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OdisseiaLivro III
LivroIII

O Sol, do pulcro lago ressurgindo

392 versos · 4 notas do tradutor


  1. O Sol, do pulcro lago ressurgindo,
  2. Em céu de bronze alumiava os deuses
  3. E n’alma terra os homens, no abordarem
  4. A celsa Pilos de Neleu fundada,
  5. Em cuja praia ao criniazul Netuno
  6. Touros em tudo negros imolavam:
  7. Eram bancadas nove e de quinhentos,
  8. Bois nove a cada grupo. Ao nume as coxas,
  9. Consumidas as vísceras, ardiam,
  10. Quando, ferrado o pano, em terras saltam.
  11. Guia e instrui a Telêmaco Minerva:
  12. “Não mais te acanhes, pois rasgaste os mares,
  13. A inquirir onde vive ou jaz Ulisses.
  14. Presto, a Nestor doma-corcéis; vejamos
  15. O que há na mente, rogá-lhe a verdade;
  16. Nem ele mentirá, sisudo e probo”.
  17. “Como hei de, respondeu-lhe, apresentar-me?
  18. Como saudá-lo? Sou, Mentor, noviço
  19. Em discorrer com tento, e me envergonho
  20. De interrogar um velho”. — E a de olhos zarcos:
  21. “Telêmaco, tua alma há de inspirar-te,
  22. E um nume sugerir-te; eu não te julgo
  23. Nado e nutrido sem favor celeste.
  24. Então se apressa, e o príncipe atrás segue
  25. Dos Pílios ao congresso, onde se achavam
  26. Nestor e filhos, que o banquete aprontam;
  27. Quem assa, quem no espeto a carne enfia.
  28. Ao vê-los grande número os abraça
  29. E convida ao festim. Primeiro a destra
  30. O Nestório Pisístrato lhes toma,
  31. Entre o irmão Trasimedes os coloca
  32. E seu pai n’alva areia e moles peles;
  33. Porção de entranhas lhes oferta; o vinho
  34. Em áureo copo vaza, e reverente
  35. Fala à prole do aluno de Amaltéia:
  36. “Hóspede, ao rei Netuno ora conosco,
  37. A porto chegas para o seu festejo.
  38. Liba e depreca, é justo, e ao sócio passes
  39. O doce vinho com que os Céus invoque;
  40. Todos, julgo, dos Céus necessitamos:
  41. Jovem comigo em anos emparelha;
  42. Terás primeiro o copo.” E aqui lho entrega.
  43. Contente Palas do varão cordato,
  44. Que a velhice acatava, assim perora:
  45. “Digna-te, Enosigeu, de ouvir meus votos!
  46. Honra a Nestor e os filhos, agradece
  47. A completa hecatombe aos outros Pílios;
  48. Dá-me e ao sócio o voltarmos tendo obtido
  49. O que imos procurando a remo e vela”.
  50. O rito já preenche, e traspassado
  51. O bicôncavo copo, à risca o mesmo
  52. Faz o Ulisseu mancebo. Do braseiro
  53. Tirando, assados superiores trincham,
  54. O solene festim lauto celebram.
  55. Vencida a sede e a fome, satisfeitos
  56. Completamente os hóspedes, o velho
  57. Gerênio cavaleiro os interroga:
  58. “Donde vindes cortando as salsas vagas?
  59. Traficais? ou piratas sois errantes,
  60. Que para dano alheio a vida expondes?”
  61. De Minerva Telêmaco animado,
  62. Por ter informações do herói famoso
  63. E nome entre os mortais, responde afouto:
  64. “Nestor Nelides, ó da Grécia adorno,
  65. Direi quem somos: de Ítaca selvosa,
  66. Não público negócio, mas privado,
  67. Que vou contar sincero, aqui nos trouxe;
  68. Vogo após o rumor do pai querido
  69. O longânimo Ulisses, que a teu lado
  70. Soa haver sovertido os muros Teucros.
  71. Já consta o fim de quantos lá pugnaram;
  72. Mas Jove esconde o seu: ninguém me explica
  73. Se a mãos hostis em terra há sucumbido
  74. Ou soçobrou nas águas de Anfitrite.
  75. Os pés te abraço, o fado seu declara,
  76. Se o viste, ou se narrou-te um peregrino.
  77. Sem dita ah! veio do materno ventre!
  78. Por dó nada me ocultes, eu to rogo;
  79. E, se a ti fiel sempre, em dito e feitos,
  80. Foi na guerra onde Aqueus sofreram tanto,
  81. Isto lembre-te agora e não me iludas.”
  82. A quem Nestor: “Os males me recordas
  83. Que entre esse povo, amigo, suportamos,
  84. Ou quando errantes pelo escuro pego
  85. A depredar nos conduzia Aquiles,
  86. Ou no cerco dos muros Priameios
  87. De heróis sepulcro: o márcio Telamônio,
  88. O Pelides caiu, lá jaz Pátroclo
  89. Em destreza divina, lá meu filho
  90. Antíloco gentil, ágil, brioso.
  91. Mas quem memoraria as outras penas?
  92. Fiques cinco ou seis anos, que no meio
  93. Da narração com tédio voltarias.
  94. “Um novênio mil dolos maquinamos;
  95. Jove a custo pôs termo a tantas lidas.
  96. Aos demais nos ardis se avantajava
  97. Teu pai, se o é: com pasmo eu vejo o imitas,
  98. Moço egrégio, em facúndía e gesto e porte.
  99. Nunca, no parlamento ou no conselho
  100. De Ulisses dissenti, por bem dos povos.
  101. Derruída Ílion celsa e a velejarmos,
  102. O Supremo em furor dispersa os Dânaos,
  103. Que todos justos nem prudentes eram;
  104. Muitos vítimas foram da olhigázea
  105. Prole de iroso pai, que entre os Atridas
  106. A discórdia acendera. Os dous, à tarde
  107. Contra o costume os nossos convocando,
  108. Que do vinho turbados concorreram,
  109. O motivo expressaram da estranheza:
  110. Queria Menelau que o dorso imano
  111. Talhássemos do mar; o irmão queria
  112. Deter-nos, e com sacras hecatombes
  113. A Minerva aplacar. Cegueira e insânia;
  114. Fácil do intento um nume não se abala.
  115. Insultam-se os irmãos, e Argeus grevados
  116. Com sinistro alarido em pé disputam;
  117. A noite, infenso o Padre, uns contra os outros
  118. A excogitar velamos. N’alva, os lenhos
  119. Deitam-se ao divo salso mar, de escrava
  120. Alticintas onustos e do espólio:
  121. Fica-se em torno ao rei dos reis metade,
  122. Metade voga. Um deus amaina as ondas,
  123. E em Tênedos portados, suspirando
  124. Pelo saudoso lar, sacrificamos.
  125. Aumenta o mal, nova descórdia surde:
  126. Vários, ao sumo. Atrida por obséquio,
  127. Após o cauto Ulisses retrocedem
  128. Nos meus navios fujo, pressentindo
  129. Os desígnios de Júpiter funestos,
  130. E Tidides me segue e os seus com ele
  131. Mais tarde Menelau nos topa em Lestos
  132. Na extensa rota a meditar: se, Psíria
  133. Dobrando à esquerda, iríamos acima
  134. Da alpestre sáxea Quio ou desta abaixo,
  135. Singrando ao longo da ventosa Mimas.
  136. Rogávamos ao deus, que acena e manda
  137. Esquivarmos na Eubéia algum desastre:
  138. Brama o vento, e sulcando o mar piscoso,
  139. A Geresto os baixéis de noite abordam;
  140. Atravessado o pélago, a Netuno
  141. Sagramos táureas coxas. Entra em Argos
  142. Ao quarto dia a Diomedéia frota;
  143. A Pilos me encaminho, sem que afrouxe
  144. A brisa que souprou-me o Céu benigno.
  145. Assim, meu filho, nada sei dos Graios,
  146. Salvos ou perecidos; mas te explano
  147. Quanto em meu teto já me tem constado:
  148. Corre que os bravos Mirmidões lanceiros
  149. Pôs em casa o de Aquiles digno gérmen;
  150. Que os seus pôs o Peâncio Filoctetes;
  151. Que, em feliz travessia, o rei Cretense
  152. Todos já recolheu de Tróia escapos.
  153. De Agamemnon lá mesmo a sorte ouviste:
  154. Caro custou seu crime a Egisto infame.
  155. Quão belo um nobre herdeiro, como Orestes,
  156. Que o pai vingou no pérfido homicida!
  157. Amigo, sê também, se és guapo e esbelto,
  158. Sê de valor e esforço, e o mundo assombres.”
  159. E o mancebo: “Ó Neleio, Aquiva glória,
  160. Sim, foi justa a vingança; honrado sempre
  161. Orestes há de ser. Tivesse eu forças
  162. Contra insolentes e molestos procos!
  163. Eu nem Ulisses venturosos fomos;
  164. Cumpre-nos suportar.” — Contesta o velho:
  165. “Que me lembras? A fama aqui me veio
  166. Dos que oprimem-te e a casa te arruinam,
  167. Requestando a Penélope. Abaixaste
  168. O colo ao jugo, ou por supremo influxo
  169. Aborreceu-te o povo? Inda quem sabe
  170. Se o pai sozinho ou com geral apoio,
  171. Não puna ultrajes tantos? Oh! Minerva
  172. (Nunca um deus a mortal foi tão propício)
  173. Te protegesse com o amor que tinha
  174. Em Tróia exicial ao grande Ulisses!
  175. Eles de boda a sede apagariam.”
  176. Telêmaco porém: “Prometes muito;
  177. Espantas-me, ancião, mas nada espero,
  178. Nem que os numes o queiram.” — “Desses dentes,
  179. Minerva acode, que proferes, néscio?
  180. A quem quer favorece ao longe um nume.
  181. Prefiro demorar-me entre fadigas
  182. E ver o dia do regresso à pátria,
  183. A sucumbir no lar como Agamemnon,
  184. Pela traição de Egisto e Clitemnestra.
  185. Contudo os imortais salvar não podem
  186. Da condição comum qualquer valido,
  187. Se a Parca o empolga para o sono eterno.”
  188. Telêmaco atalhou: “Mentor, cessemos,
  189. Bem que isso me interessa: aparecer-nos
  190. Veda-lhe o seu destino. De outro assunto
  191. Me esclareça Nestor, que em três idades
  192. Se diz que reina, excele na justiça,
  193. É na presença um deus. Como foi morto
  194. O rei dos reis? como um varão mais forte
  195. De Egisto ao braço pereceu doloso?
  196. Onde era Menelau? Certo, ó Nelides,
  197. Longe errava da Argólida ao momento
  198. Que a tal flagício o pérfido arrojou-se.”
  199. Então Nestor: “Sabê-lo vais, meu filho.
  200. Ponderas bem; se à volta o louro Atrida
  201. Inda o encontrasse, a Egisto sobre a cova
  202. Ninguém terra espargira, e na campanha
  203. Tivera sido a cães e abutres pasto,
  204. Sem que uma só mulher chorasse o monstro.
  205. Nós em altas façanhas, ele estava,
  206. Lá num retiro de Argos pascigosa,
  207. A seduzir em ócio com branduras
  208. A nobre Clitemnestra, que a princípio
  209. Resistiu, roborada na virtude
  210. Por um poeta que, ao partir, o esposo
  211. Ao lado lhe deixou; mas, quando Egisto
  212. Pôs numa ilha deserta o Aônio aluno,
  213. Que o Céu votara às aves de rapina,
  214. De grado ela se foi do amante à casa:
  215. Conseguido o que nunca obter cuidava,
  216. Muita perna de rês queima nas aras,
  217. Muita imagem pendura, alfaias, ouros.
  218. Parto com Menelau, que me era unido;
  219. Próximo ao sacro promontório Súnio,
  220. Febo asseteia-lhe o Onetório Frôntis,
  221. Que meneava o leme, sem segundo
  222. Em dirigir a proa nas tormentas.
  223. Bem que à pressa, em Atenas celebrados
  224. O enterro e funerais, o Atrida segue
  225. Pelo sombrio pélago, e nas águas
  226. Do cabo Maléia, o imbrífero Tonante
  227. Solta estrídulos ventos e em montanhas
  228. Incha escarcéus; dispersa, a frota em parte
  229. A Creta arriba, onde os Cídones moram
  230. Às abas do Járdano. Alcantilada
  231. Nos Gortínios confins se eleva rocha
  232. Do escuro ponto, e ali maretas Noto
  233. Quebra em Festo ao sinistro promontório;
  234. Pelo pequeno escolho divididas:
  235. Naufraga, e apenas a campanha livra
  236. Menelau, que em cerúleas proas cinco
  237. O sopro e as ondas para o Egito impelem.
  238. Enquanto vaga entre homens de outra língua
  239. E as naus de outro carrega e mantimentos,
  240. Perfaz o dolo Egisto, e por sete anos
  241. Duro impera em Micenas opulenta;
  242. No oitavo, o divo Orestes vem de Atenas,
  243. Vinga seu pai ao matador matando,
  244. E ao sepulcral banquete assenta os Gregos
  245. Do imbele adúltero e da mãe perversa:
  246. O afável Menelau surge esse dia,
  247. Nos baixéis de riqueza abarrotados.
  248. Não muito e longe dos soberbos andes,
  249. Que devorem-te a casa e os bens repartam:
  250. Seria, amigo, péssima a viagem.
  251. Eu te aconselho a visitar o Atrida,
  252. Que veio donde vir já não pensava,
  253. Por temporais jogado além do horrendo
  254. Pélago vasto, que nem aves podem
  255. Num ano atravessar. Ou corta os mares
  256. No teu navio, ou se por terra queres,
  257. Dou-te meu carro, e os filhos te conduzam
  258. De Esparta à nobre corte: a preces tuas,
  259. O probo rei te falará sincero.”
  260. Caído o Sol, adverte a gázea Palas:
  261. “Sábio discorres, velho, mas das vezes
  262. Talhem-se as línguas, e mesclado o vinho,
  263. Libemos a Netuno e às mais deidades:
  264. Hora é de repousar; sepulto o lume
  265. Na opaca treva, recolher-nos cumpre
  266. Deste festejo.” — Todos lhe obedecem:
  267. Dão água às mãos arautos; as crateras
  268. Coroando moços, distribuem copos
  269. Em derredor; e, no brasido as línguas.
  270. Em pé libam de novo e à larga bebem.
  271. Já Minerva e Telêmaco desejam
  272. Tornar-se a bordo; mas Nestor o impede:
  273. “De vos deixar partir o Céu me guarde,
  274. Como infeliz trapento, a quem falecem
  275. Agasalhos de mantas e tapetes:
  276. Hei tudo, e à farta; no convés não durma
  277. Do amigo o nada; eu vivo, ou meus herdeiros,
  278. Para hospitais deveres exercermos.”
  279. “Justo, ancião, discorres, diz Minerva:
  280. Aqui pernoite o príncipe contigo;
  281. Vou confortar a gente e prover tudo.
  282. Prezo-me eu só de velho; os mais vieram
  283. Eqüevos e a Telêmaco votados.
  284. Hei de a bordo encostar-me, e alvorecendo,
  285. Aos honrados Caucomes dirigir-me,
  286. Antiga a recobrar grossa quantia
  287. Em coche um dos teus filhos o encaminhe,
  288. Rijos lhe empresta alípedes cavalos.”
  289. Dali, como um xofrango, a de olhos garços
  290. Desaparece com geral assombro;
  291. A Telêmaco a dextra o velho aperta:
  292. “Não serás, filho, imbele e sem virtude,
  293. Pois tão jovem te assiste uma deidade;
  294. É certamente a predadora Palas,
  295. Que a teu pai distinguia. Oh! tu rainha.
  296. Glorifica-me e a prole e a casta esposa!
  297. Imolarei do jugo intacta aneja,
  298. De larga fronte com dourados cornos.”
  299. Aceita a prece, à régia com seus filhos
  300. E genros parte; e, em ordem colocados,
  301. Ele o vinho mistura de anos onze.
  302. De ânforas que destapa a despenseira,
  303. Brinda e roga à do Egífero progênie.
  304. Para dormir, saciados se despedem:
  305. Nestor o diviníssimo Ulisseida
  306. Retém no paço, e ao pórtico sonoro
  307. Um recortado leito lhe oferece,
  308. De Pisístrato perto, belaz chefe,
  309. Inda na adolescência; o rei descansa
  310. Num retrete recôndito, onde a cama
  311. Afofara a consorte veneranda.
  312. Ao roxear da pudibunda aurora,
  313. Surge Nestor, ante o portão repousa,
  314. Em alva pedra a óleo bem polida,
  315. Poial já de Neleu, divino engenho:
  316. Ali, depois que a Dite o pai descera,
  317. Soía aquela dos Argeus custódia
  318. O cetro alçar. Das câmaras saídos,
  319. Cercavam-no Equéfron e Estrácio e Areto
  320. E Perseu e o deiforme Trasimedes,
  321. Sexto Pisístrato, o menor da estirpe.
  322. Era Telêmaco, a imortais parelho,
  323. Junto ao régio Nestor, que assim começa:
  324. “Filhos, eia, a Minerva engrandeçamos,
  325. Que ao solene festim vi manifesta:
  326. Um corra ao prado em busca do vaqueiro,
  327. Que uma novilha traga; outro aqui chame
  328. O ourives Laerceu, que doure os cornos;
  329. Ande à nau de Telêmaco o terceiro,
  330. E os nautas, menos dous, nos apresente.
  331. Ficai-vos os demais; que as servas dentro
  332. Lauta mesa aderecem, que nos sirvam
  333. De cadeiras e lenha e de água pura.”
  334. Tudo obedece: A rês do campo chega;
  335. De Telêmaco chega a marinhagem;
  336. Com bigorna e alicates e martelo,
  337. Utensílios do ofício, o fabro chega;
  338. Chega Palas e atenta a cerimônia.
  339. Ouro Nestor fornece; o artista o assenta,
  340. Para a deusa alegrar, da rês nos cornos;
  341. Por estes Equéfron e Estrácio a levam.
  342. Traz de cima em bacia floreada
  343. Água Areto, e uma serva em cesta molas;
  344. Afiada o guerreiro Trasimedes
  345. Secure empunha, a golpear disposta
  346. Para o sangue aparar Perseu tem vaso;
  347. Ora o pai, água esparge e farro pio,
  348. Ao fogo lança da cabeça o pêlo.
  349. Finda a prece, o Nestório Trasimedes,
  350. Rápido os nervos cervicais talhando,
  351. As forças lhe dissolve; em gritos rompem
  352. Filhas e noras, a pudica esposa,
  353. Eurídice, a maior das de Clímeno;
  354. Do chão vasto a novilha erguem, sustentam,
  355. E Pisístrato príncipe a degola:
  356. Mana o sangue da vítima, que expira.
  357. Partem-na; e, como é rito, as cérceas coxas
  358. Cobrem de pingue dúplice camada,
  359. Postas várias por cima; o velho as torra,
  360. Negro vinho entornando; ao pé mancebos
  361. Bons espetos sustêm qüinqüedentados.
  362. Ossos combustos, vísceras comidas,
  363. Picam-se as carnes, que enroscadas assam,
  364. Os pontudos espetos revirando.
  365. Filha menor, a bela Policasta
  366. O hóspede lava; e, de óleo perfumado,
  367. Ele, em túnica nova e gentil manto,
  368. Saiu do banho com divino aspecto,
  369. Junto abancou-se do pastor de povos.
  370. Pronto o assado e o banquete, os mais prestantes
  371. O vinho em copos de ouro em pé transfundem.
  372. Repleta a fome e a sede, ei-lo o Gerênio:
  373. “Filhos, ora a Telêmaco parelha
  374. Crinita ao carro atai.” — Sem mais delonga,
  375. Jungidos os corcéis, mete a caseira
  376. Pão, vinho, provisões que os reis costumam;
  377. Sobe Telêmaco à formosa biga;
  378. Da juventude príncipe, o Nestório
  379. Pisístrato a seu lado as rédeas move
  380. E açouta os brutos, que por gosto arrancam
  381. Da árdua Pilos formosa. O dia inteiro
  382. De uma e outra banda o jugo não sossega,
  383. Té que, ao Sol posto, em Feres se dirigem
  384. A Díocles, de Ortíloco nascido,
  385. Que o foi do rio Alfeu: lá pernoitaram
  386. Em jocunda pousada; e, mal fulgia
  387. A manhã dedirrósea, a biga jungem
  388. Ao vário coche, e os brutos flagelados
  389. Ledos voam do pórtico estrondoso.
  390. Por frugífero campo atravessando,
  391. A carreira os ungüíssonos terminam,
  392. Quando as veredas obumbrava a tarde.

Nota a nota · 4 notas

v. 120Alticintas onustos e do espólio:
Alticintas, correspondendo a balhuzonous, quer dizer que trazem apanhados os vestidos; epíteto que otimamente pinta certo vestuário das Gregas antigas. Pindemonte, com toda a fidelidade, ousou dizer altocinte schiave: eu o sigo, mas adotando a forma latina, melhor no português.
↩ voltar ao verso 120
v. 212Pôs numa ilha deserta o Aônio aluno,
Este verso é de Filinto nos Mártires, onde se fala de Clitemnestra e do assassino de Agamemnon.
↩ voltar ao verso 212
v. 328O ourives Laerceu, que doure os cornos;
M. Giguet, distinguindo o ourives do batedor de ouro, colocou-se nos tempos atuais: dantes, o ourives, o carpinteiro, o armeiro e os demais artífices, reuniam muitos ofícios em si, que ao depois se foram dividindo e subdividindo, à medida que se aperfeiçoava o material das sociedades. Laerceu era ourives e batedor de metais ao mesmo tempo.
↩ voltar ao verso 328
v. 343–347Água Areto, e uma serva em cesta molas;
Outàs, em latim moloe e também farreum pium: eram porções de farinha de cevada com sal torrado, ou bolos da mesma cevada com sal, que serviam nos sacrifícios. Bolos nem sempre, exprime cabalmente a cousa, e por isso na Eneida usei de molas, como uso aqui, a exemplo de alguns antigos. De farreum fizemos nós farro, como lhe chamam Francisco Manuel e outros.
↩ voltar à passagem, v. 343
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