SOMBRA de inferno e noite carregada
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Sempre ao lado de Virgílio, Dante continua a viagem. Denso fumo envolve os iracundos. Entre eles está Marco Lombardo, o qual lamenta os tempos, que eram bons e agora ficaram maus. Dante pergunta de que depende essa mutação, e Marco responde que a corrupção dos tempos novos procede do mau governo do mundo e especialmente da confusão entre o poder espiritual e o poder temporal.
- SOMBRA de inferno e noite carregada,
- Em que o céu de um só astro não se aclara,
- De nuvens, quanto o pode ser, toldada,
- Véu tão grosso ao meu rosto não lançara,
- Nem, ao contacto, fora tão pungente,
- Como o fumo, que ali nos rodeara.
- Fechados tinha os olhos totalmente:
- Fiel o sábio sócio, me acudindo,
- Deu-me em seu ombro arrimo diligente.
- Qual cego, que ao seu guia vai seguindo
- Por se não transviar, correr perigo,
- Ou sofrer morte, de encontrão caindo,
- Tal eu por aquele ar escuro sigo,
- Atento ao Mestre meu, que repetia:
- — “Cuidado! Não te afastes! Vem comigo!” —
- Então vozes ouvi; me parecia,
- Que paz, misericórdia suplicavam
- Ao Cordeiro, que as culpas alivia.
- Por Agnus Dei suaves começavam,
- A letra era uma só como a toada,
- Consonância entre si todas as guardavam.
- — “Por quem esta oração, que ouço, é cantada?” —
- Perguntei. Disse o Mestre: — “É bom que o aprendas:
- Assim da ira a culpa é mitigada.” —
- — “Quem és para que a névoa nossa fendas
- E assim fales, qual viva criatura,
- Que inda o tempo calcula por calendas?” —
- Disse uma voz do fundo na negrura.
- E Virgílio falou: — “Responde e exora
- Se por aqui se sobe para a altura.” —
- — “Ó alma, que” — disse eu — “a graça implora
- De ir a Quem te criou mais pura e bela,
- Maravilha ouvirás, segue-me embora.” —
- — “Até onde for dado” — tornou-me ela —
- “Irei, e, se te ver não deixa o fumo,
- Nos tornará propínquos a loquela.” —
- — “Nas mantilhas, que a morte acaba, ao sumo
- Assento” — comecei — “ora me alteio,
- Do inferno tendo vindo pelo rumo.
- “Se Deus permite, de bondade cheio,
- Que a dita eu goze de lhe ver a corte
- Por este, hoje de todo estranho, meio,
- “Revela-me quem foste antes da morte
- E qual nos deva ser a melhor via:
- Guiarás nossos passos desta sorte.” —
- — “Fui Lombardo e de Marco o nome havia;
- O mundo exp’rimentei, feitos amando,
- Pelos quais ninguém mais hoje porfia.
- A subir bom caminho vais trilhando.” —
- Falou-me assim e acrescentou: — “E rogo
- Intercedas por mim, ao céu chegando.” —
- — “Quanto me pedes” — lhe replico logo —
- “Juro fazer, mas acho-me oprimido
- Por dúvida a que anelo desafogo.
- “Era simples; te ouvindo, tem subido
- A duplo grau, e assim me torna certo
- Do que hei aqui e noutra parte ouvido.
- “O mundo de virtude está deserto;
- Tens sobeja razão, quando o lamentas,
- Impa de mal, de vícios é coberto.
- Dize-me a causa, se na causa atentas?
- Sabendo-a, aos outros revelá-la quero;
- Virá do céu ou lá na terra a assentas?”
- Suspiro em que se exprime dó sincero
- Com hui, do peito exala. — “Irmão — prossegue —
- Que o mundo é cego em ti bem considero.
- “Vós, os vivos, julgais o céu entregue
- De toda causa, a tudo assim movendo
- Por necessária lei, que o mundo segue.
- “Desta arte o livre arbítrio fenecendo,
- Ao homem não coubera o que merece,
- No bem prazer, no mal dor recebendo.
- “Primeira inspiração aos atos desce
- Do alto; a todos não; mas quando o diga,
- No mal, no bem a luz não vos falece.
- “Livre sendo o querer, quem se afadiga
- E a primeira vitória do céu goza,
- Vencerá tudo, se em querer prossiga.
- “Natureza melhor, mais poderosa
- Vos sujeita — a que cria e vos concede
- Mente, que ao céu não prende-se humildosa.
- “Se a causa, que do bom caminho arrede
- O mundo em vós a tendes persistente;
- Explorarei, fiel, o que sucede.
- “Alma surge das mãos do Onipotente
- Que, inda antes de nascida, lhe sorria
- Qual menina, que ri, chora, inocente.
- “Ingênua e simples, ela só sabia
- De um Deus beni’no ser meiga feitura,
- E a tudo, que a deleita, se volvia.
- “Dos mais frívolos bens prende-a a doçura,
- E, deles namorada, após lhes corre,
- Se guia ou freio o amor lhe não segura.
- “Nas leis consiste o freio, que a socorre;
- Rei foi mister, que, ao menos, acertasse
- Da cidade de Deus em ver a torre.
- “Leis há, mas não quem leis executasse;
- Rumina esse pastor que os mais precede,
- Mas a unha fendida não lhe nasce.
- “E vendo a grei que o próprio guia a excede
- Em almejar os bens que mais deseja,
- Nestes se engolfa e mais nem quer nem pede.
- “Portanto, porque mau governo veja,
- Fica o mundo de culpas inquinado,
- Não porque em vós a corrupção esteja.
- “Bens sobre o mundo havendo derramado,
- Tinha Roma dois sóis, que alumiaram
- O caminho de Deus e o do Estado.
- “Um ao outro apagou, e se ajuntaram
- Do Bispo o bago e do guerreiro a espada:
- Por viva força unidos, mal andaram.
- “Não mais se temem na junção forçada:
- Vê a espiga que prova estes efeitos;
- Pela semente é a planta avaliada.
- “Valor e cortesia altos proveitos
- Deram na terra que Ádige e Pó lavam,
- Antes que visse de Fred’rico os feitos.
- “Por ali os que outrora se pejavam
- De entrar dos bons na prática e na liga,
- Livres passam do quanto receavam.
- “Só três velhos opõe a idade antiga,
- Como censura, à nova: é-lhe já tardo
- Que Deus os chame dessa terra imiga:
- “Conrado de Palazzo, o bom Gherardo
- E Guido de Castel, que foi chamado,
- Ao estilo francês simples Lombardo.
- “De Roma a Igreja fique proclamado,
- Cai no ceno os poderes confundido,
- Se enloda a si e o fardo seu pesado.”
- — “Tuas sábias razões, Marcos, ouvindo,
- Vejo” — disse — “por que a Lei da herança
- Partiu, de Levi os filhos excluindo.
- “Mas qual Gherardo trazes à lembrança,
- Como glória e brasão da antiga gente,
- Que censura a este séc’lo impuro lança?” —
- — “Queres” — tornou — “tentar-me ou certamente
- Iludir-me? Em toscano me falando
- Do bom Gherardo dizes-te insciente?
- “Sobrenome de todo lhe ignorando,
- Dou-lhe o de Gaia, sua filha cara.
- Guarde-vos Deus, que eu vou-me, vos deixando.
- “Do fumo a densidão se torna rara,
- Branqueja o dia: devo já partir-me,
- Que a apresentar-se o anjo se prepara.” —
- Assim falando, mais não quis ouvir-me.