“HOSANNAH Sanctus Deus Sabaoth
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Desaparecem os bem-aventurados cantando. Beatriz explica como a crucificação de Cristo restituiu ao homem a dignidade perdida, a liberdade que lhe foi conferida por Deus. Os anjos e os homens por sua natureza são livres e imortais. O homem porém, pecando, abusou da sua liberdade, e deformou a imagem de Deus que tinha em si. Não podia reparar a falta por si mesmo, pois não podia humilhar-se tanto quanto Adão, em seu orgulho, quis subir. A Deus convinha ou perdoar ou punir. Na sua sabedoria infinita, Deus perdoou e puniu no mesmo tempo. Puniu a humanidade em Jesus Cristo e nele a fez novamente livre.
- “HOSANNAH Sanctus Deus Sabaoth,
- Superillustrans daritate tua
- Felices ignes horum malacòth!”
- Assim, voltando à melodia sua,
- Cantar ouvi essa alma venturosa
- Em quem dúplice lume se acentua.
- Tornam todas à dança jubilosa,
- E súbito da vista se apartaram
- Velozes, como flama fulgurosa.
- Disse entre mim, pois dúvidas me entraram:
- “Fala à senhora tua, fala; à sede
- Rocio as palavras suas te deparam.”
- Torvação me assenhora e a voz me impede,
- Que apenas B com I C E conjugava:
- Acurvei, como quem ao sono cede.
- Mas Beatriz do enleio me tirava,
- Com sorriso, que a mente me ilumina
- E aditara entre as chamas começava:
- — “Como bem vejo, dúvida domina
- A tua alma: — a vingança, que foi justa,
- Punição teve, da justiça di’na?
- “Esclarecer-te o espírito não custa.
- Atende bem: verdade preminente
- Das vozes minhas co’a expressão se ajusta.
- “Aceitar não querendo, obediente,
- Saudável freio, o homem, sem mãe nado,
- Perdeu-se a si, perdeu a humana gente.
- “Muitos séc’los enferma do pecado,
- Jazeu ela não erro engrandecido
- Té que o Verbo de Deus fosse encarnado.
- “Por ato só do Eterno Amor, unido
- À natureza se há, que ao mal se dera,
- Depois de esquiva ao Criador ter sido.
- “No que vou te dizer bem considera.
- A natureza, a que se uniu beni’no
- Em pessoa, nasceu boa e sincera.
- “Por si mesma, fugindo em desatino
- Da vereda da vida e da verdade,
- Do Paraíso se exilou divino.
- “Da Cruz a pena, em face da maldade
- Da natureza, a que Jesus baixara,
- Foi a mais justa em sua gravidade.
- “Nunca injustiça igual se praticara,
- Atenta essa Pessoa, que há sofrido,
- Que à natureza humana se ajuntara.
- “Contrastes, pois, de um ato hão procedido:
- Folgam Judeus da morte a Deus jucunda,
- Foi ledo o céu e o mundo espavorido.
- “E não te mova sensação profunda
- Ouvir que uma vingança, que foi justa,
- Vingada ser devia por segunda.
- “Vejo-te a mente por vereda angusta
- Levada a estreito nó de dubiedade,
- Que solver mor esforço ora te custa.
- “Dirás: — discerne o que ouço, na verdade;
- Mas porque Deus nos desse está-me oculto,
- Remindo-nos tal prova de bondade. —
- “Este decreto irmão, está sepulto
- Aos olhos do que ainda o entendimento
- Não tem de Amor na flama ainda adulto.
- “É mistério em que luta o pensamento
- Sem fruto conseguir de tal porfia,
- Mas foi o melhor modo. Ouve-me atento!
- “A Divina Bondade que desvia
- De si o desamor, arde e flameja,
- Por eternais primores se anuncia.
- “Diretamente o que emanado seja
- Dela é sem fim; eterna impressão fica
- Do que no seu querer supremo esteja.
- “O que assim nasce, não sujeito fica
- Das causas secundárias à influência
- E liberdade plena significa.
- “Mais lhe apraz, se é conforme à sua essência:
- Que o santo Amor que em toda cousa brilha,
- Mais vivo é no que encerra esta excelência.
- “Aos homens de tais bens cabe a partilha:
- De tais predicados se um falece,
- Sua nobreza já decai, se humilha.
- “Só por pecado dessa altura desce;
- Do Sumo Bem não mais reflete o lume,
- Semelhança não mais dele oferece.
- “E o grau sublime seu não mais assume,
- Se não contrapuser ao do pecado
- Deleite mau das penas o azedume.
- “Quando o gênero humano, infeccionado
- Todo no germe seu, foi dessa alteza
- E do seu Paraíso deserdado,
- “Reaver só pudera (com certeza
- Verás, se bem cogitas), intervindo
- Um dos meios, que aponto por clareza:
- “Ou Deus, por graça infinda, remitindo;
- Ou — porque, de si mesmo, se convença —
- Das culpas suas o homem se remindo.
- “Para sondar a profundeza imensa
- Dos eternos conselhos, prende à mente
- As razões que o discurso meu dispensa.
- “O homem não podia, de indigente,
- As dívidas solver: nunca pudera
- Curvar-se tanto, humilde e reverente,
- “Quanto, rebelde, se elevar quisera.
- Eis por que redimir-se do pecado
- Só por si mesmo ao homem não coubera.
- “E, pois há sido do divino agrado,
- Por clemência ou justiça e ambas juntando,
- Ser ele à vida eterna aparelhado.
- “A feitura do Autor ao gosto estando
- Inda mais, quando a imagem nos of’rece
- Do peito, de quem vem piedoso e brando,
- “A Bondade que em tudo transparece,
- Em prol vosso os dois modos reunia:
- Um somente bastar-lhe não parece.
- “Entre a noite final e o primo dia
- Ato igual não se fez alto e formoso
- Desse modo por um, nem se faria.
- “Dando-se, há sido Deus mais generoso,
- Por que o home’ a se erguer se habilitasse,
- Do que só perdoando carinhoso.
- “Outro meio qualquer, que se empregasse
- Não bastara à Justiça, se humilhando
- De Deus o Filho à carne não baixasse.
- “Para de todo seres doutrinado
- Eu torno a um ponto, por que vejas claro,
- Como eu, o que zelosa hei te explicado.
- “Dizes: — no fogo e no ar, se bem reparo
- Na terra e nágua vejo e em seus compostos
- Corrupção que destrói sem anteparo.
- “Na criação por Deus foram dispostos:
- De corrupção isentos ser deveram,
- Certos sendo os princípios por ti postos. —
- “Criados, meu irmão, se consideram
- Os anjos e dos céus o que há no espaço,
- Inteiros, puros sempre quais nasceram.
- “Elementos e quanto no regaço
- Da natura por eles se combina
- De virtude criada of’recem traço.
- “Criou-lhes a matéria a lei divina,
- Criando logo a força informativa,
- Que nos astros, que os cercam, predomina.
- “Dos lumes santos moto e luz deriva
- Dos brutos alma, e plantas igualmente,
- Por compleição potencial passiva.
- “A vida nossa vem diretamente
- De Deus, Supremo Bem, que em nós acende
- Amor tal, que o deseja eternamente:
- “Daí, por dedução, também descende
- Vossa ressurreição, se ao ser e à essência
- Da humana carne o teu esp’rito atende,
- Quando o primeiro par teve existência.” —