QUANDO esse astro, que a todos alumia
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A Águia louva alguns reis antigos que foram justos e virtuosos. Depois solve a Dante uma dúvida, como possam estar no Céu alguns espíritos que, na sua opinião, quando em vida não tinham tido fé cristã.
- QUANDO esse astro, que a todos alumia
- Deste hemisfério nosso já descende
- E se consome em toda parte o dia,
- O céu, que dele só de antes se acende,
- Cintilante se mostra de repente
- Por mil luzeiros, em que um só resplende.
- Do céu surgiu-me essa mudança à mente
- Depois que o santo pássaro calou-se,
- Dos reis, no mundo, insígnia refulgente;
- Pois desses vivos lumes ateou-se
- Inda mais o clarão, hino cantando,
- Que na memória instável apagou-se.
- Ó doce amor! num riso te velando,
- Quanto indicas arder nos esplendores,
- Que estão santo pensar só respirando!.
- Quando as gemas sublimes nos fulgores,
- De que o sexto planeta se adornava
- Findaram seus angélicos dulçores,
- De rio o murmurar ouvir julgava,
- Que, em claras espadanas debruçado
- Com sua veia abundante as rochas lava.
- Da cít’ra em braço como o som formado,
- Como o sopro na avena penetrando
- Em melódicas notas modulado,
- Assim formou-se um murmúrio brando,
- Que subiu, logo após, da ave formosa,
- Pelo canal do colo, se exalando.
- Então em voz tornou-se harmoniosa,
- Que do bico em palavras irrompia:
- Em minha alma insculpiram-se ansiosa.
- — “Na parte atenta, que em mim vê” — dizia —
- “Que até na águia mortal afronta ousada
- O sol, quando rutila ao meio-dia;
- “Porque dos fogos, de que sou formada,
- Aqueles, com que a vista me cintila,
- No céu graduação tem sublimada,
- “Esse, que brilha em meio por poupila,
- Foi o régio cantor do Esp’rito Santo,
- Que a Arca trasladou de vila em vila.
- “Conhece ora a valia de seu canto,
- Qual foi o efeito desse ardente zelo,
- Galardão recebendo tal e tanto.
- “Dos cinco, que o sobrolho me ornam belo,
- Consolou o que ao bico está mais perto
- Viúva em dó do filho, seu desvelo.
- “Quanto custa lhe está bem descoberto
- A Cristo não seguir, pela exp’riência
- Do céu e do penar pungente e certo.
- “E o que está logo após na circunf’rência
- Do sobrolho, onde vês arco superno,
- Morte adiou por vera penitência.
- “Conhece agora que o juízo eterno
- Não muda, se o rogar do arrependido
- Em crástino tornar fato hodierno.
- “A mim e às leis esse outro há transferido
- À Grécia, do Pontífice em proveito:
- Boa intenção mau fruto há produzido.
- “Conhece agora que o maligno efeito
- Dessa obra pia lhe não é nocivo,
- Posto haja o mundo horrendo desproveito.
- “O que vês do sobrolho no declive
- Guilherme é, por quem chora o reino opresso
- De Frederico e Carlo ao mando esquivo.
- “Conhece agora bem com quanto excesso
- Ao Rei justo ama o céu: do seu semblante
- Ainda no fulgor se mostra expresso.
- “Quem crer pudera em vosso mundo errante
- Que entre estas luzes santas quinta seja
- Rifeu Troiano, da justiça amante?
- “Conhece agora que mistério esteja
- Na Graça — aquilo, que inda o mundo ignora —
- Bem que o fundo inefável não lhe veja.” —
- Qual codorniz que os vôos seu demora,
- Paira cantando e cala-se, enlevada
- Nas doçuras finais da voz sonora:
- Tal parece-me a imagem sinalada
- Pelo eterno prazer, que, a seu desejo,
- Faz que seja quanto é cousa criada.
- Posto a dúvida minha neste ensejo,
- Como no vidro a cor, fosse patente,
- Não mais espero a solução, que almejo.
- Cedendo à força do seu peso urgente.
- Prorrompo logo: — Que mistério imenso! —
- Da águia o júbilo fez-se mais fulgente.
- Brilho tendo nos olhos mais intenso
- A sacrossanta forma respondia
- Por não mais ter-me atônito e suspenso:
- — “Bem vejo que tu crês” — assim dizia —
- “Não porque entendas, mas porque assevero:
- Ocultas cousas são, mas fé te guia.
- “És como quem da cousa o nome vero
- Aprende; mas inota fica a essência,
- Se não a explica espírito sincero.
- “Dos céus o reino sofre um violência
- Do ardente amor e da esperança viva,
- Que triunfam da própria Onipotência.
- “Mas não é, qual vitória humana, esquiva:
- Vencido é Deus por ser assim servido;
- Tem, vencido, vitória decisiva.
- “Maravilhado, ao veres, te hás sentido,
- Do meu sobrolho a luz quinta e primeira
- Neste império aos eleitos concedido.
- “Não morreram gentios: crença inteira
- No Redentor futuro ou no já vindo
- Tinham antes da hora derradeira.
- “À vida um, lá do inferno ressurgindo,
- Onde não se corrige o condenado,
- A mercê recebeu anelo infindo,
- “Vivo anelo, que ardor tanto empenhado
- Em suplicar a Deus tal graça havia,
- Que pôde o seu querer ser abalado.
- “Quando voltou à carne e à luz do dia,
- Em que não fez detença a alma ditosa,
- Naquele há crido que a salvar podia;
- “E foi na fé, no amor tão fervorosa,
- Que ao passar nova morte há merecido
- Sublimar-se à existência gloriosa.
- “E do outro, pela Graça protegido,
- Que provém de uma origem tão profunda,
- Que a nascente olho algum não lhe há sabido,
- “Foi no amor à justiça sem segunda:
- De graça em graça a Redenção futura
- Mostrou-lhe Deus revelação jucunda.
- “À fé se entrega; e a sua mente pura
- A perversão gentílica rejeita,
- Do mundo repreendendo a vida impura
- “As damas três que achavam-se à direita,
- Do carro, o seu batismo efetuaram,
- Anos mil precedendo a lei perfeita.
- “Ó predestinação! Não te alcançaram
- A raiz esses olhos, que a primeira
- Cousa jamais ao todo interpretaram.
- “Mortais! Oh! não julgueis tão de carreira!
- Porque nós que Deus vemos não sabemos
- Dos preferidos seus a grei inteira.
- “Esta ignorância por ditosa havemos;
- Que o nosso bem por este bem se afina,
- De ser quanto Deus quer o que queremos.” —
- Por essa imagem de feição divina
- Assim, para aclarar-me a curta vista,
- Dada me foi suave medicina:
- E como a um bom cantor bom citarista
- Acompanha, vibrar fazendo a corda,
- E desta arte mais graça o canto aquista,
- Assim a fala (a mente me recorda)
- Da ave santa os luzeiros dois seguiam
- Como dos olhos o bater concorda,
- Com sua voz igualmente se moviam.