DEPOIS que Carlos teu, bela Clemência
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Depois de Carlos Martelo, fala a Dante, Cunizza de Romano, irmã do tirano Ezzelino. Prediz-lhe iminentes desventuras na Marca de Treviso e de Pádua, e uma negra traição do bispo de Feltre. Folco de Marselha manifesta-se a Dante e lhe indica a alma resplendecente de Raab, que favoreceu os hebreus na conquista da Terra Santa. Invectiva contra Florença e contra a Cúria Romana.
- DEPOIS que Carlos teu, bela Clemência
- Instruiu-me, narrou traições e enganos,
- Que ter devia a sua descendência;
- Mas disse: — “Cal’-te! Deixa o curso aos anos!” —
- Dizer só posso, pois, que justo pranto
- Há de vir por vingança aos vossos danos.
- E voltou-se de novo o lume santo
- Para o Sol que de júbilos o enchia,
- Sendo ele o Bem que para tudo, e tanto.
- Ah! mortais iludidos! raça impia,
- Que, em pensamentos fátuos se engolfando,
- Do Bem Supremo os corações desvia!
- Eis outro vi pra mim se encaminhando:
- De aprazer-me a vontade anunciava,
- O brilho da luz sua acrescentando.
- Os olhos Beatriz em mim fitava,
- Bem como de antes: grandioso assenso,
- Ao meu desejo claramente dava.
- — “Ó ser bendito, ao meu querer intenso
- Defere logo” — exclamo — “ e dá-me a prova
- De que em ti se reflete o que ora penso.” —
- A luz então, inda aos meus olhos nova,
- Dês que a vi lá na altura onde cantava
- Diz como quem cortês rogos aprova:
- — “Nessa parte da Itália opressa e escrava,
- Que situada entre o Rialto
- E as nascentes do Brenta e do Piava,
- “Colina vê-se que, não surge ao alto:
- Lá centelha, depois ígnea procela,
- Que a toda a região deu grande assalto.
- “De um só tronco brotamos eu com ela.
- Cunizza me chamei: aqui resplendo,
- Porque venceu-me a flama desta estrela.
- “Da sorte minha a causa não me sendo
- Desgosto, eu ma perdôo alegremente
- Talvez estranhe o vulgo o como entendo.
- “Da luz, que me está perto, refulgente,
- Amada jóia desta nossa esfera,
- Revive grande a fama, e permanente
- “De séc’los cinco mais será na era.
- Vê se homem com razão à glória aspira,
- Se extinta a vida, outra no mundo o espera!
- “A este alvo, porém, não levam mira
- Os que o Ádige cerca e o Tagliamento:
- Nem dos seus erros o infortúnio os tira.
- “Punido em breve, o povo truculento
- De Pádua o lago tingirá, que banha
- Co’as águas, de Vicência o fundamento;
- “Onde o Cagnan do Sile se acompanha
- Se trama o laço que fará cativo
- Quem mostra no perder soberba estranha.
- “Do ímpio Pastor procedimento esquivo
- Há-de Feltro chorar, tal ribaldia
- A Malta não levou nunca homem vivo.
- “De enormes dimensões tonel seria,
- Que o sangue recebesse de Ferrara,
- Pesá-lo o esforço humano esgotaria,
- “Em tal cópia o bom Padre o derramara
- Em preito ao seu partido! Os dons malvados
- Da terra sua a índole explicara.
- “Espelhos no alto (Tronos são chamados)
- A nós refletem quanto Deus indica:
- Crê, pois, ora nos fatos revelados.” —
- Calando-se Cunizza significa,
- Ao giro seu anterior voltando,
- Que em diverso cuidado imersa fica:
- Aquele, a que aludira, rebrilhando,
- Com preclaro esplendor, mostrou-se à vista.
- Como ao sol rubi fino flamejando.
- Alegria no céu fulgor aquista,
- Como a nossa no riso se declara;
- Mas os gestos no inferno a dor contrista.
- “Deus vê tudo, e o teu ver nele se aclara” —
- Falei — “ditoso espírito: patente
- Te é sempre quanto o seu querer depara.
- “Porque a voz tua, enlevo permanente
- Do céu, de anjos no canto a sócia sendo,
- Que em seis asas têm veste resplendente,
- “Não satisfaz desejos, em que ardendo
- Estou? Falara, sem mais ser rogado,
- Se eu visse em ti bem como em mim stás vendo.” —
- — “O maior vale de águas inundado”
- — Desta arte a responder-me começava —
- “Do mar, em torno à terra derramando,
- “Opostas plagas, se estendendo, lava
- Contra o sol, e assim faz meridiano
- Esse horizonte, em que primeiro estava.
- “Nessa parte do val mediterrano
- Nasci, entre Ebro e Macra, que separa
- Do domínio de Gênova o Toscano.
- “Quase um meridiano se depara
- Para Bugia e o ninho meu querido:
- Sangue dos seus seu porto avermelhara.
- “Chamei-me Folco e assim fui conhecido:
- Este céu da luz minha é penetrado
- Como eu fora da sua possuído;
- “Pois Dido, que ciúmes há causado
- A Creusa e a Siquei, não mais ardera
- Do que eu, enquanto à idade me foi dado;
- “Nem Rodópea infeliz, a quem perdera
- Demofonte; nem Hércules outrora,
- Que o coração a Iole oferecera.
- “Não há remorso aqui; folga-se agora,
- Não pela culpa, já no esquecimento,
- Pela Virtude, cuja lei se adora.
- “Arte aqui se contempla, em que portento
- Tão alto brilha; e o Bem se patenteia,
- Que influir faz na terra o firmamento.
- “Para ser a medida toda cheia
- Dos teus desejos, nados nesta esfera,
- Do meu discurso inda prossegue a teia.
- “Ora queres saber a luz quem era,
- Que aí perto de mim tanto cintila,
- Como o sol, que na linfa reverbera.
- “Sabe, pois, que ali vês leda e tranqüila
- Raab: à nossa ordem reunida
- Em grau superior clara rutila.
- “Foi neste céu, que a sombra procedida
- Da terra não alcança, em triunfando
- Jesus Cristo, a primeira recebida.
- “Devia dar-lhe um céu por palma, quando
- Assinalar lhe aprouve a alta vitória,
- Que na Cruz teve, as palmas entregando;
- “Pois que por ela começara a glória,
- Que colheu Josué na Terra Santa,
- Que se apagou do Papa na memória.
- “A tua pátria, que foi daquele a planta,
- Que ao Criador revel primeiro há sido
- E causou pela inveja aflição tanta,
- “Tem flor maldiçoada produzido,
- Que, ovelhas e cordeiros transviando,
- Traz o pastor em lobo convertido.
- “O Evangelho, por ela, abandonado
- E os Doutores, às páginas usadas
- Das Decretais stão muitos se aplicando.
- “O Papa e os Cardeais, nisto engolfadas
- Tendo as idéias, Nazaré esquecem,
- Que viu do Arcanjo as asas desdobradas.
- “Mas Vaticano e os sítios que enobrecem
- A Roma e têm sido o cemitério
- Dos que, fiéis a Pedro, lhe obedecem,
- Livres serão em breve do adultério.” —