Dos procos o Cilênio evoca as almas
414 versos · 5 notas do tradutor
- Dos procos o Cilênio evoca as almas,
- De ouro empunhado o caduceu que os olhos
- Mortais a gosto esperta e os adormece;
- Elas ao toque ciciando o seguem.
- Em divo antro profundo a revoarem,
- Guincham morcegos, se um dos cachos tomba
- Da rocha a que aderiram: tal se move
- Trás Mercúrio benóvolo, em murmúrios
- Pelo hediondo espaço, o tropel todo;
- Vão-se ao fluido Oceano e à Pedra-Branca,
- Do Sol às portas e ao dos Sonos povo.
- Em prado verde, habitação dos manes,
- Os do Pelides acham, de Pátraclo,
- De Antíloco, de Ajax galhardo e forte,
- Que os Dânaos superava, exceto Aquiles.
- Eram deste em redor, quando Agamemnon
- Surge dolente, e as sombras dos que Egisto
- Em seu paço com ele assassinara.
- “Atrida, enceta Aquiles, ao Tonante
- Nós julgávamos seres o mais caro,
- Por dominares nos heróis que em Tróia
- Padecemos sem conto. Ah! que o tributo
- Não rendeste primeiro à Parca dura!
- Naqueles campos com supremas honras
- Tu falecesses! dos Aqueus ereto,
- Glória a teu filho o monumento fora;
- Era fatal misérrimo acabares!”
- E Agamemnon: “Beato herói divino,
- Em torno a quem, longe da Grécia extinto,
- Bravos Teucros e Argeus caíram tantos!
- Em túrbida poeira amplo jazias,
- Dos corcéis esquecido; e a combatermos
- Ante o cadáver teu, só conturbados
- Por um tufão de Júpiter, cessamos.
- Posto em féretro a bordo o corpo egrégio,
- Em quente água expurgado e ungido, os Gregos
- Choravam, tonsa a coma. Eis, das Nereidas
- Ouvida a grande voz, tremeram todos,
- E nos porões iam meter-se, quando
- Experiente Nestor, com douto aviso,
- De grado concionou: — Tá! vem do pego
- Tétis madre e as irmãs carpir seu filho. —
- Coibida aos Grajúgenas a fuga,
- Cercam-te as filhas do marinho velho,
- Cobrem-te em ais de incorruptível manto.
- As Musas nove alternam-se em lamentos:
- Ninguém podia, à lugubre toada,
- As lágrimas conter. Por dezassete
- Noites e dias, de mortais e deuses
- Regou-te o pranto e na seguinte aurora
- Demos-te ao fogo, e ovelhas te imolamos
- Gordas e negros bois; nas divas roupas,
- Em óleo e doce mel, queimado foste;
- Muitos peões e armados cavaleiros
- Circundaram-te a pira estrepitosos.
- De manhã, gasta a carne, os brancos ossos,
- Em perfumes e vinho e ambalsamados,
- Recolheu-te a mãe terna em urna de ouro,
- Dom de Baco e trabalho de Vulcano.
- Estão mistos aos teus os de Pátroclo,
- Dos de Antíloco perto, a quem dos sócios,
- Morto o Menécio, maiormente honravas.
- E os do exército sacro te exalçamos,
- Do amplo Helesponto em prominente riba
- Um magnífico túmulo, que ao longe
- Aos vivos manifeste-se e aos vindouros.
- Prêmios obteve dos mais numes Tétis,
- Que os pôs no circo aos príncipes Aquivos.
- A régios funerais tenho assistido,
- Onde o páreo mancebos disputavam;
- Tu se os visses, Pelides, admiraras
- Da mãe déia argentípede as ofertas.
- Grato aos Céus, teu renome não perdeste,
- Que de evo em evo troará no mundo.
- Mas que valeu-me a guerra? Na tornada,
- Júpiter propinou-me o copo amaro,
- Por mãos de Egisto fero e da traidora.”
- Entretanto, o Argicida arrebanhava
- As almas dos que Ulisses abatera,
- A cujo encontro as mais com pasmo correm.
- Agamemnon conhece incontinênti
- O Melanteides ínclito Anfimédon,
- Que em Ítaca o hospedara: “Que desastre,
- Escolhidos e eqüevos, cá vos trouxe
- Ao reino tenebroso? Não podia
- Alguém numa cidade achar melhores.
- Com soltos ventos e escarcéus furentes
- Vos afundou Netuno? ou de inimigos
- Preia fostes em terra, aos saqueardes
- Armentos e rebanhos? ou pugnando
- Pela pátria e família? Nada encubras;
- Hóspede teu me chamo. Não te lembra
- Que me acolheste e a Menelau divino,
- Quando a embarcar-se para Tróia Ulisses
- Fomos nós suadir? Um mês inteiro
- O largo ponto aramos, e a bem custo
- O eversor de muralhas demovemos.”
- “Rei dos reis, Anfimédon respondeu-lhe,
- Tudo me lembra, e franco vou narrar-te
- Nosso funesto fim. Do ausente Ulisses
- A esposa ambicionávamos; que, avessa
- A morte a nos tramar, nos entrctinha
- E, com sutil pretexto, imensa enrola
- Teia fina ao tear, e assim discursa:
- — Amantes meus, depois de morto Ulisses,
- Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
- Sem que do herói Laertes a mortalha
- Toda seja tecida, para quando
- No sono longo o sopitar o fado:
- Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
- Manto rico não ter quem teve tanto. —
- Esta desculpa ingênuos aceitamos.
- Ela, um triênio, desmanchava à noite
- À luz da lâmpada o lavor diurno;
- Ao depois, avisou-nos uma escrava,
- E a destecer a teia a surpreendemos:
- Então viu-se obrigada a concluí-la,
- E aos olhos despregou-nos a luzente
- Obra insigne, imitante ao Sol e à Lua.
- Não sei donde um mau gênio trouxe Ulisses
- Ao campo que habitava o guarda-porcos:
- Nesses confins se reuniu seu filho,
- Já da arenosa Pilos aportado;
- E ambos, disposto o plano da matança,
- Para a nobre cidade caminharam,
- O herói depois, Telêmaco primeiro.
- Eumeu guiava o pai, que abordoou-se
- Em trajo de um decrépito mendigo,
- E era tão roto e sujo e mal vestido,
- Que aos mais idosos conservou-se ignoto.
- A golpes e baldões o acometemos;
- Tudo curtiu paciente em seu palácio.
- Mas, do Egíaco Jove espiritado,
- As armas com Telêmaco afastando,
- Em cima as tranca, e pela astuta esposa
- O arco nos apresenta e o claro ferro,
- Donde se derivou nosso infortúnio.
- Nenhum de nós dobrou-lhe o forte nervo,
- Baldo o esforço; e, ao momento que o Laércio
- Dessa arma ia apossar-se, blasfemamos
- Que, apesar das instâncias, não lha dessem;
- Mas Telêmaco insiste, e o pai, seu arco
- Fácil dobrando, enfia as machadinhas.
- Ao limiar, derrama a pronta aljava,
- E gira a vista horrendo e frecha Antino;
- A lutíferas setas rechinantes
- (Um deus o protegia) uns após outros
- Seu furor em cardumes nos prostrava:
- Aos gemidos, aos botes, muge a casa
- E se inunda em cruor. Tal fim tivemos!
- No pátio os corpos nossos, ora, Atrida,
- Isso amigos não sabem, que chorando,
- Enxuto o negro sangue, nos sepultem;
- Honra devida aos míseros finados.”
- Grita Agamemnon: “Venturoso Ulisses,
- Possuis mulher de uma virtude rara!
- Do varão que pudica amou primeiro
- Nunca olvidou-se; obtém perene glória,
- Que hão de inspirados celebrar cantores.
- Quão diversa a Tindárida ao marido,
- Que houve-a donzela! odiosa nas balatas
- Será do povo, e nódoa às mais sisudas.”
- Enquanto as almas de Plutão conversam
- No vácuo reino, Ulisses e companha
- De Laertes entravam pelo enxido,
- Que a muito preço e lidas o comprara:
- Tinha ali casa, e da varanda em roda
- Os servos, com prazer cultivadores,
- Comiam, repousavam; diligente
- Do amo tratava, em rústico retiro,
- Sícula velha. Aos três voltou-se Ulisses:
- “Preparai para o almoço um bom cevado.
- Verei se o pai me reconhece ainda,
- Ou se ignoto me faz tamanha ausência.”
- E as armas dando aos sócios, que partiram,
- Ao pomar foi-se logo para o intento:
- Não topa a Dólio e filhos e os mais servos
- No grã vergel, do velho conduzidos
- A colher espinheiros para sebes;
- Só acha o pai no amanho de uma planta:
- Sórdida a capa e remendada a roupa,
- Luvas grosseiras, borzeguins de coiro,
- Para evitar esfoladuras, tinha;
- Gorra caprina o luto lhe aumentava.
- Desde que o divo sofredor o enxerga
- Dos anos e desgostos combalido,
- Quedo pranteia à sombra de um pereiro;
- Hesita se o abrace e o beije e informe,
- Ou se antes com perguntas o exprimente.
- Mordaz sondá-lo preferindo, avança
- Quando, baixa a cabeça, ele de roda
- Cavava um tronco, e lhe bradou: “Meu velho,
- Não és inábil; a pereira, a vide,
- A oliveira, a figueira, o estão mostrando,
- Nem há palmo de terra sem cultura;
- Mas não te agastes, se o desleixo noto
- Com que trapento afeias essa idade.
- O amo não te maltrata pela incúria,
- Nem tens servil presença; um rei no vulto
- Semelhas ao que, já banhado, come
- Para em mole dormir, jus da velhice.
- Mas de quem és? o prédio a quem pertence?
- Em Ítaca em verdade agora estamos,
- Como um certo em caminho asseverou-me?
- Brusco foi-se e imprudente, sem dizer-me
- Se o meu hóspede é vivo, ou se entre os manes.
- Na pátria, escuta, recebi festivo
- O herói primeiro que a meu lar sentou-se:
- De Ítaca era nativo, e se aclamava
- Por filho do Arcebíades Laertes.
- Com bondade acolhi-o, e generoso
- Dons hospitais lhe presentei condignos:
- De ouro talentos sete bem cunhados,
- Copa argêntea florida, capas doze,
- Doze mantos louçãos, e iguais tapetes
- E túnicas iguais; por cima, à escolha,
- Quatro prendadas e gentis mulheres.”
- Em choro o pai: “Chegaste, forasteiro,
- À terra que me indicas, velhacouto
- De malvados cruéis. Teus dons frustraste:
- Se ele aqui fosse, em câmbio encontrarias
- Também dons e benévolo agasalho.
- Sê franco, esse infeliz, que era meu filho,
- Em que ano o recebeste?. .. Oh! fútil sonho!
- Dos seus longe e da pátria, no profundo
- Foi mantimento a peixes, a terrestres
- Aves ou feras! Na mortalha envolto,
- Da mãe, do genitor, não foi carpido,
- Nem a casta mulher fechou-lhe os olhos,
- A lamentar no féretro o consorte;
- Sacro dever, dos mortos recompensa.
- Mas quem és, me declares, de que povo,
- De que família? A nau veloz e os nautas
- Onde os tens? ou vieste em vaso alheio,
- Que te largou, na rota prosseguindo.”
- Pronto Ulisses: “Eu tudo vou narrar-te.
- Prole de Afidas rei Polipemônio,
- Sou de Alibas, em nobre alcáçar moro,
- Eperito é meu nome; da Sicânia
- Fez-me arribar um nume, e tenho surto
- Na costa o meu navio. Quanto a Ulisses,
- Anda em cinco anos que saiu de Alibas:
- Voláteis à direita lhe adejavam;
- Ao despedir-nos, ambos nós contentes
- Rever-nos esperávamos, e um dia
- Riquezas mutuar, doce amizade.”
- Um negrume de mágoas tolda o velho;
- Pega da ardente cinza, a encanecida
- Cabeça asperge, do íntimo soluça.
- Comoto o herói, das ventas resfolgando,
- Olha o dileto pai, salta-lhe ao colo,
- E o beija e abraça: “Ó pai, sou quem suspiras,
- Vindo ao vigésimo ano à pátria amada;
- Essas penas e lágrimas reprime.
- Atende-me, urge o tempo; em nossos paços
- Vinguei-me já de injúrias e insolência.”
- A quem Laertes: “Se és meu próprio Ulisses,
- Dá-me um claro sinal que mo comprove.”
- “Na cicatriz repara (ao pai mostrou-a)
- Do alvo dente suíno, indo eu, por ordem
- Materna e tua, às abas do Parnaso,
- Pelas promessas que anuiu teu sogro.
- As árvores direi que tu, rogado
- Por mim que infante os passos te seguia
- Pelo vergel, me deste, a nomeá-las
- Uma a uma: pereiras foram treze,
- Macieiras dez, em quádruplo as figueiras;
- Marcaste-me também cinqüenta renques
- De uvas de toda casta, que maduram
- Quando nelas de Jove as horas pesam.”
- Do velho, a provas tais, frouxas as pernas,
- Desmaia o coração; mas lança os braços
- Ao filho, que nos seus o estreita e cinge.
- O pai já cobra alento: “Ó sumo Jove,
- Desses procos o crime a estar punido,
- Certo no Olimpo há deuses. Mas hei medo
- Que a turba assalte e invoque os Cefalenes.”
- Ulisses o acalmou: “Receios bane.
- À casa andemos do jardim vizinha:
- Telêmaco, Filétio e Eumeu, diante
- Mandei que à pressa o almoço nos preparem.”
- Já na mansão formosa aos três encontram,
- Partindo as carnes, misturando os vinhos.
- Lava primeiro e unge, orna e reveste
- Ao bom Laertes a Sicana serva;
- Porém Minerva os membros lhe engrandece,
- Majestoso e divino sai do banho.
- O filho o admira: “Gentileza e talhe,
- Ó pai, te aumenta um nume!” E o velho: “Ó Jove,
- Palas e Apolo, eu fosse o mesmo que era
- Quando rendi, com Cefalênias hostes,
- No continente a Nérico soberba!
- Arnesado e brioso os vis intrusos
- Também contigo repelira; a muitos
- Os joelhos solvera, e tu folgaras.”
- Entanto, prestes o festim, por ordem
- Em camilhas e tronos se abancavam;
- Eis chega Dólio do labor e os filhos.
- A eles corre a Sícula, que anosa
- Todos nutria e do ancião tratava;
- Mudos pasmaram de rever seu amo,
- Que afável os convida: “À mesa, ó velho,
- À mesa, o espanto cesse; à vossa espera,
- Ávidas mãos retínhamos dos pratos.”
- Braços abertos, se lhe atira Dólio,
- Do amo os pulsos oscula: “Amigo, os votos
- Nos enches de improviso, e pois os deuses
- Te restituem, salve! alegre exultes
- No grêmio da ventura! À esposa a nova
- É já notória, ou cumpre anunciarmos?”
- “Ela o sabe, responde o astuto e cauto;
- Mas nisso que te vai?” Tornado ao posto,
- Beijam-lhe a destra os moços e o saúdam,
- E junto ao pai em ordem se colocam.
- O trabalho do almoço ocupa a todos.
- Na cidade se espalha a triste fama
- Da vingança: ante o paço estrepitosa
- Carpe a gente, os cadáveres enterra;
- Embarca em leves bojos os que à pátria
- Ir deviam por mar; com dor se ajunta
- O parlamento. Em luto inexprimível
- Eupiteu se levanta, a cujo filho
- Antimo o divo herói matou primeiro,
- E em soluços e lágrimas acusa:
- “Amigos, oh! que horror, que atroz maldade!
- Esse homem naus levou, levou guerreiros;
- Frota e nautas perdeu: na volta, agora,
- Deu cabo dos melhores Cefalenes.
- Eia, antes que ele a Pilos se recolha,
- Ou busque a dos Epeus Élide santa,
- Vamos; ou torpe vida e eterno opróbrio
- Tem de caber-nos: se de irmãos e filhos
- Não punimos os brutos matadores,
- Sombra unir-me anteponho a sombras caras.
- Vamos, vamos, os bárbaros não fujam.”
- Seu lastimar os corações comove;
- Mas do palácio, em que os deteve o sono,
- Chegam Médon e o músico divino;
- Médon pondera: “Aquivos, nunca Ulisses
- Tanto obrara sem nume: um vi que avante,
- Na forma de Mentor, na sala o instava,
- E o tropel todo em ruma ia caindo.”
- Palor súbito invade os circunstantes.
- Ergueu-se o herói Mastórida Haliterse,
- No passado o mais douto e no futuro,
- E orou sisudo: “Cidadãos e amigos,
- Do feito a culpa tendes; não quisestes,
- Surdos aos de Mentor e aos meus conselhos,
- Flagício enorme sopear dos filhos,
- Que, os bens roendo, injuriando a esposa,
- Com tão potente rei já não contavam.
- É sem remédio. Ouvi-me agora ao menos:
- Mores desastres atalhai, não vamos.”
- A assembléia divide-se em tumulto:
- Uns de Haliterse à voz se aquietaram;
- Mas outros, ao combate persuadidos,
- Em corpo avançam, reluzindo em bronze,
- Por vastas ruas, de Eupiteu sequazes,
- Que cego ou desagravo ou morte anela.
- Consulta ao pai Minerva: “Ó soberano,
- Que tens na mente? Guerra ou congraçá-los?”
- E o Nubícogo: “Filha, que perguntas?
- Não traçaste que à volta se vingasse?
- Pois bem. Direi contudo o que é decente:
- Vingado o herói divino, assente as pazes;
- Reine em povos leais; de irmãos e filhos
- O castigo apaguemos sanguinoso;
- Renove-se a amizade, haja abundância.”
- Disse, o ardor a Minerva acrescentando,
- Que do jugoso Olimpo se arremessa.
- Apaziguada a fome, aos companheiros
- Adverte Ulisses: “Veja alguém se perto
- Já nos atacam.” Sai de Dólio um filho,
- E enxerga logo da soleira a turba:
- “Arma, arma, grita, a gente se aproxima.”
- Armam-se os quatro, e os seis irmãos com eles;
- E Laertes e Dólio, encanecidos,
- No perigo urgentíssimo se arnesam.
- De ponto em branco, as portas escancaram,
- Precipitam-se fora, e os manda Ulisses;
- Disfarçada em Mentor, veio ampará-los
- A Tritônia, de Jove augusta prole.
- Ledo o chefe do auxílio: “Hoje, meu caro
- Telêmaco, aos mais fortes investindo,
- Mostres brio e vigor; nem me envergonhes,
- Nem dos caros maiores degeneres.”
- E Telêmaco: “À frente, ó pai dileto,
- Ver-mes-ás honrando sempre a estirpe tua.”
- Regozijou-se o avô: “Propícios deuses,
- Rivais são na virtude o filho e o neto!
- Que dia! que prazer!” — E a gázea Palas:
- “Arcesíades, sócio o mais querido,
- Roga a Minerva e ao Padre, afouto vibres.”
- Ela ânimo e denodo aqui lhe infunde;
- O herói, finda a oração, de Eupiteu rompe
- De lança o elmo, à queda o arnês ressoa.
- Ulisses e Telêmaco os mais bravos
- Talham de espada e pique, e total fora
- O estrago e perda, se a gritar Minerva
- Não contivesse o povo: “Ítacos, basta,
- Já já da da crua guerra separai-vos.”
- Pálido susto, à voz divina, os toma;
- Das mãos voando as armas, ansiosos
- De resguardar as vidas, se retiram:
- Furente Ulisses a bramir os segue,
- Tal como águia altaneira as nuvens rasga.
- Então fulmina Júpiter, e o raio
- Cai ante Palas, que ao Laércio intima:
- “Dial cordato aluno, abster-te cumpre
- Da discórdia civil, para que infesto
- Não te seja o Tonante onipotente.”
- Gostoso à deusa Ulisses obedece.
- A Mentor semelhando em som e em vulto,
- Sela a paz a do Egífero progênie.