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OdisseiaLivro VIII
LivroVIII

Do éter assoma a dedirrósea filha

446 versos · 5 notas do tradutor


  1. Do éter assoma a dedirrósea filha;
  2. Ergue-se o rei, presenta o egrégio Ulisses
  3. Ante as naus ao congresso convocado,
  4. E a par assentam-se em polidas pedras.
  5. Cuidadosa do urbífrago Laércio,
  6. Palas, de Alcino o arauto semelhando
  7. Na cidade apregoa: “Ao foro, ao foro;
  8. Um de vulto imortal ide ouvir, chefes,
  9. Que hóspede Alcino recolheu das vagas.”
  10. Incitados, a praça e os bancos enchem.
  11. Mirando aquele em cuja fronte e espáduas
  12. Graça divina despejou Minerva;
  13. Mais guapo o fez e esbelto e majestoso,
  14. Para que, a todos formidando e grato,
  15. Nos certames de si desse alta prova.
  16. Conciona grave na assembléia Alcino:
  17. “O que hei no peito, príncipes, declaro.
  18. Veio-me à casa este hóspede errabundo,
  19. Se do Oriente ignoro ou do Ocidente,
  20. Mas passagem me pede e que a fixemos.
  21. A ida se lhe apresse; um forasteiro
  22. Nunca em meu lar se lastimou retido:
  23. Novo negro baixel ao mar divino,
  24. Cinqüenta e dous receba exímios nautas.
  25. Ligados presto os remos aos toletes,
  26. Eia, a lauto festejo compareçam.
  27. No me falheis, cetrados: convidai-me
  28. Demôdoco imortal, que em estro aceso
  29. Por Jove, entoa cânticos melífluos.”
  30. Ei-lo, avança; os cetrígeros o escoltam,
  31. O arauto corre ao músico sublime.
  32. Cinqüenta e dous se elegem, que submissos
  33. Vão-se à praia e o navio deitam n’água,
  34. Alçam mastro, içam velas, prendem remos
  35. Com atilhos de coiro, e tudo prestes,
  36. Abrindo o pano, o lenho põem de largo;
  37. Passam depois ao régio nobre alcáçar,
  38. Salões, átrios, vestíbulos se atulham
  39. De mancebos, de velhos, turba imensa.
  40. Alcino doze ovelhas e oito porcos
  41. De alvos dentes imola e dous refeitos
  42. E flexípedes bois, que os mais esfolam,
  43. Deleitoso banquete aparelhando.
  44. Conduz Pontono o vate aceito à Musa,
  45. Que o cegou, mas lhe deu canto suave
  46. E do bem e do mal o entendimento;
  47. Num trono o põe de prata cravejado,
  48. Numa coluna o encosta, e lhe pendura
  49. Sobre a cabeça em prego a doce lira
  50. E de a tomar indica-lhe a maneira;
  51. Pousa-lhe um canistrel em mesa ornada,
  52. Com cheia copa que à vontade empine.
  53. Atiram-se aos manjares os convivas.
  54. Expulsa a fome e a sede, a Musa instiga
  55. O poeta a cantar guerreiro canto,
  56. Cuja fama às estrelas se exaltava;
  57. A rixa era de Ulisses e de Aquiles,
  58. Com ditos agros num festim sagrado;
  59. E o rei dos reis folgava, porque entrando,
  60. No estrear Jove a lide Grega e Teucra,
  61. Do Pítio Apolo no marmóreo templo,
  62. O oráculo a vitória prometeu-lhe,
  63. Dês que os melhores Dânaos contendessem.
  64. Prossegue o vate, a Ulisses à cabeça
  65. Com força deita o purpurino manto,
  66. Para encobrir nas morenadas faces
  67. As lágrimas que a pares borbulavam.
  68. No intervalo da música, as enxuga
  69. E desce o manto, liba às divindades
  70. Na bicôncava taça; quando, a rogos
  71. Dos que a toada e a letra enamorava,
  72. O bom cego as repete, o herói suspira
  73. E, tornando a embuçar-se, esconde o choro.
  74. Junto, o percebe o rei: “Feaces, basta.
  75. Nós, de iguarias cheios e de acorde,
  76. Glória e adorno da mesa, ao foro andemos:
  77. Narre o estrangeiro aos seus quanto hábeis somos
  78. Em luta e pugilato, em salto e curso.”
  79. Marcha, e os grandes com ele; ao prego a lira
  80. Suspende o arauto, e à cola guia o cego
  81. Dos que iam divertir-se nos certames,
  82. De infinita caterva acompanhados.
  83. Jovens de pulso, Anquíalo, Acrônio,
  84. Nautes, Elatreu, Ocíalo, se ergueram,
  85. Pronteu, Proreu, Toon, Prines, Eretemes,
  86. Anabesinco, Anfíalo progênie
  87. De Polineu Tectômides; nem faltam
  88. O igual de Marte Euríalo, o formoso
  89. E esbelto Naubólides mais que todos,
  90. Fora o guapo Laodamas; este alçou-se
  91. Também com seus irmãos, de Alcino ramos,
  92. Hálio gentil e Clitoneu galhardo.
  93. Começam pelo curso, e da barreira
  94. Entre nuvens de pó rápidos voam:
  95. Quanto um pousio arando excedem mulas
  96. A bois tardonhos, Clitoneu bizarro
  97. Pretere os outros e regressa ao povo.
  98. Anfíalo em saltar, no disco Elatreu,
  99. Vence Euríalo os mais na acerba luta,
  100. Na punhada Laodamas, que no meio
  101. Do regozijo brada: “Amigos, vinde,
  102. Perguntemos se o hóspede é nos jogos
  103. Exercitado: o corpo tem fornido,
  104. Pernas, coxas, pescoço, espáduas, punhos;
  105. Inda é verde, sofresse embora há pouco
  106. O trabalho do mar, que tanto custa
  107. E do varão mais rijo as forças quebra.”
  108. Euríalo aprovou: “Pois bem, Laodamas,
  109. Vai tu mesmo incitá-lo.” Eis ante Ulisses
  110. Tem-se o filho de Alcino: “Hóspede padre,
  111. Entra, se os aprendeste, em nossos ludos;
  112. Quadram-te à maravilha: é do homem timbre
  113. De pés e mãos valer-se denodado.
  114. Bane a tristeza, partirás em breve;
  115. Em nado é teu baixel e os vogas prontos.”
  116. Mas o astuto: “Laodamas, tu provocas
  117. A que zombem de mim? Não penso em ludos,
  118. Penso na dores que passei tamanhas;
  119. A volta mendigando, ao rei depreco
  120. E ao popular congresso.” Em face o ataca
  121. Súbito Euríalo: “Hóspede, não cuido
  122. Que nos certames dos varões te exerças;
  123. Menos atleta válido pareces
  124. Que de marujos traficante mestre,
  125. A especular na carga e mercancia
  126. Da remeira galé, de roubos arca.”
  127. Torvo Ulisses o mede: “E tu pareces
  128. Doudo varrido a proferir dislates.
  129. Nem tudo Jove dá; beleza nega,
  130. Ou loqüela, ou juízo: um não formoso
  131. Com suave eloqüência orna o semblante,
  132. E olhado com prazer, modesto e firme,
  133. No parlamento se insinua e reina,
  134. E na rua e na praça um deus o aclamam;
  135. Outro, gentil como íncolas celestes,
  136. Insulso é no exprimir-se. Tu, mancebo,
  137. Nobre és de aspecto, mas no tino falhas;
  138. Com teu parlar minha alma exacerbaste.
  139. Não me creias ignaro dos certames;
  140. Da idade no vigor fui dos primeiros:
  141. Hoje o pesar me oprime, e o que hei passado
  142. Na guerra e em salsas vagas; mas embora,
  143. Meu coração mordeste, os jogos tento.”
  144. Aqui, de manto mesmo, um grosso aferra
  145. Disco muito maior que os dos Feaces
  146. O peso a revoltões zunindo expede:
  147. Bem que pujante a chusma a remo e vela,
  148. Se agacha ao tiro, e sobrevoa a pedra
  149. Salvando as marcas todas. — Palas uma
  150. Logo fixando, em vulto humano fala:
  151. “Pode, hóspede, apalpando qualquer cego
  152. Teu sinal discernir, que é nímio avante
  153. Sem confusão dos mais; nenhum Feace
  154. Tirar-te-á do lanço, eu to aseguro.”
  155. O herói folga de tal benignidade,
  156. E brando ajunta: “À liça agora, moços;
  157. De novo jogarei, talvez mais longe.
  158. Vós me irritastes, a ninguém recuso;
  159. Ao cesto, à luta, ao curso, desafio
  160. Todos, menos Laodamas, que hospedou-me:
  161. Pelejar com o amigo, é de um vil néscio;
  162. Quem quer que o tente num país estranho,
  163. O jus perde ao respeito e a benefícios.
  164. Nenhum temo ou desprezo; às claras venha
  165. O que me julgue imbele experimentar-me.
  166. No arco mormente primo; sei na turba
  167. De hostis frecheiros num dos seus a farpa
  168. À vontade empregar: nos campos Tróicos
  169. Só me vencia o archeiro Filoctetes;
  170. Entre os mortais que o pão da terra, comem,
  171. Gabo-me e prezo de lhe ser segundo.
  172. Com prístinos varões não me comparo,
  173. Com Hércules e Êurito Ecaliense,
  174. Que na sua arte aos numes se atreviam:
  175. O grande Êurito foi de curta vida,
  176. ímpio desafiando o iroso Apolo.
  177. Meu dardo alcança como de outro a seta.
  178. Só receio os Feaces na carreira,
  179. Das ondas nimiamente quebrantado:
  180. Nem sempre era o navio bem provido,
  181. E frouxos tenho os trabalhados membros.”
  182. Ao silêncio geral sucede Alcino:
  183. “Tens hóspede, razão de te agastares
  184. Contra esse audaz, e a peito o provar tomas
  185. De constante valor munido seres.
  186. Que homem sisudo nunca mais te argua.
  187. Ouve-me, outra impressão de nós conserves,
  188. Para, ao festim com tua esposa e filhos,
  189. Contares aos heróis quais prendas Jove
  190. Desde avós nos transmite: em luta e cesto
  191. Não somos extremados, sim ligeiros
  192. E na marinha exímios; o banquete
  193. Nos praz, coréia e música, a mudança
  194. De vestidos, bom leito e quentes banhos.
  195. Bailai vós, peritíssimos Feaces;
  196. O hóspede narre aos seus quanto excelemos
  197. Em navegar, em pés, em dança, em canto.
  198. Corra alguém, e a Demôdoco da régia
  199. Depressa traga a cítara sonora.”
  200. Pontono corre. Os públicios do circo
  201. Nove eleitos juizes, levantados,
  202. O lugar aplanando, o espaço alargam.
  203. O arauto volta; a cítara o poeta
  204. Recebe, a quem na arena adolescentes
  205. Cercam destros e airosos, em cadência
  206. Pulsando o chão divino: absorto Ulisses
  207. O enredo, o passo, a rapidez contempla.
  208. Demôdoco depois dedilha e canta
  209. Como furtiva a coroada Vênus
  210. Uniu-se a Marte, que o Vulcânio toro
  211. Maculou com mil dons peitando a esposa.
  212. Pelo Sol advertido, o grão ferreiro
  213. Parte, vingança a meditar profundo;
  214. No cepo encava a incude, laços forja
  215. Que desdar-se não podem nem romper-se.
  216. Mal os conclui, à câmara caminha
  217. Do seu leito amoroso; uns aos pés liga,
  218. Outros ao sobrecéu, com tanta insídia,
  219. Que de aranha sutil quais teias eram,
  220. Mas a qualquer celícola invisíveis.
  221. Armada a fraude, simulou viagem
  222. De Lemos à caríssima cidade.
  223. Marte, cujos frisões têm freios de ouro,
  224. Não obcecado, o fabro viu partindo;
  225. Veio-lhe presto à casa, cobiçoso
  226. De gozar Vênus bela: esta pousava
  227. De visitar o genitor Satúrnio;
  228. Pega-lhe o amante na mimosa destra:
  229. “Vazia a cama está; Vulcano é fora,
  230. Aos Síntios foi-se de linguagem bronca.”
  231. Ei-los ao leito jubilando ascendem,
  232. E nas malhas do artista se emaranham;
  233. Nem desatar-se nem mover-se podem,
  234. Sem ter efúgio algum. Torna Vulcano,
  235. Antes que a Lemos chegue; o Sol o avisa.
  236. Ao seu pórtico pára angustiado,
  237. Urro esforça raivoso, que no Olimpo
  238. Retumba horrendo: “Ó Padre, ó vós deidades,
  239. Vinde rir e indignar-vos desta infâmia.
  240. Por coxo a Dial Vênus me desonra,
  241. Amando ao sevo Marte, que é perfeito:
  242. Se esta iesão me afeia, é toda a culpa
  243. De meus pais, que gerar-me não deviam.
  244. Vêde-os, oh! triste aspecto como dormem
  245. No meu leito enleados; mas duvido
  246. Que em seu ardor jazer assim desejem.
  247. Meu laço os reterá, té que haja o dote
  248. E os dons feitos ao pai, que deu-me a filha
  249. De formosura exemplo e de inconstância.”
  250. No éreo paço Vulcânio já Netuno,
  251. Mais o frecheiro Febo e o deus do ganho,
  252. As deusas de pudor não comparecem;
  253. Do pórtico os demais, às gargalhadas,
  254. O dolo observam do prudente mestre,
  255. Olham-se e clamam: “Da virtude o vício,
  256. Do inferno o lesto e forte é suplantado;
  257. O manco aos mais veloz prendeu com arte,
  258. Pague o adúlterio a multa.” Apolo ao núncio
  259. De bens dador voltou-se: “Quererias,
  260. Filho de Jove, assim dormir nos braços
  261. Da áurea Ciprina?” Respondeu Mercúrio:
  262. “Oxalá, Febo Apolo, ao pé de Vênus
  263. Vós me vísseis dormir, e as próprias deusas,
  264. No tresdôbro dos fios envolvido.”
  265. Renovou-se a risada; mas Netuno
  266. Sério ao mestre pediu que solte a Marte:
  267. “Solta-o; prometo que a teu grado e à risca
  268. Hajas a multa aos imortais devida.”
  269. “Rei, contesta o aleijado, não mo ordenes;
  270. A caução para o fraco é fraca sempre:
  271. Como eu te obrigaria, se ele escapo
  272. Se recusasse?” Então Netuno: “Marte
  273. Se renuir, pagar-te-ei, Vulcano.”
  274. Rende-se o ínclito coxo: “Não me é dado
  275. Negar-to.” E os laços desliou de um toque.
  276. Os réus fugiram: para a Trácia, Marte;
  277. Para Pafos Ciprina, a mãe dos risos,
  278. Que ali tem bosque e recendentes aras.
  279. Banhada em óleo divinal ungida,
  280. As Graças do mais fino a paramentam.
  281. Ulisses da harmonia se recreia,
  282. E a gente em roda. Alcino bailar manda
  283. Laodamas e Hálios sós, que a palma levam:
  284. Um, curvo atrás, às nuvens roxa pela,
  285. Que fez Pólibo, alteia, e outro, a pulo,
  286. Antes que aos pés lhe caia, a encontra e joga;
  287. A alma terra ao depois, tripudiando,
  288. Alternos batem, com geral aplauso.
  289. O estrépito sossega, e Ulisses fala:
  290. “Bem gabaste na dança os teus Feaces;
  291. Estou, potente rei, maravilhado.”
  292. Alegre Alcino: “Príncipes, decerto
  293. É sábio e dons merece. Há cabos doze,
  294. E eu treze: cada qual brinde-lhe um manto
  295. Rico e túnica nova e áureo talento,
  296. E junto obtenha tudo e à ceia folgue;
  297. A injúria apague Euríalo e o congrace
  298. Com palavras e dádivas” — De grado
  299. Seu próprio arauto unânimes despacham,
  300. E Euríalo obedece: “De vontade
  301. Quero aplacá-lo, ó maioral dos povos;
  302. Haja esta brônzea espada com bainha
  303. De recente marfim e argênteos punhos,
  304. Digna dele.” E ao passá-la: “Ó venerável,
  305. Espalhe o vento irrefletidas vozes.
  306. Longo há fora dos teus, hóspede, os numes
  307. Restituam-te à pátria e à mulher cara.”
  308. “Salve, Ulisses responde, e sê ditoso.
  309. Nunca, jovem amigo, a falta sintas
  310. Do presente que afável me concedes.”
  311. Aceita e cinge a espada claviargêntea.
  312. O Sol transmonta, e as dádivas afluem
  313. Que ao real paço arautos conduziam;
  314. De Alcino os filhos as recebem logo
  315. E à mãe vão reverentes presentá-las;
  316. O pai à casa os principais convida,
  317. Senta-os em tronos, volve-se à rainha:
  318. “Traze, mulher, tua arca a mais luzente,
  319. Boa túnica e um manto; ao lume aqueçam
  320. Caldeira para banho. Ele gozoso
  321. Os dons remire dos heróis Feaces,
  322. Divirta-se ao banquete e os hinos logre.
  323. Dou-lhe em memória uma áurea fina taça,
  324. Por onde libe à Jove e à corte sua.”
  325. Ela ordena; uma trípode as escravas
  326. Põem ao fogo e por baixo lenha acendem;
  327. A água, lambendo a labareda o bojo,
  328. Ferve em caixões... N’arca louçã, que trouxe,
  329. Dos Feaces a roupa e o ouro mete,
  330. Mais a túnica e o manto: “A tampa, adverte,
  331. Hóspede, esguarda; em nó seguro a feches,
  332. Para ninguém lesar-te na viagem,
  333. Quando em ferrado sono a bordo pegues.”
  334. Na tampa o cauto herói passa um nó firme,
  335. Invenção da engenhosa augusta Circe.
  336. Da caseira a banhar-se convidado,
  337. Entra a prazer em tina de água morna;
  338. Pois tamanha delícia não gozava,
  339. Dês que a ilha deixara de Calipso,
  340. Onde ele como um nume era tratado.
  341. Lavam-no, ungido vestem-lhe as escravas
  342. Túnica e manto, e sai para entre os cabos
  343. Vinhos saborear. Então Nausica,
  344. Beleza divinal, chega à soleira
  345. Da magnífica sala; atenta Ulisses,
  346. Admira-o, diz veloz: “Hóspede, salve;
  347. Lá mesmo em teu país de mim te lembres,
  348. De mim primeira em te guardar a vida.”
  349. Respondeu-lhe: “De Alcino ínclita filha.
  350. Assim de Juno o altíssono consorte
  351. A luz ver da partida me conceda,
  352. Como hei de lá qual déia honrar-te sempre,
  353. A ti que me salvaste, ó nobre virgem.”
  354. E junto ao rei sentou-se, quando as peças
  355. Partiam já e o vinho misturavam.
  356. Com o amável cantor o arauto vindo,
  357. No meio o encosta à sólita coluna.
  358. A porção mais sucosa rasga Ulisses
  359. Do pingue dorso de albidente porco:
  360. “Toma, a Demôdoco isto leva, arauto;
  361. Quero na minha dor mostrar que o prezo.
  362. Os poetas venera e afaga a terra,
  363. Caros à Musa, que os doutrina e inflama.”
  364. Jubilando o cantor a oferta aceita,
  365. E começa o banquete aparatoso.
  366. E a Demôdoco Ulisses, finda a ceia:
  367. “Eu te respeito sobre os homens todos;
  368. A Dial Musa ou Febo é quem te inspira.
  369. Cantaste os casos e aflições dos Dânaos,
  370. Como se própria testemunha fosses,
  371. Ou de uma o ouvisses. Canta-me o cavalo
  372. Que da madeira Epeu fez com Minerva,
  373. Do Laércio ardiloso introduzido,
  374. Prenhe de heróis que Pérgamo assolaram:
  375. Exato sejas, e aos mortais proclamo
  376. Que um deus influi e te modula os hinos.”
  377. Ei-lo, em fúria sonora; entoa o como.
  378. As tendas abrasando, uns Gregos vogam,
  379. E outros, sujeitos ao facundo Ulisses,
  380. Ficam no amplo cavalo, que puxaram
  381. Da fortaleza a dentro os mesmos Teucros.
  382. Estes confusos em redor concebem
  383. Três projetos, brocar a bronze o lenho,
  384. Ou do castelo abaixo despenhá-lo,
  385. Ou santo voto oferecê-lo aos numes:
  386. O último infausto parecer adotam;
  387. Fado era que a ruína em lígneo bojo
  388. A escolha dos Aqueus levasse a Tróia.
  389. Canta o como, vazio o cavo engano,
  390. Ílio os esparsos Dânaos depredaram;
  391. Como, enquanto a cidade vai acesa,
  392. Outro Mavorte, o Ítaco, à Deifobéia
  393. Estância foi com Menelau divino,
  394. E ali, travada aspérrima contenda,
  395. Coroou-lhe a vitória a Protetora.
  396. Ao cântico do vate, as maçãs rega
  397. Debulhando-se em lágrimas Ulisses:
  398. Qual em braços o esposo a mulher chora
  399. Que o viu cair em vascas moribundo
  400. Ante a muralha, os cidadãos e os filhos
  401. Ao sevo dia subtrair tentando,
  402. E em ais e em gritos sobre o seu cadáver,
  403. Dos soldados, que o tergo lhe escalavram,
  404. Na amargura e na dor é constrangida
  405. A cruel cativeiro; tal carpia
  406. O Laércio infeliz. Somente Alcino,
  407. Sentado ao pé, seu suspirar percebe:
  408. “Cale o poeta, ó chefes, o instrumento,
  409. Pois nem todos se alegram do seu canto:
  410. Findo o repasto, à musica atendendo,
  411. Mesto sempre nosso hóspede soluça;
  412. Poupar seu luto cumpre e distrai-lo
  413. Por ele é que esta festa preparamos,
  414. Com generosos dons, segura escolta:
  415. É vero irmão para as sensíveis almas
  416. Um súplice estrangeiro. Agora, amigo,
  417. Toda a franqueza: como dos vizinhos
  418. Eras chamado? o bom e o mau têm nome
  419. Que seus pais à nascença lhe impuseram.
  420. Qual é tua terra e gente me declares.
  421. A fim que a nau medite na viagem:
  422. De mestre e leme as nossas não precisam,
  423. Pensam, calculam, como a raça humana,
  424. Quaisquer povoações e campos sabem,
  425. Por entre o nevoeiro as vagas tranam,
  426. Sem temor de soçôbro ou de avaria.
  427. Previu porém meu pai que, da passagem
  428. E do socorro aos náufragos Netuno
  429. Azedo, um nosso galeão de volta
  430. Sumiria no pélago, à cidade
  431. Um monte empinadíssimo afrontando.
  432. Se há de ou não preencher-se o vaticínio
  433. Pertence ao deus. Mas sem refôlho narra
  434. Que praias tens corrido, que paragens
  435. E regiões trilhado; quais das tribos
  436. Agrestes eram, bárbaras e injustas;
  437. Quais, tementes á Jove e hospitaleiras.
  438. Porque em segredo gemes, as desgraças
  439. Dos Gregos e dos Teucros escutando?
  440. O Céu quis sucumbissem tais guerreiros,
  441. Para matéria a pósteros poemas.
  442. Junto a Ílion morreu-te algum parente?
  443. Morreu-te um genro, um sogro, os mais diletos
  444. Após os consangüíneos? ou pranteias
  445. Um camarada? o sócio íntimo e sério
  446. Não é menos que irmão no amor e estima.

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v. 71–78Dos que a toada e a letra enamorava,
Homero não diz, como alguns tradutores, que só a toada agradava aos ouvintes; a letra sobretudo é que entristecia a Ulisses. O verbo enamorar, Constâncio o dá por antiquado e Gonzaga, autor que nunca sai da linguagem do tempo de Garção e Denis, traz enamorar, no translato, em que é comumente empregado de preferência a namorar. E este último tem menos nobreza no sentido próprio; diz-se, por exemplo, a moça namora a todos, e não enamora a todos; além de que, a primeira oração mostra sempre que é a moça que procura agradar, quando a segunda pode mostrar que ela é a todos agradável sem buscar sê-lo. — Homero, parece-me, distingue o saltar do dançar: nos jogos públicos, houve exercício de luta, carreira, pugilato e salto; a dança propriamente dita foi ao depois que mandaram vir a lira de Demôdoco, e mereceu louvor especial de Ulisses.
↩ voltar à passagem, v. 71
v. 106–115O trabalho do mar, que tanto custa
O verso 106 é de Camões, canto VI, na fala de Veloso. O meu verso 115 diz que o navio estava em nado, ou que tinha sido lançado ao mar: não sei por que Pindemonte usa de varar, que é o contrário do texto.
↩ voltar à passagem, v. 106
v. 121–126Súbito Euríalo: “Hóspede, não cuido
A insolència de Euríalo tem dobrado merecimento: primeiro, serve para preparar a quase declaração de Ulisses e mover o desejo de lhe ouvirem as aventuras; segundo, faz aparecer a disposição da chusma não favorável aos estrangeiros. Ainda que Euríalo pertencia aos grandes, o que representa a preocupação popular contra os vindiços; porque esta preocupação, quando geral, até penetra nas classes elevadas; e em todos os tempos houve na aristocracia quem, ao menos na aparência, adotasse a opinião da maior parte.
↩ voltar à passagem, v. 121
v. 359Do pingue dorso de albidente porco:
Albidente é de óbvio sentido: Pindemonte, para o italiano, compôs o adjetivo dentibianco neste mesmo lugar.
↩ voltar ao verso 359
v. 392–395Outro Mavorte, o Ítaco, à Deifobéia
Dá Homero a primazia a Ulisses, pondo Menelau como seu ajudante, para assim realçar a valentia do seu herói, e para que a este mais comovesse Demôdoco. M. Giguet, aliás fiel em quase tudo, verteu: la vitoire que leur assura Pallas. Mas Homero como que de propósito mete Menelau na sombra, deixando brilhar a figura de Ulisses, e usando sempre do singular; o plural leur diminui a delicadeza do poeta.
↩ voltar à passagem, v. 392
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Próximo livroIXToma Ulisses a mão: — Potente Alcino