Ora o sofrido herói; marcha a carroça
270 versos · 6 notas do tradutor
- Ora o sofrido herói; marcha a carroça,
- Pára Nausica ao pórtico soberbo:
- Os irmãos seus deiformes, que a rodeiam,
- Os mus disjungem, dentro a carga levam.
- Ela à câmara sobe: o fogo acende
- E a ceia lhe concerta Eurimedusa,
- Do Epiro transportada em naus remeiras,
- Pelo povo escolhida em recompensa
- Para o potente Alcino, dos Feaces
- Como um deus adorado; a qual na régia
- Nutriz foi da donzela, e é camareira.
- Ergue-se Ulisses, e a propícia déia
- O embuça em névoa grossa, que insultá-lo
- E ofender ninguém possa, nem detê-lo
- Ou quem seja inquirir; mas, da risonha
- Cidade ao começar, vem Palas como
- Rapariga de cântaro à cabeça,
- E o Laércio a interroga: “Filha, queres
- Conduzir-me de Alcino aos reais paços?
- Estrangeiro e infeliz, de longe arribo;
- Nem do lugar um morador conheço.”
- “Sim, respeitável hóspede, responde;
- Meu bom pai fica perto. Abro o caminho;
- Tu cala-te, que a turba hostil e acerba
- Não sofre nem festeja os forasteiros.
- Tal gente, ousada nas talhantes quilhas,
- Os mares trana, pois lhas deu Satúrnio
- Velozes qual a pluma e o pensamento.”
- Ela avança, ele a segue. À chusma oculto
- Marítima perpassa, que Minerva
- Lhe difundia divinal caligem:
- Os portos vai mirando e as alterosas
- Naus e o foro e as muralhas estupendas
- Com valos guarnecidas. Mas, vizinhos
- Ao paço, adverte a guia olhicerúlea:
- “Dentro, hóspede e senhor, de Jove alunos
- À mesa encontrarás. Anda e não temas;
- O audaz e franco, donde quer que chegue,
- Vence embaraços. A rainha busques,
- A quem de Areta cabe o grato nome,
- E é da real prosápia do marido.
- Eurimédon feríssimos gigantes
- Altivo dominava, e o duro povo
- Com ele pereceu; de Peribéia,
- Menor filha e a mais guapa, houve Netuno
- O bravo Nausítoo, aqui reinante,
- O qual foi pai de Rexenor e Alcino;
- A Rexenor matando o Arcitenente,
- Ele deixou, casado era de fresco,
- Não masculina prole, única Areta;
- Com Areta esposou-se o tio Alcino.
- Mais honrada não há matrona alguma
- Dos caros filhos, do consorte mesmo;
- Quando passeia, divindade a julgam
- E de seus lábios as palavras colhem;
- Boa e inspirada, os cidadãos congraça.
- Rever esperes, se te for benigna,
- Os amigos e a pátria e a celsa casa.”
- Pelo ponto infrugífero, eis Minerva
- Da Esquéria amena parte, e se dirige
- A Maratona e Atenas de amplas ruas,
- De Erecteu sobe o alcáçar. Ao de Alcino,
- Sem que o límen transponha, tem-se Ulisses
- A cogitar. Magnífico palácio
- Como o Sol fulge e a Lua: éreas paredes
- Firmam-se em torno, da soleira adentro,
- Com seus frisos de esmalte, áureas as portas,
- Argênteos os portais ao brônzeo ingresso,
- Argênteas vergas, a cornija de ouro;
- De ouro e de prata uns cães, de lado a lado,
- Com alma e coração, Vulcânio invento,
- São de Alcino os custódios vigilantes,
- Imortais e à velhice não sujeitos;
- Para o interior há tronos desde a entrada,
- Com finos véus de mãos femíneas obra,
- Onde em redor assentam-se os magnatas
- A comer e beber, durante o ano;
- Com primor fabricados, junto às aras
- Mancebo de ouro estão, de acesos fachos
- A alumiar de noite os conviventes.
- Servem cinqüenta moças: quais, em pedra
- Flavo trigo a moer; quais, aos teares;
- Quais, a virar num rodopio os fusos,
- Como do álamo as folhas buliçosas.
- Untado e bem tecido o linho estila:
- Tanto os Feaces navegando excelem,
- Quanto as mulheres têm, mercê de Palas,
- Para a teia e o lavor engenho e arte.
- Não distante, há vergel de quatro jeiras,
- Onde florentes árvores viçosas,
- De inverno e de verão, perene brotam;
- Zéfiro meigo lhes sazona os frutos,
- Um pula, outro arregoa, outro envelhece.
- Nova sucede à pêra já madura;
- À escachada romã sucede nova;
- Esta oliva é de vez, rebenta aquela;
- Junto à maçã vermelha a verde cresce;
- Figo após figo, mela, uva após uva.
- Medra abundante vinha: em área cachos
- Estão secando ao Sol, quais se vindimam,
- Quais pisam-se em lagar; doces roxeiam,
- Ou no desflorescer acerbos travam.
- O arruado pomar fenece em horta,
- De verduras mimosa em toda quadra.
- Pelo inteiro jardim corre uma fonte;
- Jorra ao pátio a maior ante o palácio,
- Donde bebe a cidade. Eis quanto os numes
- Ao nobre Alcino em casa prodigaram.
- Ulisses mira e pasma, e na caligem
- Paládia envolta, a limiar transpondo,
- Acha-os libando a Hermes negocioso,
- Brinde final dos que do leito curam;
- E mal, vizinho ao rei, da augusta esposa
- Às plantas cai, a nuvem se dissipa.
- Todos o encaram mudos, e ele exclama:
- “Filha de Rexenor, divina Areta,
- Mísero eu te suplico e a teu marido
- E aos mais senhores: oxalá que extensa
- Vida obtenhais e transmitir à prole
- Bens e fortunas que vos der o povo!
- Breve porém mandai-me à pátria minha;
- Fora dos meus padeço há largos anos.”
- Nisto, ao fogão sentou-se no cinzeiro.
- O silêncio reinava, até rompê-lo
- Equeneu venerando, o mais idoso
- Dos Feaces heróis, mais eloqüente,
- Mais douto no passado, e orou sisudo:
- “O hóspede, Alcino, ali jazer na cinza
- É pouco honesto; o aceno os mais te aguardam
- Em sede claviargêntea, eia, o coloques;
- Vinho manda infundir, para ao Fulmíneo,
- Que assiste a honrados hóspedes, libarmos;
- Já, ministrei-lhe ceia, a despenseira.”
- E o rei pega do sábio, em trono o assenta
- Resplendido, que próximo ocupava
- O forte e amado filho seu Laodamas.
- Serva em bacia argêntea às mãos verte água
- De áureo gomil, desdobra e espana a mesa;
- Pão traz modesta ecônoma e iguarias
- Novas, que às encetadas acrescenta.
- Come Ulisses e bebe, e o rei com força:
- “Mistura, tu Pontono, e da cratera
- O vinho distribui, para ao Fulmíneo,
- Que assiste a honrados hóspedes, libarmos.”
- O arauto o brando vinho que mistura.
- Em copos vaza e o distribui aos chefes.
- Depois Alcino: “Egrégios conselheiros,
- Ide saciados repousar, vos digo.
- Os antigos do povo amanhã venham;
- Em festejo hospital ofereçamos
- Completo sacrifício às divindades;
- Em seguida curemos de que alegre
- Ele, por mais remota, à pátria aborde,
- Sem moléstia nem danos; acautelemos
- Qualquer mal no caminho. Já na terra,
- Sofra as penas que as Parcas lhe fiaram
- Desde o materno ventre. E a ser do Olimpo
- Habitador, mistério aqui se encobre:
- Deuses muito há que a nós se manifestam;
- Conosco, nas solenes hecatombes,
- Demoram-se ao banquete; e se um Feace
- Os depara viandante, não se escondem,
- Pois neles entrocamos, como as tribos
- De Ciclopes cruéis, gigantes rudes.”
- “Alcino, o herói tornou, perde essa idéia:
- Aos celícolas tu não me confrontes
- Em índole e presença; humano e frágil,
- Ao mais triste mortal sou comparável,
- Nem te posso explanar quanto infortúnio
- Tem sobre mim os deuses carregado.
- Mas, da mágoa apesar, deixa que eu ceie;
- O estômago importuno se aguilhoa,
- No meio da aflição me pica e lembra
- O comer e o beber, dá trégua às penas.
- N’alva expedi-me: ao ver, pós tantas lidas,
- Minha terra e família e doces lares,
- Acabe-se esta luz ali comigo.”
- Aplaudem-no os Feaces, confiando
- Que o disserto orador o intento logre,
- E trás farto libar foram-se ao leito.
- O herói fica-se e Areta e o rei divino,
- E as servas a baixela entanto arrumam.
- Logo Areta, que as obras reconhece
- Dela e da gente sua: “A interrogar-te
- Primeira, hóspede, sou. Quem és e donde?
- Como houveste essa túnica e esse manto?
- Não dizes tu que náufrago abordaste?”
- “Narrar-te já, responde, quantos males,
- Senhora, o Céu vibrou-me, é mui difícil;
- Mas ao que me perguntas satisfaço.
- De humanos e mortais mora apartada,
- Na Ogígia ilha do alto mar, Calipso,
- De Atlante gérmen, de encrespada coma,
- Ardilosa e tremenda; ali mau gênio
- Lançou-me só, desfeito havendo Jove
- A raio a embarcação no escuro abismo,
- Onde os meus nautas soçobraram todos.
- Por nove dias, aferrado à quilha,
- De vaga em vaga, ao décimo de noite
- A praia toco. A ninfa carinhosa
- Me tratou, me nutriu, velhice e morte
- Quis tolher-me, e abalar-me nunca pôde.
- Firme reguei de choro as dadas roupas
- Incorruptíveis; mas, de Jove ao mando
- Ou volúvel, no curso do ano oitavo
- A partir me exortou numa jangada,
- Pão forneceu-me e vinho e odoras vestes,
- Favônias a invocar-me auras suaves.
- Aos oito sóis de undívaga derrota,
- Vossa alta umbrosa terra apareceu-me,
- E no peito exultei. Mas ai! Netuno,
- Insensível ao pranto, em furor sempre,
- Com vastas brenhas de surdir me impede,
- E a barca um vagalhão me desconjunta.
- As ondas meço a braço, té que à ilha
- Sanhudas nuns penedos me remessam
- Inacessíveis. Novamente nado,
- A foz emboco enfim de um rio ameno,
- Tuto e limpo de escolhos e abrigado;
- Em salvo, ânimo cobro. A tarde assoma,
- Deixo o rio Dial; em selva opaca,
- Inda que atribulado, acamo folhas,
- E um deus noite e manhã me embebe em sono.
- Ao declinar do Sol, acordo e avisto
- A filha tua às imortais parelha,
- N’alva praia, entre as fâmulas brincando;
- Suplico, admiro o tento que, ó rainha,
- Esperar não puderas dos seus anos
- De imprudência e loucura: fez banhar-me,
- De vestidos proveu-me e de alimento.
- Nesta angústia, senhora, eis a verdade.”
- “Hóspede, acode Alcino, a filha minha
- Ao decoro faltou, que ao nosso alvergue
- De antemão suplicada, lhe cumpria
- Na comitiva sua conduzir-te.”
- O manhoso atalhou: “Tu não censures
- A inocente princesa; ela mandou-me
- Acompanhar as servas, e eu neguei-me.
- Temi quiçá, que ao vê-lo te irritasses:
- À suspeita é propensa a espécie humana.”
- “Temerário não sou, replica Alcino,
- Ou pronto em me irritar; o honesto e justo,
- Hóspede, em mim domina. Oh! queira o Padre,
- Minerva e Apolo, tal qual és, de acordo
- Com meu sentir, que genro meu te fiques!
- Dôo-te casa e bens. Mas por violência
- Ninguém te reterá: condena-o Jove.
- Dorme em sossego, disporei seguro
- Teu regresso amanhã: durante as calmas
- Os nautas remarão, se além de Eubéia
- Mesma o desejes, ilha a mais remota,
- Segundo os que de Télus navegaram
- Ao filho Tício o flavo Radamanto;
- Porém num dia aqui se recolheram.
- Conhecerás que chusma e naus possuo
- Para à voga arrancada o mar fenderem.”
- Folga e depreca Ulisses: “Padre excelso!
- Cumpra Alcino a promessa; a glória sua
- Encha a terra fecunda, e eu veja a minha.”
- Inda assim praticavam, quando Areta
- Albinitente ao pórtico uma cama
- Estender manda, com purpúreas colchas,
- Com tapetes, e espessos cobertores;
- Vão de facho na mão fazê-la as servas,
- E o paciente herói depois avisam:
- “Hóspede, vem dormir, que é pronta a cama.”
- Ulisses com prazer no recortado
- Catre ao sonoro pórtico se estira.
- Foi dentro Alcino se gozar do sono,
- Com sua esposa o leito compartindo.