Mal surge a Aurora do Titônio leito
372 versos · 5 notas do tradutor
- Mal surge a Aurora do Titônio leito,
- O mundo alumiando, à corte sua
- Preside o poderoso Altitonante,
- E Minerva solícita o Laércio,
- Pela Ninfa retido, assim deplora:
- “Ó padre, ó vós beatos sempiternos,
- Cetrígero nenhum será benigno,
- Reto e humano, sim duro e injusto e fero;
- Pois ninguém, entre os povos de que Ulisses
- Era um pai, já se lembra dos pesares
- Que padece, impedido por Calipso,
- Faltando-lhe galé que à pátria o leve
- Pelo equóreo amplo dorso. O nobre herdeiro
- Traçam-lhe assassinar, que a Esparta e Pilos
- Foi do afamado pai colher notícias.”
- E o Nubícogo: “Filha, que proferes?
- Não projetaste mesma o como Ulisses
- Venha e se vingue? O filho guiar podes,
- E a nau dos pretendentes retroceda”.
- Vôlto a Mercúrio: “Núncio e amada prole,
- Já já, que a ninfa de cabelos crespos
- Solte o herói: Nem varão nem deus o ajude:
- Em tecida jangada a curtir penas,
- Ao vigésimo dia arribe à esquéria;
- Donde os Feaces, a imortais propínquos,
- Honrado a par de um nume, à terra o enviem,
- Em nau de alfaias e ouro e bronze onusta,
- Quanto nunca, se incólume tornasse,
- Do espólio que lhe coube, transportara:
- O lar e os seus rever tem por destino.”
- Calça o Argicida os áureos seus talares,
- Com que, parelho aos ventos, o amplo globo
- E o vasto mar transcursa; a vara toma
- Que, a seu prazer, dá sonos ou desperta;
- À Piéria descai, e rui dos ares
- E à tona d’água aleia, qual peixinhos
- Por inquieto golfo o guincho caça,
- Crebo na escuma as asas imergindo.
- Já do azul ponto à ínsula apartada
- Voa, e à gruta caminha de Calipso:
- De longe tuia recendia e cedro,
- Ardendo no fogão; melífluas árias
- Ela entoava, a teia percorrendo
- Com lançadeira de ouro. Em torno à gruta
- Choupo, odoro cipreste, alno viceja;
- Ali — extensas no bosque aninham-se aves,
- Gaviões e bufos, linguareiras gralhas,
- Ao marinho bulício afeiçoadas.
- Fora, parreira de pubentes ramos
- Flores em uvas; quatro fontes regam
- De água pura, chegando-se e fugindo,
- Aipos e violais em moles veigas:
- Um deus pasmado ali se deleitava,
- E o fez Mercúrio assim. Deve ver saciado,
- Ele dentro penetra, e a ninfa augusta
- Num relance o conhece; porque os deuses
- Por distantes que morem, dão-se todos.
- Lá não encontra o generoso Ulisses,
- Que era na praia, os macerados olhos
- Pelo ponto infrugífero estendendo,
- Em suspiros e lágrimas. Num trono
- Maravilhoso e esplendido sentado,
- A ninfa o inquire: “Venerando amigo,
- De áurea vara a que vens? não vinhas dantes.
- Cumprirei, no que possa, os teus mandados.
- Hospitaleiros dons vou presentar-te.”
- Ela, em mesa que alçou, mistura ambrosia
- E rubro néctar. Saboreia alegre
- E diz Mercúrio: “Deusa, em deus perguntas
- A que venho? Obrigado fui por Jove:
- Quem voluntário atravessava o ingente
- Pélago salso, onde cidade falta
- Que nos sagre solenes hecatombes?
- Mas transgredir-lhe as ordens não podemos.
- Dos que os Priameus sitiados muros
- Ao décimo ano destruíram, consta
- Que tens contigo o mais desventuroso:
- No regresso ofendida, excitou Palas
- Tempestade em que os sócios pereceram;
- Salvo abordou só ele às praias tuas.
- Quer Jove que o mais breve o deixes livre;
- Dos seus não morra ausente: amigos, pátria,
- O alto paço rever, tem por destino.”
- Freme Calipso e rápido responde:
- “Cruéis sois todos, ínvidos, ciosos
- De que em seu leito às claras uma deusa
- Mortal admita e ame e aceite esposo.
- Roubado Órion da Aurora dedirrósea,
- O invejastes, vós deuses té que Febe
- Casta e auritrônia o derribou na Ortígia
- Com brandas frechas; de Jasão cativa,
- Quando num trietérico pousio
- Com ele Ceres de anelada coma
- Ajuntou-se amorosa, a fulminá-lo
- Foi pronto Jove: agora, ó deuses, tendes
- Zelos desse homem, que salvei lutando
- Sobre a quilha de nau despedaçada
- Pelo mesmo Tonante, e que sozinho
- Arrojoram-me à ilha as negras ondas.
- Carinhosa acolhi-o, na esperança
- De isentá-lo da morte e da velhice;
- Mas do Satúrnio o mando irresistível
- Execute-se, vague pelos mares
- De novo o herói. Não posso despedi-lo;
- Vasos faltam-me e nautas que o transportem
- Por essa imana via: hei de contudo
- Mostrar-lhe o como ileso à pátria volva.”
- “Despede-o já, replica-lhe Mercúrio;
- Nunca irrites a Júpiter, nem queiras
- Irado experimentá-lo.” Disse, e foi-se.
- Dócil a ninfa, se dirige à praia
- Onde Ulisses longânimo gastava
- A doce vida, os olhos nunca enxutos,
- Saudoso e enfastiado; pois com ela
- Por comprazer dormia constrangido,
- E gemebundo, o ponto contemplando,
- Passava o dia em litoral penedo.
- Rosto a rosto lhe fala a deusa augusta:
- “Cesse o pranto, infeliz, não te consumas;
- Parte, consinto. Abate a bronze troncos,
- De alto soalho ajeita ampla jangada,
- Em que o sombrio páramo atravesses:
- De pão te hei de prover e de água e vinho,
- De agasalhada roupa; auras favônias
- Te levarão seguro à terra cara,
- Se esta for dos Supremos a vontade,
- Que em saber o juízo me superam.”
- E arrepiado o herói: “Que teces, deusa?
- Numa jangada queres tu que eu tente
- As vagas horrendíssimas, difíceis
- Às mesmas de iguais bordos naus altivas,
- Do Etéreo aos sopros a exultar afeitas?
- Não farei tal, solene se não juras
- Que nenhum dano, ó deusa, me aparelhas.”
- Sorri mansa Calipso, a mão lhe afaga:
- “És ardiloso e desconfias sempre.
- Já comigo o jurei; mas o orbe saiba,
- O céu vastíssimo, a infernal Estige
- (Grave aos numes terrível juramento),
- Que nenhum dano, Ulisses, te aparelho:
- No teu caso obraria o que proponho.
- Férrea e iníqua não sou, mas compassiva.”
- E anda e Ulisses também, que entrado ocupa
- O trono de Mercúrio; em frente, a ninfa
- Lhe oferece o que os homens alimenta,
- E as serventes a ela ambrosia e néctar.
- Saciados ambos, começou Calipso:
- “Voltar queres, astuto, em breve aos lares?
- Embora, adeus. Se as penas antevisses
- Que te aguardam, comigo em laço estreito
- Imortal ficarias, bem que aneles
- Tua esposa abraçar, cuja lembrança
- Te rala de contino; em garbo e talhe
- A sobrelevo; que as mortais não podem
- Comparar-se em beleza às divindades.”
- Ulisses respondeu: “Sublime deusa,
- Não te agraves portanto; eu sei que em tudo
- A prudente Penélope transcendes,
- Nem da morte és escrava ou da velhice;
- Mas para os lares meus partir suspiro.
- Se um deus me empece, como os já passados,
- Suportarei constante os outros males.”
- Cai a noturna treva: ambos num leito
- No amor se deliciam. Na alvorada,
- Uma túnica e um manto Ulisses veste;
- Veste a ninfa um sendal cândido e fino,
- Faixa de ouro gentil ata à cintura,
- Orna a cabeça de elegante coifa.
- A despedir o amante resignada,
- Érea forte bipene lhe fornece
- De oleagíneo cabo artificioso,
- Enxó dá-lhe amolada; aos fins o leva
- Da ilha, onde medram árvores gigantes,
- Choupo, alno, abeto e percutir as nuvens,
- Secos e aptos a vencer caminho:
- Depois que a selva mostra, à casa torna.
- Ardente ele derruba troncos vinte,
- Falca, desbasta, esquadra, alisa e talha.
- Com trados volta a ninfa; o herói verruma,
- Cavilha, junta as peças: quanto é largo
- De nau de carga o bojo, obra de mestre,
- Era a barca de Ulisses. Finca espeques,
- Pranchas estiva, um tabulado forma;
- Antena ao mastro anexa; mune o leme,
- Contra escarcéus, com vergas de salgueiro;
- Alastram-na pesados lígneos toros.
- De lona, por Calipso oferecida,
- Vela engenha, e de escotas e calabres
- O mastro apruma; enfim, sobre alavancas,
- A jangada escorrega ao mar divino.
- Ao quarto Sol perfeito o seu trabalho,
- Por despedida ao quinto a ninfa o lava,
- Perfuma e veste; o vinho em odre fecha,
- Num maior água, em saco os acepipes,
- O sustento em surrão; tépidas auras,
- Meigas invoca. O pano o divo Ulisses
- Contente expande, lesto agita o leme;
- Cortado o sono, as Plêiadas observa,
- Tardo Bootes, a Carreta ou Ursa
- Em Órion sempre fita ao revolver-se
- A só que foge os banhos do Oceano:
- Ir desta à esquerda lhe ordenou Calipso
- Dias vários navega, até que enxerga,
- Já no décimo oitavo, umbroso topes
- Da mais vizinha terra, a dos Feaces,
- Qual pavês a ondear no escuro pego.
- Vem da Etiópia e dos Sólimos serros
- Netuno o avista; sacudindo a fronte,
- Em si raiva: “Ah! que dele dispuseram
- Na minha ausência os deuses! Quase tocas
- Onde, Laércio, é fado os males findes;
- Mas nem todos provaste”. Eis move o cetro;
- Procelas concitando, altera as ondas,
- A praia e o mar enfusca, assola os ventos;
- A noite rui do céu; muge Euro, Noto,
- Bóreas árido, Zéfiro insolente.
- No peito esmorecido o herói murmura:
- “Ai de mim! temo o anúncio de Calipso,
- Que à pátria eu chegaria atormentado.
- Jove de que bulcões enluta os ares!
- Que lufadas, que brenhas, que borrascas!
- Presente o exício tenho. Oh! três e quatro
- Vezes ditosos os que em Tróia sacra
- Por amor dos Atridas feneceram!
- Acabasse eu na hora em que êneas lanças
- Do Aquileu corpo em cerco me choviam!
- Lá funerais houvera gloriosos:
- Força é hoje beber indigna morte.”
- Nisto, empinado vagalhão desaba,
- Horríssono investido a frágil barca:
- Demite o leme e fora cai Ulisses;
- Um tufão rende o mastro, e vela e antena
- Longe arremessa. Os ventos o soçobram;
- Vir ao de cima os escarcéus lhe tolhem;
- Pesam-lhe as vestes que lhe deu Calipso.
- Surde enfim, da cabeça escorrendo água,
- Com ânsias vomitando os salsos goles;
- Mas não se olvida, a nado o lenho aferra,
- Senta-se vigoroso, engana a Parca.
- Ele à matroca em vórtices flutua,
- Como Áquilo outonal pela campina
- Montões joga de folhas e de espinhos:
- Noto, Euro, Bóreas, Zéfiro contendem;
- Ora um, ora outro, apossam-se da presa.
- Ino Cadméia, já falante moça
- De torneado pés, que entre as marinhas
- Deusas é Leucotéia, amiserou-se
- Do seu penar; do fundo na figura
- De um mergulho saindo e na jangada
- A revoar pousando: “Infeliz, disse,
- Porque o Enosigeu te aflige e vexa?
- Ruja, que não sucumbes. Sê cordato,
- As vestes e o madeiro entrega às vagas;
- Lança-te a nado à ilha, onde um refúgio
- Se te destina; toma, e aos peitos esta
- Cinge, para salvar-te, imortal banda.
- Ao negro ponto, às praias mal que atinjas,
- Virando as costas, para trás a arrojes”.
- Dada a banda, as maretas remoinhando
- Nas entranhas a escondem. Cauto Ulisses
- Geme e hesita em seu ânimo divino:
- “De um nume que ilusão! Desobedeço,
- Pois a terra indicada é mui remota.
- Antes sofrer com paciência, enquanto
- A barca se sustém; nadar pretendo
- Assim que a desconjunte a marulhada:
- Outra nenhuma salvação me resta”.
- Grosso escarcéu Netuno eis sublevando,
- Qual dissipa em tufão de palha acervos,
- Traves destroça e tábuas furibundo:
- Num dos pedaços leve o herói cavalga,
- Despe-se, a banda cinge, prono estira
- Os braços vigorosos, ardente nada.
- A cabeça o tirano azul meneia,
- Consigo diz: “Batido pelas ondas,
- Padece agora, até que aos homens chegues
- De Jove alunos; desta feita espero
- Escarmentar-te”. E ao ínclito palácio
- De Egas move os cavalos crinipulcros.
- Palas não se descuida: aos outros ventos
- Obstrui as vias, e os sopita e calma;
- Deixa o Bóreas soprar e os mares quebra,
- A fim que a salvo se introduza Ulisses
- Entre os Feaces do vogar amigos.
- Duas noites flutívago e dous dias
- A cada instante a morte imaginava;
- Mas na aurora terceira, quedo o ruído,
- Sereno o ar, de cima de uma vaga
- Olhos aguça e a ilha vê mais perto.
- Como se alegra o filho, cujo enfermo
- Pai dileto, por graças dos Supremos,
- Sara de uma longuíssima doença,
- De que um gênio odioso o atormentava;
- Tal folga ele da terra e da floresta.
- Nos pés se estriba e insiste; mas, a alcance
- De um grito, ouve o murmúrio dos rochedos,
- E a mareta a roncar na árida costa
- E de alva aspersa escuma a cobrir tudo.
- Busca em torno angra, porto ou surgidouro,
- Acha recifes e ásperos cachopos.
- Dos joelhos frouxo e de alma quase morta,
- Geme e em seu grande coração discorre:
- “Ah! terra deu-me Jove inesperada,
- Brenhas de água venci, mas onde aborde
- Não me aparece; agudas pedras vejo
- E a fremir escarcéus, e lisa penha
- Escarpada e a raiz na profundeza.
- Não posso os pés firmar para evadir-me:
- Por mais que eu lide, à resvalente roca
- Talvez do fluxo o ímpeto me esbarre;
- Se além nado a encontrar ou seio ou passo,
- Temo que entre gemidos a ressaca
- Me empuxe e empegue, e infenso deus me lance
- Algum dos monstros que Anfitrite cria;
- Sei quanto me é contrário o grã Netuno”.
- Inda pensava, e à crespa riba um feio
- Esto o rebate; e a cútis lacerava
- E fraturava os ossos por Minerva
- Se não fosse inspirado: a penha aferra
- De ambas as mãos, e aguarda em ais que o rolo
- O deixe ao recuar, mas o refluxo
- Ao largo o arrasta e longe; e qual pólipo,
- Que destacam da cama, traz pedrinhas
- Apegadas aos pés, retém o escolho
- Das fortes mãos tenazes a epiderme.
- Da marejada opresso, ah! perecera
- Contra o fatal querer, se a gázea Palas
- A prudência do herói não reforçasse.
- Do fundo acima vem, transnada e fende
- Marulhos que bramindo a costa orvalham,
- Uma abra demandando, enseada ou praia;
- A foz emboca enfim de um rio ameno,
- Tuto e limpo de pedras e abrigado;
- Reconhecida a veia, orou devoto:
- “Quem sejas, rio, atende as preces minhas;
- Do furor de Neturno a ti recorro.
- Um peregrino é sacro aos mesmos deuses:
- Eu, peregrino errante, há muito sofro;
- Suplico, ó rei, de mim te compadeças.”
- Tranqüilo a correnteza o rio amaina,
- Recebe-o em sua areia. Ele os nervudos
- Braços contrai e pernas; combalido,
- Inchado o corpo, alija amargas gotas
- Pelos beiços e ventas; anelante,
- Sem voz e extenuado, o corpo estende.
- Resfolga e areja, anima-se, descinge
- E entrega a banda ao rio, que a transporta;
- Ino dela se apossa. Em apartado,
- Num juncal se reclina, e o chão beijando,
- Fala à sua alma grande: “Ai! que me resta?
- Se ao relento pernoito às margens turvas,
- O rocio matutino e as graves auras
- Me abaterão de todo: em selva opaca,
- A consentir-me estar cansaço e frio,
- Dormirei sossegado; mas receio
- Ser de feras escárnio e mantimento.”
- Reflete, e envia-se à floresta umbrosa,
- Em monte ao pé do rio. Uma figueira
- E um zambujo, a medrar na mesma touça,
- Ali de modo achavam-se enredados,
- Que nem úmidos sopros, sóis violentos,
- Nem chuveiros a copa transpassavam:
- Debaixo acama Ulisses tantas folhas,
- Quantas para a abrigar dous ou três homens
- Em rigoroso inverno bastariam;
- Ledo se deita e chimpa-se no meio.
- Qual, no extremo de um campo sem vizinhos,
- Conservando semente para o fogo,
- Mete alguém seu tição na escura cinza;
- O paciente herói se esconde nelas.
- Palas, porque o descanse das fadigas,
- Lhe derrama nas pálpebras o sono.