DE igual modo distantes e atraentes
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Duas dúvidas agitam o espírito do Poeta. A primeira é relativa à doutrina platônica, segundo a qual todas as almas voltam para as estrelas donde saíram. A outra, se a violência tolhe a liberdade, como pode ser justo que as almas forçadas a romper os votos tenham desconto de glória? Beatriz responde à primeira dúvida restringindo o sentido da doutrina platônica. Relativamente à segunda diz que aquelas almas não consentiram no mal, mas não o repararam, voltando ao claustro, quando tiveram possibilidade de fazê-lo.
- DE igual modo distantes e atraentes,
- Homem livre entre cibos dois morrera
- De fome, antes que num metesse os dentes.
- Cordeiro assim, sem se mover, temera
- No meio de dois lobos truculentos;
- Um galgo entre dois gamos não correra.
- Calando-me entre opostos pensamentos,
- Louvor não merecia, nem censura;
- Necessário era então nos meus intentos,
- Mas no semblante o anelo se afigura;
- Constrangido silêncio o denuncia
- Melhor que a voz, quando expressão apura.
- Fez Beatriz, qual Daniel fazia
- Para os assomos moderar da ira,
- Que ao mal Nabucodonosor movia.
- — “Dos desejos cada um tua alma tira”
- — Disse — “e estando em tais laços enleada,
- Tolhido o raciocínio, não respira.
- “Discorres: se a vontade contrastada
- No bem persiste, pode porventura
- Em méritos julgar-se amesquinhada?
- “Turbar-te inda outra dúvida procura:
- Se das estrelas a alma torna ao meio,
- Como Platão filósofo assegura.
- “Destes problemas dois te nasce o enleio.
- No derradeiro o exame principia
- Porque do erro mais fel há no seu seio.
- “Não têm anjo, que em Deus mais se extasia
- Moisés e Samuel, João Batista,
- O Evangelista, nem também Maria,
- “Lugar em céu dif’rente do que a vista
- De espíritos te deu que hão se mostrado:
- Num só têm todos a eternal conquista.
- “O Empíreo é por todos adornado,
- Hão todos doce vida variamente,
- Conforme o eterno sopro é facultado.
- “Se nesta esfera os viste, certamente,
- Não foi por destinada lhes ter sido,
- Grau só denota menos eminente.
- “Assim por mente humana comprendido
- Será, pois se eleva ao entendimento
- Do que é pelos sentidos percebido.
- “Por ter do que sois vós conhecimento
- A Escritura atribui, mas al entende,
- Pés e mãos ao Senhor do firmamento.
- “Em figurar a Igreja condescende
- Gabriel e Miguel e o que a Tobia
- Curou, sob a feição, que à humana tende.
- “Timeu esta verdade contraria
- No que acerca das almas argumenta;
- Parece crer à letra o que anuncia.
- “Ao seu astro voltar a alma sustenta,
- Supondo que ela à terra descendera,
- Quando, por forma ao corpo unida, o alenta.
- “Talvez diversa idéia concebera
- Do que nas vozes suas emitira,
- Escarnecida ser não merecera.
- “Se a honra ou vitupério atribuíra
- Aos astros de influir na vida humana,
- Na verdade talvez firmasse a mira.
- “Mal entendido, o seu princípio dana
- O mundo quase inteiro, que prestara
- A Jove e a Marte adoração insana.
- “A dúvida segunda te depara
- Menos veneno, pois o mal, que encerra
- Para longe de mim não te afastara.
- “Que a Justiça Divina lá na terra
- Pareça injusta é, de péssima heresia,
- Argumento de fé, que jamais erra.
- “Mas, como a humana mente poderia
- Às alturas alar-se da verdade,
- Vou dar-te, o que o desejo te sacia.
- “Constrangimento havendo, se, à maldade
- A vítima se opondo, em luta insiste,
- Desculpa elas não têm, sem dubiedade.
- “Não se abate a vontade, se persiste;
- Sempre se ergue, qual flama cintilante:
- A força a estorce, vezes mil resiste.
- “Por menos que se dobre vacilante,
- Cede à força: voltar ao santo abrigo
- Puderam, tendo o ânimo constante.
- “Se o querer fosse inteiro no perigo,
- Como Lourenço no braseiro ardente,
- Ou Múcio, que à mão sua deu castigo,
- “Em livres sendo, a estrada incontinênti
- Do dever seguiriam pressurosas;
- Mas raro é tal valor na humana gente.
- “Se atendeste, razões dei poderosas
- Para ficar tua dúvida solvida:
- Causa te fora a angústias afanosas.
- “Mas ante os olhos ora vês erguida
- Outra ainda mais grave, que, por certo,
- Não fora por ti só desvanecida.
- “Já te hei bem claramente descoberto
- Que não pôde mentir alma ditosa
- Pois da Suma Verdade é sempre perto.
- “Narrou depois Picarda que extremosa
- No seu amor ao véu fora Constância,
- Ao revés do que eu disse cautelosa.
- “Na existência há mais de uma circunstância,
- Em que se faz, perigos receando,
- O que é vedado ou move repugnância.
- “Do pai ardentes rogos respeitando,
- A sua mãe Alcmeon cortava a vida,
- Por piedade impiedoso se tornando.
- “Fique, pois, a tua mente convencida
- De que ao querer se a força anda ajustada,
- Não há desculpa à falta cometida.
- “A vontade absoluta é declarada
- Inimiga do mal: cede temendo
- Ser, pela oposição, mais lastimada.
- “A verdade absoluta em mira tendo,
- Picarda discorreu: de outra eu falava.
- Verdade ambas estamos defendendo.” —
- Do santo rio a luz assim manava,
- Da Fonte da verdade é derivada:
- Cada um dos meus desejos contentava.
- — “Ó do Primeiro Amante excelsa amada!
- Ó santa” — eu disse — “cuja voz me anima,
- Me inunda e a força aviva à alma abrasada!
- “Afeto meu que ao extremo se sublima,
- Não basta por tornar graça por graça:
- Que o Senhor minha dívida redima!
- “Não há, bem sei, não há quem satisfaça
- A mente, se a Verdade não comprende
- Fora da qual outra nenhuma passa.
- “A mente ali se refocila e prende,
- Qual fera, que em seu antro empolga a presa:
- De outra sorte o desejo em vão se acende.
- “E por isso ao pé nasce da certeza,
- Como vergôntea, a dúvida e nos leva
- De cimo em cimo até sublime alteza.
- “Com toda a reverência que vos deva,
- Ouso pedir-vos me expliques, Senhora,
- Outra verdade, que me está na treva:
- “Os rotos votos, que homem sente e chora,
- Pode suprir com mérito dif’rente,
- Que iguale em peso o que perdera outrora?” —
- Beatriz me encarou: tão refulgente
- Lhe rebrilhava o olhar e tão divino,
- Que me volto, sentindo a força ausente,
- E, quase aniquilado, a fronte inclino.