VEXILIA regis prodeunt inferni
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Na Judeca estão os traidores dos seus senhores e benfeitores. No meio está Lúcifer, que com três bocas dilacera três entre os mais horrendos pecadores: de um lado Judas, do outro Bruto e Cássio, que mataram a Júlio César. Virgílio, ao qual Dante se agarra, desce pelas costas peludas de Lúcifer até o centro da terra. Dai seguindo o murmúrio de um regato, saem e avistam as estrelas no outro hemisfério.
- VEXILIA regis prodeunt inferni
- Contra nós; pra diante os olhos tende
- Disse o Mestre, se a vista já discerne”.
- Como quando no ar névoa se estende,
- Ou ao nosso hemisfério a noite desce,
- Um moinho distante a atenção prende.
- Um edifício igual verme parece.
- Tanto era o vento, que eu busquei guarida
- Atrás do Mestre, que outra não se of’rece.
- À parte era chegado, onde imergida
- Cada alma em gelo está (tremo escrevendo),
- Bem como aresta no cristal contida.
- Erguidas umas stão, outras jazendo
- Qual sobre a fronte ou sobre os pés firmada
- Qual com seus pés o rosto arco fazendo.
- Quando distância tal foi superada,
- Que aprouve ao Mestre me tornar patente
- A criatura bela ao ser formada,
- Se afastando de mim, disse: “Detém-te!
- Eis Satanás! Eis o lugar horrendo
- Em que deves te armar de esforço ingente!
- Quanto assombrei-me aquele aspecto vendo
- Não inquiras leitor: não te expressara
- Com verbo humano o que encarei tremendo.
- Não morto, porém vivo não ficara.
- Qual me achava te pinte a fantasia,
- Se morte ou vida em mim se não depara!
- Do aflito reino o imperador eu via:
- Do gelo acima o seio levantava.
- A um gigante igualar eu poderia,
- Se um gigante a um seu braço eu comparava!
- Do todo vede a proporção qual fora,
- Quando tão vasta a parte se ostentava!
- Quem foi tão belo, quanto é feio agora,
- Contra o seu criador a fronte alçando
- Vera causa é do mal, que o mundo chora.
- Qual meu espanto há sido em contemplando
- Três faces na estranhíssima figura!
- Rubra cor na da frente está mostrando;
- Das outras cada qual, da pádua escura
- Surdindo, às mais ajunta-se e se ajeita
- Sobre o crânio da infanda criatura.
- Entre amarela e branca era a direita;
- A cor a esquerda tem que enluta a gente
- Do Nilo às margens a viver afeita.
- Via asas duas sob cada frente,
- Tão vastas, quanto em ave tal convinham:
- Velas iguais não abre nau potente.
- Plumas, como em morcego, elas não tinham;
- De contínuo agitadas produziam
- Os três gélidos ventos, que mantinham
- Os frios, que o Cocito enrijeciam.
- Chorava por seis olhos, por três mentos
- Pranto e sangüínea espuma se espargiam.
- Qual moinho, com dentes truculentos
- Cada boca um prexito lacerava:
- Padecem três a um tempo assim tormentos.
- Mas ao da frente a pena se agravava,
- Porque das garras o furor constante
- Do dorso a pele ao pecador rasgava.
- “O que esperneia em dor mais cruciante”
- O Mestre disse: “É Juda Iscariote:
- Prende a cabeça a boca devorante.
- “Dos dois, que estão pendendo, coube em dote
- A negra face Bruto: sem gemido
- Se estorce da dentuça a cada bote.
- “O outro é Cássio, de membros bem fornido.
- Mas a partir a noite insta, assomando:
- Aqui já tudo havemos conhecido”.
- Do Mestre o colo enlaço por seu mando.
- Ele em lugar e tempo apropriado,
- De Lúcifer as asas se alargando,
- Ao peito hirsuto havia-se agarrado;
- Depois de velo em velo descendia
- Entre os ilhais e o lago congelado.
- Chegado àquela parte, em que se unia
- Da coxa o extremo dos quadris à altura,
- Com grande ofego e mor abalo o Guia
- Pôr a fronte onde os pés firmou procura,
- Como quem sobe às crinas agarrado:
- Assim tornar cuidei do inferno à agrura.
- “Segura-te! Por tais degraus alado”
- Lasso Virgílio já disse anelante,
- “Deste império do mal serás tirado”.
- De uma rocha então sai por fresta hiante;
- Sobre a borda me assenta cauteloso;
- Depois a mim se acerca vigilante.
- Olhos alcei julgando curioso
- Ver Lúcifer, qual de antes o deixara;
- De pernas para o ar vi-o em seu pouso!
- De que enleio a minha alma se tomara,
- Deixo ao vulgo pensar pouco instruído,
- Que o ponto não compreende, em que eu passara.
- “Eia! Vamos!” o Mestre diz querido,
- “Longa jornada e mau caminho temos;
- E a meia terça o sol já tem corrido”.
- De paço em salas nós de andar não temos;
- Mas de antro natural em solo duro
- Os passos nossos dirigir devemos.
- “Antes que eu deixe em todo o abismo escuro
- Erro, em que estou, meu Mestre, desvanece”
- Disse erguendo-me um pouco mais seguro.
- “Onde o gelo? Por que nos aparece
- Assim Lúcifer posto? E já tão presto,
- Cessando a noite, o sol nos esclarece?”
- “Tu cuidas ser, do que ouço é manifesto
- Lá no centro, onde ao pêlo me prendera
- Do que atravessa o mundo, verme infesto.
- “Ali stiveste, enquanto descendera
- Ao voltar-me do ponto além tens sido,
- Que o peso atrai na terreal esfera.
- “Foste àquele hemisfério transferido,
- Que se opõe ao que a terra está lançado,
- Em cujo excelso cume há padecido;
- “Quem nasceu, quem viveu sem ter pecado
- Sobre uma esfera estreita os pés agora,
- Da Judeca ao reverso, tens firmado.
- “É noite lá; nós temos luz nesta hora;
- E o que nos velos seus nos deu a escada
- Na postura se firma, em que antes fora.
- “Caiu aqui da altura sublimada,
- E a terra, que se alçava entumescente,
- Do mar fez véu e veio de enfiada
- “Para o nosso hemisfério de repente.
- Também fugiu de medo, a que se avista;
- Vácuo deixando aqui, fez monte ingente”.
- Lá no profundo há um lugar, que dista
- Tanto de Belzebú, quanto se estende
- Seu sepulcro: ali não penetra a vista.
- Revela-o som de arroio, que descende
- Por brecha do rochedo, que escavara,
- Em torno serpeando, e pouco pende.
- Para voltar do mundo à face clara
- Nessa vereda escusa penetramos:
- De nós nenhum de repousar cuidara.
- Virgílio e eu, logo após, nos elevamos,
- Té que do ledo céu as cousas belas
- Por circular aberta divisamos:
- Saindo a ver tornamos as estrelas.