Já no vale da grão Lacedemônia
649 versos · 7 notas do tradutor
- Já no vale da grão Lacedemônia,
- Em casa o Atrida glorioso encontram
- Com pompa a celebrar do filho as núpcias
- E as da filha sem pecha. Em leves carros
- Ia enviá-la à Mirmidônia corte,
- Ao do Rompe-esquadrões herdeiro Pirro,
- De Ílio cumprindo o juramento sacro.
- Do Espartano Aléctor une uma virgem
- Ao forte Megapentes, que uma escrava
- N’ausência lhe pariu: de Helena prole
- O Céu não lhe outorgou, depois da amável
- Hermíone, rival da loura Vênus.
- No amplo alcáçar opíparo convívio
- Deleita a cidadãos e a forasteiros,
- À lira canta um músico divino,
- Dous bailadores a compasso pulam;
- Mas o coche ao vestíbulo e o Nestório
- E Telêmaco estão. Pajem do Atrida,
- O bravo Eteoneu, que os observava,
- De povos ao pastor a informar veio:
- “Dous hóspedes, quiçá de Jove garfos,
- Temos: desatar cumpre a veloz biga,
- Ou mandá-los, senhor, para outro asilo?”
- “Dantes eras, Boétidas, sisudo,
- O flavo rei troou; mas louquejaste,
- Compassível discurso. Ah! quantas vezes
- O pão comi da mesa do estrangeiro!
- De novas aflições me afaste Jove!
- Solta a parelha, os hóspedes convida.”
- Eteoneu chama os fâmulos, que o seguem:
- Aos suados corcéis, do jugo livres,
- Meiam cevada e espelta a manjedoura;
- À parede luzente o carro apoiam;
- Introduzem na régia os peregrinos,
- Régia brilhante como o Sol e a Lua.
- Já farta a vista, em limpa cuba os lavam
- E ungem de óleo as escravas, que, em felpudos
- Albornozes, e túnicas macias,
- Do soberano a par os apoltronam.
- De gomil de ouro às mãos verte uma delas
- Água em bacia argêntea, a mesa lustra,
- Que enche a modesta afável despenseira
- De pães e das presentes iguarias;
- Escudelas de várias novas carnes
- O trinchante apresenta e copos de ouro.
- Dá-lhes a destra e fala Menelau:
- “Comei, saboreais; depois da ceia,
- Saberemos quem sois. De escura estirpe
- Certo não vindes, mas de heróis cetrados:
- Gérmen vil não rebenta em plantas nobres”
- Aqui, tergo bovino assado e gordo.
- Seu quinhão de honra, aos hóspedes oferta,
- Que ao regalado prato as mãos estendem.
- Refeitos já, Telêmaco ao Nestório
- Inclinou-se em voz baixa: “Considera,
- Amigo da minha alma, como ecoa
- E esplende a sala, em bronze, em prata, em ouro,
- Em electro e marfim! Do interno Olimpo
- É tal o adorno imenso: espanta olhá-lo.”
- Menelau, que o percebe, acode: “Filhos,
- Ninguém se iguala a Jove na opulência;
- Eterno é seu palácio. Uns nos haveres
- Superam-me, outros eu: mas que infortúnios
- Oito anos carreguei, vagando os mares!
- Vi Chipre, vi Fenícia, vi o Egito,
- A Etiópia, a Sidônia, Erembos, Líbios;
- Onde aos cordeiros nascem presto os cornos,
- E há três partez a ovelha anualmente:
- Lá senhor nem zagal tem míngua nunca
- De queijo e carnes e mungido leite.
- Enquanto eu cumulava tais riquezas,
- Por dolo da consorte o irmão foi morto,
- E elas na amarga dor não me consolam.
- Ter-vos-ão vossos pais, quem quer que sejam,
- Contado os meus pesares: de Ílio em cinzas
- O precioso espólio os não compensa.
- Com pouco no meu lar me contentava,
- Se incólumes vivesse os que remotos
- Da Argólida ubertosa lá caíram.
- Amiúde, sentado a lamentá-los
- Saudoso verto lágrimas que enxugo,
- Pois viver não podemos de tristezas;
- Porém choro um mormente, e o recordá-lo
- O sono tira-me e o sabor, dos Gregos
- O mais acérrimo e constante, Ulisses.
- Quantas penas o fado reservou-lhe,
- Quantas a mim também na ausência longa
- Se respira ignoramos; e o pranteiam
- O decrépito pai, a honesta esposa,
- Tenro o filho Telêmaco deixado.”
- À lembrança de Ulisses, água chove
- Dos olhos do mancebo, que às mãos ambas
- Esconde-os n’aba do purpúreo manto:
- Menelau o descobre; em si reflete
- Se o deixa declarar-se, ou prosseguindo
- Lho pergunte e se explique. Entanto, Helena
- Do alto assoma camarim fragrante,
- Qual Febe de arco de ouro: Adestra logo
- Chega-lhe uma poltrona, traz-lhe Alcipe
- De lã mole tapete, e Filo o argênteo
- Rico açafate dádiva de Alcandra,
- Mulher de Pólibo, o da Egípcia Tebas,
- Em maravilhas célebre. Houve dele
- O flavo rei de prata duas tinas,
- Duas trípodes e áureos dez talentos;
- Houve de Alcandra Helena roca de ouro,
- De ouro com orlas e redondo embaixo
- O açafate que Filo apresentou-lhe
- De preparado fio, a roca em cima
- E roxa lã. No assento e de escabelo
- Aos pés Helena, a Menelau inquire:
- “De Jove aluno, que hóspedes nos honram?
- Quer acerte, quer não, falar desejo:
- Tanto não vi, de vê-lo estou pasmada,
- Mulher nem homem semelhar-se a outrem!
- Aposto haver Telêmaco ante os olhos,
- De Ulisses ramo, que o deixou de berço,
- Quando magnânimo entre os nobres Graios
- Foi debelar, por minha culpa, Tróia.”
- E o marido: “Consorte, o mesmo cuido.
- As mãos tem dele e pés, cabelo e testa,
- O penetrante olhar; do herói me lembra,
- Do que por mim sofreu, do que inda sofre:
- Há pouco o moço, em lágrimas desfeito,
- No purpurino manto as escondia.”
- Pisístrato ajuntou: “Pastor de povos,
- Ele é sim, que modesto aqui primeiro
- De interpelar se peja a um rei tamanho,
- Cuja encantada voz nos regozija.
- O ancião Nestor mandou-me acompanhá-lo;
- Vem pedir-te ou socorros ou conselho;
- Sendo ausente seu pai, na própria casa
- Ah! padece, e lhe faltam protetores,
- Falta-lhe povo que remova o dano.”
- E o rei: “Que! no meu teto o filho tenho
- De quem por mim correu perigos tantos!
- Sobre os outros heróis o amava eu sempre,
- Se feliz travessia às naus veleiras
- Nos concedesse o próvido Satúrnio.
- Cidade evacuando a mim sujeita,
- Paços lhe erguera, e de Ítaca ele a gente,
- Família e bens à Argólida passava.
- Em contínua aprazível convivência,
- Nada nos separava, antes que a morte
- Nos cobrisse de trevas. Mas o Olímpio
- Tal dita inveja, nega-lhe a tornada.”
- Gera-se um vivo pranto: Helena chora,
- Chora o esposo e Telêmaco; o Nestório,
- Não enxuto, recorda-se de Antíloco,
- Morto às mãos de Mênon da Aurora filho,
- E bradou: “Prudentíssimo aclamar-te
- Nestor em nossas práticas saía;
- Digna-te ouvir meu parecer, Atrida:
- À mesa nunca choros me recreiam,
- Mas na alvorada removê-los cabe;
- Só consagram-se aos míseros defuntos
- Cortada a coma e lágrimas sentidas.
- O irmão perdi também, que reconheces
- Não era o mais imbele: ouvi que a muitos,
- Pois lá não fui, se avantajou garboso
- Velocíssimo Antíloco e bizarro.”
- Atalha o Atrida: “Em obras e palavras
- Prudência inculcas de maduros anos;
- Saíste ao celso pai, querido jovem.
- Fácil o sangue de um mortal se estrema
- A quem ditoso berço e casto leito
- O Satúrnio fadou; como o Nelide,
- Que em velhice pacífica desliza
- Entre guapos herdeiros valorosos.
- Mas suspenda-se o luto; as mãos se lavem,
- Toca a cear. Telêmaco à vontade,
- Raie a manhã, conversará comigo.”
- Água ministra Asfálio, atento servo;
- Deitam-se os convidados às viandas.
- Helena al excogita: anexa ao vinho
- De nepentes porção, que aplaque as iras
- E as tristezas desterre; o que a bebesse
- Não brotava uma lágrima no dia,
- Por mãe nem genitor, irmão nem filho,
- Que visse degolar. De Jove à prole
- Dera bálsamos e ervas Polidana,
- De Fono Egípcia esposa, cuja terra
- Os reproduz saudáveis ou nocivos,
- E onde o médico excede os homens todos
- E de Péon descende. Helena exclama,
- Preparada a poção: “De heróis procedem,
- Sim, divo Menelau; mas poderoso
- Dispensa o Eterno as mágoas e os prazeres.
- Discursando o festim saboreemos;
- De gratas narrações vou deleitar-vos.
- Todas não posso referir proezas
- Do sofrido varão durante o assédio;
- Onde os Aqueus mil transes aturastes;
- Mas uma contarei. De chagas torpes
- E andrajos desfeado, qual mendigo,
- Em Ílio introduziu-se, e em pobre escravo
- Da mesma frota Argiva disfarçou-se.
- Por mim só conhecido, ele às perguntas
- Me quis tergiversar; mas, quando ao banho
- O ungi, vesti-o. e lhe jurei segredo
- Até que aos pavilhões e às naus voltasse,
- Me revelou dos Gregos os projetos.
- Alguns matando à espada, cheio foi-se
- De informações. As Teucras ululavam;
- Eu me alegrei, pois já de novo o peito
- Patrizar me pedia, arrependida
- Sentindo o haver, a impulsos da Cipônia,
- Largado a casa, a filha, o toro, o esposo,
- Que em talento e beleza a ninguém cede.”
- O marido aplaudiu-a: “Sim, consorte,
- Muito hei peregrinado, heróis vi muitos;
- O coração de Ulisses nenhum tinha:
- Paciente, engenhoso, e forte e sábio,
- Quanto ideou, quanta mostrou constância,
- No cavalo artefato, em que os melhores
- Clade e exício aos Trojúgenas levamos!
- Com Deífobo divino ali vieste,
- E em seu favor um nume te inspirava;
- Em três giros, palpaste a cava insídia,
- E com voz da mulher de cada chefe
- Os nomeavas todos. Eu no centro
- E Tidides e Ulisses te escutamos:
- Surdir os dous ou responder quisemos;
- No ímpeto e fogo Ulisses nos conteve.
- Calam-se os mais, ia falar Anticlo;
- Com mãos robustas pertinaz Ulisses
- Lhe aperta a boca, o exército preserva,
- Até que enfim reconduziu-te Palas.”
- Eis Telêmaco: “É duro que as virtudes,
- Sublime rei, da Parca o não livrassem,
- Qual se tivesse um coração de ferro.
- Mandai-nos ora aonde ambos logremos
- As delícias do sono.” — Presto Helena
- Desdobrar faz ao pórtico umas camas
- De almofadas e espessos cobertores
- E purpúreos tapetes: logo as servas
- Aparecem de facho, e tudo aviam;
- Conduz arauto os hóspedes; lá dormem
- O herói Telêmaco e o Nestório egrégio.
- Pernoita Menelau na interna alcova,
- E a mais gentil mulher nos braços dele.
- Do éter gênita, surde a roxa aurora:
- Desperta, veste-se o belaz Atrida;
- Cingindo a espada, as nítidas sandálias
- Calça, e ao pé do Ulisseida vem sentar-se:
- “Que precisão, Telêmaco, rasgado
- O equóreo dorso, te conduz a Esparta?
- É pública ou privada? eia, franqueza.”
- Prudente o moço: “A ti, senhor, pujante,
- Vim para de meu pai colher notícias.
- Enchem-me a casa, arruínam-me a fazenda,
- Matam-me negros bois, e ovelhas pingues
- Os procos de Penélope, vorazes,
- Arrogantes, violentos e importunos.
- Conta-me, eu te suplico, a morte sua,
- Se a viste ou referiu-te um forasteiro.
- Foi no ventre materno à dor votado!
- A minha tu não poupes, nada ocultes;
- E, o caro genitor se em tudo e sempre
- Te era fiel na desastrosa guerra,
- Isso lembre-te agora e não me iludas.”
- O Espartano suspira: “Oh Céus! cobardes
- Ao tálamo aspirar de herói tamanho!
- Se, em covil de leão depondo acaso
- Os filhinhos de mama, o vale e monte
- Lustra a corça a pastar, entrando a fera
- Os esgana cruel: destarte Ulisses
- Lhes dará morte certa. Ele se ostente,
- Ó Jove, Palas, Febo, como em Lestos
- Quando com Filomelides em luta,
- O prostrou com prazer dos bravos Gregos:
- A boda em breve acerba lhe seria.
- Satisfazer-te vou no que me imploras;
- Dir-te-ei sem rebuço quanto arcano
- Aclarou-me o veraz marinho velho.”
- “Os deuses, que nos punem, de olvidá-los,
- Impaciente no Egito me retinham,
- Porque faltei com justas hecatombes.
- Lá Faro surge à flor da azul campina,
- De foz em fora, quanto em singradura
- Marcha popa a que vente aura sonora;
- Tem um porto seguro e boa aguarda,
- E ao pélago os baixéis dali descendem.
- Uns vinte dias, não soprando Eolo,
- Que pelo undoso ponto os nautas leva
- E a planície lhe encrespa, eu demorado,
- Com poucas provisões, lassa a companha,
- Desesperava já, quando Idotéia,
- Do potente Proteu marinha prole,
- Ocorreu compassiva a mim sozinho;
- Que os mais de curvo anzol, do ventre urgidos,
- De toda a ilha em derredor pescavam.
- Acometeu-me a deusa: — “Estulto ou fátuo,
- Ficas-te, hóspede, em mágoas te apascentas,
- E enquanto aqui sem termo estás detido,
- Langue e definha o coração dos sócios.”
- “Ó deusa, contestei, seja qual fores,
- Por meu gosto o não faço, mas suponho
- A celícola algum ter ofendido.
- Ora dize, a imortais é claro tudo,
- Quem assim me proibe o mar piscoso. —
- “Ela ingênua me foi: — Do Egito o velho,
- De Netuno ministro, aqui se aloja,
- Proteu meu pai, que as úmidas entranhas
- Tem sondado e conhece. Há de ensinar-te,
- Se obténs prendê-lo, como a rota sigas,
- E se o queres também, de Jove aluno,
- Os maus ou bons domésticos sucessos
- Durante errores teus no instável pego —
- Eu porém: — Com que insídias surpreendê-lo
- Poderei, sem que fuja ao pressentir-me?
- Não é para mortais vencer a numes. —
- “A guapa ninfa continua: Atende.
- Ao meridiano Sol, do salso abismo,
- Hirtas sobre a cabeça as fuscas ondas,
- Surde o ancião de Zéfiro aos sonidos;
- Numa espelunca dorme, e em torno juntos
- Ápodes focas de Halosidna bela,
- A exalarem ascosa maresia.
- N’alva, hei de colocarte em sítio azado,
- Com três que elejas da valente frota.
- Seus ardis eu te expendo. Cinco a cinco,
- Ronda e enumera as focas, e no meio
- Deita-se qual pastor com seu rebanho;
- Sopita-se depois. De jeito e força
- Os agarreis, bem que anele escapulir-se;
- E em serpe ao converte-se, em água, em fogo
- Tende-o mais duro e firme, até que o velho,
- Já volto à prima forma, a interpelar-te
- Comece. Inquire então que nume avesso
- Te fecha o mar piscoso. — Ei-la mergulha;
- N’alma comoto, às naus varadas corro.
- Depois da ceia, inteira a noite amena
- Pela praia arenosa adormecemos.
- “Já vermelha a manhã, do imenso lago
- À borda chego a suplicar os deuses,
- Mais três seguros destemidos sócios.
- Para enganar o pai, do fundo a ninfa
- De focas sai com frescas peles quatro;
- Camas na areia escava, à espera tem-se;
- Vê-nos enfim, nas camas nos concerta,
- A cada qual em sua pele enfronha.
- Tetra cilada! os focas trescalavam
- Nutridos na salsugem: de um cetáceo
- Quem pode ao pé jazer? útil a deusa,
- Neutralizando o cheiro, doce ambrosia
- Nos unta às ventas: A manhã passamos,
- Com paciência os quatro; acima os focas
- Surgindo, junto a nós se enfileiraram.
- “Merídio vem Proteu; conta, examina,
- Por nós principiando, o gado obeso,
- E sem dar pelo engano ali se estende.
- A vozearmos súbito o agarramos:
- Sem lhe esquecer o ardil, muda-se o velho
- Em jubado leão, drago, pantera,
- Cerdo, riacho, ou tronco de alta copa;
- Mas, com tenacidade urgido, o astuto
- Lasso vociferou: — Que deus, Atrida,
- A forçar-me instruiu-te? que pretendes? —
- Mas eu: — porque me enganas, tu que sabes
- Que ansioso estou sem termo aqui detido?
- Ora dize, a imortais é claro tudo,
- Quem assim me proíbe o mar piscoso? —
- “Devias, respondeu-me, antes do embarque
- Sacrificar ao Padre e à corte sua,
- Para alcançares próspera viagem.
- Amigos não verás, nem pátrio alvergue,
- Sem que ao Dial Egito rio volvas
- E às divindades hecatombes sagres:
- O teu desejo então será cumprido. —
- “Magoado por de novo irmos ao rio,
- Longa árdua rota em borrascoso pego,
- Inda insisti: “Proteu, quanto me ordenas
- Preencherei; mas dize-me sincero
- Se os Arquivos que em Tróia se apartaram
- De Nestor e de mim respiram todos,
- Se algum morte imprevista, após a guerra,
- Teve a bordo ou nos braços dos amigos.
- Ele: — Indagas, Atrida, os meus segredos?
- Olha que d’água os olhos não te banhem.
- Dos livres da matança em que te achaste,
- Só morreram dous chefes arnezados,
- E um vivo está no meio do Oceano.
- Ante as remeiras naus, bebendo as ondas,
- Ajax de Oileu da Parca foi preado:
- Primeiro às pedras o lançou de Giras
- Favorável Netuno, onde escapara
- Mal grado a Palas, se ímpio não bramasse
- Que era salvo apesar dos mesmos deuses;
- Eis, da blasmêmia azedo, o rei dos
- Pega do seu tridente e fere a penha
- Aos pés de Ajax, que se abismou no fundo
- Com porção do rochedo. Em cavo bojo
- Foi por Juno Agamemnon preservado;
- Mas, ao dobrar o Maléia, uma tormenta
- O arrojou pesaroso ao campo extremo,
- De Fiestes morada, ora de Egisto:
- Seguro cria-se, e mudado o vento,
- Recolhidos os deuses, o chão pátrio
- Beija alegre e o ensopa em quente choro.
- Um vigia o avistou, que o ano inteiro,
- De dous áureos talentos com promessa.
- Pôs de atalaia Egisto, e que era atento,
- Por temer que, aportando inopinado,
- O herói do seu valor se recordasse;
- Denunciá-lo foi. Súbito Egisto,
- Insidioso, valentões da plebe
- Vinte escolheu, que estavam de alcatéia,
- Aprestado um banquete em outra sala.
- O traidor, meditando, em coches parte
- O Atrida a convidar, que à ceia incauto,
- Como a rês no presepe, é trucidado;
- Nem sócio deste, nem de Egisto mesmo
- Poupam na régia os brutos matadores. —
- “Cai na areia em pranto, e compungido
- Viver nem ver queria ao Sol a face.
- De prantear cansei-me e rebolcar-me,
- E então Proteu: — O luto é sem remédio,
- Basta; a Micenas corre; ou vivo ou morto
- Ou de Orestes punido, ao menos chegues
- Para os seus funerais. — Isto me acalma
- O generoso peito, e veloz falo:
- — Pois bem, doa-me embora, esse outro ou preso
- Ou morto no Oceano me declares. —
- “Prossegue o vate: — É o Ítaco Laércio.
- Na ilha o vi desfeito em grossas lágrimas.
- Por Calipso retido, e sem navio
- Para vogar no páramo salgado.
- Genro de Jove, tu de Helena esposo,
- Morrer em campo Argólico não deves,
- Mas, junto ao flavo Radamanto, o Elísio
- Deleitoso habitar, confins da terra;
- Onde os humanos docemente vivem,
- De temporais, de neves, de invernadas
- Sempre isentos, e de auras do Oceano
- Fresco bafejo e respirar suave. —
- Então sumiu-se no espumoso ponto.
- “Com meus divinos sócios, no embarcarmos,
- Ia deliberando, e espessa a noite,
- Finda a ceia, no seco repousamos.
- No matutino albor, em nado os lenhos
- De amuradas iguais, mastros eretos
- E tendidas as velas, de seus bancos
- Batem remeiros o espumoso pego.
- De novo ao rio Egito navegamos,
- E apaziguado o Céu com sacrifícios,
- Do irmão levanto em honra um cenotáfio.
- Prosperamente os ventos assoprando,
- Mandam-me os deuses à querida pátria.
- Agora, fica tu comigo uns dias,
- Dez ou doze; haverás válido coche,
- Três corcéis, linda copa, que, em sagradas
- Libações, deste amigo te recorde.”
- “Não me detenhas replicou Telêmaco.
- Um ano, deslembrado o lar paterno.
- Dessa boca eloqüente aqui pendera;
- Mas, já com tédio, na divina Pilos
- Meus sócios, Menelau, por mim suspiram.
- Dás-me um tesouro; eu deixo-te os cavalos
- Nas mimosas campinas em que imperas,
- Onde à larga germinam loto, junça,
- Trigo, cevada e espelta; lá nem tenho
- Vastos circos nem prados: só de cabras,
- Não de poldros nutriz, me é cara a terra;
- Pois, Ítaca mormente, em roda as ilhas
- Do nosso mar em pastos não verdejam.”
- Ri-se o pugnaz Atrida, e a mão lhe cerra:
- “És de bom sangue, acertas. Posso, filho,
- Pela mais bela a dádiva trocar-te
- Por argêntea cratera de áureas bordas,
- Lavor exímio de Vulcano mesmo:
- Foi do rei dos Sidônios glorioso
- Prenda, ao nos despedirmos; de hoje é tua.”
- E entanto em sala interna resplendente
- Concorrem: quem ovelhas, quem trazia
- O vigoroso vinho; o pão, de fitas
- Ornadas moças. Lauta a ceia aprestam.
- Mas de Ulisses na régia, ao disco e dardo
- Os procos num calçado se exerciam
- Pátio, que da protérvia era o teatro;
- E, ao pé de Antino e Euríniaco deiformes,
- Indagou Noémon, de Frônio garfo:
- “Sabe-se, Antino, da arenosa Pilos
- Se Telêmaco é vindo? Em meu navio
- Foi-se, e a Élide vasta ir necessito;
- Éguas doze lá tenho e mus bravios,
- E alguns desejo acostumar ao jugo”.
- Atônitos calaram, que o supunham
- Em Pilos não, mas a velar nos prédios,
- No pastor e na grei. De golpe Antino:
- “Quando, como partiu? seletos jovens
- De Ítaca tem consigo, ou tão somente
- Mercenários e escravos? Que ardileza!
- Fala a verdade; a nau, por força a deste,
- Ou cedendo a seus rogos voluntário?”
- Súbito Noémon: “Fi-lo espontâneo.
- A preces de homem tal quem não cedera,
- E em tanta angústia? A gente mais luzida
- E a Mentor vi no embarque, ou certo um nume,
- Que em tudo o parecia. Mas, oh! pasmo,
- O divino Mentor bem que embarcasse,
- Na manhã de ontem me encontrei com ele.”
- Disse, e à casa paterna recolheu-se.
- Os audazes, comotos e aterrados,
- Se abstêm dos jogos. O Eupiteio ruge,
- De rábido furor, olhos em brasa:
- “Oh! que atrevida empresa! de acabá-la
- Julgado era incapaz: mocinho, às ondas,
- A despeito de nós, deitou navio,
- E com gente escolhida foi-se impune.
- Este começo nos agoura danos,
- Se o não tolhe o Satúrnio. Já, ligeiro
- Baixel de vinte remos; que, à passagem
- De Ítaca e Samos numa espera, conto
- Que a viagem por seu pai lhe seja amarga.”
- Aprovam todos e ao palácio montam.
- Médon, que ouviu de fora o atroz conluio,
- Pelo pátio açodou-se a anunciá-lo,
- E Penélope indaga: “Eles te enviam,
- Para que as servas do divino Ulisses
- Terminem seu trabalho e a mesa ponham?
- Basta de importunar-me e a quaisquer outros.
- Esta lhes fosse a derradeira ceia!
- Ó vós que ao meu Telêmaco amiúde
- A substância esbanjais, nunca em meninos
- Quem seu pai era aos vossos escutastes?
- Brando ao povo, em palavras comedido,
- Justo e humano, alguns reis não semelhava
- Que ódio e favor dispensam caprichosos.
- Ah! vós lho agradeceis com torpes feitos.”
- E o sensato Médon: “Fosse, ó rainha,
- Esse o mal todo! os bárbaros meditam,
- Jove o remova, assassinar teu filho
- Ao regresso de Pilos e de Esparta,
- Aonde foi colher de Ulisses novas.”
- Do abalo sufocada, esmorecida,
- Joelhos frouxos, lágrimas nos olhos,
- Estúpida soluça e balbucia:
- “Que! nada urgindo, cavalgou meu filho
- Num dos corcéis do mar que a salsa imensa
- Via atravessam! Nem pretende ao menos
- Renome entre os humanos!” — “Eu ignoro,
- Torna Médon, se um deus, se impulso próprio
- Fê-lo ir do pai no alcance, ou vivo ou morto.”
- Nisto, o arauto a seu posto recolheu-se.
- Bem que a sala em cadeiras abundasse,
- Atormentada ao limiar sentou-se
- Da câmara custosa, a lastimar-se;
- Em ais cercam-nas as servas quantas eram,
- Velhas e moças, a quem diz chorando:
- “O Céu me aflige, ó caras, mais que a todas
- Que nasceram comigo e se criaram:
- Meu marido perdi, leão no esforço
- De virtudes complexo, espelho aos Dânaos,
- De Hélade e Argos espanto; ora o só filho
- Preia inglório será das tempestades.
- Cruéis, vós que o sabíeis, à partida
- Acordar-me do leito não viestes:
- Se eu da sua intenção fosse inteirada,
- Ele ou não ia ou morta me deixara.
- Uma aqui chame a Dólio, o velho escravo.
- Paterno dom, cultor dos meus pomares;
- Corra, informe a Laertes, e este ao povo
- Deplore a trama que extinguir a estirpe
- Dele e de Ulisses divinal promove.”
- A ama Euricléia então: “Querida ninfa,
- Mates-me a duro bronze, ou bem me poupes,
- Não te oculto, ciente o pão e o vinho
- Eu mesma forneci; jurei sagrado
- Por doze dias, salvo ou pressentires
- Ou vê-lo desejares: tinha medo
- Que te ofendesse o pranto as faces belas.
- Tu purifica-te e alvas roupas cinge,
- No alto com tuas fâmulas implora
- A Tritônia que o filho te conserve;
- Não contristes o velho. Eu não presumo
- Que o Céu deteste a geração de Arcésio:
- Sequer nos restará quem nesta régia
- Mande em longínquos ubertosos campos.”
- Com isto aliviada, enxuga os olhos;
- Sobe, e se purifica e se reveste,
- Ora com suas fâmulas, esparso
- De açafates o farro: “Ouve-me, ó gérmen
- Do aluno e Amaltéia; se o prudente
- Ulisses te queimou de ovelha ou touro
- Gordas pernas, conserva-lhe o só ramo,
- Daqui me afasta os arrogantes procos.”
- Geme e ulula; aceitou-lhe os votos Palas.
- Pelos escuros átrios em tumulto,
- Sem suspeita, os protervos se diziam:
- “Certo, ignara do risco de seu filho,
- Cobiçada a rainha apresta as bodas.”
- Mas Antino os atalha: “Endiabrados,
- Calai-vos, pode alguém denunciar-nos;
- Tácitos nosso plano executemos.”
- Vinte escolhendo, lesto à praia os guia;
- Eis, o baixel em nado, o mastro erigem,
- Remos aos bordos em correias atam,
- Armas carregam valorosos pajens,
- E dos envergues fora as brancas velas,
- Comem de largo, esperam que anoiteça.
- Penélope, em jejum, no andar cimeiro,
- Só no inocente cuida, se ele escape,
- Ou se aos golpes sucumba dos traidores:
- Como temendo, em círculo doloso
- De montanheses, o leão cogita,
- Ela pensa e repensa, e recostada
- Lhe amolenta as junturas meigo sono.
- Palas, que isto aguardava, uma aparência
- Da Icária Iftima, em Feres com Eumelo
- Casada, aos paços de Laércio expede,
- Porque o pranto a Penélope refreie;
- Na câmara a visão, por entre o loro
- Da fechadura entrando, à cabeceira:
- “Adormeces, Penélope, lhe brada,
- Aflita e mesta? Os numes não permitem
- Essa tristeza; reverás teu filho,
- Que nunca os ofendeu nem levemente.”
- Às portas já Penélope dos sonhos
- Adormentada, fala: “A que vieste,
- Irmã, que, ao longe moradora, nunca
- Me visitavas? queres que eu deponha
- As dores e aflições que n’alma sinto?
- Perdi meu bom marido, exemplo aos Dânaos,
- Honra da Grécia: agora o só renovo,
- Inexperto em negócios e em trabalhos,
- Meteu-se em cava nau. Mais choro a este;
- Que se afunde, ou padeça em clima alheio,
- Temo e tremo: inimigos o insidiam,
- E antes que volte aqui matá-lo anseiam.”
- “Ânimo, ajunta, o fusco simulacro;
- Não te assustes que o segue uma de todos
- Aparecida: a consolar-te as penas
- A potente Minerva a ti mandou-me.”
- “Se és deusa, diz Penélope, ou da deusa
- Ouviste a voz, do outro infeliz me informes:
- À luz do Sol acaso inda respira,
- Ou jaz defunto na Plutônia estância?”
- A sombra contestou: “Se é morto ou vivo
- Omito, é vão discurso.” E como vento
- Por entre a fechadura esvaeceu-se.
- Desperta a Icária, exulta ao ver o sonho
- Da noite na calada sobrevir-lhe.
- A úmida via os pérfidos sulcavam,
- De Telêmaco o exício ruminando.
- Fica entre Samos e Ítaca fragosas
- Ásteris, ilha exígua, de pastagens,
- De abras, de uma e outra banda, ao crime azadas,
- Para a traição, de espreita, ali se escondem.