Do éter assoma a dedirrósea filha
446 versos · 5 notas do tradutor
- Do éter assoma a dedirrósea filha;
- Ergue-se o rei, presenta o egrégio Ulisses
- Ante as naus ao congresso convocado,
- E a par assentam-se em polidas pedras.
- Cuidadosa do urbífrago Laércio,
- Palas, de Alcino o arauto semelhando
- Na cidade apregoa: “Ao foro, ao foro;
- Um de vulto imortal ide ouvir, chefes,
- Que hóspede Alcino recolheu das vagas.”
- Incitados, a praça e os bancos enchem.
- Mirando aquele em cuja fronte e espáduas
- Graça divina despejou Minerva;
- Mais guapo o fez e esbelto e majestoso,
- Para que, a todos formidando e grato,
- Nos certames de si desse alta prova.
- Conciona grave na assembléia Alcino:
- “O que hei no peito, príncipes, declaro.
- Veio-me à casa este hóspede errabundo,
- Se do Oriente ignoro ou do Ocidente,
- Mas passagem me pede e que a fixemos.
- A ida se lhe apresse; um forasteiro
- Nunca em meu lar se lastimou retido:
- Novo negro baixel ao mar divino,
- Cinqüenta e dous receba exímios nautas.
- Ligados presto os remos aos toletes,
- Eia, a lauto festejo compareçam.
- No me falheis, cetrados: convidai-me
- Demôdoco imortal, que em estro aceso
- Por Jove, entoa cânticos melífluos.”
- Ei-lo, avança; os cetrígeros o escoltam,
- O arauto corre ao músico sublime.
- Cinqüenta e dous se elegem, que submissos
- Vão-se à praia e o navio deitam n’água,
- Alçam mastro, içam velas, prendem remos
- Com atilhos de coiro, e tudo prestes,
- Abrindo o pano, o lenho põem de largo;
- Passam depois ao régio nobre alcáçar,
- Salões, átrios, vestíbulos se atulham
- De mancebos, de velhos, turba imensa.
- Alcino doze ovelhas e oito porcos
- De alvos dentes imola e dous refeitos
- E flexípedes bois, que os mais esfolam,
- Deleitoso banquete aparelhando.
- Conduz Pontono o vate aceito à Musa,
- Que o cegou, mas lhe deu canto suave
- E do bem e do mal o entendimento;
- Num trono o põe de prata cravejado,
- Numa coluna o encosta, e lhe pendura
- Sobre a cabeça em prego a doce lira
- E de a tomar indica-lhe a maneira;
- Pousa-lhe um canistrel em mesa ornada,
- Com cheia copa que à vontade empine.
- Atiram-se aos manjares os convivas.
- Expulsa a fome e a sede, a Musa instiga
- O poeta a cantar guerreiro canto,
- Cuja fama às estrelas se exaltava;
- A rixa era de Ulisses e de Aquiles,
- Com ditos agros num festim sagrado;
- E o rei dos reis folgava, porque entrando,
- No estrear Jove a lide Grega e Teucra,
- Do Pítio Apolo no marmóreo templo,
- O oráculo a vitória prometeu-lhe,
- Dês que os melhores Dânaos contendessem.
- Prossegue o vate, a Ulisses à cabeça
- Com força deita o purpurino manto,
- Para encobrir nas morenadas faces
- As lágrimas que a pares borbulavam.
- No intervalo da música, as enxuga
- E desce o manto, liba às divindades
- Na bicôncava taça; quando, a rogos
- Dos que a toada e a letra enamorava,
- O bom cego as repete, o herói suspira
- E, tornando a embuçar-se, esconde o choro.
- Junto, o percebe o rei: “Feaces, basta.
- Nós, de iguarias cheios e de acorde,
- Glória e adorno da mesa, ao foro andemos:
- Narre o estrangeiro aos seus quanto hábeis somos
- Em luta e pugilato, em salto e curso.”
- Marcha, e os grandes com ele; ao prego a lira
- Suspende o arauto, e à cola guia o cego
- Dos que iam divertir-se nos certames,
- De infinita caterva acompanhados.
- Jovens de pulso, Anquíalo, Acrônio,
- Nautes, Elatreu, Ocíalo, se ergueram,
- Pronteu, Proreu, Toon, Prines, Eretemes,
- Anabesinco, Anfíalo progênie
- De Polineu Tectômides; nem faltam
- O igual de Marte Euríalo, o formoso
- E esbelto Naubólides mais que todos,
- Fora o guapo Laodamas; este alçou-se
- Também com seus irmãos, de Alcino ramos,
- Hálio gentil e Clitoneu galhardo.
- Começam pelo curso, e da barreira
- Entre nuvens de pó rápidos voam:
- Quanto um pousio arando excedem mulas
- A bois tardonhos, Clitoneu bizarro
- Pretere os outros e regressa ao povo.
- Anfíalo em saltar, no disco Elatreu,
- Vence Euríalo os mais na acerba luta,
- Na punhada Laodamas, que no meio
- Do regozijo brada: “Amigos, vinde,
- Perguntemos se o hóspede é nos jogos
- Exercitado: o corpo tem fornido,
- Pernas, coxas, pescoço, espáduas, punhos;
- Inda é verde, sofresse embora há pouco
- O trabalho do mar, que tanto custa
- E do varão mais rijo as forças quebra.”
- Euríalo aprovou: “Pois bem, Laodamas,
- Vai tu mesmo incitá-lo.” Eis ante Ulisses
- Tem-se o filho de Alcino: “Hóspede padre,
- Entra, se os aprendeste, em nossos ludos;
- Quadram-te à maravilha: é do homem timbre
- De pés e mãos valer-se denodado.
- Bane a tristeza, partirás em breve;
- Em nado é teu baixel e os vogas prontos.”
- Mas o astuto: “Laodamas, tu provocas
- A que zombem de mim? Não penso em ludos,
- Penso na dores que passei tamanhas;
- A volta mendigando, ao rei depreco
- E ao popular congresso.” Em face o ataca
- Súbito Euríalo: “Hóspede, não cuido
- Que nos certames dos varões te exerças;
- Menos atleta válido pareces
- Que de marujos traficante mestre,
- A especular na carga e mercancia
- Da remeira galé, de roubos arca.”
- Torvo Ulisses o mede: “E tu pareces
- Doudo varrido a proferir dislates.
- Nem tudo Jove dá; beleza nega,
- Ou loqüela, ou juízo: um não formoso
- Com suave eloqüência orna o semblante,
- E olhado com prazer, modesto e firme,
- No parlamento se insinua e reina,
- E na rua e na praça um deus o aclamam;
- Outro, gentil como íncolas celestes,
- Insulso é no exprimir-se. Tu, mancebo,
- Nobre és de aspecto, mas no tino falhas;
- Com teu parlar minha alma exacerbaste.
- Não me creias ignaro dos certames;
- Da idade no vigor fui dos primeiros:
- Hoje o pesar me oprime, e o que hei passado
- Na guerra e em salsas vagas; mas embora,
- Meu coração mordeste, os jogos tento.”
- Aqui, de manto mesmo, um grosso aferra
- Disco muito maior que os dos Feaces
- O peso a revoltões zunindo expede:
- Bem que pujante a chusma a remo e vela,
- Se agacha ao tiro, e sobrevoa a pedra
- Salvando as marcas todas. — Palas uma
- Logo fixando, em vulto humano fala:
- “Pode, hóspede, apalpando qualquer cego
- Teu sinal discernir, que é nímio avante
- Sem confusão dos mais; nenhum Feace
- Tirar-te-á do lanço, eu to aseguro.”
- O herói folga de tal benignidade,
- E brando ajunta: “À liça agora, moços;
- De novo jogarei, talvez mais longe.
- Vós me irritastes, a ninguém recuso;
- Ao cesto, à luta, ao curso, desafio
- Todos, menos Laodamas, que hospedou-me:
- Pelejar com o amigo, é de um vil néscio;
- Quem quer que o tente num país estranho,
- O jus perde ao respeito e a benefícios.
- Nenhum temo ou desprezo; às claras venha
- O que me julgue imbele experimentar-me.
- No arco mormente primo; sei na turba
- De hostis frecheiros num dos seus a farpa
- À vontade empregar: nos campos Tróicos
- Só me vencia o archeiro Filoctetes;
- Entre os mortais que o pão da terra, comem,
- Gabo-me e prezo de lhe ser segundo.
- Com prístinos varões não me comparo,
- Com Hércules e Êurito Ecaliense,
- Que na sua arte aos numes se atreviam:
- O grande Êurito foi de curta vida,
- ímpio desafiando o iroso Apolo.
- Meu dardo alcança como de outro a seta.
- Só receio os Feaces na carreira,
- Das ondas nimiamente quebrantado:
- Nem sempre era o navio bem provido,
- E frouxos tenho os trabalhados membros.”
- Ao silêncio geral sucede Alcino:
- “Tens hóspede, razão de te agastares
- Contra esse audaz, e a peito o provar tomas
- De constante valor munido seres.
- Que homem sisudo nunca mais te argua.
- Ouve-me, outra impressão de nós conserves,
- Para, ao festim com tua esposa e filhos,
- Contares aos heróis quais prendas Jove
- Desde avós nos transmite: em luta e cesto
- Não somos extremados, sim ligeiros
- E na marinha exímios; o banquete
- Nos praz, coréia e música, a mudança
- De vestidos, bom leito e quentes banhos.
- Bailai vós, peritíssimos Feaces;
- O hóspede narre aos seus quanto excelemos
- Em navegar, em pés, em dança, em canto.
- Corra alguém, e a Demôdoco da régia
- Depressa traga a cítara sonora.”
- Pontono corre. Os públicios do circo
- Nove eleitos juizes, levantados,
- O lugar aplanando, o espaço alargam.
- O arauto volta; a cítara o poeta
- Recebe, a quem na arena adolescentes
- Cercam destros e airosos, em cadência
- Pulsando o chão divino: absorto Ulisses
- O enredo, o passo, a rapidez contempla.
- Demôdoco depois dedilha e canta
- Como furtiva a coroada Vênus
- Uniu-se a Marte, que o Vulcânio toro
- Maculou com mil dons peitando a esposa.
- Pelo Sol advertido, o grão ferreiro
- Parte, vingança a meditar profundo;
- No cepo encava a incude, laços forja
- Que desdar-se não podem nem romper-se.
- Mal os conclui, à câmara caminha
- Do seu leito amoroso; uns aos pés liga,
- Outros ao sobrecéu, com tanta insídia,
- Que de aranha sutil quais teias eram,
- Mas a qualquer celícola invisíveis.
- Armada a fraude, simulou viagem
- De Lemos à caríssima cidade.
- Marte, cujos frisões têm freios de ouro,
- Não obcecado, o fabro viu partindo;
- Veio-lhe presto à casa, cobiçoso
- De gozar Vênus bela: esta pousava
- De visitar o genitor Satúrnio;
- Pega-lhe o amante na mimosa destra:
- “Vazia a cama está; Vulcano é fora,
- Aos Síntios foi-se de linguagem bronca.”
- Ei-los ao leito jubilando ascendem,
- E nas malhas do artista se emaranham;
- Nem desatar-se nem mover-se podem,
- Sem ter efúgio algum. Torna Vulcano,
- Antes que a Lemos chegue; o Sol o avisa.
- Ao seu pórtico pára angustiado,
- Urro esforça raivoso, que no Olimpo
- Retumba horrendo: “Ó Padre, ó vós deidades,
- Vinde rir e indignar-vos desta infâmia.
- Por coxo a Dial Vênus me desonra,
- Amando ao sevo Marte, que é perfeito:
- Se esta iesão me afeia, é toda a culpa
- De meus pais, que gerar-me não deviam.
- Vêde-os, oh! triste aspecto como dormem
- No meu leito enleados; mas duvido
- Que em seu ardor jazer assim desejem.
- Meu laço os reterá, té que haja o dote
- E os dons feitos ao pai, que deu-me a filha
- De formosura exemplo e de inconstância.”
- No éreo paço Vulcânio já Netuno,
- Mais o frecheiro Febo e o deus do ganho,
- As deusas de pudor não comparecem;
- Do pórtico os demais, às gargalhadas,
- O dolo observam do prudente mestre,
- Olham-se e clamam: “Da virtude o vício,
- Do inferno o lesto e forte é suplantado;
- O manco aos mais veloz prendeu com arte,
- Pague o adúlterio a multa.” Apolo ao núncio
- De bens dador voltou-se: “Quererias,
- Filho de Jove, assim dormir nos braços
- Da áurea Ciprina?” Respondeu Mercúrio:
- “Oxalá, Febo Apolo, ao pé de Vênus
- Vós me vísseis dormir, e as próprias deusas,
- No tresdôbro dos fios envolvido.”
- Renovou-se a risada; mas Netuno
- Sério ao mestre pediu que solte a Marte:
- “Solta-o; prometo que a teu grado e à risca
- Hajas a multa aos imortais devida.”
- “Rei, contesta o aleijado, não mo ordenes;
- A caução para o fraco é fraca sempre:
- Como eu te obrigaria, se ele escapo
- Se recusasse?” Então Netuno: “Marte
- Se renuir, pagar-te-ei, Vulcano.”
- Rende-se o ínclito coxo: “Não me é dado
- Negar-to.” E os laços desliou de um toque.
- Os réus fugiram: para a Trácia, Marte;
- Para Pafos Ciprina, a mãe dos risos,
- Que ali tem bosque e recendentes aras.
- Banhada em óleo divinal ungida,
- As Graças do mais fino a paramentam.
- Ulisses da harmonia se recreia,
- E a gente em roda. Alcino bailar manda
- Laodamas e Hálios sós, que a palma levam:
- Um, curvo atrás, às nuvens roxa pela,
- Que fez Pólibo, alteia, e outro, a pulo,
- Antes que aos pés lhe caia, a encontra e joga;
- A alma terra ao depois, tripudiando,
- Alternos batem, com geral aplauso.
- O estrépito sossega, e Ulisses fala:
- “Bem gabaste na dança os teus Feaces;
- Estou, potente rei, maravilhado.”
- Alegre Alcino: “Príncipes, decerto
- É sábio e dons merece. Há cabos doze,
- E eu treze: cada qual brinde-lhe um manto
- Rico e túnica nova e áureo talento,
- E junto obtenha tudo e à ceia folgue;
- A injúria apague Euríalo e o congrace
- Com palavras e dádivas” — De grado
- Seu próprio arauto unânimes despacham,
- E Euríalo obedece: “De vontade
- Quero aplacá-lo, ó maioral dos povos;
- Haja esta brônzea espada com bainha
- De recente marfim e argênteos punhos,
- Digna dele.” E ao passá-la: “Ó venerável,
- Espalhe o vento irrefletidas vozes.
- Longo há fora dos teus, hóspede, os numes
- Restituam-te à pátria e à mulher cara.”
- “Salve, Ulisses responde, e sê ditoso.
- Nunca, jovem amigo, a falta sintas
- Do presente que afável me concedes.”
- Aceita e cinge a espada claviargêntea.
- O Sol transmonta, e as dádivas afluem
- Que ao real paço arautos conduziam;
- De Alcino os filhos as recebem logo
- E à mãe vão reverentes presentá-las;
- O pai à casa os principais convida,
- Senta-os em tronos, volve-se à rainha:
- “Traze, mulher, tua arca a mais luzente,
- Boa túnica e um manto; ao lume aqueçam
- Caldeira para banho. Ele gozoso
- Os dons remire dos heróis Feaces,
- Divirta-se ao banquete e os hinos logre.
- Dou-lhe em memória uma áurea fina taça,
- Por onde libe à Jove e à corte sua.”
- Ela ordena; uma trípode as escravas
- Põem ao fogo e por baixo lenha acendem;
- A água, lambendo a labareda o bojo,
- Ferve em caixões... N’arca louçã, que trouxe,
- Dos Feaces a roupa e o ouro mete,
- Mais a túnica e o manto: “A tampa, adverte,
- Hóspede, esguarda; em nó seguro a feches,
- Para ninguém lesar-te na viagem,
- Quando em ferrado sono a bordo pegues.”
- Na tampa o cauto herói passa um nó firme,
- Invenção da engenhosa augusta Circe.
- Da caseira a banhar-se convidado,
- Entra a prazer em tina de água morna;
- Pois tamanha delícia não gozava,
- Dês que a ilha deixara de Calipso,
- Onde ele como um nume era tratado.
- Lavam-no, ungido vestem-lhe as escravas
- Túnica e manto, e sai para entre os cabos
- Vinhos saborear. Então Nausica,
- Beleza divinal, chega à soleira
- Da magnífica sala; atenta Ulisses,
- Admira-o, diz veloz: “Hóspede, salve;
- Lá mesmo em teu país de mim te lembres,
- De mim primeira em te guardar a vida.”
- Respondeu-lhe: “De Alcino ínclita filha.
- Assim de Juno o altíssono consorte
- A luz ver da partida me conceda,
- Como hei de lá qual déia honrar-te sempre,
- A ti que me salvaste, ó nobre virgem.”
- E junto ao rei sentou-se, quando as peças
- Partiam já e o vinho misturavam.
- Com o amável cantor o arauto vindo,
- No meio o encosta à sólita coluna.
- A porção mais sucosa rasga Ulisses
- Do pingue dorso de albidente porco:
- “Toma, a Demôdoco isto leva, arauto;
- Quero na minha dor mostrar que o prezo.
- Os poetas venera e afaga a terra,
- Caros à Musa, que os doutrina e inflama.”
- Jubilando o cantor a oferta aceita,
- E começa o banquete aparatoso.
- E a Demôdoco Ulisses, finda a ceia:
- “Eu te respeito sobre os homens todos;
- A Dial Musa ou Febo é quem te inspira.
- Cantaste os casos e aflições dos Dânaos,
- Como se própria testemunha fosses,
- Ou de uma o ouvisses. Canta-me o cavalo
- Que da madeira Epeu fez com Minerva,
- Do Laércio ardiloso introduzido,
- Prenhe de heróis que Pérgamo assolaram:
- Exato sejas, e aos mortais proclamo
- Que um deus influi e te modula os hinos.”
- Ei-lo, em fúria sonora; entoa o como.
- As tendas abrasando, uns Gregos vogam,
- E outros, sujeitos ao facundo Ulisses,
- Ficam no amplo cavalo, que puxaram
- Da fortaleza a dentro os mesmos Teucros.
- Estes confusos em redor concebem
- Três projetos, brocar a bronze o lenho,
- Ou do castelo abaixo despenhá-lo,
- Ou santo voto oferecê-lo aos numes:
- O último infausto parecer adotam;
- Fado era que a ruína em lígneo bojo
- A escolha dos Aqueus levasse a Tróia.
- Canta o como, vazio o cavo engano,
- Ílio os esparsos Dânaos depredaram;
- Como, enquanto a cidade vai acesa,
- Outro Mavorte, o Ítaco, à Deifobéia
- Estância foi com Menelau divino,
- E ali, travada aspérrima contenda,
- Coroou-lhe a vitória a Protetora.
- Ao cântico do vate, as maçãs rega
- Debulhando-se em lágrimas Ulisses:
- Qual em braços o esposo a mulher chora
- Que o viu cair em vascas moribundo
- Ante a muralha, os cidadãos e os filhos
- Ao sevo dia subtrair tentando,
- E em ais e em gritos sobre o seu cadáver,
- Dos soldados, que o tergo lhe escalavram,
- Na amargura e na dor é constrangida
- A cruel cativeiro; tal carpia
- O Laércio infeliz. Somente Alcino,
- Sentado ao pé, seu suspirar percebe:
- “Cale o poeta, ó chefes, o instrumento,
- Pois nem todos se alegram do seu canto:
- Findo o repasto, à musica atendendo,
- Mesto sempre nosso hóspede soluça;
- Poupar seu luto cumpre e distrai-lo
- Por ele é que esta festa preparamos,
- Com generosos dons, segura escolta:
- É vero irmão para as sensíveis almas
- Um súplice estrangeiro. Agora, amigo,
- Toda a franqueza: como dos vizinhos
- Eras chamado? o bom e o mau têm nome
- Que seus pais à nascença lhe impuseram.
- Qual é tua terra e gente me declares.
- A fim que a nau medite na viagem:
- De mestre e leme as nossas não precisam,
- Pensam, calculam, como a raça humana,
- Quaisquer povoações e campos sabem,
- Por entre o nevoeiro as vagas tranam,
- Sem temor de soçôbro ou de avaria.
- Previu porém meu pai que, da passagem
- E do socorro aos náufragos Netuno
- Azedo, um nosso galeão de volta
- Sumiria no pélago, à cidade
- Um monte empinadíssimo afrontando.
- Se há de ou não preencher-se o vaticínio
- Pertence ao deus. Mas sem refôlho narra
- Que praias tens corrido, que paragens
- E regiões trilhado; quais das tribos
- Agrestes eram, bárbaras e injustas;
- Quais, tementes á Jove e hospitaleiras.
- Porque em segredo gemes, as desgraças
- Dos Gregos e dos Teucros escutando?
- O Céu quis sucumbissem tais guerreiros,
- Para matéria a pósteros poemas.
- Junto a Ílion morreu-te algum parente?
- Morreu-te um genro, um sogro, os mais diletos
- Após os consangüíneos? ou pranteias
- Um camarada? o sócio íntimo e sério
- Não é menos que irmão no amor e estima.