DO fero cevo os lábios desprendendo
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O conde Ugolino della Gherardesca conta a Dante a sua trágica morte na torre dos Gualandi. Na Ptoloméia o Poeta encontra o frade Alberico de Manfredi, o qual lhe explica que a alma dos traidores cai no Inferno logo depois de consumada a traição e que um diabo toma conta do corpo até chegar o tempo do seu fim no mundo.
- DO fero cevo os lábios desprendendo,
- Na coma o pecador os enxugava
- Desse crânio, a que estava atrás roendo.
- “Queres de infanda mágoa” — começava —
- Renove a dor, que, só pensando a mente,
- Antes que falte, o coração me agrava.
- “Mas se a voz minha deve ser semente,
- Que ao traidor, que eu devoro a infâmia brote.
- Falar, chorar, verás conjuntamente.
- “Não sei quem sejas, não sei como note
- Tua presença aqui, por Florentino
- Te ouvindo a língua, é força que te adote.
- “Saber deves que fui Conde Ugolino,
- Que Arcebispo Rogério aquele há sido:
- Direi qual nos juntou cruel destino.
- “Contar não hei mister como iludido
- Por minha confiança, em cárcer posto.
- Fui morto por maldade deste infido.
- “Não conheces, porém, que atroz desgosto
- O meu fim precedera: atenção presta,
- Quanto ofendido fui verás exposto.
- “Por vezes da prisão por breve fresta,
- Torre da fome — após o meu tormento,
- Que há de a outros ainda ser funesta
- “Brilhava a lua em pleno crescimento,
- Quando o véu do futuro horrível sonho
- Rasgou, do exício meu pressentimento.
- “Este, como senhor, então suponho
- Ao monte, que ver Lucca a Pisa obstava
- Lobo e pequenos seus correr medonho.
- “Magros cães, destros, feros açulava
- Dos Galandis, Sismondis e Lanfrancos
- A companha, que à frente cavalgava.
- “Em breve o pai e os filhos, lassos, mancos,
- Já dos famintos galgos mal feridos,
- Dar pareciam últimos arrancos.
- “Desperto ao primo alvor; dos meus queridos
- Filhos que eram comigo, choro soa:
- Pedem pão, stando ainda adormecidos.
- “És cruel, se a tua alma não magoa
- O prenúncio da dor, que me aguardava:
- Se não choras, que pena há que te doa?
- “Despertaram; e a hora já chegava
- Em que alimento escasso nos traziam:
- O sonho a cada qual nos aterrava.
- “Da horrível torre à porta então se ouviam
- Martelos cravejar: eu mudo e quedo
- Nos filhos encarei, que esmoreciam.
- “Não chorava; era o peito qual penedo.
- Choravam eles, e Anselmuccio disse:
- Assim nos olhas, pai? Do que hás tu medo?”
- “Nem lágrimas, nem voz dei, que se ouvisse,
- No dia e noite, que seguiu-se lenta,
- Até que ao mundo novo sol surgisse.
- “Quando a luz inda escassa se apresenta
- No doloroso carcer, meu semblante
- Nos quatro rostos seus se representa.
- “Mordi-me as mãos de angústia delirante.
- Eles, cuidando ser a fome o efeito,
- De súbito e com gesto suplicante,
- “Disseram: “Menos mal nos será feito
- Nutrindo-te de nós, pai; nos vestiste
- Desta carne: ora sirva em teu proveito”.
- “Contendo-me, evitei lance mais triste.
- Em silêncio dois dias se passaram. ..
- Ah! por que, terra esquiva, não te abriste?
- “Do quarto dia os lumes clarearam:
- Gaddo caiu-me aos pés desfalecido:
- “Pai me acode!” os seus lábios murmuraram.
- “Morreu; e, qual me vês, eu vi, perdido
- O sizo, os três, ao quinto e ao sexto dia,
- Um por um se extinguir exinanido.
- “Apalpando os busquei — cego os não via
- Dois dias, os seus nomes repetindo:
- Da fome mais que a dor, pôde a agonia”.
- Calou-se e os torvos olhos retorquindo,
- Como de antes cravou no crânio os dentes
- E os ossos, qual mastim, foi destruindo.
- Ah! Pisa, opróbrio aos povos residentes
- Na bela terra, onde o si ressona!
- Pois te não vêm punir vizinhas gentes.
- Presto a Capraia mova-se e a Gorgona
- Do Arno à foz, entupindo-lhe a saída
- Teu povo assim pereça, que se entona.
- E se foi a Ugolino atribuída
- De entregar teus castelos à maldade,
- Por que à prole em tal cruz tirar a vida?
- Tebas moderna! Pela tenra idade
- Ugoccione e Briga tá insontes eram
- E os irmãos, em que usaste a feridade.
- Seguindo além, os olhos se of’receram
- Outros, que em gelo têm duro tormento:
- Destes os rostos para trás penderam.
- Lhes causa o pranto ao pranto impedimento;
- E a dor, que desafogo em vão procura,
- Lhes cresce, recalcada, o sofrimento.
- As lágrimas coalhando em neve dura
- Formam nos olhos seus vítrea viseira,
- E todo o espaço interior se obtura.
- Conquanto quase a faculdade inteira
- De sentir no meu rosto se embotasse
- Dês que era nessa perenal geleira,
- Cuidei que um sopro me tocara a face.
- “Do que este sopro” — inquiro — “se origina?
- Se aqui não há vapor, donde ele nasce?”
- E o Mestre: “Irás onde a resposta di’na
- Os teus olhos darão; e ali chegando
- O que virem do sopro a causa ensina”.
- Dos tristes padecentes um gritando,
- Nos disse: “Almas cruéis, almas danadas
- (Pois que no extremo abismo estais penando)
- “Tirai-me aos olhos gélidas camadas,
- Por desafogo dar-me ao peito aflito,
- Antes de eu ter as lágrimas coalhadas”.
- “Se o lenitivo queres, que tens dito,
- Teu nome diz: se não me desobrigo,
- Desça eu do gelo ao pelágio maldito”.
- Respondeu logo: “Eu sou frei Alberigo,
- Pelos pomos famoso do mau horto:
- Aqui recebo tâmara por figo”.
- “Oh!” — disse — “porventura tu stás morto?”
- “Não sei como é meu corpo lá no mundo”,
- Tornou “e se vivendo tem conforto.
- “Este condão possui sem ter segundo
- Ptoloméia: aqui star alma é freqüente
- Antes que a mande Atropos ao profundo.
- “E por que mais de grado e prontamente
- Estas vidradas lágrimas romovas,
- Sabe que apenas de traição a mente
- “Inquina-se, como eu, por funções novas
- Passa o corpo a demônio, que o governa
- Té completar da vida últimas provas:
- “Rui a alma, entanto, à lôbrega cisterna,
- Talvez na terra folgue o corpo ledo,
- Cuja sombra após mim trêmula inverna.
- “Se és recém-vindo, sabe que esse tredo
- É Branca d’Ória: há prolongados anos
- Jaz enleado no infernal enredo”.
- “Este é” tornei “mais um dos teus enganos:
- Desfruta alegre Branca d’Ória a vida
- E come e bebe e dorme e veste panos”.
- “Dos Malebranche em cava denegrida,
- Não era“ disse ainda “em pez viscoso
- Alma de Miguel Zanche submergida,
- “E um demônio esse infame criminoso
- Deixou no corpo; o mesmo um seu parente,
- Que de traição foi sócio proveitoso.
- “Das mãos auxílio presta ora clemente,
- Me abrindo os olhos!” Tal não fiz; que errara
- Com tal vilão me havendo cortesmente.
- Ah! Genoveses! raça impura e avara,
- Que nos costumes tem mancha tamanha!
- Quem da face da terra vos lançara!
- Junto ao pior esp’rito da Romanha
- De entre vós um traidor vi tanto imundo,
- Que a alma sua em Cocito já se banha,
- Enquanto o corpo vida finge ao mundo.