JÁ gozava em silêncio do seu verbo
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Beatriz conforta o Poeta. Cacciaguida mostra-lhe outros espíritos que combateram pela fé cristã. Sobem depois a Júpiter, ande estão as almas dos príncipes que governaram com justiça. Os espíritos se dispõem de maneira a desenhar palavras de conselho aos que governam; por último se compõem na forma de uma águia.
- JÁ gozava em silêncio do seu verbo
- Essa alma venturosa e eu cogitava,
- O doce temperando pelo acerbo;
- Mas aquela, que a Deus me encaminhava,
- — “Muda o pensar; que perto” — me dizia —
- “Eu sou do que injustiças desagrava.” —
- Voltei-me à voz, que sempre me infundia
- Valor: dos santos olhos a ternura
- Descrever a palavra renuncia.
- Não só a língua em vão dizer procura;
- Mas sobre si tornando, desfalece
- A mente sem socorro lá da altura.
- Ora somente referir se of’rece
- Que outro desejo, a santa contemplando,
- Do coração, ao todo, desparece.
- Como a delícia eterna, rebrilhando
- Direta em Beatriz, me extasiava
- Do gesto seu por um reflexo brando,
- Com riso, de que a luz me subjugava,
- — “Volve-te, escuta ainda; o Paraíso
- Não stá só nos meus olhos” — me falava.
- Como a paixão, no seu dizer conciso
- Pelos olhos se exprime, na alma enquanto
- Tolhe o prestígio seu todo o juízo,
- Assim no flamejar do fulgor santo,
- Voltando-me, o desejo vi patente
- De aditar ao que disse ora algum tanto.
- — “Na quinta estância da árvore, que, ingente,
- Pelo cimo se nutre” — principia —
- “Que frutos sempre dá, sempre é virente,
- “Espíritos habitam, que algum dia
- Nome tinham na terra tão famoso,
- Que opimo assunto às Musas prestaria.
- “Da cruz os braços olha cuidadoso:
- Os que eu te nomear verás fulgindo,
- Qual relâmpago em nuvem pressuroso.” —
- Na Cruz vi perpassar, o nome ouvindo
- De Josué, um traço rutilante,
- Mal acabara a voz, presto surgindo.
- Disse o grã Macabeu: no mesmo instante
- Outro acorria, sobre si rodando,
- Tange alegria esse pião brilhante;
- Assim fez Carlos Magno, assim Orlando.
- Atento, os movimentos seus esguardo,
- Qual monteiro ao falcão no ar voando.
- Seguiram-se Guilherme e Rinoardo;
- Distingue o duque Godofredo a vista,
- E logo após se assinalou Guiscardo.
- Depois com os outros esplendores mista
- Provou-me a alma ditosa, que há falado,
- Ser nos coros do céu sublime artista.
- Voltei-me então para o direito lado
- Por conhecer de Beatriz o intento,
- Em palvras ou gestos declarado.
- Nos olhos puros seus vi tal contento,
- Fulgor tal, que excedia o seu semblante
- Quando de antes prendeu-me o pensamento.
- Como, ao sentir prazer inebriante,
- Cada vez que o bem faz homem conhece
- Ir da virtude na vereda avante,
- Assim mais amplo o arco me parece
- Do círc’lo, em que vou co’o céu girando
- Ao ver quanto prodígio tal recresce.
- Tão presto, como em nívea face, quando
- A chama do pudor se acende, volta
- A cor a ser qual de antes, branqueando,
- Pelo doce candor, que a vista envolta
- Me teve, conheci que a sexta estrela
- Nos recebera a mim e a minha escolta.
- De Júpiter na esfera argêntea e bela
- O cintilar de amor, que ali resplende,
- Linguage’ humana aos olhos me revela.
- De aves qual bando, que se estreita ou estende,
- Do rio junto à borda e que à verdura
- Do pascigo, a folgar os vôos tende,
- Tal em seus lumes grei ditosa e pura,
- Adejando, cantava e descrevia
- De D, de I, de L uma figura.
- Ao compasso dos hinos se movia
- E em silêncio quedava, se detendo,
- Quando alguma das letras concluía.
- Pegásea Diva, ó tu, que, concedendo
- A glória ao gênio, lhe dilatas vida,
- Cidades, reinos imortais fazendo!
- Brilha em mim! por que seja referida
- Cada figura, qual me foi presente!
- Faz tua força em meus versos conhecida!
- E cinco vezes sete claramente
- Vogais e consoantes vi, notando
- Cada qual pelo traço refulgente:
- “DILIGITE JUSTITIAM” indicando
- Verbo e nome primeiros na escritura;
- “QUI JUDICATIS TERRAM” terminando.
- Colocando-se assim cada luz pura,
- No fim pausaram no vocáb’lo quinto:
- Sobre o argento de Jove ouro fulgura.
- De outros lumes, que descem, vi distinto
- Do M o cimo: cantam, lá pousados,
- Bem que os atrai ao divinal precinto.
- Como carvões ardentes encontrados
- De centelhas um jorro de si lançam,
- Presságios por estultos venerados,
- Muitos mil fogos para o ar avançam,
- Subindo à altura, que lhes há marcado
- O Sol, de quem beleza e brilho alcançam.
- Já, cada qual ao seu lugar tornado,
- De Águia o colo a meus olhos se mostrava,
- Rematando em cabeça, desenhado.
- Guia não teve o artista que os traçava:
- É seu todo o primor, toda a mestria,
- Que em cada ninho forma própria grava.
- A santa grei, porém, que parecia
- De ornar de c’roa o M estar contente,
- Movendo-se, a figura perfazia.
- Quanta jóias, ó astro refulgente,
- Mostraram-me provir justiça humana
- Do céu de que és ornato permanente!
- À Mente, pois, suplico de que emana
- O moto e a força tua, atenta veja
- Da névoa a causa que o teu brilho empana;
- E de ira inda uma vez tomada seja
- Contra os que mercadejam no seu templo,
- Que do sangue dos mártires flameja.
- Celestial milícia, que eu contemplo,
- Roga por esses, que ora estão na terra
- Transviados, seguindo hórrido exemplo.
- Com gládio outrora se travava a guerra;
- Hoje em tirar o pão, que Deus tem dado,
- Dos combatentes o valor se encerra.
- Tu que escreves pra ser logo emendado
- Pensa que Pedro e Paulo hão ressurgido,
- Pela vinha morrendo que hás talado.
- Tu bem podes dizer: — “Devoto hei sido
- Do que, ao deserto dando tanto apreço,
- Sofreu martírio à dança oferecido:
- O pescador e Paulo não conheço.” —