Do rio Oceano ao pélago saímos
337 versos · 4 notas do tradutor
- Do rio Oceano ao pélago saímos,
- Donde o Sol nasce e os coros são da Aurora,
- E na praia da Eéia, a nau varando,
- À espera que alvoreça, adormecemos.
- Da manhã mal assoma a rósea filha,
- De Elpenor o cadáver buscar mando:
- Num teso litoral cortam-se troncos,
- Em pranto o corpo e as armas lhe queimamos;
- Túmulo erguido e uma coluna em cima,
- No alto sepulcro se lhe fixa o remo.
- Durante os funerais, Circe, que do Orco
- Nos sabia de volta, apressurou-se
- Com servas, que trouxeram pães e carnes
- E roxo ardente vinho: “Ó tristes, clama,
- Tendes, vivos calando ao fundo abismo,
- Dupla morte, e os mais homens têm só uma.
- Comei, bebei de dia, e na arraiada
- Navegai; vossa rota, e em mar e em terra
- Como eviteis o dano, hei de ensinar-vos.”
- Persuadiu nosso peito. Em pingue bodo
- Libanos; e, ao crepúsculo da tarde,
- Sobre amarras dormindo a marinhagem,
- Circe me toma a destra, a par se encosta,
- Pergunta-me de parte; eu por miúdo
- A satisfaço, e ela assim discorre:
- “Pois bem; atende agora, e um deus na mente
- Meu conselho te imprima. Hás de as sereias
- Primeiro deparar, cuja harmonia
- Adormenta e fascina os que as escutam:
- Quem se apropinqua estulto, esposa e filhos
- Não regozijará nos doces lares;
- Que a vocal melodia o atrai às veigas,
- Onde em cúmulo assentam-se de humanos
- Ossos e podres carnes. Surde avante;
- As orelhas aos teus com cera tapes,
- Eusurdeçam de todo. Ouvi-las podes
- Contanto que do mastro ao longo estejas
- De pés e mãos atado; e se, absorvido
- No prazer, ordenares que te soltem,
- Liguem-te com mais força os companheiros.
- “Dali passado, a via não te aponto
- Que te cumpre seguir; tu mesmo a escolhas.
- Há dous penedos, que os Supremos chamam
- Errantes onde fremem de Anfitrite
- Ondas azuis, por onde nem transvoam
- Fracas pombas, que a Jove ambrosia levam;
- Precipita-se alguma, e o Padre logo
- Produz outra e seu número completa.
- Ai da próxima nau! maruja e lenho
- Devoram chamas, furacões destroçam:
- À de Argos só fadado foi transpô-los,
- De Etas vogando; e ali talvez jazera,
- Se não fora Jasão tão caro a Juno.
- “De um fere os céus o tope, calvo e a pique
- De inverno ou de verão sempre enublado;
- Vinte pés tenha e mãos, ninguém trepá-lo
- Ou deslizar por seu declive pode.
- Antro abre em meio para as trevas do Orco;
- Lá forçar cumpre a voga, ó nobre Ulisses.
- Dos bancos, por mancebo vigoroso,
- Vibrada seta ao fundo não vingara,
- Onde a ladrar se aloja o monstro Cila,
- Como tenrinhos cães, horrenda aos olhos
- Dos próprios deuses: pernas doze informes,
- Seis tem longos pescoços, nas seis bocas
- Dentuça tríplice, os colmilhos cheios
- De negra morte; no antro semi-oculta,
- Fora do báratro as cabeças lança,
- Para cações pescar, delfins, baleias,
- Que a sonora Anfitrite em barda cria.
- Baixel de além surgir não mais se gaba,
- Sem que um varão cada garganta engula.
- O outro, fronteiro e ao pé, se eleva menos,
- De frecha o atingirias. Tem florente
- Copada baforeira, e as turvas águas
- Em baixo ao dia vezes três Caríbdis
- Sorve e revessa três; mas, quando as sorve,
- Se ao vórtice terrível te acercasses,
- Nem por Netuno tu serias salvo.
- Cose-te a Cila pois, amiúda o remo;
- Seis é melhor perder que os sócios todos.”
- E eu: “Livre, ó deusa, da voraz Caríbdis,
- Como de Cila poderei vingar-me,
- Da ofensora dos meus?” — Tornou-me Circe:
- “Guerras sonhas, demente, e contra numes?
- Imortal, seva, tetra, inexpugnável,
- O remédio é fugir da imana Cila:
- Se tardas, junto à rocha armando o braço.
- Temo que novamente as seis cabeças
- Mais outros seis remeiros te arrebatem.
- Veloz navegues, e a Cratéis implores,
- Que essa pariu flagelo dos humanos,
- Para do assalto posterior contê-la.
- Vai rumo de Trinácria, onde o Sol gordos
- Há sete armentos e rebanhos sete,
- Cada manada com cinqüenta reses,
- Que nunca se propagam, nunca morrem:
- A Faetusa e Lampécia de áureas tranças,
- Do Hiperiônio e de Neera filhas,
- A mãe deusa educou-as, e em Trinácria
- As destacou por guarda a pretas vacas
- E ovelhas de seu pai. Se intactas forem,
- Dificilmente abordareis à pátria;
- Senão, te agouro aos teus e à nau ruína,
- Ou tarde e só te salvarás aflito.”
- Circe retira-se ao luzir da aurora;
- Embarco e mando suspender amarras;
- A gente, pelas tostes ordenada,
- A compasso verbera a salsa espuma;
- Bom sócio, enfuna e sopra o vento em popa
- Que invoca a ninfa de anelado crino;
- Tudo a ponto, embarcamo-nos entregues
- Às auras e ao piloto; eu mesto falo:
- “Não somente um nem dous, amigos, saibam
- O que a deusa das deusas me predisse,
- Para informados ou morrermos todos
- Ou da Parca fugirmos. Das Sereias
- Evitar nos ordena o flóreo prado
- E a voz divina; a mim concede ouví-las,
- Mas ao longo do mastro em rijas cordas.
- E se pedir me desateis, vós outros
- De pés e mãos ligai-me com mais força.”
- Mal acabava, à ilha das Sereias
- Avizinha-se a nau com vento fresco.
- Súbito acalma, e um deus serena as ondas;
- Já ferrado no bojo o pano arreiam,
- Do liso abeto ao golpe alveja a espuma.
- De cera um disco a bronze em porções corto,
- Forte as machuco e as amoleço ao lume
- Do Hiperiônio Sol, de homem por homem
- Os ouvidos entupo; ao mastro em cordas
- Atam-me pés e mãos, e aos remos tornam.
- Eis, a alcance de um grito, elas, que atentam
- O impelido baixel, canoro entoam:
- “Tem-te, honra dos Aqueus, famoso Ulisses,
- Nenhum passa daqui, sem que das bocas
- Nos ouça a melodia, e com deleite
- E instruído se vai. Consta-nos quanto
- O Céu vos molestou na larga Tróia,
- Quanto se faz nos consta n’alma terra.”
- Destarte consonavam: da harmonia
- Encantado, acenei que me soltassem;
- Mas curvam-se remando, e com mais cordas
- Perimedes e Euríloco me arrocham.
- Nem já toava ao longe a cantilena,
- Quando os consócios, desuntada a cera,
- Desamarram-me enfim. Remota a ilha,
- Vejo em fumo e escarcéus, um ruído escuto;
- Ao marinho rumor, de susto as vogas
- Largaram de repente, a nau parou.
- De banco em banco, afável os conforto:
- “Provado, amigos, temos outros males;
- Este não é maior que o da caverna
- Do violento Ciclope; recordai-vos
- Que o venceu meu denodo, engenho e tino;
- Ânimo! obediência; altas maretas
- Curvados açoutai. Permita Jove
- Que do passe escapemos! Tu, piloto,
- Pois meneias o leme, não te olvides:
- Fora daquele fervedouro e fumo
- Orça, o escolho fronteiro não te assalte;
- Se discrepas incauto, a morte é certa.”
- Rendem-se às minhas ordens. Só de Cila
- Não menciono o perigo inelutável,
- Temendo que eles, de remar cessando,
- Se agachassem no fundo. Eu mesmo esqueço
- De Circe avisos; arnesado, empunho
- Piques dous, e ao bailéu da proa corro
- Para enxergar primeiro o pétreo monstro
- Pernicioso aos meus: não pude, os olhos
- Se bem cansasse em torno da atra rocha.
- Pelo estreito gementes navegamos:
- Cila é daqui; dalém, Caríbdis seva
- Os salsos goles chupa: ao vomitá-los,
- Ferve a chiar como a caldeira ao fogo,
- Sobe o rocio e borrifa os cimos ambos;
- Ao sorvê-los, parece remexer-se,
- Toa horrorosa a penha, e em baixo a terra
- Mostra areia cerúlea. Amarelecem
- E, estando nela o exício afigurado,
- Cila é que me arrebata uns seis guerreiros
- De esforço e brio: olhando para os bancos,
- Pernas lhes vejo e braços pelos ares;
- Na agonia final por mim bramavam.
- Qual de alto o pescador, por um caniço
- Lançando em chifres de selvagem touro
- Isca e dolo a peixinhos, para cima
- Palpitantes os puxa; tais levanta
- Cila os meus, que devora à boca do antro.
- As mãos rugindo os míseros me estendem!
- Mares vaguei, sofri cruéis tormentos;
- Nunca um tal espetáculo assombrou-me.
- Atrás Cila e Caríbdis, avistamos
- Ilha onde os nédios bois de larga fronte
- E os rebanhos do Sol pastam sublime;
- O mugir e o balar de bordo sinto:
- Lembram-me anúncios do Tebano cego:
- Lembra-me Circe, que vedou-me a entrada
- Na ilha do Sol, delícias dos humanos;
- Atribulado amoesto: “Ouvi-me, sócios.
- Com paciência agouros de Tirésias
- E os de Circe, que à ilha me proíbem
- Do Sol portar, a todos nós funesta;
- Dela o fusco navio impeli fora.”
- Este anúncio os confrange, e molestou-me
- Euríloco tenaz: “Ímprobo Ulisses,
- Tu não cansas, teus membros são de ferro,
- Pois de fadiga e sono a gente opressa
- Na ilha vedas saltar onde aprestemos
- Boa ceia, e à matroca temerário
- Em trevas pelo ponto errar nos mandas.
- Em procela, e noturna, onde abrigar-nos,
- Se Noto ou Zéfiro em tufão rebenta,
- Os mais duros às naus, mau grado aos numes?
- Ceda-se à escuridão; toca a cearmos,
- E o pélago amanhã sulque-se embora.”
- Do consenso geral tirei que a perda
- Nos traçava um demônio: “Eis-me vencido,
- Clamo, Euríloco! Ao menos jurai todos,
- Em rês alguma não bulir nefandos;
- O que Circe nos deu comei tranqüilos.”
- Juraram-me formais, e em porto ancoro
- Ante uma fonte amena. Ao desembarque,
- Curam da ceia; já repletos, lembram
- Os que Cila voraz nos engolira,
- Até que ao pranto lhes sucede o sono.
- Da noite por um terço indo-se os astros
- Grã borrasca o Nimbífero carrega,
- Pego e terra embruscando, e rui do pólo
- Denso negrume; e assim que a matutina
- Aurora aponta, em gruta a nau pusemos,
- De ninfas gentilíssimas assento.
- Oro em conselho: “Mantimentos sobram;
- Será fatal comermos bois e ovelhas
- Do acre Sol, que vê tudo e tudo exouve.”
- Seu brio suadi. Sós Euro e Noto
- Sopraram de contino um mês inteiro:
- Pão tendo e vinho, abstinham-se das reses,
- Cuidadosos das vidas; gastam mesmo
- As vitualhas, pela fome urgidos
- Que o ventre nos roía, à caça andamos
- De aves e peixes, do que anzóis pilhavam,
- Dardos, seta ou rojão. Pela ilha fui-me
- Os deuses a rogar, se algum maneira
- De sair me indicasse: as mãos lavando
- Num abrigado, imploro à etérea corte,
- Que me infundiu nas pálpebras o sono.
- O mal, no entanto, Euríloco sugere:
- “Desgraçados, a morte é sempre feia,
- Mas a pior é perecer de fome.
- Os bois do Sol carnudo imolemos
- Aos imortais, e ao claro deus sublime
- Na pátria precioso orne-se um templo;
- E se irritado, os outros consentindo,
- For seu gosto afogar-nos, antes quero
- Beber de um trago a morte em salsas ondas
- Que ir em deserta ilha definhando.”
- Aplaudem-no; e, prendendo os mais vistosos,
- De larga fronte e retorcidos cornos,
- Que ante a rostrada fusca nau pasciam,
- Das vítimas em torno aos deuses votam
- Uns grelos de carvalho alticomado,
- Por faltar branco farro. Preces findas,
- Matam, esfolam, separando as coxas;
- Das quais por cima, em duplo zerbo envoltas,
- Põem miúdas porções do corpo inteiro,
- E por não terem vinho para o fogo,
- Água libando os intestinos assam.
- Ao fixarem no espeto as gordas postas,
- Sacudo o brando sono, e alvorotado
- À praia me encaminho. Já não longe
- Das carnes sinto o recendente cheiro;
- Aos Céus triste bradei: “Júpiter padre,
- Numes, em divo sono me ensopastes,
- Para um tal sacrilégio perpetrarem!”
- Ao Sol voa Lampécia amplo-velada
- O crime a delatar, e o Sol furente
- Bramiu: “Jove, ó beatos sempiternos,
- Puni-me do Laércio os companheiros;
- Ah! mataram-me os bois, meu gosto e enlevo,
- Quando eu subia ao céu, descia à terra:
- Se vós não me vingais, vou-me a Sumano
- A alumiar as sombras.” — E o Tonante:
- “Ó Sol, aos deuses de luzir não cesses
- E aos terrestres mortais: a raio ardente
- Hei de o baixel ferir e incendiá-lo
- No seio do atro mar.” — Isto Calipso
- Me declarou, que o soube de Mercúrio.
- Chegando à praia, increpo homem por homem;
- Nenhum remédio havia às mortas reses.
- Manifestou-se a cólera suprema:
- Peles serpeiam; carne assada ou crua
- No espeto muge, a voz bovina soa.
- Seis dias, não obstante, se nutriram
- Do melhor da manada; e, o borrascoso
- Vento acalmando ao sétimo, embarcamos,
- E ereto o mastro, as velas desferimos.
- Some-se a ilha, o pólo e o mar só vemos
- Eis cerúleo bulcão sobre o navio,
- Retém-no um pouco, enegrecendo as ondas;
- Mas em rajada Zéfiro estridente
- Rompe os ovéns do mastro, que à ré tomba
- Atirando o maçame na sentina,
- E à popa o crânio do piloto racha;
- Da tolda qual mergulhador caindo,
- A alma gentil os ossos lhe abandona.
- Jove troveja; o raio a nau revira
- E enche de enxofre, deita a gente fora;
- Como alcatrazes de redor flutuam,
- Da volta os priva um deus. Ando e regiro,
- Té que descose a vaga as amuradas
- E joga o inerme lenho; pela base
- Fende o mastro, e o sustenta uma correia;
- Com esta ao casco o ligo e em tal jangada
- Leva-me o vento. Zéfiro sossega;
- Mas Noto áspero angústias me acrescenta,
- Ir outra vez receio ao freto imano.
- Vago a noite; mas n’alva o escolho enxergo
- De Cila e de Caríbdis, que medonha
- Absorvia as maretas: eu, na altura
- Da baforeira, à guisa de morcego
- Me implico; os pés nem sento nem remonto,
- Longe estando as raízes e a ramada
- Que sombreia a voragem. Lá me agarro,
- Té que, à hora em que o foro e os litigantes
- Larga o juiz para cear, Caríbdis,
- A meus desejos lenta, o mastro e o buco
- Vomita: eu me despego, e na jangada
- Baqueio estrepitoso, a braços remo.
- O pai de homens e deuses, por salvar-me,
- Tolheu que Cila então me lobrigasse.
- Nove dias labuto, e o Céu me aporta
- Já na décima noite à ilha Ogígia,
- Onde acolheu-me e acarinhou Calipso,
- Deusa de humana voz. Que resta? Em casa
- Ontem me ouviste e a casta soberana:
- Repetir o narrado é fastidioso.”