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OdisseiaLivro XXIII
LivroXXIII

Às risadas a velha os joelhos move

286 versos · 2 notas do tradutor


  1. Às risadas a velha os joelhos move,
  2. Celérrima a informar que é vindo Ulisses,
  3. E a Penélope fala à cabeceira:
  4. “Surge, anda, filha, a veres com teus olhos
  5. O que tanto almejaste: eis bem que tardo,
  6. Castigou teu marido os que, estragando
  7. Casa e fazenda, o filho te oprimiam.”
  8. E ela: “O Céu, que à vontade, ama Euricléia,
  9. Do louco um sábio faz, do sábio um louco,
  10. Transtorna-te a razão que te assistia.
  11. Como! zombas de mim, que hei tantas penas,
  12. E as pálpebras do sono me descerras,
  13. Sono o mais saboroso dês que Ulisses
  14. Foi-se à nefanda Tróia? Desce e vai-te.
  15. Se outra com tais anúncios me acordasse,
  16. Eu mais dura e severa a despedira;
  17. Mas vale-te essa idade.” — A escrava insiste:
  18. “Filha, de ti não zombo; em casa o temos;
  19. É o hóspede que todos insultavam.
  20. Já sabia Telêmaco o segredo;
  21. Ocultava-o prudente, a fim que Ulisses
  22. A soberba e violência refreasse.”
  23. Leda salta Penélope do leito,
  24. Em lágrimas a abraça: “Ama querida
  25. Se isso é verdade, se ele aqui se alverga,
  26. Os audazes, que sempre estavam juntos,
  27. Como só derribou?” — E a nutriz: “Nada
  28. Eu vi, nem mo contaram, mas ouvia
  29. O estrondo, o pranto, os ais dos moribundos,
  30. Lá nos retretes, a trancadas portas,
  31. Em susto éramos todas, e teu filho
  32. Por ordem paternal veio chamar-me.
  33. Achei teu bravo Ulisses entre os mortos
  34. Uns por cima dos outros: exultaras
  35. De o ver leão sangrento e encarniçado!
  36. Ele, fora os cadáveres em montes,
  37. Fumiga o paço, e ordena que me sigas,
  38. Anda, ambos de alegria abeberai-vos,
  39. Depois de tantas mágoas; a tão longa
  40. Saudade se mitigue. Ele nos torna
  41. Vivo e são; cá te encontra e o filho vosso;
  42. Puniu já desta casa os malfeitores.”
  43. Logo a rainha: “A rir não te glories.
  44. Sim, grata a vinda sua a todos fora,
  45. Mormente a mim e ao filho que geramos;
  46. Porém, ama, não creio o que me afirmas:
  47. Indignado algum nume de arrogâncias
  48. E injúrias tais, livrou-nos de insolentes
  49. Que a ninguém, por melhor, tinham respeito;
  50. Mas longe Ulisses acabou decerto.”
  51. “Filha, insiste Euricléia, que proferes?
  52. Duvidas inda, e ao lar já tens o esposo!
  53. É muito. Ora um sinal te manifesto:
  54. Ao lavá-lo, do cerdo conheci-lhe
  55. A cicatriz. Eu ia anunciar-to,
  56. Cauto a boca tapou-me. Vem; consinto,
  57. Mata-me, se te engano.” — “É-te impossível,
  58. Penélope argüiu, por mais ciente,
  59. O arcano, amiga, perceber divino.
  60. Contudo, ao filho corro; esses perversos,
  61. Aquele que os prostou, meus olhos vejam.”
  62. Desce, do caro esposo revolvendo
  63. Se as mãos e as faces beije, ou tão somente
  64. O interrogue distante. Já transposto
  65. O pétreo limiar, defronte, ao lume,
  66. Noutra parede fica: ele, encostado
  67. Numa coluna, arreda a vista, à espera
  68. Que o fite e que lhe fale a mulher forte;
  69. Ela, em silêncio estúpido, ora o encara,
  70. Ora pelo seu trajo o desconhece.
  71. Rompe e a censura o filho: “Que! tão dura
  72. Esquivas a meu pai, nem dele inquires!
  73. Que outra mulher assim desamorosa
  74. Recebera um marido, após vinte anos
  75. De ânsias cruéis? Tens coração de pedra.”
  76. Escusou-se a rainha: “De pasmada,
  77. Meu Telêmaco, olhar nem falar posso.
  78. A ser teu pai, a todo mundo ignotos,
  79. Sinais temos que o provem.” — Tolerante
  80. O herói sorriu-se: “A mãe consintas filho,
  81. Que me tente e afinal se desengane;
  82. Sujo e torpe, ela estranha-me e repugna.
  83. Consultemos agora. Se alguém mata
  84. Um popular de asseclas mal provido,
  85. Foge, terra e parentes abandona:
  86. De Ítaca a flor e esteios derribamos;
  87. Deliberemos nós.” Cordato o jovem:
  88. “Cabe-te isso, meu pai; fama é constante,
  89. Mortal nenhum te iguala no conselho;
  90. Seguir-te só me cumpre, e eu forças tenha,
  91. Que outrem não há de em ânimo vencer-me.”
  92. E o cauteloso: “Pois meu voto escuta.
  93. Primeiro vos lavais, mudai vestidos,
  94. E ordenai-me às cativas que se enfeitem.
  95. O músico na lira preludie
  96. Dança amorosa, a fim que núpcias dentro
  97. Haver pense ou vizinho ou viandante.
  98. Fora a carniçaria não persintam,
  99. Antes que os agros e vergéis busquemos:
  100. Lá do Olimpo o senhor deve inspirar-nos.”
  101. Lavam-se, dóceis, de vestidos mudam,
  102. Às mulheres prescrevem que se adornem.
  103. Fênio na ebúrnea lira já consona
  104. Dança ligeira e doce melodia:
  105. Ao tropel toda a casa reboava
  106. De esbeltos jovens e de airosas moças.
  107. Cruzam vozes da rua: “Algum de tantos
  108. A rainha esposou, que mais valera
  109. Se fiel ao marido os bens guardasse.”
  110. Assim, néscios do caso, discorriam.
  111. Lava a cuidosa Eurínoma e perfuma
  112. O brioso Laércio, e o paramenta.
  113. Aformoseia-lhe a cabeça Palas;
  114. Majestoso e maior, na espalda a coma
  115. Cor de jacinto em ondas se lhe esparge;
  116. Tamanha graça lhe vestiu Minerva,
  117. Quantia infunde em lavor de prata e ouro
  118. Dela e Vulcano artífice amestrado.
  119. Como um deus sai do banho, torna ao posto
  120. Fronteiro ao da consorte, e assim perora:
  121. “Tão duro coração, femíneo monstro,
  122. Nunca foi dos celícolas forjado!
  123. Que outra mulher tão fria se portara
  124. Ao chegar seu marido após vinte anos
  125. De pena e dor? Sus, ama, um leito apresta,
  126. Quero dormir. Sua alma é toda ferro.”
  127. “Monstro eu! retorque; nem te apouco altiva,
  128. Nem me assombro demais: qual te embarcaste
  129. No instruto galeão, me estás na mente.
  130. Eia, fora da alcova alça, Euricléia,
  131. O reforçado leito, obra de Ulisses,
  132. Com mantas e tosões, com moles colchas.”
  133. Tal foi para o marido a prova extrema.
  134. Ele à casta mulher gemendo exclama:
  135. “Quem removeu-me o leito? oh! triste nova!
  136. Isso nímio custara ao mais sabido,
  137. Salvo intervindo um nume; empresa enorme
  138. Fora a humano qualquer, por mais viçoso:
  139. Fi-lo eu sozinho; este sinal te baste.
  140. Grossa como coluna, vegetava
  141. No pátio umbrosa e flórida oliveira:
  142. Densas pedras em roda, em cima um teto,
  143. Câmara edifiquei de unidas portas;
  144. Já desgalhado, a bronze descasquei-lhe
  145. Desde a raiz o tronco, e de esquadria
  146. Artífice o puli, verrumei tudo,
  147. Formando um pé, começo do meu leito;
  148. Marfim neste embutindo e prata e ouro,
  149. Táureas correias lhe teci vermelhas.
  150. Esta a verdade. Ignoro se está firme
  151. Esse leito, ou, serrando-se-lhe o tronco,
  152. Por algum dos varões foi transplantado.”
  153. Aqui, tendo Penélope a certeza,
  154. Desfaleceu; depois, toda alvoroço,
  155. Em pranto o colo do marido abraça,
  156. E o beija e diz: “Uilsses, foste aos homens
  157. O exemplo da prudência, não te enfades.
  158. Irmos juntos logrando os flóreos dias
  159. O Céu nos invejou; perdão, se ao ver-te
  160. Não fui logo lançar-me no teu seio:
  161. De que outrem com discursos me iludisse
  162. Tremia sempre; os dolos não falecem.
  163. A Dial Grega Helena o toro nunca
  164. Do estranho compartira, a ter previsto
  165. Que à pátria e casa os belicosos Dânaos
  166. Tinham de a reduzir: a tanto opróbrio,
  167. Causa da nossa dor, cruel deidade
  168. A infeliz arrastou, que o não cuidava.
  169. Porém veros sinais manifestaste:
  170. Outro nenhum varão viu nossa alcova,
  171. Nós e a fiel Actóride somente,
  172. Por meu pai concedida, e que é porteira.
  173. Minha justa esquivança embrandeceste.”
  174. Ele com isto em lágrimas rebenta,
  175. Mais ao peito cingindo a casta esposa.
  176. Da praia quando à vista os naufragados,
  177. Por Netuno e por vagas sacudidos,
  178. Poucos no vasto pélago nadando,
  179. Sujos da maresia, à morte escapam,
  180. Não têm maior prazer do que a rainha
  181. Teve ali. Não despega os alvos braços
  182. Do colo do consorte; e a ruiva Aurora
  183. Os encontrara, se não fosse Palas:
  184. A olhicerúlea, prolongando as sombras,
  185. No Oceano a retinha em áureo trono,
  186. Sem que até ao coche alípides ginetes
  187. Lampo e Faeton, que a luz no mundo espalham.
  188. “Mulher, diz-lhe o marido, não findaram
  189. Nossas provas; uma árdua imensa empresa
  190. Me cumpre executar: assim Tirésias,
  191. De mim, dos sócios meus, soltando os fados,
  192. Profetizou-me na Plutônia estância.
  193. Mas vamos, doce amiga, ao leito nosso
  194. Deleitar-nos em brando e meigo sono.”
  195. Penélope acedeu: “Já que em meus braços
  196. Pôs-te o Céu, no meu leito a gosto sejas.
  197. Mas que perigo anunciou-te o vate?
  198. Se hei de saber depois, que o saiba agora.”
  199. “Se o queres, anjo meu, responde Ulisses,
  200. Não to escondo: ah! matéria é de tristeza
  201. Para ti, para mim! Que peregrine
  202. Remotas plagas me ordenou Tirésias,
  203. E ágil remo sustendo, a povos ande
  204. Que o mar ignoram, nem com sal temperam
  205. Que amuradas puníceas não conhecem,
  206. Nem remos, asas de baixéis velozes.
  207. Deu-me o sinal: assim que um viandante
  208. Pá creia o remo ser, eu do ombro o desça
  209. Finque-o no chão, carneiro e touro imole,
  210. Varrão que inça a pocilga, ao rei Netuno;
  211. Mas na pátria hecatombes sacrifique
  212. Aos imortais celícolas por ordem.
  213. Do mar cá me virá mui lenta a morte,
  214. Feliz velho entre gentes venturosas.
  215. Certos me asseverou seus vaticínios.”
  216. Ela acudiu: “Se os deuses te prometem
  217. Melhor velhice, espero que triunfes
  218. Inda uma vez.” — Enquanto praticavam,
  219. Eurínoma e a nutriz, de acesas tochas,
  220. A cama afôfa e mórbida estendiam.
  221. Isto acabado, a velha foi deitar-se,
  222. E a camareira ao quarto alumiou-os
  223. E retirou-se. Com delícias ambos
  224. Do antigo toro o pacto repetiram.
  225. Também Telêmaco e os leais pastores
  226. Suspensa a dança, despedindo as servas,
  227. Pelos sombrios paços repousaram.
  228. Ao desejado amor depois de entregues,
  229. Em colóquios os dous se regozijam:
  230. Conta a mulher divina os dissabores
  231. De olhar contínuo a turba dissoluta,
  232. Que, bois, cabras e ovelhas degolando,
  233. E os tonéis exaurindo, a requestava;
  234. Ele, as dores impostas ou sofridas.
  235. Leda a esposa de ouvir, só depois dorme.
  236. Primeiro expôs o estrago dos Cícones,
  237. E a terra dos Lotófagos ubérrima;
  238. Como vingou-se do feroz Ciclope,
  239. Que os sócios lhe comeu; como, inda à pátria
  240. Ir não sendo seu fado, com doçura
  241. De Eolo aceito, mais por fim repulso;
  242. Jogo ah! foi da procela em mar piscoso;
  243. Como, aportado à Lestrigônia, tantos
  244. Perdeu, salvando seu baixel apenas.
  245. Expôs os dolos e dobrez de Circe;
  246. Como, a Plutão vogando em nau compacta,
  247. Viu, do Tebano vate após consulta,
  248. Irmãos de armas e a mãe que amamentou-o;
  249. Como as Sereias lhe cantaram; como
  250. Chegou-se a instáveis rochas e a Caríbdis,
  251. E a Cila que sem perdas não se evita.
  252. Expôs que, a raio o Altíssono a matança
  253. Dos bois do Sol punindo, a nau ligeira
  254. E os demais soçobrou; que, à ilha Ogígia
  255. Arribando ele só, foi por Calipso
  256. Detido em cava gruta e acarinhado;
  257. Que a ninfa, de esposá-lo cobiçosa,
  258. Prometeu-lhe uma eterna juventude,
  259. Sem jamais demovê-lo da constância.
  260. Findou pelos Feaces, que de um nume
  261. A par o honrando, em nau de cobre e alfaias
  262. E de ouro onusta, a Ítaca o mandaram.
  263. Do sono aqui dulcíssimo assaltado,
  264. Solve os pesares; e, julgando-o Palas
  265. De repouso e de amores satisfeito,
  266. Chama a fulgente Aurora do Oceano,
  267. E na alvorada o sábio herói desperto
  268. Se endereça à mulher: “Sobejas penas
  269. Tivemos: tu, chorando a minha ausência;
  270. Eu, delongas e empeços que o Satúrnio
  271. E outros deuses à vinda me opuseram.
  272. Ora, que o nosso tálamo ansiado
  273. Já tocamos, dos bens restantes cura:
  274. Para suprir os meus currais e enchê-los,
  275. Hei de apresar, e parte haver do povo.
  276. Aos bosques vou-me e campos, as saudades
  277. Aliviar do genitor. Consorte,
  278. Bem que discreta, observa os meus preceitos:
  279. Alto o Sol, desses procos a matança
  280. Ressoará; com tuas servas monta,
  281. Sem comunicação lá permaneças.”
  282. Vestindo logo as suas, manda que armas
  283. Também Telêmaco e os pastores peguem.
  284. Arnesando-se os quatro, as portas abrem;
  285. Ulisses marcha à frente. Era já dia;
  286. Mas enublados os dirige Palas.

Nota a nota · 2 notas

v. 152Por algum dos varões foi transplantado.”
Os intérpretes e tradutores não viram nesta passagem um rápido movimento de ciúme, que nela parece-me existir: Ulisses, à nova de que o leito fora mudado, leito cujo segredo só ele e Penélope conheciam, pasmou de que tal houvesse acontecido; isto, sendo combinado com a tristeza que lhe causou a nova, segundo se colhe do verso 135, e com o toque da mulher no 170, torna provável a minha observação. Na dúvida, contudo, não quis aclarar a passagem mais do que o fez o autor, nem tampouco seguir interpretação contrária, como o fez M. Giguet, traduzindo Andrõn por quelque artisan: ao menos deve conservar-se o termo varões, que favorece a minha opinião. Este leve movimento de ciúme, em um homem tão suspeitoso, seria interessante nesta cena.
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v. 184–187A olhicerúlea, prolongando as sombras,
Aqui temos um milagre, operado por Minerva, igual ao de Josué: este fez parar o Sol acima do horizonte para aumentar o dia; Minerva também o faz parar, mas abaixo do horizonte, para aumentar a noite. Josué porém é mais antigo do que Homero.
↩ voltar à passagem, v. 184
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