Às risadas a velha os joelhos move
286 versos · 2 notas do tradutor
- Às risadas a velha os joelhos move,
- Celérrima a informar que é vindo Ulisses,
- E a Penélope fala à cabeceira:
- “Surge, anda, filha, a veres com teus olhos
- O que tanto almejaste: eis bem que tardo,
- Castigou teu marido os que, estragando
- Casa e fazenda, o filho te oprimiam.”
- E ela: “O Céu, que à vontade, ama Euricléia,
- Do louco um sábio faz, do sábio um louco,
- Transtorna-te a razão que te assistia.
- Como! zombas de mim, que hei tantas penas,
- E as pálpebras do sono me descerras,
- Sono o mais saboroso dês que Ulisses
- Foi-se à nefanda Tróia? Desce e vai-te.
- Se outra com tais anúncios me acordasse,
- Eu mais dura e severa a despedira;
- Mas vale-te essa idade.” — A escrava insiste:
- “Filha, de ti não zombo; em casa o temos;
- É o hóspede que todos insultavam.
- Já sabia Telêmaco o segredo;
- Ocultava-o prudente, a fim que Ulisses
- A soberba e violência refreasse.”
- Leda salta Penélope do leito,
- Em lágrimas a abraça: “Ama querida
- Se isso é verdade, se ele aqui se alverga,
- Os audazes, que sempre estavam juntos,
- Como só derribou?” — E a nutriz: “Nada
- Eu vi, nem mo contaram, mas ouvia
- O estrondo, o pranto, os ais dos moribundos,
- Lá nos retretes, a trancadas portas,
- Em susto éramos todas, e teu filho
- Por ordem paternal veio chamar-me.
- Achei teu bravo Ulisses entre os mortos
- Uns por cima dos outros: exultaras
- De o ver leão sangrento e encarniçado!
- Ele, fora os cadáveres em montes,
- Fumiga o paço, e ordena que me sigas,
- Anda, ambos de alegria abeberai-vos,
- Depois de tantas mágoas; a tão longa
- Saudade se mitigue. Ele nos torna
- Vivo e são; cá te encontra e o filho vosso;
- Puniu já desta casa os malfeitores.”
- Logo a rainha: “A rir não te glories.
- Sim, grata a vinda sua a todos fora,
- Mormente a mim e ao filho que geramos;
- Porém, ama, não creio o que me afirmas:
- Indignado algum nume de arrogâncias
- E injúrias tais, livrou-nos de insolentes
- Que a ninguém, por melhor, tinham respeito;
- Mas longe Ulisses acabou decerto.”
- “Filha, insiste Euricléia, que proferes?
- Duvidas inda, e ao lar já tens o esposo!
- É muito. Ora um sinal te manifesto:
- Ao lavá-lo, do cerdo conheci-lhe
- A cicatriz. Eu ia anunciar-to,
- Cauto a boca tapou-me. Vem; consinto,
- Mata-me, se te engano.” — “É-te impossível,
- Penélope argüiu, por mais ciente,
- O arcano, amiga, perceber divino.
- Contudo, ao filho corro; esses perversos,
- Aquele que os prostou, meus olhos vejam.”
- Desce, do caro esposo revolvendo
- Se as mãos e as faces beije, ou tão somente
- O interrogue distante. Já transposto
- O pétreo limiar, defronte, ao lume,
- Noutra parede fica: ele, encostado
- Numa coluna, arreda a vista, à espera
- Que o fite e que lhe fale a mulher forte;
- Ela, em silêncio estúpido, ora o encara,
- Ora pelo seu trajo o desconhece.
- Rompe e a censura o filho: “Que! tão dura
- Esquivas a meu pai, nem dele inquires!
- Que outra mulher assim desamorosa
- Recebera um marido, após vinte anos
- De ânsias cruéis? Tens coração de pedra.”
- Escusou-se a rainha: “De pasmada,
- Meu Telêmaco, olhar nem falar posso.
- A ser teu pai, a todo mundo ignotos,
- Sinais temos que o provem.” — Tolerante
- O herói sorriu-se: “A mãe consintas filho,
- Que me tente e afinal se desengane;
- Sujo e torpe, ela estranha-me e repugna.
- Consultemos agora. Se alguém mata
- Um popular de asseclas mal provido,
- Foge, terra e parentes abandona:
- De Ítaca a flor e esteios derribamos;
- Deliberemos nós.” Cordato o jovem:
- “Cabe-te isso, meu pai; fama é constante,
- Mortal nenhum te iguala no conselho;
- Seguir-te só me cumpre, e eu forças tenha,
- Que outrem não há de em ânimo vencer-me.”
- E o cauteloso: “Pois meu voto escuta.
- Primeiro vos lavais, mudai vestidos,
- E ordenai-me às cativas que se enfeitem.
- O músico na lira preludie
- Dança amorosa, a fim que núpcias dentro
- Haver pense ou vizinho ou viandante.
- Fora a carniçaria não persintam,
- Antes que os agros e vergéis busquemos:
- Lá do Olimpo o senhor deve inspirar-nos.”
- Lavam-se, dóceis, de vestidos mudam,
- Às mulheres prescrevem que se adornem.
- Fênio na ebúrnea lira já consona
- Dança ligeira e doce melodia:
- Ao tropel toda a casa reboava
- De esbeltos jovens e de airosas moças.
- Cruzam vozes da rua: “Algum de tantos
- A rainha esposou, que mais valera
- Se fiel ao marido os bens guardasse.”
- Assim, néscios do caso, discorriam.
- Lava a cuidosa Eurínoma e perfuma
- O brioso Laércio, e o paramenta.
- Aformoseia-lhe a cabeça Palas;
- Majestoso e maior, na espalda a coma
- Cor de jacinto em ondas se lhe esparge;
- Tamanha graça lhe vestiu Minerva,
- Quantia infunde em lavor de prata e ouro
- Dela e Vulcano artífice amestrado.
- Como um deus sai do banho, torna ao posto
- Fronteiro ao da consorte, e assim perora:
- “Tão duro coração, femíneo monstro,
- Nunca foi dos celícolas forjado!
- Que outra mulher tão fria se portara
- Ao chegar seu marido após vinte anos
- De pena e dor? Sus, ama, um leito apresta,
- Quero dormir. Sua alma é toda ferro.”
- “Monstro eu! retorque; nem te apouco altiva,
- Nem me assombro demais: qual te embarcaste
- No instruto galeão, me estás na mente.
- Eia, fora da alcova alça, Euricléia,
- O reforçado leito, obra de Ulisses,
- Com mantas e tosões, com moles colchas.”
- Tal foi para o marido a prova extrema.
- Ele à casta mulher gemendo exclama:
- “Quem removeu-me o leito? oh! triste nova!
- Isso nímio custara ao mais sabido,
- Salvo intervindo um nume; empresa enorme
- Fora a humano qualquer, por mais viçoso:
- Fi-lo eu sozinho; este sinal te baste.
- Grossa como coluna, vegetava
- No pátio umbrosa e flórida oliveira:
- Densas pedras em roda, em cima um teto,
- Câmara edifiquei de unidas portas;
- Já desgalhado, a bronze descasquei-lhe
- Desde a raiz o tronco, e de esquadria
- Artífice o puli, verrumei tudo,
- Formando um pé, começo do meu leito;
- Marfim neste embutindo e prata e ouro,
- Táureas correias lhe teci vermelhas.
- Esta a verdade. Ignoro se está firme
- Esse leito, ou, serrando-se-lhe o tronco,
- Por algum dos varões foi transplantado.”
- Aqui, tendo Penélope a certeza,
- Desfaleceu; depois, toda alvoroço,
- Em pranto o colo do marido abraça,
- E o beija e diz: “Uilsses, foste aos homens
- O exemplo da prudência, não te enfades.
- Irmos juntos logrando os flóreos dias
- O Céu nos invejou; perdão, se ao ver-te
- Não fui logo lançar-me no teu seio:
- De que outrem com discursos me iludisse
- Tremia sempre; os dolos não falecem.
- A Dial Grega Helena o toro nunca
- Do estranho compartira, a ter previsto
- Que à pátria e casa os belicosos Dânaos
- Tinham de a reduzir: a tanto opróbrio,
- Causa da nossa dor, cruel deidade
- A infeliz arrastou, que o não cuidava.
- Porém veros sinais manifestaste:
- Outro nenhum varão viu nossa alcova,
- Nós e a fiel Actóride somente,
- Por meu pai concedida, e que é porteira.
- Minha justa esquivança embrandeceste.”
- Ele com isto em lágrimas rebenta,
- Mais ao peito cingindo a casta esposa.
- Da praia quando à vista os naufragados,
- Por Netuno e por vagas sacudidos,
- Poucos no vasto pélago nadando,
- Sujos da maresia, à morte escapam,
- Não têm maior prazer do que a rainha
- Teve ali. Não despega os alvos braços
- Do colo do consorte; e a ruiva Aurora
- Os encontrara, se não fosse Palas:
- A olhicerúlea, prolongando as sombras,
- No Oceano a retinha em áureo trono,
- Sem que até ao coche alípides ginetes
- Lampo e Faeton, que a luz no mundo espalham.
- “Mulher, diz-lhe o marido, não findaram
- Nossas provas; uma árdua imensa empresa
- Me cumpre executar: assim Tirésias,
- De mim, dos sócios meus, soltando os fados,
- Profetizou-me na Plutônia estância.
- Mas vamos, doce amiga, ao leito nosso
- Deleitar-nos em brando e meigo sono.”
- Penélope acedeu: “Já que em meus braços
- Pôs-te o Céu, no meu leito a gosto sejas.
- Mas que perigo anunciou-te o vate?
- Se hei de saber depois, que o saiba agora.”
- “Se o queres, anjo meu, responde Ulisses,
- Não to escondo: ah! matéria é de tristeza
- Para ti, para mim! Que peregrine
- Remotas plagas me ordenou Tirésias,
- E ágil remo sustendo, a povos ande
- Que o mar ignoram, nem com sal temperam
- Que amuradas puníceas não conhecem,
- Nem remos, asas de baixéis velozes.
- Deu-me o sinal: assim que um viandante
- Pá creia o remo ser, eu do ombro o desça
- Finque-o no chão, carneiro e touro imole,
- Varrão que inça a pocilga, ao rei Netuno;
- Mas na pátria hecatombes sacrifique
- Aos imortais celícolas por ordem.
- Do mar cá me virá mui lenta a morte,
- Feliz velho entre gentes venturosas.
- Certos me asseverou seus vaticínios.”
- Ela acudiu: “Se os deuses te prometem
- Melhor velhice, espero que triunfes
- Inda uma vez.” — Enquanto praticavam,
- Eurínoma e a nutriz, de acesas tochas,
- A cama afôfa e mórbida estendiam.
- Isto acabado, a velha foi deitar-se,
- E a camareira ao quarto alumiou-os
- E retirou-se. Com delícias ambos
- Do antigo toro o pacto repetiram.
- Também Telêmaco e os leais pastores
- Suspensa a dança, despedindo as servas,
- Pelos sombrios paços repousaram.
- Ao desejado amor depois de entregues,
- Em colóquios os dous se regozijam:
- Conta a mulher divina os dissabores
- De olhar contínuo a turba dissoluta,
- Que, bois, cabras e ovelhas degolando,
- E os tonéis exaurindo, a requestava;
- Ele, as dores impostas ou sofridas.
- Leda a esposa de ouvir, só depois dorme.
- Primeiro expôs o estrago dos Cícones,
- E a terra dos Lotófagos ubérrima;
- Como vingou-se do feroz Ciclope,
- Que os sócios lhe comeu; como, inda à pátria
- Ir não sendo seu fado, com doçura
- De Eolo aceito, mais por fim repulso;
- Jogo ah! foi da procela em mar piscoso;
- Como, aportado à Lestrigônia, tantos
- Perdeu, salvando seu baixel apenas.
- Expôs os dolos e dobrez de Circe;
- Como, a Plutão vogando em nau compacta,
- Viu, do Tebano vate após consulta,
- Irmãos de armas e a mãe que amamentou-o;
- Como as Sereias lhe cantaram; como
- Chegou-se a instáveis rochas e a Caríbdis,
- E a Cila que sem perdas não se evita.
- Expôs que, a raio o Altíssono a matança
- Dos bois do Sol punindo, a nau ligeira
- E os demais soçobrou; que, à ilha Ogígia
- Arribando ele só, foi por Calipso
- Detido em cava gruta e acarinhado;
- Que a ninfa, de esposá-lo cobiçosa,
- Prometeu-lhe uma eterna juventude,
- Sem jamais demovê-lo da constância.
- Findou pelos Feaces, que de um nume
- A par o honrando, em nau de cobre e alfaias
- E de ouro onusta, a Ítaca o mandaram.
- Do sono aqui dulcíssimo assaltado,
- Solve os pesares; e, julgando-o Palas
- De repouso e de amores satisfeito,
- Chama a fulgente Aurora do Oceano,
- E na alvorada o sábio herói desperto
- Se endereça à mulher: “Sobejas penas
- Tivemos: tu, chorando a minha ausência;
- Eu, delongas e empeços que o Satúrnio
- E outros deuses à vinda me opuseram.
- Ora, que o nosso tálamo ansiado
- Já tocamos, dos bens restantes cura:
- Para suprir os meus currais e enchê-los,
- Hei de apresar, e parte haver do povo.
- Aos bosques vou-me e campos, as saudades
- Aliviar do genitor. Consorte,
- Bem que discreta, observa os meus preceitos:
- Alto o Sol, desses procos a matança
- Ressoará; com tuas servas monta,
- Sem comunicação lá permaneças.”
- Vestindo logo as suas, manda que armas
- Também Telêmaco e os pastores peguem.
- Arnesando-se os quatro, as portas abrem;
- Ulisses marcha à frente. Era já dia;
- Mas enublados os dirige Palas.