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OdisseiaLivro XVI
LivroXVI

O herói de madrugada e Eumeu divino

367 versos · 8 notas do tradutor


  1. O herói de madrugada e Eumeu divino
  2. Fogo acendem na choça e almoço aprestam,
  3. Indo os serventes pastorar os porcos.
  4. Sem latir, a Telêmaco aventando,
  5. O festejavam cães; sentindo Ulisses
  6. As caudas a mover-se: “Eumeu, gritou-lhe,
  7. Ou sócio ou conhecido se aproxima;
  8. Tropel me soa, e os ledos cães não ladram.”
  9. Mal acabava, à porta o jovem pára;
  10. E, pulando o porqueiro atabalhoado,
  11. Caem-lhes os vasos e o licor transfuso;
  12. A encontro, as mãos lhe beija e a testa e os olhos.
  13. Qual pai, ao décimo ano, ameiga a prole
  14. De longes terras vinda, a só que em velho
  15. Teve e lhe suscitou mil pesadumes;
  16. Tal o pastor seu amo acaricia,
  17. Como um ressuscitado, e exclama e chora:
  18. “Eis-te, meu doce lume! dês que a Pilos
  19. Navegaste, rever-te não contava.
  20. Entra, meu coração deleita, ó filho,
  21. A nós restituído: raro o campo
  22. Visitas e os pastores; na cidade,
  23. Contino observas os funestos procos.”
  24. “Velho irmão, diz Telêmaco, obedeço;
  25. Ver-te e ouvir-te aqui venho; tu me informes
  26. Se inda está minha mãe no seu palácio,
  27. Ou se casou: talvez aranhas torpes
  28. Jazam de Ulisses no vazio leito.”
  29. “Ela, o informa o pastor, no teu palácio
  30. Constante sofre; a suspirar consome
  31. A noite aflita e o lagrimoso dia.”
  32. A lança então recebe, e o amo salva
  33. A lapídea soleira. O assento Ulisses
  34. Quer ceder, mas Telêmaco o proíbe:
  35. “Não te incomodes, hóspede; um assento
  36. Me ajeitarão.” Seu posto Ulisses toma;
  37. Ele abanca-se em ramos que de peles
  38. Eumeu forra. O pastor pães em cestinhos,
  39. De assados põe de véspera escudelas,
  40. Num canjirão mistura o doce vinho,
  41. Do grã Laércio em frente se coloca;
  42. Os comensais atiram-se às viandas.
  43. Fartos enfim, Telêmaco interroga:
  44. “Velho irmão, como este hóspede aqui veio?
  45. Que nautas o trouxeram? de que terra?
  46. A Ítaca não creio a pé viesse.”
  47. Assim falaste, Eumeu: “Digo a verdade.
  48. Ser de Creta blasona, e haver corrido
  49. Muitas cidades por divino influxo.
  50. De nau Tesprócia escapo, aqui chegou-se.
  51. Dispõe dele a prazer, eu to encomendo;
  52. Súplice teu se ufane.” — “Amigo, o jovem
  53. Lhe bradou precavido, que proferes?
  54. Comigo ter um hóspede! Não posso,
  55. Tão moço, defendê-lo de uma afronta:
  56. Minha mãe ora no ânimo cogita
  57. Se, dedicada ao filho, a seu marido
  58. E ao público respeite, ou se dos Gregos
  59. Se una ao melhor que à larga a presenteia.
  60. Já que nesta choupana o recolheste,
  61. Capa e túnica, ancípite uma espada
  62. E sandálias terá, terá passagem
  63. Para onde se lhe antoje. Hei de mandar-lhe,
  64. Se o cá deténs, a roupa e o mantimento,
  65. Para não te comer e aos sócios tudo.
  66. É perigo na régia apresentá-lo;
  67. Os soberbões cruéis o insultariam,
  68. Agra dor para mim: do herói mais forte
  69. Contra muitos e tais é baldo o empenho.”
  70. O pai se entremeteu: “Se opinar devo,
  71. O que, amigo, te ouvi rói-me as entranhas:
  72. Sendo quem és, tiranos tais protervos
  73. A teu olhos conspiram! Não resistes,
  74. Ou por celeste voz te odeia o povo?
  75. Acusas tu a irmãos, em cujo esforço
  76. Nas maiores discórdias confiamos?
  77. Por que a idade ao valor não corresponde!
  78. Por que não sou seu filho, ou mesmo Ulisses,
  79. Em quem inda se espera! Esta cabeça
  80. Me cerceassem, do Laércio aos paços
  81. Despejo tal se castigar não fosse.
  82. Antes morrer, da vil caterva opresso
  83. Nos lares meus, que vê-los sem decoro,
  84. Violadas servas, hóspedes vexados,
  85. Sem fruto as produções e o vinho exausto.”
  86. Respondeu-lhe Telêmaco: “Em verdade,
  87. Nem povo hostil, nem meus irmãos acuso,
  88. Em quem mais nas discórdias confiamos.
  89. Fez Jove solitária a nossa estirpe:
  90. De Arcésio foi gerado o só Laertes;
  91. Só foi deste meu pai; só fui de Ulisses,
  92. Que não fruiu das filiais carícias.
  93. Tem ora inçada a casa de inimigos:
  94. De Ítaca bronca, de Zacinto umbrosa,
  95. E de Same e Dulíquio, os optimates
  96. Requestam minha mãe, seus bens consomem
  97. Ela as núpcias odiosas nem rejeita,
  98. Nem as conclui; entanto, os pretendentes
  99. Hão de em breve de todo arruinar-me:
  100. Jaz porém minha sorte aos pés dos numes.
  101. Eumeu, sus, à rainha me anuncies
  102. Incólume de Pilos: cá não tardes;
  103. Nenhum te sinta que meu dano teça.”
  104. “Percebo, diz Eumeu; terei cautela.
  105. De uma via posso eu participá-lo
  106. A teu mesquinho avô? Com mágoa embora
  107. Do ausente filho, aos servos presidindo,
  108. Se nutria à vontade; mas, a Pilos
  109. Dês que te foste, o vinho enteja e o pasto,
  110. Esquece-lhe o trabalho, e geme e chora,
  111. Tábida a cútis se lhe apega aos ossos.”
  112. “Triste aflição! Telêmaco pondera;
  113. Mas deixá-lo na dor convém por ora:
  114. A nosso arbítrio se estivesse tudo,
  115. Era aqui já meu pai. Tu anda e volta,
  116. Para o avisar no campo não divagues;
  117. Minha mãe que despache a despenseira,
  118. E esta em segredo o comunique ao velho.”
  119. As sandálias Eumeu calçado, parte.
  120. A partida a Minerva não se esconde
  121. Que tem-se à entrada, na gentil figura
  122. De moça airosa e no lavor perita.
  123. A Telêmaco invisa (um nume a todos
  124. Não se apresenta), Ulisses a descobre,
  125. E os cães também, que sem ladrar fugiam
  126. Pelo pátio a ganir. Das sobrancelhas
  127. Ao sinal, entendido sai da choça
  128. E extramuros o herói; fronteira Palas:
  129. “Divo Laércio, diz, abre-te agora
  130. Com teu filho; à cidade encaminhai-vos
  131. O extermínio a tramar dos pretendentes:
  132. Sem mora a combater serei convosco.”
  133. Eis de áurea vara o toca; da alva capa
  134. E da túnica dantes o reveste,
  135. O engrandece e vigora o nédio rosto,
  136. Morena a cor de novo, azula a barba.
  137. Isto completo, retirou-se Palas.
  138. Volve Ulisses; pasmado o filho caro
  139. Vira os olhos, temendo que um deus fosse,
  140. Veloz fala: “Diverso me apareces,
  141. Tens, hóspede, outras vestes e outra cútis;
  142. Certo és um dos celícolas. Benigno
  143. Tu nos perdoa, e gratos sacrifícios
  144. E áureos dons haverás.” Súbito Ulisses:
  145. “Não sou deus, a imortais não me equipares;
  146. Sou teu pai, sou quem choras, quem suspiras,
  147. Por quem padeces vitupérios tantos.”
  148. Nisto a seu filho beija, e à terra a pares,
  149. Não mais contidas, lágrimas borbulham.
  150. Mas Telêmaco incerto: “Eu não te creio;
  151. Não és meu pai, és deus que assim me enganas
  152. E aumentas minha dor. Um simples homem
  153. Por si não se transforma em velho ou moço:
  154. Tu, decrépito há pouco e mal trajado,
  155. Um íncola do Olimpo ora semelhas.”
  156. Contesta o sábio herói: “Não te é decente
  157. Filho, surpresa tal, nem outro Ulisses
  158. Verás; sou eu, que, após tremendas provas,
  159. Chego ao vigéssimo ano à pátria amada.
  160. A predadora Palas me converte
  161. Num apôsto mancebo ou num pediente:
  162. A prazer, aos celícolas é fácil
  163. Tornar qualquer mortal formoso ou torpe.”
  164. Aqui, sentou-se; o príncipe entre os braços
  165. O estreita a soluçar: incita o amplexo
  166. O desejo de lágrimas em ambos:
  167. Seus gemidos estrugem, quanto os grasnos
  168. De abutres e águias de recurvas unhas,
  169. A quem pilhou pastor ninhada implume.
  170. E o Sol cadente em prantos o deixara,
  171. Se Telêmaco ao pai não perguntasse:
  172. “Que nautas cá, meu pai, te conduziram?
  173. A Ítaca a pé de certo não vieste.”
  174. O paciente Ulisses respondeu-lhe:
  175. Transportaram-me os ínclitos Feaces,
  176. Que usam fazê-lo aos mais que lá naufragam.
  177. No ligeiro baixel dormindo sempre,
  178. Fui deposto na praia, de ouro e cobre
  179. E belas teias rico; dons que em antro
  180. Por divino favor se arrecadaram.
  181. Palas mandou-me aqui tratar contigo
  182. Do estrago desses procos: quais e quantos
  183. Numera-os tu; pois no ânimo valente
  184. Pesarei se podemos debelá-los,
  185. Ou se nos é mister auxílio estranho.”
  186. Mas Telêmaco: “Eu sei, pregoa a fama,
  187. Quão prudente és, meu pai, guerreiro e forte;
  188. Nímio porém me assombra o teu discurso:
  189. Dous sós, tantos valentes combatermos!
  190. Nem dez são, nem o dobro: enviou Dulíquio
  191. Cinqüenta e dous galhardos, com seis pajens;
  192. Oitenta e quatro, Same; tem Zacinto
  193. Vinte Gregos de prol; Ítaca mesma,
  194. Ótimos doze, com Médon arauto
  195. E o cantor, mais dous hábeis cozinheiros.
  196. Temo, se a todos atacarmos dentro,
  197. Que proves ao regresso amargos transes:
  198. Olha se ativo auxiliar careias.”
  199. Ulisses retorquiu-lhe: “Ouve-me; atenta
  200. Se nos bastam Minerva e o pai Satúrnio,
  201. Ou se outro ajudador nos é preciso.”
  202. Logo o filho: “Esses podem lá das nuvens,
  203. Mais que homens e outros numes, socorrer-nos.”
  204. De novo Ulisses: “Longo tempo fora
  205. Não serão da peleja, ao decidi-la
  206. Em meu palácio o marcial denodo.
  207. Vai n’alva reunir-te aos arrogantes;
  208. Serei, na forma de um mendigo anoso,
  209. Guiado por Eumeu. Sofre no peito
  210. Que da nossa morada eles me enxotem,
  211. Rojem-me a pontapés e golpes vibrem;
  212. Com doçura os modera, a dor sopeia:
  213. Nenhum te escutará, que os cerra o fado.
  214. N’alma isto agora imprime: quando Palas
  215. Mo influir, ao meu nuto as armas leves,
  216. Que estão na sala, para o andar cimeiro;
  217. E caso alguém o estranhe, assim te escuses:
  218. — Quais as deixou meu pai, já não luziam,
  219. Do vapor do fogão fui preservá-las;
  220. E outro medo o Satúrnio suscitou-me:
  221. Entre os copos, ferir-vos poderíeis,
  222. Nosso convívio e os esponsais manchando;
  223. Pois a força do ferro atrai o homem.
  224. Reserva para nós só dous alfanjes,
  225. Dous maneiros broquéis e lanças duas,
  226. Para a divina empresa: hão de Minerva
  227. E o providente Jove conturbá-los.
  228. E se és meu sangue, filho, em ti sepultes
  229. Este arcano; de Ulisses ninguém saiba.
  230. Laertes, o pastor, qualquer dos servos,
  231. Nem Penélope mesma. Só tentemos
  232. O pensar das mulheres; qual dos nossos
  233. Nos respeita e aprecia; de seus amos
  234. Qual ingrato se esquece e te honra pouco.”
  235. E o filho: “Ó pai, conhecerás, espero,
  236. Que nem cobarde sou, nem leviano:
  237. Mas julgo, e tu reflitas, que a nós ambos
  238. É dúbio o lance. Ao passo que examines
  239. Os servos um por um, de prédio em prédio,
  240. Os tais sem dó nem pejo a casa esbanjam.
  241. Das mulheres, concordo, é bom que indagues,
  242. Das ruins que teus lares enxovalham:
  243. Quanto aos homens, difere até que acene,
  244. Se teu acenar, o egípero Satúrnio”
  245. Entretanto, abordava a nau remeira
  246. Que trouxera a Telêmaco de Pilos;
  247. Em seco e desarmada, os da equipagem
  248. De Clito em casa os ricos dons puseram.
  249. À prudente rainha arauto expedem
  250. A anunciar que o filho, já no campo,
  251. Os mandava vogar para a cidade;
  252. E a mãe suspenda os prantos e os temores:
  253. O arauto e Eumeu se encontram no caminho.
  254. Do rei divino ao pórtico chegados,
  255. O arauto grita em público: “Senhora
  256. Veio o caro Telêmaco.” Em voz baixa
  257. Expondo Eumeu do príncipe o recado,
  258. Sai do recinto e a seus currais se torna.
  259. Mestos os pretendentes, ante as portas
  260. Sentam-se externas. De Pólibo o nado
  261. Eurímaco encetou: “Cumpriu-se, amigos,
  262. Plano audaz que julgávamos falhasse,
  263. E regressou Telêmaco: esquipemos
  264. Outro lesto baixel que advirta os sócios.”
  265. E vôlto ao mar Anfínomo, um navio
  266. Entrando a remos no profundo porto
  267. Viu, já dobrado o pano, e a rir começa:
  268. “É supérfluo um aviso, ei-los que arribam.
  269. Ou lho disse algum deus, ou deram caça
  270. E lhes fugiu Telêmaco.” Eles presto
  271. Vão-se à praia; a maruja, a nau varada,
  272. A despia de enxárcias e aparelhos.
  273. Ali junto um conselho, sem que ou moço
  274. Ou velho se abancasse, Antino enceta:
  275. “Os Céus a ponto, amigos, o salvaram!
  276. De dia assíduas em ventosos cumes
  277. Sentinelas havia; ao Sol ocaso.
  278. Rumo do mar, à noite navegando,
  279. Nunca em terra dormíamos, à espera
  280. Que ao rosicler da aurora aparecesse
  281. E insidiado vítima nos fosse:
  282. Um nume o protegeu. Deliberemos:
  283. Se viver, malogrado é nosso intento.
  284. Ele é firme e discreto, e já não somos
  285. Como dantes benquistos: crede, ao povo
  286. Excitado arengando em parlamento,
  287. A nossa trama explicará baldia;
  288. E o povo em sanha, desta ação bramindo
  289. Pode exilar-nos para estranha terra.
  290. Ou no campo ou na estrada combinemos
  291. Dar cabo dele: haveres e tesouros
  292. Partilhando igualmente, à mãe cedemos,
  293. E ao marido que eleja, este palácio.
  294. Vivo se inda o quereis, e em plena posse
  295. Dos bens paternos, é melhor cessarmos
  296. De lhos comer; e cada qual, dotando-a,
  297. A resqueste de casa: ela que espose
  298. Quem mais a prende ou favoneie a sorte.”
  299. Emudeceram; mas ergueu-se Anfínomo,
  300. Do Axetíades Niso real prole,
  301. Chefe dos procos de Dulíquio herbosa
  302. E pingue em cereais, por bom e afável
  303. Mais à rainha grato, e orou sisudo:
  304. “Amigos, eu me oponho. A régio garfo
  305. Árduo é matar; os deuses consultemos:
  306. Se o reto Jove o aprova, eu mesmo os golpes
  307. Hei de vibrar afouto e compelir-vos;
  308. Do contrário, nos cumpre aquietarmos.”
  309. Prevalece este aviso, e levantados,
  310. Vão-se ao palácio em tronos se recostam.
  311. A sensata Penélope, instruída
  312. Pelo arauto Médon do atroz conluio,
  313. Presentar-se resolve aos afrontosos;
  314. Entre mulheres, véu luzido ao rosto,
  315. Majestosa ao limiar da ornada sala,
  316. Increpa Antino: “Em vão, cruel, te aclamam
  317. Dos coevos primeiro em siso e falas;
  318. Néscio, ante Jove aos súplices atento,
  319. Urdes ao meu Telêmaco a ruína!
  320. É ímpio de outrem cogitar a morte,
  321. Esqueces que teu pai teve este asilo,
  322. Fugindo à multidão, pós ele acesa
  323. Porque aos Táfios ladrões se unira em dano
  324. Dos aliados nossos os Tesprotes?
  325. Rasgar-lhe o peito e os bens queria o povo
  326. Destruir-lhe; o furor susteve Ulisses:
  327. Desonras deste a casa, a esposa tentas,
  328. Matas-lhe o filho, minha dor cumulas.
  329. Cessa, Antino, e teus cúmplices que cessem.”
  330. Eurímaco arengou: “De Icário, ó prole,
  331. Bane d’alma o temor; nem há, nem houve,
  332. Nem haverá quem mãos ponha em teu filho,
  333. Enquanto eu vir o Sol. Digo e executo:
  334. Nesse traidor ensoparia a lança.
  335. O turrífrago Ulisses amiúde
  336. Aos joelhos me serviu de vinho e carnes:
  337. A Telêmaco eu amo sobre todos.
  338. Não receies que a morte lhe inflijamos:
  339. A que vem do Supremo não se evita.”
  340. Ele a conforta, e o crime ruminava.
  341. Ela sobe, e na câmara estupenda
  342. Geme o querido esposo, até que os lumes
  343. A olhi-cerúlea em sono lhe abebera.
  344. Vindo o pastor à tarde, para a ceia
  345. Um bácoro feriu. Da vara ao toque,
  346. Logo, ao Laércio avelhantou Minerva,
  347. Em trapos o envolveu: se o conhecesse,
  348. Poderia a Penélope ir contá-lo,
  349. E um nem outro conter-se. — “Eumeu divino,
  350. Adiantou-se o mancebo, que há de novo?
  351. Estão já dentro os arrogantes procos,
  352. Ou de espera no estreito me insidiam?”
  353. Respondeste, ó pastor: “Vagar não tive
  354. De o saber; apressado as ruas corto,
  355. Noticio e regresso. Mas um núncio
  356. Topou-me, que teus sócios expediram;
  357. Ele é que a tua mãe falou primeiro.
  358. Ouve agora o que vi: já fora estava
  359. De Mercúrio no monte, quando o porto
  360. Navio entrou veloz, de gente cheio,
  361. De éreos broquéis e bipontudas lanças:
  362. Que eles eram suspeito, eu não to afirmo.”
  363. Olhos volvendo ao pai, sorri-se o moço
  364. E esquiva os do pastor. Já pronto o assado,
  365. Logram-se do convívio, sem queixume
  366. De porções desiguais. Depois, refeitos,
  367. Na cama em sono doce adormeceram.

Nota a nota · 8 notas

v. 33–65A lapídea soleira. O assento Ulisses ⋯ Para não te comer e aos sócios tudo.
Diz Pindemonte ser de mármore a soleira da choupana de Eumeu; é sobeja riqueza para a casa de um porqueiro: Homero só diz que era de pedra. — A passagem vertida no meu verso 65 faz conjeturar que certos escravos em Ítaca tinham alguma cousa de seu, que nem tudo pertencia exclusivamente aos senhores; pois, a ser tudo dos senhores, Telêmaco não dissera que ia mandar a Eumeu com que sustentar o mendigo, para este não lhe ser pesado. Nas fazendas do Brasil, os senhores permitem aos escravos cultivar para si um pequeno terreno, ou também criar seus porcos e galinhas etc, e tais produtos são inteiramente dos escravos; para o que há um dia da semana em que eles trabalham no dito terreno, e se lhes dá o tempo necessário ao trato dos seus animais: os econômicos e ativos não raramente adquirem dinheiro e com ele conseguem a sua alforria. Parecia que havia quer que seja de semelhante, ao menos em alguns lugares da Grécia.
↩ voltar à passagem, v. 33
v. 85Sem fruto as produções e o vinho exausto.”
Anêmustõ epi ergõ, M. Giguet traduz assim: pour une entreprise qui ne s’accomplira pas. Este modo de falar indicaria em Ulisses uma confiança no futuro, não própria da sua habitual cautela. Sou com Pindemonte, que interpreta: indarno e senza fine o frutto.
↩ voltar ao verso 85
v. 89–91Fez Jove solitária a nossa estirpe:
Rochefort, louvando este lugar, afirma que a repetição de mounon, que significa só, ne saurait guère passer dans une traduction. E não se limita à sua língua, decide logo de todas, como se ele as tivesse examinado: é defeito de não poucos tradutores franceses, quando não acertam com frase que bem traslade o original afirmar que nenhuma outra língua o pode conseguir. Ora, se Homero não oferecesse outras dificuldades, a que nota Rochefort não embaraçara nem embaçaria a tradutor nenhum: Pindemonte verteu a repetição do mounon, eu também o fiz; e qualquer francês, querendo, o pode fazer, pois que a sua língua a isto se presta otimamente.
↩ voltar à passagem, v. 89
v. 136Morena a cor de novo, azula a barba.
Desta passagem vê-se que Ulisses era trigueiro e de barba negra: o adjetivo melagchroiês refere-se à tez; kuaneai refere-se à barba, que, se é negra e feita, azul parece. Em um dos livros antecedentes, se diz que Ulisses tinha os cabelos da cabeça louros, o que não é contradição, pois há muitos homens de barba negra e de coma alourada ou mesmo loura. Combinado porém tudo que vem neste poema, antes se deve pensar que Ulisses tinha os cabelos da cabeça da cor dos que dizemos castanhos.
↩ voltar ao verso 136
v. 167–169Seus gemidos estrugem, quanto os grasnos
Belíssima comparação: os dous heróis a chorar, principalmente Ulisses, a quem o poeta chama tantas vezes o destruidor de cidades, eram como águias ou abutres a grasnar pelos filhos perdidos. Por esta ocasião, Rochefort lembra a imitação de Virgílio na Geórgica, principiada por aquele verso nunca excedido: “Qualis populea moerens Philomela sub umbra.” Acrescenta porém: “Je ne pense pas, comme Pope, que Virgile ait judicieusement substitué le rossignol à 1’aigle. Le rossignol, que chante toujours au commencement du printemps, ne forme pas de sons plus touchants lorqu’on 1ui a enlevé ses petits, que lorqu’on a respecté son nid; au lieu que 1’aigle, ou 1’autour, passait, réellement, chez les Anciens, pour déplorer amèrement la perte de ses petits lorsqu’on les lui enlevait; et c’etait peut-être pour cette raison que dans les hiéroglyphes Eypiens, l’autour representait la douleur. Ainsi, il y a ici dans Virgile une faute contre l’imitation exacte de la Nature, et en voulant embellir Homère, il s’est écarté de la verité”. Antes de combater essa opinião, direi que Rochefort sem dúvida era habilíssimo em distinguir os diferentes sons das aves, e que, a ter vivido na antiguidade, fora talvez um excelente adivinho. Donde tirou ele que o rouxinol, cujo canto é variadíssimo, não tenha sons mais ternos e maviosos para carpir os filhinhos perdidos? em que observações funda a sua sentença? Não há naturalista que tal assevere: ao contrário, não é de crer-se que o rouxinol seja uma exceção, quando os animais, ao menos os que têm sido observados, usam de sons diversos em diversas ocasiões. Já Lucrécio o havia notado a respeito dos cães; e é indubitável que o naturalista Virgílio com pleno conhecimento da matéria adotou a mudança. Homero com razão compara o prantear dos heróis aos gemidos da águia e do abutre; mas o Latino judiciosamente, como o notou o poeta inglês, serviu-se do rouxinol. E por quê? porque Orfeu, que era um suave cantor e não um guerreiro, com mais propriedade é comparável em seus queixumes à ave mais conhecida pela doçura da sua voz. Podia Virgílio, sem incorrer em censura servir-se de outra ave canora, mas escolheu o rouxinol para exaltar a música de Orfeu e a ternura dos seus gemidos. — Fora melhor que Rochefort se contentasse de ser um dos péssimos tradutores de Homero, e fugisse de criticar miúdas vezes, do que ele mesmo se gaba, as imitações em que o poeta do bom gosto, por consenso dos imparciais, não raramente excede a seu grande mestre.
↩ voltar à passagem, v. 167
v. 211Rojem-me a pontapés e golpes vibrem;
Pensam, muitos que Ulisses diz que Telêmaco dissimule, ainda que seu pai seja arrastado pelos pés fora da sala; isto supõe que, para o enxotarem, o derribariam e o puxariam pelos pés; o natural porém, quando se quer fazer outrem sair de uma casa, é levá-lo a empurrões, ou a pontapés, se a violência é maior. Eu não me contentava com o sentido que se tem dado às palavras de Homero; e havendo em Pisa, na mesma casa que habitei, um estudante Grego instruído na sua língua tanto moderna como antiga, pedi-lhe que me traduzisse literalmente a passagem do poeta, sem declarar qual fosse a minha opinião: com prazer o ouvi traduzir que Telêmaco dissimulasse, ainda que Ulisses fosse levado a pontapés; e o moço acrescentou que parecia-lhe impossível outra interpretação. Ora, não obstante ser eu contrário aos que opinam que a pronúncia do grego moderno seja em tudo conforme à do antigo, estou convencido de que bem conhecer o moderno é grande vantagem para conhecer o antigo; sendo, como é certo, que as modificações e alterações são muito menos consideráveis que as dos idiomas de origem latina em confrontação com a língua mãe.
↩ voltar ao verso 211
v. 224–225Reserva para nós só dous alfanjes,
A meu ver, diz Ulisses ao filho que deixe dois escudos maneiros; porque uma sala, por maior que fosse, era estreita para um combate, e nela mais convinham escudos não muito grandes, para melhor se manejarem. As espadas eram também curtas, phasgana; sós as lanças eram das ordinárias, dourê.
↩ voltar à passagem, v. 224
v. 277Sentinelas havia; ao Sol ocaso.
Ocaso adjetivo, por cadente, se é latinismo, já o foi de Francisco Manuel nos Mártires, na descrição do Paraíso.
↩ voltar ao verso 277
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