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OdisseiaLivro II
LivroII

Veste-se, à luz da dedirrósea aurora

332 versos · 3 notas do tradutor


  1. Veste-se, à luz da dedirrósea aurora,
  2. Sai da alcova o amadíssimo Ulisseida
  3. Ao tiracolo a espada e aos pés sandálias,
  4. Fulgente como um deus, expede arautos
  5. A apregoar e reunir os Gregos.
  6. De hasta aênea, ao congresso alvoroçado,
  7. Não sem dous cães alvíssimos, se agrega;
  8. Minerva graça lhe infundiu celeste.
  9. Seu porte e ar admira o povo inteiro;
  10. Cedem-lhe os velhos o paterno assento.
  11. Egípcio ergueu-se, de anos curvo e sábio,
  12. A lembrar-se de Antifo, que audaz indo
  13. Com Ulisses a Tróia, do Ciclope
  14. Foi na seva espelunca última ceia;
  15. O herói carpia o filho, e bem que houvesse
  16. Três outros, um dos procos Eurínomo,
  17. Dous nas lavouras ocupados sempre,
  18. Concionou lagrimando: “Nunca, atentos
  19. Cidadãos, em congresso nos sentamos,
  20. Desde que Ulisses embarcou divino:
  21. Que provecto ou mancebo o ajunta agora?
  22. Que urge? anúncio há exército inimigo?
  23. Ou tratar vem de público interesse?
  24. Nas justas intenções o assiste Jove”.
  25. O Ulisseida não mais fica em seu posto;
  26. Ledo, orar cobiçando, em pé recebe
  27. Do arauto Pisenor sisudo o cetro,
  28. Por Egípcio começa: “Eis-me, tens perto
  29. Quem, ancião, convoca esta assembléia;
  30. Nem há novas de exército inimigo,
  31. Nem trato hoje de público interesse,
  32. Mas do meu próprio. Hei duas graves penas:
  33. Falta-me o pai, que o era do seu povo;
  34. O pior é que amantes importunos,
  35. Filhos dos principais aqui presentes,
  36. Minha mãe vexam, minha casa estragam.
  37. A Icário temem ir, que a filha dote
  38. E escolha o genro que lhe for mais grato;
  39. Em diários festins, meus bois tragando,
  40. Cabras e ovelhas, minha adega exaurem.
  41. Nem outro Ulisses que remova o dano,
  42. Nem forças tenho e militar perícia;
  43. Mal seria tentá-lo: oh! se eu pudesse!
  44. Da ruína e infâmia, cidadãos, salvai-me,
  45. Os vizinhos temei, temei que os deuses
  46. Em vós a indigna tolerância punam:
  47. E vos rogo por Júpiter, por Têmis,
  48. Que demite ou congrega as assembléias,
  49. Socorro, amigos; só me reste a mágoa
  50. Do extinto pai. Se dele ofensas tendes,
  51. E contra mim os instigais, mais vale
  52. Vós os móveis e imóveis consumirdes:
  53. Assim, tinha o recurso de que a tempo
  54. Em Ítaca meus bens vos reclamasse,
  55. Compensações recíprocas fazendo.
  56. Ora, insanável dor me infligis n’alma”.
  57. De cólera chorando, o cetro arroja;
  58. Comisera-se o povo. À queixa amarga,
  59. Em roda emudeceram, mas Antino,
  60. Rompe o silêncio: “Altíloquo e impotente
  61. Da ignomínia o ferrete em nós imprimes?
  62. A ninguém mais, Telêmaco, a mãe cara
  63. Somente arguas, que de astúcias mestra,
  64. Quatro anos quase, nos contrista, ilusos
  65. De promessas, recados e esperanças,
  66. E al tem no coração. Com novo engano,
  67. Nos disse, ao predispor fina ampla teia:
  68. — Amantes meus depois de morto Ulisses,
  69. Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
  70. Sem que do herói Laertes a mortalha
  71. Toda seja tecida, para quando
  72. No longo sono o sopitar o fado:
  73. Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
  74. Manto rico não ter quem teve tanto. —
  75. Esta desculpa ingênuos aceitamos.
  76. Ela, um triênio, desmanchava à noite
  77. À luz da lâmpada o lavor diurno;
  78. Ao depois, avisou-nos uma escrava,
  79. E a destecer a teia a surpreendemos:
  80. Então viu-se obrigada a concluí-la.
  81. Saibas nossa resposta, e a saibam todos:
  82. Penélope de Icário ao paço envies,
  83. Marido a sabor dela o pai lhe escolha.
  84. De indústria, engenho e ardis, a ornou. Minerva,
  85. Quais não dera às mais célebres Aquivas,
  86. Tiro e Alcmena e Micena emadeixadas;
  87. Mas dos dotes abusa em que as supera,
  88. A príncipes da Grécia atormentando.
  89. A insistir na repulsa, na vontade
  90. Que os imortais no peito lhe puseram,
  91. Terá glória perene, embora sintas
  92. Esgotados rebanhos e tesouros;
  93. Pois, o assevero, a empresa não largamos,
  94. Antes que ela um consorte a gosto eleja”.
  95. Logo Telêmaco: “A expulsar, Antino,
  96. Quem me pariu e amamentou me instigas?
  97. Viva Ulisses ou não, se tal cometo,
  98. A meu avô dar cumpre estreita conta;
  99. Aflito pelo pai, depois que as Fúrias
  100. Penélope, este lar deixando, impreque,
  101. Me incitará mau gênio humanos ódios:
  102. Não, não proferirei tamanho crime.
  103. Mutuando os festins, comei do vosso,
  104. A casa despejai-me. A preferirdes
  105. Gastar os bens de um só, recorro aos deuses:
  106. Júpiter o castigo vos fulmine,
  107. E nestes paços expireis inultos”.
  108. Aqui despede o próvido Satúrnio
  109. Do alto águias duas, que, de pandas asas
  110. Pelas auras a par, ante o congresso
  111. Mirando em giro e sacudindo as penas
  112. Sobre as cabeças, prometiam mortes;
  113. Lacerando-se à unha a testa e o colo,
  114. Da cidade por cima à destra voam.
  115. No anúncio a refletir, pasmaram todos.
  116. Ergueu-se o herói Mastórida Haliterse,
  117. Agoureiro o melhor entre os coevos,
  118. E orou de grado: “Cidadãos, ouvi-me,
  119. Risco iminente pressagio aos procos:
  120. Não tarda Ulisses, que vizinho traça
  121. Deles o exício e de outros Itacenses.
  122. De os refrear o modo averigüemos,
  123. Ou se abstenham por si, que é mais cordato.
  124. Inexperto não sou; predisse aos Gregos,
  125. No embarcar para Tróia o astuto Ulisses,
  126. Que sem nenhum dos seus, após vinte anos
  127. E transes mil, ignoto aqui viria:
  128. Quanto prenunciei vai ser cumprido”.
  129. Eurímaco retorque: “Eia, a teus filhos
  130. Corre a vaticinar, para que um dia
  131. Sério desastre, ó velho, não padeçam:
  132. Profeta eu sou maior; nem quantas aves
  133. Ao sol adejam, pronosticam males.
  134. Como Ulisses, ao longe oh! pereceras,
  135. Áugur falaz; com olho só no lucro,
  136. O ódio nunca em Telêmaco excitavas.
  137. Mas, se de teu prestígio e idade abusas
  138. Irritando o mancebo, eu te asseguro,
  139. Funesto lhe serás, sem nada obteres,
  140. E a ti multa imporemos, que te grave
  141. E ao vivo doa. Mande, eu lho aconselho,
  142. A Icário a mãe: as núpcias lhe aprontemos,
  143. E um dote para a filha haja condigno.
  144. Cesse a porfia assim; pois ninguém medo,
  145. Nem o loquaz Telêmaco, nos mete.
  146. Predições desprezamos, cujo efeito
  147. Único é detestarmos o adivinho.
  148. A desfalcar seus bens continuaremos,
  149. Enquanto ela indecisa entretiver-nos:
  150. Todos rivais, pela virtude sua,
  151. Longos dias passamos na esperança,
  152. Outras nobres senhoras enjeitando”.
  153. Dissimula Telêmaco: “Não quero
  154. Nisto, Eurímaco e ilustres pretendentes,
  155. Falar mais: tudo os Céus e os Gregos sabem.
  156. Mas dai-me ágil baixel de vinte remos,
  157. No qual, o instável pélago sulcando,
  158. Eu vá, na Esparta e na arenosa Pilos,
  159. Do suspirado pai colher notícias:
  160. Talvez alguém me informe, ou soe o brado
  161. Com que Jove aos mortais gradua a fama.
  162. Vivo Ulisses, paciente um ano espero;
  163. Morto, aqui volto, e um monumento exalço
  164. E consagro-lhe exéquias dignas dele;
  165. De mim novo marido a mãe receba”.
  166. Mal toma o seu lugar, Mentor ergueu-se,
  167. Sócio do grande Ulisses que à partida
  168. Confiou-lhe interesses da família,
  169. Que ao velho obedecia; este prudente
  170. Orou de grado: “Cidadãos, ouvi-me,
  171. Cetrígero nenhum benigno seja,
  172. Nem precatado e bom, sim duro e injusto,
  173. Já que o povo deslembra o divo Ulisses,
  174. Rei homem, rei e pai, senhor e amigo.
  175. Aos cegos procos a violência passo,
  176. Porque, a seu risco devorando a casa,
  177. Pensam que Ulisses nunca mais ressurja;
  178. Ardo só contra o povo, que estais mudos,
  179. Que, tantos sendo, ao menos com palavras,
  180. Não reprimis o orgulho de tão poucos”.
  181. Bradou Leócrito Evenório: “Bronco
  182. E insolente Mentor, nós desistirmos!
  183. Disputar-se o festim será difícil
  184. Dos príncipes à flor: se o próprio Ulisses
  185. Maquinasse expelir de casa os procos,
  186. Não folgava de o ver a amante esposa;
  187. Crua morte os convivas lhe dariam.
  188. Fútil arenga. Ao trabalho, ó povo;
  189. Naliterse e Mentor, muito há paternos
  190. E amigos seus, dispunham-lhe a viagem.
  191. Falho o projeto, longamente, eu creio,
  192. Tem de inquirir em Ítaca estrangeiros”.
  193. Ei-lo, solve o congresso; os mais às próprias,
  194. De Penélope à casa os procos foram.
  195. Telêmaco da praia ao longo parte;
  196. No alvo mar banha as mãos, suplica a Palas:
  197. “Socorro, ó nume que a meu lar vieste,
  198. E ontem mandaste que, talhando as vagas,
  199. De Ulisses fosse em busca; obstam-me os Gregos,
  200. E sobretudo os feros pretendentes”.
  201. Palas à prece acorre, em voz e em corpo
  202. A Mentor semelhando: “Siso e esforço,
  203. Ó mancebo, terás, se em ti se instila
  204. O ânimo de teu pai em dito e em feitos,
  205. Nem baldarás teus passos: a não seres
  206. De Penélope sangue e do Laércio,
  207. Que lograsses o intento eu duvidara.
  208. Muitos filhos do tronco degeneram,
  209. Raros o imitam, raros se avantajam;
  210. Pois de Ulisses herdaste o gênio e o brio,
  211. O teu projeto conseguir esperes.
  212. Desses loucos e injustos não te importes;
  213. Sem previdência, ignoram que atra morte
  214. Para um só dia lhes comina o fado.
  215. Não mais o teu propósito retardes:
  216. Mesmo agora aparece aos pretendentes;
  217. Vitualhas apresta e acondiciona,
  218. Em ânforas o vinho e em densos odres
  219. Mete a farinha, dos barões medula.
  220. Paterno sócio, te serei companha,
  221. Em baixel que te esquipe: ondicercada
  222. Ítaca abunda em naus de toda a sorte;
  223. A melhor se aparelhe e ao mar se deite”.
  224. À voz da filha do Satúrnio, à casa
  225. Dirige-se o Ulisseida angustiado;
  226. Os soberbões encontra a esfolar cabras,
  227. A assar no pátio suculentos porcos.
  228. Rindo lhe ocorre Antino e a mão lhe trava:
  229. “Fraco e loquaz Telêmaco, desterra
  230. Mau pensamento; investe, como dantes,
  231. Ao comer e ao beber, valente e guapo.
  232. Gregos te escolherão navio e remos,
  233. Onde a Pilos divina, ao som da fama,
  234. Tu vás de Ulisses indagando novas”.
  235. Sério o príncipe: “Antino, com soberbos
  236. Folgar não devo ou conviver forçado.
  237. Não basta que os meus bens dilapidásseis
  238. Na infância minha? Alerta e mais crescido,
  239. Aconselhei-me, e a ira em mim referve:
  240. Seja em Pilos ou Ítaca, procuro
  241. Vossa ruína; os passos meus não frustro.
  242. Passagem pagarei, pois vos aprouve
  243. De embarcação privar-me e de remeiros”.
  244. E a mão da mão de Antino arranca fácil.
  245. Rompe o festim, e a charlear um deles:
  246. “Hui! Telêmaco a perda nos prepara!
  247. Ou da arenosa Pilos ou de Esparta
  248. Vingadores trará, se é que de Éfira
  249. Não nos trouxer letíficos venenos,
  250. Que na cratera a todos nos propine”.
  251. E outro a zombar: “Quem sabe se naufrague
  252. E longe expire, como o errante Ulisses?
  253. Seria um grã trabalho o dividirmos
  254. Tamanhas possessões, à mãe deixando,
  255. Ou a quem a esposasse, este palácio”.
  256. Ele à paterna estância ampla e sublime
  257. Corre, onde amontoavam-se ouro e cobre,
  258. Óleo odorífero e de vestes arcas;
  259. Dentro, em redor envelheciam pipas
  260. De almo divino baco, se inda Ulisses,
  261. Depois de tanta angústia, ao lar voltasse.
  262. Desperta as portas bífores cerradas
  263. Guardava a ecônoma Euricléia, filha
  264. De Opes de Pisenor; chamou-a e disse:
  265. “Em ânforas bom vinho, ama, embotelha,
  266. Do mais suave que a tornada espera
  267. Do infeliz nobre herói, se a morte o poupa,
  268. Delas enche uma dúzia e arrolha todas;
  269. Alqueires vinte em odres bem cosidos
  270. Vaza de grãos de elaborada Ceres.
  271. Tudo arruma em segredo; à noite venho,
  272. Mal Penélope a câmara procure.
  273. A Esparta e a Pilos arenosa vou-me,
  274. Do pai dileto a recolher notícias”.
  275. Clama Euricléia, debulhada em pranto
  276. “Filho, que insânia a tua! ires sozinho
  277. Por esse mundo! É morto o grande Ulisses,
  278. Ai! longe do seu ninho, em terra ignota:
  279. Fica entre nós; para teus bens gozarem,
  280. Se partes, eles te armarão ciladas;
  281. Ao cruel vago mar não te confies”.
  282. “Ama, responde o príncipe, sossega;
  283. Isto não é sem deus. Jura à mãe cara
  284. Onze dias ou doze encobrir tudo,
  285. Salvo se o tenha ouvido ou queira ver-me:
  286. Não deforme chorando as faces belas”.
  287. Firma a velha um solene juramento,
  288. E enquanto o vinho em ânforas transfunde
  289. E despeja nos odres a farinha,
  290. O jovem se reúne aos pretendentes.
  291. Mais excogita Palas: disfarçada
  292. No régio garfo, as ruas percorrendo,
  293. Incitava um por um a achar-se prestes,
  294. Ao lusco e fusco, ante um baixel veleiro
  295. Ao de Frômio pedido egrégio filho,
  296. Que o prometeu benévolo e previsto.
  297. Obumbrava a cidade o Sol no ocaso:
  298. Do porto à boca, a mesma Olhicerúlea,
  299. Em nado posta a nau bem petrechada,
  300. Congrega e exorta a pontual maruja.
  301. Depois anda ao palácio; os pretendentes
  302. Entre o vapor do vinho em sono enleia,
  303. Turba-os, das mãos os copos lhes sacode:
  304. Eles para dormir, da mesa erguidos,
  305. Carregadas as pálpebras, se espargem.
  306. Retoma a forma de Mentor a deusa,
  307. Fora chama a Telêmaco: “Nos bancos
  308. Te aguardam prontos os grevados Gregos;
  309. Não demoremos a partida, vamos.”
  310. Já caminha, e Telêmaco após ela.
  311. Chegados ao baixel, na praia encontram
  312. Comantes nautas, a quem fala o moço:
  313. “Os víveres, amigos, transportemos
  314. Que hei no aposento: exceto uma cativa,
  315. Nem minha mãe conhece este segredo.”
  316. Ei-los, colocam tudo na coberta:
  317. Embarca o príncipe, adiante Palas,
  318. Que a par o assenta à popa. Safam cabos
  319. E abancam-se remeiros, bem que a deusa
  320. Mande favônio Zéfiro, que aleia
  321. E encrespa o turvo ressonante pego.
  322. A vozes de Telêmaco, manobram:
  323. De abeto o mastro levantado encaixam
  324. Em sua base e o ligam de calabres,
  325. Com táureas cordas brancas velas içam.
  326. Venta em cheio; a fremir, purpúreas vagas
  327. O buco açoutam, que as retalha e voa.
  328. Finda a mareação, do mais estreme
  329. Em pé crateras coroando, libam
  330. Aos imortais, principalmente à prole
  331. De Júpiter Minerva, que da noite
  332. À nova aurora viajou com eles.

Nota a nota · 3 notas

v. 68–71— Amantes meus depois de morto Ulisses,
Nesta passagem, usa Rochefort de estilo erótico alheio de Homero: Antino fala no tom do Pastor Fido ou da Marília de Dirceu. Apesar de ser Pindemonte um bom poeta, caiu no mesmo erro, na aparição dramática de Penélope no livro I, pondo-lhe na boca, não palavras convinháveis ao conjugal amor daquela mãe de um filho de vinte anos, sim próprios da mais ardente mocidade. Amiúde, como sucede em outros lugares deste livro II, emprestam os tradutores aos seus quadros cores modernas mal assentes, por mero enfeite. Ora, pode-se uma ou outra vez ornar o pensamento, contanto que não se abuse da licença, e o ornato seja no gosto do autor; e, se tal se permite, é por uma espécie de compensação, visto que em não poucas ocasiões deixa o tradutor forçosamente de passar com a mesma gala muitas expressões do original. A simplicidade homérica é um grande escolho para nós outros.
↩ voltar à passagem, v. 68
v. 118–174E orou de grado: “Cidadãos, ouvi-me, ⋯ Rei homem, rei e pai, senhor e amigo.
Éu phroneon tomam alguns na acepção de prudente: Homero, penso, diz que Haliterse falou contente, por ver que as águias reforçavam o seu antigo prognóstico. — No verso 150, trato só da virtude, não da beleza de Penélope, como alguns acrescentaram, contra a precisão do texto: refiro-me à nota antecedente. — Com M. Giguet, tenho que o verso 169 não é Laertes; é Mentor, que, menos idoso, encarregou-se da família na ausência do herói. — O 174 é o enérgico e belíssimo verso de Ferreira na carta primeira, o qual orna o pensamento sem fugir do estilo simples do poeta grego.
↩ voltar à passagem, v. 118
v. 219–244Mete a farinha, dos barões medula. ⋯ E a mão da mão de Antino arranca fácil.
Chama-se aqui a farinha ou o pão medula dos varões: não quis eu esfriar esta expressão com um equivalente; o mesmo praticou M. Giguet, em prosa e numa língua menos ousada. — O Reia do 322 do original, verti-o à letra por fácil: parece-me que no seu advérbio indica o autor a força do braço de Telêmaco, de bom agouro para o futuro. Este belo toque de mestre é como o de Virgílio, que no verso 652 do livro VII só no advérbio nequidquam aponta a morte futura de Lauso. Muitos não fizeram caso algum desta passagem, mas Rochefort acertou, bem que a sua versão, longa e prolixa, pareça antes uma explanação do texto. — Ondicercada, no meu verso 221, imitado do italiano, é o mesmo que circúnflua, adjetivo já da nossa língua, do qual falei anteriormente.
↩ voltar à passagem, v. 219
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