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A Divina ComédiaParaíso · Canto VII
ParaísoVII

“HOSANNAH Sanctus Deus Sabaoth

148 versos · 74 de 100


Desaparecem os bem-aventurados cantando. Beatriz explica como a crucificação de Cristo restituiu ao homem a dignidade perdida, a liberdade que lhe foi conferida por Deus. Os anjos e os homens por sua natureza são livres e imortais. O homem porém, pecando, abusou da sua liberdade, e deformou a imagem de Deus que tinha em si. Não podia reparar a falta por si mesmo, pois não podia humilhar-se tanto quanto Adão, em seu orgulho, quis subir. A Deus convinha ou perdoar ou punir. Na sua sabedoria infinita, Deus perdoou e puniu no mesmo tempo. Puniu a humanidade em Jesus Cristo e nele a fez novamente livre.

  1. “HOSANNAH Sanctus Deus Sabaoth,
  2. Superillustrans daritate tua
  3. Felices ignes horum malacòth!”
  1. Assim, voltando à melodia sua,
  2. Cantar ouvi essa alma venturosa
  3. Em quem dúplice lume se acentua.
  1. Tornam todas à dança jubilosa,
  2. E súbito da vista se apartaram
  3. Velozes, como flama fulgurosa.
  1. Disse entre mim, pois dúvidas me entraram:
  2. “Fala à senhora tua, fala; à sede
  3. Rocio as palavras suas te deparam.”
  1. Torvação me assenhora e a voz me impede,
  2. Que apenas B com I C E conjugava:
  3. Acurvei, como quem ao sono cede.
  1. Mas Beatriz do enleio me tirava,
  2. Com sorriso, que a mente me ilumina
  3. E aditara entre as chamas começava:
  1. — “Como bem vejo, dúvida domina
  2. A tua alma: — a vingança, que foi justa,
  3. Punição teve, da justiça di’na?
  1. “Esclarecer-te o espírito não custa.
  2. Atende bem: verdade preminente
  3. Das vozes minhas co’a expressão se ajusta.
  1. “Aceitar não querendo, obediente,
  2. Saudável freio, o homem, sem mãe nado,
  3. Perdeu-se a si, perdeu a humana gente.
  1. “Muitos séc’los enferma do pecado,
  2. Jazeu ela não erro engrandecido
  3. Té que o Verbo de Deus fosse encarnado.
  1. “Por ato só do Eterno Amor, unido
  2. À natureza se há, que ao mal se dera,
  3. Depois de esquiva ao Criador ter sido.
  1. “No que vou te dizer bem considera.
  2. A natureza, a que se uniu beni’no
  3. Em pessoa, nasceu boa e sincera.
  1. “Por si mesma, fugindo em desatino
  2. Da vereda da vida e da verdade,
  3. Do Paraíso se exilou divino.
  1. “Da Cruz a pena, em face da maldade
  2. Da natureza, a que Jesus baixara,
  3. Foi a mais justa em sua gravidade.
  1. “Nunca injustiça igual se praticara,
  2. Atenta essa Pessoa, que há sofrido,
  3. Que à natureza humana se ajuntara.
  1. “Contrastes, pois, de um ato hão procedido:
  2. Folgam Judeus da morte a Deus jucunda,
  3. Foi ledo o céu e o mundo espavorido.
  1. “E não te mova sensação profunda
  2. Ouvir que uma vingança, que foi justa,
  3. Vingada ser devia por segunda.
  1. “Vejo-te a mente por vereda angusta
  2. Levada a estreito nó de dubiedade,
  3. Que solver mor esforço ora te custa.
  1. “Dirás: — discerne o que ouço, na verdade;
  2. Mas porque Deus nos desse está-me oculto,
  3. Remindo-nos tal prova de bondade. —
  1. “Este decreto irmão, está sepulto
  2. Aos olhos do que ainda o entendimento
  3. Não tem de Amor na flama ainda adulto.
  1. “É mistério em que luta o pensamento
  2. Sem fruto conseguir de tal porfia,
  3. Mas foi o melhor modo. Ouve-me atento!
  1. “A Divina Bondade que desvia
  2. De si o desamor, arde e flameja,
  3. Por eternais primores se anuncia.
  1. “Diretamente o que emanado seja
  2. Dela é sem fim; eterna impressão fica
  3. Do que no seu querer supremo esteja.
  1. “O que assim nasce, não sujeito fica
  2. Das causas secundárias à influência
  3. E liberdade plena significa.
  1. “Mais lhe apraz, se é conforme à sua essência:
  2. Que o santo Amor que em toda cousa brilha,
  3. Mais vivo é no que encerra esta excelência.
  1. “Aos homens de tais bens cabe a partilha:
  2. De tais predicados se um falece,
  3. Sua nobreza já decai, se humilha.
  1. “Só por pecado dessa altura desce;
  2. Do Sumo Bem não mais reflete o lume,
  3. Semelhança não mais dele oferece.
  1. “E o grau sublime seu não mais assume,
  2. Se não contrapuser ao do pecado
  3. Deleite mau das penas o azedume.
  1. “Quando o gênero humano, infeccionado
  2. Todo no germe seu, foi dessa alteza
  3. E do seu Paraíso deserdado,
  1. “Reaver só pudera (com certeza
  2. Verás, se bem cogitas), intervindo
  3. Um dos meios, que aponto por clareza:
  1. “Ou Deus, por graça infinda, remitindo;
  2. Ou — porque, de si mesmo, se convença —
  3. Das culpas suas o homem se remindo.
  1. “Para sondar a profundeza imensa
  2. Dos eternos conselhos, prende à mente
  3. As razões que o discurso meu dispensa.
  1. “O homem não podia, de indigente,
  2. As dívidas solver: nunca pudera
  3. Curvar-se tanto, humilde e reverente,
  1. “Quanto, rebelde, se elevar quisera.
  2. Eis por que redimir-se do pecado
  3. Só por si mesmo ao homem não coubera.
  1. “E, pois há sido do divino agrado,
  2. Por clemência ou justiça e ambas juntando,
  3. Ser ele à vida eterna aparelhado.
  1. “A feitura do Autor ao gosto estando
  2. Inda mais, quando a imagem nos of’rece
  3. Do peito, de quem vem piedoso e brando,
  1. “A Bondade que em tudo transparece,
  2. Em prol vosso os dois modos reunia:
  3. Um somente bastar-lhe não parece.
  1. “Entre a noite final e o primo dia
  2. Ato igual não se fez alto e formoso
  3. Desse modo por um, nem se faria.
  1. “Dando-se, há sido Deus mais generoso,
  2. Por que o home’ a se erguer se habilitasse,
  3. Do que só perdoando carinhoso.
  1. “Outro meio qualquer, que se empregasse
  2. Não bastara à Justiça, se humilhando
  3. De Deus o Filho à carne não baixasse.
  1. “Para de todo seres doutrinado
  2. Eu torno a um ponto, por que vejas claro,
  3. Como eu, o que zelosa hei te explicado.
  1. “Dizes: — no fogo e no ar, se bem reparo
  2. Na terra e nágua vejo e em seus compostos
  3. Corrupção que destrói sem anteparo.
  1. “Na criação por Deus foram dispostos:
  2. De corrupção isentos ser deveram,
  3. Certos sendo os princípios por ti postos. —
  1. “Criados, meu irmão, se consideram
  2. Os anjos e dos céus o que há no espaço,
  3. Inteiros, puros sempre quais nasceram.
  1. “Elementos e quanto no regaço
  2. Da natura por eles se combina
  3. De virtude criada of’recem traço.
  1. “Criou-lhes a matéria a lei divina,
  2. Criando logo a força informativa,
  3. Que nos astros, que os cercam, predomina.
  1. “Dos lumes santos moto e luz deriva
  2. Dos brutos alma, e plantas igualmente,
  3. Por compleição potencial passiva.
  1. “A vida nossa vem diretamente
  2. De Deus, Supremo Bem, que em nós acende
  3. Amor tal, que o deseja eternamente:
  1. “Daí, por dedução, também descende
  2. Vossa ressurreição, se ao ser e à essência
  3. Da humana carne o teu esp’rito atende,
  1. Quando o primeiro par teve existência.” —
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