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OdisseiaLivro XVII
LivroXVII

Calça Telêmaco, ao raiar da aurora

464 versos · 8 notas do tradutor


  1. Calça Telêmaco, ao raiar da aurora,
  2. Belas sandálias, forte lança adapta:
  3. “Irmão, disse o pastor, corro açodado;
  4. Sem que me veja minha mãe, duvido
  5. Que ela suspenda o lagrimoso luto.
  6. Nosso hóspede infeliz, eu to prescrevo,
  7. Guia à cidade; ali seu pão mendigue,
  8. Nem faltará quem dê: com tantas penas,
  9. É-me impossível sustentar a todos.
  10. Não se agrave, é pior; praz-me a franqueza.”
  11. E ele: “Nem quero me deter no campo;
  12. Melhor, amigo, esmola-se nas ruas.
  13. De útil ser aos currais não sou na idade,
  14. Nem de curvar-me em tudo à voz de um chefe.
  15. Anda; irei com teu servo, assim que ao fogo
  16. Me aqueça e alteie o Sol: com tais vestidos,
  17. Longa a via se diz, o orvalho temo.”
  18. Do Laércio o querido veloz parte,
  19. Semeando na mente o mal dos procos.
  20. Chegado, a uma coluna encosta a lança
  21. Entra o portal marmóreo: é visto logo
  22. Da ama Euricléia, que em dedáleos tronos
  23. As peles estendia, e vem chorando;
  24. Beijam-lhe em torno as mais a testa e os ombros.
  25. Sai, de Artêmide igual e da áurea Vênus,
  26. Da câmara Penélope, a seu filho
  27. Consigo estreita, o rosto e pulcros olhos
  28. Terna lhe oscula, e suspirando geme:
  29. “Eis-te, meu doce lume! não mais ver-te
  30. Cria, dês que a saber do pai notícias,
  31. Oculto e a meu pesar, te foste a Pilos.
  32. Conta-me o que passaste.” — “Ó mãe, responde,
  33. Livre eu do risco, o pranto não me excites.
  34. Lava e de limpas vestes cinge o corpo;
  35. Com tuas servas monta, aos numes vota,
  36. Vingue-me Jove, inteiras hecatombes.
  37. À praça irei chamar um forasteiro
  38. Que também embarcou-se, e adiante veio
  39. Com meus divos consócios; no ausentar-me,
  40. A Pireu confiei sua hospedagem.”
  41. Vozes tais sem efeito não voaram:
  42. A mãe lava-se e veste, aos numes vota,
  43. Se o vingar Jove, inteiras hecatombes.
  44. Atrás com dous alãos e em punho a lança
  45. Graça divina a lhe infundir Minerva,
  46. No garbo o admira o povo; em roda os procos,
  47. Traição n’alma incubando, o lisonjeiam.
  48. Ele se afasta, e ao pé de amigos velhos
  49. De Ulisses vai sentar-se, de Haliterses,
  50. E de Antifo e Mentor, que o interrogam.
  51. O lanceiro Pireu pela cidade
  52. O hóspede guia ao foro, e a poucos passos
  53. A Telêmaco diz, que os topa e encara:
  54. “De minha casa aqueles dons, amigo,
  55. Manda buscar.” — Telêmaco responde:
  56. “O que será, Pireu, nós ignoramos.
  57. Se matam-me em segredo e o meu partilham,
  58. Goza esses dons, não eles; se triunfo,
  59. Então ledo a mim ledo os restituas.”
  60. Do hóspede miserando aqui se apossa,
  61. Condu-lo ao seu magnífico aposento;
  62. E, em poltronas e escanos posto o fato,
  63. Banham-se em lisas tinas; das criadas
  64. Sendo ungidos e envoltos em felpudas
  65. Moles capas e túnicas macias,
  66. Recostam-se em camilhas. Qual das servas
  67. Água lhes verte às mãos, qual mesa limpa
  68. Desdobra; a despenseira atenciosa
  69. Traz com pão reservadas iguarias.
  70. Senta-se a mãe junto ao pilar defronte,
  71. Um volve tênue purpurino fuso.
  72. Refeitos já, Penélope queixou-se:
  73. “Ao toro, filho, subirei viúva,
  74. Quem lágrimas ensopo desde a empresa
  75. Letal, e antes que intrusos nô-lo empeçam,
  76. De teu pai as notícias não me fias!”
  77. E ele: “A verdade, minha mãe, te exponho.
  78. A Pilos navegamos; recebeu-me
  79. O maioral Gerênio, como a filho
  80. De fresco vindo ao lar pós longos anos,
  81. E houve-se amiga a sua ilustre prole.
  82. De Ulisses nada ouviu; mas num seu carro
  83. A Menelau me fui, com quem vi junta
  84. Helena, a causa de fatais horrores.
  85. De ir à divina Esparta o régio Atrida
  86. Perguntou-me a razão: contei-lhe tudo.
  87. Indignado o valente: “Hui! vis imbeles
  88. De um guerreiro completo ao leito aspiram!
  89. Se de mama os cervatos mete em pouso
  90. De um leão cerva incauta, e ao vale ou bosque
  91. Vai pascer, no covil os traga a fera:
  92. É como os tragará na volta Ulisses.
  93. Permiti que se mostre aos pretendentes,
  94. Ó Jove, Palas, Febo, como em Lesbos,
  95. Quando ao provocador Filomelides
  96. Prostrou na luta, com prazer dos Gregos:
  97. A boda em breve acerba lhes seria.
  98. Dir-te-ei sem rebuço o que me imploras:
  99. Descobriu-me o veraz marinho velho
  100. Que em pranto o vira, e que o retém Calipso;
  101. Que dessa ilha, sem baixel nem vogas,
  102. Romper o dorso equóreo não podia. —
  103. Assim de Menelau sendo informado,
  104. Cá regressando, com favônias auras
  105. Conduziram-me a Ítaca os Supremos.”
  106. Comovida Penélope, exclamou-lhe
  107. Teoclímeno vate: “Ó veneranda
  108. Mulher de Ulisses, muito ignora o filho;
  109. A profecia escuta: a Jove atesto,
  110. A mesa hospitaleira, a que me asila
  111. Casa do forte herói, que já na pátria,
  112. Ou quedo ou serpeando, ora o castigo
  113. Traça do mal. Telêmaco os agouros
  114. Que observei no baixel, presente os soube.”
  115. A quem Penélope: “Oxalá se cumpram!
  116. De mim terás penhores de amizade,
  117. Que hão de, hóspede, aclamar-te venturoso.”
  118. Ao pórtico, entretanto, os pretendentes,
  119. N’área onde a contumélia exercitavam,
  120. A disco e a dardo se entretêm jogando.
  121. Já do pastio as greis se recolhiam,
  122. E admitido aos festins, Médon graceja:
  123. “De jogos basta, ó jovens, ao banquete;
  124. A seu tempo um jantar é bem cabido.”
  125. Entram; pousando os mantos em poltronas,
  126. Para o convívio imolam gordos porcos,
  127. Ovelhas, cabras e armental novilha.
  128. Ir do campo à cidade se dispunham
  129. Ulisses e o pastor, que diz primeiro:
  130. “Por guarda, hóspede, aqui te aceitaria;
  131. Mas, prescreve-o Telêmaco, partamos,
  132. Se é teu desejo: de um senhor me custam
  133. Repreensões e ameaças. A caminho;
  134. O dia aumenta, e esfriará de tarde.”
  135. Presto Ulisses: “Recordo-me e compreendo
  136. Vamos, tu me dirige; um bordão corta
  137. Em que me apoie na escabrosa rota.”
  138. E o remendado alforje por seus loros
  139. Às costas prende. O maioral porqueiro,
  140. Fornecido o bordão, fiando a casa
  141. Aos bons servos e aos cães, vai conduzindo
  142. E sustendo seu rei, que parecia
  143. Decrépito mendigo esfarrapado.
  144. Já, por áspera via, à fonte chegam
  145. De alvo cristal, de que a cidade bebe,
  146. Construída por Ítaco, primeiro,
  147. Nérito e Politor, bosque o circula
  148. De uns aquáticos choupos; frio o arroio
  149. Da penha rui; tem ara as ninfas no alto,
  150. Em que todo o viandante sacrifica.
  151. De Dólio o filho os encontrou, Melanto
  152. Que ia, com dous zagais, levar aos procos
  153. Do cabrum gado a flor. Minaz, ao vê-los,
  154. Ao Laércio pungiu com seus doestos:
  155. “Um mau leva outro mau; deus há que sempre
  156. Une os iguais. Aonde, ó vil porqueiro,
  157. Guias esse glutão, das mesas peste,
  158. Que aos portais gaste os ombros, não caldeiras,
  159. Armas não, sim migalhas pedinchando?
  160. Venha dos meus currais para vigia,
  161. Expurgue o lixo, traga aos chibos folhas;
  162. Beberá soro e criará panturra.
  163. Mas, vadio chapado e mestre em vícios,
  164. Trêmulo a escorregar por entre o povo,
  165. Quer encher o bandulho insaciável.
  166. Se ele aos paços reais, eu to asseguro,
  167. Do grande Ulisses for, de mãos nervosas
  168. À cabeça, voando-lhe escabelos,
  169. Tem de a partir, moê-lo ou derreá-lo.”
  170. Na perna eis louco um pontapé lhe senta:
  171. Firme Ulisses da trilha nem se arreda;
  172. Cogita se a cajado o estire e acabe,
  173. Ou se o erga e no chão lhe esmague a testa;
  174. Mas coíbe-se e atura. Eumeu rebenta,
  175. Alça as palmas a orar: “De Jove ó Náiades,
  176. Se de anhos e cabritos coxas pingues
  177. Ulisses te queimou, torne, eu vos rogo,
  178. E um deus nô-lo encaminhe! A ti, cabreiro,
  179. Dissipavam-se os fumos com que arruas,
  180. A zagais incumbindo o pobre gado.”
  181. E Melanto: “Hui! que rosna o cão matreiro?
  182. Olha, que, em negra nau socado, ao longe
  183. Não vão por mantimentos escambar-te.
  184. Assim, de Apolo às frechas ou dos procos
  185. Hoje aos golpes, Telêmaco sucumba,
  186. Como é perdido para sempre Ulisses.”
  187. Então ambos deixou, que lentos andam,
  188. E em casa do senhor sem mora entrado,
  189. Põe-se em face de Eurimaco, de todos
  190. O seu maior amigo; os moços carne,
  191. Pão lhe abastece a ecônoma. Os dous chegam,
  192. Ouvem cantar ao som da lira Fêmio;
  193. Toma Ulisses a destra e ao pastor fala:
  194. “O palácio real este é suponho;
  195. Entre os mais facilmente se distingue,
  196. Por seus andares, átrios, muro e ameias,
  197. E bífores portões inexpugnáveis:
  198. Que se está num banquete o nidor mostra;
  199. Mostra a lira, às funções divino adorno.”
  200. Tu respondeste, Eumeu: “Não lerdo, amigo,
  201. Em tudo acertas. Consultemos: queres
  202. Primeiro oferecer-te, eu cá ficando;
  203. Ou ficar, entrando eu? Resolve, e presto;
  204. Se fora alguém te vir, talvez te espanque
  205. E te repulse.” — E o paciente Ulisses:
  206. “Percebo o que ponderas. Vai, que é tempo;
  207. Suportar sei feridas e pancadas:
  208. Afeito à guerra e às ondas e a reveses,
  209. Por estes passarei. Mas, não to escondo,
  210. Conselheira do mal urge-me a fome,
  211. A fome, que entre vagas furibundas,
  212. Armadas leva contra alheias terras.”
  213. Aqui, deitado um cão, de orelhas tesas
  214. A cabeça levanta, Argos tem nome:
  215. Hoje langue, e o nutria o próprio Ulisses,
  216. Antes que se embarcasse. Costumava
  217. Lebres caçar e corças e veados;
  218. Ora de bois e mus no esterco o deixam,
  219. Que às portas se amontoa, enquanto os servos
  220. Para estrume da lavra o não carregam.
  221. Jazia ali de carrapatos cheio,
  222. E meigo, assim que a seu senhor fareja,
  223. As orelhas bulindo, agita o rabo;
  224. Mas não pôde acercar-se. O bom Laércio
  225. Uma lágrima enxuga às escondidas,
  226. E questiona o pastor: “Um cão tão belo
  227. Pasmo que esteja, Eumeu, nesse monturo;
  228. Talvez, com tanto garbo, ágil não fosse,
  229. E à mesa por formoso é que o tratavam.”
  230. “É do herói, dis Eumeu, roubado à pátria!
  231. Pasmaras sim, ligeiro e forte e guapo
  232. Se fosse qual no tempo era de Ulisses:
  233. O animal dele visto, ou rastejado,
  234. Não lhe escapava em brenha ou fundo vale.
  235. Morto meu amo, enfermo e débil Argos,
  236. Negligentes mulheres nunca o pensam:
  237. Do senhor quando a voz não soa, escravos
  238. Furtam-se a obrigações. O Altitonante
  239. Metade anula da virtude ao homem
  240. Que a triste luz da servidão respira.”
  241. Argos nesse momento, após vinte anos
  242. Seu dono a contemplar, morreu de gosto.
  243. Eumeu vai-se direito aos feros procos;
  244. No atravessar, Telêmaco lhe acena;
  245. Ele, em circuito olhando, um banco puxa,
  246. O do trinchante cozinheiro, e em face
  247. Do príncipe repousa. O arauto à mesa
  248. Traz-lhe pão do açafate e o seu conduto.
  249. Curvo ao bastão se arrima e surde Ulisses,
  250. Como um rafado esquálido mendigo;
  251. Dentro ao fraxíneo limiar descansa,
  252. No umbral cuprésseo encosta-se, que destro
  253. Esquadrara e polira um carpinteiro.
  254. Sólido um pão Telêmaco tomando,
  255. E nas mãos quanta carne lhe cabia:
  256. “Do hóspede, Eumeu, lhe disse, o quinhão leves;
  257. Ele esmole depois da sala em torno:
  258. A vergonha a pedintes é nociva.”
  259. Do hóspede Eumeu de pronto se aproxima:
  260. “Este quinhão Telêmaco te manda;
  261. Quer pelos circunstantes que mendigues:
  262. A vergonha a pedintes é nociva.”
  263. Sem demora o prudente: “O rei Satúrnio
  264. A Telêmaco adite, e lhe conceda
  265. O que tem no desejo!” —Aceita Ulisses
  266. A mãos ambas os dons, que aos pés coloca
  267. Sobre o indecente alforje; enquanto come,
  268. Fêmio divino à cítara cantava.
  269. Cessa a música, e os procos tumultuam.
  270. Ao Laércio apropinqua-se Minerva,
  271. A exortá-lo a pedir aos pretendentes,
  272. A conhecer qual duro ou justo fosse,
  273. Bem que a nenhum exima do castigo.
  274. A mão pela direita ia estendendo,
  275. Como vero mendigo; os mais piedosos
  276. Dão-lhe, quem era atônitos indagam.
  277. Melanto os interrompe: “Ó da rainha
  278. Dignos amantes, eu não sei quem seja,
  279. Bem que visse o porqueiro a dirigi-lo.”
  280. Minaz Antino contra Eumeu dispara:
  281. “Aqui, pastor famoso, o endereçaste?
  282. Os desmancha-prazeres já não bastam
  283. Que esta cidade infestam? poucos julgas
  284. E à mesa de teu amo esse outro queres?”
  285. Tu retorquiste, Eumeu: “Bom és, Antino,
  286. E não discorres bem. Que homem convida
  287. Vindiço algum sem préstimo e sem arte?
  288. Um médico, um profeta, um marceneiro,
  289. Um deleitoso músico divino,
  290. Estes granjeia e atrai a imensa terra;
  291. Mas ninguém chama um comedor inútil.
  292. Aos servos és de Ulisses o mais duro,
  293. Mormente a mim: que importa? eu nada temo,
  294. Enquanto aqui Penélope sisuda
  295. E o divinal Telêmaco viverem.”
  296. Telêmaco ajuntou: “Cala, és sobejo
  297. Em responder. Com chascos sempre irrita,
  298. Provocando a imitá-lo os companheiros.”
  299. E então virou-se: “Antino, como o filho
  300. Me governas, meu hóspede enxotando:
  301. Um nume o não permita. A mal não tenho,
  302. Amo à larga lhe dês; perde o receio
  303. De minha mãe, dos servos desta casa.
  304. Mas um tal pensamento nem te ocorre:
  305. Comer sem repartir é teu cuidado.”
  306. Replicou ele: “Altíloquo Telêmaco,
  307. Soberbo destemperas? Dessem-lhe outros
  308. Como darei, que ao menos por três luas
  309. Daqui se iria.” Então levanta e mostra
  310. O escabelo que estava aos pés luzidos.
  311. De carne e pães o alforge os mais lhe enchiam.
  312. Ei-io à soleira a desfrutar se volta
  313. As esmolas dos Gregos; junto pára
  314. De Antino e clama: “Tem piedade, amigo;
  315. Não te creio o pior, no aspecto régio
  316. Vê-se que és maioral: dá mais que os outros,
  317. E hei de louvar-te pela imensa terra.
  318. Já ditoso habitei palácio altivo,
  319. E acolhi peregrinos e indigentes;
  320. Servos em cópia tive, e a pompa toda
  321. Com que os mortais se inculcam venturosos.
  322. Quis Júpiter porém, para meu dano,
  323. Que ao rio Egito eu fosse com piratas:
  324. Mantenho a bordo a gente, e as naus em seco,
  325. Despacho exploradores. Estes néscios,
  326. A impulsos do apetite, agros talando,
  327. Matam, mulheres e crianças preiam;
  328. Mas, ao rumor, de madrugada acorrem
  329. Éqüites e peões erifulgentes
  330. A juncar a campina, e o Fluminante
  331. Medo incutindo aos meus, nenhum resiste:
  332. Cercados sendo, a bronze agudo expiram,
  333. E é reduzido o resto a cativeiro.
  334. Ao rei Dmétor Iáside fui dado,
  335. Que transportou-me a Chipre onde imperava:
  336. Dali vim cá, passando horríveis transes.”
  337. Torvo Antino: “Que peste um deus nos trouxe!
  338. Desta mesa te aparta, ao meio tem-te:
  339. Olha outro Egito e Chipre não te amarguem.
  340. Descarado mendigo, a sala corres,
  341. E cada qual, nadando na abundância,
  342. Do alheio às cegas e sem dó largueia.”
  343. E afastando-se Ulisses: “Hui! não quadra
  344. Com teu desplante o siso: à tua porta
  345. Mesmo sal a um pedinte recusaras,
  346. Tu que do alheio na abundância nadas,
  347. E um pedaço de pão sem dó me negas.”
  348. De cólera abafado, o encara Antino:
  349. “Já que insultos proferes, fico-te ora
  350. Que não saias daqui sem vitupério.”
  351. E despede o escabelo, que lhe apanha
  352. Do ombro direito a ponta: firme rocha,
  353. Do tiro zomba, tácito a cabeça
  354. Meneia e urde vingar-se. Ao portal volve
  355. Com seu provido alforje: “Amantes, clama,
  356. Da grã rainha, est’alma vos descubro:
  357. Mágoa e opróbio não é feridos sermos
  358. Em defensa dos bens e bois e ovelhas;
  359. Mas Antino feriu-me, porque a fome,
  360. Causa de infindos males, me atormenta.
  361. Se o pobre é caro aos numes e às Erínies,
  362. Antes do seu noivado a morte o sorva!”
  363. E o filho de Eupiteu: “Come tranqüilo,
  364. Ou mosca-te, importuno, antes que os servos
  365. Por mão ou pé rojando-te, insolente,
  366. Retalhem-te esse corpo.” — Os mais se indignam,
  367. E um diz: “Por que esse mísero maltratas?
  368. Nume será talvez: que em trajo os numes
  369. De peregrinos as cidades vagam,
  370. Mil formas revestindo e inspecionando
  371. A dos homens justiça ou petulância.”
  372. Ele surdo mofafa; mas seu golpe
  373. A Telêmaco no íntimo doía,
  374. Que mudo, a ruminar, também meneia,
  375. Sem verter uma lágrima, a cabeça.
  376. Ouviu dentro Penélope o sucesso,
  377. E imprecou: “Tal o fira o arqueiro Apolo!”
  378. Mas a ecônoma Eurinoma: “Valessem
  379. Pragas nossas, que um só do rubro eôo
  380. Não reveria o coche.” E inda a senhora:
  381. “Maus, ama, todos são, maquinam todos;
  382. Porém Antino iguala a nera Parca.
  383. Da penúria impelido, um miserável
  384. Pedia esmola: os príncipes lha davam;
  385. Ele o escabelo à espádua arremessou-lhe.”
  386. Ceava o herói; na câmara entre as servas
  387. Desabafa Penélope, e chamado,
  388. Ao bom pastor ordena: “Eumeu divino,
  389. Aqui venha teu hóspede informar-me,
  390. Pois ter parece errado pelo mundo,
  391. Se viu, se há novas do sofrido Ulisses.”
  392. A quem Eumeu: “Deixassem-te, ó rainha,
  393. Os Aquivos silentes escutá-lo,
  394. Para no imo folgares! De um navio
  395. Em meu teto abrigou-se, e por três noites
  396. E três dias narrou seus infortúnios,
  397. Se todos memorar. Quando um poeta
  398. Canta inspirado e cessa o doce canto,
  399. Que o repita anelamos: tal na choça
  400. Me aconteceu. Inculca-se de Ulisses,
  401. Paterno amigo, da Minóia Creta;
  402. Que veio cá ludíbrio da fortuna;
  403. Que dos Tesprotes soube que opulento
  404. Já teu marido à pátria se encaminha.”
  405. “Pois tudo me refira, insta a senhora.
  406. Eles ao pórtico e na sala jogam;
  407. Porque poupam seus víveres, a servos
  408. Só nutrindo, e em banquetes nesta casa
  409. Diariamente à grande nos consomem
  410. Cabras e ovelhas, bois e ardente vinho.
  411. Falta varão que ensine esses intrusos;
  412. Ulisses nos ressurja, e incontinenti
  413. Punirá com seu filho audácia tanta.”
  414. Nisto, espirra Telêmaco, estrondando
  415. Em redor; a mãe solta uma risada:
  416. “Vai pelo hóspede, Eumeu. Sentiste agora
  417. O espirro de meu filho às vozes minhas?
  418. É que infalível morte os cerca todos.
  419. Se o teu mendigo, na memória o imprimas
  420. Falar verdade, espere bons vestidos.”
  421. Apressou-se o pastor: “Hóspede padre,
  422. Quer-te a mãe de Telêmaco sisuda
  423. Inquirir do marido, angustiada.
  424. Sê franco, e a roupa ganharás precisa,
  425. Capa e túnica: o pão, que mate a fome,
  426. A quem quer pedirás de porta em porta.”
  427. “Nua a verdade, Eumeu, responde Ulisses ,
  428. Vou revelar à comedida Icária:
  429. Dele sei tudo, e padecemos juntos.
  430. Receio o ruim tropel dos pretendentes,
  431. Cuja violência o férreo céu penetra:
  432. Um com cego furor, pouco há, vibrou-me
  433. Golpe que me doeu; nenhum dos outros,
  434. Nem Telêmaco, obstou. Portanto, amoestes
  435. A conter-se a rainha até Sol posto;
  436. Ao depois, do marido me interrogue,
  437. Sentada ao lar: primeiro eu supliquei-te;
  438. Rotas as vestes, bem conheces, tenho.”
  439. Volta o pastor, e ao limiar Penélope:
  440. “Que é dele, Eumeu? que pensa? há de alguém medo,
  441. Ou da casa vergonha? Ai do pedinte
  442. Mui fácil em vexar-se!” — E Eumeu: “Rainha,
  443. Falou como o fizera o de mais tino,
  444. Os prepotentes príncipes receia;
  445. Roga-te paciência até Sol posto.
  446. Conversardes a sós é preferível.”
  447. Penélope acudiu: “Quem quer que seja,
  448. Lerdo não é. Convenho tais perfídias
  449. Nunca os maiores monstros intentaram.”
  450. O divino pastor, isto acabado,
  451. Aos demais se reúne, e a fronte inclina
  452. Em voz baixa a Telêmaco advertindo:
  453. “Ó dileto a cuidar me vou dos porcos,
  454. Dos teus bens e dos meus. Tem cobro em tudo,
  455. E vigia-te e guarda: o mal projetam
  456. Ímpios, a quem primeiro o Céu castigue!”
  457. “Sim, pai, torna o mancebo acautelado.
  458. Anda, merenda, a noite não te apanhe;
  459. De manhã traze as reses do costume.
  460. O mais fica a meu cargo e dos Supremos.”
  461. Senta-se Eumeu de novo, e bebe e come,
  462. Do recinto saindo, a casa deixa
  463. Plena de comensais, que, ao vir a tarde,
  464. A dançar e a cantar se divertiam.

Nota a nota · 8 notas

v. 22–67Da ama Euricléia, que em dedáleos tronos ⋯ Água lhes verte às mãos, qual mesa limpa
Nas obras de Homero nem sempre trono é a cadeira do rei; é as mais das vezes uma poltrona mais ou menos ornada. — Fala aqui, bem como em inumeráveis lugares, de bacia e jarro para se lavarem as mãos: a minha versão é mais resumida, não só para poupar ao leitor enfadonhas repetições, mas porque não falta quem afirme que esta passagem é uma interpolação, e alguns tradutores a suprimiram; ao que não me atrevi, posto que a este respeito ache a crítica não sem fundamento.
↩ voltar à passagem, v. 22
v. 124A seu tempo um jantar é bem cabido.”
Confessa Rochefort que deipnon significa o jantar, ou a comida principal do dia, mas o traduz por festim; porque, diz ele, si au lieu de festin, il y avait diner, qui est le terme propre, le vers deviendrait du genre comique, et ne serait plus du style de l’originel, qui n’a rien de bas ni de plaisant (!) Para mim, jantar não é termo baixo, quando bem empregado; e o lugar é jocoso, pois o arauto Médon, admitido à mesa dos procos, tinha com eles bastante confiança para gracejar e dizer que um bom jantar vinha muito a propósito.
↩ voltar ao verso 124
v. 155–170“Um mau leva outro mau; deus há que sempre ⋯ Na perna eis louco um pontapé lhe senta:
Tudo isto é evidentemente cômico; e muito louvo a diferença de estilo nas cenas várias deste poema, cujo entrecho e andamento não é menos admirável que o da Ilíada. Esforçaram-se tradutores por nobilitar à sua maneira esta passagem, crendo fazer a Homero um serviço; pois eles têm para si que tudo numa epopéia deve ser sublime, ou elevado: o cego de Esmirna pensava de outro modo.
↩ voltar à passagem, v. 155
v. 180A zagais incumbindo o pobre gado.”
Creio, com M. Giguet e outros, que não há neste lugar sentença, ou epifonema: a palavra nomêes decide a questão.
↩ voltar ao verso 180
v. 218–240Ora de bois e mus no esterco o deixam, ⋯ Que a triste luz da servidão respira.”
Ainda hoje, na Suíça por exemplo, ajunta-se o estrume encostado às casas de campo; e quem pensa que dentro são elas imundas, muito se engana, porque ali a maior parte são limpas e asseadas. — No verso 237-238, não se trata de súditos e de reis, como julgam não poucos, sim de senhores e escravos. É sabido que estes nada fazem quando não são instigados: natural defeito a quem trabalha só para outros, sabendo que, por mais que faça, ficará sempre no viltamento; conta como um ganho o furtar-se ao trabalho.
↩ voltar à passagem, v. 218
v. 246–257O do trinchante cozinheiro, e em face
Os que amodernam Homero, distinguem o copeiro do cozinheiro; mas ele nunca fala de copeiro: é sempre uma mulher quem trata ou da copa ou da despensa, e o cozinheiro mesmo estava na sala e servia de trinchante. Ainda hoje, nas Índias Orientais, o cozinheiro é recebido com certas honras, e aparece no fim dos banquetes para colher os aplausos dos convidados. — Os dicionários só trazem esmolar por dar esmolas, posto que também signifique pedir esmolas; o que se vê do seguinte verso dos Mártires de Filinto: “Eles que aos pés dos grandes o ouro esmolam.”
↩ voltar à passagem, v. 246
v. 345Mesmo sal a um pedinte recusaras,
No Maranhão, na minha meninice ainda se dizia que a ninguém se deve negar água, sal e fogo; mas por fogo não entendiam o combustível, porém, somente o lume necessário para acender a candeia do vizinho, pois nesse tempo não era geral o uso das mechas. Isto nos veio de Portugal, segundo se colhe de Tolentino e de Ferreira na sua comédia do Cioso.
↩ voltar ao verso 345
v. 414Nisto, espirra Telêmaco, estrondando
O espirrar, entre os antigos, era um sinal próspero; ao depois, foi de mau agouro. Não quis Rochefort traduzir esta passagem, e sacrificou o dever de representar uma preocupação de que fala o autor, à suposta nobreza de estilo, que tanto o amofinava.
↩ voltar ao verso 414
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