BENÉVOLO querer, que significa
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As almas dos combatentes pela fé em Cristo estão dispostas em forma de cruz, vexilo de martírio e de vitória. Do lado direito dessa cruz move-se um espírito e com paternal afeto saúda a Dante. É Cacciaguida, seu trisavô. Descreve ele a inocência dos costumes do seu tempo e lembra como morreu combatendo pelo sepulcro de Cristo, na segunda cruzada.
- BENÉVOLO querer, que significa
- Sempre esse amor, que a caridade inspira,
- Como a cobiça o mau querer indica,
- Silêncio pondo àquela doce lira;
- Os sons às cordas santas suspendida,
- Que lá do céu a destra afrouxa e estira.
- Como aos claros espíritos seria
- Em vão meu justo rogo, se excitá-lo
- De acordo se calando, lhes prazia?
- Ah! pranteie sem tréguas e intervalo
- Quem, do amor transitório cativado,
- Pôde do amor eterno avantajá-lo!
- Como o sereno azul, atravessado
- Às vezes é por fogo repentino,
- Que aos olhos nos salteia inesperado;
- Disséreis astro a procurar destino,
- Se algum faltasse à parte, onde se acende
- Esse instantâneo lume peregrino:
- Assim do braço, que à direita estende,
- Da cruz ao pé vi deslizar um astro
- Dessa constelação, que ali resplende.
- Não desfiou-se a per’la do seu nastro;
- Pela brilhante linha descendera,
- Como fogo a luzir sob o alabastro.
- De Anquise a sombra pia assim correra,
- Se fé merece a Mantuana Musa,
- Quando Enéias do Elísio aparecera.
- “O sanguis meus! O superinfusa
- Gratia Dei; sicui tibi cui
- Bis unquam coeli janua reclusa?”
- Minha atenção na luz, que o diz, se imbui;
- Voltei depois pra Beatriz o viso;
- Aqui e ali estupefato eu fui.
- Nos olhos seus ardia um tal sorriso,
- Que, encarando-a cuidei tocar o fundo
- De ventura no eterno Paraíso,
- E esse esp’rito, a se ver e ouvir jucundo,
- Vozes aduz, que a mente não compreende,
- Tanto o sentido seu era profundo.
- Andrede a obscuro o seu dizer não tende;
- Mas por necessidade o seu conceito
- Além da esfera dos mortais ascende.
- Quando o arco afrouxou do ardente afeito,
- E em proporção do humano entendimento
- Do seu falar manifestou-se o efeito,
- Pude esta vozes distinguir, atento:
- “Bendito sejas, Deus, Um na Trindade,
- Que à prole minha dás tão alto alento!
- “Meu longo e caro anelo, na verdade
- Dês que no grande livro hei ler podido,
- Imutável na sua eternidade,
- “Cumpres, ó filho; e desta luz vestido
- Aquela, que ao teu vôo sublimado
- Prestou asas, eu louvo agradecido.
- “Tu crês que o teu pensar me é derivado
- Do ser Primeiro, como da unidade
- Sabida o cinco e o seis se vê formado.
- “E pois, quem sou e a minha alacridade,
- Maior que a de outros nesta grei contente,
- Não mostras de saber curiosidade.
- “Crês a verdade: o Espelho refulgente
- Desta vida reflete o pensamento
- Antes que nasça e a todos faz patente.
- “Mas, para o sacro amor, que traz-me atento
- Em perpétua visão, doce desejo
- Me acendendo, alcançar contentamento,
- “Com voz clara, segura e alegre, ensejo
- De ouvir tua vontade me oferece:
- Qual resposta hei de dar-te eu já antevejo.” —
- Pra Beatriz voltei-me: já conhece
- Quanto intento, e, acenando prezenteira,
- Ao querer meu as asas engrandece.
- — “A cada qual de vós dês que a Primeira
- Igualdade mostrou-se, amor, ciência
- Se fizeram em vós de igual craveira;
- “Pois ao Sol, que vos deu tão viva ardência
- E luz tal dispensou, tanto se igualam,
- Que não tem na igualdade competência.
- “Mas nos mortais o afeito e o saber se alam,
- Pela causa, a vós outros manifesta,
- Com plumas, que, dif’rentes se assinalam
- “Eu, pois, que sou mortal, sujeito a esta
- Desigualdade, de alma unicamente
- Respondo à tua carinhosa festa.
- “Suplico, assim, topázio resplendente,
- Que adornas esta jóia preciosa,
- Me faças do teu nome ora ciente.” —
- Falei. Com voz tornou-me maviosa:
- — “Ó flor, que tanto eu, sôfrego, esperava,
- Do tronco meu brotaste primorosa!
- “Aquele, em quem teu nome começara,
- Que, há mais de um séc’lo já, no monte erguido
- Do primeiro degrau se não separa,
- “Meu filho foi, teu bisavô há sido:
- Por obras deves lhe encurtar fadiga,
- Quando à vida mortal hajas volvido.
- “Florença dentro em sua cerca antiga,
- Onde ressoa ainda a Terça e a Noa,
- Vivia honesta e sóbria em paz amiga.
- “Não tinha áureos colares, nem coroa,
- Chapins, cintos de damas em que havia
- Mais que ver do que graças da pessoa.
- “No pai, nascendo, a filha não movia
- Temor; em tempo azado se casava
- E o dote as proporções nunca excedia.
- “Cada qual do seu lar se contentava;
- Não alardava então Sardanapalo
- Da alcova o que no encerro se ocultava.
- “Não era inda vencido Montemalo
- Por vosso Uccelatojo que, excedido
- Na altura, há-de, ao cair, dar mor abalo.
- “Bellincion Berti eu vi andar cingido
- De couro e de osso, e também vi-lhe a esposa
- Voltar do espelho sem rubor fingido.
- “Vestindo pele simples, não fastosa
- Nerlis e Vecchios vi, no fuso e roca
- Tendo as consortes vida deleitosa.
- “Ditosas! A nenhuma a dor sufoca
- Sperando o esposo, que roubou-lhe a França,
- Nem o jazigo ignora, que lhe toca.
- “Uma o berço do filho seu balança,
- E o consola naquele doce idioma
- Que aos pais o coração no enlevo lança;
- “Outra, estirando do seu fuso a coma,
- Reconta aos filhos o que houvera outrora
- Em Fiésole, em Tróia e antiga Roma.
- “Nesse bom tempo maravilha fora
- Uma Cianghella, um Lapo Salterello,
- Como Cornélia e Cincinato agora.
- “Da cidade naquele viver belo,
- No seio dessa gente honrada e fida,
- Nessa doce mansão, da paz modelo,
- “Deu-me Maria à minha mãe dorida,
- E em vosso Batistério hei recebido
- Os nomes de cristão e Cacciaguida.
- “Irmãos Moronto e Eliseu hei tido,
- Minha esposa nasceu em Val-di-Pado:
- Dessa origem provém teu apelido.
- “Segui na guerra Imperador Conrado,
- Que me armou cavaleiro na milícia,
- Altos feitos me tendo assinalado.
- “Com ele pelejei contra a nequícia
- Do infiel, que o direito vosso oprime
- De culpado Pastor pela malícia.
- “Da torpe gente o assalto lá me exime
- Dos enganosos vínculos do mundo,
- Cujo amor nódoas tantas na alma imprime:
- Mártir, vim ao repouso sem segundo.” —