O herói de madrugada e Eumeu divino
367 versos · 8 notas do tradutor
- O herói de madrugada e Eumeu divino
- Fogo acendem na choça e almoço aprestam,
- Indo os serventes pastorar os porcos.
- Sem latir, a Telêmaco aventando,
- O festejavam cães; sentindo Ulisses
- As caudas a mover-se: “Eumeu, gritou-lhe,
- Ou sócio ou conhecido se aproxima;
- Tropel me soa, e os ledos cães não ladram.”
- Mal acabava, à porta o jovem pára;
- E, pulando o porqueiro atabalhoado,
- Caem-lhes os vasos e o licor transfuso;
- A encontro, as mãos lhe beija e a testa e os olhos.
- Qual pai, ao décimo ano, ameiga a prole
- De longes terras vinda, a só que em velho
- Teve e lhe suscitou mil pesadumes;
- Tal o pastor seu amo acaricia,
- Como um ressuscitado, e exclama e chora:
- “Eis-te, meu doce lume! dês que a Pilos
- Navegaste, rever-te não contava.
- Entra, meu coração deleita, ó filho,
- A nós restituído: raro o campo
- Visitas e os pastores; na cidade,
- Contino observas os funestos procos.”
- “Velho irmão, diz Telêmaco, obedeço;
- Ver-te e ouvir-te aqui venho; tu me informes
- Se inda está minha mãe no seu palácio,
- Ou se casou: talvez aranhas torpes
- Jazam de Ulisses no vazio leito.”
- “Ela, o informa o pastor, no teu palácio
- Constante sofre; a suspirar consome
- A noite aflita e o lagrimoso dia.”
- A lança então recebe, e o amo salva
- A lapídea soleira. O assento Ulisses
- Quer ceder, mas Telêmaco o proíbe:
- “Não te incomodes, hóspede; um assento
- Me ajeitarão.” Seu posto Ulisses toma;
- Ele abanca-se em ramos que de peles
- Eumeu forra. O pastor pães em cestinhos,
- De assados põe de véspera escudelas,
- Num canjirão mistura o doce vinho,
- Do grã Laércio em frente se coloca;
- Os comensais atiram-se às viandas.
- Fartos enfim, Telêmaco interroga:
- “Velho irmão, como este hóspede aqui veio?
- Que nautas o trouxeram? de que terra?
- A Ítaca não creio a pé viesse.”
- Assim falaste, Eumeu: “Digo a verdade.
- Ser de Creta blasona, e haver corrido
- Muitas cidades por divino influxo.
- De nau Tesprócia escapo, aqui chegou-se.
- Dispõe dele a prazer, eu to encomendo;
- Súplice teu se ufane.” — “Amigo, o jovem
- Lhe bradou precavido, que proferes?
- Comigo ter um hóspede! Não posso,
- Tão moço, defendê-lo de uma afronta:
- Minha mãe ora no ânimo cogita
- Se, dedicada ao filho, a seu marido
- E ao público respeite, ou se dos Gregos
- Se una ao melhor que à larga a presenteia.
- Já que nesta choupana o recolheste,
- Capa e túnica, ancípite uma espada
- E sandálias terá, terá passagem
- Para onde se lhe antoje. Hei de mandar-lhe,
- Se o cá deténs, a roupa e o mantimento,
- Para não te comer e aos sócios tudo.
- É perigo na régia apresentá-lo;
- Os soberbões cruéis o insultariam,
- Agra dor para mim: do herói mais forte
- Contra muitos e tais é baldo o empenho.”
- O pai se entremeteu: “Se opinar devo,
- O que, amigo, te ouvi rói-me as entranhas:
- Sendo quem és, tiranos tais protervos
- A teu olhos conspiram! Não resistes,
- Ou por celeste voz te odeia o povo?
- Acusas tu a irmãos, em cujo esforço
- Nas maiores discórdias confiamos?
- Por que a idade ao valor não corresponde!
- Por que não sou seu filho, ou mesmo Ulisses,
- Em quem inda se espera! Esta cabeça
- Me cerceassem, do Laércio aos paços
- Despejo tal se castigar não fosse.
- Antes morrer, da vil caterva opresso
- Nos lares meus, que vê-los sem decoro,
- Violadas servas, hóspedes vexados,
- Sem fruto as produções e o vinho exausto.”
- Respondeu-lhe Telêmaco: “Em verdade,
- Nem povo hostil, nem meus irmãos acuso,
- Em quem mais nas discórdias confiamos.
- Fez Jove solitária a nossa estirpe:
- De Arcésio foi gerado o só Laertes;
- Só foi deste meu pai; só fui de Ulisses,
- Que não fruiu das filiais carícias.
- Tem ora inçada a casa de inimigos:
- De Ítaca bronca, de Zacinto umbrosa,
- E de Same e Dulíquio, os optimates
- Requestam minha mãe, seus bens consomem
- Ela as núpcias odiosas nem rejeita,
- Nem as conclui; entanto, os pretendentes
- Hão de em breve de todo arruinar-me:
- Jaz porém minha sorte aos pés dos numes.
- Eumeu, sus, à rainha me anuncies
- Incólume de Pilos: cá não tardes;
- Nenhum te sinta que meu dano teça.”
- “Percebo, diz Eumeu; terei cautela.
- De uma via posso eu participá-lo
- A teu mesquinho avô? Com mágoa embora
- Do ausente filho, aos servos presidindo,
- Se nutria à vontade; mas, a Pilos
- Dês que te foste, o vinho enteja e o pasto,
- Esquece-lhe o trabalho, e geme e chora,
- Tábida a cútis se lhe apega aos ossos.”
- “Triste aflição! Telêmaco pondera;
- Mas deixá-lo na dor convém por ora:
- A nosso arbítrio se estivesse tudo,
- Era aqui já meu pai. Tu anda e volta,
- Para o avisar no campo não divagues;
- Minha mãe que despache a despenseira,
- E esta em segredo o comunique ao velho.”
- As sandálias Eumeu calçado, parte.
- A partida a Minerva não se esconde
- Que tem-se à entrada, na gentil figura
- De moça airosa e no lavor perita.
- A Telêmaco invisa (um nume a todos
- Não se apresenta), Ulisses a descobre,
- E os cães também, que sem ladrar fugiam
- Pelo pátio a ganir. Das sobrancelhas
- Ao sinal, entendido sai da choça
- E extramuros o herói; fronteira Palas:
- “Divo Laércio, diz, abre-te agora
- Com teu filho; à cidade encaminhai-vos
- O extermínio a tramar dos pretendentes:
- Sem mora a combater serei convosco.”
- Eis de áurea vara o toca; da alva capa
- E da túnica dantes o reveste,
- O engrandece e vigora o nédio rosto,
- Morena a cor de novo, azula a barba.
- Isto completo, retirou-se Palas.
- Volve Ulisses; pasmado o filho caro
- Vira os olhos, temendo que um deus fosse,
- Veloz fala: “Diverso me apareces,
- Tens, hóspede, outras vestes e outra cútis;
- Certo és um dos celícolas. Benigno
- Tu nos perdoa, e gratos sacrifícios
- E áureos dons haverás.” Súbito Ulisses:
- “Não sou deus, a imortais não me equipares;
- Sou teu pai, sou quem choras, quem suspiras,
- Por quem padeces vitupérios tantos.”
- Nisto a seu filho beija, e à terra a pares,
- Não mais contidas, lágrimas borbulham.
- Mas Telêmaco incerto: “Eu não te creio;
- Não és meu pai, és deus que assim me enganas
- E aumentas minha dor. Um simples homem
- Por si não se transforma em velho ou moço:
- Tu, decrépito há pouco e mal trajado,
- Um íncola do Olimpo ora semelhas.”
- Contesta o sábio herói: “Não te é decente
- Filho, surpresa tal, nem outro Ulisses
- Verás; sou eu, que, após tremendas provas,
- Chego ao vigéssimo ano à pátria amada.
- A predadora Palas me converte
- Num apôsto mancebo ou num pediente:
- A prazer, aos celícolas é fácil
- Tornar qualquer mortal formoso ou torpe.”
- Aqui, sentou-se; o príncipe entre os braços
- O estreita a soluçar: incita o amplexo
- O desejo de lágrimas em ambos:
- Seus gemidos estrugem, quanto os grasnos
- De abutres e águias de recurvas unhas,
- A quem pilhou pastor ninhada implume.
- E o Sol cadente em prantos o deixara,
- Se Telêmaco ao pai não perguntasse:
- “Que nautas cá, meu pai, te conduziram?
- A Ítaca a pé de certo não vieste.”
- O paciente Ulisses respondeu-lhe:
- Transportaram-me os ínclitos Feaces,
- Que usam fazê-lo aos mais que lá naufragam.
- No ligeiro baixel dormindo sempre,
- Fui deposto na praia, de ouro e cobre
- E belas teias rico; dons que em antro
- Por divino favor se arrecadaram.
- Palas mandou-me aqui tratar contigo
- Do estrago desses procos: quais e quantos
- Numera-os tu; pois no ânimo valente
- Pesarei se podemos debelá-los,
- Ou se nos é mister auxílio estranho.”
- Mas Telêmaco: “Eu sei, pregoa a fama,
- Quão prudente és, meu pai, guerreiro e forte;
- Nímio porém me assombra o teu discurso:
- Dous sós, tantos valentes combatermos!
- Nem dez são, nem o dobro: enviou Dulíquio
- Cinqüenta e dous galhardos, com seis pajens;
- Oitenta e quatro, Same; tem Zacinto
- Vinte Gregos de prol; Ítaca mesma,
- Ótimos doze, com Médon arauto
- E o cantor, mais dous hábeis cozinheiros.
- Temo, se a todos atacarmos dentro,
- Que proves ao regresso amargos transes:
- Olha se ativo auxiliar careias.”
- Ulisses retorquiu-lhe: “Ouve-me; atenta
- Se nos bastam Minerva e o pai Satúrnio,
- Ou se outro ajudador nos é preciso.”
- Logo o filho: “Esses podem lá das nuvens,
- Mais que homens e outros numes, socorrer-nos.”
- De novo Ulisses: “Longo tempo fora
- Não serão da peleja, ao decidi-la
- Em meu palácio o marcial denodo.
- Vai n’alva reunir-te aos arrogantes;
- Serei, na forma de um mendigo anoso,
- Guiado por Eumeu. Sofre no peito
- Que da nossa morada eles me enxotem,
- Rojem-me a pontapés e golpes vibrem;
- Com doçura os modera, a dor sopeia:
- Nenhum te escutará, que os cerra o fado.
- N’alma isto agora imprime: quando Palas
- Mo influir, ao meu nuto as armas leves,
- Que estão na sala, para o andar cimeiro;
- E caso alguém o estranhe, assim te escuses:
- — Quais as deixou meu pai, já não luziam,
- Do vapor do fogão fui preservá-las;
- E outro medo o Satúrnio suscitou-me:
- Entre os copos, ferir-vos poderíeis,
- Nosso convívio e os esponsais manchando;
- Pois a força do ferro atrai o homem.
- Reserva para nós só dous alfanjes,
- Dous maneiros broquéis e lanças duas,
- Para a divina empresa: hão de Minerva
- E o providente Jove conturbá-los.
- E se és meu sangue, filho, em ti sepultes
- Este arcano; de Ulisses ninguém saiba.
- Laertes, o pastor, qualquer dos servos,
- Nem Penélope mesma. Só tentemos
- O pensar das mulheres; qual dos nossos
- Nos respeita e aprecia; de seus amos
- Qual ingrato se esquece e te honra pouco.”
- E o filho: “Ó pai, conhecerás, espero,
- Que nem cobarde sou, nem leviano:
- Mas julgo, e tu reflitas, que a nós ambos
- É dúbio o lance. Ao passo que examines
- Os servos um por um, de prédio em prédio,
- Os tais sem dó nem pejo a casa esbanjam.
- Das mulheres, concordo, é bom que indagues,
- Das ruins que teus lares enxovalham:
- Quanto aos homens, difere até que acene,
- Se teu acenar, o egípero Satúrnio”
- Entretanto, abordava a nau remeira
- Que trouxera a Telêmaco de Pilos;
- Em seco e desarmada, os da equipagem
- De Clito em casa os ricos dons puseram.
- À prudente rainha arauto expedem
- A anunciar que o filho, já no campo,
- Os mandava vogar para a cidade;
- E a mãe suspenda os prantos e os temores:
- O arauto e Eumeu se encontram no caminho.
- Do rei divino ao pórtico chegados,
- O arauto grita em público: “Senhora
- Veio o caro Telêmaco.” Em voz baixa
- Expondo Eumeu do príncipe o recado,
- Sai do recinto e a seus currais se torna.
- Mestos os pretendentes, ante as portas
- Sentam-se externas. De Pólibo o nado
- Eurímaco encetou: “Cumpriu-se, amigos,
- Plano audaz que julgávamos falhasse,
- E regressou Telêmaco: esquipemos
- Outro lesto baixel que advirta os sócios.”
- E vôlto ao mar Anfínomo, um navio
- Entrando a remos no profundo porto
- Viu, já dobrado o pano, e a rir começa:
- “É supérfluo um aviso, ei-los que arribam.
- Ou lho disse algum deus, ou deram caça
- E lhes fugiu Telêmaco.” Eles presto
- Vão-se à praia; a maruja, a nau varada,
- A despia de enxárcias e aparelhos.
- Ali junto um conselho, sem que ou moço
- Ou velho se abancasse, Antino enceta:
- “Os Céus a ponto, amigos, o salvaram!
- De dia assíduas em ventosos cumes
- Sentinelas havia; ao Sol ocaso.
- Rumo do mar, à noite navegando,
- Nunca em terra dormíamos, à espera
- Que ao rosicler da aurora aparecesse
- E insidiado vítima nos fosse:
- Um nume o protegeu. Deliberemos:
- Se viver, malogrado é nosso intento.
- Ele é firme e discreto, e já não somos
- Como dantes benquistos: crede, ao povo
- Excitado arengando em parlamento,
- A nossa trama explicará baldia;
- E o povo em sanha, desta ação bramindo
- Pode exilar-nos para estranha terra.
- Ou no campo ou na estrada combinemos
- Dar cabo dele: haveres e tesouros
- Partilhando igualmente, à mãe cedemos,
- E ao marido que eleja, este palácio.
- Vivo se inda o quereis, e em plena posse
- Dos bens paternos, é melhor cessarmos
- De lhos comer; e cada qual, dotando-a,
- A resqueste de casa: ela que espose
- Quem mais a prende ou favoneie a sorte.”
- Emudeceram; mas ergueu-se Anfínomo,
- Do Axetíades Niso real prole,
- Chefe dos procos de Dulíquio herbosa
- E pingue em cereais, por bom e afável
- Mais à rainha grato, e orou sisudo:
- “Amigos, eu me oponho. A régio garfo
- Árduo é matar; os deuses consultemos:
- Se o reto Jove o aprova, eu mesmo os golpes
- Hei de vibrar afouto e compelir-vos;
- Do contrário, nos cumpre aquietarmos.”
- Prevalece este aviso, e levantados,
- Vão-se ao palácio em tronos se recostam.
- A sensata Penélope, instruída
- Pelo arauto Médon do atroz conluio,
- Presentar-se resolve aos afrontosos;
- Entre mulheres, véu luzido ao rosto,
- Majestosa ao limiar da ornada sala,
- Increpa Antino: “Em vão, cruel, te aclamam
- Dos coevos primeiro em siso e falas;
- Néscio, ante Jove aos súplices atento,
- Urdes ao meu Telêmaco a ruína!
- É ímpio de outrem cogitar a morte,
- Esqueces que teu pai teve este asilo,
- Fugindo à multidão, pós ele acesa
- Porque aos Táfios ladrões se unira em dano
- Dos aliados nossos os Tesprotes?
- Rasgar-lhe o peito e os bens queria o povo
- Destruir-lhe; o furor susteve Ulisses:
- Desonras deste a casa, a esposa tentas,
- Matas-lhe o filho, minha dor cumulas.
- Cessa, Antino, e teus cúmplices que cessem.”
- Eurímaco arengou: “De Icário, ó prole,
- Bane d’alma o temor; nem há, nem houve,
- Nem haverá quem mãos ponha em teu filho,
- Enquanto eu vir o Sol. Digo e executo:
- Nesse traidor ensoparia a lança.
- O turrífrago Ulisses amiúde
- Aos joelhos me serviu de vinho e carnes:
- A Telêmaco eu amo sobre todos.
- Não receies que a morte lhe inflijamos:
- A que vem do Supremo não se evita.”
- Ele a conforta, e o crime ruminava.
- Ela sobe, e na câmara estupenda
- Geme o querido esposo, até que os lumes
- A olhi-cerúlea em sono lhe abebera.
- Vindo o pastor à tarde, para a ceia
- Um bácoro feriu. Da vara ao toque,
- Logo, ao Laércio avelhantou Minerva,
- Em trapos o envolveu: se o conhecesse,
- Poderia a Penélope ir contá-lo,
- E um nem outro conter-se. — “Eumeu divino,
- Adiantou-se o mancebo, que há de novo?
- Estão já dentro os arrogantes procos,
- Ou de espera no estreito me insidiam?”
- Respondeste, ó pastor: “Vagar não tive
- De o saber; apressado as ruas corto,
- Noticio e regresso. Mas um núncio
- Topou-me, que teus sócios expediram;
- Ele é que a tua mãe falou primeiro.
- Ouve agora o que vi: já fora estava
- De Mercúrio no monte, quando o porto
- Navio entrou veloz, de gente cheio,
- De éreos broquéis e bipontudas lanças:
- Que eles eram suspeito, eu não to afirmo.”
- Olhos volvendo ao pai, sorri-se o moço
- E esquiva os do pastor. Já pronto o assado,
- Logram-se do convívio, sem queixume
- De porções desiguais. Depois, refeitos,
- Na cama em sono doce adormeceram.