Veste-se, à luz da dedirrósea aurora
332 versos · 3 notas do tradutor
- Veste-se, à luz da dedirrósea aurora,
- Sai da alcova o amadíssimo Ulisseida
- Ao tiracolo a espada e aos pés sandálias,
- Fulgente como um deus, expede arautos
- A apregoar e reunir os Gregos.
- De hasta aênea, ao congresso alvoroçado,
- Não sem dous cães alvíssimos, se agrega;
- Minerva graça lhe infundiu celeste.
- Seu porte e ar admira o povo inteiro;
- Cedem-lhe os velhos o paterno assento.
- Egípcio ergueu-se, de anos curvo e sábio,
- A lembrar-se de Antifo, que audaz indo
- Com Ulisses a Tróia, do Ciclope
- Foi na seva espelunca última ceia;
- O herói carpia o filho, e bem que houvesse
- Três outros, um dos procos Eurínomo,
- Dous nas lavouras ocupados sempre,
- Concionou lagrimando: “Nunca, atentos
- Cidadãos, em congresso nos sentamos,
- Desde que Ulisses embarcou divino:
- Que provecto ou mancebo o ajunta agora?
- Que urge? anúncio há exército inimigo?
- Ou tratar vem de público interesse?
- Nas justas intenções o assiste Jove”.
- O Ulisseida não mais fica em seu posto;
- Ledo, orar cobiçando, em pé recebe
- Do arauto Pisenor sisudo o cetro,
- Por Egípcio começa: “Eis-me, tens perto
- Quem, ancião, convoca esta assembléia;
- Nem há novas de exército inimigo,
- Nem trato hoje de público interesse,
- Mas do meu próprio. Hei duas graves penas:
- Falta-me o pai, que o era do seu povo;
- O pior é que amantes importunos,
- Filhos dos principais aqui presentes,
- Minha mãe vexam, minha casa estragam.
- A Icário temem ir, que a filha dote
- E escolha o genro que lhe for mais grato;
- Em diários festins, meus bois tragando,
- Cabras e ovelhas, minha adega exaurem.
- Nem outro Ulisses que remova o dano,
- Nem forças tenho e militar perícia;
- Mal seria tentá-lo: oh! se eu pudesse!
- Da ruína e infâmia, cidadãos, salvai-me,
- Os vizinhos temei, temei que os deuses
- Em vós a indigna tolerância punam:
- E vos rogo por Júpiter, por Têmis,
- Que demite ou congrega as assembléias,
- Socorro, amigos; só me reste a mágoa
- Do extinto pai. Se dele ofensas tendes,
- E contra mim os instigais, mais vale
- Vós os móveis e imóveis consumirdes:
- Assim, tinha o recurso de que a tempo
- Em Ítaca meus bens vos reclamasse,
- Compensações recíprocas fazendo.
- Ora, insanável dor me infligis n’alma”.
- De cólera chorando, o cetro arroja;
- Comisera-se o povo. À queixa amarga,
- Em roda emudeceram, mas Antino,
- Rompe o silêncio: “Altíloquo e impotente
- Da ignomínia o ferrete em nós imprimes?
- A ninguém mais, Telêmaco, a mãe cara
- Somente arguas, que de astúcias mestra,
- Quatro anos quase, nos contrista, ilusos
- De promessas, recados e esperanças,
- E al tem no coração. Com novo engano,
- Nos disse, ao predispor fina ampla teia:
- — Amantes meus depois de morto Ulisses,
- Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
- Sem que do herói Laertes a mortalha
- Toda seja tecida, para quando
- No longo sono o sopitar o fado:
- Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
- Manto rico não ter quem teve tanto. —
- Esta desculpa ingênuos aceitamos.
- Ela, um triênio, desmanchava à noite
- À luz da lâmpada o lavor diurno;
- Ao depois, avisou-nos uma escrava,
- E a destecer a teia a surpreendemos:
- Então viu-se obrigada a concluí-la.
- Saibas nossa resposta, e a saibam todos:
- Penélope de Icário ao paço envies,
- Marido a sabor dela o pai lhe escolha.
- De indústria, engenho e ardis, a ornou. Minerva,
- Quais não dera às mais célebres Aquivas,
- Tiro e Alcmena e Micena emadeixadas;
- Mas dos dotes abusa em que as supera,
- A príncipes da Grécia atormentando.
- A insistir na repulsa, na vontade
- Que os imortais no peito lhe puseram,
- Terá glória perene, embora sintas
- Esgotados rebanhos e tesouros;
- Pois, o assevero, a empresa não largamos,
- Antes que ela um consorte a gosto eleja”.
- Logo Telêmaco: “A expulsar, Antino,
- Quem me pariu e amamentou me instigas?
- Viva Ulisses ou não, se tal cometo,
- A meu avô dar cumpre estreita conta;
- Aflito pelo pai, depois que as Fúrias
- Penélope, este lar deixando, impreque,
- Me incitará mau gênio humanos ódios:
- Não, não proferirei tamanho crime.
- Mutuando os festins, comei do vosso,
- A casa despejai-me. A preferirdes
- Gastar os bens de um só, recorro aos deuses:
- Júpiter o castigo vos fulmine,
- E nestes paços expireis inultos”.
- Aqui despede o próvido Satúrnio
- Do alto águias duas, que, de pandas asas
- Pelas auras a par, ante o congresso
- Mirando em giro e sacudindo as penas
- Sobre as cabeças, prometiam mortes;
- Lacerando-se à unha a testa e o colo,
- Da cidade por cima à destra voam.
- No anúncio a refletir, pasmaram todos.
- Ergueu-se o herói Mastórida Haliterse,
- Agoureiro o melhor entre os coevos,
- E orou de grado: “Cidadãos, ouvi-me,
- Risco iminente pressagio aos procos:
- Não tarda Ulisses, que vizinho traça
- Deles o exício e de outros Itacenses.
- De os refrear o modo averigüemos,
- Ou se abstenham por si, que é mais cordato.
- Inexperto não sou; predisse aos Gregos,
- No embarcar para Tróia o astuto Ulisses,
- Que sem nenhum dos seus, após vinte anos
- E transes mil, ignoto aqui viria:
- Quanto prenunciei vai ser cumprido”.
- Eurímaco retorque: “Eia, a teus filhos
- Corre a vaticinar, para que um dia
- Sério desastre, ó velho, não padeçam:
- Profeta eu sou maior; nem quantas aves
- Ao sol adejam, pronosticam males.
- Como Ulisses, ao longe oh! pereceras,
- Áugur falaz; com olho só no lucro,
- O ódio nunca em Telêmaco excitavas.
- Mas, se de teu prestígio e idade abusas
- Irritando o mancebo, eu te asseguro,
- Funesto lhe serás, sem nada obteres,
- E a ti multa imporemos, que te grave
- E ao vivo doa. Mande, eu lho aconselho,
- A Icário a mãe: as núpcias lhe aprontemos,
- E um dote para a filha haja condigno.
- Cesse a porfia assim; pois ninguém medo,
- Nem o loquaz Telêmaco, nos mete.
- Predições desprezamos, cujo efeito
- Único é detestarmos o adivinho.
- A desfalcar seus bens continuaremos,
- Enquanto ela indecisa entretiver-nos:
- Todos rivais, pela virtude sua,
- Longos dias passamos na esperança,
- Outras nobres senhoras enjeitando”.
- Dissimula Telêmaco: “Não quero
- Nisto, Eurímaco e ilustres pretendentes,
- Falar mais: tudo os Céus e os Gregos sabem.
- Mas dai-me ágil baixel de vinte remos,
- No qual, o instável pélago sulcando,
- Eu vá, na Esparta e na arenosa Pilos,
- Do suspirado pai colher notícias:
- Talvez alguém me informe, ou soe o brado
- Com que Jove aos mortais gradua a fama.
- Vivo Ulisses, paciente um ano espero;
- Morto, aqui volto, e um monumento exalço
- E consagro-lhe exéquias dignas dele;
- De mim novo marido a mãe receba”.
- Mal toma o seu lugar, Mentor ergueu-se,
- Sócio do grande Ulisses que à partida
- Confiou-lhe interesses da família,
- Que ao velho obedecia; este prudente
- Orou de grado: “Cidadãos, ouvi-me,
- Cetrígero nenhum benigno seja,
- Nem precatado e bom, sim duro e injusto,
- Já que o povo deslembra o divo Ulisses,
- Rei homem, rei e pai, senhor e amigo.
- Aos cegos procos a violência passo,
- Porque, a seu risco devorando a casa,
- Pensam que Ulisses nunca mais ressurja;
- Ardo só contra o povo, que estais mudos,
- Que, tantos sendo, ao menos com palavras,
- Não reprimis o orgulho de tão poucos”.
- Bradou Leócrito Evenório: “Bronco
- E insolente Mentor, nós desistirmos!
- Disputar-se o festim será difícil
- Dos príncipes à flor: se o próprio Ulisses
- Maquinasse expelir de casa os procos,
- Não folgava de o ver a amante esposa;
- Crua morte os convivas lhe dariam.
- Fútil arenga. Ao trabalho, ó povo;
- Naliterse e Mentor, muito há paternos
- E amigos seus, dispunham-lhe a viagem.
- Falho o projeto, longamente, eu creio,
- Tem de inquirir em Ítaca estrangeiros”.
- Ei-lo, solve o congresso; os mais às próprias,
- De Penélope à casa os procos foram.
- Telêmaco da praia ao longo parte;
- No alvo mar banha as mãos, suplica a Palas:
- “Socorro, ó nume que a meu lar vieste,
- E ontem mandaste que, talhando as vagas,
- De Ulisses fosse em busca; obstam-me os Gregos,
- E sobretudo os feros pretendentes”.
- Palas à prece acorre, em voz e em corpo
- A Mentor semelhando: “Siso e esforço,
- Ó mancebo, terás, se em ti se instila
- O ânimo de teu pai em dito e em feitos,
- Nem baldarás teus passos: a não seres
- De Penélope sangue e do Laércio,
- Que lograsses o intento eu duvidara.
- Muitos filhos do tronco degeneram,
- Raros o imitam, raros se avantajam;
- Pois de Ulisses herdaste o gênio e o brio,
- O teu projeto conseguir esperes.
- Desses loucos e injustos não te importes;
- Sem previdência, ignoram que atra morte
- Para um só dia lhes comina o fado.
- Não mais o teu propósito retardes:
- Mesmo agora aparece aos pretendentes;
- Vitualhas apresta e acondiciona,
- Em ânforas o vinho e em densos odres
- Mete a farinha, dos barões medula.
- Paterno sócio, te serei companha,
- Em baixel que te esquipe: ondicercada
- Ítaca abunda em naus de toda a sorte;
- A melhor se aparelhe e ao mar se deite”.
- À voz da filha do Satúrnio, à casa
- Dirige-se o Ulisseida angustiado;
- Os soberbões encontra a esfolar cabras,
- A assar no pátio suculentos porcos.
- Rindo lhe ocorre Antino e a mão lhe trava:
- “Fraco e loquaz Telêmaco, desterra
- Mau pensamento; investe, como dantes,
- Ao comer e ao beber, valente e guapo.
- Gregos te escolherão navio e remos,
- Onde a Pilos divina, ao som da fama,
- Tu vás de Ulisses indagando novas”.
- Sério o príncipe: “Antino, com soberbos
- Folgar não devo ou conviver forçado.
- Não basta que os meus bens dilapidásseis
- Na infância minha? Alerta e mais crescido,
- Aconselhei-me, e a ira em mim referve:
- Seja em Pilos ou Ítaca, procuro
- Vossa ruína; os passos meus não frustro.
- Passagem pagarei, pois vos aprouve
- De embarcação privar-me e de remeiros”.
- E a mão da mão de Antino arranca fácil.
- Rompe o festim, e a charlear um deles:
- “Hui! Telêmaco a perda nos prepara!
- Ou da arenosa Pilos ou de Esparta
- Vingadores trará, se é que de Éfira
- Não nos trouxer letíficos venenos,
- Que na cratera a todos nos propine”.
- E outro a zombar: “Quem sabe se naufrague
- E longe expire, como o errante Ulisses?
- Seria um grã trabalho o dividirmos
- Tamanhas possessões, à mãe deixando,
- Ou a quem a esposasse, este palácio”.
- Ele à paterna estância ampla e sublime
- Corre, onde amontoavam-se ouro e cobre,
- Óleo odorífero e de vestes arcas;
- Dentro, em redor envelheciam pipas
- De almo divino baco, se inda Ulisses,
- Depois de tanta angústia, ao lar voltasse.
- Desperta as portas bífores cerradas
- Guardava a ecônoma Euricléia, filha
- De Opes de Pisenor; chamou-a e disse:
- “Em ânforas bom vinho, ama, embotelha,
- Do mais suave que a tornada espera
- Do infeliz nobre herói, se a morte o poupa,
- Delas enche uma dúzia e arrolha todas;
- Alqueires vinte em odres bem cosidos
- Vaza de grãos de elaborada Ceres.
- Tudo arruma em segredo; à noite venho,
- Mal Penélope a câmara procure.
- A Esparta e a Pilos arenosa vou-me,
- Do pai dileto a recolher notícias”.
- Clama Euricléia, debulhada em pranto
- “Filho, que insânia a tua! ires sozinho
- Por esse mundo! É morto o grande Ulisses,
- Ai! longe do seu ninho, em terra ignota:
- Fica entre nós; para teus bens gozarem,
- Se partes, eles te armarão ciladas;
- Ao cruel vago mar não te confies”.
- “Ama, responde o príncipe, sossega;
- Isto não é sem deus. Jura à mãe cara
- Onze dias ou doze encobrir tudo,
- Salvo se o tenha ouvido ou queira ver-me:
- Não deforme chorando as faces belas”.
- Firma a velha um solene juramento,
- E enquanto o vinho em ânforas transfunde
- E despeja nos odres a farinha,
- O jovem se reúne aos pretendentes.
- Mais excogita Palas: disfarçada
- No régio garfo, as ruas percorrendo,
- Incitava um por um a achar-se prestes,
- Ao lusco e fusco, ante um baixel veleiro
- Ao de Frômio pedido egrégio filho,
- Que o prometeu benévolo e previsto.
- Obumbrava a cidade o Sol no ocaso:
- Do porto à boca, a mesma Olhicerúlea,
- Em nado posta a nau bem petrechada,
- Congrega e exorta a pontual maruja.
- Depois anda ao palácio; os pretendentes
- Entre o vapor do vinho em sono enleia,
- Turba-os, das mãos os copos lhes sacode:
- Eles para dormir, da mesa erguidos,
- Carregadas as pálpebras, se espargem.
- Retoma a forma de Mentor a deusa,
- Fora chama a Telêmaco: “Nos bancos
- Te aguardam prontos os grevados Gregos;
- Não demoremos a partida, vamos.”
- Já caminha, e Telêmaco após ela.
- Chegados ao baixel, na praia encontram
- Comantes nautas, a quem fala o moço:
- “Os víveres, amigos, transportemos
- Que hei no aposento: exceto uma cativa,
- Nem minha mãe conhece este segredo.”
- Ei-los, colocam tudo na coberta:
- Embarca o príncipe, adiante Palas,
- Que a par o assenta à popa. Safam cabos
- E abancam-se remeiros, bem que a deusa
- Mande favônio Zéfiro, que aleia
- E encrespa o turvo ressonante pego.
- A vozes de Telêmaco, manobram:
- De abeto o mastro levantado encaixam
- Em sua base e o ligam de calabres,
- Com táureas cordas brancas velas içam.
- Venta em cheio; a fremir, purpúreas vagas
- O buco açoutam, que as retalha e voa.
- Finda a mareação, do mais estreme
- Em pé crateras coroando, libam
- Aos imortais, principalmente à prole
- De Júpiter Minerva, que da noite
- À nova aurora viajou com eles.