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OdisseiaLivro XVIII
LivroXVIII

De insano ventre em público mendigo

324 versos · 7 notas do tradutor


  1. De insano ventre em público mendigo,
  2. Que a todos por glutão levava as lampas,
  3. Alto e vistoso, se cobarde e fraco,
  4. Ali surgiu: da mãe chamado Arnaios,
  5. Iros a rapaziada o apelidava,
  6. Por solícito e pronto recadista.
  7. A Ulisses do seu pórtico expelindo,
  8. Ultrajoso bradou: “Sai daqui, velho;
  9. Senão, de um pé te arrasto: vês que em roda
  10. Piscam-me os olhos? de o fazer me pejo;
  11. Mas põe-te fora, ou te haverás comigo.”
  12. Turvo Ulisses: “Ruim, nem te injurio,
  13. Nem te invejo as fortunas e os proveitos.
  14. No largo limiar cabemos ambos:
  15. Que mesquinho ciúme! Um vagabundo,
  16. Como eu, pareces: a riqueza aos numes
  17. Toca a distribuir. Não me provoques
  18. E encolerizes; velho embora, os peitos
  19. E os beiços hei de em breve ensangüentar-te;
  20. Estaria amanhã mais sossegado;
  21. Pois do Laércio à casa não voltavas.”
  22. É Iros em sanha: “Hui! ronca o parasito
  23. Como velha fornalha! Se nos queixos
  24. Lhe finco os punhos, rolarão seus dentes,
  25. Qual se os de cerdo fossem rói-searas.
  26. Os lombos cinge, combater nos vejam:
  27. A arrostar um mancebo te abalanças?”
  28. Ante os portões brilhantes a pendência
  29. Antino adverte, e galhofeiro grita:
  30. “Oh! que novo prazer o Céu nos manda!
  31. Iros e o forasteiro, amigos, tentam
  32. Vir às mãos: a brigar os aticemos.”
  33. E todos, levantando-se às risadas,
  34. Aos dous pobres trapentos se avizinham.
  35. Prossegue o de Eupiteu: “Valentes procos,
  36. Há no fogão ventrículos de cabras,
  37. De gordura e de sangue repassados
  38. Para a ceia: o mais forte e vitorioso
  39. Escolha um que lhe apraza; e de hoje avante
  40. Seja em nossos festins, nem admitamos
  41. Outro qualquer mendigo.” — O aplauso ecoa.
  42. E o manhoso Laércio humilde fala:
  43. “Velho e estragado, cumpre-me, senhores,
  44. A um moço me arrojar; a expor-me a golpes
  45. Força a insensata fome. Eia, jurai-me
  46. Iros nunca ajudar com mão traidora;
  47. Ser-me-ia dura a prova.” — Eles juraram,
  48. Mas Telêmaco enérgico se exprime:
  49. “Se, hóspede, o peito varonil te pede
  50. Rechaçá-lo, a nenhum dos Gregos temas;
  51. Quem te ofender, se baterá com outros.
  52. Agasalhei-te, e basta; não mo estranham
  53. Os reis Antino e Eurímaco atinados.”
  54. A aprovação retumba; e Ulisses panos
  55. Aos pudendos ligando, pulcros braços,
  56. Pernas, coxas desnua, peitos, ombros:
  57. Dos povos ao pastor Minerva engrossa
  58. Os rijos membros. Foi geral o espanto,
  59. E entre si boquejavam: “Desta feita
  60. Iros, não Iros já, cai no seu brete;
  61. Que músculos ostenta o forasteiro!”
  62. Iros turbou-se; os fâmulos o cingem,
  63. Trazem-no a rojo, e as carnes lhe tremiam;
  64. Antino lho exprobou: “Nunca nasceras;
  65. Mal hajas, fanfarrão, que estás convulso
  66. Por um velho alquebrado! Se és vencido,
  67. Irás, te afirmo, em barco de Epirotas
  68. Ao régio Aquetos, cru flagelo de homens,
  69. Que orelhas e nariz te corte a bronze,
  70. E arranque os genitais e a cães os deite.”
  71. Iros mais estremece; ao meio o arrastam;
  72. Armam-se os punhos logo. O divo Ulisses,
  73. Calculando se exânime o prosterne
  74. Ou só ferido, acha melhor poupá-lo;
  75. Teme excitar suspeita. No ombro destro
  76. Iros deu; mas ao colo sob a orelha
  77. Murro apanhou que os ossos lhe machuca:
  78. Vomita rubro sangue, a mugir tomba,
  79. Os dentes entrechoca, e esperneando
  80. Bate e recalca a terra. Os feros procos,
  81. Alçando as mãos, de riso rebentavam;
  82. Mas lesto um pé lhe trava e o roja Ulisses
  83. Do vestíbulo ao pátio, e fora o encosta;
  84. Um pau lhe entrega e diz: “Com este agora
  85. Porcos afasta e cães; vil, não te arrogues
  86. Predomínio em pedintes e estrangeiros:
  87. Olha que inda pior não te aconteça.”
  88. E, preso às costas com torcidos loros
  89. O torpe alforge, ao liminar descansa.
  90. A rirem de prazer, o lisonjeiam:
  91. “Hóspede, o Céu te faça o que mais queiras,
  92. Pois todo o povo de um glutão livraste;
  93. Será do rei do Epiro.” — Do presságio
  94. O divo herói folgava. Antino um gordo
  95. Ventrículo de cabra lhe apresenta;
  96. Anfínomo lhe tira do açafate
  97. Alvos dous pães, e de áurea taça o brinda:
  98. “Salve! um dia opulência, ó padre, alcances,
  99. Já que tanta miséria hás padecido.”
  100. “Anfínomo, o adverte o sábio Ulisses,
  101. És fecundo, e a prudência denuncias
  102. De teu pai Niso, que de rico e humano
  103. Campa em Dulíquio; atende-me e pondera.
  104. De quanto cá respira e cá rasteja,
  105. Nada é mais lastimável do que o homem:
  106. No seu vigor e próspera fortuna,
  107. Com desgraça não conta, e se esta o assalta,
  108. Não sabe suportá-la e acusa os deuses;
  109. Pois têm versátil ânimo os terrestres,
  110. Segundo altera Júpiter os dias.
  111. No tempo em que eu passava por ditoso,
  112. Muita injustiça obrei, nas próprias forças,
  113. No genitor e meus irmãos, fiado,
  114. Ímprobo ninguém seja; em paz gozemos
  115. O que o Céu nos outorgue. Os procos vejo
  116. Consumindo, abatendo, violentando
  117. A mulher de um varão, que perto enxergo.
  118. Levem-te à casa os deuses, não te encontre
  119. À hora da vingança: eu não presumo
  120. Quem sem sangue se expurgue este palácio.”
  121. Eis liba o doce vinho, e a taça rende
  122. Ao maioral Anfínomo. Este a sala,
  123. A cabeça tristonho sacudindo,
  124. Pressago atravessava, e à Parca adicto,
  125. Sentar-se foi, reposto por Minerva,
  126. Que à lança de Telêmaco o destina.
  127. De Icário à filha a mesma Olhicerúlea
  128. Mostrar-se inspira, a fim que excite os procos
  129. E ante o filho e o marido mais se exalte.
  130. Com leve riso: “Eurínoma, diz ela.
  131. Desejo ir aos amantes odiosos,
  132. E a meu filho avisar que o trato fuja
  133. De homens com fel no peito e mel nos lábios.”
  134. “Tens razão, filha, a econôma responde;
  135. Repreende-o, nada omitas. Mas primeiro
  136. Banha o corpo, unge as faces; não turvado
  137. Apareça de lágrimas teu rosto:
  138. Chorar contínuo dana. Vai, com barba
  139. Ei-lo já, como aos numes suplicavas.”
  140. “Ama, insiste a rainha, tu zelosa
  141. De abluções e perfumes não me fales:
  142. Os imortais meu brilho embaciaram,
  143. Dês que ele a Tróia andou. Por companheiras
  144. Cá me envies Autônoe e Hipodâmia:
  145. De ir só ter com varões tenho vergonha.”
  146. A chamar as mulheres corre a velha.
  147. Súbito Palas em suave sono
  148. Os membros ensopou da Icária prole,
  149. Que adormeceu no leito reclinada;
  150. Limpou-lhe o vulto com divina ambrosia,
  151. Para que mais a admirem, como Vênus
  152. Engrinaldada se unta e purifica,
  153. Das Graças quando parte ao coro amável;
  154. Fê-la mais alva que o marfim recente,
  155. Mais nédia e esbelta. Retirou-se a deusa,
  156. Das braciníveas servas ao ruído;
  157. Ela acorda, e a falar se entrega e enxuga:
  158. “Aliviou-me o sono os pesadumes.
  159. Doce morte ah! mandasse a casta diva,
  160. Para não mais gastar os anos tristes,
  161. Saudosa do marido, que era aos Dânaos
  162. Em qualquer das virtudes vivo espelho!”
  163. Não só, das duas fâmulas no meio,
  164. Gentil baixa da câmara estupenda;
  165. À portada soberba, o véu luzido
  166. Proclina, e ao vê-la, de joelhos frouxos,
  167. Em êxtases de amor, ficaram todos
  168. Por seu leito almejando. Assim prorrompe:
  169. “O juízo, meu Telêmaco, perdeste.
  170. Menino, eras cordato: hoje, que és púbere,
  171. E quem quer, pelo talhe e galhardia,
  172. De opulento senhor dir-te-á nascido,
  173. Não tens mais sisudeza nem justiça.
  174. Nesta casa cometem-se atentados,
  175. A teu hóspede insultam: que! permites,
  176. Sem temor da desonra e eterno opróbrio,
  177. Que em nosso lar um peregrino vexem!”
  178. “Minha mãe, torna o jovem, que te agastes
  179. Não o estranho. Hoje n’alma o justo e injusto
  180. Sei pesar; mas, há pouco na puerícia,
  181. Ter não posso prudência consumada.
  182. Falto de auxílio, empecem-me contrários,
  183. Que uns dos outros a par forjam meu dano:
  184. Só culpa eles não têm na briga de Iros
  185. Com o estrangeiro, vencedor pujante.
  186. Jove, Palas e Apolo, assim permitam
  187. Que nesta sala ou no átrio os procos jazam,
  188. As cabeças nutando esmorecidos,
  189. Como, qual ébrio, às portas jaz externas
  190. Laxo dos membros Iros, não podendo
  191. Em pé ter-se ou voltar ao seu tugúrio.”
  192. Entremeteu-se Eurímaco: “Rainha,
  193. Se outros em Argos de Jasão te vissem,
  194. Amantes amanhã mais numerosos
  195. Conviver cá viriam; pois superas
  196. As demais em beleza e garbo e tino.”
  197. Contestou-lhe modesta: “O Céu tirou-me
  198. Forças, beleza e tino, assim que os Dânaos
  199. Me levaram consigo a Tróia Ulisses.
  200. Venha, mande-me e reja, e a minha glória
  201. Mais resplendeceria: hoje um demônio
  202. Me entristece e comprime. Ele, à partida,
  203. A destra me travou: — Mulher nem todos
  204. Escaparemos; pois tem fama os Teucros
  205. De hábeis em dardo e seta, em coches destros,
  206. Que a vitória decidem na refrega:
  207. Se um deus me salve ignoro, ou se ali morra.
  208. Tudo regra; inda mais te recomendo
  209. Meu pai e minha mãe. Barbado o filho,
  210. Deixa-lhe os bens e casa-te. — Assim disse,
  211. E o tempo se perfez: negreja a noite
  212. Em que às núpcias me obrigue o infausto Jove.
  213. Mas uma dor me pesa: era o costume
  214. Dos que herdeira opulenta requestavam,
  215. Prodigando-lhe prendas, bois e ovelhas,
  216. Banquetear amigos da esposada;
  217. Mas não comer impune à custa alheia.”
  218. Folga o herói de que as dávidas atraia,
  219. E o pensamento encubra com lisonjas.
  220. E Antino: “Aceita, Icária, ofertas nossas,
  221. Mau seria enjeitar; mas cá seremos,
  222. Té um marido livremente escolhas.”
  223. Eles, de acordo, arautos já despacham.
  224. O Eupiteides recebe um fino peplo,
  225. De áureas doze fivelas abrochado
  226. E curvos alamares, grande e vário;
  227. Eurímaco, artefata gargantilha
  228. De electro e ouro, como o Sol fulgente;
  229. Eurídamas, dous brincos de três gemas;
  230. O régio Politórides Pisandro,
  231. Colar brilhante; os mais seus dons presentam.
  232. Sobe ela, e tudo as fâmulas carregam.
  233. Em danças e tangeres permanecem;
  234. E, quando aponta Vésper, três lucernas
  235. Acendem, sêca lenha em roda, a bronze
  236. Pouco há fendida, e archotes acrescentam:
  237. As servas por seu turno o fogo atiçam.
  238. Cauto o herói: “Vós do triste ausente escravas,
  239. Ide, ou fusos torcendo ou lãs cardando,
  240. Aliviar a augusta soberana.
  241. Do lume para todos me encarrego,
  242. Bem que os ache a velar a pulcra aurora;
  243. Pois, avezado, a lidas não fraqueio.”
  244. Riram-se umas olhando para as outras,
  245. E o insultou Melântia, gentil prole
  246. De Dólio, de Penélope em menina
  247. Como filha amimada, e ingrata sempre
  248. À criação, de Eurímaco era amásia:
  249. “Mentecapto, o argúi, tu nem te abrigas
  250. De um fabro na oficina ou vil baiúca,
  251. Nem de galrar te pejas entre os grandes:
  252. Turba-te o vinho, ou louco, ou vitorioso
  253. De Iros, ufano estás. Pode um, que surja,
  254. Calamocado e em sangue rechaçar-te.”
  255. Ele a mediu: “Cachorra, esse descôco,
  256. Para em peças Telêmaco picar-te,
  257. Lho contarei.” De susto e esmorecidas,
  258. Crendo que era verdade, pela sala
  259. Vão-se a tremer. Atento e em pé vigia
  260. Nas lucernas Ulisses, mas revolve
  261. No âmago planos, que írritos não foram.
  262. Prosseguem nos insultos, porque Palas
  263. Quer do Laércio o peito mais pungido.
  264. Eurímaco de Pólibo chasqueia
  265. E excita o riso: “O coração vos abro,
  266. Claríssimos rivais. Foi certo um nume
  267. Que o dirigiu de Ulisses à morada:
  268. Na cabeça não tendo um só cabelo,
  269. A lisa calva é mais uma lanterna.”
  270. E vôlto ao forte urbífrago: “Salário
  271. Enjeitarás, vindiço, em minha herdade,
  272. Sebes tecendo e árvores plantando?
  273. Que! só no mal sabido e preguiçoso,
  274. Preferes mendigar de porta em porta,
  275. Por cevares o ventre insaciável.”
  276. “Se em jejum, diz o herói, té vir a tarde,
  277. Fouce na mão, nos longos vernais dias,
  278. Num vasto campo, Eurímaco, apostássemos,
  279. Roçaria eu mais erva. Junta eu reja
  280. De bois iguais, robustos e medrados,
  281. A charrua a puxar por quatro jeiras;
  282. Verás ceder-me a gleba, e como rasgo
  283. Profundos regos. Se hoje o grã Satúrnio,
  284. Guerra ateando armasse-me de escudo
  285. E lanças e éreo casco, antessignano
  286. Ver-me-ias combater, sem que exprobrares
  287. A penúria e pobreza. És nímio injusto,
  288. Nímio orgulhoso; bravo te apregoam,
  289. Porque estás entre poucos e cobardes:
  290. Surja Ulisses; as portas, bem que largas,
  291. Ser-te-iam todas para a fuga estreitas.”
  292. Eurímaco em furor, carrega o vulto:
  293. “Ah! mísero, teu mal te aumento agora.
  294. De galrar não te pejas entre os grandes:
  295. Turba-te o vinho, ou louco, ou vitorioso
  296. De Iros, ufano estás.” Eis do escabelo,
  297. Subtraído o Laércio aos pés de Anfínomo,
  298. O golpe do escanção na destra bate;
  299. Supino cai chorando, e o jarro tine.
  300. Tumultuam na sala umbrosa os procos,
  301. A dizer: “Que alvorôto lamentável!
  302. Longe antes perecesse o vagabundo!
  303. Que rixemos consegue um vil mendigo,
  304. E o prazer dos festins dessaboreia.”
  305. Enérgico Telêmaco: “Insensatos!
  306. Basta. Algum deus por certo vos concita.
  307. A dormir saciados retirai-vos,
  308. Quando quiserdes; a ninguém expulso.”
  309. Todos, mordendo os beiços, da ousadia
  310. Pasmavam; mas Anfínomo, de Niso
  311. Aretíades filho, assim discorre:
  312. “Não vos irrite, amigos, o que é justo;
  313. Não trateis com dureza o forasteiro,
  314. Ou qualquer servo do divino Ulisses.
  315. Eia, o escanção de novo arrase os copos;
  316. Libemos, e a deitarmo-nos partamos.
  317. Do hóspede recebido nos seus lares
  318. Incumba-se Telêmaco à vontade.”
  319. Aprouve o dito. Múlio, o Dulinquiense
  320. Arauto e seu ministro, na cratera
  321. Mescla a bebida e em cerco a distribui;
  322. Aos beatos celícolas brindando,
  323. Repletos vão-se do licor melífluo,
  324. Cada qual em seu leito a repousar-se.

Nota a nota · 7 notas

v. 5–10Iros a rapaziada o apelidava,
Iros em grego é o que faz recados. Piscar os olhos diz o original; frases do estilo cômico, adequada às pessoas e às circunstâncias.
↩ voltar à passagem, v. 5
v. 67–70Irás, te afirmo, em barco de Epirotas
Tanto na antiguidade, como hoje em dia, uma grande ameaça é a de venderem o escravo a indivíduos ou famílias de reconhecido rigor e dureza.
↩ voltar à passagem, v. 67
v. 76–93Iros deu; mas ao colo sob a orelha ⋯ Será do rei do Epiro.” — Do presságio
Um murro debaixo da orelha e ao pescoço, sendo em uma das extremidades dos queixos, não podia fazer saltar os dentes; e com razão o intérprete latino diz que não lhe esmigalhou os ossos, e só lhe fez uma forte lesão: alguns porém opinam erradamente em sentido contrário. — O verso 93 fala em presságio, porque julgava-se de feliz anúncio a felicitação do inimigo, como eram os procos de Ulisses, a quem disfarçado não conheciam.
↩ voltar à passagem, v. 76
v. 200Venha, mande-me e reja, e a minha glória
Pensam tradutores que Penélope deseja a vinda do marido para governar-lhe os bens; mas o pensamento da rainha é o de uma honrada mulher, que de bom grado se quer submeter à autoridade marital; e esta submissão devera causar grande prazer a Ulisses, que ali se achava encoberto. Este mesmo pensamento, exprimido com os toques maviosos de Voltaire, enternece muitíssimo na sua Zaira, obra-prima, que os beatos buscam rebaixar, mas que o não pode ser por quantos conventos, capítulos ou confrarias, existem sobre a terra.
↩ voltar ao verso 200
v. 268–269Na cabeça não tendo um só cabelo,
Busquei tornar este lugar o mais cômico, por ser tal a intenção de Homero: autorizado pelos antecedentes, verto eu que a lisa calva de Ulisses era uma lanterna que alumiava a sala; assim, aclarei a idéia do autor.
↩ voltar à passagem, v. 268
v. 294–296De galrar não te pejas entre os grandes:
Estes versos são os mesmos que proferiu Melântia pouco atrás; mas, sendo ela amásia de Eurimaco, este, que a tinha ouvido minutos antes, não é fora do natural que repetisse as mesmas expressões ao declarar o mesmo pensamento; pois devera prestar muitíssima atenção à disputa havida entre a serva e o falso mendigo.
↩ voltar à passagem, v. 294
v. 298O golpe do escanção na destra bate;
Opinei que em Homero não há copeiro ou despenseiro, porque este ofício é exercido por mulher. Note-se porém que o escanção, ou o que ministra o vinho e enche os copos, era homem.
↩ voltar ao verso 298
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