De insano ventre em público mendigo
324 versos · 7 notas do tradutor
- De insano ventre em público mendigo,
- Que a todos por glutão levava as lampas,
- Alto e vistoso, se cobarde e fraco,
- Ali surgiu: da mãe chamado Arnaios,
- Iros a rapaziada o apelidava,
- Por solícito e pronto recadista.
- A Ulisses do seu pórtico expelindo,
- Ultrajoso bradou: “Sai daqui, velho;
- Senão, de um pé te arrasto: vês que em roda
- Piscam-me os olhos? de o fazer me pejo;
- Mas põe-te fora, ou te haverás comigo.”
- Turvo Ulisses: “Ruim, nem te injurio,
- Nem te invejo as fortunas e os proveitos.
- No largo limiar cabemos ambos:
- Que mesquinho ciúme! Um vagabundo,
- Como eu, pareces: a riqueza aos numes
- Toca a distribuir. Não me provoques
- E encolerizes; velho embora, os peitos
- E os beiços hei de em breve ensangüentar-te;
- Estaria amanhã mais sossegado;
- Pois do Laércio à casa não voltavas.”
- É Iros em sanha: “Hui! ronca o parasito
- Como velha fornalha! Se nos queixos
- Lhe finco os punhos, rolarão seus dentes,
- Qual se os de cerdo fossem rói-searas.
- Os lombos cinge, combater nos vejam:
- A arrostar um mancebo te abalanças?”
- Ante os portões brilhantes a pendência
- Antino adverte, e galhofeiro grita:
- “Oh! que novo prazer o Céu nos manda!
- Iros e o forasteiro, amigos, tentam
- Vir às mãos: a brigar os aticemos.”
- E todos, levantando-se às risadas,
- Aos dous pobres trapentos se avizinham.
- Prossegue o de Eupiteu: “Valentes procos,
- Há no fogão ventrículos de cabras,
- De gordura e de sangue repassados
- Para a ceia: o mais forte e vitorioso
- Escolha um que lhe apraza; e de hoje avante
- Seja em nossos festins, nem admitamos
- Outro qualquer mendigo.” — O aplauso ecoa.
- E o manhoso Laércio humilde fala:
- “Velho e estragado, cumpre-me, senhores,
- A um moço me arrojar; a expor-me a golpes
- Força a insensata fome. Eia, jurai-me
- Iros nunca ajudar com mão traidora;
- Ser-me-ia dura a prova.” — Eles juraram,
- Mas Telêmaco enérgico se exprime:
- “Se, hóspede, o peito varonil te pede
- Rechaçá-lo, a nenhum dos Gregos temas;
- Quem te ofender, se baterá com outros.
- Agasalhei-te, e basta; não mo estranham
- Os reis Antino e Eurímaco atinados.”
- A aprovação retumba; e Ulisses panos
- Aos pudendos ligando, pulcros braços,
- Pernas, coxas desnua, peitos, ombros:
- Dos povos ao pastor Minerva engrossa
- Os rijos membros. Foi geral o espanto,
- E entre si boquejavam: “Desta feita
- Iros, não Iros já, cai no seu brete;
- Que músculos ostenta o forasteiro!”
- Iros turbou-se; os fâmulos o cingem,
- Trazem-no a rojo, e as carnes lhe tremiam;
- Antino lho exprobou: “Nunca nasceras;
- Mal hajas, fanfarrão, que estás convulso
- Por um velho alquebrado! Se és vencido,
- Irás, te afirmo, em barco de Epirotas
- Ao régio Aquetos, cru flagelo de homens,
- Que orelhas e nariz te corte a bronze,
- E arranque os genitais e a cães os deite.”
- Iros mais estremece; ao meio o arrastam;
- Armam-se os punhos logo. O divo Ulisses,
- Calculando se exânime o prosterne
- Ou só ferido, acha melhor poupá-lo;
- Teme excitar suspeita. No ombro destro
- Iros deu; mas ao colo sob a orelha
- Murro apanhou que os ossos lhe machuca:
- Vomita rubro sangue, a mugir tomba,
- Os dentes entrechoca, e esperneando
- Bate e recalca a terra. Os feros procos,
- Alçando as mãos, de riso rebentavam;
- Mas lesto um pé lhe trava e o roja Ulisses
- Do vestíbulo ao pátio, e fora o encosta;
- Um pau lhe entrega e diz: “Com este agora
- Porcos afasta e cães; vil, não te arrogues
- Predomínio em pedintes e estrangeiros:
- Olha que inda pior não te aconteça.”
- E, preso às costas com torcidos loros
- O torpe alforge, ao liminar descansa.
- A rirem de prazer, o lisonjeiam:
- “Hóspede, o Céu te faça o que mais queiras,
- Pois todo o povo de um glutão livraste;
- Será do rei do Epiro.” — Do presságio
- O divo herói folgava. Antino um gordo
- Ventrículo de cabra lhe apresenta;
- Anfínomo lhe tira do açafate
- Alvos dous pães, e de áurea taça o brinda:
- “Salve! um dia opulência, ó padre, alcances,
- Já que tanta miséria hás padecido.”
- “Anfínomo, o adverte o sábio Ulisses,
- És fecundo, e a prudência denuncias
- De teu pai Niso, que de rico e humano
- Campa em Dulíquio; atende-me e pondera.
- De quanto cá respira e cá rasteja,
- Nada é mais lastimável do que o homem:
- No seu vigor e próspera fortuna,
- Com desgraça não conta, e se esta o assalta,
- Não sabe suportá-la e acusa os deuses;
- Pois têm versátil ânimo os terrestres,
- Segundo altera Júpiter os dias.
- No tempo em que eu passava por ditoso,
- Muita injustiça obrei, nas próprias forças,
- No genitor e meus irmãos, fiado,
- Ímprobo ninguém seja; em paz gozemos
- O que o Céu nos outorgue. Os procos vejo
- Consumindo, abatendo, violentando
- A mulher de um varão, que perto enxergo.
- Levem-te à casa os deuses, não te encontre
- À hora da vingança: eu não presumo
- Quem sem sangue se expurgue este palácio.”
- Eis liba o doce vinho, e a taça rende
- Ao maioral Anfínomo. Este a sala,
- A cabeça tristonho sacudindo,
- Pressago atravessava, e à Parca adicto,
- Sentar-se foi, reposto por Minerva,
- Que à lança de Telêmaco o destina.
- De Icário à filha a mesma Olhicerúlea
- Mostrar-se inspira, a fim que excite os procos
- E ante o filho e o marido mais se exalte.
- Com leve riso: “Eurínoma, diz ela.
- Desejo ir aos amantes odiosos,
- E a meu filho avisar que o trato fuja
- De homens com fel no peito e mel nos lábios.”
- “Tens razão, filha, a econôma responde;
- Repreende-o, nada omitas. Mas primeiro
- Banha o corpo, unge as faces; não turvado
- Apareça de lágrimas teu rosto:
- Chorar contínuo dana. Vai, com barba
- Ei-lo já, como aos numes suplicavas.”
- “Ama, insiste a rainha, tu zelosa
- De abluções e perfumes não me fales:
- Os imortais meu brilho embaciaram,
- Dês que ele a Tróia andou. Por companheiras
- Cá me envies Autônoe e Hipodâmia:
- De ir só ter com varões tenho vergonha.”
- A chamar as mulheres corre a velha.
- Súbito Palas em suave sono
- Os membros ensopou da Icária prole,
- Que adormeceu no leito reclinada;
- Limpou-lhe o vulto com divina ambrosia,
- Para que mais a admirem, como Vênus
- Engrinaldada se unta e purifica,
- Das Graças quando parte ao coro amável;
- Fê-la mais alva que o marfim recente,
- Mais nédia e esbelta. Retirou-se a deusa,
- Das braciníveas servas ao ruído;
- Ela acorda, e a falar se entrega e enxuga:
- “Aliviou-me o sono os pesadumes.
- Doce morte ah! mandasse a casta diva,
- Para não mais gastar os anos tristes,
- Saudosa do marido, que era aos Dânaos
- Em qualquer das virtudes vivo espelho!”
- Não só, das duas fâmulas no meio,
- Gentil baixa da câmara estupenda;
- À portada soberba, o véu luzido
- Proclina, e ao vê-la, de joelhos frouxos,
- Em êxtases de amor, ficaram todos
- Por seu leito almejando. Assim prorrompe:
- “O juízo, meu Telêmaco, perdeste.
- Menino, eras cordato: hoje, que és púbere,
- E quem quer, pelo talhe e galhardia,
- De opulento senhor dir-te-á nascido,
- Não tens mais sisudeza nem justiça.
- Nesta casa cometem-se atentados,
- A teu hóspede insultam: que! permites,
- Sem temor da desonra e eterno opróbrio,
- Que em nosso lar um peregrino vexem!”
- “Minha mãe, torna o jovem, que te agastes
- Não o estranho. Hoje n’alma o justo e injusto
- Sei pesar; mas, há pouco na puerícia,
- Ter não posso prudência consumada.
- Falto de auxílio, empecem-me contrários,
- Que uns dos outros a par forjam meu dano:
- Só culpa eles não têm na briga de Iros
- Com o estrangeiro, vencedor pujante.
- Jove, Palas e Apolo, assim permitam
- Que nesta sala ou no átrio os procos jazam,
- As cabeças nutando esmorecidos,
- Como, qual ébrio, às portas jaz externas
- Laxo dos membros Iros, não podendo
- Em pé ter-se ou voltar ao seu tugúrio.”
- Entremeteu-se Eurímaco: “Rainha,
- Se outros em Argos de Jasão te vissem,
- Amantes amanhã mais numerosos
- Conviver cá viriam; pois superas
- As demais em beleza e garbo e tino.”
- Contestou-lhe modesta: “O Céu tirou-me
- Forças, beleza e tino, assim que os Dânaos
- Me levaram consigo a Tróia Ulisses.
- Venha, mande-me e reja, e a minha glória
- Mais resplendeceria: hoje um demônio
- Me entristece e comprime. Ele, à partida,
- A destra me travou: — Mulher nem todos
- Escaparemos; pois tem fama os Teucros
- De hábeis em dardo e seta, em coches destros,
- Que a vitória decidem na refrega:
- Se um deus me salve ignoro, ou se ali morra.
- Tudo regra; inda mais te recomendo
- Meu pai e minha mãe. Barbado o filho,
- Deixa-lhe os bens e casa-te. — Assim disse,
- E o tempo se perfez: negreja a noite
- Em que às núpcias me obrigue o infausto Jove.
- Mas uma dor me pesa: era o costume
- Dos que herdeira opulenta requestavam,
- Prodigando-lhe prendas, bois e ovelhas,
- Banquetear amigos da esposada;
- Mas não comer impune à custa alheia.”
- Folga o herói de que as dávidas atraia,
- E o pensamento encubra com lisonjas.
- E Antino: “Aceita, Icária, ofertas nossas,
- Mau seria enjeitar; mas cá seremos,
- Té um marido livremente escolhas.”
- Eles, de acordo, arautos já despacham.
- O Eupiteides recebe um fino peplo,
- De áureas doze fivelas abrochado
- E curvos alamares, grande e vário;
- Eurímaco, artefata gargantilha
- De electro e ouro, como o Sol fulgente;
- Eurídamas, dous brincos de três gemas;
- O régio Politórides Pisandro,
- Colar brilhante; os mais seus dons presentam.
- Sobe ela, e tudo as fâmulas carregam.
- Em danças e tangeres permanecem;
- E, quando aponta Vésper, três lucernas
- Acendem, sêca lenha em roda, a bronze
- Pouco há fendida, e archotes acrescentam:
- As servas por seu turno o fogo atiçam.
- Cauto o herói: “Vós do triste ausente escravas,
- Ide, ou fusos torcendo ou lãs cardando,
- Aliviar a augusta soberana.
- Do lume para todos me encarrego,
- Bem que os ache a velar a pulcra aurora;
- Pois, avezado, a lidas não fraqueio.”
- Riram-se umas olhando para as outras,
- E o insultou Melântia, gentil prole
- De Dólio, de Penélope em menina
- Como filha amimada, e ingrata sempre
- À criação, de Eurímaco era amásia:
- “Mentecapto, o argúi, tu nem te abrigas
- De um fabro na oficina ou vil baiúca,
- Nem de galrar te pejas entre os grandes:
- Turba-te o vinho, ou louco, ou vitorioso
- De Iros, ufano estás. Pode um, que surja,
- Calamocado e em sangue rechaçar-te.”
- Ele a mediu: “Cachorra, esse descôco,
- Para em peças Telêmaco picar-te,
- Lho contarei.” De susto e esmorecidas,
- Crendo que era verdade, pela sala
- Vão-se a tremer. Atento e em pé vigia
- Nas lucernas Ulisses, mas revolve
- No âmago planos, que írritos não foram.
- Prosseguem nos insultos, porque Palas
- Quer do Laércio o peito mais pungido.
- Eurímaco de Pólibo chasqueia
- E excita o riso: “O coração vos abro,
- Claríssimos rivais. Foi certo um nume
- Que o dirigiu de Ulisses à morada:
- Na cabeça não tendo um só cabelo,
- A lisa calva é mais uma lanterna.”
- E vôlto ao forte urbífrago: “Salário
- Enjeitarás, vindiço, em minha herdade,
- Sebes tecendo e árvores plantando?
- Que! só no mal sabido e preguiçoso,
- Preferes mendigar de porta em porta,
- Por cevares o ventre insaciável.”
- “Se em jejum, diz o herói, té vir a tarde,
- Fouce na mão, nos longos vernais dias,
- Num vasto campo, Eurímaco, apostássemos,
- Roçaria eu mais erva. Junta eu reja
- De bois iguais, robustos e medrados,
- A charrua a puxar por quatro jeiras;
- Verás ceder-me a gleba, e como rasgo
- Profundos regos. Se hoje o grã Satúrnio,
- Guerra ateando armasse-me de escudo
- E lanças e éreo casco, antessignano
- Ver-me-ias combater, sem que exprobrares
- A penúria e pobreza. És nímio injusto,
- Nímio orgulhoso; bravo te apregoam,
- Porque estás entre poucos e cobardes:
- Surja Ulisses; as portas, bem que largas,
- Ser-te-iam todas para a fuga estreitas.”
- Eurímaco em furor, carrega o vulto:
- “Ah! mísero, teu mal te aumento agora.
- De galrar não te pejas entre os grandes:
- Turba-te o vinho, ou louco, ou vitorioso
- De Iros, ufano estás.” Eis do escabelo,
- Subtraído o Laércio aos pés de Anfínomo,
- O golpe do escanção na destra bate;
- Supino cai chorando, e o jarro tine.
- Tumultuam na sala umbrosa os procos,
- A dizer: “Que alvorôto lamentável!
- Longe antes perecesse o vagabundo!
- Que rixemos consegue um vil mendigo,
- E o prazer dos festins dessaboreia.”
- Enérgico Telêmaco: “Insensatos!
- Basta. Algum deus por certo vos concita.
- A dormir saciados retirai-vos,
- Quando quiserdes; a ninguém expulso.”
- Todos, mordendo os beiços, da ousadia
- Pasmavam; mas Anfínomo, de Niso
- Aretíades filho, assim discorre:
- “Não vos irrite, amigos, o que é justo;
- Não trateis com dureza o forasteiro,
- Ou qualquer servo do divino Ulisses.
- Eia, o escanção de novo arrase os copos;
- Libemos, e a deitarmo-nos partamos.
- Do hóspede recebido nos seus lares
- Incumba-se Telêmaco à vontade.”
- Aprouve o dito. Múlio, o Dulinquiense
- Arauto e seu ministro, na cratera
- Mescla a bebida e em cerco a distribui;
- Aos beatos celícolas brindando,
- Repletos vão-se do licor melífluo,
- Cada qual em seu leito a repousar-se.