DO centro à borda e assim da borda ao centro
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Beatriz pergunta a um espírito celeste, em nome de Dante, se depois da ressurreição dos corpos permanecerá a luz que emana de suas almas e se essa luz não prejudicará a sua vista. O espírito responde que, depois da ressurreição, a vista dos espíritos aumentará. Aparecem novos espíritos. Sem perceber, Dante encontra-se no planeta Marte, onde estão aqueles que defenderam com as armas a religião cristã. Aí o aspecto do céu vence toda beleza passada, porque quanto mais se sobe, mais cresce o esplendor dos céus.
- DO centro à borda e assim da borda ao centro
- Água num vaso circular se agita,
- Se a comovem de fora, se de dentro.
- Isto que digo a mente me visita
- Súbito, quando o esp’rito glorioso
- De Tomás suspendeu a voz bendita,
- Por semelhar-se ao efeito poderoso
- Da sua voz e ao que Beatriz causava,
- Quando assim disse em tom grave e donoso:
- “O que saber este homem precisava
- Com voz não disse, e, se o cogita, o ignora:
- De outra verdade com raiz se trava.
- “A auréola, dizei-lhe, em que se inflora
- A substância, que é vossa eternamente,
- Convosco há de existir, bem como agora?
- “Se este esplendor em vós é permanente,
- Quando visíveis fordes, ressurgindo,
- A vista sofrerá luz tão fulgente?” —
- Como em coréia as vozes vão subindo
- E recresce a alegria, algum motivo
- De alvoroço aos dançantes sobrevindo,
- Assim aos santos círculos mais vivo
- Júbilo mostram no girar, no canto
- Ante o rogo piedoso e compassivo.
- Quem, por chegar a morte, sente espanto,
- Para lograr no céu viver divino,
- Da eterna chuva desconhece o encanto.
- Quem sempre reina, é uno, é duplo, é trino,
- Em três, em dois, em um sempre perdura,
- Não abrangido — e tudo abrange — em hino
- De tão suave e cônsona doçura
- Dos coros foi três vezes aclamado,
- Que um prêmio fora da virtude pura.
- No lume, de fulgor mais sinalado,
- Ouvi, do menor círc’lo voz modesta,
- Como a do arcanjo à Virgem deputado.
- — “Quanto no Paraíso eterna a festa
- Há de ser, tanto o nosso amor vestido
- Será de luz em torno manifesta.
- “O brilho seu do ardor há procedido
- E o ardor da visão, que é tão gozosa,
- Quanto a Graça o valor faz mais subido.
- “E quando a carne santa e gloriosa
- Revestirmos, será nossa pessoa
- Completa e mais jucunda e mais ditosa.
- “E o gratuito lume, que nos doa
- O Sumo Bem, será mais rutilante:
- A Glória sua a ver nos afeiçoa.
- “A visão se fará mais penetrante,
- Mor o ardor se fará que ali se acende,
- E o esplendor, que este dá, mais coruscante.
- “Qual carvão, que de si flamas desprende
- E pelo vivo ardor as escurece
- Tanto, que entre elas seu rubor resplende,
- “Este doce fulgor, que em nós parece,
- Ver deixará o corpo ressurgido,
- Quando o sono, em que jaz um dia cesse.
- “Nenhuma será das luzes ofendido:
- Starão corpóreos órgãos adaptados
- A quanto a deleitar-nos for provido.” —
- Os coros dois tão ledos e apressados
- Responderam — amém — que bem mostraram
- Quanto os trajos carnais são desejados.
- Não por si sós talvez os cobiçaram,
- Mas por amor dos pais, de entes queridos,
- Antes que ternas flamas se tornaram.
- Eis, em torno, de lumes incendidos
- Novo círculo aos outros se acrescenta:
- Qual nitente horizonte, os tem cingidos.
- E como, quando à tarde a sombra aumenta,
- No céu começam de assomar estrelas,
- Cuja luz dúbia aos olhos se apresenta,
- Assim me pareceu que via aquelas
- Novas substâncias, que, também girando,
- Moviam-se em redor das c’roas belas.
- Vero fulgor do Esp’rito Santo! Oh! quando
- Te mostraste de súbito, candente,
- Os olhos meus venceste, deslumbrando.
- Mas Beatriz tão bela e tão ridente
- Rebrilhou, que a visão maravilhosa,
- Bem como outras, seguir não pode a mente.
- Aos olhos força deu tão poderosa,
- Que se alçaram; e com ela transportado
- Vi-me à esfera mais alta e luminosa.
- Fui da minha ascensão certificado
- Da purpurina estrela pelo gesto,
- Em que rubor notei não costumado.
- Nesse falar, a todos manifesto
- Do coração, a Deus vivo holocausto,
- Por sua nova graça, humilde presto.
- Do peito meu não era ainda exausto
- Do sacrifício o ardor, que convencido
- De estar aceito fui, e ser-me fausto.
- Tão lúcidas, tão rubras, confundido
- Vi luzes em dois raios fulgurantes,
- Que disse — Ó Hélios, como os tens vertido! —
- Galáxia, em astros mais, menos brilhantes
- Branqueja, entre dois pólos colocados,
- E os doutos deixa em dúvida hesitantes:
- De igual maneira em Marte constelados
- O signo os raios formam venerando,
- Diâmetros iguais sendo cruzados.
- Me está memória o engenho superando:
- Se na cruz lampejar eu via Cristo,
- Como acertar, exemplos procurando?
- Quem toma a Cruz e na jornada Cristo
- Segue, desculpe o que falta em arte,
- Vendo nesse esplendor rutilar Cristo.
- Da cruz em cada braço, em toda parte
- Cintilantes mil fogos se moviam;
- Qual desce, qual se eleva, qual desparte.
- Assim sutis argueiros se veriam,
- Retos ou curvos, rápidos ou lentos,
- De formas, que multíplices variam,
- De Sol em réstea que entra os aposentos,
- Onde da calma o homem se repara
- Apurando do engenho e da arte inventos;
- E como da harpa e lira se depara
- Nas cordas várias doce melodia
- A quem notas ignora e não compara;
- Assim desses luzeiros que ali via
- Na Cruz formosa, extático escutava,
- Sem comprendê-la, angélica harmonia.
- Que eram altos louvores bem julgava
- Ressuscita e triunfa — acaso ouvindo:
- Confusamente o hino me soava.
- Ouvia em tanto enlevo me sentindo,
- Que inda não sinto cousa que mais queira,
- A mente ao canto em doce enleio, unindo.
- Ousado sou talvez desta maneira,
- Parecendo pospor os olhos belos,
- Em que a minha alma se embevece inteira.
- Mas quem reflete que os eternos selos
- Vão da beleza no alto se apurando,
- E aos olhos não voltava-me por vê-los,
- À falta me achará perdão, notando
- A verdade que digo: o prazer santo
- Não excluo que em vê-la ia gozando;
- Com a altura, se eleva o puro encanto.