“POR mim se vai das dores à morada
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Chegam os Poetas à porta do Inferno, na qual estão escritas terríveis palavras. Entram e no vestibulo encontram as almas dos ignavos, que não foram fiéis a Deus, nem rebeldes. Seguindo o caminho, chegam ao Aqueronte, onde está o barqueiro infernal, Caron, que passa as almas dos danados à outra margem, para o suplício. Treme a terra, lampeja uma luz e Dante cai sem sentidos.
- “POR mim se vai das dores à morada,
- Por mim se vai ao padecer eterno,
- Por mim se vai à gente condenada.
- “Moveu Justiça o Autor meu sempiterno,
- Formado fui por divinal possança,
- Sabedoria suma e amor supremo.
- No existir, ser nenhum a mim se avança,
- Não sendo eterno, e eu eternal perduro:
- Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!”
- Estas palavras, em letreiro escuro,
- Eu vi, por cima de uma porta escrito.
- “Seu sentido” — disse eu — “Mestre me é duro”
- Tornou Virgílio, no lugar perito:
- — “Aqui deixar convém toda suspeita;
- Todo ignóbil sentir seja proscrito.
- “Eis a estância, que eu disse, às dores feita,
- Onde hás de ver atormentada gente,
- Que da razão à perda está sujeita”.
- Pela mão me travando diligente,
- Com ledo gesto e coração me erguia,
- E aos mistérios guiou-me incontinênti.
- Por esse ar sem estrelas irrompia
- Soar de pranto, de ais, de altos gemidos:
- Também meu pranto, de os ouvir, corria.
- Línguas várias, discursos insofridos,
- Lamentos, vozes roucas, de ira os brados,
- Rumor de mãos, de punhos estorcidos,
- Nesses ares, pra sempre enevoados,
- Retumbavam girando e semilhando
- Areais por tufão atormentados.
- A mente aquele horror me perturbando,
- Disse a Virgílio: — “Ó Mestre, que ouço agora?
- “Quem são esses, que a dor está prostrando?” —
- “Deste mísero modo” — tornou — “chora
- Quem viveu sem jamais ter merecido
- Nem louvor, nem censura infamadora.
- “De anjos mesquinhos coro é-lhes unido,
- Que rebeldes a Deus não se mostraram,
- Nem fiéis, por si sós havendo sido”.
- “Desdouro aos céus, os céus os desterraram;
- Nem o profundo inferno os recebera,
- De os ter consigo os maus se gloriaram”.
- — “Que dor tão viva deles se apodera,
- Que aos carpidos motivo dá tão forte?” —
- “Serei breve em dizer-to” — me assevera. —
- “Não lhes é dado nunca esperar morte;
- É tão vil seu viver nessa desgraça,
- Que invejam de outros toda e qualquer sorte.
- “No mundo o nome seu não deixou traça;
- A Clemência, a Justiça os desdenharam.
- Mais deles não falemos: olha e passa”.
- Bandeira então meus olhos divisaram,
- Que, a tremular, tão rápida corria,
- Que avessa a toda pausa a imaginaram.
- E após, tão basta multidão seguia,
- Que, destruído houvesse tanta gente
- A morte, acreditado eu não teria.
- Alguns já distinguira: eis, de repente,
- Olhando, a sombra conheci daquele
- Que a grã renúncia fez ignobilmente.
- Soube logo, o que ao certo me revele,
- Que era a seita das almas aviltadas,
- Que os maus odeiam e que Deus repele.
- Nunca tiveram vida as desgraçadas;
- Sempre, nuas estando, as torturavam
- De vespas e tavões as ferroadas.
- Os rostos seus as lágrimas regavam,
- Misturadas de sangue: aos pés caindo,
- A imundos vermes o repasto davam.
- De um largo rio à margem dirigindo
- A vista, de almas divisei cardume.
- — “Mestre, declara, aos rogos me anuindo,
- “Que turba é essa” — eu disse — “e qual costume
- Tanto a passar a torna pressurosa,
- Se bem discirno ao duvidoso lume?” —
- Tornou-me: — “Explicação minuciosa
- Darei, quando tivermos atingido
- Do Aqueronte a ribeira temerosa”.
- Então, baixos os olhos e corrido
- Fui, de importuno a culpa receando,
- Té o rio, em silêncio recolhido.
- Eis vejo a nós em barca se acercando,
- De cãs coberto um velho — “Ó condenados,
- Ai de vós! — alta grita levantando.
- “O céu nunca vereis, desesperados:
- Por mim à treva eterna, na outra riva,
- Sereis ao fogo, ao gelo transportados.
- “E tu que estás aqui, ó alma viva,
- De entre estes que são mortos, já te ausenta!”
- Como não lhe obedeço à voz esquiva,
- “Por outra via irás” — ele acrescenta —
- “Ao porto, onde acharás fácil transporte;
- Lá pássaras sem barca menos lenta”. —
- “Não te agastes, Caronte! Desta sorte
- Se quer lá onde” — disse-lhe o meu Guia —
- “Quem pode ordena. E nada mais te importe”.
- Sereno, ouvido, o gesto se fazia
- Da lívida lagoa ao nauta idoso,
- Quem em círculos de fogo olhos volvia.
- As desnudadas almas doloroso
- O gesto descorou; dentes rangeram
- Logo em lhe ouvindo o vozear raivoso.
- Blasfemaram de Deus e maldisseram
- A espécie humana, a pátria, o tempo, a origem
- Da origem sua, os pais de quem nasceram.
- Todas no pranto acerbo, em que se afligem,
- Se acolhem juntas ao lugar tremendo,
- Dos maus destinos, que se não corrigem.
- Caronte, os ígneos olhos revolvendo,
- Lhes acenava e a todos recebia:
- Remo em punho, as tardias vai batendo.
- Como no outono a rama principia
- As flores a perder té ser despida,
- Dando à terra o que à terra pertencia,
- Assim de Adam a prole pervertida,
- Da praia um após outro se enviavam,
- Qual ave dos reclamos atraída.
- Sobre as túrbidas águas navegavam;
- E pojado não tinham no outro lado,
- Mais turbas já no oposto se apinhavam.
- “Aqui meu filho” — disse o Mestre amado —
- “concorrem quantos há colhido a morte,
- De toda a terra, tendo a Deus irado.
- “O rio prontos buscam desta sorte,
- De Deus tanto a justiça os punge e excita,
- Tornando-se o temor anelo forte!
- “Alma inocente aqui jamais transita,
- E, se Caronte contra ti se assanha,
- Patente a causa está, que tanto o irrita”.
- Assim falava; a lúrida campanha
- Tremeu e foi tão forte o movimento,
- Que do medo o suor ainda me banha.
- Da terra lacrimosa rompeu vento,
- Que um clarão respirou avermelhado;
- Tolhido então de todo o sentimento,
- l36 Caí, qual homem que é do sono entrado.