Já da rainha à mente influi Minerva
326 versos · 3 notas do tradutor
- Já da rainha à mente influi Minerva
- Propor na sala do arco e das secures
- A contenda, princípio da carnagem.
- A escada monta, pelo ebúrneo cabo
- Na mão toma carnuda a chave aênea
- Curva e artefata, e vai com boas servas
- À superior instância, onde o rei tinha
- Muito ouro e cobre e trabalhado ferro;
- Pleno acha o letal coldre e o fléxil arco,
- Dons hospitais do Eurítides Ífito,
- Lacedemônio herói. Com este Ulisses
- No palácio topou do bravo Ortíloco,
- Indo a Messena, embaixador imberbe,
- Do pai e outros antigos deputado,
- Longa viagem, reclamar trezentas
- Ovelhas e seus guardas, que Messênias
- Galés dos campos de Ítaca levaram.
- Para seu dano, Ífito ali buscava
- Éguas doze perdidas e a seus ubres
- Doze pacientes mus: foi quando Ulisses,
- Que doou-lhe uma espada e forte pique,
- Esse arco teve, que, morrendo Êurito
- Em seu palácio transmitira ao filho.
- Ah! que nunca um do outro à mesa esteve!
- Atalhou-se a amizade, porque Ífito,
- Hospedado por Hércules, de Jove
- O mais valente e façanhoso garfo,
- Este o matou sem pejo dos Supremos,
- Ímpia as éguas solípides retendo.
- Por memória do amigo, o arco aceito,
- Partindo Ulisses, o deixou na pátria.
- Vizinha à câmara a mulher egrégia,
- Tem-se ao portal de robre, esquadriado
- E polido, a que o fabro acomodara
- Esplêndidas ombreiras e batentes:
- Solto o loro do anel, para o ferrolho
- Da armela desprender, enfia a chave;
- Com jeito ao revolvê-la, as altas portas,
- Qual muge em várzea o touro, abertas rangem.
- De sobre estrado, em que pousavam grandes
- Caixas de roupa odora, as mãos alçando,
- O arco e a funda lustrosa despendura;
- Sentando-se, o coloca aos seus joelhos,
- E lamenta e pranteia, ao destojá-lo.
- Torna, enxutas as lágrimas, à sala,
- Setas fatais e o arco sustentando;
- Uma canastra escravas lhe carregam
- Do cobre e ferro do certame régio.
- Entre fâmulas duas, à soleira
- Pára, e abatendo o fino véu perora:
- “Vós que, à pretexto de esposar-me, ausente
- Meu marido, estragais toda esta casa,
- Ouvi-me. O arco eis aqui do nobre Ulisses,
- E eu proponho um certame: quem mais fácil
- O atese e freche atravessando os olhos
- Das machadinhas doze, hei de segui-lo
- Da conjugal estância, farta e bela,
- Da qual me lembrarei té nos meus sonhos.”
- O arco e acerado ferro então lhes manda
- Pelo fiel choroso Eumeu. Filétio,
- Ao ver o arco do rei, suspira e geme.
- Antino os apodou: “Rústicos parvos,
- Que só cuidais no de hoje, ah! miseráveis,
- Enterneceis com lágrimas aquela
- Que, perdido o consorte, em mágoas vive?
- Comei calados, ou carpi de fora;
- Deixai-nos o arco da custosa empresa:
- Há quem fácil o curve e se equipare
- A tão completo herói? Pequeno eu era,
- E de Ulisses divino estou lembrado.”
- Assim falou; mas no ânimo contava
- O arco tender e traspassar os ferros,
- Ele que provará primeiro a frecha
- Do rei sem tacha, a quem no mesmo alvergue
- Tinha afrontado, os sócios concitando.
- Forte exclama Telêmaco: “Hui! por certo
- Jove desjuizou-me: em que prudente,
- Minha dileta mãe diz que por outrem
- Larga esta casa, eu rio e insano folgo!
- Procos, eia, ao certame: em Graias terras
- Mulher, vós o sabeis, não há como ela,
- Em Pilos santa, em Argos, em Micenas,
- Nem mesmo em Ítaca ou no Epiro negro:
- Para que pois levá-la? Decidamos,
- Sem mais tergiversar, tente-se a prova.
- Também o ensaiarei: se o arco ateso
- E as secures enfio, a mim dolente
- Não me há de abandonar a augusta madre,
- Caso ao paterno jogo eu leve a palma.”
- Direito surge, e o manto purpurino
- Depõe dos ombros e a cortante espada.
- Abre a cada secure funda cova,
- Certo as alinha, em torno calca a terra:
- Que o faça admiram, sem que nunca o visse.
- Da soleira, o arco tenta, ávido e firme;
- Três vezes falha. Espera inda animoso
- Tender o nervo e atravessar o ferro;
- E ao quarto esforço o gosto conseguira,
- Se Ulisses não lhe acena, e então se teve.
- “Oh! céus, brada, ou serei débil guerreiro,
- Ou moço inda não posso braço a braço
- A ofensa repelir. Vós mais pujantes,
- Exp’rimentai; findemos a contenda.”
- E o arco pousa e encosta aos alizares,
- Do arco ao remate belo a seta apoia,
- E ao posto volve. — Logo Antino: “Em cerco
- Pela destra comece e donde o vinho
- Se distribui.” O dito aprovam todos.
- Ergueu-se o vate Enópides Liodes,
- Junto à cratera assídua sentinela
- Censor dos sócios, à injustiça avesso.
- Ao limiar, pegando o arco e as setas,
- Malogra o esforço; as tenras mãos doridas
- Pouco atreitas molesta: “Eu cesso, amigos;
- Outrem cometa a empresa. Este arco a muitos
- Estrenuos privará de alento e alma;
- E antes morte que vida, a quem frustou-se
- Longa esperança. Aquele que inda fia
- E pensa haver de Ulisses a consorte,
- Verá presto que deve outras Aquivas
- Requestar e dotar: com esta case
- Quem mais lhe oferte e a sorte lhe destine.”
- Também pousa arco e seta, e vai sentar-se.
- Brame Antino em furor: “Que dito acerbo
- Desses beiços, Liodes, proferiste?
- O arco anuncias, por que em vão lidaste,
- A muitos privará de alento e alma?
- Não gerou-te a mãe tua para archeiro;
- Mas outros pulsos poderão dobrá-lo.”
- E ao cabreiro virou-se: “Fogo acende,
- Grande escano lhe achega bem forrado;
- Lá dentro há unto e um disco dele traze:
- Aqueçamo-lo e o arco amaciemos,
- Para em breve o certame concluirmos.”
- Melântio o fogo acende, o escano achega;
- O unto, que não falece, ao lume aquentam:
- O arco a vergar seus braços não bastaram.
- Abstêm-se Antino e Eurímaco deiforme,
- Que facilmente aos outros superavam.
- O vaqueiro e o porqueiro ambos saíram
- E inda após eles, fora e já no pátio,
- Lhes falou com doçura o divo Ulisses:
- “Filétio e Eumeu, calar quiçá me cumpra,
- E descobrir-me o coração me pede.
- Se um deus súbito Ulisses vos mostrasse,
- Deles serieis vós ou desses procos?
- Da alma explicai-mo.” — Exclama-lhe o vaqueiro:
- “Jove, a meu voto anui! um deus o traga!
- Velho, meu brio e ardor conheceria.”
- E Eumeu também depreca ao sacro Olimpo
- Que volte o rei prudente aos seus penates.
- Deles seguro, brada: “Eis-me, entre angústias
- Chego ao vigésimo ano. Reconheço
- O vosso amor e fé: dos servos todos
- Sois quem me desejais com zelo e afinco.
- Agora me atendei: se me dá Jove
- Os intrusos domar, consortes, prédios,
- Casas tereis ao pé da minha própria;
- Sócios e irmãos sejais do meu Telêmaco.
- Não há dúvida alguma: eis dos colmilhos
- Do javardo o sinal, quando ao Parnaso
- Os de Autólico filhos me guiaram.”
- Da cicatriz então separa os trapos:
- Certificados, o senhor abraçam
- E beijam-lhe a chorar a testa e os olhos;
- O mesmo Ulisses faz. Durara o pranto
- Ao posto Sol, se o cauto o não vedasse:
- “Basta, alguém ver-nos pode. Vou primeiro,
- E entrai, com intervalo, um após outro.
- Se eles do arco pegar me proibirem,
- Traze-mo com a aljava, Eumeu divino,
- Através da ampla sala; as servas manda
- Aferrolhar as portas; nem que sintam
- Estrondo e ais, de seu lavor se bulam.
- Os cancelos do pátio, ó bom vaqueiro,
- A chaves tranca e fortemente amarra.”
- Disse, e dentro sentou-se no seu posto;
- Seguem-no a tempo os dous fiéis criados.
- O arco Eurímaco ao lume aquenta e vira,
- Mas nem sequer o verga; no orgulhoso
- Peito suspira, e suspirando fala:
- “Ai de mim e dos mais! Bem que as deseje,
- Não choro as núpcias, que Ítaca e outras ilhas
- Têm muitas belas; choro a clara prova
- De superar-nos tanto o grande Ulisses:
- Oh! futuro desdouro!” — A quem Antino:
- “Tal não será, Eurímaco; reflete:
- Hoje a festa celebra-se de Apolo,
- Quem arco dobrará? depô-lo cumpre,
- Inda que em pé deixemos as secures,
- Pois ninguém penso as tirará da sala.
- Eia, escanção, de novo os copos vaza;
- Larguemos nós libando, o arco e as setas
- Traga cedo Melântio nédias cabras;
- Ao Longe-vibrador queimando as coxas,
- A contenda amanhã terminaremos.”
- Aplaudem-no. Água às mãos arautos vertem;
- As crateras coroando, em roda os moços
- O vinho distribuem. Já perfeitas
- As libações, manhoso o herói discursa:
- “Franco, dignos rivais, serei convosco;
- A Eurímaco mormente me dirijo,
- E ao régio Antino, que opinou cordato:
- O arco repouse e confiai nos deuses;
- A quem quer amanhã dê Febo a glória.
- Mas emprestai-mo, a ver se as forças tenho
- Que outrora os membros fléxeis me animavam,
- Ou se o mar e a desgraça as confrangiram.”
- Indignaram-se os príncipes, temendo
- Que ele o arco dobrasse, e Antino estoura:
- “Mísero! endoudeceste. Pouco julgas
- Farto comer tranqüilo à nossa mesa,
- Ouvir-nos praticar, vantagens que outro
- Vagamundo ou mendigo nunca obteve?
- Vinho ardente e melífluo te perturba,
- Como a quem nele imódico se encharca.
- O vinho a Eurítion, Centauro insigne,
- De Pirítoo magnânimo nos paços.
- Inflamou contra os Lápitas; a injúrias
- Embriagado se moveu tamanhas,
- Que os heróis do vestíbulo o expulsaram,
- Cerceando-lhe as ventas e as orelhas.
- De alma chegada e leso, errando insano,
- Aos Lápitas urdiu cruenta guerra,
- E o vinho d’antemão lhe foi desastre.
- Mal do vinho haverás, se o arco vergas.
- Tu advogado algum não tens no povo;
- Irás a Équeto rei, flagelo de homens,
- Em negra nau, sem que dali te salves.
- Bebe em sossego, e a jovens não te afoutes.”
- A rainha o impugnou: “É torpe e injusto
- Que de meu filho o hóspede molestes,
- Ou quem se abrigue, Antino, em minha casa.
- Supões que ele, se em forças estribado,
- O rijo arco de Ulisses estendesse,
- Levar-me-ia consigo por esposa?
- Nem sonha o pobre em tal, nem vos contriste
- Nos festins semelhante pensamento.”
- Respondeu-lhe o de Pólibo: “Rainha,
- Crermos que ele te espose indigno fôra.
- Teme-se a língua de homens e mulheres;
- Talvez diga o mais vil: — O amor cobiçam
- Da mulher de um valente os que o seu arco
- Não puderam dobrar, quando erradio
- Pedinte o fez, atravessando os ferros.
- Tais motetes opróbrio nos seriam.”
- “Eurímaco, Penélope retorque:
- Respeita acaso o povo os que desonram
- E os bens estragam de um varão sublime?
- Sois vós que há muito vos manchais. Fornido
- E apessoado, o velho se gloria
- De um sangue ilustre: o arco lhe dai; vejamos.
- Se Febo o ajuda, manto lhe asseguro
- Belo e túnica rica, aos pés sandálias,
- Dardo e anticípite espada que o defendam,
- E o mandarei para onde for seu gosto.”
- Sábio Telêmaco. “A nenhum dos chefes
- De Ítaca branca, ou de ilhas que vizinham
- Com a Élide em cavalos abundante,
- Mais do que a mim, querida mãe, compete
- O arco negar ou dar; nem há quem obste,
- Se eu quiser a este hóspede ofertá-lo.
- Vai curar do lavor, da roca e teia,
- E assiste às servas: o arco aos homens toca,
- Mormente a mim, que neste paço mando.”
- Retira-se a rainha, e pasma e guarda
- O maduro discurso de seu filho.
- Sobe com suas fâmulas, chorosa
- Pelo marido caro, até que Palas
- Sono doce nas pálpebras lhe entorna.
- O arco o divo porqueiro ia levando;
- Mas rumor cresce imenso, e um deles brame
- “Onde, abjeto porqueiro, esse arco levas?
- A proteger-nos Febo e os outros numes,
- Breve hão de nas pocilgas devorar-te
- Cães nutridos por ti, sem que te acudam.”
- A arma depôs Eumeu todo assustado;
- Minaz também Telêmaco bradou-lhe:
- “Avante, avante, a chusma não te embargue
- Ou, posto que menor, eu te hei-de a pedras
- Ao campo repelir, que sou mais forte.
- Assim tanto excedesse aos pretendentes,
- Que destes paços os tivera expulso,
- Onde exercem flagícios e torpezas.”
- Ei-los a rir a cólera esqueceram.
- O arco o fiel pastor, por entre a sala,
- Entrega a Ulisses, e à nutriz adverte:
- “As servas manda, o príncipe te ordena,
- Aferrolhar as portas; nem que sintam
- Estrondo e ais, do seu lavor se bulam.”
- Executa Euricléia à risca e pronta.
- Mudo Filétio furta-se; os cancelos
- Do pátio fecha, e os liga de biblino
- Cabo naval, que ao pórtico jazia,
- E os olhos no senho, torna a seu posto.
- O arco o herói tenteia, e vira e indaga
- Se de vermes roído estava o corno.
- Um disse: “Admirador é certamente,
- Será de arcos ladrão; possui em casa
- Muitos iguais, ou fabricá-los busca:
- Destramente o meneia o vagabundo!”
- Outro ajunta: “Bem haja, como agora
- Tem de o vergar.” Zombando galrejavam.
- Solerte enfim Ulisses o examina:
- Qual estende perito citaredo
- Com nova chave do alaúde as cordas,
- As torsas adaptando ouvinas tripas,
- Fácil o atesa, a destra o nervo estira,
- Que soou como chilro de andorinha.
- De cor os procos doloridos mudam;
- Forte Jove troveja, e o divo Ulisses
- Folga ao sinal: da mesa pega a nua
- Leve seta, na aljava as outras sendo
- Que hão de os Aqueus experimentar; sentado,
- Embebe-a no arco, puxa o nervo e as barbas;
- Da mira não desvaira a brônzea frecha,
- Das secures zunindo os furos passa.
- Ao filho clama: “O hóspede que abrigas
- Não te desonra; o tiro foi certeiro
- O arco tendi sem lida: hei sãs as forças,
- Cessem do vitupério estes senhores.
- Hora é de preparar com dia e ceia;
- Orne a lira o banquete, o canto o alegre.”
- As sobrancelhas move: aguda espada
- Eis Telêmaco cinge, empunha a lança;
- Do pai senta-se ao pé, de bronze armado.