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A Divina ComédiaPurgatório · Canto XIII
PurgatórioXIII

DA escada ao topo havíamos chegado

154 versos · 47 de 100


Chegam os Poetas ao segundo compartimento, no qual estão os pecadores que expiam o pecado da inveja. Os invejosos têm os olhos cosidos com fio de arame. Entre eles está Sápia, senhora de Siena, com a qual Dante fala.

  1. DA escada ao topo havíamos chegado,
  2. Onde, outra vez cortado, o monte estreita,
  3. Que alma sobe, expiando o seu pecado.
  1. Como a primeira, outra cornija feita
  2. Circundava a colina, só dif’rente
  3. Em que a um arco menor ela se ajeita.
  1. Relevo, formas, como a precedente,
  2. Não mostra: e, lisa sobre a escarpa a entrada,
  3. Lívida cor a pedra tem somente.
  1. — “Se a presença de alguém fosse esperada,
  2. Que nos preste conselho” — diz meu Guia —
  3. “Temo que fique a escolha retardada.” —
  1. Os olhos para o sol depois erguia,
  2. E, sobre o pé direito se firmando,
  3. Para a esquerda girava e se volvia.
  1. — “Tu, de quem tudo fio, ó lume brando
  2. No caminho conduz-nos que se of’rece
  3. Como o exige o lugar” — disse — “guiando!
  1. “Raiando, o teu calor o mundo aquece:
  2. Se motivo não surge de embaraço,
  3. De conduzir-nos teu fulgor não cesse!”
  1. Vencido em breve tínhamos espaço,
  2. Que por milha na terra calculamos,
  3. Porque o desejo estimulava o passo:
  1. Em direitura a nós voar julgamos
  2. Invisíveis espíritos, chamando
  3. De amor à mesa em lépidos reclamos.
  1. A voz primeira que passou voando,
  2. Vinum non habent proferiu sonora
  3. E ainda muito além foi reiterando.
  1. Mas antes de perder-se pelo ar fora,
  2. Outra acercou-se. — “Orestes sou!” — dizia;
  3. E apartou-se igualmente sem demora.
  1. — “Que vozes estas são, Mestre?” — inquiria.
  2. Mas, apenas falara, eis vem terceira.
  3. — “Amai imigos vossos!” — eu lhe ouvia.
  1. — “Pune este círc’lo a culpa traiçoeira” —
  2. O Mestre diz — “da inveja; o açoite aplica
  3. O amor, que os rigores lhe aligeira.
  1. “Contrário som, porém, o freio indica.
  2. Antes que atinjas do perdão a entrada,
  3. Terás de ouvi-lo; e disto certo fica.
  1. “Tem ora a vista para além fitada;
  2. De espíritos, ao longo do alto muro,
  3. Assentados verás soma avultada.” —
  1. Mais que de antes então a vista apuro;
  2. Almas distingo, que envolviam mantos,
  3. Que a cor imitam do penhasco duro.
  1. Um pouco avante ouvi de esp’ritos tantos
  2. A voz bradar: — “Por nós orai, Maria,
  3. Pedro, Miguel e todos os mais Santos!”
  1. Na terra homem tão fero não seria,
  2. Que não sentisse o coração pungido
  3. Em vendo o que aos meus olhos se of’recia.
  1. Acerquei-me por ser mais distinguido
  2. De cada sombra o menear e o gesto:
  3. Pelos olhos à dor alívio hei tido.
  1. Então foi claramente manifesto
  2. Que entre si, uns aos outros se arrimavam,
  3. Todos à pedra, em seu cilício mesto.
  1. Assim os pobres cegos mendigavam
  2. Nos dias de Perdão da igreja à porta,
  3. Mutuamente as cabeças encostavam;
  1. Pois a piedade o coração nos corta,
  2. Quando ao som das palavras se acrescenta
  3. Da vista a ação que o peito desconforta
  1. E como o sol aos cegos não se ostenta,
  2. Assim também às sombras que alivia,
  3. Não mais do céu a luz olhos alenta.
  1. Fio de ferro as pálpebras prendia
  2. A todas, como ao gavião selvage
  3. Para domar-lhe a condição bravia.
  1. Cuidei, se andasse, lhes fazer ultraje,
  2. Lhes vendo as faces e ocultando a minha:
  3. E o Mestre olhei em tácita linguage.
  1. E o Mestre, bem sabendo o que convinha,
  2. Antecipou-se logo ao meu desejo
  3. E disse: — “Arguto sê, e fala asinha.” —
  1. Virgílio caminhava neste ensejo
  2. Do lado, onde à cornija falta amparo;
  3. Dali cair se pode e o risco eu vejo.
  1. As almas do outro lado eram; reparo
  2. Que dos olhos a hórrida costura
  3. Provoca pranto copioso e amaro.
  1. Voltei-me e disse: — “Ó almas, que a ventura
  2. De ver tereis ao certo o excelso Lume;
  3. De que somente o vosso anelo cura,
  1. “Dissolva a Graça em vós todo o negrume
  2. Da consciência e nela manar faça
  3. Da mente o rio em límpido corrume!
  1. “Concedei-me o que mais me satisfaça:
  2. Dizei-me qual de vós latina há sido;
  3. De eu sabê-lo algum bem talvez lhe nasça.” —
  1. — “Por pátria, irmão, só hemos conhecido
  2. A cidade de Deus: dizer quiseste
  3. Peregrina na Itália haja vivido.” —
  1. De mim remota a voz parece deste,
  2. Que assim disse; e portanto, passo avante
  3. Por saber certo a quem atenção preste.
  1. E uma senhora entre as mais vi, que, distante,
  2. Aguardava-me. E como eu a distinguia?
  3. Qual cego, alçava o mento pra diante.
  1. — “Tu, que para subir penas” — dizia —
  2. “Quem foste, onde nasceste diz: te imploro,
  3. Se é tua voz que, há pouco, respondia.”
  1. — “Fui de Siena” — tornou — “com este choro
  2. Os graves erros de perversa vida,
  3. E a Deus que se nos dê, clemente, exoro.
  1. “Chamei-me Sápia, mas não fui sabida.
  2. Mais deleite me deu o alheio dano
  3. Do que a dita a mim própria concedida.
  1. “E por que não presumas que te engano,
  2. Se fui louca verás pelo que digo.
  3. Já no declínio do viver humano
  1. “Eu era, quando a rebater o inimigo
  2. Em Colle os meus patrícios campearam;
  3. A Deus roguei que lhes não fosse amigo.
  1. “Destroçados, à fuga se lançaram,
  2. E a mim, que estava aquele transe vendo,
  3. Indizíveis prazeres me tornaram,
  1. “Em modo, que atrevida, olhos erguendo,
  2. — “Não mais Deus tenho!” — contra o céu gritava
  3. Qual melro, instantes de bonança tendo.
  1. “Com Deus quis paz, mas quando já tocava
  2. Da vida o termo; e ainda não pudera
  3. A dívida solver, que me onerava,
  1. “Se Pedro Pettinanho não se houvera,
  2. Nas santas operações de mim lembrado:
  3. Em prol meu, caridade o comovera.
  1. “Mas quem és, que nos tens interrogado,
  2. Que estando, creio, de olhos não tolhidos
  3. E respirando indagas nosso estado?” —
  1. — “Olhos” — disse — “terei também cerzidos,
  2. Porém por pouco tempo; que da inveja
  3. No mundo hão sido rara vez torcidos,
  1. “Maior receio o peito me dardeja
  2. De outro tormento; e tanto me angustia,
  3. Que o seu fardo a sentir cuido já steja.” —
  1. — “Mas quem ao monte” — me tornou — “te guia,
  2. Pois de voltar ao mundo tens certeza?” —
  3. — “Quem tenho ao lado e voz não pronuncia.
  1. “Inda vivo; e, pois fala com franqueza,
  2. Alma eleita, se queres que os pés mova
  3. Em prol teu lá na terra com presteza.” —
  1. — “O que dizendo estás, cousa é tão nova
  2. Que por mim rogues fervorosa peço,
  3. Pois da divina dileção dás prova.
  1. “E pelo que te merecer mais preço
  2. Suplico-te: ao pisar terra toscana
  3. Ao meu nome entre os meus aviva o apreço.
  1. “Terás de vê-los entre a gente insana,
  2. Que espera em Talamone, mas como antes,
  3. Quando buscava as águas do Diana:
  1. Mor engano há de ser dos almirantes.” —
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