Pular para o texto
A Divina ComédiaInferno · Canto XXXIV
InfernoXXXIV

VEXILIA regis prodeunt inferni

139 versos · 34 de 100


Na Judeca estão os traidores dos seus senhores e benfeitores. No meio está Lúcifer, que com três bocas dilacera três entre os mais horrendos pecadores: de um lado Judas, do outro Bruto e Cássio, que mataram a Júlio César. Virgílio, ao qual Dante se agarra, desce pelas costas peludas de Lúcifer até o centro da terra. Dai seguindo o murmúrio de um regato, saem e avistam as estrelas no outro hemisfério.

  1. VEXILIA regis prodeunt inferni
  2. Contra nós; pra diante os olhos tende
  3. Disse o Mestre, se a vista já discerne”.
  1. Como quando no ar névoa se estende,
  2. Ou ao nosso hemisfério a noite desce,
  3. Um moinho distante a atenção prende.
  1. Um edifício igual verme parece.
  2. Tanto era o vento, que eu busquei guarida
  3. Atrás do Mestre, que outra não se of’rece.
  1. À parte era chegado, onde imergida
  2. Cada alma em gelo está (tremo escrevendo),
  3. Bem como aresta no cristal contida.
  1. Erguidas umas stão, outras jazendo
  2. Qual sobre a fronte ou sobre os pés firmada
  3. Qual com seus pés o rosto arco fazendo.
  1. Quando distância tal foi superada,
  2. Que aprouve ao Mestre me tornar patente
  3. A criatura bela ao ser formada,
  1. Se afastando de mim, disse: “Detém-te!
  2. Eis Satanás! Eis o lugar horrendo
  3. Em que deves te armar de esforço ingente!
  1. Quanto assombrei-me aquele aspecto vendo
  2. Não inquiras leitor: não te expressara
  3. Com verbo humano o que encarei tremendo.
  1. Não morto, porém vivo não ficara.
  2. Qual me achava te pinte a fantasia,
  3. Se morte ou vida em mim se não depara!
  1. Do aflito reino o imperador eu via:
  2. Do gelo acima o seio levantava.
  3. A um gigante igualar eu poderia,
  1. Se um gigante a um seu braço eu comparava!
  2. Do todo vede a proporção qual fora,
  3. Quando tão vasta a parte se ostentava!
  1. Quem foi tão belo, quanto é feio agora,
  2. Contra o seu criador a fronte alçando
  3. Vera causa é do mal, que o mundo chora.
  1. Qual meu espanto há sido em contemplando
  2. Três faces na estranhíssima figura!
  3. Rubra cor na da frente está mostrando;
  1. Das outras cada qual, da pádua escura
  2. Surdindo, às mais ajunta-se e se ajeita
  3. Sobre o crânio da infanda criatura.
  1. Entre amarela e branca era a direita;
  2. A cor a esquerda tem que enluta a gente
  3. Do Nilo às margens a viver afeita.
  1. Via asas duas sob cada frente,
  2. Tão vastas, quanto em ave tal convinham:
  3. Velas iguais não abre nau potente.
  1. Plumas, como em morcego, elas não tinham;
  2. De contínuo agitadas produziam
  3. Os três gélidos ventos, que mantinham
  1. Os frios, que o Cocito enrijeciam.
  2. Chorava por seis olhos, por três mentos
  3. Pranto e sangüínea espuma se espargiam.
  1. Qual moinho, com dentes truculentos
  2. Cada boca um prexito lacerava:
  3. Padecem três a um tempo assim tormentos.
  1. Mas ao da frente a pena se agravava,
  2. Porque das garras o furor constante
  3. Do dorso a pele ao pecador rasgava.
  1. “O que esperneia em dor mais cruciante”
  2. O Mestre disse: “É Juda Iscariote:
  3. Prende a cabeça a boca devorante.
  1. “Dos dois, que estão pendendo, coube em dote
  2. A negra face Bruto: sem gemido
  3. Se estorce da dentuça a cada bote.
  1. “O outro é Cássio, de membros bem fornido.
  2. Mas a partir a noite insta, assomando:
  3. Aqui já tudo havemos conhecido”.
  1. Do Mestre o colo enlaço por seu mando.
  2. Ele em lugar e tempo apropriado,
  3. De Lúcifer as asas se alargando,
  1. Ao peito hirsuto havia-se agarrado;
  2. Depois de velo em velo descendia
  3. Entre os ilhais e o lago congelado.
  1. Chegado àquela parte, em que se unia
  2. Da coxa o extremo dos quadris à altura,
  3. Com grande ofego e mor abalo o Guia
  1. Pôr a fronte onde os pés firmou procura,
  2. Como quem sobe às crinas agarrado:
  3. Assim tornar cuidei do inferno à agrura.
  1. “Segura-te! Por tais degraus alado”
  2. Lasso Virgílio já disse anelante,
  3. “Deste império do mal serás tirado”.
  1. De uma rocha então sai por fresta hiante;
  2. Sobre a borda me assenta cauteloso;
  3. Depois a mim se acerca vigilante.
  1. Olhos alcei julgando curioso
  2. Ver Lúcifer, qual de antes o deixara;
  3. De pernas para o ar vi-o em seu pouso!
  1. De que enleio a minha alma se tomara,
  2. Deixo ao vulgo pensar pouco instruído,
  3. Que o ponto não compreende, em que eu passara.
  1. “Eia! Vamos!” o Mestre diz querido,
  2. “Longa jornada e mau caminho temos;
  3. E a meia terça o sol já tem corrido”.
  1. De paço em salas nós de andar não temos;
  2. Mas de antro natural em solo duro
  3. Os passos nossos dirigir devemos.
  1. “Antes que eu deixe em todo o abismo escuro
  2. Erro, em que estou, meu Mestre, desvanece”
  3. Disse erguendo-me um pouco mais seguro.
  1. “Onde o gelo? Por que nos aparece
  2. Assim Lúcifer posto? E já tão presto,
  3. Cessando a noite, o sol nos esclarece?”
  1. “Tu cuidas ser, do que ouço é manifesto
  2. Lá no centro, onde ao pêlo me prendera
  3. Do que atravessa o mundo, verme infesto.
  1. “Ali stiveste, enquanto descendera
  2. Ao voltar-me do ponto além tens sido,
  3. Que o peso atrai na terreal esfera.
  1. “Foste àquele hemisfério transferido,
  2. Que se opõe ao que a terra está lançado,
  3. Em cujo excelso cume há padecido;
  1. “Quem nasceu, quem viveu sem ter pecado
  2. Sobre uma esfera estreita os pés agora,
  3. Da Judeca ao reverso, tens firmado.
  1. “É noite lá; nós temos luz nesta hora;
  2. E o que nos velos seus nos deu a escada
  3. Na postura se firma, em que antes fora.
  1. “Caiu aqui da altura sublimada,
  2. E a terra, que se alçava entumescente,
  3. Do mar fez véu e veio de enfiada
  1. “Para o nosso hemisfério de repente.
  2. Também fugiu de medo, a que se avista;
  3. Vácuo deixando aqui, fez monte ingente”.
  1. Lá no profundo há um lugar, que dista
  2. Tanto de Belzebú, quanto se estende
  3. Seu sepulcro: ali não penetra a vista.
  1. Revela-o som de arroio, que descende
  2. Por brecha do rochedo, que escavara,
  3. Em torno serpeando, e pouco pende.
  1. Para voltar do mundo à face clara
  2. Nessa vereda escusa penetramos:
  3. De nós nenhum de repousar cuidara.
  1. Virgílio e eu, logo após, nos elevamos,
  2. Té que do ledo céu as cousas belas
  3. Por circular aberta divisamos:
  1. Saindo a ver tornamos as estrelas.
Começa o PurgatórioIDO engenho meu a barca as velas solta