VAGAR já nos recessos desejando
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O Poeta descreve a beleza do Paraíso Terrestre. Chegam Dante, Virgílio e Estácio perto de um rio que os impede de prosseguir. Do outro lado do rio aparece uma mulher de maravilhosa beleza que discorre a respeito da condição do lugar, resolvendo as dúvidas que Dante lhe propõe.
- VAGAR já nos recessos desejando
- Da selva divinal, vivida espessa,
- Que ao novo dia o lume faz mais brando,
- Daquela encosta a me afastar dou pressa.
- Pela veiga me interno a passo lento,
- Doce aroma sentindo, que não cessa.
- Do ar, que circulava, o doce alento,
- Mas sempre igual, a fronte me afagando,
- Tinha o bafejo de suave vento.
- As folhas, molemente balouçando,
- Do santo monte à parte se inclinavam,
- A que a sombra primeira vai baixando.
- Mas, no meneio seu, não se acurvavam
- Em modo, que na rama aos passarinhos
- Os hinos perturbassem, que entoavam.
- Pousados ledamente entre os raminhos
- Saudavam com seus cantos a alvorada
- Da fronde os acordando aos murmurinhos;
- Assim de Chiassi no pinhal soada
- De ramo em ramo corre quando a amara
- Prisão, abre ao mestre Eolo a entrada.
- Com demorado andar eu caminhara
- Na selva antiga tanto, que não via
- Mais o lugar, por onde penetrara.
- Eis andar um ribeiro me tolhia,
- Que, à sestra deslizando-se, beijava
- A ervinha, que às margens lhe crescia:
- O cristal dessa linfa superava
- Da terra água a mais pura e transparente;
- Quanto continha em si patente estava.
- Entanto, pela sombra permanente,
- Que luz da lua ou sol nunca atravessa,
- Negreja aquela plácida corrente.
- O pé detenho, e a vista se arremessa
- Além do humilde rio, contemplando
- Primores, com que maio se adereça,
- Então se of’rece aos olhos, como quando
- De súbito um portento surge à mente,
- De outro pensar qualquer a desviando,
- Uma dama sozinha de repente,
- Que, cantando, escolhia, de entre as flores,
- Que o chão cobriam de matiz ridente.
- — “Bela dama, que sentes os fervores
- Do amor divino, se por teu semblante
- Da tua alma julgar devo os ardores” —
- Assim falei — “se caminhar avante
- Até perto do rio te aprouvera,
- Te entendera esse canto inebriante.
- “Tão linda, em tal lugar, lembras qual era
- Prosérpina, ao perdê-la a mãe querida
- E ao perder também ela a primavera.” —
- Qual menina, que em danças entretida,
- Gira ligeira em terra deslizando,
- Os passos troca e volve-se garrida,
- Sobre o esmalte das flores se voltando,
- A mim se dirigiu, como donzela
- Que vai, modesta, os olhos abaixando.
- Quanto o desejo meu sôfrego anela
- Acercou-se e da angélica toada
- Distinta pude ouvir a letra bela.
- Logo em chegando à borda em que banhada
- A erva era da linfa cristalina,
- De olhar-me fez a graça assinalada.
- Não creio que na vista peregrina
- De Vênus lume tal resplandecesse
- Ao feri-la de amor seta mali’na.
- De fronte aos olhos a sorrir se of’rece.
- As mãos de lindas flores tendo plenas,
- De que espontâneo o solo se guarnece.
- A nós três passos interpõem apenas:
- O Helesponto que Xerxes transcendera,
- Lição em que há para os soberbos penas,
- Em Leandro mais ódio não movera,
- Quando entre Sesto e Ábidos nadava,
- Do que o rio que tanto estorvo me era.
- — “Sois recém-vindos” — ela assim falava —
- “Meu riso ao ver-vos no lugar eleito
- À humana raça, quando à luz brotava,
- “Talvez vos maravilhe por suspeito.
- Se lembrado o salmo Delectasti,
- De todo o engano vos será desfeito.
- “Tu, que estás adiante e me falaste
- Que mais ouvir desejas? Eis-me presta
- Explicação a dar-te, quanto baste.” —
- — “Esta água” — torno — “e o som desta floresta
- Opõem-se à minha fé na maravilha.
- Que eu tinha ouvido e que é contrária a esta.” —
- — “Eu te direi a causa, de que é filha
- A razão que te move essa estranheza;
- Terás, em vez de névoa, a luz que brilha.
- “O Bem, que em si somente se embeleza,
- Apto ao bem fez o home’; em arras deu-lhe
- De eterna paz à edênica riqueza.
- “A culpa sua este alto dom tolheu-lhe;
- A culpa sua em prantos, em desgostos
- Os prazeres, os risos converteu-lhe.
- “A fim de que efeitos, que, compostos
- São de eflúvios das águas e da terra,
- Para o calor acompanhar dispostos,
- “Ao homem não fizessem qualquer guerra,
- Tão alta há se elevado esta montanha,
- Que é livre desde o ponto onde se encerra.
- “E porque todo o ar, por força manha,
- Roda ao impulso do motor primeiro,
- Quando estorvo nenhum seu giro acanha,
- “Este cimo elevado e sobranceiro
- Pelo éter vivo ao moto é tão batido,
- Que o denso bosque remurmura inteiro:
- “E sendo em cada um tronco percutido,
- A virtude transmite fecundamente
- Ao ar, que a esparge, em torno revolvido.
- “A terra, como é apta, circunstante
- Por si ou por seu céu plantas concebe
- De gênero e virtude variante.
- “E pois, já claramente se percebe
- Como planta há viçosa e florescente,
- Quando o germe a terra não recebe.
- “Sabe que até jardim toda semente
- Do que a terra produz em si compreende
- E contém fruto inoto à humana gente.
- “Esta água de uma origem não depende,
- Que alimente vapor que em chuva desça,
- Como rio que seca ou que se estende.
- “De fonte certa vem que nunca cessa,
- Pois por querer que Deus tanta dimana,
- Quanta aqui por canais dois se arremessa.
- “A que neste álveo que ora vês, se encana
- Memória do pecado desvanece,
- Aviva a outra a da virtude humana.
- “É Letes, se por ela o mal se esquece,
- Eunoé quando lembra: atuam quando
- O gosto de uma e de outro homem conhece.
- “Saber igual aos outros comparando
- Não existe ao desta água. Ao teu pedido
- Satisfação hei dado assim falando.
- “Corolário, porém, lhe seja adido:
- Não receio que assim te desagrade,
- Indo além do que fora prometido.
- “Poetas que cantavam de ouro a idade
- E sua dita, em Parnaso, certamente
- Sonharam desta estância a f’licidade.
- “Estirpe humana aqui fora inocente;
- Eterna primavera aqui domina;
- Foi este néctar, que inventou sua mente.” —
- Então a vista aos Vates se me inclina.
- Um sorriso em seus lábios se revela,
- Esse conceito ouvindo, em que termina.
- Rosto volvi depois à dama bela.