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OdisseiaLivro XXIV
LivroXXIV

Dos procos o Cilênio evoca as almas

414 versos · 5 notas do tradutor


  1. Dos procos o Cilênio evoca as almas,
  2. De ouro empunhado o caduceu que os olhos
  3. Mortais a gosto esperta e os adormece;
  4. Elas ao toque ciciando o seguem.
  5. Em divo antro profundo a revoarem,
  6. Guincham morcegos, se um dos cachos tomba
  7. Da rocha a que aderiram: tal se move
  8. Trás Mercúrio benóvolo, em murmúrios
  9. Pelo hediondo espaço, o tropel todo;
  10. Vão-se ao fluido Oceano e à Pedra-Branca,
  11. Do Sol às portas e ao dos Sonos povo.
  12. Em prado verde, habitação dos manes,
  13. Os do Pelides acham, de Pátraclo,
  14. De Antíloco, de Ajax galhardo e forte,
  15. Que os Dânaos superava, exceto Aquiles.
  16. Eram deste em redor, quando Agamemnon
  17. Surge dolente, e as sombras dos que Egisto
  18. Em seu paço com ele assassinara.
  19. “Atrida, enceta Aquiles, ao Tonante
  20. Nós julgávamos seres o mais caro,
  21. Por dominares nos heróis que em Tróia
  22. Padecemos sem conto. Ah! que o tributo
  23. Não rendeste primeiro à Parca dura!
  24. Naqueles campos com supremas honras
  25. Tu falecesses! dos Aqueus ereto,
  26. Glória a teu filho o monumento fora;
  27. Era fatal misérrimo acabares!”
  28. E Agamemnon: “Beato herói divino,
  29. Em torno a quem, longe da Grécia extinto,
  30. Bravos Teucros e Argeus caíram tantos!
  31. Em túrbida poeira amplo jazias,
  32. Dos corcéis esquecido; e a combatermos
  33. Ante o cadáver teu, só conturbados
  34. Por um tufão de Júpiter, cessamos.
  35. Posto em féretro a bordo o corpo egrégio,
  36. Em quente água expurgado e ungido, os Gregos
  37. Choravam, tonsa a coma. Eis, das Nereidas
  38. Ouvida a grande voz, tremeram todos,
  39. E nos porões iam meter-se, quando
  40. Experiente Nestor, com douto aviso,
  41. De grado concionou: — Tá! vem do pego
  42. Tétis madre e as irmãs carpir seu filho. —
  43. Coibida aos Grajúgenas a fuga,
  44. Cercam-te as filhas do marinho velho,
  45. Cobrem-te em ais de incorruptível manto.
  46. As Musas nove alternam-se em lamentos:
  47. Ninguém podia, à lugubre toada,
  48. As lágrimas conter. Por dezassete
  49. Noites e dias, de mortais e deuses
  50. Regou-te o pranto e na seguinte aurora
  51. Demos-te ao fogo, e ovelhas te imolamos
  52. Gordas e negros bois; nas divas roupas,
  53. Em óleo e doce mel, queimado foste;
  54. Muitos peões e armados cavaleiros
  55. Circundaram-te a pira estrepitosos.
  56. De manhã, gasta a carne, os brancos ossos,
  57. Em perfumes e vinho e ambalsamados,
  58. Recolheu-te a mãe terna em urna de ouro,
  59. Dom de Baco e trabalho de Vulcano.
  60. Estão mistos aos teus os de Pátroclo,
  61. Dos de Antíloco perto, a quem dos sócios,
  62. Morto o Menécio, maiormente honravas.
  63. E os do exército sacro te exalçamos,
  64. Do amplo Helesponto em prominente riba
  65. Um magnífico túmulo, que ao longe
  66. Aos vivos manifeste-se e aos vindouros.
  67. Prêmios obteve dos mais numes Tétis,
  68. Que os pôs no circo aos príncipes Aquivos.
  69. A régios funerais tenho assistido,
  70. Onde o páreo mancebos disputavam;
  71. Tu se os visses, Pelides, admiraras
  72. Da mãe déia argentípede as ofertas.
  73. Grato aos Céus, teu renome não perdeste,
  74. Que de evo em evo troará no mundo.
  75. Mas que valeu-me a guerra? Na tornada,
  76. Júpiter propinou-me o copo amaro,
  77. Por mãos de Egisto fero e da traidora.”
  78. Entretanto, o Argicida arrebanhava
  79. As almas dos que Ulisses abatera,
  80. A cujo encontro as mais com pasmo correm.
  81. Agamemnon conhece incontinênti
  82. O Melanteides ínclito Anfimédon,
  83. Que em Ítaca o hospedara: “Que desastre,
  84. Escolhidos e eqüevos, cá vos trouxe
  85. Ao reino tenebroso? Não podia
  86. Alguém numa cidade achar melhores.
  87. Com soltos ventos e escarcéus furentes
  88. Vos afundou Netuno? ou de inimigos
  89. Preia fostes em terra, aos saqueardes
  90. Armentos e rebanhos? ou pugnando
  91. Pela pátria e família? Nada encubras;
  92. Hóspede teu me chamo. Não te lembra
  93. Que me acolheste e a Menelau divino,
  94. Quando a embarcar-se para Tróia Ulisses
  95. Fomos nós suadir? Um mês inteiro
  96. O largo ponto aramos, e a bem custo
  97. O eversor de muralhas demovemos.”
  98. “Rei dos reis, Anfimédon respondeu-lhe,
  99. Tudo me lembra, e franco vou narrar-te
  100. Nosso funesto fim. Do ausente Ulisses
  101. A esposa ambicionávamos; que, avessa
  102. A morte a nos tramar, nos entrctinha
  103. E, com sutil pretexto, imensa enrola
  104. Teia fina ao tear, e assim discursa:
  105. — Amantes meus, depois de morto Ulisses,
  106. Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
  107. Sem que do herói Laertes a mortalha
  108. Toda seja tecida, para quando
  109. No sono longo o sopitar o fado:
  110. Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
  111. Manto rico não ter quem teve tanto. —
  112. Esta desculpa ingênuos aceitamos.
  113. Ela, um triênio, desmanchava à noite
  114. À luz da lâmpada o lavor diurno;
  115. Ao depois, avisou-nos uma escrava,
  116. E a destecer a teia a surpreendemos:
  117. Então viu-se obrigada a concluí-la,
  118. E aos olhos despregou-nos a luzente
  119. Obra insigne, imitante ao Sol e à Lua.
  120. Não sei donde um mau gênio trouxe Ulisses
  121. Ao campo que habitava o guarda-porcos:
  122. Nesses confins se reuniu seu filho,
  123. Já da arenosa Pilos aportado;
  124. E ambos, disposto o plano da matança,
  125. Para a nobre cidade caminharam,
  126. O herói depois, Telêmaco primeiro.
  127. Eumeu guiava o pai, que abordoou-se
  128. Em trajo de um decrépito mendigo,
  129. E era tão roto e sujo e mal vestido,
  130. Que aos mais idosos conservou-se ignoto.
  131. A golpes e baldões o acometemos;
  132. Tudo curtiu paciente em seu palácio.
  133. Mas, do Egíaco Jove espiritado,
  134. As armas com Telêmaco afastando,
  135. Em cima as tranca, e pela astuta esposa
  136. O arco nos apresenta e o claro ferro,
  137. Donde se derivou nosso infortúnio.
  138. Nenhum de nós dobrou-lhe o forte nervo,
  139. Baldo o esforço; e, ao momento que o Laércio
  140. Dessa arma ia apossar-se, blasfemamos
  141. Que, apesar das instâncias, não lha dessem;
  142. Mas Telêmaco insiste, e o pai, seu arco
  143. Fácil dobrando, enfia as machadinhas.
  144. Ao limiar, derrama a pronta aljava,
  145. E gira a vista horrendo e frecha Antino;
  146. A lutíferas setas rechinantes
  147. (Um deus o protegia) uns após outros
  148. Seu furor em cardumes nos prostrava:
  149. Aos gemidos, aos botes, muge a casa
  150. E se inunda em cruor. Tal fim tivemos!
  151. No pátio os corpos nossos, ora, Atrida,
  152. Isso amigos não sabem, que chorando,
  153. Enxuto o negro sangue, nos sepultem;
  154. Honra devida aos míseros finados.”
  155. Grita Agamemnon: “Venturoso Ulisses,
  156. Possuis mulher de uma virtude rara!
  157. Do varão que pudica amou primeiro
  158. Nunca olvidou-se; obtém perene glória,
  159. Que hão de inspirados celebrar cantores.
  160. Quão diversa a Tindárida ao marido,
  161. Que houve-a donzela! odiosa nas balatas
  162. Será do povo, e nódoa às mais sisudas.”
  163. Enquanto as almas de Plutão conversam
  164. No vácuo reino, Ulisses e companha
  165. De Laertes entravam pelo enxido,
  166. Que a muito preço e lidas o comprara:
  167. Tinha ali casa, e da varanda em roda
  168. Os servos, com prazer cultivadores,
  169. Comiam, repousavam; diligente
  170. Do amo tratava, em rústico retiro,
  171. Sícula velha. Aos três voltou-se Ulisses:
  172. “Preparai para o almoço um bom cevado.
  173. Verei se o pai me reconhece ainda,
  174. Ou se ignoto me faz tamanha ausência.”
  175. E as armas dando aos sócios, que partiram,
  176. Ao pomar foi-se logo para o intento:
  177. Não topa a Dólio e filhos e os mais servos
  178. No grã vergel, do velho conduzidos
  179. A colher espinheiros para sebes;
  180. Só acha o pai no amanho de uma planta:
  181. Sórdida a capa e remendada a roupa,
  182. Luvas grosseiras, borzeguins de coiro,
  183. Para evitar esfoladuras, tinha;
  184. Gorra caprina o luto lhe aumentava.
  185. Desde que o divo sofredor o enxerga
  186. Dos anos e desgostos combalido,
  187. Quedo pranteia à sombra de um pereiro;
  188. Hesita se o abrace e o beije e informe,
  189. Ou se antes com perguntas o exprimente.
  190. Mordaz sondá-lo preferindo, avança
  191. Quando, baixa a cabeça, ele de roda
  192. Cavava um tronco, e lhe bradou: “Meu velho,
  193. Não és inábil; a pereira, a vide,
  194. A oliveira, a figueira, o estão mostrando,
  195. Nem há palmo de terra sem cultura;
  196. Mas não te agastes, se o desleixo noto
  197. Com que trapento afeias essa idade.
  198. O amo não te maltrata pela incúria,
  199. Nem tens servil presença; um rei no vulto
  200. Semelhas ao que, já banhado, come
  201. Para em mole dormir, jus da velhice.
  202. Mas de quem és? o prédio a quem pertence?
  203. Em Ítaca em verdade agora estamos,
  204. Como um certo em caminho asseverou-me?
  205. Brusco foi-se e imprudente, sem dizer-me
  206. Se o meu hóspede é vivo, ou se entre os manes.
  207. Na pátria, escuta, recebi festivo
  208. O herói primeiro que a meu lar sentou-se:
  209. De Ítaca era nativo, e se aclamava
  210. Por filho do Arcebíades Laertes.
  211. Com bondade acolhi-o, e generoso
  212. Dons hospitais lhe presentei condignos:
  213. De ouro talentos sete bem cunhados,
  214. Copa argêntea florida, capas doze,
  215. Doze mantos louçãos, e iguais tapetes
  216. E túnicas iguais; por cima, à escolha,
  217. Quatro prendadas e gentis mulheres.”
  218. Em choro o pai: “Chegaste, forasteiro,
  219. À terra que me indicas, velhacouto
  220. De malvados cruéis. Teus dons frustraste:
  221. Se ele aqui fosse, em câmbio encontrarias
  222. Também dons e benévolo agasalho.
  223. Sê franco, esse infeliz, que era meu filho,
  224. Em que ano o recebeste?. .. Oh! fútil sonho!
  225. Dos seus longe e da pátria, no profundo
  226. Foi mantimento a peixes, a terrestres
  227. Aves ou feras! Na mortalha envolto,
  228. Da mãe, do genitor, não foi carpido,
  229. Nem a casta mulher fechou-lhe os olhos,
  230. A lamentar no féretro o consorte;
  231. Sacro dever, dos mortos recompensa.
  232. Mas quem és, me declares, de que povo,
  233. De que família? A nau veloz e os nautas
  234. Onde os tens? ou vieste em vaso alheio,
  235. Que te largou, na rota prosseguindo.”
  236. Pronto Ulisses: “Eu tudo vou narrar-te.
  237. Prole de Afidas rei Polipemônio,
  238. Sou de Alibas, em nobre alcáçar moro,
  239. Eperito é meu nome; da Sicânia
  240. Fez-me arribar um nume, e tenho surto
  241. Na costa o meu navio. Quanto a Ulisses,
  242. Anda em cinco anos que saiu de Alibas:
  243. Voláteis à direita lhe adejavam;
  244. Ao despedir-nos, ambos nós contentes
  245. Rever-nos esperávamos, e um dia
  246. Riquezas mutuar, doce amizade.”
  247. Um negrume de mágoas tolda o velho;
  248. Pega da ardente cinza, a encanecida
  249. Cabeça asperge, do íntimo soluça.
  250. Comoto o herói, das ventas resfolgando,
  251. Olha o dileto pai, salta-lhe ao colo,
  252. E o beija e abraça: “Ó pai, sou quem suspiras,
  253. Vindo ao vigésimo ano à pátria amada;
  254. Essas penas e lágrimas reprime.
  255. Atende-me, urge o tempo; em nossos paços
  256. Vinguei-me já de injúrias e insolência.”
  257. A quem Laertes: “Se és meu próprio Ulisses,
  258. Dá-me um claro sinal que mo comprove.”
  259. “Na cicatriz repara (ao pai mostrou-a)
  260. Do alvo dente suíno, indo eu, por ordem
  261. Materna e tua, às abas do Parnaso,
  262. Pelas promessas que anuiu teu sogro.
  263. As árvores direi que tu, rogado
  264. Por mim que infante os passos te seguia
  265. Pelo vergel, me deste, a nomeá-las
  266. Uma a uma: pereiras foram treze,
  267. Macieiras dez, em quádruplo as figueiras;
  268. Marcaste-me também cinqüenta renques
  269. De uvas de toda casta, que maduram
  270. Quando nelas de Jove as horas pesam.”
  271. Do velho, a provas tais, frouxas as pernas,
  272. Desmaia o coração; mas lança os braços
  273. Ao filho, que nos seus o estreita e cinge.
  274. O pai já cobra alento: “Ó sumo Jove,
  275. Desses procos o crime a estar punido,
  276. Certo no Olimpo há deuses. Mas hei medo
  277. Que a turba assalte e invoque os Cefalenes.”
  278. Ulisses o acalmou: “Receios bane.
  279. À casa andemos do jardim vizinha:
  280. Telêmaco, Filétio e Eumeu, diante
  281. Mandei que à pressa o almoço nos preparem.”
  282. Já na mansão formosa aos três encontram,
  283. Partindo as carnes, misturando os vinhos.
  284. Lava primeiro e unge, orna e reveste
  285. Ao bom Laertes a Sicana serva;
  286. Porém Minerva os membros lhe engrandece,
  287. Majestoso e divino sai do banho.
  288. O filho o admira: “Gentileza e talhe,
  289. Ó pai, te aumenta um nume!” E o velho: “Ó Jove,
  290. Palas e Apolo, eu fosse o mesmo que era
  291. Quando rendi, com Cefalênias hostes,
  292. No continente a Nérico soberba!
  293. Arnesado e brioso os vis intrusos
  294. Também contigo repelira; a muitos
  295. Os joelhos solvera, e tu folgaras.”
  296. Entanto, prestes o festim, por ordem
  297. Em camilhas e tronos se abancavam;
  298. Eis chega Dólio do labor e os filhos.
  299. A eles corre a Sícula, que anosa
  300. Todos nutria e do ancião tratava;
  301. Mudos pasmaram de rever seu amo,
  302. Que afável os convida: “À mesa, ó velho,
  303. À mesa, o espanto cesse; à vossa espera,
  304. Ávidas mãos retínhamos dos pratos.”
  305. Braços abertos, se lhe atira Dólio,
  306. Do amo os pulsos oscula: “Amigo, os votos
  307. Nos enches de improviso, e pois os deuses
  308. Te restituem, salve! alegre exultes
  309. No grêmio da ventura! À esposa a nova
  310. É já notória, ou cumpre anunciarmos?”
  311. “Ela o sabe, responde o astuto e cauto;
  312. Mas nisso que te vai?” Tornado ao posto,
  313. Beijam-lhe a destra os moços e o saúdam,
  314. E junto ao pai em ordem se colocam.
  315. O trabalho do almoço ocupa a todos.
  316. Na cidade se espalha a triste fama
  317. Da vingança: ante o paço estrepitosa
  318. Carpe a gente, os cadáveres enterra;
  319. Embarca em leves bojos os que à pátria
  320. Ir deviam por mar; com dor se ajunta
  321. O parlamento. Em luto inexprimível
  322. Eupiteu se levanta, a cujo filho
  323. Antimo o divo herói matou primeiro,
  324. E em soluços e lágrimas acusa:
  325. “Amigos, oh! que horror, que atroz maldade!
  326. Esse homem naus levou, levou guerreiros;
  327. Frota e nautas perdeu: na volta, agora,
  328. Deu cabo dos melhores Cefalenes.
  329. Eia, antes que ele a Pilos se recolha,
  330. Ou busque a dos Epeus Élide santa,
  331. Vamos; ou torpe vida e eterno opróbrio
  332. Tem de caber-nos: se de irmãos e filhos
  333. Não punimos os brutos matadores,
  334. Sombra unir-me anteponho a sombras caras.
  335. Vamos, vamos, os bárbaros não fujam.”
  336. Seu lastimar os corações comove;
  337. Mas do palácio, em que os deteve o sono,
  338. Chegam Médon e o músico divino;
  339. Médon pondera: “Aquivos, nunca Ulisses
  340. Tanto obrara sem nume: um vi que avante,
  341. Na forma de Mentor, na sala o instava,
  342. E o tropel todo em ruma ia caindo.”
  343. Palor súbito invade os circunstantes.
  344. Ergueu-se o herói Mastórida Haliterse,
  345. No passado o mais douto e no futuro,
  346. E orou sisudo: “Cidadãos e amigos,
  347. Do feito a culpa tendes; não quisestes,
  348. Surdos aos de Mentor e aos meus conselhos,
  349. Flagício enorme sopear dos filhos,
  350. Que, os bens roendo, injuriando a esposa,
  351. Com tão potente rei já não contavam.
  352. É sem remédio. Ouvi-me agora ao menos:
  353. Mores desastres atalhai, não vamos.”
  354. A assembléia divide-se em tumulto:
  355. Uns de Haliterse à voz se aquietaram;
  356. Mas outros, ao combate persuadidos,
  357. Em corpo avançam, reluzindo em bronze,
  358. Por vastas ruas, de Eupiteu sequazes,
  359. Que cego ou desagravo ou morte anela.
  360. Consulta ao pai Minerva: “Ó soberano,
  361. Que tens na mente? Guerra ou congraçá-los?”
  362. E o Nubícogo: “Filha, que perguntas?
  363. Não traçaste que à volta se vingasse?
  364. Pois bem. Direi contudo o que é decente:
  365. Vingado o herói divino, assente as pazes;
  366. Reine em povos leais; de irmãos e filhos
  367. O castigo apaguemos sanguinoso;
  368. Renove-se a amizade, haja abundância.”
  369. Disse, o ardor a Minerva acrescentando,
  370. Que do jugoso Olimpo se arremessa.
  371. Apaziguada a fome, aos companheiros
  372. Adverte Ulisses: “Veja alguém se perto
  373. Já nos atacam.” Sai de Dólio um filho,
  374. E enxerga logo da soleira a turba:
  375. “Arma, arma, grita, a gente se aproxima.”
  376. Armam-se os quatro, e os seis irmãos com eles;
  377. E Laertes e Dólio, encanecidos,
  378. No perigo urgentíssimo se arnesam.
  379. De ponto em branco, as portas escancaram,
  380. Precipitam-se fora, e os manda Ulisses;
  381. Disfarçada em Mentor, veio ampará-los
  382. A Tritônia, de Jove augusta prole.
  383. Ledo o chefe do auxílio: “Hoje, meu caro
  384. Telêmaco, aos mais fortes investindo,
  385. Mostres brio e vigor; nem me envergonhes,
  386. Nem dos caros maiores degeneres.”
  387. E Telêmaco: “À frente, ó pai dileto,
  388. Ver-mes-ás honrando sempre a estirpe tua.”
  389. Regozijou-se o avô: “Propícios deuses,
  390. Rivais são na virtude o filho e o neto!
  391. Que dia! que prazer!” — E a gázea Palas:
  392. “Arcesíades, sócio o mais querido,
  393. Roga a Minerva e ao Padre, afouto vibres.”
  394. Ela ânimo e denodo aqui lhe infunde;
  395. O herói, finda a oração, de Eupiteu rompe
  396. De lança o elmo, à queda o arnês ressoa.
  397. Ulisses e Telêmaco os mais bravos
  398. Talham de espada e pique, e total fora
  399. O estrago e perda, se a gritar Minerva
  400. Não contivesse o povo: “Ítacos, basta,
  401. Já já da da crua guerra separai-vos.”
  402. Pálido susto, à voz divina, os toma;
  403. Das mãos voando as armas, ansiosos
  404. De resguardar as vidas, se retiram:
  405. Furente Ulisses a bramir os segue,
  406. Tal como águia altaneira as nuvens rasga.
  407. Então fulmina Júpiter, e o raio
  408. Cai ante Palas, que ao Laércio intima:
  409. “Dial cordato aluno, abster-te cumpre
  410. Da discórdia civil, para que infesto
  411. Não te seja o Tonante onipotente.”
  412. Gostoso à deusa Ulisses obedece.
  413. A Mentor semelhando em som e em vulto,
  414. Sela a paz a do Egífero progênie.

Nota a nota · 5 notas

v. 6–17Guincham morcegos, se um dos cachos tomba
Cacho, correspondente ao latim uva neste sentido, é o grupo em que se englobam certos animais, como as abelhas e os morcegos. — Homero chama eurõenta; isto é, podres ou hediondos, os caminhos por onde se conduzem os mortos. — Pedra-Branca é o nome de certo lugar por onde passavam as almas. — Dolente, posto que não venha em dicionário, é usado por Francisco Manuel.
↩ voltar à passagem, v. 6
v. 247–270Um negrume de mágoas tolda o velho; ⋯ Quando nelas de Jove as horas pesam.”
Depois de tantos reconhecimentos que há na Odisséia, é para louvar que Homero guardasse os toques mais belos e maviosos para este reconhecimento de Laertes, que era o último, comprovando sempre a sua pasmosa fecundidade.
↩ voltar à passagem, v. 247
v. 315O trabalho do almoço ocupa a todos.
Este repasto é um almoço, não obstante prandium e cœna de que usa neste livro a interpretação latina.
↩ voltar ao verso 315
v. 342E o tropel todo em ruma ia caindo.”
Dizemos rima ou ruma: preferi neste verso ruma, para não repetir a vogal i que vem nele muitas vezes.
↩ voltar ao verso 342
v. 370Que do jugoso Olimpo se arremessa.
Jugoso, tirado do latim, significa cheio de cumes ou picos.
↩ voltar ao verso 370
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