EM silêncio, a companha má deixada
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Prosseguem os dois Poetas o seu caminho, descartando-se dos diabos. Vendo-os, porém, voltar novamente, Virgílio abraça-se com Dante e deixam-se resvalar pelo declive do precipício. Encontram os hipócritas vestidos de pesadas capas de chumbo dourado. Falam com dois frades, Catalano e Loderigo, bolonheses. Um dos frades, inquirido por Vigílio, indica-lhe o modo de subir ao sétimo compartimento.
- EM silêncio, a companha má deixada,
- Seguíamos, após um do outro andando,
- Como frades menores em jornada.
- Meu pensamento à rixa se voltando,
- A fábula de Esopo relembrava,
- Em que ao rato arma a rã laço nefando.
- Se aqueles casos dois eu confrontava,
- Como issa e mo, iguais me pareciam,
- Quando o princípio e fim seus recordava.
- E, como os pensamentos se associam,
- Outros logo daquele me brotaram,
- Que em dobrado temor a alma envolviam.
- Pensava: — esses demônios que passaram,
- Por causa nossa, tal vergonha e dano,
- Do fato certamente se enojaram.
- Se a maldade agravar rancor insano,
- Eles no encalço nos virão ferozes,
- Qual cão, que a lebre aboca enfim no plano.
- Aguardando os horríficos algozes,
- Arrepiam-se as carnes e o cabelo.
- — “Ó Mestre meu, as garras temo atrozes!”
- Exclamo: — “Ache depressa o teu desvelo
- Para nós contra o bando amparo e abrigo.
- Após os passos nossos cuido vê-lo”.
- “Se espelho eu fora, a imagem tua, amigo,
- Tanto não refletira claramente,
- Quanto às idéias na tua alma sigo.
- “Agora iguais me estão surgindo à mente,
- Concordes tanto nas feições, em tudo,
- Que um parecer entre ambos há somente.
- “À destra inclina a encosta, ou eu me iludo:
- Por lá baixando à mais vizinha cava,
- Teremos contra assaltos seus escudo”.
- Não acabava, quando a turba prava
- Assoma: de asas pandas se enviando
- Contra nós, não mui longe a divisava.
- De súbito nos braços me tomando,
- Qual mãe, que ao despertar se vê cercada
- De furiosas flamas, e, apertando
- Ao seio o filho, foge acelerada,
- E ao pudor véus esquece angustiosa,
- Só por salvar aquela prenda amada:
- Lá do cimo da riba alta e fragosa
- Resvala o Mestre pela penha dura,
- Muralha de outra cava tenebrosa.
- Água não corre mais veloz da altura
- Por canal a impulsar de engenho a roda,
- Quando, vizinha aos cubos, se apressura,
- Do que a descer o Guia meu se açoda,
- Como a filho estreitando-me ao seu peito,
- Não como a companheiro a quem se engoda.
- Da cava, apenas atingira o leito,
- Quando ao cimo os demônios se mostraram:
- Mas de iras suas malogrou-se o efeito.
- Por lei da Providência terminaram
- Funções, que exercem na caverna quinta,
- Toda vez que o recinto seu deixaram.
- Gente, que de brilhante cor se pinta
- Vemos, que a tardo passo em torno andava;
- Chorava e em forças parecia extinta.
- Capa e capuz trazia, que ocultava
- Seus olhos, dessa forma de vestidos
- De Colônia entre os monges mais se usava.
- De ouro por fora, dentro guarnecidos
- De chumbo: comparando a peso tanto,
- De palha os de Fred’rico eram tecidos.
- Por toda a eternidade, ó duro duro manto!
- Com tais almas, à sestra, caminhamos,
- Atentos escutando o triste pranto.
- Tanto as oprime o peso, que as passamos
- No lento caminhar; e a cada instante
- De nova companhia ao lado estamos.
- “Mostra-me — eu disse ao Guia, suplicante —
- Algum por nome ou feitos afamado;
- Busca, sem te deter, Mestre prestante!” —
- Tendo vozes toscanas escutado,
- Um atrás nos gritou: — “Cessai da pressa,
- Com que ides a correr pelo ar cerrado!
- “Cousa talvez direi, que te interessa”.
- Volta-se o Mestre e diz-me: — “Agora espera;
- Para o passo igualar-lhes não te apressa”.
- Cessando, vejo um par que se acelera;
- Seus gestos dizem que acercar-se aspiram,
- Malgrado a estrada e o peso, que os onera.
- Aqueles dois, já próximos, remiram
- Com vesgos olhos, sem falar, meu rosto;
- Depois entre eles vozes tais se ouviram:
- “O que respira ainda em vida é o posto?
- Se mortos ambos são, por que motivo
- Da plúmbea capa evadem-se ao desgosto?”
- E disseram: — “Toscano, que, inda vivo,
- Vens de hipócritas ver o grêmio triste,
- Dizer quem sejas, não recusa esquivo”.
- — “Nasci na grã cidade, à qual assiste
- Com suas belas margens o Arno ameno,
- E o corpo, em que hei crescido, lá persiste.
- “Quem sois que da aflição tanto veneno
- Na face amargo pranto denuncia?
- Qual penar tendes de esplendor tão pleno?”
- “Tanto chumbo se encobre” — um me dizia —
- Destas capas sob o ouro, que oscilamos,
- Qual balança, que ao peso hesitaria.
- “De Bolonha e Godente, nos chamamos
- Um Loderigo e o outro Catalano:
- Juntos ambos Florença governamos,
- “Por que ficasse a paz livre de dano.
- Em vez de um regedor; do que hemos sido
- O Gardingo dá prova e desengano”.
- “Ó irmãos” — comecei — “o mal nascido...”
- Atalhei-me: jazendo um condenado
- Com puas três em cruz via estendido.
- Em vendo-me estorceu-se angustiado.
- Altos suspiros arrancou do peito.
- Catalano acercou-se apressurado.
- “Este” — disse — “que geme em duro leito,
- Que a um homem dessem morte, aconselhara
- Aos Fariseus, do povo por proveito.
- “Através do caminho é nu, repara:
- De quem passa, desta arte, ele conhece
- O peso, quando por calcá-lo pára.
- “Igual martírio o sogro seu padece,
- Assim como cada um desse concilio,
- Semente pra os Judeus de horrenda messe”.
- Maravilhar-se então mostrou Virgílio,
- Posto em cruz o prescito contemplando
- Com tanto opróbrio lá no eterno exílio,
- Voltou-se a Catalano assim falando:
- “Dizei, se assim vos apraz e é permitido,
- Se à direita há vereda, onde, passando,
- Deste recinto vamo-nos temido,
- Sem que os anjos perversos obriguemos
- Caminho a nos mostrar não conhecido”.
- Tornou: — “Mais perto do que julgas temos
- Rochedo, que, do muro se estendendo,
- Dá ponte a cada val, em que gememos.
- “Este não cobre, outrora se rompendo;
- Mas subir podereis pela ruína,
- Que do declive ao fundo se está vendo”.
- Ouvindo, o Guia um pouco a fronte inclina
- E diz: — “Bem más explicações nos dava
- Quem tanto os pecadores amofina”.
- Logo o frade: “Em Bolonha me constava
- Que o demônio, entre os vícios com que stenta,
- De ser pai da mentira se ufanava”.
- A passo largo o Mestre já se ausenta;
- Ira ressumbra o rosto carregado.
- Deixa a turba, que em capas se atormenta,
- As pegadas seguindo-lhe apressado.