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A Divina ComédiaInferno · Canto XXIII
InfernoXXIII

EM silêncio, a companha má deixada

148 versos · 23 de 100


Prosseguem os dois Poetas o seu caminho, descartando-se dos diabos. Vendo-os, porém, voltar novamente, Virgílio abraça-se com Dante e deixam-se resvalar pelo declive do precipício. Encontram os hipócritas vestidos de pesadas capas de chumbo dourado. Falam com dois frades, Catalano e Loderigo, bolonheses. Um dos frades, inquirido por Vigílio, indica-lhe o modo de subir ao sétimo compartimento.

  1. EM silêncio, a companha má deixada,
  2. Seguíamos, após um do outro andando,
  3. Como frades menores em jornada.
  1. Meu pensamento à rixa se voltando,
  2. A fábula de Esopo relembrava,
  3. Em que ao rato arma a rã laço nefando.
  1. Se aqueles casos dois eu confrontava,
  2. Como issa e mo, iguais me pareciam,
  3. Quando o princípio e fim seus recordava.
  1. E, como os pensamentos se associam,
  2. Outros logo daquele me brotaram,
  3. Que em dobrado temor a alma envolviam.
  1. Pensava: — esses demônios que passaram,
  2. Por causa nossa, tal vergonha e dano,
  3. Do fato certamente se enojaram.
  1. Se a maldade agravar rancor insano,
  2. Eles no encalço nos virão ferozes,
  3. Qual cão, que a lebre aboca enfim no plano.
  1. Aguardando os horríficos algozes,
  2. Arrepiam-se as carnes e o cabelo.
  3. — “Ó Mestre meu, as garras temo atrozes!”
  1. Exclamo: — “Ache depressa o teu desvelo
  2. Para nós contra o bando amparo e abrigo.
  3. Após os passos nossos cuido vê-lo”.
  1. “Se espelho eu fora, a imagem tua, amigo,
  2. Tanto não refletira claramente,
  3. Quanto às idéias na tua alma sigo.
  1. “Agora iguais me estão surgindo à mente,
  2. Concordes tanto nas feições, em tudo,
  3. Que um parecer entre ambos há somente.
  1. “À destra inclina a encosta, ou eu me iludo:
  2. Por lá baixando à mais vizinha cava,
  3. Teremos contra assaltos seus escudo”.
  1. Não acabava, quando a turba prava
  2. Assoma: de asas pandas se enviando
  3. Contra nós, não mui longe a divisava.
  1. De súbito nos braços me tomando,
  2. Qual mãe, que ao despertar se vê cercada
  3. De furiosas flamas, e, apertando
  1. Ao seio o filho, foge acelerada,
  2. E ao pudor véus esquece angustiosa,
  3. Só por salvar aquela prenda amada:
  1. Lá do cimo da riba alta e fragosa
  2. Resvala o Mestre pela penha dura,
  3. Muralha de outra cava tenebrosa.
  1. Água não corre mais veloz da altura
  2. Por canal a impulsar de engenho a roda,
  3. Quando, vizinha aos cubos, se apressura,
  1. Do que a descer o Guia meu se açoda,
  2. Como a filho estreitando-me ao seu peito,
  3. Não como a companheiro a quem se engoda.
  1. Da cava, apenas atingira o leito,
  2. Quando ao cimo os demônios se mostraram:
  3. Mas de iras suas malogrou-se o efeito.
  1. Por lei da Providência terminaram
  2. Funções, que exercem na caverna quinta,
  3. Toda vez que o recinto seu deixaram.
  1. Gente, que de brilhante cor se pinta
  2. Vemos, que a tardo passo em torno andava;
  3. Chorava e em forças parecia extinta.
  1. Capa e capuz trazia, que ocultava
  2. Seus olhos, dessa forma de vestidos
  3. De Colônia entre os monges mais se usava.
  1. De ouro por fora, dentro guarnecidos
  2. De chumbo: comparando a peso tanto,
  3. De palha os de Fred’rico eram tecidos.
  1. Por toda a eternidade, ó duro duro manto!
  2. Com tais almas, à sestra, caminhamos,
  3. Atentos escutando o triste pranto.
  1. Tanto as oprime o peso, que as passamos
  2. No lento caminhar; e a cada instante
  3. De nova companhia ao lado estamos.
  1. “Mostra-me — eu disse ao Guia, suplicante —
  2. Algum por nome ou feitos afamado;
  3. Busca, sem te deter, Mestre prestante!” —
  1. Tendo vozes toscanas escutado,
  2. Um atrás nos gritou: — “Cessai da pressa,
  3. Com que ides a correr pelo ar cerrado!
  1. “Cousa talvez direi, que te interessa”.
  2. Volta-se o Mestre e diz-me: — “Agora espera;
  3. Para o passo igualar-lhes não te apressa”.
  1. Cessando, vejo um par que se acelera;
  2. Seus gestos dizem que acercar-se aspiram,
  3. Malgrado a estrada e o peso, que os onera.
  1. Aqueles dois, já próximos, remiram
  2. Com vesgos olhos, sem falar, meu rosto;
  3. Depois entre eles vozes tais se ouviram:
  1. “O que respira ainda em vida é o posto?
  2. Se mortos ambos são, por que motivo
  3. Da plúmbea capa evadem-se ao desgosto?”
  1. E disseram: — “Toscano, que, inda vivo,
  2. Vens de hipócritas ver o grêmio triste,
  3. Dizer quem sejas, não recusa esquivo”.
  1. — “Nasci na grã cidade, à qual assiste
  2. Com suas belas margens o Arno ameno,
  3. E o corpo, em que hei crescido, lá persiste.
  1. “Quem sois que da aflição tanto veneno
  2. Na face amargo pranto denuncia?
  3. Qual penar tendes de esplendor tão pleno?”
  1. “Tanto chumbo se encobre” — um me dizia —
  2. Destas capas sob o ouro, que oscilamos,
  3. Qual balança, que ao peso hesitaria.
  1. “De Bolonha e Godente, nos chamamos
  2. Um Loderigo e o outro Catalano:
  3. Juntos ambos Florença governamos,
  1. “Por que ficasse a paz livre de dano.
  2. Em vez de um regedor; do que hemos sido
  3. O Gardingo dá prova e desengano”.
  1. “Ó irmãos” — comecei — “o mal nascido...”
  2. Atalhei-me: jazendo um condenado
  3. Com puas três em cruz via estendido.
  1. Em vendo-me estorceu-se angustiado.
  2. Altos suspiros arrancou do peito.
  3. Catalano acercou-se apressurado.
  1. “Este” — disse — “que geme em duro leito,
  2. Que a um homem dessem morte, aconselhara
  3. Aos Fariseus, do povo por proveito.
  1. “Através do caminho é nu, repara:
  2. De quem passa, desta arte, ele conhece
  3. O peso, quando por calcá-lo pára.
  1. “Igual martírio o sogro seu padece,
  2. Assim como cada um desse concilio,
  3. Semente pra os Judeus de horrenda messe”.
  1. Maravilhar-se então mostrou Virgílio,
  2. Posto em cruz o prescito contemplando
  3. Com tanto opróbrio lá no eterno exílio,
  1. Voltou-se a Catalano assim falando:
  2. “Dizei, se assim vos apraz e é permitido,
  3. Se à direita há vereda, onde, passando,
  1. Deste recinto vamo-nos temido,
  2. Sem que os anjos perversos obriguemos
  3. Caminho a nos mostrar não conhecido”.
  1. Tornou: — “Mais perto do que julgas temos
  2. Rochedo, que, do muro se estendendo,
  3. Dá ponte a cada val, em que gememos.
  1. “Este não cobre, outrora se rompendo;
  2. Mas subir podereis pela ruína,
  3. Que do declive ao fundo se está vendo”.
  1. Ouvindo, o Guia um pouco a fronte inclina
  2. E diz: — “Bem más explicações nos dava
  3. Quem tanto os pecadores amofina”.
  1. Logo o frade: “Em Bolonha me constava
  2. Que o demônio, entre os vícios com que stenta,
  3. De ser pai da mentira se ufanava”.
  1. A passo largo o Mestre já se ausenta;
  2. Ira ressumbra o rosto carregado.
  3. Deixa a turba, que em capas se atormenta,
  1. As pegadas seguindo-lhe apressado.
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