DA escada ao topo havíamos chegado
154 versos · 47 de 100
Chegam os Poetas ao segundo compartimento, no qual estão os pecadores que expiam o pecado da inveja. Os invejosos têm os olhos cosidos com fio de arame. Entre eles está Sápia, senhora de Siena, com a qual Dante fala.
- DA escada ao topo havíamos chegado,
- Onde, outra vez cortado, o monte estreita,
- Que alma sobe, expiando o seu pecado.
- Como a primeira, outra cornija feita
- Circundava a colina, só dif’rente
- Em que a um arco menor ela se ajeita.
- Relevo, formas, como a precedente,
- Não mostra: e, lisa sobre a escarpa a entrada,
- Lívida cor a pedra tem somente.
- — “Se a presença de alguém fosse esperada,
- Que nos preste conselho” — diz meu Guia —
- “Temo que fique a escolha retardada.” —
- Os olhos para o sol depois erguia,
- E, sobre o pé direito se firmando,
- Para a esquerda girava e se volvia.
- — “Tu, de quem tudo fio, ó lume brando
- No caminho conduz-nos que se of’rece
- Como o exige o lugar” — disse — “guiando!
- “Raiando, o teu calor o mundo aquece:
- Se motivo não surge de embaraço,
- De conduzir-nos teu fulgor não cesse!”
- Vencido em breve tínhamos espaço,
- Que por milha na terra calculamos,
- Porque o desejo estimulava o passo:
- Em direitura a nós voar julgamos
- Invisíveis espíritos, chamando
- De amor à mesa em lépidos reclamos.
- A voz primeira que passou voando,
- Vinum non habent proferiu sonora
- E ainda muito além foi reiterando.
- Mas antes de perder-se pelo ar fora,
- Outra acercou-se. — “Orestes sou!” — dizia;
- E apartou-se igualmente sem demora.
- — “Que vozes estas são, Mestre?” — inquiria.
- Mas, apenas falara, eis vem terceira.
- — “Amai imigos vossos!” — eu lhe ouvia.
- — “Pune este círc’lo a culpa traiçoeira” —
- O Mestre diz — “da inveja; o açoite aplica
- O amor, que os rigores lhe aligeira.
- “Contrário som, porém, o freio indica.
- Antes que atinjas do perdão a entrada,
- Terás de ouvi-lo; e disto certo fica.
- “Tem ora a vista para além fitada;
- De espíritos, ao longo do alto muro,
- Assentados verás soma avultada.” —
- Mais que de antes então a vista apuro;
- Almas distingo, que envolviam mantos,
- Que a cor imitam do penhasco duro.
- Um pouco avante ouvi de esp’ritos tantos
- A voz bradar: — “Por nós orai, Maria,
- Pedro, Miguel e todos os mais Santos!”
- Na terra homem tão fero não seria,
- Que não sentisse o coração pungido
- Em vendo o que aos meus olhos se of’recia.
- Acerquei-me por ser mais distinguido
- De cada sombra o menear e o gesto:
- Pelos olhos à dor alívio hei tido.
- Então foi claramente manifesto
- Que entre si, uns aos outros se arrimavam,
- Todos à pedra, em seu cilício mesto.
- Assim os pobres cegos mendigavam
- Nos dias de Perdão da igreja à porta,
- Mutuamente as cabeças encostavam;
- Pois a piedade o coração nos corta,
- Quando ao som das palavras se acrescenta
- Da vista a ação que o peito desconforta
- E como o sol aos cegos não se ostenta,
- Assim também às sombras que alivia,
- Não mais do céu a luz olhos alenta.
- Fio de ferro as pálpebras prendia
- A todas, como ao gavião selvage
- Para domar-lhe a condição bravia.
- Cuidei, se andasse, lhes fazer ultraje,
- Lhes vendo as faces e ocultando a minha:
- E o Mestre olhei em tácita linguage.
- E o Mestre, bem sabendo o que convinha,
- Antecipou-se logo ao meu desejo
- E disse: — “Arguto sê, e fala asinha.” —
- Virgílio caminhava neste ensejo
- Do lado, onde à cornija falta amparo;
- Dali cair se pode e o risco eu vejo.
- As almas do outro lado eram; reparo
- Que dos olhos a hórrida costura
- Provoca pranto copioso e amaro.
- Voltei-me e disse: — “Ó almas, que a ventura
- De ver tereis ao certo o excelso Lume;
- De que somente o vosso anelo cura,
- “Dissolva a Graça em vós todo o negrume
- Da consciência e nela manar faça
- Da mente o rio em límpido corrume!
- “Concedei-me o que mais me satisfaça:
- Dizei-me qual de vós latina há sido;
- De eu sabê-lo algum bem talvez lhe nasça.” —
- — “Por pátria, irmão, só hemos conhecido
- A cidade de Deus: dizer quiseste
- Peregrina na Itália haja vivido.” —
- De mim remota a voz parece deste,
- Que assim disse; e portanto, passo avante
- Por saber certo a quem atenção preste.
- E uma senhora entre as mais vi, que, distante,
- Aguardava-me. E como eu a distinguia?
- Qual cego, alçava o mento pra diante.
- — “Tu, que para subir penas” — dizia —
- “Quem foste, onde nasceste diz: te imploro,
- Se é tua voz que, há pouco, respondia.”
- — “Fui de Siena” — tornou — “com este choro
- Os graves erros de perversa vida,
- E a Deus que se nos dê, clemente, exoro.
- “Chamei-me Sápia, mas não fui sabida.
- Mais deleite me deu o alheio dano
- Do que a dita a mim própria concedida.
- “E por que não presumas que te engano,
- Se fui louca verás pelo que digo.
- Já no declínio do viver humano
- “Eu era, quando a rebater o inimigo
- Em Colle os meus patrícios campearam;
- A Deus roguei que lhes não fosse amigo.
- “Destroçados, à fuga se lançaram,
- E a mim, que estava aquele transe vendo,
- Indizíveis prazeres me tornaram,
- “Em modo, que atrevida, olhos erguendo,
- — “Não mais Deus tenho!” — contra o céu gritava
- Qual melro, instantes de bonança tendo.
- “Com Deus quis paz, mas quando já tocava
- Da vida o termo; e ainda não pudera
- A dívida solver, que me onerava,
- “Se Pedro Pettinanho não se houvera,
- Nas santas operações de mim lembrado:
- Em prol meu, caridade o comovera.
- “Mas quem és, que nos tens interrogado,
- Que estando, creio, de olhos não tolhidos
- E respirando indagas nosso estado?” —
- — “Olhos” — disse — “terei também cerzidos,
- Porém por pouco tempo; que da inveja
- No mundo hão sido rara vez torcidos,
- “Maior receio o peito me dardeja
- De outro tormento; e tanto me angustia,
- Que o seu fardo a sentir cuido já steja.” —
- — “Mas quem ao monte” — me tornou — “te guia,
- Pois de voltar ao mundo tens certeza?” —
- — “Quem tenho ao lado e voz não pronuncia.
- “Inda vivo; e, pois fala com franqueza,
- Alma eleita, se queres que os pés mova
- Em prol teu lá na terra com presteza.” —
- — “O que dizendo estás, cousa é tão nova
- Que por mim rogues fervorosa peço,
- Pois da divina dileção dás prova.
- “E pelo que te merecer mais preço
- Suplico-te: ao pisar terra toscana
- Ao meu nome entre os meus aviva o apreço.
- “Terás de vê-los entre a gente insana,
- Que espera em Talamone, mas como antes,
- Quando buscava as águas do Diana:
- Mor engano há de ser dos almirantes.” —