ENTRA Virgílio por vereda estreita
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Caminhando os Poetas entre as arcadas, onde estão penando as almas dos heresiarcas, Dante manifesta a Virgílio o desejo de ver a gente nelas sepultada e de falar a alguém. Nisto ouve uma voz chamá-lo. É Farinata degli Uberti. Enquanto o Poeta conversa com ele é interrompido por Cavalcante Cavalcanti, que lhe indaga por seu filho Guido. Continua Dante o começado discurso com Farinata, que lhe prediz obscuramente o exílio.
- ENTRA Virgílio por vereda estreita,
- Que entre o muro e os martírios vai seguindo:
- Após os seus meu passo se endireita.
- — “Virtude suma! Ó tu, que, dirigindo
- Me estás, ao teu sabor na estância triste,
- Me instrui, ao meu desejo deferindo.
- “A gente ver se pode que ora existe
- Naquelas sepulturas descobertas,
- A que nem guarda, nem defesa assiste?” —
- — “Serão” — me respondeu — “todas cobertas
- No dia, em que, de Josafá tornando,
- Os corpos tragam, de que estão desertas.
- “Epicuro aqui jaz com todo o bando
- Dos discípulos seus, que professaram
- Que alma fenece, a vida em se acabando.
- “O que as tuas palavras declararam
- Satisfeito há de ser, como o que vejo
- Dos votos que em teu peito se ocultaram”. —
- — “Não te expus, meu bom Mestre, quanto almejo,
- Porque de breve ser tenho o cuidado,
- E a mais longo dizer não deste ensejo”. —
- — “Ó Toscano, que, vivo hás penetrado
- Do fogo na cidade e és tão modesto,
- Detém-te um pouco, se te for de agrado.
- “Por teu falar me está bem manifesto
- Que nessa nobre pátria tens nascido,
- A que fora eu talvez assaz molesto”. —
- Ouço este som, de súbito saído
- De um dos jazigos: tanto eu me torvara,
- Que ao Mestre me achegava espavorido.
- — “Que temes tu?” — Virgílio diz — “Repara:
- É Farinata em seu sepulcro alçado,
- Do busto em toda a altura, se depara”. —
- Na sombra os olhos tinha eu já fitado:
- Altiva levantava a fronte e o peito,
- Como em desprezo do infernal estado.
- Por entre as tumbas me levou direito
- Ao vulto o Mestre com seu braço presto,
- Dizendo-me: — “Sê claro em teu conceito!” —
- Junto ao sepulcro apenas fui, com gesto
- Severo um pouco olhou-me e desdenhoso
- — “Teus maiores?” — falou — “Faz manifesto”.
- Eu, já de obedecer-lhe desejoso,
- Quanto sabia expus-lhe francamente.
- O sobrolho arqueava um tanto iroso,
- E tornou: — “Guerra crua fez tua gente
- A mim, aos meus avós, ao partido;
- Mas duas vezes bani-os justamente”. —
- — “Mas todos os que expulsos tinham sido
- Se hão, de uma e de outra vez repatriado:
- Não têm essa arte os vossos aprendido”. —
- Surgindo então de Farinata ao lado
- Somente o rosto um vulto nos mostrava,
- Sobre os joelhos, cheio, levantado.
- Com ansiosos olhos me cercava
- A ver se alguém viera ali comigo.
- Mas, perdida a esperança, que o animava,
- Pranteando inquiriu: — “Se ao reino imigo
- Por prêmio baixas do teu alto engenho,
- Onde é meu filho? Pois não vem contigo?
- — “Por moto próprio aqui” — volvi — “não venho;
- Perto me aguarda quem meus passos guia,
- Vosso Guido talvez teve-o em desdenho”.
- A pena sua e as vozes, que lhe ouvia,
- Denunciado haviam-me o seu nome:
- Pude assim responder quanto cumpria.
- Súbito ergueu-se o espírito e gritou-me:
- “Teve disseste: não mais vive agora?
- O corpo seu a terra já consome?”
- Como eu tivesse em responder demora
- À pergunta, de costas recaía,
- E novamente não mostrou-se fora.
- Mas esse outro magnânimo, que havia
- De antes falado não mudou de aspeito;
- No colo e busto imóvel persistia.
- — “Se aquela arte não dera ao meu proveito” —
- Prosseguiu — “me produz esta certeza
- Maior tormento no adurente leito.
- “Porém vezes cinqüenta a face acesa
- Não mostrará do inferno a soberana
- Sem que tu saibas quanto essa arte pesa.
- “Assim possas voltar à vida humana!
- Contra os meus, diz, por que tanta maldade
- Em cada lei, que desse povo emana” —
- Eu respondi: — “O estrago, a mortandade,
- Que do Árbia as águas de rubor tingira
- A cúria nossa move à austeridade”. —
- Inclinando a cabeça então, suspira
- E diz: — “não fui lá só naquele dia,
- Nem sem motivo aos outros eu seguira.
- “Porém achei-me só, quando exigia
- De Florença a ruína o geral brado:
- A peito descoberto eu defendia-a”. —
- — “Seja o descanso à vossa prole dado:
- Mas, vos suplico, de penoso enleio
- Fique o juízo meu descativado.
- “Se bem percebo, do futuro ao seio
- Subindo e ao tempo o curso antecipando,
- Do presente ignorais todo o rodeio”. —
- — “Os que têm vista má nos semelhando” —
- Tornou-me — “as cousas mais distantes vemos,
- De Deus última luz em nós raiando.
- “Quando estão perto ou no presente as temos
- Se apaga a lucidez, e a mente aprende
- Por outrem só o que de vós sabemos.
- “Ciência nossa do porvir depende;
- Em sendo a porta do porvir cerrada,
- Essa luz morre em nós, não mais se acende”.
- Então minha alma, de remorso entrada,
- “Dize” — replico — à sombra, a quem falava,
- Que o filho inda entre os vivos tem morada.
- Se presto lhe não disse o que exorava,
- Da dúvida, que, há pouco, heis-me explicado
- Pela influência dominado eu stava”. —
- Se bem fosse do Mestre apelidado,
- Rogando a sombra a me dizer prossigo
- As almas, de quem stava acompanhando.
- Respondeu: — “Muitos mil jazem comigo
- Aqui dentro, o Segundo Frederico,
- Com ele o cardeal, de outros não digo”. —
- Dos olhos se apartou. A cismar fico,
- Voltando ao sábio Mestre, na ameaça
- Desse, que ouvira, vaticínio único.
- Ele caminha, e, enquanto avante passa,
- Me diz: “Por que és torvado?” — Eu tudo conto
- Expondo o que me inquieta e me embaraça.
- — “Do que ouviste a memória cada ponto
- Conserva!” — o sábio ordena; e, logo, alçando
- O dedo, segue: — “Agora escuta pronto.
- “Ante o doce raiar daquela estando,
- Que tudo aos belos olhos tem presente,
- Se irão da vida os transes revelando”. —
- Moveu-se logo à esquerda diligente;
- Deixando o muro, ao centro caminhava
- Por senda, que descia ao vale horrente,
- Que hediondos vapores exalava.