vigia-te e guarda: o mal projetam
- Ímpios, a quem primeiro o Céu castigue!”
- “Sim, pai, torna o mancebo acautelado.
- Anda, merenda, a noite não te apanhe;
- De manhã traze as reses do costume.
- O mais fica a meu cargo e dos Supremos.”
- Senta-se Eumeu de novo, e bebe e come,
- Do recinto saindo, a casa deixa
- Plena de comensais, que, ao vir a tarde,
- A dançar e a cantar se divertiam.