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A Divina ComédiaInferno · Canto X
InfernoX

ENTRA Virgílio por vereda estreita

136 versos · 10 de 100


Caminhando os Poetas entre as arcadas, onde estão penando as almas dos heresiarcas, Dante manifesta a Virgílio o desejo de ver a gente nelas sepultada e de falar a alguém. Nisto ouve uma voz chamá-lo. É Farinata degli Uberti. Enquanto o Poeta conversa com ele é interrompido por Cavalcante Cavalcanti, que lhe indaga por seu filho Guido. Continua Dante o começado discurso com Farinata, que lhe prediz obscuramente o exílio.

  1. ENTRA Virgílio por vereda estreita,
  2. Que entre o muro e os martírios vai seguindo:
  3. Após os seus meu passo se endireita.
  1. — “Virtude suma! Ó tu, que, dirigindo
  2. Me estás, ao teu sabor na estância triste,
  3. Me instrui, ao meu desejo deferindo.
  1. “A gente ver se pode que ora existe
  2. Naquelas sepulturas descobertas,
  3. A que nem guarda, nem defesa assiste?” —
  1. — “Serão” — me respondeu — “todas cobertas
  2. No dia, em que, de Josafá tornando,
  3. Os corpos tragam, de que estão desertas.
  1. “Epicuro aqui jaz com todo o bando
  2. Dos discípulos seus, que professaram
  3. Que alma fenece, a vida em se acabando.
  1. “O que as tuas palavras declararam
  2. Satisfeito há de ser, como o que vejo
  3. Dos votos que em teu peito se ocultaram”. —
  1. — “Não te expus, meu bom Mestre, quanto almejo,
  2. Porque de breve ser tenho o cuidado,
  3. E a mais longo dizer não deste ensejo”. —
  1. — “Ó Toscano, que, vivo hás penetrado
  2. Do fogo na cidade e és tão modesto,
  3. Detém-te um pouco, se te for de agrado.
  1. “Por teu falar me está bem manifesto
  2. Que nessa nobre pátria tens nascido,
  3. A que fora eu talvez assaz molesto”. —
  1. Ouço este som, de súbito saído
  2. De um dos jazigos: tanto eu me torvara,
  3. Que ao Mestre me achegava espavorido.
  1. — “Que temes tu?” — Virgílio diz — “Repara:
  2. É Farinata em seu sepulcro alçado,
  3. Do busto em toda a altura, se depara”. —
  1. Na sombra os olhos tinha eu já fitado:
  2. Altiva levantava a fronte e o peito,
  3. Como em desprezo do infernal estado.
  1. Por entre as tumbas me levou direito
  2. Ao vulto o Mestre com seu braço presto,
  3. Dizendo-me: — “Sê claro em teu conceito!” —
  1. Junto ao sepulcro apenas fui, com gesto
  2. Severo um pouco olhou-me e desdenhoso
  3. — “Teus maiores?” — falou — “Faz manifesto”.
  1. Eu, já de obedecer-lhe desejoso,
  2. Quanto sabia expus-lhe francamente.
  3. O sobrolho arqueava um tanto iroso,
  1. E tornou: — “Guerra crua fez tua gente
  2. A mim, aos meus avós, ao partido;
  3. Mas duas vezes bani-os justamente”. —
  1. — “Mas todos os que expulsos tinham sido
  2. Se hão, de uma e de outra vez repatriado:
  3. Não têm essa arte os vossos aprendido”. —
  1. Surgindo então de Farinata ao lado
  2. Somente o rosto um vulto nos mostrava,
  3. Sobre os joelhos, cheio, levantado.
  1. Com ansiosos olhos me cercava
  2. A ver se alguém viera ali comigo.
  3. Mas, perdida a esperança, que o animava,
  1. Pranteando inquiriu: — “Se ao reino imigo
  2. Por prêmio baixas do teu alto engenho,
  3. Onde é meu filho? Pois não vem contigo?
  1. — “Por moto próprio aqui” — volvi — “não venho;
  2. Perto me aguarda quem meus passos guia,
  3. Vosso Guido talvez teve-o em desdenho”.
  1. A pena sua e as vozes, que lhe ouvia,
  2. Denunciado haviam-me o seu nome:
  3. Pude assim responder quanto cumpria.
  1. Súbito ergueu-se o espírito e gritou-me:
  2. “Teve disseste: não mais vive agora?
  3. O corpo seu a terra já consome?”
  1. Como eu tivesse em responder demora
  2. À pergunta, de costas recaía,
  3. E novamente não mostrou-se fora.
  1. Mas esse outro magnânimo, que havia
  2. De antes falado não mudou de aspeito;
  3. No colo e busto imóvel persistia.
  1. — “Se aquela arte não dera ao meu proveito” —
  2. Prosseguiu — “me produz esta certeza
  3. Maior tormento no adurente leito.
  1. “Porém vezes cinqüenta a face acesa
  2. Não mostrará do inferno a soberana
  3. Sem que tu saibas quanto essa arte pesa.
  1. “Assim possas voltar à vida humana!
  2. Contra os meus, diz, por que tanta maldade
  3. Em cada lei, que desse povo emana” —
  1. Eu respondi: — “O estrago, a mortandade,
  2. Que do Árbia as águas de rubor tingira
  3. A cúria nossa move à austeridade”. —
  1. Inclinando a cabeça então, suspira
  2. E diz: — “não fui lá só naquele dia,
  3. Nem sem motivo aos outros eu seguira.
  1. “Porém achei-me só, quando exigia
  2. De Florença a ruína o geral brado:
  3. A peito descoberto eu defendia-a”. —
  1. — “Seja o descanso à vossa prole dado:
  2. Mas, vos suplico, de penoso enleio
  3. Fique o juízo meu descativado.
  1. “Se bem percebo, do futuro ao seio
  2. Subindo e ao tempo o curso antecipando,
  3. Do presente ignorais todo o rodeio”. —
  1. — “Os que têm vista má nos semelhando” —
  2. Tornou-me — “as cousas mais distantes vemos,
  3. De Deus última luz em nós raiando.
  1. “Quando estão perto ou no presente as temos
  2. Se apaga a lucidez, e a mente aprende
  3. Por outrem só o que de vós sabemos.
  1. “Ciência nossa do porvir depende;
  2. Em sendo a porta do porvir cerrada,
  3. Essa luz morre em nós, não mais se acende”.
  1. Então minha alma, de remorso entrada,
  2. “Dize” — replico — à sombra, a quem falava,
  3. Que o filho inda entre os vivos tem morada.
  1. Se presto lhe não disse o que exorava,
  2. Da dúvida, que, há pouco, heis-me explicado
  3. Pela influência dominado eu stava”. —
  1. Se bem fosse do Mestre apelidado,
  2. Rogando a sombra a me dizer prossigo
  3. As almas, de quem stava acompanhando.
  1. Respondeu: — “Muitos mil jazem comigo
  2. Aqui dentro, o Segundo Frederico,
  3. Com ele o cardeal, de outros não digo”. —
  1. Dos olhos se apartou. A cismar fico,
  2. Voltando ao sábio Mestre, na ameaça
  3. Desse, que ouvira, vaticínio único.
  1. Ele caminha, e, enquanto avante passa,
  2. Me diz: “Por que és torvado?” — Eu tudo conto
  3. Expondo o que me inquieta e me embaraça.
  1. — “Do que ouviste a memória cada ponto
  2. Conserva!” — o sábio ordena; e, logo, alçando
  3. O dedo, segue: — “Agora escuta pronto.
  1. “Ante o doce raiar daquela estando,
  2. Que tudo aos belos olhos tem presente,
  3. Se irão da vida os transes revelando”. —
  1. Moveu-se logo à esquerda diligente;
  2. Deixando o muro, ao centro caminhava
  3. Por senda, que descia ao vale horrente,
  1. Que hediondos vapores exalava.
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